23 Set 2026, Qua

São Francisco de Sales descobre o Cântico dos Cânticos

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Aos dezessete anos, no coração do carnaval parisiense, Francisco de Sales buscava muito mais do que diversões e espetáculos. O jovem estudante, já fascinado pelos autores clássicos, mas interiormente insatisfeito, descobriu o Cântico dos Cânticos nas aulas bíblicas de Gilbert Genebrard. Aquelas páginas lhe revelaram a vida espiritual como uma história de amor entre Deus e a alma, destinada a marcar para sempre a sua oração, as suas escolhas e o seu apostolado. Desde então, a linguagem esponsal do Cântico acompanhou as crises da juventude, a missão no Chablais, a pregação, a direção espiritual e as suas obras maiores. Na Igreja, na alma devota e em Maria, Francisco reconheceu a esposa amada por Cristo e chamada a responder fielmente ao seu amor.

 

 

Era durante o carnaval em Paris. Francisco de Sales tinha 17 anos e era estudante com os jesuítas. Enquanto todos pensavam em se divertir e se distrair, Francisco parecia preocupado, até mesmo triste. Não sabendo se estava doente ou simplesmente melancólico, o seu preceptor propôs-lhe assistir aos espetáculos da festa.

Diante dessa proposta, o jovem formulou subitamente esta oração tirada da Escritura: «Desvia os meus olhos de verem a vaidade». E acrescentou: «Senhor, faze com que eu veja». Ver o quê? «A santa teologia – respondeu –; é ela que me ensinará o que Deus quer que a minha alma aprenda». Até então, ele havia estudado com grande proveito os autores pagãos da antiguidade de que gostava; mas o seu coração não estava satisfeito.

 

Uma descoberta

Com a permissão do seu preceptor, Francisco começou a frequentar as aulas de exegese bíblica do famoso Gilbert Genebrard, um beneditino de Cluny, que comentava o Cântico dos Cânticos. Genebrard transmitiu aos seus ouvintes uma interpretação alegórica e totalmente espiritual que encantou o jovem estudante, a ponto de ele poder exclamar com a Sulamita: «Encontrei Aquele que o meu coração ama».

Para Francisco, afirma o P. André Ravier, foi uma espécie de revelação, e a partir daquele momento «não pôde mais conceber a vida espiritual senão como uma história de amor, a mais bela das histórias de amor».

Os efeitos dessa descoberta não se fizeram esperar. O jovem estudante viveu um período de excepcional fervor. Inscreveu-se na Congregação de Maria, uma associação promovida pelos jesuítas que reunia a elite espiritual dos estudantes dos seus colégios. O seu coração inflamou-se por esse Deus que lhe fazia «saborear tão docemente as suas delícias», que se mostrava a ele «tão amável», a ponto de, pouco depois, repensando naquela experiência, exclamar: «Ó amor, ó caridade, ó beleza a quem dediquei todos os meus afetos!».

Nas Regras de vida cristã que se impôs naquele período, encontra-se o primeiro testemunho escrito da sua devoção ao Cântico dos Cânticos: para aplacar o seu desejo de comunhão eucarística, propunha-se a nunca deixar de «correr ao odor dos perfumes do Senhor». E num manuscrito de filosofia datado do mesmo período, a propósito da verdadeira felicidade do homem, lê-se esta citação do Cântico, testemunho da alegria da sua descoberta, que soa como um lema e um programa de vida: «Tenui illum, neque dimittam», eu o agarrei e nunca mais o deixarei.

Esta forte resolução foi-lhe muito útil durante a terrível crise que o assaltou no final de 1586 ou no início de 1587, dois ou três anos após a sua maravilhosa descoberta. Meditando sobre a questão da predestinação e acreditando-se destinado ao inferno, desesperava-se:

 

Eu, miserável, ah! Serei talvez privado da graça Daquele que me fez saborear tão docemente as suas delícias e que me mostrou tanta benevolência?

 

O que o afligia de modo particular era o pensamento de ser privado da visão da Virgem Maria, que o Cântico lhe havia descrito «bela como a lua e eleita como o sol».

Sabemos que a crise foi resolvida justamente após uma oração a Maria, venerada em Paris com o título de Notre-Dame de Bonne Délivrance (Nossa Senhora do Bom Livramento).

