2 Out 2026, Sex

Vida do jovem Domingos Sávio, aluno do Oratório de São Francisco de Sales

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«Então eu sou o tecido; que ela seja a costureira.» Com essas palavras, em 2 de outubro de 1854, em Becchi, um menino de doze anos se confiava a Dom Bosco. Domingos Sávio entrou em Valdocco em 29 de outubro e lá permaneceu por menos de três anos: morreu em 9 de março de 1857. Um período breve, mas suficiente para que o grão amadurecesse e fosse recolhido no celeiro do Senhor. Nas páginas de Dom Bosco, ele não aparece como um jovem alheio à vida cotidiana, mas como um companheiro capaz de fazer do estudo, da oração, da amizade e da recreação um caminho de santidade. Seu «Quero me tornar santo» ainda interpela cada menino: «Se ele conseguiu, por que eu não?». Apresentamos o texto integral na quarta edição (1878), a última preparada pessoalmente pelo autor.

 

 

CAPÍTULO I. Pátria – Índole deste jovem – Seus primeiros atos de virtude

CAPÍTULO II. Conduta moral em Murialdo – Belos traços de virtude – Frequência à escola daquele povoado

CAPÍTULO III. É admitido à primeira Comunhão – Preparação – Recolhimento e lembranças daquele dia

CAPÍTULO IV. Escola de Castelnuovo d’Asti – Episódio edificante – Sábia resposta a um mau conselho

CAPÍTULO V. Sua conduta na escola de Castelnuovo d’Asti – Palavras de seu professor

CAPÍTULO VI. Escola de Mondonio – Suporta uma grave calúnia

CAPÍTULO VII. Primeiro conhecimento que tive dele – Episódios curiosos nessa ocasião

CAPÍTULO VIII. Vem para o Oratório de São Francisco de Sales – Seu primeiro modo de vida

CAPÍTULO IX. Estudo do latim – Episódios curiosos – Comportamento na escola – Impede uma briga – Evita um perigo

CAPÍTULO X. Sua decisão de tornar-se santo

CAPÍTULO XI. Seu zelo pela salvação das almas

CAPÍTULO XII. Episódios e belos modos de conversar com os companheiros

CAPÍTULO XIII. Seu espírito de oração – Devoção à Mãe de Deus – O mês de Maria

CAPÍTULO XIV. Sua frequência aos santos Sacramentos da Confissão e da Comunhão

CAPÍTULO XV. Suas penitências

CAPÍTULO XVI. Mortificações de todos os sentidos externos

CAPÍTULO XVII. A Companhia da Imaculada Conceição

CAPÍTULO XVIII. Suas amizades particulares – Suas relações com o jovem Camilo Gávio

CAPÍTULO XIX. Suas relações com o jovem João Massaglia

CAPÍTULO XX. Graças especiais e fatos particulares

CAPÍTULO XXI. Seus pensamentos sobre a morte e sua preparação para morrer santamente

CAPÍTULO XXII. Sua solicitude pelos enfermos – Deixa o Oratório – Suas palavras nessa ocasião

CAPÍTULO XXIII. Despede-se de seus companheiros

CAPÍTULO XXIV. Curso de sua doença – Última Confissão, recebe o Viático – Fatos edificantes

CAPÍTULO XXV. Seus últimos momentos e sua preciosa morte

CAPÍTULO XXVI. Anúncio de sua morte – Palavras do professor padre Picco a seus alunos

CAPÍTULO XXVII. Emulação pela virtude de Sávio – Muitos se recomendam a ele para obter favores celestes e são atendidos – Uma lembrança para todos

 

 

Caríssimos jovens,

 

 

      Vós me pedistes várias vezes, caríssimos jovens, que vos escrevesse alguma coisa a respeito de vosso companheiro DOMINGOS SÁVIO; e eu fiz o que pude para satisfazer esse vosso piedoso desejo. Eis aqui a vida dele, narrada com aquela brevidade e simplicidade que sei serem do vosso agrado.

      Duas dificuldades se opunham à publicação deste trabalho; a primeira era a crítica a que geralmente se expõe quem escreve sobre acontecimentos dos quais ainda existe grande número de testemunhas vivas. Creio ter superado essa dificuldade, esforçando-me por narrar unicamente as coisas que foram vistas por vós ou por mim, e que quase todas conservo por escrito e assinadas por vossa própria mão.

      Outro obstáculo era a necessidade de falar muitas vezes de mim mesmo. Como este jovem viveu cerca de três anos nesta casa, cabe-me frequentemente relatar fatos dos quais participei. Creio ter superado também este obstáculo, atendo-me ao dever do historiador, que é escrever a verdade dos fatos sem olhar às pessoas. Contudo, se encontrardes algum fato em que eu fale de mim com certa complacência, atribuí-a ao grande afeto que eu nutria pelo amigo falecido e que nutro por todos vós; afeto que me leva a abrir-vos o íntimo do meu coração, como faria um pai que fala a seus filhos amados.

      Algum de vós perguntará por que escrevi a vida de DOMINGOS SÁVIO e não a dos outros jovens que viveram entre nós com fama de virtude exemplar. É verdade, meus caros, que a Divina Providência se dignou enviar-nos vários modelos de virtude: tais foram Gabriele Fascio, Luís Rua, Camilo Gávio, João Massaglia e outros; mas as ações deles não foram igualmente conhecidas e notáveis como as de SÁVIO, cujo modo de viver foi reconhecidamente admirável. De resto, se Deus me der saúde e graça, tenho a intenção de recolher as ações desses vossos virtuosos companheiros, para poder satisfazer os vossos desejos e os meus, dando-as a ler e a imitar naquilo que for compatível com o vosso estado.

      Nesta nova edição, acrescentei ainda várias notícias que espero tornem a obra interessante também para aqueles que já leram o que foi impresso nas edições anteriores.

      Entretanto, começai a tirar proveito do que vos irei narrando e dizei em vosso coração o que dizia Santo Agostinho: ‘Si ille, cur non ego?’ Se um companheiro meu, da mesma idade, no mesmo lugar, exposto aos mesmos e talvez a maiores perigos, encontrou contudo tempo e modo de permanecer fiel seguidor de Jesus Cristo, por que não posso eu fazer o mesmo? Lembrai-vos bem de que a verdadeira religião não consiste apenas em palavras; é preciso passar às obras. Portanto, ao encontrardes alguma coisa digna de admiração, não vos contenteis em dizer: Isto é belo, isto me agrada. Dizei antes: quero esforçar-me para fazer aquelas coisas que, lidas na vida de outros, despertam em mim admiração.

      Deus conceda a vós e a todos os leitores deste livrinho saúde e graça para tirarem proveito do que nele lerem; e a Santíssima Virgem, de quem o jovem SÁVIO era fervoroso devoto, nos obtenha a graça de podermos formar um só coração e uma só alma para amar o nosso Criador, que é o único digno de ser amado acima de todas as coisas e fielmente servido todos os dias de nossa vida.

 

 

DECLARAÇÃO

Para obedecer ao decreto do Sumo Pontífice Urbano VIII, de santa memória, declaro que não pretendo atribuir aos fatos sobrenaturais aqui relatados outro valor senão o de autoridade humana, enquanto a Santa Sé não os tiver aprovado com sua infalível autoridade.

 

 

CAPÍTULO I. Pátria – Índole deste jovem – Seus primeiros atos de virtude

 

Os pais do jovem cuja vida nos propomos escrever foram Carlos Sávio e Brígida, sua esposa, pobres mas honestos habitantes[1] de Castelnuovo d’Asti[2], localidade distante dez milhas de Turim. No ano de 1841, encontrando-se os bons esposos em graves dificuldades e sem trabalho, foram morar em Riva[3], localidade distante duas milhas de Chieri, onde o marido passou a exercer o ofício de ferreiro, profissão em que se havia exercitado na juventude. Enquanto moravam nesse lugar, Deus abençoou seu matrimônio, concedendo-lhes um filho que haveria de ser sua consolação. O nascimento ocorreu em 2 de abril de 1842. Quando o levaram para ser regenerado nas águas batismais, deram-lhe o nome de Domingos; circunstância que, embora indiferente em si mesma, viria a ser para nosso menino objeto de elevada consideração, como veremos.

Domingos completava o segundo ano de idade quando, por algumas conveniências de família, seus pais decidiram voltar à terra natal e foram fixar residência em Murialdo, povoado de Castelnuovo d’Asti.

Todos os cuidados dos bons pais se dirigiam a dar uma educação cristã ao filho, que desde então era objeto de suas alegrias. Ele recebera da natureza uma boa índole, um coração verdadeiramente nascido para a piedade. Aprendeu com admirável facilidade as orações da manhã e da noite e, com apenas quatro anos, já as recitava sozinho. Mesmo naquela idade de natural distração, dependia em tudo de sua mãe; e, se alguma vez se afastava dela, era apenas para se recolher em algum canto da casa e fazer com maior liberdade suas orações durante o dia.

«Desde a mais tenra idade, afirmam seus pais, quando, por falta de reflexão, as crianças são contínuo incômodo e preocupação para as mães; idade em que querem ver tudo, tocar em tudo e, na maioria das vezes, estragar tudo, o nosso Domingos nunca nos deu o menor desgosto. Não só era obediente e pronto a qualquer ordem nossa, mas procurava antecipar as coisas que percebia serem do nosso agrado.»

Eram curiosas e ao mesmo tempo agradáveis as acolhidas que fazia ao pai quando o via chegar em casa depois dos trabalhos habituais. Corria ao seu encontro, tomava-o pela mão e às vezes lhe saltava ao pescoço. «Querido papai», dizia-lhe, «como o senhor está cansado! Não é verdade? O senhor trabalha tanto por mim, e eu não sirvo para outra coisa senão para lhe dar trabalho; rezarei ao bom Deus para que lhe dê saúde e me faça bom.» Dizendo isso, acompanhava-o para dentro de casa, apresentava-lhe uma cadeira ou banco para que se sentasse, fazia-lhe companhia e lhe prodigalizava mil carinhos. «Isto», dizia o pai, «era para mim um doce conforto em minhas fadigas, e eu ficava quase impaciente por chegar em casa para dar um terno beijo no meu Domingos, que possuía todos os afetos do meu coração.»

Sua devoção crescia mais depressa que a idade e, com apenas quatro anos, já não era necessário lembrar-lhe de rezar as orações da manhã e da noite, antes e depois das refeições, nem o Angelus; ao contrário, ele mesmo convidava os outros da casa a rezar quando por acaso se esqueciam.

Aconteceu que, certo dia, seus familiares, distraídos por alguns ruídos, se sentaram para almoçar sem mais nada. «Oh, papai», disse o atento Domingos, «ainda não pedimos a bênção.» Outra vez, um forasteiro acolhido em sua casa pôs-se igualmente a comer sem fazer qualquer ato de religião. Domingos, não ousando adverti-lo, retirou-se triste para um canto da casa. Interrogado depois pelos pais sobre aquela novidade, respondeu: «Não ousei sentar-me à mesa com alguém que se põe a comer como os animais do Senhor, sem agradecer a Deus pelos nossos alimentos.» Dito isso, ele mesmo fez o sinal da santa cruz e recitou a oração de costume.

 

 

CAPÍTULO II. Conduta moral em Murialdo – Belos traços de virtude – Frequência à escola daquele povoado

 

Há aqui fatos em que dificilmente se acreditaria, se quem os afirma não afastasse nossas dúvidas. Atenho-me ao relato que o capelão daquele povoado[4] teve a bondade de me fazer a respeito de seu querido aluno.

«Nos primeiros dias», diz ele, «depois que cheguei a este povoado de Murialdo, via muitas vezes um menino de talvez cinco anos vir à igreja em companhia de sua mãe. A serenidade do seu rosto, a compostura de sua pessoa e sua atitude devota atraíam para ele os meus olhares e os dos outros. Se, chegando à igreja, a encontrava fechada, então se dava um espetáculo agradável. Longe de correr de um lado para outro ou fazer barulho, sozinho ou com outros, como costumam fazer os meninos dessa idade, ele se dirigia ao limiar da porta, ajoelhava-se e, com a cabecinha inclinada e as inocentes mãozinhas juntas diante do peito, rezava fervorosamente até que a igreja fosse aberta. Note-se que às vezes o chão estava coberto de lama, ou nevava ou chovia; mas ele não se importava com nada e se ajoelhava igualmente para rezar. Admirado e movido por piedosa curiosidade, quis saber quem era aquele menino que se tornara objeto de minha admiração, e soube que era filho do ferreiro Carlos Sávio.

