Tempo de leitura: 12 min.
A espiritualidade cristã é frequentemente percebida como um patrimônio exclusivo de almas privilegiadas, distante da vida concreta de quem habita o mundo. São Francisco de Sales inverte essa visão com uma proposta radical: Deus não se encontra em um além ideal, mas no coração pulsante da existência ordinária. Bispo, diretor espiritual e escritor do século XVII, Francisco de Sales elaborou um caminho de santidade acessível a todos – ao comerciante, à esposa, ao soldado, ao camponês – sem exigir o abandono do próprio estado de vida. O texto a seguir explora os pilares dessa espiritualidade do cotidiano: a aceitação amorosa da própria condição, o exercício concreto das virtudes, o encontro com Deus nos acontecimentos de cada dia e a transfiguração do ordinário através da caridade.
Deus me manifesta sua vontade e seu amor na e através da vida de cada dia, a qual constitui, portanto, o lugar providencial onde posso encontrá-lo. O homem é continuamente tentado a procurá-lo em outro lugar, em outra época ou em uma condição de vida diferente da sua, enquanto Deus está presente na vida de cada um. Pensa-se talvez espontaneamente que a vida espiritual seja reservada a uma elite e esteja contida em livros obviamente incompreensíveis para os mortais comuns.
Francisco de Sales propõe uma espiritualidade da “vida ordinária”, do cotidiano. Ele afirma isso explicitamente no prefácio da Filoteia: minha intenção – escrevia – é instruir aqueles que “pela sua condição são obrigados a viver exteriormente uma vida ordinária”. Externamente, nada parece distingui-los dos outros; interiormente, o fogo do amor os inflama. Se Francisco de Sales escolheu como padroeira de sua congregação Nossa Senhora da Visitação, é porque “a mui gloriosa Virgem fez este solene ato de caridade para com o próximo ao visitar e servir Santa Isabel no período laborioso de sua gravidez e, apesar disso, compôs o cântico do Magnificat, o mais doce, o mais elevado, o mais espiritual e mais contemplativo que já foi escrito”.
É preciso florescer onde Deus nos plantou
Esta sentença, atribuída a Francisco de Sales, define sem dúvida um dos traços fundamentais desta espiritualidade. Ela consiste, em primeiro lugar, em amar francamente o próprio estado de vida. O motivo é claro:
Se somos santos segundo a nossa vontade, nunca seremos santos como se deve; devemos sê-lo segundo a vontade de Deus. Ora, a vontade de Deus é que, por amor a Ele, ameis francamente os deveres do vosso estado de vida.
Aqui se toca com o dedo o realismo espiritual de Francisco de Sales, que não teme nada tanto quanto a multiplicação de desejos infrutíferos. É preciso servir a Deus – dizia a uma jovem noviça sedenta de perfeição imediata – “segundo o estilo humano, próprio do tempo, esperando poder fazê-lo um dia de modo divino ou angélico, segundo o estilo próprio da eternidade”.
“É bom desejar muito, mas é preciso também pôr ordem nos desejos e transformá-los em obras à medida que se apresenta o momento certo e a possibilidade. […] A obra executada, mesmo que muito limitada, é sempre mais útil que os grandes desejos de coisas fora de nossas possibilidades. Deus nos pede mais a fidelidade às pequenas coisas do que o ardor pelas grandes que não dependem de nós”.
Ele dizia também: “Nós perdemos frequentemente tanto tempo tentando ser bons anjos, enquanto negligenciamos ser bons homens ou boas mulheres”.
É necessário, portanto, aprender a nos comprazer em estar onde estamos. Francisco de Sales, totalmente relutante em se tornar bispo, aprendia a cada dia a amar o que Deus havia querido dele. Joana de Chantal teve que aprender a amar sua condição de viúva, porque Deus permitiu que isso acontecesse.
Uma de suas sentenças habituais soa assim: “Não se deve desejar chegar à perfeição de uma só vez; é preciso percorrer o caminho comum e ordinário, que é o mais seguro”. Não somente todos são chamados à perfeição da caridade, na qual consiste a santidade, mas a perfeição é acessível a todos. A conclusão de Francisco de Sales é peremptória: “Onde quer que vivamos, podemos e devemos aspirar à vida perfeita”.
O exercício das virtudes
Até aqui, esta espiritualidade parece bastante passiva: deve-se aceitar a vida como ela se apresenta, porque é a nossa realidade, e esforçar-se para amá-la como uma manifestação da vontade de Deus e de seu amor por nós. Mas este é apenas o ponto de partida. Trata-se de manter uma atitude positiva de intervenção, que Francisco de Sales chama de “o exercício das virtudes”.