A sua resolução de fidelidade, tomada de empréstimo do texto sagrado, acompanhou-o a Pádua, onde estudou direito de 1588 a 1592, continuando ao mesmo tempo o estudo da teologia. Constatando com grande dor a divisão religiosa e política da Europa, proclamou a sua inabalável fidelidade à Igreja Católica com outra referência ao Cântico: «Não sou a raposa que devasta as vinhas».

Como se pode constatar, não há dúvida de que o Cântico dos Cânticos desempenhou um papel de primeiro plano na formação do jovem Francisco, ao qual forneceu uma inspiração, um encorajamento e um programa de vida.

 

O Cântico nas obras de Francisco de Sales

A partir da sua ordenação sacerdotal em 1593, seguida da missão em Thonon junto aos protestantes calvinistas do Chablais, e sobretudo após a sua consagração episcopal em 1602, a vida de Francisco de Sales confunde-se praticamente com a sua obra.

A meditação do seu livro preferido nunca o abandonou, nem mesmo durante a missão do Chablais nos anos 1594-1598. Num bilhete datado daquele período, foram encontradas estas palavras inflamadas, fruto dos seus colóquios apostólicos e místicos com o Amado, que recordam «o zelo de amor forte como o inferno» do Cântico: «Amor meus furor meus! O meu amor é todo o meu furor. Parece-me, de fato, que o meu zelo se transformou em furor pelo meu Amado». Repetia frequentemente estes pequenos versos inflamados:

 

É o amor ou o furor

que me estimula, ó divino Salvador?

Sim, meu Deus, são ambas as coisas,

Porque eu ardo quando eu quero.

 

No livro das Controvérsias, redigido durante a sua missão no Chablais e publicado inicialmente sob a forma de folhas soltas em 1595-1596, para mostrar aos seus leitores e contraditores que a Igreja Católica é a Igreja querida por Cristo, cita mais de vinte vezes «estes admiráveis cantos e representações pastorais dos amores do Esposo celeste com a Igreja».

Outra obra polêmica, a Defesa do Estandarte da Santa Cruz, publicada em 1600, não contém nenhuma citação explícita, mas é possível que o autor tenha tomado de empréstimo a imagem militar do estandarte do Cântico dos Cânticos, onde se lê, segundo o hebraico: «O estandarte sobre mim é o amor».

A propósito da Introdução à vida devota, publicada em 1609, que contém cerca de trinta citações, o editor beneditino Dom Mackey afirmou com razão que «a esposa do Cântico, modelo de docilidade à guia do Espírito Santo, reaparece a cada momento para ensinar à alma devota as delicadezas do amor sagrado, a fidelidade aos convites da graça».

Não surpreende constatar que o Tratado do Amor de Deus, publicado em 1616 e endereçado a um personagem de nome Teótimo, seja a obra de Francisco de Sales mais rica em referências ao Cântico, a ponto de se poder dizer que esta obra, nos seus doze livros, «é ela mesma, num certo sentido, um comentário ao Cântico dos Cânticos». As citações e as alusões, em número de cerca de 170, abundam sobretudo no livro V, onde o autor trata «dos dois exercícios do amor sagrado que se realizam por complacência e benevolência», bem como nos livros VI e VII dedicados à oração. São mais raras nos livros VIII e IX, onde trata do amor de conformidade à vontade de Deus e do amor de submissão ao seu beneplácito. Tornam-se novamente mais frequentes nos últimos três livros dedicados ao primado do amor na vida espiritual.

A fundação em 1610 do Instituto da Visitação deu um novo impulso ao uso do livro sagrado. O Cântico dos Cânticos era frequentemente o tema das instruções que o fundador fazia às suas filhas espirituais. Não se deve esquecer também que o lançamento do novo Instituto coincidiu mais ou menos com a redação do Tratado do Amor de Deus. Nos Entretenimentos espirituais, que reúnem as suas instruções às primeiras visitandinas, encontram-se cerca de trinta alusões sobre vários assuntos relativos à vida espiritual das religiosas.

Além de todas as outras citações bíblicas, as referências ao Cântico e as simples referências a este livro são muito numerosas nos seus Sermões, onde se contam até 130 nos sermões redigidos pelo seu próprio punho ou simplesmente esboçados sob a forma de esquema ou roteiro, e quase 80 nos sermões destinados às religiosas da Visitação e recolhidos por elas.

