26 Mai 2026, Ter

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“As Filoteias são filantrópicas”, escrevia Francisco de Sales, querendo com isso demonstrar que não havia nenhuma contradição entre os dois termos. O amor de Deus é inseparável do amor do homem e existe uma estreita correspondência entre os dois amores; de fato, “onde quer que floresça o amor de Deus, também o amor ao próximo floresce”. Além disso, o crescimento de um não pode ocorrer sem o crescimento do outro: “São dois amores que não podem andar um sem o outro, e quanto mais amamos a Deus, mais amaremos também o próximo”.

 

Por que amar o próximo?

Os dois mandamentos do amor a Deus e do amor ao próximo são semelhantes, apesar da distância que separa o infinito do finito, o imortal do mortal, o céu da terra; isso em virtude do fato de que o homem é feito à imagem e semelhança de Deus. Todos podemos constatar que somos “a imagem uns dos outros”, porque todos trazemos em nós a imagem do Criador.

Outra razão é extraída do mistério da Encarnação, isto é, da vida e da paixão de Cristo. Em um valioso capítulo do Teótimo, o autor expõe em forma de “lista” ou “resumo” as doze propriedades do amor mediante o qual Jesus manifestou “a benignidade e o amor de Deus pelos homens”: a complacência, a benevolência, a união, a efusão, o êxtase, a admiração, a contemplação, a tranquilidade, a ternura, o zelo, o langor e a morte.

O monte Calvário torna-se para o autor do Teótimo o “monte dos amantes”, chamado assim porque foi a montanha daquele que se apaixonou pela humanidade. Ora, o amor pelo homem, vivido por Jesus, torna-se o nosso amor, e o seu sangue derramado constitui como o “cimento” que nos une estreitamente uns aos outros:

 

Queiramo-nos, pois, muito bem uns aos outros, e para tal fim utilizemos aquele motivo que tem tanta força para incitar à santa dileção, ou seja, que Nosso Senhor da cruz derramou sobre a terra o seu sangue até a última gota, como para fazer um cimento sagrado, com o qual murar, unir, conjugar e ligar todas as pedras da sua Igreja.

 

Por fim, é preciso amar o próximo e cada pessoa, porque Deus criou os seres humanos “para fazer companhia ao seu próprio Filho, participar de suas graças e de sua glória e adorá-lo e louvá-lo por toda a eternidade”. Ninguém é predestinado ao inferno e à condenação. Deus quer que todos os homens sejam salvos, e cada um, por sua vez, é chamado a cooperar livremente na obra da salvação. Deus deixa a cada pessoa a sua liberdade, mas a liberdade traz consigo a responsabilidade: “Aquele que nos criou sem nós, não vos salvará sem vós; fez-nos sem que o soubéssemos, não vos salvará sem que o queirais”.

 

Caridade em pensamentos, em palavras, em obras e na tolerância

O amor ao próximo pode ser praticado de diversas maneiras, a começar pela caridade nos pensamentos e nas palavras. Amá-lo nos pensamentos significa não julgá-lo. Significa tentar ver o aspecto positivo em todas as ações do nosso próximo: “Se uma ação pudesse ter cem faces, deveis olhar para a mais bela”.

Há pessoas que sentem um prazer sádico em encontrar o mal ou em converter em mal tudo o que se encontra no próximo: “Não se assemelham às abelhas, mas às vespas, animais repulsivos, que voam efetivamente sobre as flores, mas não para extrair delas o mel, e sim o veneno; e se recolhem o mel é para transformá-lo em fel”.

A caridade nos pensamentos impede de fazer juízos temerários, tema importante ao qual a Introdução à Vida Devota consagra um capítulo. Com surpreendente sutileza, o autor põe a nu uma boa dúzia de motivos que levam a fazer julgamentos sobre os outros: às vezes será por causa de um caráter “rígido e áspero”, mas sobretudo por orgulho, pelo péssimo prazer que os erros do próximo fazem “saborear”, para “favorecer e desculpar” os próprios vícios, pelo gosto de “filosofar” sobre “usos, costumes e humores das pessoas”, por amor ou por ódio em relação aos outros, por ambição, por ciúme, por medo e, por fim, por “outras fraquezas de espírito”.

Para curar-se desse mal, é necessário corrigir a inclinação dos nossos “afetos” e cultivar o que é a priori positivo. Sejamos prudentes em nossos julgamentos: “Quem poderia nos garantir que aquele que, ontem, era pecador e mau, seja assim também hoje?”. Após a sua conversão, não se poderá mais dizer que Zaqueu era um ladrão, e Maria Madalena, após a sua mudança de vida, deve ser chamada de “arquivirgem”.