Depois de reconhecer e aceitar o momento presente e o lugar providencial onde Deus “nos plantou”, deve-se “florescer” e produzir frutos; sempre, porém, levando em conta a situação concreta e a vocação de cada um. O texto clássico que define o tipo de santidade ao qual todos são chamados merece ser citado:
Na criação, Deus ordenou às plantas que dessem fruto, cada uma segundo o seu gênero: do mesmo modo, ordena aos cristãos, que são as plantas vivas de sua Igreja, que deem frutos de devoção, cada um segundo sua qualidade e sua profissão.
Na vida cristã, tudo é fruto da graça do Espírito Santo, mas o dom da graça requer a colaboração ativa do homem. A aquisição das virtudes exige, de qualquer modo, uma boa dose de esforço, de coragem, de constância e de generosidade. Trata-se aqui de um verdadeiro exercício (é o sentido da palavra ascese) que se realiza em um clima de serenidade e de confiança em Deus. “Temei mais os vícios do que amais as virtudes”, escrevia a uma mulher casada, impaciente e escrupulosa.
Mais uma vez, ele especifica que as virtudes devem ser praticadas segundo a vocação de cada um e que “é preciso observar os mandamentos particulares que cada um tem por causa de sua vocação”.
Os bispos têm como lei visitar o rebanho a eles confiado, instruí-lo, corrigi-lo e consolá-lo; e eu posso permanecer em oração por toda a semana, jejuar por toda a vida, mas, se não faço isso, me perco. Uma pessoa casada pode fazer milagres, mas, se não cumpre as obrigações que tem para com o cônjuge e não cuida dos filhos, é pior que um infiel, como diz São Paulo. E assim se diga de todos os outros.
Mas para não sair do caminho invertendo as prioridades, é preciso saber que existe uma hierarquia nas virtudes. Para Francisco de Sales, e isso é indubitável, o primeiro lugar pertence ao amor, enquanto as outras virtudes o acompanham ou o seguem:
A abelha-rainha não parte para os campos senão quando é acompanhada por todo o seu pequeno povo; do mesmo modo, a caridade nunca entra em um coração sem trazer consigo todo o séquito das outras virtudes, que ela alinha e treina como um capitão faz com seus soldados.
As outras virtudes, em particular a doçura, dependem da caridade; elas são suas manifestações e realizações concretas, ou ainda meios para adquiri-la, tanto é verdade que somente a caridade “nos faz chegar à perfeição”. Existem, contudo, virtudes de uso tão universal que exigem que se faça continuamente uma boa provisão delas. Não são as virtudes dos anjos, mas sim as de homens e mulheres de carne e osso:
Se a Deus aprouver nos elevar até as perfeições angélicas, seremos também bons anjos, mas, enquanto isso, exercitemo-nos com simplicidade, humildade e devoção naquelas pequenas virtudes cuja conquista foi posta ao nosso alcance por Nosso Senhor, como a paciência, a bondade, a mortificação do coração, a humildade, a obediência, a castidade, a ternura para com o próximo, a suportação de suas imperfeições, a diligência e o santo fervor.
Há ainda outras listas de virtudes, nas quais figuram, por exemplo, a temperança, a honestidade, a coragem, a simplicidade, a modéstia, a cordialidade e a afabilidade. Além disso, são destacadas algumas atitudes espirituais, muito apreciadas por Francisco de Sales, que, porém, deveriam ser consideradas mais como frutos das virtudes, ou melhor, do Espírito Santo, como a alegria, a paz, a confiança e o abandono em Deus.
O que se tornam, neste quadro de virtudes, os tradicionais exercícios ascéticos? Não são abolidos, mas a ênfase é deslocada. Assim, o autor da Filoteia recomenda o trabalho em vez do jejum, a moderação nos prazeres em vez da abstenção. Em vez de escolher sempre o pior a título de penitência, é melhor abster-se de escolher:
Creio que é uma virtude maior comer sem escolher o que vos põem à frente, e na ordem em que vo-lo põem, seja ou não do vosso gosto, do que escolher sempre o pior. Porque, embora este segundo modo de viver pareça mais austero, o outro comporta, contudo, uma maior resignação, porque neste caso não se renuncia apenas ao próprio gosto, mas também à própria escolha; e depois, não é austeridade pequena subverter os próprios gostos e fazê-los depender do acaso; além disso, este tipo de mortificação não aparece, não incomoda ninguém e é feito sob medida para a vida em sociedade.
Encontrar Deus nos acontecimentos de cada dia
A vida espiritual delineada por Francisco de Sales não é feita “apenas para enfrentar eventos extraordinários, mas principalmente para viver em meio às coisas insignificantes de todos os dias”. É no meio do mais banal cotidiano que pode ocorrer o encontro com Deus. A pastorinha Raquel dava de beber ao seu rebanho no poço, levava suas ovelhas para pastar todos os dias, tirava água do poço todos os dias, e foi no meio dessas suas ações cotidianas que encontrou seu esposo.