Não faltam alusões ao Cântico nem mesmo nos dez volumes das Cartas, que contam cerca de 110. Mas, como se podia esperar, são identificáveis quase exclusivamente nas cartas de direção espiritual.

Nos cinco volumes dos Opúsculos, as citações são distribuídas de modo desigual. Na primeira série, intitulada «Estudos e vida íntima», encontram-se apenas cinco, mas muito significativas porque remontam ao período da formação de Francisco, e apenas uma na série «Apostolado». Não surpreende encontrar poucas referências ao Cântico na série de escritos polêmicos e nos textos normativos do bispo de Genebra. No volume dedicado à Visitação e às normas que a regulam, contam-se 9 citações importantes. As referências mais numerosas encontram-se no último volume intitulado «Ascetismo e mística».

Para o nosso trabalho, a análise das citações do Cântico rastreáveis nas obras de São Francisco de Sales é uma passagem obrigatória, porque nos introduz concretamente no seu universo mental e espiritual, mas não pode ser suficiente. Será depois necessário chegar à interpretação salesiana do Cântico, que consistirá essencialmente em identificar e apresentar os personagens do Cântico escolhidos pelo intérprete.

 

Interpretação do Cântico dos Cânticos

Para a maioria dos comentadores modernos, o Cântico era na origem uma série de poesias que celebravam simplesmente o amor humano, «o canto mais belo da criação», com toda a sua sensualidade. Segundo alguns, um editor os teria reunido conferindo-lhes um tom sapiencial e um possível significado alegórico, como o amor entre o Deus de Israel e o seu povo eleito de que falam os profetas, em particular Oseias e Ezequiel. Alguns exegetas contemporâneos consideram-no efetivamente um poema sobre o amor humano, não alegórico, mas dotado de significados simbólicos, possivelmente aberto à dimensão teológica.

Fiel à tradição cristã, o bispo de Genebra atribui o livro a Salomão. No seu Tratado do Amor de Deus, Salomão representa «o Salvador», isto é, Jesus Cristo, que ele chama «pacífico ou pacificador Salomão», enquanto a Sulamita é a amada, «tranquila e filha da paz».

A explicação espiritual que dá é aquela que estava em uso praticamente desde os tempos de Orígenes no século III. Para ele, o Cântico dos Cânticos é uma celebração do amor de Deus, fonte e modelo de qualquer outro amor.

Em linha com a interpretação judaica tradicional, que lia no Cântico a história das relações de amor entre Deus e Israel, os Padres da Igreja viam nele as relações de Deus ou de Cristo com a Igreja. O Cântico dos Cânticos, afirmava Francisco de Sales depois de muitos outros, é «o epitalâmio da Igreja e de Cristo». Muito frequentemente, no entanto, são as relações entre Deus Salvador e a alma individual que ocupam nele o primeiro plano. É esta a interpretação que adotou no seu Tratado do Amor de Deus, onde declara:

 

O grande Salomão descreve de modo deliciosamente admirável o amor do Salvador e da alma devota, naquela obra divina que pela sua excelente doçura é chamada Cântico dos Cânticos. E para nos elevar mais docemente à consideração deste amor espiritual que se exerce entre Deus e nós, através da correspondência dos movimentos dos nossos corações com as inspirações da sua divina Majestade, ele recorre a uma representação perpétua dos amores de um casto pastor e de uma pudica pastora.

 

Frequentemente, como poderemos constatar, encontraremos também a interpretação mariana, que havia ganhado espaço no Ocidente durante a Idade Média, em particular com Ruperto de Deutz. Mesmo sendo a mãe de Jesus, Maria foi frequentemente considerada no plano espiritual como a nova Eva ao lado do novo Adão, e portanto como a amada pelo seu amor sem par por Cristo.

Todas estas diversas interpretações – coletiva, individual e mariana – estão presentes no pensamento e nos escritos de São Francisco de Sales. Caberá a nós mostrar o uso que ele fez delas e colocar em evidência, tanto quanto possível, a originalidade da sua leitura e da sua interpretação.