A caridade em palavras, por sua vez, é tão difícil de observar que o autor dedicou a ela vários capítulos da Filoteia. A recomendação fundamental diz: “Que o vosso discurso seja doce, franco, sincero, direto, cordial e verdadeiro. Guardai-vos das duplicidades, dos artifícios e dos fingimentos”.

Ele se detém em particular sobre três grandes defeitos da conversação: a maledicência, a calúnia e a zombaria. Os dois primeiros são graves porque “com a maledicência e a calúnia se enfia a língua no sangue do próximo”. A maledicência, “verdadeira peste das conversações”, “está entre os primeiros lugares” entre os “efeitos extremamente perniciosos” do juízo temerário. Quanto ao escárnio, é “o tipo de ofensa mais malvado que se pode fazer ao próximo com as palavras; porque as outras ofensas são feitas com alguma estima pelo ofendido, mas esta somente com desprezo”.

Mas esses são apenas os aspectos negativos da caridade. Como servir o próximo mediante a palavra? A resposta encontra-se nesta recomendação a Filoteia: “Quando a caridade o impõe, devemos nos comunicar com clareza e doçura com o próximo, não apenas naquilo que é necessário para a sua instrução, mas também naquilo que é útil para consolá-lo”.

A caridade se exerce, além disso, em duas frentes: a ajuda ativa e a paciente tolerância para com o próximo; em outros termos, com a ação e a paciência. A primeira consiste em agir eficazmente em seu favor e é o amor de benevolência ou amor efetivo. Diz respeito ao bem tanto em nível temporal quanto espiritual:

 

O amor perfeito ao próximo, que vem de Deus, comunica-se de várias maneiras: ajuda-o com as palavras, com as obras e com o exemplo; providencia, na medida do possível, todas as suas necessidades; alegra-se com a sua sorte e felicidade temporal, mas muito mais com o seu progresso espiritual; procura-lhe os bens temporais na medida em que lhe podem servir para obter a bem-aventurança eterna; deseja-lhe os bens principais da graça e das virtudes que o podem aperfeiçoar segundo Deus; procura-lhes isso através de todas as vias lícitas e com grande afeto.

 

Mas existe outra forma de caridade: é a caridade passiva da compaixão, da tolerância mútua e da oferta dos sofrimentos. De fato, ocorrem situações em que não se pode fazer nada, mas sempre se pode amar. Segundo Francisco de Sales, a caridade não se manifesta somente em ações; ela provavelmente encontra mais ocasiões e demonstra maior força quando alguém sofre por amor aos outros. A tolerância mútua constitui, consequentemente, um elemento fundamental do programa cristão: “Ah! Minha filha, uma parte notável da nossa perfeição consiste justamente nisto: que saibamos suportar-nos mutuamente em nossas imperfeições. Como poderíamos, de fato, exercer o amor ao próximo, se não tivéssemos que nos suportar?”. O caso limite é a atitude de Jesus na cruz, privado totalmente de qualquer poder, mas animado por uma caridade infinita que opera a salvação do mundo.

Em certas situações, quando se torna quase impossível, humanamente falando, suportar com doçura o próximo, a única solução é olhá-lo com os olhos e suportá-lo com o coração de Cristo:

 

Quando aprenderemos a ver as almas do nosso próximo no sagrado peito do Salvador? Ai de mim! Quem vê o próximo fora daquele peito, corre o risco de não amá-lo puramente, nem constantemente e justamente; mas lá dentro, quem não o amaria? Quem não o suportaria? Quem não toleraria as suas imperfeições? Quem o acharia sem graça? Quem o acharia chato? Ora, minha caríssima Filha, o nosso próximo está bem ali, no seio e no peito do nosso divino Salvador; está lá como objeto amadíssimo e tão amável, que o Amante morre de amor por ele.

 

O cristão que quer bem ao próximo não realiza todos os dias gestos extraordinários, mas lembra-se de colocar em prática o programa traçado por São Paulo: “A caridade é paciente, benévola, liberal, prudente, condescendente”.

 

A doçura, flor da caridade

Poder-se-ia dizer que a caridade vivida à maneira salesiana se chama doçura, ou que a doçura é a forma concreta de viver a caridade, segundo o bispo de Genebra. É o espírito da Visitação: um espírito não apenas de humildade para com Deus, mas também de “doçura para com o próximo”. Para Francisco de Sales, além de ser uma virtude entre outras, a doçura é a “flor da caridade”. Muitos admiradores do bispo de Genebra consideraram que ela era a marca distintiva do espírito salesiano. Assim como a humildade deve marcar a relação com Deus, a doçura é chamada a resumir a atitude para com o próximo.