Se há um ponto importante na espiritualidade salesiana, este é a “santa indiferença”, sintetizada na fórmula: “Nada pedir, nada recusar”. O autor parte do princípio segundo o qual tudo o que acontece na vida (exceto o pecado) é querido por Deus ou, pelo menos, por ele permitido. Consequentemente, aquele que ama verdadeiramente a Deus se prepara para acolher todo acontecimento, qualquer que seja, com uma “simples disposição”, como se viesse do “beneplácito divino”.
Deus se faz conhecer no acontecimento, seja enviando-o, seja simplesmente permitindo-o. Uma vez ocorrido, a pessoa permanece serena e o aceita. Esta é uma atitude passiva de resignação que parece um pouco inquietante, tanto mais que o vocabulário do “beneplácito” remete demais ao absolutismo do príncipe terreno. No entanto, é preciso ter em mente que a vontade de se dispor, de esperar, de se preparar comporta também um aspecto ativo a não ser negligenciado. É uma disposição da vontade entre as mais recomendadas por Francisco de Sales. É fundada, como se disse, na confiança na Providência, sem a qual nada acontece neste mundo. Mas pode ser considerada também uma virtude humana que contribui grandemente para manter um humor constante, sobretudo nos momentos difíceis da vida. A indiferença, ensinava Francisco de Sales às visitandinas, é uma virtude que não se adquire em cinco anos, “são necessários dez”.
A propósito da passividade e da santa indiferença, que se torna uma extrema indiferença da vontade em relação ao que acontecerá, o bispo de Genebra esclarece as coisas, tomando o exemplo da doença. “Quando estiverdes doente” – recomenda a Filoteia –, “obedecei ao médico, tomai os remédios, os alimentos ou outros tratamentos por amor a Deus”. Depois acrescenta: “Desejai curar-vos, para servi-lo; mas não recuseis sofrer, para obedecer-lhe, e preparai-vos até para morrer, se lhe apraz, para louvá-lo e gozar dele”.
Acolher o acontecimento será tanto mais fácil quanto mais se estiver persuadido, com São Paulo, de que “tudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus”. Diz tudo, ou seja, não somente as alegrias e as consolações, mas também as provações, as tribulações e os males desta vida, inclusive os pecados. “Sim, até mesmo os pecados, dos quais Deus nos preserve por sua bondade, são orientados pela Providência divina para o bem daqueles que lhe pertencem”.
Unir oração e vida
Quando aborda o tema da oração, o autor da Introdução à Vida Devota se empenha antes de tudo em convencer Filoteia de que se trata de uma necessidade vital. Seguindo a distinção clássica, Francisco de Sales considera três tipos de oração: vocal, mental e vital.
Ele aprecia e recomenda a oração vocal ou exterior, seja ela litúrgica, comunitária ou pessoal. Mas a qualidade de tal oração deriva do íntimo, do coração do orante: “Um único Pai-Nosso, dito com sentimento, vale mais do que muitos recitados às pressas”.
O bispo de Genebra apreciava sobretudo a oração mental, que recomendava a todos, inclusive aos fiéis leigos. Ela é preferível porque efetivamente dá prioridade ao interior sobre o exterior. Sua qualidade depende do amor, porque a oração vale tanto quanto o amor com que é feita. Esta oração mental, que ele também chama de cordial, tem duas formas: a meditação e a contemplação. Ambas alimentam a vida espiritual, como o comer e o beber mantêm a vida do corpo: “meditar quer dizer comer, e contemplar quer dizer beber”.
Se a oração mental exige reservar um certo tempo do dia para este exercício particular, existe, contudo, uma terceira forma de oração, muito mais próxima da vida e compatível com todo tipo de ocupação. É a oração vital, que se poderia também chamar de oração vivida ou simplesmente união com Deus. As ocupações não deveriam de modo algum impedir a união com Deus, e aqueles que praticam esta forma de oração não correm o perigo de se esquecerem de Deus, não mais do que os apaixonados correm o risco de se esquecerem um do outro:
Os apaixonados por um amor humano e natural têm quase sempre todos os pensamentos fixos no objeto amado, o coração cheio de arrebatamento por ele, a boca transbordante de seus louvores e não perdem ocasião, em sua ausência, de testemunhar suas paixões com cartas, nem deixam passar árvore sem gravar em sua casca o nome de quem amam.