 

O Cântico na vida de São Francisco de Sales

Graças às suas citações do Cântico, talvez sejamos capazes de penetrar um pouco mais fundo na alma de São Francisco de Sales. Estudando as cerca de setecentas citações, alusões e referências ao Cântico dos Cânticos, podemos intuir algo da sua vida íntima com Deus.

A alma de Francisco de Sales, poder-se-ia dizer, era a alma da esposa do Cântico. Não é certamente arbitrário afirmar que a espiritualidade que ele extraiu deste livro bíblico e que propôs por toda a vida aos seus fiéis, aos seus correspondentes e às suas filhas da Visitação, foi primeiro vivida e praticada por ele mesmo.

Trata-se de uma espiritualidade que podemos definir como «esponsal», no sentido de que é inteiramente centrada no amor do Esposo pela esposa e da esposa pelo Esposo. O próprio São Francisco de Sales experimentou o que ensinava aos outros, ou seja, que a alma humana é chamada a entrar cada vez mais na aliança com o seu Deus e com Jesus Cristo, seu Salvador.

Após uma procissão de Corpus Christi, durante a qual havia levado o Santíssimo Sacramento através da cidade de Annecy, confessava a Santa Joana Francisca de Chantal ter sido «tocado» por estas palavras da esposa: «O meu Amado é todo meu, e eu sou toda sua; ele repousa entre os meus seios», e por estas outras do Esposo: «Põe-me como um selo sobre o teu coração», antes de concluir com esta exclamação: «Existe uma doçura comparável a esta?».

Nada vale de fato a doçura e a força deste Nome que Francisco de Sales não cessa de saborear repetindo uma exclamação a ele cara: «Viva Jesus!». Outra vez contou à sua confidente habitual: «Esta manhã, ao acordar, gritei aos nossos ouvidos: Viva Jesus! e teria querido espalhar este óleo sagrado sobre toda a face da terra».

A beleza do Amado, sinal e testemunho do seu amor, a sua voz que encanta a sua esposa e toda a sua pessoa o atraem ao máximo, tanto que a sua felicidade é a de «correr» atrás dele, mesmo quando lhe propõe penas, cruzes e espinhos.

A beleza da alma – e disto Francisco de Sales está bem convencido – não se deve a si mesma, mas ao amor recebido do Amado que fez tudo por ela. O que há de surpreendente então se este amor a deixa doente daquela doença de amor de que Francisco parece falar por experiência, vendo-se também ele incapaz de amá-la como quereria e impossibilitado de louvá-la como quereria e deveria?

Ao amor esponsal da alma de Francisco pelo seu Esposo deve ser acrescentado outro elemento da sua vida espiritual: o seu amor pela Igreja. O Cântico, segundo uma interpretação que ele herda, lembrou-lhe que a Igreja é a verdadeira esposa de Jesus Cristo, única pomba, santa e fecunda; daí a sua espiritualidade eclesial, fundada na sua fé católica e na sua responsabilidade episcopal.

Se a Igreja Católica é verdadeiramente a Igreja querida por Cristo, apesar dos pecados dos seus membros, merece um amor ardente e ciumento como o do Esposo pela sua esposa. O apóstolo do Chablais, tornado bispo de Genebra, defende-a com todas as suas forças e com a máxima doçura possível, mas sobretudo mostra-a cheia de amor pelo Esposo que a escolheu e que continua a santificá-la. O Cântico lembrou-lhe também que esta esposa precisava de uma companhia de valorosos guardiões e ele sabe que faz parte dela na qualidade de pastor da Igreja.

Quanto ao seu afeto pela Mãe do Salvador, ele transparece nos seus vários comentários ao Cântico. É o último aspecto, e não menos importante, da vida espiritual de Francisco. Maria é para ele a esposa perfeita, o trono real do novo Salomão, a obra-prima da Redenção, toda unida ao Filho e apoiada nele. Ela é o próprio amor e este amor não fez senão crescer no curso da sua existência como a aurora que avança até o pleno dia, a ponto de no fim ter morrido dele. Do céu, para onde subiu com o corpo e a alma, obtém-nos tantas graças com a sua oração.

 

P. Wirth MORAND

Salesiano de Dom Bosco, professor universitário, estudioso bíblico e historiador salesiano, membro emérito do Centro de Estudos Dom Bosco, autor de vários livros.