Sob essa luz, o binômio “caridade e doçura” não é mais considerado como uma justaposição de duas virtudes separadas, mas sim como a síntese do ensinamento salesiano referente ao amor ao próximo.

Francisco de Sales não gosta da “doçura cerimoniosa” ou das doçuras que não são “autênticas e sinceras, mas sim artificiais e aparentes”. Por isso, associa de bom grado à doçura outras virtudes, em particular a simplicidade, virtude evangélica por ele muito apreciada:

 

A virtude da simplicidade é oposta e contrária ao vício da astúcia, vício fonte de sutilezas, artifícios, duplicidades. A astúcia é um acúmulo de artifícios, de enganos, de malícias, e é por meio da astúcia que fazemos invenções para enganar o espírito do próximo e daqueles com quem lidamos, para conduzi-los ao ponto que queremos […]; coisa infinitamente contrária à simplicidade, que exige que o nosso interior corresponda exatamente ao nosso exterior.

 

A doçura não exclui totalmente a ira. A propósito da mansidão, declara que ela “manipula e modera a ira e a cólera para mantê-las nos limites da razão; a ira, de fato, bem guiada é boa, e a mansidão tem tal encargo; a ser usado, no entanto, apenas raramente e somente quando é preciso mostrar grande coragem nas ocasiões em que é necessário vencer, superar as dificuldades e punir os erros”.

Embora a doçura não deva ser confundida com a sensibilidade exagerada e a afetação, ela não exclui de forma alguma o mundo dos sentimentos e da afetividade. É objeto de frequentes e insistentes recomendações, dirigidas em particular à senhora Brulart:

 

Fazei tudo o que puderdes para adquirir uma doçura particular para com os vossos, quero dizer, para com a vossa família. Não digo que seja necessário ser mole ou excessivamente submisso, mas doces e suaves. Nisso é preciso pensar quando se entra em casa, quando se sai, quando se está dentro de manhã, ao meio-dia e em qualquer outra hora; é necessário dedicar algum tempo para cuidar de modo particular da prática desta virtude, deixando quase de lado todo o resto.

 

Com pessoas irritadas não há outro meio para acalmá-las: “Nada amansa mais o elefante enfurecido do que a visão de um cordeirinho, e nada absorve a violência dos tiros de canhão melhor do que a lã”. Tal método vale também em grandes controvérsias políticas e religiosas, como na prejudicial querela sobre o poder dos papas sobre os príncipes, onde “a prudência e a doçura são muito mais úteis do que a inflamada doutrina e o ardor de espírito”.

A doçura não é outra coisa senão a caridade manifestada com humildade, sutileza, afabilidade e cordialidade. O termo cordialidade era tão caro a Francisco de Sales, a ponto de levá-lo a torná-lo objeto de um de seus Entretenimentos com as visitandinas. Ele também oferece uma definição: “A cordialidade não é outra coisa senão a essência da verdadeira e sincera amizade, a qual não pode existir apenas entre pessoas razoáveis, que suscitam e nutrem as suas amizades por meio da razão”. E mais adiante: “Talvez me perguntareis: mas o que significa amizade cordial? Equivale a indicar uma amizade que tem o seu fundamento no coração”.

O amor cordial manifesta-se também com a afabilidade e com a “boa conversação”: a afabilidade “coloca uma certa doçura nos negócios e nas comunicações sérias que temos entre nós”, enquanto a boa conversação “nos torna agradáveis e aceitos nas comunicações menos sérias que temos com o próximo”.

 

Mostrar que se ama

É preciso amar o próximo, mas isso não basta; é preciso mostrar que se o ama e é necessário que o outro saiba que é amado. Na Filoteia, ele comentará: “Devemos amar o próximo como a nós mesmos: para mostrar que amamos o próximo, não devemos evitar estar com ele”; a fuga das conversações nos impede de mostrar que o amamos e isso “tem sabor de presunção e de desprezo pelo próximo”.

Em seus Entretenimentos com as primeiras visitandinas, ele insiste neste ponto: “Devemos manifestar o amor por nossas queridas irmãs e demonstrar que nos agrada o seu convívio”. Imitemos o grande Apóstolo: “O próprio São Paulo, que nos ensina a agir de modo que os nossos afetos sejam manifestados santamente, quer e nos ensina a fazê-lo com gentileza, dando-nos o exemplo: Saudai, diz ele, fulano, que sabe com certeza que lhe quero bem de coração, e sicrano, que deve saber que lhe quero bem como a um irmão, e em particular a sua mãe, que sabe com certeza ser também a minha”. Desse modo poderá nascer a reciprocidade, que não é apenas o fundamento da amizade, mas também a condição para uma autêntica relação educativa ou de outro tipo.