Em meio às atividades diárias de quem vive “pressionado pelas coisas temporais”, é sempre possível encontrar um momento de solidão para unir o coração a Deus:
Lembrai-vos de vos retirardes sempre, ó Filoteia, na solidão do vosso coração, enquanto com o corpo estais no meio das conversas e dos afazeres; esta solidão da mente não pode ser minimamente impedida nem mesmo pela multidão daqueles que vos cercam, porque não estão ao redor do vosso coração, mas somente do vosso corpo, de modo que o vosso coração permanece totalmente só na presença de Deus só.
Assim, a verdadeira oração não faz negligenciar as obrigações da vida de cada dia, contanto que se imite a mulher forte da Bíblia, de quem se diz que “usou suas mãos em grandes empreendimentos, e seus dedos manejaram o fuso”. Daí suas recomendações à baronesa de Chantal, talvez mal aconselhada no início de sua vida espiritual: “Meditai, elevai vosso espírito, levai-o a Deus, ou melhor, atraí Deus ao vosso espírito: eis as coisas vigorosas. Ao mesmo tempo, porém, não vos esqueçais da roca e do fuso: fiai o fio das pequenas virtudes e rebaixai-vos na prática dos exercícios de caridade. Quem ensina o contrário, engana e se deixa enganar”.
De qualquer modo, isso não será de todo fácil. Unir a oração à vida, comportar-se no viver como se comporta no rezar, chegar a realizar a união do coração e da vida, tudo isso não se adquire por encanto. Será preciso ter muito cuidado para não perder o equilíbrio interior, necessário para avançar sem tropeçar nos obstáculos. Façamos como os funâmbulos e os equilibristas: “Aqueles que caminham na corda bamba seguram sempre na mão o bastão de contrapeso, para equilibrar com exatidão o corpo, segundo os movimentos que devem fazer sobre uma base tão perigosa”. Comparando a cruz de Cristo ao bastão de contrapeso que garante o equilíbrio, Francisco de Sales lembra que a vida de cada dia é cheia de ocasiões perigosas e que necessita de uma salvaguarda.
O cotidiano transfigurado
A vida cotidiana é marcada por momentos, mas “nestes momentos de nossa vida está contido, como em um caroço, o germe da eternidade”. O relógio nos oferece a medida quantitativa do tempo, mas sua qualidade depende de nós. Se quisermos, nós “podemos passar todos os nossos anos, nossos meses, nossos dias e nossas horas, tornando-os santos mediante um uso bom e fiel”.
Ao lado de “grandes obras”, o autor da Filoteia tenta nos persuadir de que é importante levar em consideração as atividades “menores e mais humildes”: “as pequenas injúrias, estes pequenos incômodos, estas perdas pouco importantes que acontecem todos os dias”, as “pequenas ocasiões”, os “cotidianos pequenos gestos de caridade”, “estes pequenos desconfortos”, “esta pequena humilhação”, “estes pequenos sofrimentos”. Ora, tudo isso, todas “estas ocasiões que se apresentam a cada passo, são uma ótima maneira, sabendo usá-las bem, de acumular muitas riquezas espirituais”. O menor desses momentos pode adquirir um valor extraordinário, se for vivido com amor.
Acontece frequentemente que uma pessoa fraca de corpo e de espírito, que se exercita apenas em pequenas coisas, as faça com tanta caridade que supera em muito o mérito das ações grandes e elevadas; de fato, habitualmente, as ações elevadas são realizadas com menos caridade, por causa da atenção e das várias considerações que se fazem sobre elas.
Durante o último Colóquio com as irmãs da Visitação de Lyon, dois dias antes de morrer, ele repetirá sua lição preferida: “Não é o acúmulo de obras que fazemos que nos torna agradáveis a Deus, mas o amor com que as realizamos”. Não é nem mesmo pela grandeza de nossas ações que agradamos a Deus: “Uma irmã que em sua cela se ocupa de um pequeno trabalho, adquirirá maior mérito do que outra ocupada em assuntos importantes, realizados, porém, com menor amor. A perfeição de nossas ações é dada pelo amor”.
A vida contemplativa é melhor, em si, do que a vida ativa, mas “se na vida ativa se alcança uma união mais íntima [com Deus], ela é melhor”. Por isso, “se uma irmã que trabalha na cozinha e maneja a caçarola perto do fogo, faz tudo isso com maior amor e caridade do que outra, o fogo material não a distrairá, pelo contrário, a ajudará a ser mais agradável a Deus”. A solidão com Deus é boa, mas acontece frequentemente “que se esteja unido a Deus tanto na ação, quanto na solidão”.
O amor é o segredo da alquimia salesiana a ponto de que aquilo que nos aflige pode revestir-se de um valor extraordinário graças à união de nossa vontade com o beneplácito de Deus.