«Quando depois me encontrava pela rua, começava de longe a dar sinais de satisfação e, com uma expressão verdadeiramente angélica, antecipava respeitosamente minha saudação. Começou também a frequentar a escola e, como era dotado de inteligência e muito diligente no cumprimento de seus deveres, fez em pouco tempo notável progresso nos estudos. Era obrigado a conviver com jovens indisciplinados e distraídos, mas nunca me aconteceu vê-lo em discussão. Se surgia alguma altercação, suportava com paciência os insultos dos companheiros e logo se afastava deles. Também não me lembro de tê-lo visto tomar parte em divertimentos perigosos nem causar o menor transtorno na escola. Muitos companheiros o convidavam a ir com eles fazer brincadeiras com pessoas idosas, atirar pedras, roubar frutas alheias ou causar danos nos campos; mas ele sabia habilmente desaprovar a conduta deles e recusava-se a participar.

«A piedade que já demonstrara rezando no limiar da igreja não diminuiu com o avançar da idade. Aos cinco anos já aprendera a servir à santa Missa e a servia com grandíssima devoção. Ia todos os dias; se outro queria servi-la, ele a assistia; do contrário, prestava-se a servi-la com a atitude mais edificante. Como era jovem e de pequena estatura, não conseguia transportar o missal; e era curioso vê-lo aproximar-se ansioso do altar, erguer-se na ponta dos pés, estender os braços quanto podia e fazer todo esforço para alcançar o atril. Se o sacerdote ou outra pessoa quisesse fazer-lhe a coisa mais agradável do mundo, não devia transportar o missal em seu lugar, mas aproximar-lhe o atril o bastante para que pudesse alcançá-lo; então ele, com alegria, o levava para o outro lado do altar.

«Confessava-se com frequência e, assim que foi capaz de distinguir o pão celeste do pão terreno, foi admitido à santa Comunhão, que recebia com devoção verdadeiramente admirável. À vista dessas belas obras que a graça divina realizava naquela alma inocente, muitas vezes disse comigo mesmo: Eis um jovem de ótimas esperanças. Queira Deus abrir-lhe um caminho para levar à maturidade frutos tão preciosos.» Até aqui, o capelão de Murialdo.

 

 

CAPÍTULO III. É admitido à primeira Comunhão – Preparação – Recolhimento e lembranças daquele dia

 

Nada faltava a Domingos para ser admitido à primeira Comunhão. Sabia de cor todo o pequeno catecismo; tinha clara compreensão deste augusto sacramento e ardia de desejo de aproximar-se dele. Somente a idade se lhe opunha, pois nos povoados geralmente não se admitiam as crianças à primeira Comunhão antes dos onze ou doze anos completos. Sávio estava apenas no sétimo ano de vida. Além da aparência infantil, tinha um corpinho que o fazia parecer ainda mais novo; por isso o capelão hesitava em apresentá-lo. Pediu também conselho a outros sacerdotes, os quais, tendo ponderado bem a precocidade de seus conhecimentos, sua instrução e os vivos desejos de Domingos, deixaram de lado todas as dificuldades e o admitiram a participar pela primeira vez do pão dos Anjos.

É muito difícil exprimir os sentimentos de santa alegria com que tal anúncio lhe encheu o coração. Correu para casa e o contou com entusiasmo à mãe; ora rezava, ora lia; passava muito tempo na igreja antes e depois da Missa, e parecia que sua alma já habitava com os anjos do Céu. Na véspera do dia marcado para a Comunhão, chamou sua mãe: «Mamãe», disse-lhe, «amanhã vou fazer a minha Comunhão; perdoe-me todos os desgostos que lhe causei no passado; daqui em diante prometo ser muito melhor; serei atento na escola, obediente, dócil e respeitoso em tudo o que a senhora me mandar.» Dito isso, emocionou-se e começou a chorar. A mãe, que dele não recebera senão consolações, também se comoveu e, contendo com dificuldade as lágrimas, consolou-o dizendo: «Vai tranquilo, querido Domingos, tudo está perdoado; reza a Deus para que te conserve sempre bom; reza também por mim e por teu pai.»

Na manhã daquele memorável dia levantou-se cedo e, vestindo suas melhores roupas, foi à igreja, que encontrou ainda fechada. Ajoelhou-se, como já fizera outras vezes, no limiar e rezou até que, com a chegada de outras crianças, a porta fosse aberta. Entre as confissões, a preparação e a ação de graças depois da Comunhão, a função durou cinco horas. Domingos entrou primeiro na igreja e saiu por último. Durante todo aquele tempo, já não sabia se estava no céu ou na terra.

Aquele dia permaneceu sempre memorável para ele e pode ser chamado verdadeiro princípio, ou melhor, continuação de uma vida que pode servir de modelo a todo fiel cristão. Vários anos depois, quando o faziam falar de sua primeira Comunhão, ainda se via transparecer no rosto a mais viva alegria. «Oh!», costumava dizer, «aquele foi para mim o mais belo dia, um grande dia.» Escreveu algumas lembranças que conservava cuidadosamente num livro de devoção e lia com frequência. Pude tê-las entre as mãos e as insiro aqui em sua simplicidade original. Eram do seguinte teor: «Lembranças feitas por mim, Domingos Sávio, no ano de 1849, quando fiz a primeira Comunhão, tendo sete anos.

  1. Vou me confessar com muita frequência e comungarei todas as vezes que o confessor me der licença.
  2. Quero santificar os dias festivos.
  3. Meus amigos serão Jesus e Maria.
  4. Antes morrer, mas não pecar.»

Essas resoluções, que repetia muitas vezes, foram como o guia de suas ações até o fim da vida.

Se entre aqueles que lerem este livrinho houver alguém que ainda deva fazer a primeira Comunhão, eu gostaria de recomendar-lhe vivamente que tomasse o jovem Sávio por modelo. Mas recomendo, quanto sei e posso, aos pais, às mães de família e a todos aqueles que exercem alguma autoridade sobre a juventude, que deem a maior importância a este ato religioso. Ficai persuadidos de que uma primeira Comunhão bem feita estabelece um sólido fundamento moral para toda a vida; e seria coisa estranha encontrar alguém que tenha cumprido bem esse solene dever e não tenha depois levado uma vida boa e virtuosa. Ao contrário, contam-se aos milhares os jovens indisciplinados que são a desolação dos pais e de quem cuida deles; mas, se formos à raiz do mal, veremos que sua conduta começou a se tornar tal por causa da pouca ou nenhuma preparação para a primeira Comunhão. É melhor adiá-la; antes, é melhor não fazê-la, do que fazê-la mal.

 

 

CAPÍTULO IV. Escola de Castelnuovo d’Asti – Episódio edificante – Sábia resposta a um mau conselho

 

Concluídos os primeiros estudos, Domingos já deveria ter sido enviado há muito tempo a outro lugar para prosseguir os estudos, o que não podia fazer numa capelania rural. Domingos o desejava, e isso também estava muito no coração de seus pais. Mas como realizá-lo, faltando completamente os recursos financeiros? Deus, soberano Senhor de todas as coisas, proveria os meios necessários para que este menino pudesse seguir a carreira para a qual o chamava.

«Se eu fosse um pássaro», dizia às vezes Domingos, «gostaria de voar de manhã e à tarde até Castelnuovo e assim continuar meus estudos.»

     Seu vivo desejo de estudar fez com que superasse todas as dificuldades, e decidiu frequentar a escola municipal da cidade, embora ficasse a quase duas milhas de distância. E eis um menino de apenas dez anos empreendendo diariamente um percurso de seis milhas entre ida e volta da escola. Às vezes havia vento incômodo, sol escaldante, lama ou chuva opressiva. Não importava: suportavam-se todos os incômodos e venciam-se todas as dificuldades; ele via nisso a obediência aos pais e um meio de aprender a ciência da salvação, e isso bastava para fazê-lo suportar com prazer qualquer desconforto. Uma pessoa já de certa idade, vendo um dia Domingos ir sozinho à escola às duas da tarde, sob um sol abrasador, aproximou-se dele, quase para aliviá-lo, e lhe disse:

– Meu caro, você não tem medo de caminhar sozinho por estas estradas?

– Eu não estou sozinho; tenho o anjo da guarda, que me acompanha em todos os passos.

– Pelo menos o caminho deve ser penoso com este calor, tendo de fazê-lo quatro vezes por dia!

– Nada é penoso, nada é cansativo quando se trabalha para um patrão que paga muito bem.

– Quem é esse patrão?

– É Deus Criador, que recompensa até um copo de água dado por amor a Ele.

A mesma pessoa contou esse episódio a alguns amigos e terminava sempre dizendo: um jovem de tão tenra idade, que já alimenta pensamentos assim, certamente dará muito que falar na carreira que vier a seguir.

No caminho de ida e volta da escola, ele correu grave perigo para a alma por causa de alguns companheiros.

Muitos jovens, nos calores do verão, costumam ir banhar-se ora nos fossos, ora nos riachos, ora nos açudes e lugares semelhantes. O fato de vários meninos se reunirem despidos e, às vezes, em lugares públicos para se banhar é perigoso para o corpo, tanto que infelizmente temos de lamentar com frequência afogamentos de meninos e de outras pessoas que terminam a vida nas águas; mas o perigo é muito maior para a alma. Quantos jovens lamentam a perda da inocência e atribuem sua causa ao fato de terem ido banhar-se com certos companheiros naqueles lugares infelizes!

Vários colegas de Sávio tinham o costume de ir a esses lugares. Não satisfeitos de irem eles mesmos, queriam levar também Domingos consigo, e uma vez conseguiram atraí-lo. Mas, tendo sido advertido de que aquilo era mau, mostrou-se profundamente pesaroso; nunca mais foi possível fazê-lo voltar, e chegou a lamentar e chorar várias vezes pelo perigo em que se colocara, tanto para a alma como para o corpo. Contudo, dois dos companheiros mais desembaraçados e faladores fizeram nova tentativa, dizendo-lhe:

– Domingos, quer vir conosco para uma brincadeira?

– Que brincadeira?

– Vamos nadar.

– Oh, não! Eu não vou; não sei nadar e tenho medo de morrer na água.

– Venha, é muito gostoso. Quem vai nadar deixa de sentir o calor, fica com bom apetite e ganha muita saúde.

– Mas eu tenho medo de morrer na água.

– Ora, não tenha medo; nós lhe ensinaremos o que for preciso. Primeiro você verá como fazemos e depois fará o mesmo. Vai nos ver andar na água como peixes e dar saltos de gigante.

– Mas não é pecado ir a lugares onde há tantos perigos?

– De modo nenhum; todo mundo vai.

– O fato de todos irem não prova que não seja pecado.

– Se você não quiser entrar na água, comece apenas olhando os outros.

– Basta; estou confuso e não sei o que dizer.

– Venha, venha; confie na nossa palavra: não há mal algum, e nós o livraremos de todo perigo.

– Antes de fazer o que vocês dizem, quero pedir licença à minha mãe: se ela disser que sim, irei; caso contrário, não vou.

– Fique quieto, bobo; não vá contar isso à sua mãe. Ela certamente não vai deixar você vir; além disso, vai contar aos nossos pais e eles nos farão passar o calor com boas varadas.

– Oh! Se minha mãe não me deixa ir, é sinal de que a coisa é errada; por isso não vou. E, se querem que eu fale francamente, direi que fui enganado e fui uma única vez, mas nunca mais irei no futuro; porque nesses lugares há sempre perigo de morrer na água ou de ofender o Senhor de alguma outra maneira. E não voltem a falar comigo de nadar; se isso desagrada aos pais de vocês, também vocês não deveriam fazê-lo, porque o Senhor castiga os filhos que fazem coisas contrárias à vontade do pai e da mãe.