O seu ensinamento se tornará mais explícito ao falar com as visitandinas, em particular a propósito das inclinações e aversões naturais. A questão reveste-se de certa importância: mostrar afeto a uma pessoa pela qual se sente aversão não é hipocrisia? O fundador responde baseando-se na distinção entre a parte inferior do ser, a das paixões e das antipatias e simpatias naturais, e a parte superior, que é o nosso verdadeiro eu. Um esclarecimento se impunha: “Há um engano no espírito de muitas pessoas, as quais pensam que tratar com cortesia e dar testemunho de amizade àqueles pelos quais sentem aversão sejam atos de duplicidade e de artifício, o que não é verdade; de fato, as aversões são involuntárias e residem na parte inferior da alma, a vontade as rejeita, mesmo que não desapareçam.

Uma das maneiras mais habituais de manifestar que se ama é a “condescendência”, uma atitude espiritual à qual é consagrado um Entretenimento inteiro. Ela não designa somente um comportamento social, a priori muito suspeito, mas sim, como emerge de sua etimologia, a atitude daquele que desce para colocar-se exatamente no mesmo plano do outro. O termo remete à condescendência de Deus que se faz um de nós. Santo Anselmo, um santo “cujo nascimento honrou muito as nossas montanhas”, porque – assim dizia o bispo de Genebra – havia nascido em Aosta, nas fronteiras da Saboia com o Piemonte, era célebre por sua “grande docilidade e condescendência”. A “arte maior” de São Paulo, por sua vez, era aquela, a seu modo de dizer, “de fazer-me tudo para todos, rir com quem ri, chorar com quem chora, beber com quem bebe, para tornar-me uma só coisa com cada um”.

 

Amar até que ponto?

Da semelhança entre o amor ao próximo e o amor a Deus, Francisco de Sales extrai uma importante consequência: devemos amar o próximo sem medida. Ele prega esta verdade às visitandinas, citando uma conhecida sentença de São Bernardo, segundo a qual, “a medida de amar a Deus é amá-lo sem medida”:

 

Devemos amar as nossas irmãs com toda a capacidade do nosso coração, e não nos contentarmos em amá-las como a nós mesmas, segundo a obrigação do mandamento de Deus; mas devemos amá-las mais do que a nós mesmas, para observar as normas da perfeição evangélica, que nos pede isso. Nosso Senhor o disse: Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei. Isso deve ser considerado com muita atenção: Amai-vos como eu vos amei, isso quer dizer mais do que a nós mesmos.

 

Se o fim a que tende o amor não pode ser outro senão a união com a pessoa amada, será preciso dizer que, assim como o amor a Deus tende à união com Deus, também o amor ao próximo é naturalmente orientado para a união com ele. O cristão buscará a união com o próximo com o objetivo de estabelecer com ele “um só coração e uma só alma”. A perfeição da caridade está na “união das nossas almas com Deus e com o próximo”.

Francisco de Sales refere-se aqui à união espiritual, que consiste na união das vontades ou dos corações. Querer juntos a mesma coisa, querer o que o outro quer; esta é a perfeição do amor ao próximo, assim como a perfeição do amor a Deus está em querer o que ele quer. “Quando a alma diz sinceramente: Eu não tenho mais nenhuma vontade senão a tua, Senhor, então ela se encontra completamente unida a Deus; assim, renunciando à nossa vontade para fazer sempre a do próximo, realizamos a verdadeira união com o próximo: e tudo isso deve ser cumprido por amor a Deus”.

Tornar-se “um só coração e uma só alma” parece ser o ideal do bispo de Genebra, o qual se recorda da primeira comunidade cristã de Jerusalém, tal como é descrita pelos Atos dos Apóstolos. O voto por ele expresso no final de uma carta a Joana de Chantal corresponde a um desejo de unidade, que não poderá realizar-se senão através de uma admirável transformação de alquimia espiritual:

 

Que aquele fogo sagrado que transforma tudo em si mesmo, queira transformar o nosso coração, de modo que não seja mais nada além de amor, e assim nós mesmos não sejamos mais amantes, mas amor, e não mais dois, mas um só, pois o amor une todas as coisas na suprema Unidade.

 

Na verdade, “o amor unifica, une, recolhe, reúne, estreita e leva tudo à unidade”. Já o pagão Aristóteles o havia compreendido: “Quando – assim diz ele – queremos expressar o quanto amamos os nossos amigos, dizemos: a sua alma e a minha não são senão uma só alma”.

 

P. Wirth MORAND

Salesiano de Dom Bosco, professor universitário, estudioso bíblico e historiador salesiano, membro emérito do Centro de Estudos Dom Bosco, autor de vários livros.