20 Abr 2026, Seg

Dom Bosco na casa de Nino Baglieri: a voz do santo dos jovens continua a falar

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No mês passado, a casa do Servo de Deus Nino Baglieri, em Módica, acolheu as insignes relíquias de São João Bosco – precisamente a língua e a laringe do santo dos jovens – como um sinal vivo de um carisma que não conhece ocaso. Um gesto profundamente simbólico: a voz de Dom Bosco que volta a ressoar entre as paredes de quem, como Nino, transformou o sofrimento em missão e testemunho. Não é a primeira vez que esta casa se torna um santuário de fé salesiana: já em 2004, a urna de São Domingos Sávio esteve ali, e em 2013, a do próprio Dom Bosco. Três encontros, três etapas de um caminho de santidade popular que une o fundador dos Salesianos a um de seus filhos espirituais do Sul da Itália.

 

 

No último dia 2 de fevereiro de 2026, a casa do Servo de Deus Nino Baglieri (1951-2007), em Módica (Ragusa), acolheu as insignes relíquias de São João Bosco. Nino era um jovem como tantos outros, com muitos “sonhos na gaveta” e grandes expectativas de vida. Aos 17 anos, sua vida tomou um rumo irreversível e inesperado: durante um dia normal de trabalho como pedreiro, ele caiu de um andaime de 17 metros e, em poucos segundos, tudo mudou: seu corpo viril perdeu a vitalidade, reduzindo-se a um “nada”. Essa desgraça, porém, nos planos de Deus, tinha um significado diferente: um chamado que Nino compreenderia após dez longos anos de escuridão, tristeza e blasfêmias. O sol da vida raiou para Nino em 24 de março de 1978, quando o Espírito Santo, graças à oração de um grupo de jovens da Renovação no Espírito Santo e pela imposição das mãos do P. Aldo Módica, queimou o homem velho e abriu seu coração à graça da Palavra de Deus. A partir daquele momento, Nino teve sede de Deus: queria conhecê-lo, testemunhá-lo, fez disso sua missão de vida, queria trabalhar com Dom Bosco e entrou para a grande Família Salesiana, primeiro como Cooperador Salesiano (3º ramo da Família Salesiana, fundado em Turim pelo próprio Dom Bosco em 9 de maio de 1876) e, posteriormente, como Voluntário com Dom Bosco (17º ramo da Família Salesiana, fundado pelo P. Egídio Viganò em 12 de setembro de 1994).

Através das relíquias da língua e da laringe do santo dos jovens, busca-se manter viva e atual a obra de evangelização com o carisma do “Da mihi animas, cetera tolle” (Dai-me almas, ficai com o resto). O lema inspira-se no relato bíblico de Gênesis 14,21 e expressa a missão do santo: dedicar-se inteiramente à salvação espiritual dos jovens, negligenciando as riquezas materiais ou pessoais. As relíquias da língua e da laringe de Dom Bosco são sinais humildes, mas eloquentes para os jovens: lembram um homem que doou sua voz, sua palavra, sua respiração, o anúncio, o conselho, a repreensão e o carinho de um pai.

 

Dom Bosco presente com as relíquias da língua e da laringe

As relíquias nos lembram que Dom Bosco não salvou os jovens com milagres espetaculares, mas com palavras cotidianas ditas com amor, paciência e fé. A língua de Dom Bosco pronunciou milhares de boas palavras: aquelas que mudam a vida. Quantas palavrinhas ao pé do ouvido dos jovens! Ele confessou, pregou, aconselhou, ouviu, rezou…

Ainda hoje, a voz de Dom Bosco nos diz: “Deus vos ama, vos quer felizes, vos chama à santidade”.

Lemos na Estreia do Reitor-Mor de 2026: “Não devemos ter medo nem vergonha: incentivemos, em nível pessoal e comunitário, a ousadia da fé. Não se trata de uma postura que desafia o mundo, muito menos de um fundamentalismo sem sentido. A ousadia da fé é uma confirmação de que queremos levar a sério o chamado para ser cooperadores no projeto de Deus para os jovens”. Dom Bosco fez sua essa ousadia, viveu-a a ponto de dizer: “Nas coisas que são de vantagem à juventude em perigo ou servem para ganhar almas para Deus, eu corro adiante até a temeridade”.

 

Na casa de Nino Baglieri, também a urna de Domingos Sávio

A casa de Nino já havia sido hospitaleira com relíquias de santos salesianos anteriormente. Foi no dia 18 de março de 2004, por ocasião do 50º aniversário da canonização de São Domingos Sávio. O então Reitor-Mor dos Salesianos, P. Pascual Chávez Villanueva, decidiu fazer a urna com os restos mortais de Domingos peregrinar por toda a Itália e além.

Domingos era representado na imagem com os braços estendidos para o céu, com os olhos abertos para contemplar a luz do Senhor. “Oh! que coisa linda eu vejo!”, foram suas últimas palavras antes de morrer, em 9 de março de 1857, enquanto vislumbrava a beleza do paraíso.