Assim o nosso Domingos, dando sábia resposta àqueles maus conselheiros, evitava um grave perigo no qual, se tivesse caído, talvez perdesse o inestimável tesouro da inocência, ao qual se seguem mil tristes consequências.

 

 

CAPÍTULO V. Sua conduta na escola de Castelnuovo d’Asti – Palavras de seu professor

 

Frequentando essa escola, começou a aprender como devia comportar-se com os companheiros. Se via um colega atento às aulas, dócil, respeitoso, que soubesse bem as lições, fizesse seus trabalhos e fosse elogiado pelo professor, esse logo se tornava amigo de Domingos. Havia algum indisciplinado ou insolente, que descuidasse dos deveres, falasse mal ou blasfemasse? Domingos o evitava como se evita a peste. Aos que eram um pouco negligentes, cumprimentava-os e lhes prestava algum serviço quando havia ocasião, mas não mantinha com eles familiaridade.

A conduta que teve na escola de Castelnuovo d’Asti pode servir de modelo a qualquer jovem estudante que deseje progredir na ciência e na piedade. A esse respeito transcrevo o criterioso relato escrito por seu professor, o sacerdote padre Alessandro Allora, ainda hoje professor municipal desta sede distrital. Eis o seu teor:

«É com grande satisfação que exponho meu juízo sobre o jovem Domingos Sávio, que em pouco tempo soube conquistar toda a minha benevolência, de modo que o amei com a ternura de um pai. Aceito de bom grado este convite, porque ainda conservo viva, distinta e plena memória de seus estudos, de sua conduta e de suas virtudes.»

«Não posso dizer muitas coisas sobre sua conduta religiosa porque, morando muito longe da cidade, era dispensado da congregação; se a tivesse frequentado, certamente teria feito resplandecer sua piedade e devoção.»

«Concluídos os estudos do primeiro ano elementar em Murialdo, esse bom menino pediu e obteve com distinção a admissão à minha escola do segundo ano elementar, precisamente em 21 de junho de 1852, dia dedicado pelos alunos a São Luís, protetor da juventude. Tinha constituição um tanto fraca e delicada, semblante sério misturado com doçura, com algo ao mesmo tempo grave e agradável. Era de índole muito mansa e dulcíssima, de humor sempre igual. Mantinha constantemente tal comportamento na escola e fora dela, na igreja e em toda parte, que, quando os olhos, o pensamento ou a palavra do professor se voltavam para ele, ficava a mais bela e agradável impressão. Para um professor, isto pode ser chamado um dos queridos compensos dos duros trabalhos que muitas vezes lhe cabe sustentar em vão no cultivo de espíritos áridos e mal dispostos de certos alunos. Por isso posso dizer que ele foi Sávio de nome e sábio também sempre de fato. Mostrou-o concretamente, isto é, no estudo, na piedade, no trato com os companheiros e em todas as suas ações. Desde o primeiro dia em que entrou em minha escola até o fim daquele ano letivo e nos quatro meses do ano seguinte, progrediu nos estudos de modo extraordinário. Mereceu constantemente o primeiro lugar de sua classe, as outras distinções escolares e quase sempre as melhores notas em cada matéria que sucessivamente se ensinava. Resultado tão feliz nos estudos não deve ser atribuído apenas à inteligência incomum de que era dotado, mas também ao seu grandíssimo amor ao estudo e à sua virtude.»

«É também digna de especial admiração a diligência com que procurava cumprir os menores deveres de aluno cristão e, de modo particular, a assiduidade e admirável constância na frequência à escola. Embora sempre de saúde fraca, percorria todos os dias mais de quatro quilômetros de estrada, repetindo esse trajeto quatro vezes entre ida e volta. E fazia isso com admirável tranquilidade de espírito e serenidade de semblante mesmo sob as intempéries do inverno, no frio rigoroso, na chuva ou na neve; coisa que seu professor não podia deixar de reconhecer como prova e exemplo de mérito raro. Entretanto, tendo adoecido este digno aluno durante o mesmo ano de 1852-1853, e tendo seus pais posteriormente mudado de residência, aconteceu que, com verdadeiro pesar meu, não pude continuar a instrução de tão querido discípulo; e as grandes e belas esperanças que eu nutria diminuíam à medida que cresciam meus temores de que ele já não pudesse prosseguir os estudos por falta de saúde ou de recursos.»

«Foi para mim grande consolação quando soube que havia sido acolhido entre os jovens do Oratório de São Francisco de Sales, abrindo-se assim para ele o caminho ao cultivo de sua rara inteligência e de sua luminosa piedade. (Até aqui, o professor.)»

 

 

CAPÍTULO VI. Escola de Mondonio[5] – Suporta uma grave calúnia

 

Parece que a Divina Providência quis fazer este jovem compreender que este mundo é um exílio em que vamos peregrinando de lugar em lugar; ou melhor, quis que ele se tornasse conhecido em diferentes localidades, mostrando-se assim em vários lugares admirável modelo de virtude.

No fim do ano de 1852, os pais de Domingos deixaram Murialdo e foram estabelecer residência em Mondonio, pequeno povoado vizinho de Castelnuovo. Ele continuou ali o mesmo modo de vida que praticara em Murialdo e Castelnuovo; por isso eu deveria repetir as coisas que seus professores anteriores escreveram a seu respeito, pois o padre Cugliero[6], que o teve como aluno, faz um relato quase semelhante. Escolho dele apenas alguns fatos particulares, omitindo o restante para evitar repetições.

«Posso dizer», escreve ele, «que em vinte anos dedicados à instrução dos meninos nunca tive nenhum que igualasse Sávio na piedade. Era jovem de idade, mas prudente como um homem maduro. Sua diligência, assiduidade ao estudo e afabilidade conquistavam o afeto do professor e faziam dele a alegria dos companheiros. Quando o contemplava na igreja, eu ficava profundamente admirado ao ver tanto recolhimento num jovem de tão tenra idade. Muitas vezes disse comigo mesmo: Eis uma alma inocente, para a qual se abrem as delícias do paraíso e que, com seus afetos, vai habitar com os anjos do céu.»

     Entre os fatos particulares, o professor conta o seguinte:

«Certo dia, houve uma falta entre meus alunos, e a coisa era tal que o culpado merecia ser expulso da escola. Os verdadeiros culpados, querendo prevenir o golpe, foram até o professor e combinaram lançar toda a culpa sobre o bom Domingos. Eu não podia acreditar que ele fosse capaz de semelhante desordem; mas os acusadores souberam dar à calúnia tal aparência de verdade que fui levado a acreditar. Entrei então na escola, justamente indignado com o ocorrido; falei em geral ao culpado e depois me voltei para Sávio: ‘Era preciso’, disse-lhe, ‘que essa falta fosse cometida justamente por você? Não mereceria ser expulso imediatamente da escola? Felizmente é a primeira vez que você faz algo semelhante; caso contrário… faça com que seja também a última.’ Domingos poderia ter dito uma única palavra em sua defesa, e sua inocência teria sido reconhecida. Mas calou-se, baixou a cabeça e, como quem é justamente repreendido, não levantou mais os olhos.»

«Mas Deus protege os inocentes, e no dia seguinte foram descobertos os verdadeiros culpados e, assim, tornou-se manifesta a inocência de Domingos. Cheio de pesar pelas repreensões feitas ao suposto culpado, chamei-o à parte e disse-lhe: ‘Domingos, por que você não me disse logo que era inocente?’ Domingos respondeu: ‘Porque aquele colega, já culpado de outras faltas, talvez tivesse sido expulso da escola; quanto a mim, esperava ser perdoado, pois era a primeira falta de que me acusavam na escola; além disso, pensava também em nosso Divino Salvador, que foi injustamente caluniado.’»

«Então fiquei em silêncio, mas todos admiraram a paciência de Sávio, que soubera pagar o mal com o bem, disposto até a suportar um grave castigo em favor do próprio caluniador.» (Assim escreve o padre Cugliero.)

 

 

CAPÍTULO VII. Primeiro conhecimento que tive dele – Episódios curiosos nessa ocasião

 

As coisas que vou narrar posso expor com maior riqueza de circunstâncias, porque quase todas aconteceram diante de meus olhos e, na maioria das vezes, na presença de grande número de jovens, todos concordes em afirmá-las. Corria o ano de 1854 quando o referido padre Cugliero veio falar-me de um aluno seu que, por sua piedade, merecia consideração especial. «Aqui em sua casa», dizia ele, «pode ter jovens iguais a ele, mas dificilmente terá alguém que o supere em talento e virtude. Faça a experiência e encontrará um São Luís.» Combinamos que ele o enviaria a Murialdo na ocasião em que eu costumava estar ali com os jovens desta casa, para fazê-los desfrutar um pouco do campo e, ao mesmo tempo, fazer a novena e celebrar a solenidade do Rosário de Maria Santíssima.

Era a primeira segunda-feira de outubro, de manhã cedo, quando vi aproximar-se um menino acompanhado de seu pai para falar comigo. Seu rosto alegre, sua expressão sorridente, mas respeitosa, atraíram para ele o meu olhar.

– Quem é você? – perguntei-lhe. – De onde vem?

– Eu sou – respondeu – Domingos Sávio, de quem lhe falou o padre Cugliero, meu professor; e viemos de Mondonio.

Então o chamei à parte e, pondo-nos a conversar sobre os estudos feitos e o modo de vida que levara até então, logo entramos em plena confiança, ele comigo e eu com ele.

Reconheci naquele jovem um espírito inteiramente conforme ao espírito do Senhor e fiquei muito admirado ao considerar as obras que a graça divina já havia realizado em tão tenra idade.

Depois de uma conversa um tanto prolongada, antes que eu chamasse o pai, ele me disse estas palavras exatas: «Então, o que lhe parece? Vai me levar a Turim para estudar?»

– Ora! Parece-me que há bom tecido.

– Para que pode servir esse tecido?

– Para fazer uma bela roupa de presente ao Senhor.

– Então eu sou o tecido; o senhor seja o alfaiate; leve-me consigo e fará uma bela roupa para o Senhor.

– Tenho receio de que sua constituição frágil não aguente os estudos.

– Não tenha receio disso; aquele Senhor que até agora me deu saúde e graça também me ajudará no futuro.

– Mas, quando terminar os estudos de latim, o que vai querer fazer?

– Se o Senhor me conceder tamanha graça, desejo ardentemente abraçar o estado eclesiástico.

– Muito bem. Agora quero experimentar se você tem capacidade suficiente para estudar: pegue este livrinho (era um fascículo das Leituras Católicas), estude hoje esta página e amanhã volte para recitá-la para mim.

Dito isso, deixei-o livre para ir divertir-se com os outros jovens e pus-me a conversar com o pai. Não se passaram mais de oito minutos quando Domingos se aproximou sorrindo e me disse: «Se quiser, posso recitar agora a minha página.» Peguei o livro e, com surpresa, percebi que não só havia estudado literalmente a página indicada, mas compreendia muito bem o sentido das coisas nela contidas.

– Muito bem – disse-lhe – você antecipou o estudo de sua lição e eu antecipo a resposta. Sim, vou levá-lo a Turim e, desde já, você está contado entre meus queridos filhos; comece também, desde agora, a rezar a Deus para que ajude a mim e a você a fazer sua santa vontade.

Não sabendo como exprimir melhor sua alegria e gratidão, tomou-me a mão, apertou-a, beijou-a várias vezes e, por fim, disse: «Espero comportar-me de modo que nunca tenha de se lamentar de minha conduta.»

 

 

CAPÍTULO VIII. Vem para o Oratório de São Francisco de Sales – Seu primeiro modo de vida

 

É próprio da idade volúvel da juventude mudar frequentemente de propósito a respeito do que se quer; por isso não raramente acontece que hoje se decide uma coisa e amanhã outra; hoje se pratica uma virtude em grau eminente e amanhã o contrário; e, se não houver quem vigie atentamente, muitas vezes termina mal uma educação que talvez pudesse ter sido das mais felizes. Com o nosso Domingos não foi assim. Todas aquelas virtudes que vimos nascer e crescer nas diversas etapas de sua vida continuaram a crescer admiravelmente e cresceram juntas, sem que uma prejudicasse a outra.

Chegando à casa do Oratório, foi ao meu quarto para se entregar, como ele dizia, inteiramente nas mãos de seus superiores. Seu olhar pousou logo num cartaz em que, em grandes caracteres, estavam escritas as seguintes palavras que São Francisco de Sales costumava repetir: Da mihi animas, coetera tolle. Pôs-se a lê-las atentamente, e eu desejava que compreendesse o significado. Por isso o convidei, e até o ajudei, a traduzi-las e tirar delas este sentido: «Ó Senhor, dai-me almas e ficai com todas as outras coisas.» Ele pensou um instante e depois acrescentou: «Entendi: aqui não se trata de negócio de dinheiro, mas de negócio de almas; entendi. Espero que minha alma também faça parte desse comércio.»

Durante algum tempo, seu modo de vida foi inteiramente comum; nada nele se admirava senão a exata observância das regras da casa. Aplicou-se com empenho aos estudos. Cumpria com ardor todos os seus deveres. Escutava com prazer as pregações. Tinha profundamente arraigado no coração que a palavra de Deus é o guia do homem no caminho do céu; por isso, cada máxima ouvida numa pregação tornava-se para ele uma lembrança permanente que nunca mais esquecia.

Todo discurso moral, todo catecismo, toda pregação, ainda que prolongada, era sempre para ele motivo de alegria. Quando ouvia alguma coisa que não tivesse compreendido bem, logo procurava pedir explicação. Daí teve início aquele exemplar modo de vida, aquela exatidão no cumprimento dos deveres, além da qual dificilmente se pode ir.

Para ser instruído sobre as regras e a disciplina da casa, procurava com delicadeza aproximar-se de algum de seus superiores; fazia perguntas, pedia esclarecimentos e conselhos, suplicando que tivessem a bondade de adverti-lo sempre que o vissem faltar a seus deveres. Não era menos louvável o comportamento que mantinha com os companheiros. Via alguém dissipado, negligente nos próprios deveres ou descuidado na piedade? Domingos o evitava. Havia um companheiro exemplar, estudioso, diligente, elogiado pelo professor? Esse se tornava logo amigo e íntimo de Domingos.

Aproximando-se a festa da Imaculada Conceição de Maria, o diretor dizia todas as noites algumas palavras de incentivo aos jovens da casa, para que cada um se empenhasse em celebrá-la de modo digno da grande Mãe de Deus; mas insistia especialmente em que pedissem a essa celeste protetora aquelas graças de que cada um reconhecesse ter maior necessidade.

Corria o ano de 1854, em que os cristãos do mundo inteiro viviam numa espécie de santa agitação espiritual, porque em Roma se tratava da definição dogmática da Imaculada Conceição de Maria. Também entre nós se fazia tudo quanto nossa condição permitia para celebrar aquela solenidade com decoro e com fruto espiritual para nossos jovens.

Sávio era um daqueles que se sentiam arder de desejo de celebrá-la santamente. Escreveu nove pequenos propósitos, ou seja, nove atos de virtude a praticar, tirando à sorte um por dia. Preparou-se, fez com grande satisfação a confissão geral e aproximou-se dos santos Sacramentos com o máximo recolhimento.

Na tarde daquele dia, 8 de dezembro, terminadas as sagradas funções na igreja, aconselhado pelo confessor, Domingos foi diante do altar de Maria, renovou as promessas feitas na primeira Comunhão e depois repetiu várias vezes estas palavras exatas: «Maria, eu vos dou o meu coração; fazei que seja sempre vosso. Jesus e Maria, sede vós sempre os meus amigos! Mas, por piedade, fazei-me morrer antes que me aconteça a desgraça de cometer um só pecado.»

Tomando assim Maria como sustentáculo de sua devoção, sua conduta moral se mostrou tão edificante e unida a tais atos de virtude que desde então comecei a anotá-los, para não me esquecer deles.

Chegado a este ponto na descrição das ações do jovem Sávio, vejo diante de mim um conjunto de fatos e virtudes que merecem especial atenção tanto de quem escreve como de quem lê. Por isso, para maior clareza, julgo conveniente expor as coisas não segundo a ordem cronológica, mas segundo a semelhança dos fatos que têm entre si relação especial ou dizem respeito à mesma matéria. Dividirei, portanto, o assunto em outros tantos capítulos, começando pelo estudo do latim, que foi o principal motivo pelo qual veio e foi acolhido nesta casa de Valdocco.

 

 

CAPÍTULO IX. Estudo do latim – Episódios curiosos – Comportamento na escola – Impede uma briga – Evita um perigo

 

Ele havia estudado os rudimentos do latim em Mondonio; e, graças à grande assiduidade ao estudo e à sua capacidade nada comum, em pouco tempo conseguiu ser colocado na quarta classe, ou, como dizemos hoje, na segunda gramática latina. Fez esse curso com o piedoso e caridoso professor Giuseppe Bonzanino, pois naquela época ainda não estavam estabelecidas na casa do Oratório as escolas ginasiais, como estão atualmente. Eu deveria também aqui descrever seu comportamento, aproveitamento e exemplaridade com as mesmas palavras de seus professores anteriores. Por isso relatarei apenas algumas coisas que, naquele ano de latim e nos dois seguintes, foram observadas com particular admiração por aqueles que o conheceram. O professor Bonzanino afirmou várias vezes não se lembrar de ter tido aluno mais atento, mais dócil e mais respeitoso do que o jovem Sávio. Em tudo ele se mostrava modelo. No modo de vestir e de pentear-se não havia qualquer afetação; mas, na modéstia de suas roupas e em sua humilde condição, aparecia limpo, bem-educado e cortês, de modo que seus companheiros de condição civil e até nobre, que em bom número frequentavam aquela escola, sentiam grande prazer em conviver com Domingos, não só por seu saber e piedade, mas também por seus modos educados e agradáveis no trato. Se o professor percebia algum aluno um pouco tagarela, colocava Domingos ao lado dele, e este, com habilidade, procurava levá-lo ao silêncio, ao estudo e ao cumprimento de seus deveres.

Foi no decorrer desse ano que a vida de Domingos nos oferece um fato que tem algo de heroico e é quase inacreditável para sua pouca idade. Refere-se a dois colegas de escola que chegaram a uma briga perigosa. A discussão começou por algumas palavras que disseram um ao outro em desprezo de suas famílias. Depois de alguns insultos, trocaram ofensas e desafiaram-se a resolver a questão a pedradas. Domingos veio a saber daquela discórdia; mas como impedi-la, sendo os dois rivais maiores do que ele em força e idade? Tentou persuadi-los a desistir daquele propósito, fazendo observar a ambos que a vingança é contrária à razão e à santa lei de Deus; escreveu cartas a um e a outro; ameaçou contar tudo ao professor e também aos pais deles; mas tudo foi inútil: os ânimos estavam tão exaltados que qualquer palavra era inútil. Além do perigo de se ferirem gravemente, cometia-se grande ofensa contra Deus. Domingos estava profundamente aflito, queria opor-se àquilo e não sabia como. Deus lhe inspirou o seguinte. Esperou-os depois da aula e, conseguindo falar com os dois em particular, disse: «Já que persistem nesse propósito brutal, peço ao menos que aceitem uma condição.» «Aceitamos», responderam, «desde que não impeça o nosso desafio.» «Ele é um canalha», replicou logo um deles; «e eu não farei as pazes com ele», acrescentou o outro, «enquanto um de nós não tiver a cabeça quebrada.» Sávio tremia diante daquela conversa brutal; contudo, desejando impedir um mal maior, manteve-se firme e disse: «A condição que vou propor não impede o desafio.»

Comp. Qual é essa condição?

Sáv. Gostaria apenas de dizê-la no lugar onde vocês querem medir forças a pedradas.

Comp. Você está zombando de nós ou vai tentar criar algum obstáculo.

Sáv. Estarei com vocês e não zombarei; fiquem tranquilos.

Comp. Talvez você queira ir chamar alguém.

Sáv. Eu deveria fazê-lo, mas não farei; vamos, estarei com vocês. Apenas cumpram a palavra que me deram. Eles prometeram e foram para os chamados prados da Cidadela, fora de Porta Susa[7].

Tamanho era o ódio entre os dois contendores que Sávio mal conseguiu impedir que chegassem às vias de fato no curto trecho de caminho que precisavam percorrer.

Chegados ao lugar estabelecido, Sávio fez uma coisa que certamente ninguém teria imaginado. Deixou que se colocassem a certa distância; já tinham as pedras nas mãos, cinco cada um, quando Domingos falou assim: «Antes de realizarem o desafio, quero que cumpram a condição aceita.» Dizendo isso, tirou o pequeno Crucifixo que trazia ao pescoço e, segurando-o numa das mãos, disse: «Quero que cada um fixe o olhar neste Crucifixo e depois, lançando uma pedra contra mim, pronuncie em voz alta estas palavras: Jesus Cristo inocente morreu perdoando aos que o crucificaram; eu, pecador, quero ofendê-lo e fazer uma vingança solene.»

Dito isso, foi ajoelhar-se diante daquele que parecia mais enfurecido e disse: «Dê em mim o primeiro golpe; atire com força uma pedra na minha cabeça.» O outro, que não esperava semelhante proposta, começou a tremer. «Não», disse, «nunca! Não tenho nada contra você e, se alguém quisesse ofendê-lo, eu mesmo o defenderia.»

Ouvindo isso, Domingos correu para o outro e repetiu as mesmas palavras. Este também ficou desconcertado e, tremendo, dizia que, sendo seu amigo, jamais lhe faria mal algum.

Então Domingos levantou-se e, assumindo um semblante sério e comovido, disse-lhes: «Como? Vocês dois estão dispostos até a enfrentar um grave perigo para defender a mim, que sou uma pobre criatura, e não são capazes de perdoar um insulto e uma zombaria feitos na escola para salvar a própria alma, que custou o sangue do Salvador e que vocês vão perder com este pecado?» Dito isso, calou-se, mantendo sempre o Crucifixo erguido na mão.

Diante de tal espetáculo de caridade e coragem, os companheiros se deram por vencidos. «Naquele momento», afirma um deles, «fiquei comovido; um frio percorreu meus membros e senti-me cheio de vergonha por ter obrigado um amigo tão bom como Sávio a recorrer a medidas extremas para impedir nosso ímpio propósito. Querendo ao menos dar-lhe um sinal de satisfação, perdoei de coração quem me havia ofendido e pedi a Domingos que me indicasse algum sacerdote paciente e caridoso para eu ir me confessar. Assim, depois de voltar a ser seu amigo, reconciliei-me com o Senhor, a quem certamente tinha ofendido gravemente com o ódio e o desejo de vingança.»

Este é um exemplo muito digno de ser imitado por todo jovem cristão sempre que lhe acontecer ver alguém disposto a se vingar ou sendo de alguma maneira ofendido ou injuriado por outro.

O que neste fato honra de modo singular a conduta e a caridade de Sávio é o silêncio com que soube guardar o que havia acontecido. Tudo teria ficado completamente ignorado se os próprios participantes não o tivessem contado repetidas vezes.

O caminho de ida e volta da escola, tão perigoso para os jovens que vêm dos povoados às grandes cidades, foi para o nosso Domingos um verdadeiro exercício de virtude. Constante em executar as ordens de seus superiores, ia à escola e voltava para casa sem sequer lançar um olhar ou prestar atenção a coisa que não conviesse a um jovem cristão. Se via alguém parar, correr, saltitar, atirar pedras ou passar por lugares proibidos, logo se afastava dele. Certo dia, chegou a ser convidado a ir passear sem permissão; outra vez aconselharam-no a faltar à escola para ir se divertir, mas sempre soube responder com uma recusa. «Meu divertimento mais bonito», respondia, «é cumprir os meus deveres; e, se vocês são verdadeiros amigos, devem aconselhar-me a cumpri-los com exatidão, nunca a transgredi-los.» Apesar disso, teve a desventura de encontrar alguns companheiros que o importunaram a tal ponto que Sávio esteve perto de cair em suas armadilhas. Já se decidia a ir com eles e, naquele dia, faltar à escola. Mas, depois de percorrer um curto trecho, percebeu que seguia um mau conselho, sentiu grande remorso, chamou os maus conselheiros e disse-lhes: «Meus caros, o dever me obriga a ir à escola e eu quero ir. Estamos fazendo algo que desagrada a Deus e aos nossos superiores. Estou arrependido do que fiz; se outra vez me derem conselhos semelhantes, deixarão de ser meus amigos.»