Na época, Nino, por motivos de saúde, não saía de casa: o catarro e as feridas o impediam. Tinha, porém, no coração um grande desejo de vê-lo e agradecer-lhe pelo que Domingos Sávio havia feito por ele. Nino era muito ligado ao jovem santo salesiano, compartilhando a data de 6 de maio, memória litúrgica em que honramos o santo dos berços e aniversário da cruz, como Nino a definia após ter aceitado, naquela data, o que lhe acontecera aos 17 anos ao cair de um andaime e ficar tetraplégico. Deixemos que o próprio Nino fale através de seus escritos feitos com a boca: “Depois de ter estado na Igreja de Santa Maria de Belém, em Módica, a urna foi acolhida pelo Bispo, por todos os Sacerdotes da cidade e por uma multidão vinda de toda a Diocese, e eu tive a grande alegria de ter São Domingos Sávio dentro do meu quartinho. Quanta gente veio! Primeiro, fizeram a acolhida no pátio dos Salesianos e depois muitos jovens empurraram a Urna Sagrada, pesando 400 kg, até a minha casa, liderados pelo Inspetor P. Perrelli, Irmãs e Salesianos. Foi uma grande emoção. O P. Perrelli disse que, de todas as catedrais que São Domingos Sávio visitou, esta é a mais bela. Falei por um quarto de hora, toquei os corações de todos, foi uma forte emoção, havia um silêncio e todos os olhares estavam em mim e em Domingos Sávio. Dava para ver todo o seu corpo e, por baixo, estavam Seus ossos. A Urna tem a forma de um diamante, explicou-me o Inspetor, para conter esta gema preciosa, que é Domingos Sávio. Entrou pela porta na medida certa, os rapazes estavam cansados, mas felizes porque tinham feito tudo com muito amor. […] Naquela ocasião, também entreguei meu pedido de profissão perpétua ao Inspetor e foi uma grande alegria. Senhor, ajuda-me a dizer-te sempre «Sim», especialmente nos momentos difíceis, faze com que eu possa imitar São Domingos Sávio”.

Domingos Sávio, como nos disse o próprio Dom Bosco, “era de carne e osso como nós, tinha as mesmas más inclinações como todos nós, foi educado no oratório, estudava e ia à escola como vocês, brincava e se divertia como todos vocês, só era um pouco melhor e nos deixou um exemplo”.

 

Na casa de Nino Baglieri, também a urna de Dom Bosco por ocasião do bicentenário de seu nascimento

A outra ocasião de acolher as relíquias de Dom Bosco na casa de Nino Baglieri foi em 4 de novembro de 2013. Por ocasião do bicentenário do nascimento do santo dos jovens, seus restos mortais deram a volta ao mundo. A urna, com 530 kg, guardava uma efígie de Dom Bosco semelhante à conservada na Basílica de Maria Auxiliadora. Dentro da efígie, do lado do coração, há um relicário selado com uma relíquia da mão de Dom Bosco, aquela mão que ainda guia tantos jovens no caminho certo.

Nino, naquela ocasião, já não estava vivo, mas a parada foi fortemente desejada como sinal do testemunho de um homem de fé que fez de seu sofrimento um altar e uma oblação ao Evangelho vivido em sua totalidade. O sofrimento, como uma “doce esposa”, foi o companheiro de uma vida; muitas pessoas iam à casa de Nino para consolá-lo, mas saíam consoladas não pelos grandes discursos que ouviam, mas pela simplicidade de viver cada dia a vida em plenitude em sua condição de doença e sofrimento. Assim, Nino, apesar de suas limitações físicas, atravessou muitas “portas”, porque estava ciente da mensagem preciosa que devia divulgar de todas as formas e com todos os meios. Não se poupou até o último suspiro; de fato, pouco mais de um mês (janeiro de 2007) antes do fim de sua peregrinação terrena, foi a Roma, com seu cunhado Paulo, em estado crítico de saúde, para dar seu testemunho de fé aos que participavam das Jornadas de Espiritualidade Salesiana. Nino escreve: “Eu estava cansado, emocionado, mas feliz por estar lá e por falar do amor de Deus e do que Ele havia operado em minha vida, ao mundo Salesiano […] Senti-me como Pedro e Paulo quando foram chamados a Roma para testemunhar Cristo com suas Vidas, e eu o testemunhei com a minha Cruz”. O Reitor-Mor, P. Pascual Chávez, disse: “Seu testemunho foi ouvido com máxima atenção: mesmo que você não falasse, sua presença bastava para nos fazer refletir sobre o dom da Vida e o quanto lhe custou vir. Você deixou uma marca no coração de todos”. Como sinal de reconhecimento, ele tirou o distintivo de Dom Bosco que usava no paletó e o colocou no peito de Nino.

O desejo de se tornar santo habitava em seu coração e era diariamente alimentado pela santa Eucaristia, recebida em casa através do ministro da comunhão, e por seu sofrimento, oferecido como oblação, como experiência do amor de Deus. Nessa direção, ecoam as palavras do Papa Francisco para não termos medo da santidade: ela não é reservada a poucos íntimos. Um convite que encontramos como o principal ponto de partida que forma o pano de fundo da exortação apostólica “Gaudete et Exsultate” (c. 1, p. 7). Escreve o Papa: “Gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir”.

            Essa mesma santidade o Servo de Deus Nino Baglieri quis encarnar, fazendo suas as palavras de Dom Bosco: “Se ele era assim, se ele conseguiu se tornar santo, por que nós também não podemos ser?”.

 

Através de suas relíquias, Dom Bosco continua a falar e nos convida a percorrer o caminho da santidade, aberto a todos os que queiram ouvi-lo.

 

 

Roberto Chiaramonte

Editor BSOL

Editor do Website.