Aqueles jovens acolheram a advertência do amigo, foram com ele à escola e, dali em diante, não procuraram mais desviá-lo dos deveres. No fim do ano, graças à boa conduta e à constante aplicação ao estudo, mereceu ser promovido entre os melhores para a classe superior. Mas, no início do terceiro ano de gramática, como a saúde de Domingos parecia um pouco deteriorada, julgou-se conveniente que fizesse o curso particular aqui na casa do Oratório, a fim de poder receber os devidos cuidados no descanso, no estudo e na recreação.

No ano de humanidades, ou primeiro de retórica, parecendo estar melhor de saúde, foi enviado ao benemérito professor padre Matteo Picco. Este já ouvira falar várias vezes das belas qualidades que adornavam Sávio e, por isso, de bom grado o recebeu gratuitamente em sua escola, considerada entre as melhores reconhecidas desta nossa cidade.

Muitas são as coisas edificantes ditas ou feitas por Sávio no ano de terceira gramática e de primeira retórica; iremos expô-las aos poucos, à medida que narrarmos os fatos com que estão relacionadas.

 

 

CAPÍTULO X. Sua decisão de tornar-se santo

 

Depois desta breve referência aos estudos feitos nas classes de latim, falaremos agora de sua grande decisão de tornar-se santo.

Fazia seis meses que Sávio morava no Oratório quando ali foi feita uma pregação sobre a maneira fácil de tornar-se santo. O pregador deteve-se especialmente em desenvolver três pensamentos que causaram profunda impressão no espírito de Domingos, a saber: é vontade de Deus que todos nos tornemos santos; é muito fácil consegui-lo; há uma grande recompensa preparada no céu para quem se torna santo. Aquela pregação foi para Domingos como uma centelha que lhe incendiou o coração de amor a Deus. Durante alguns dias não disse nada, mas estava menos alegre que de costume, de modo que os companheiros perceberam e eu também. Julgando que isso viesse de algum novo mal-estar, perguntei-lhe se sentia algum mal. «Ao contrário», respondeu, «sinto algum bem.» – «O que quer dizer?» – «Quero dizer que sinto um desejo e uma necessidade de me tornar santo. Eu não pensava que pudesse tornar-me santo com tanta facilidade; mas agora que compreendi que isso pode ser conseguido também permanecendo alegre, eu quero absolutamente e tenho absoluta necessidade de tornar-me santo. Diga-me, então, como devo proceder para começar essa empresa.»

Eu louvei o propósito, mas o exortei a não se inquietar, porque nas agitações do espírito não se reconhece a voz do Senhor; antes de tudo eu queria uma alegria constante e moderada. E, aconselhando-o a perseverar no cumprimento dos deveres de piedade e de estudo, recomendei-lhe que não deixasse nunca de participar da recreação com os companheiros.

Um dia disse-lhe que queria dar-lhe um presente de seu gosto, mas desejava que ele próprio escolhesse. «O presente que peço», acrescentou prontamente, «é que o senhor me faça santo. Quero dar-me todo ao Senhor, para sempre ao Senhor; sinto necessidade de tornar-me santo, e se eu não me tornar santo, não faço nada. Deus me quer santo, e eu devo tornar-me santo.»

Em certa ocasião, o diretor quis dar um sinal de especial afeto aos jovens da casa e permitiu que lhe pedissem, por escrito, qualquer coisa que estivesse ao seu alcance, prometendo concedê-la. É fácil imaginar os pedidos engraçados e extravagantes que uns e outros fizeram. Sávio pegou um pedaço de papel e escreveu apenas estas palavras: «Peço que salve minha alma e me faça santo.»

Certo dia explicavam-se algumas palavras segundo a etimologia. «E Domingos», perguntou-se, «o que quer dizer?» Responderam: «Domingos quer dizer do Senhor.» «Veja», acrescentou imediatamente, «se eu não tenho razão de pedir que me faça santo: até o meu nome diz que eu sou do Senhor. Portanto, devo e quero ser todo do Senhor, quero tornar-me santo e serei infeliz enquanto não for santo.»

A ansiedade que demonstrava em querer tornar-se santo não vinha de não levar já uma vida verdadeiramente santa; dizia isso porque queria fazer rigorosas penitências e passar longas horas em oração. O diretor, porém, proibia-lhe essas coisas, por não serem compatíveis com sua idade, sua saúde e suas ocupações.

 

 

CAPÍTULO XI. Seu zelo pela salvação das almas

 

A primeira coisa que lhe foi aconselhada para tornar-se santo foi empenhar-se em ganhar almas para Deus, porque não há no mundo coisa mais santa do que cooperar para o bem das almas, por cuja salvação Jesus Cristo derramou até a última gota de seu precioso sangue. Domingos compreendeu a importância dessa prática e foi ouvido várias vezes dizer: «Se eu pudesse ganhar para Deus todos os meus companheiros, como seria feliz!» Entretanto, não deixava escapar nenhuma ocasião de dar bons conselhos e advertir quem tivesse dito ou feito alguma coisa contrária à santa lei de Deus.

A coisa que lhe causava grande horror e que não fazia pouco mal à sua saúde era a blasfêmia, ou ouvir pronunciar em vão o santo nome de Deus. Se nas ruas da cidade ou em outro lugar acontecia-lhe ouvir alguma palavra semelhante, logo baixava a cabeça, entristecido, e dizia com coração devoto: «Louvado seja Jesus Cristo.»

Passando certo dia por uma praça da cidade, um companheiro o viu tirar o boné e pronunciar em voz baixa algumas palavras. «O que você está fazendo?», perguntou-lhe. «O que está dizendo?» – «Você não ouviu?», respondeu Domingos. «Aquele carroceiro pronunciou em vão o santo nome de Deus. Se eu tivesse achado útil, teria corrido para adverti-lo a não fazer mais isso; mas, temendo levá-lo a dizer coisas piores, limito-me a tirar o boné e dizer: Louvado seja Jesus Cristo. Faço isso com a intenção de reparar um pouco a injúria feita ao santo nome do Senhor.»

O companheiro admirou a conduta e a coragem de Domingos e ainda hoje gosta de contar esse episódio em honra do amigo e para edificação dos companheiros.

Certa vez, voltando da escola, ouviu um homem já de certa idade proferir uma horrível blasfêmia. O nosso Domingos tremeu ao ouvi-la; louvou a Deus no coração e depois fez uma coisa certamente admirável. Com o maior respeito, correu até o imprudente blasfemador e perguntou-lhe se sabia indicar a casa do Oratório de São Francisco de Sales. Diante daquele rosto de paraíso, o outro deixou de lado aquela espécie de ferocidade e respondeu: «Não sei, meu caro menino; sinto muito.»

– Oh! Se o senhor não sabe isso, poderia fazer-me outro favor.

– Diga, farei com prazer.

Domingos aproximou-se o quanto pôde de seu ouvido e, falando baixo para que ninguém mais entendesse, acrescentou: «O senhor me fará um grande favor se, quando estiver com raiva, disser outras palavras sem blasfemar o santo nome de Deus.»

– Muito bem! – disse o outro, cheio de surpresa e admiração. – Você tem razão; este é um vício maldito que quero vencer a qualquer custo.

Certo dia aconteceu que um menino de talvez nove anos começou a discutir com um companheiro perto da porta da casa e, durante a briga, pronunciou o adorável nome de Jesus Cristo. Domingos, ao ouvir aquela palavra, embora sentisse justa indignação no coração, com espírito sereno colocou-se entre os dois contendores e os acalmou; depois disse ao que havia pronunciado o nome de Deus em vão: «Venha comigo e ficará contente.» Seus bons modos levaram o menino a concordar. Tomou-o pela mão, conduziu-o à igreja, diante do altar, e depois o fez ajoelhar-se ao seu lado, dizendo-lhe: «Peça ao Senhor perdão pela ofensa que lhe fez pronunciando seu nome em vão.» E como o menino não sabia o ato de contrição, recitou-o com ele. Depois acrescentou:

– Diga comigo estas palavras para reparar a injúria feita a Jesus Cristo: «Louvado seja Jesus Cristo, e seu santo e adorável nome seja sempre louvado.»

Lia de preferência a vida daqueles santos que haviam trabalhado de modo especial pela salvação das almas. Falava com prazer dos missionários, que se fatigam tanto em países distantes pelo bem das almas, e, não podendo enviar-lhes ajuda material, oferecia todos os dias ao Senhor alguma oração e, pelo menos uma vez por semana, fazia por eles a santa Comunhão.

Muitas vezes o ouvi exclamar: «Quantas almas esperam nosso auxílio na Inglaterra! Ah, se eu tivesse força e virtude, gostaria de ir para lá imediatamente e, com as pregações e o bom exemplo, queria ganhá-las todas para o Senhor.» Queixava-se muitas vezes consigo mesmo, e frequentemente falava aos companheiros, do pouco zelo que muitos têm por instruir as crianças nas verdades da fé. «Assim que eu for clérigo», dizia, «quero ir a Mondonio, reunir todas as crianças debaixo de um telheiro e ensinar-lhes o catecismo, contar muitos exemplos e torná-las todas santas. Quantas pobres crianças talvez se percam por falta de quem as instrua na fé!» O que dizia em palavras confirmava com os fatos, pois, na medida permitida por sua idade e instrução, fazia com prazer o catecismo na igreja do Oratório; e, se alguém precisava, dava-lhe aula e o instruía no catecismo a qualquer hora do dia e em qualquer dia da semana, com o único objetivo de poder falar de coisas espirituais e fazê-lo compreender a importância de salvar a alma.

Certo dia, um companheiro indiscreto quis interrompê-lo enquanto contava um exemplo durante a recreação. «O que você ganha com essas coisas?», perguntou-lhe. «O que eu ganho?», respondeu. «Ganho porque a alma de meus companheiros foi redimida pelo sangue de Jesus Cristo; ganho porque somos todos irmãos e, como tais, devemos amar reciprocamente nossas almas; ganho porque Deus recomenda que nos ajudemos uns aos outros a nos salvar; ganho porque, se eu conseguir salvar uma alma, colocarei também em segurança a salvação da minha.»

Nem essa solicitude pelo bem das almas diminuía em Domingos durante o breve período de férias que passava na casa paterna. Toda imagem, medalha, crucifixo, livrinho ou outro objeto que tivesse ganho na escola ou no catecismo, ele guardava para servir-se deles durante as férias. Antes mesmo de partir do Oratório, costumava pedir especialmente a seus superiores que lhe dessem objetos semelhantes para alegrar, como dizia, seus amigos de recreação.

Mal chegava à sua terra, logo se via cercado por meninos de sua idade, menores e também maiores, que sentiam verdadeiro prazer em estar com ele. Domingos, distribuindo seus presentes no momento oportuno, estimulava-os a prestar atenção às perguntas que lhes fazia, ora sobre o catecismo, ora sobre seus deveres.

Com esses bons modos conseguia levar vários com ele ao catecismo, à oração, à Missa e a outras práticas de piedade.

Tenho certeza de que empregou bastante tempo para instruir um companheiro. «Se você conseguir», dizia-lhe, «fazer bem o sinal da santa cruz, darei de presente uma medalha e depois pedirei a um padre que lhe dê um belo livro. Mas quero que seja bem feito: enquanto pronuncia as palavras com a boca, a mão direita deve partir da testa, ir ao peito, depois tocar bem o ombro esquerdo e em seguida o direito, terminando por juntar verdadeiramente as mãos ao dizer: Amém.» Desejava ardentemente que este sinal de nossa redenção fosse bem feito e ele mesmo o fazia várias vezes diante deles, convidando os outros a fazer o mesmo.

Além da exatidão no cumprimento de cada um de seus menores deveres, cuidava também de dois irmãozinhos, aos quais ensinava a ler, escrever e recitar o catecismo, assistindo-os nas orações da manhã e da noite. Levava-os à igreja, dava-lhes água benta e mostrava-lhes o verdadeiro modo de fazer o sinal da santa cruz. O tempo que poderia ter passado de um lado para outro em divertimentos, empregava contando exemplos aos familiares ou a outros companheiros dispostos a ouvi-lo. Também em sua terra costumava fazer todos os dias uma visita ao Santíssimo Sacramento; e considerava verdadeiro ganho quando conseguia induzir algum companheiro a acompanhá-lo. Pode-se, portanto, dizer que não se apresentava a ele ocasião de fazer uma boa obra ou dar um bom conselho que tendesse ao bem da alma sem que a aproveitasse.

 

 

CAPÍTULO XII. Episódios e belos modos de conversar com os companheiros

 

O pensamento de ganhar almas para Deus o acompanhava por toda parte. No tempo livre era a alma da recreação; mas tudo o que dizia ou fazia tendia sempre ao bem moral, próprio ou dos outros. Tinha sempre presentes aqueles belos princípios de educação, entre os quais o de não interromper os outros quando falavam. Se, porém, os companheiros ficavam em silêncio, logo propunha questões de escola, de história, de aritmética, e tinha sempre à mão mil historietas que tornavam agradável sua companhia. Se alguém levava a conversa para murmurações ou coisas semelhantes, ele a interrompia e introduzia alguma brincadeira, uma fábula ou outra coisa que fizesse rir; enquanto isso desviava a conversa da murmuração e impedia que entre seus companheiros se ofendesse a Deus.

Seu aspecto alegre e sua índole viva faziam-no querido até pelos companheiros menos inclinados à piedade, de modo que todos gostavam de estar com ele e recebiam de bom grado as advertências que de vez em quando lhes fazia.

Certo dia, um companheiro desejava ir fantasiado, e ele não queria. «Você ficaria contente», dizia-lhe, «se realmente se tornasse aquilo de que quer se vestir, com dois chifres na testa, um nariz de um palmo e roupa de bufão?» «De modo nenhum», respondeu o outro. «Então», acrescentou Domingos, «se você não deseja ter essa aparência, por que quer aparecer assim e desfigurar os belos traços que Deus lhe deu?»

Certa vez, durante a recreação, aconteceu que um homem avançou para o meio dos jovens que se divertiam e, dirigindo-se a um deles, começou a conversar em voz tão alta que todos os presentes podiam ouvir. O astuto, para atraí-los para perto de si, começou contando coisas estranhas para fazê-los rir. Movidos pela curiosidade, em pouco tempo os jovens se amontoaram ao redor dele e, atentos, pendiam de seus lábios para ouvir aquelas extravagâncias. Assim que se viu cercado, fez a conversa cair sobre assuntos religiosos e, como costuma fazer esse tipo de gente, começou a soltar absurdos de fazer horror, ridicularizando as coisas mais santas e desacreditando todas as pessoas eclesiásticas. Alguns dos presentes, não podendo suportar tais impiedades e não ousando opor-se, contentaram-se em retirar-se. Um bom número, porém, continuava imprudentemente a escutá-lo. Por acaso chegou então Sávio. Assim que percebeu de que gênero era aquela conversa, vencendo todo respeito humano, voltou-se imediatamente aos companheiros: «Vamos embora», disse, «deixemos sozinho este infeliz; ele quer roubar-nos a alma.» Os jovens, obedecendo à voz de tão amável e virtuoso companheiro, afastaram-se todos prontamente daquele enviado do demônio. Vendo-se abandonado por todos, ele foi embora e não voltou mais a aparecer.

Outra vez, alguns queriam ir banhar-se; coisa que, se já é perigosa em outros lugares, o é muito mais nos arredores de Turim, onde, sem falar dos perigos para a moralidade, encontram-se águas tão profundas e impetuosas que frequentemente os jovens se tornam infelizes vítimas do banho. Domingos percebeu e procurava entretê-los, contando ora uma novidade, ora outra. Mas, quando os viu decididos a ir de qualquer maneira, começou a falar resolutamente: «Não», disse, «eu não quero que vocês vão.»

– Nós não estamos fazendo nada de mal.

– Vocês desobedecem aos superiores, expõem-se ao perigo de dar ou receber escândalo e de morrer afogados, e isso não é mal?

– Mas estamos com um calor que já não aguentamos.

– Se vocês não conseguem mais suportar o calor deste mundo, conseguirão suportar depois o terrível calor do inferno, que estão indo merecer?

Movidos por essas palavras, mudaram de propósito, puseram-se a recrear-se com ele e, na hora devida, foram à igreja assistir às funções sagradas.

Alguns outros jovens do Oratório, desejosos do bem dos companheiros, uniram-se numa espécie de sociedade para trabalhar pela conversão dos indisciplinados. Sávio fazia parte dela e era dos mais zelosos. Se tinha um doce, uma fruta, uma cruz, uma imagem ou coisa semelhante, reservava-a para esse fim. «Quem quer? Quem quer?», ia dizendo. «Eu! Eu!», gritavam todos, correndo para ele. «Devagar», dizia, «quero dar a quem responder melhor a uma pergunta de catecismo.» Então interrogava justamente os mais indisciplinados e, assim que davam uma resposta um pouco satisfatória, fazia-lhes aquele pequeno presente.

Outros eram conquistados de outras maneiras: ele os procurava, convidava-os a passear consigo, fazia-os conversar e, se fosse preciso, brincava com eles. Às vezes foi visto com um grande bastão sobre os ombros, parecendo Hércules com a clava, jogando à rana, vulgarmente chamada cirimella, e mostrando-se perdidamente afeiçoado ao jogo. Mas, de repente, suspendia a partida e dizia ao companheiro: «Quer que no sábado a gente vá se confessar?» O outro, por causa da distância do dia, para retomar o jogo e também para agradá-lo, respondia que sim. Domingos já tinha o bastante e continuava a brincadeira. Mas não o perdia mais de vista: todos os dias, por um motivo ou por outro, recordava-lhe aquele sim e ia insinuando o modo de se confessar bem. Chegado o sábado, como caçador que apanhou boa presa, acompanhava-o à igreja, precedia-o na confissão, geralmente avisava antes o confessor e ficava com ele depois para fazer a ação de graças. Esses fatos, que eram frequentes, davam-lhe a maior consolação e traziam grande proveito aos companheiros; pois muitas vezes acontecia que alguém não tirava fruto algum de uma pregação ouvida na igreja, mas se rendia às piedosas insinuações de Domingos.

Acontecia às vezes que alguém o iludia durante toda a semana e, no sábado, na hora de se confessar, não se deixava mais ver. Quando o encontrava de novo, quase brincando dizia: «Eh, malandro! Você me enganou.» «Mas veja», respondia o outro, «eu não estava disposto, não me sentia…» «Pobrezinho», acrescentava Domingos, «você cedeu ao demônio, que estava muito bem disposto a recebê-lo; mas agora você está ainda mais indisposto, e até o vejo de mau humor. Vamos, experimente ir se confessar, faça um esforço e procure confessar-se bem, e verá de quanta alegria ficará cheio o seu coração.» Na maioria das vezes, depois que aquele se confessava, ia logo ao encontro de Domingos com o coração cheio de contentamento: «É verdade», dizia, «estou realmente contente; daqui em diante quero me confessar com mais frequência.»

Nas comunidades de jovens costuma haver alguns que, por serem um pouco rudes, ignorantes, menos educados ou atormentados por alguma tristeza, são geralmente deixados de lado pelos companheiros. Esses sentem o peso do abandono justamente quando mais precisariam do conforto de um amigo.

Esses eram os amigos de Domingos. Aproximava-se deles, alegrava-os com alguma boa conversa e dava-lhes bons conselhos; por isso aconteceu muitas vezes que jovens decididos a entregar-se à desordem, animados pelas palavras caridosas de Sávio, voltavam a bons sentimentos.

Por esse motivo, todos os que tinham algum problema de saúde pediam Domingos como enfermeiro, e os que tinham alguma aflição sentiam consolo ao expô-la a ele. Assim tinha o caminho aberto para exercer continuamente a caridade para com o próximo e aumentar seus méritos diante de Deus.

 

 

CAPÍTULO XIII. Seu espírito de oração – Devoção à Mãe de Deus – O mês de Maria

 

Entre os dons com que Deus o enriqueceu, destacava-se o fervor na oração. Seu espírito estava tão habituado a conversar com Deus que, em qualquer lugar, mesmo em meio aos mais ruidosos tumultos, recolhia os pensamentos e, com piedosos afetos, elevava o coração a Deus.

Quando se punha a rezar em comum, parecia verdadeiramente um anjinho: imóvel e inteiramente composto em atitude devota, sem se apoiar em lugar algum além dos joelhos, com o rosto sereno, a cabeça um pouco inclinada e os olhos baixos; dir-se-ia outro São Luís.

Bastava vê-lo para ficar edificado. No ano de 1854, o senhor conde Cays foi eleito prior da Companhia de São Luís, erigida neste Oratório. Na primeira vez em que participou de nossas funções, viu um jovem rezando com atitude tão devota que ficou cheio de admiração. Terminadas as funções sagradas, quis informar-se e saber quem era aquele menino que havia sido objeto de sua admiração: era Domingos Sávio.

Até sua recreação era quase sempre dividida pela metade; uma parte era geralmente passada em alguma leitura piedosa ou em alguma oração que ia fazer na igreja com alguns companheiros, em sufrágio das almas do purgatório ou em honra de Maria Santíssima.

A devoção de Domingos à Mãe de Deus era muito grande. Em honra dela fazia todos os dias alguma mortificação. Nunca fitava no rosto pessoas do outro sexo; indo à escola, nunca levantava os olhos. Às vezes passava perto de espetáculos públicos, que os companheiros olhavam com tanta ansiedade que já não sabiam onde estavam. Perguntado se aqueles espetáculos lhe tinham agradado, Sávio respondia que nada havia visto. Certa vez, um companheiro, quase irritado, repreendeu-o dizendo: «Então, para que você quer os olhos, se não os usa para olhar essas coisas?» «Quero usá-los», respondeu, «para contemplar o rosto de nossa Mãe celestial Maria quando, se com a ajuda de Deus eu for digno, for encontrá-la no paraíso.»

Tinha especial devoção ao Imaculado Coração de Maria. Todas as vezes que ia à igreja, dirigia-se diante do altar dela para pedir-lhe a graça de conservar o coração sempre longe de todo afeto impuro. «Maria», dizia, «quero ser sempre vosso filho: obtende-me morrer antes que eu cometa um pecado contrário à virtude da modéstia.»

Todas as sextas-feiras escolhia um período da recreação e ia à igreja com outros companheiros para recitar a coroa das sete dores de Maria, ou pelo menos as ladainhas de Nossa Senhora das Dores.

Não só ele era devoto de Maria Santíssima, mas sentia grande alegria quando podia levar alguém a praticar atos de piedade em honra dela. Certo sábado havia convidado um companheiro a ir com ele à igreja recitar as vésperas da Bem-Aventurada Virgem. O outro cedia de má vontade, alegando que estava com frio nas mãos. Domingos tirou as luvas e lhas deu, e assim foram ambos à igreja. Outra vez tirou a pequena capa dos próprios ombros para emprestá-la a outro, a fim de que fosse de boa vontade com ele à igreja rezar. Quem não se sente tomado de admiração diante de tais atos de generosa piedade?

Em nenhum período Domingos se mostrava mais fervoroso para com Maria, nossa celeste protetora, do que no mês de maio. Combinava com outros fazer todos os dias daquele mês alguma prática particular, além do que se realizava publicamente na igreja. Preparava uma série de exemplos edificantes que contava com grande prazer para animar os outros a serem devotos de Maria. Falava dela frequentemente durante a recreação e animava todos a confessar-se e frequentar a santa Comunhão, especialmente naquele mês. Dava ele próprio o exemplo, aproximando-se todos os dias da mesa eucarística com um recolhimento que não poderia ser maior.

Um curioso episódio mostra a ternura de seu coração para com a devoção a Maria. Os alunos do dormitório onde ele dormia decidiram fazer, às próprias custas, um pequeno altar elegante para solenizar o encerramento do mês de Maria. Domingos estava inteiramente ocupado com o assunto; mas, quando se chegou à quota que cada um devia pagar, exclamou: «Ai de mim! Agora estamos bem! Para essas coisas é preciso dinheiro, e eu não tenho nenhum centavo no bolso. Mesmo assim quero fazer alguma coisa a qualquer custo.» Foi, pegou um livro que recebera como prêmio e, depois de pedir licença ao superior, voltou cheio de alegria dizendo: «Companheiros, agora também posso contribuir para honrar Maria: peguem este livro e tirem dele a utilidade que puderem; esta é a minha oferta.»

À vista daquele ato espontâneo e tão generoso, os companheiros se comoveram e quiseram também oferecer livros e outros objetos. Com eles foi feita uma pequena rifa, cujo resultado foi suficiente para cobrir as despesas necessárias.

Terminado o altar, os jovens desejavam celebrar sua festa com a maior solenidade. Todos se empenhavam muito, mas, como não fora possível terminar completamente a ornamentação, era necessário trabalhar durante a noite anterior à festa. «Eu», disse Sávio, «passarei de bom grado a noite trabalhando.» Mas seus companheiros, porque havia pouco tempo ele estivera doente, obrigaram-no a ir deitar-se. Ele não queria ceder e só foi para a cama por obediência. «Ao menos», disse a um dos companheiros, «assim que tudo estiver terminado, venha logo me acordar, para que eu possa ser dos primeiros a contemplar o altar preparado em honra de nossa querida Mãe.»

 

 

CAPÍTULO XIV. Sua frequência aos santos Sacramentos da Confissão e da Comunhão

 

A experiência comprova que os mais sólidos sustentáculos da juventude são os sacramentos da Confissão e da Comunhão. Dai-me um jovem que frequente esses Sacramentos, e o vereis crescer na juventude, chegar à idade adulta e alcançar, se assim agradar a Deus, a mais avançada velhice com uma conduta que serve de exemplo a todos os que o conhecem. Compreendam esta máxima os jovens, para praticá-la; compreendam-na todos os que se ocupam de sua educação, para recomendá-la.

Antes que Sávio viesse morar no Oratório, frequentava esses dois Sacramentos uma vez por mês, segundo o costume das escolas. Depois passou a frequentá-los com muito maior assiduidade. Certo dia ouviu do púlpito esta máxima: «Jovens, se quereis perseverar no caminho do céu, recomendam-se três coisas: aproximai-vos frequentemente do sacramento da Confissão, frequentai a santa Comunhão e escolhei um confessor a quem ouseis abrir o coração, mas não o troqueis sem necessidade.» Domingos compreendeu a importância desses conselhos.

Começou então a escolher para si um confessor, que conservou regularmente durante todo o tempo em que permaneceu entre nós. Para que este pudesse formar um juízo exato de sua consciência, quis, como se disse, fazer a confissão geral. Começou confessando-se a cada quinze dias, depois a cada oito dias, comungando com a mesma frequência. O confessor, observando o grande progresso que fazia nas coisas espirituais, aconselhou-o a comungar três vezes por semana e, no espaço de um ano, permitiu-lhe também a Comunhão diária.

Durante algum tempo foi dominado por escrúpulos; por isso queria confessar-se a cada quatro dias e até com maior frequência; mas seu diretor espiritual não o permitiu e o manteve na obediência da confissão semanal.

Tinha com ele confiança ilimitada. Falava-lhe com toda simplicidade das coisas de consciência até mesmo fora da confissão. Alguém o aconselhara a mudar de confessor de vez em quando, mas ele nunca quis ceder. «O confessor», dizia, «é o médico da alma, e não se costuma mudar de médico senão por falta de confiança nele ou porque a doença está quase sem esperança. Eu não me encontro em nenhum desses casos. Tenho plena confiança no confessor, que com bondade paterna e solicitude trabalha pelo bem de minha alma; e não vejo em mim mal algum que ele não possa curar.» Contudo, o diretor ordinário aconselhou-o a mudar de confessor algumas vezes, especialmente por ocasião dos exercícios espirituais; e ele, sem apresentar dificuldade, obedecia prontamente.

Sávio sentia-se feliz. «Se tenho alguma pena no coração», dizia, «vou ao confessor, que me aconselha segundo a vontade de Deus; pois Jesus Cristo disse que a voz do confessor para nós é como a voz de Deus. Se depois quero alguma coisa grande, vou receber a Hóstia santa, na qual se encontra corpus quod pro nobis traditum est, isto é, aquele mesmo corpo, sangue, alma e divindade que Jesus Cristo ofereceu por nós ao seu Eterno Pai na cruz. O que me falta para ser feliz? Nada neste mundo. Falta-me apenas poder contemplar face a face no céu aquele que agora, com os olhos da fé, vejo e adoro no altar.»

Com esses pensamentos Domingos passava dias verdadeiramente felizes. Daí nascia aquela jovialidade, aquela alegria celeste que transparecia em todas as suas ações. E não pensemos que ele não compreendesse a importância do que fazia nem levasse um modo de vida cristão adequado a quem deseja comungar com frequência. Sua conduta era irrepreensível sob todos os aspectos. Convidei seus companheiros a dizer-me se, nos três anos em que morou entre nós, haviam notado em Sávio algum defeito a corrigir ou alguma virtude a recomendar-lhe; mas todos afirmaram de comum acordo que nunca encontraram nele coisa que merecesse correção, nem saberiam que virtude acrescentar-lhe.

Sua preparação para receber a santa Eucaristia era piedosa e edificante. Na noite anterior à Comunhão, antes de se deitar, fazia uma oração com esse fim e concluía sempre assim: «Seja louvado e agradecido a todo momento o Santíssimo e Diviníssimo Sacramento.» Pela manhã fazia uma preparação suficiente; mas sua ação de graças não tinha limite. Na maioria das vezes, se não fosse chamado, esquecia o café da manhã, a recreação e às vezes até a aula, permanecendo em oração; ou melhor, em contemplação da divina bondade que de modo inefável comunica aos homens os tesouros de sua infinita misericórdia.

Era para ele verdadeira delícia poder passar algumas horas diante de Jesus sacramentado. Pelo menos uma vez ao dia ia invariavelmente visitá-lo, convidando outros a acompanhá-lo. Sua oração predileta era uma pequena coroa[8] ao Sagrado Coração de Jesus, para reparar as injúrias que recebe dos hereges, dos infiéis e dos maus cristãos.

Para que suas Comunhões fossem mais frutuosas e, ao mesmo tempo, cada dia lhe dessem novo estímulo a fazê-las com fervor, havia estabelecido para cada dia uma intenção especial.

Eis como distribuía as Comunhões durante a semana.

 

Domingo. Em honra da Santíssima Trindade.

Segunda-feira. Por meus benfeitores espirituais e temporais.

Terça-feira. Em honra de São Domingos e de meu Anjo da Guarda.

Quarta-feira. A Nossa Senhora das Dores, pela conversão dos pecadores.

Quinta-feira. Em sufrágio das almas do purgatório.

Sexta-feira. Em honra da Paixão de Jesus Cristo.

Sábado. Em honra de Maria Santíssima, para obter sua proteção na vida e na morte.

 

Participava com transporte de alegria de todas as práticas relacionadas ao Santíssimo Sacramento. Se acontecia encontrar o Viático sendo levado a algum enfermo, ajoelhava-se imediatamente onde quer que estivesse; e, se o tempo lhe permitia, acompanhava-o até o término da função.

Certo dia o Viático passou perto dele enquanto chovia e as ruas estavam enlameadas. Não havendo lugar melhor, ajoelhou-se no meio da lama. Depois um companheiro o repreendeu, observando-lhe que não era necessário sujar assim as roupas, nem o Senhor mandava tal coisa. Ele respondeu simplesmente: «Joelhos e calças, tudo é do Senhor; por isso tudo deve servir para prestar-lhe honra e glória. Quando Ele passa perto de mim, não só me lançaria na lama para honrá-lo, mas me precipitaria numa fornalha, porque assim me tornaria participante daquele fogo de caridade infinita que o levou a instituir este grande Sacramento.»

Em circunstância semelhante, viu um dia um soldado que permanecia de pé justamente no momento em que passava perto dele o Santíssimo Sacramento. Não ousando convidá-lo a ajoelhar-se, tirou do bolso seu pequeno lenço, estendeu-o no chão sujo e fez sinal ao soldado para que o utilizasse. O soldado mostrou-se primeiro confuso; depois, deixando de lado o lenço, ajoelhou-se no meio da própria rua.

Na festa de Corpus Christi, juntamente com outros companheiros, foi vestido de clérigo e enviado à procissão da paróquia. Foi com a maior alegria e considerou isso um presente precioso, maior do que qualquer outro que se lhe pudesse fazer.

 

 

CAPÍTULO XV. Suas penitências

 

Sua idade, a saúde delicada e a inocência de sua vida certamente o teriam dispensado de toda espécie de penitência; mas ele sabia que dificilmente um jovem pode conservar a inocência sem penitência, e esse pensamento fazia com que a vida de sofrimentos lhe parecesse coberta de rosas. Quando falo de penitência, não me refiro a suportar pacientemente as injúrias e os desgostos, nem à contínua mortificação e compostura de todos os seus sentidos na oração, na escola, no estudo e na recreação. Essas penitências eram nele contínuas.

Falo somente das penitências que afligem o corpo. Em seu fervor havia decidido jejuar todos os sábados a pão e água em honra da Bem-Aventurada Virgem, mas o confessor o proibiu; quis jejuar durante a Quaresma, mas depois de uma semana a coisa chegou ao conhecimento do diretor da casa e foi imediatamente proibida. Queria pelo menos deixar de tomar o café da manhã, mas também isso lhe foi proibido. A razão pela qual não se permitiam essas penitências era impedir que sua saúde delicada se arruinasse inteiramente. O que fazer então? Proibido de fazer abstinência na comida, começou a afligir o corpo de outras maneiras. Passou a colocar lascas de madeira e pedaços de tijolo na cama para tornar incômodo o próprio repouso; queria usar uma espécie de cilício; mas todas essas coisas também lhe foram proibidas. Então recorreu a um novo meio. No outono e no inverno deixou avançar a estação sem aumentar as cobertas da cama, de modo que já estávamos em janeiro e ele ainda se cobria como no verão. Uma manhã, tendo ficado na cama por algum mal-estar, o diretor foi visitá-lo. Vendo-o todo encolhido, aproximou-se e percebeu que não tinha sobre si senão uma coberta fina. «Por que você fez isso?», perguntou-lhe. «Quer morrer de frio?» – «Não», respondeu, «não morrerei de frio. Jesus, na gruta de Belém e quando pendia na cruz, estava menos coberto do que eu.»

Então lhe foi absolutamente proibido empreender qualquer espécie de penitência sem antes pedir licença expressa; a essa ordem, embora com pesar, submeteu-se. Certa vez encontrei-o muito aflito, exclamando: «Pobre de mim! Estou realmente embaraçado. O Salvador diz que, se eu não fizer penitência, não irei ao paraíso; e a mim é proibido fazê-la. Qual será, então, o meu paraíso?»

– A penitência que o Senhor quer de você – disse-lhe – é a obediência. Obedeça, e isso basta.

– Não poderia permitir-me alguma outra penitência?

– Sim: são permitidas as penitências de suportar pacientemente as injúrias, se alguma lhe for feita; tolerar com resignação o calor, o frio, o vento, a chuva, o cansaço e todos os incômodos de saúde que Deus quiser enviar-lhe.

– Mas isso se sofre por necessidade.

– Aquilo que você teria de sofrer por necessidade, ofereça-o a Deus, e se tornará virtude e mérito para sua alma.

Contente e resignado com esses conselhos, foi embora tranquilo.

 

 

CAPÍTULO XVI. Mortificações de todos os sentidos externos

 

Quem observava Sávio em sua compostura exterior encontrava nela tanta naturalidade que facilmente teria dito que o Senhor o havia criado assim. Mas aqueles que o conheceram de perto ou tiveram cuidado de sua educação podem assegurar que havia grande esforço humano auxiliado pela graça de Deus.

Seus olhos eram vivíssimos, e ele precisava fazer não pequena violência a si mesmo para mantê-los recolhidos. «No começo», repetiu várias vezes a um amigo, «quando me impus a lei de querer absolutamente dominar meus olhos, encontrei bastante dificuldade e, às vezes, cheguei a sofrer fortes dores de cabeça.» A reserva de seus olhares foi tal que, entre todos os que o conheceram, ninguém se recorda de tê-lo visto lançar um único olhar que ultrapassasse os limites da mais rigorosa modéstia. «Os olhos», costumava dizer, «são duas janelas. Pelas janelas passa aquilo que deixamos passar. E por estas janelas podemos fazer entrar um anjo ou o demônio com seus chifres e levar um ou outro a tornar-se senhor de nosso coração.»

Certo dia aconteceu que um jovem de fora, imprudentemente, trouxe consigo um jornal em que havia figuras indecentes e irreligiosas. Uma multidão de meninos o cercou para ver as maravilhas daquelas figuras, que teriam causado repugnância até aos turcos e aos próprios pagãos. Sávio também correu, pensando de longe que ali mostravam alguma imagem devota.

Mas, quando chegou perto, fez um gesto de surpresa e depois, quase sorrindo, pegou o papel e o rasgou em pedacinhos. Seus companheiros ficaram cheios de espanto, de modo que uns olhavam para os outros sem falar.

Então ele falou assim: «Pobres de nós! O Senhor nos deu os olhos para contemplar a beleza das coisas criadas por Ele, e vocês os usam para olhar essas indecências inventadas pela malícia dos homens em prejuízo de nossa alma? Talvez tenham esquecido o que tantas vezes foi pregado? O Salvador nos diz que, lançando um só olhar mau, manchamos nossa alma de culpa; e vocês alimentam os olhos com objetos desse gênero?»

«Nós», respondeu um, «estávamos olhando essas figuras para rir.» «Sim, sim, para rir; e enquanto isso vocês se preparam para ir ao inferno rindo… Mas ainda rirão se tiverem a desgraça de cair lá?»

«Mas nós», retomou outro, «não vemos tanto mal naquelas figuras.»

«Pior ainda; não enxergar grande mal em olhar semelhantes indecências é sinal de que os olhos de vocês já se acostumaram a contemplá-las; e esses hábitos não os desculpam do mal, mas os tornam mais culpados.»

«Ó Jó, ó Jó! Você era velho, era santo, estava oprimido por uma doença que o fazia jazer estendido sobre um monte de esterco; e, apesar disso, fez um pacto com seus olhos para não lhes conceder a mínima liberdade diante de coisas indecorosas!»

Diante dessas palavras todos se calaram, e ninguém mais ousou fazer-lhe repreensão alguma, nem sequer outra observação.

À modéstia dos olhos unia-se grande reserva no falar.

Com razão ou sem ela, quando alguém falava, ele se calava e muitas vezes interrompia a própria palavra para dar lugar ao outro. Seus professores e demais superiores são unânimes em afirmar que nunca tiveram motivo sequer para adverti-lo por ter dito uma única palavra fora de propósito no estudo, na escola, na igreja ou durante o cumprimento de algum dever de estudo ou de piedade. Mesmo nas ocasiões em que recebia alguma afronta, sabia moderar a língua e a cólera.

Certo dia advertira um companheiro sobre um mau hábito. Este, em vez de acolher com gratidão a advertência recebida, deixou-se levar a excessos brutais. Cobriu-o de insultos e depois o golpeou com socos e pontapés. Sávio poderia ter feito valer sua razão pela força, pois era maior em idade e em vigor. Contudo, não fez outra vingança senão a dos cristãos. Ficou, é verdade, com o rosto todo vermelho, mas, contendo o ímpeto da ira, limitou-se a dizer: «Eu perdoo você; você agiu mal; não trate os outros desse modo.»

O que diremos, então, da mortificação dos outros sentidos do corpo? Limito-me a indicar apenas alguns fatos.

No inverno sofria de frieiras nas mãos. Mas, por mais que sentisse dor, nunca foi ouvido dizer uma palavra nem dar sinal de queixa. Ao contrário, parecia até sentir prazer nisso. «Quanto maiores forem as frieiras», dizia, «mais farão bem à saúde», querendo indicar a saúde da alma. Muitos de seus companheiros afirmam que, nos rigorosos frios do inverno, costumava ir à escola a passo lento, e isso pelo desejo de sofrer e fazer penitência em tudo o que lhe oferecesse ocasião. «Várias vezes o vi», depõe um companheiro, «no mais rigoroso inverno, rasgar a pele e até a carne com agulhas e pontas de pena, para que essas lacerações, transformando-se em feridas, o tornassem mais semelhante ao seu Divino Mestre.»

Nas comunidades de jovens encontram-se alguns que nunca estão satisfeitos com nada. Ora se queixam das funções religiosas, ora da disciplina, ora do repouso ou da comida; em tudo encontram motivo para desaprovar.

Esses são uma verdadeira cruz para os superiores, porque o descontentamento de um só se comunica aos outros companheiros, às vezes com não pequeno prejuízo para a comunidade. A conduta de Sávio era inteiramente oposta à desses jovens.

Jamais seus lábios proferiam uma palavra de queixa, nem pelo calor do verão, nem pelo frio do inverno. Fizesse bom ou mau tempo, estava sempre igualmente alegre. Qualquer que fosse a comida servida à mesa, mostrava-se satisfeito com tudo. Antes, com admirável habilidade, encontrava nisso um meio de mortificar-se. Quando alguma coisa era censurada pelos outros por estar cozida demais ou de menos, pouco ou muito salgada, ele, ao contrário, mostrava-se contente, dizendo que era justamente assim que gostava.

Era seu costume permanecer no refeitório depois dos companheiros, recolher as migalhas de pão deixadas sobre a mesa ou espalhadas pelo chão e comê-las como coisa saborosa. Aos que se admiravam disso, ocultava seu espírito de penitência dizendo: «Os pães não se comem inteiros; e, se já estão reduzidos a migalhas, é um trabalho que já foi feito para os dentes.»

Toda sobra de sopa, prato ou qualquer outro alimento era recolhida e comida por ele. E não fazia isso por gula, pois muitas vezes dava aos outros companheiros a própria porção.

Perguntado por que se preocupava tanto em recolher aqueles restos que poderiam causar repugnância a alguém, respondia:

«Tudo o que temos no mundo é dom precioso que Deus nos fez; mas, de todos os dons, depois de sua santa graça, o maior é o alimento com que conserva nossa vida. Por isso, a menor parte desse dom merece nossa gratidão e é verdadeiramente digna de ser guardada com a mais escrupulosa diligência.»

Limpar os sapatos, escovar a roupa dos companheiros, prestar aos enfermos os serviços mais humildes, varrer e fazer trabalhos semelhantes eram para ele agradável passatempo. «Cada um faça o que pode», costumava dizer. «Eu não sou capaz de fazer coisas grandes, mas aquilo que posso, quero fazê-lo para maior glória de Deus; e espero que Deus, em sua infinita bondade, queira aceitar estas minhas pobres ofertas.»

Comer coisas contrárias ao seu gosto, evitar as que lhe agradariam; dominar o olhar até nas coisas indiferentes; permanecer onde sentia cheiro desagradável; renunciar à própria vontade; suportar com perfeita resignação tudo o que causasse aflição ao corpo ou ao espírito: eram atos de virtude que Domingos praticava todos os dias e podemos dizer até a cada momento de sua vida.

Omito, portanto, muitos outros fatos desse gênero, todos concorrendo para mostrar quão grande era em Domingos o espírito de penitência, de caridade e de mortificação em todos os sentidos da pessoa e, ao mesmo tempo, quão engenhosa era sua virtude em saber aproveitar as grandes e pequenas ocasiões, e até as próprias coisas indiferentes, para santificar-se e aumentar seus méritos diante do Senhor.

 

 

CAPÍTULO XVII. A Companhia da Imaculada Conceição

 

Toda a vida de Domingos pode ser chamada um exercício de devoção a Maria Santíssima. Não deixava escapar ocasião alguma de prestar-lhe alguma homenagem. No ano de 1854, o supremo Pastor da Igreja definia como dogma de fé a Imaculada Conceição de Maria. Sávio desejava ardentemente tornar vivo e duradouro entre nós o pensamento desse augusto título dado pela Igreja à Rainha do Céu. «Eu gostaria», costumava dizer, «de fazer alguma coisa em honra de Maria, mas fazê-la depressa, porque tenho medo de que me falte tempo.»

Guiado, portanto, por sua habitual e engenhosa caridade, escolheu alguns de seus companheiros de confiança e convidou-os a unir-se com ele para formar uma companhia chamada da Imaculada Conceição.

       O objetivo era procurar para si a proteção da grande Mãe de Deus durante a vida e especialmente no momento da morte. Para esse fim, Sávio propunha dois meios: praticar e promover atos de piedade em honra de Maria Imaculada e a Comunhão frequente. De acordo com seus amigos, redigiu um regulamento e, depois de muitas diligências, no dia 8 de junho de 1856, nove meses antes de sua morte, leu-o com eles diante do altar de Maria Santíssima. Transcrevo-o de bom grado, pensando que possa servir de norma a outros para fazer o mesmo. Eis, portanto, seu teor.

 

«Nós, Domingos Sávio etc. (segue o nome dos outros companheiros), para assegurarmos, na vida e na morte, o patrocínio da Bem-Aventurada Virgem Imaculada e para nos dedicarmos inteiramente ao seu santo serviço, no dia 8 de junho, todos fortalecidos pelos SS. Sacramentos da Confissão e da Comunhão e resolvidos a professar para com nossa Mãe uma devoção filial e constante, declaramos diante de seu altar, e com o consentimento de nosso diretor espiritual, querer imitar, na medida em que nossas forças o permitirem, LUÍS COMOLLO[9].

 

Por isso nos obrigamos:

 

1º A observar rigorosamente as regras da casa.

2º A edificar os companheiros, advertindo-os caridosamente e estimulando-os ao bem com as palavras, mas muito mais com o bom exemplo.

3º A empregar exatamente o tempo. Para assegurar-nos a perseverança no modo de vida a que pretendemos obrigar-nos, submetemos o seguinte regulamento ao nosso diretor.

    N. 1. Como regra principal adotaremos rigorosa obediência aos nossos superiores, aos quais nos submetemos com confiança ilimitada.

    N. 2. O cumprimento dos próprios deveres será nossa primeira e especial ocupação.

    N. 3. A caridade recíproca unirá nossos corações e nos fará amar indistintamente nossos irmãos, os quais advertiremos com doçura quando parecer útil uma correção.

    N. 4. Escolher-se-á meia hora por semana para nos reunirmos e, depois da invocação do Espírito Santo e de uma breve leitura espiritual, serão tratados os progressos da Companhia na devoção e na virtude.

    N. 5. Separadamente, porém, advertir-nos-emos daqueles defeitos dos quais devemos corrigir-nos.

    N. 6. Procuraremos evitar entre nós qualquer mínimo desgosto, suportando com paciência os companheiros e as demais pessoas incômodas.

    N. 7. Não se fixa nenhuma oração determinada, pois o tempo que restar depois de cumprido nosso dever será consagrado àquilo que parecer mais útil à nossa alma.

    N. 8. Admitimos, contudo, estas poucas práticas:

    § 1º A frequência aos SS. Sacramentos, tão frequentemente quanto nos for permitido.

    § 2º Aproximar-nos-emos da Mesa Eucarística todos os domingos, festas de preceito, em todas as novenas e solenidades de Maria Santíssima e dos santos Protetores do Oratório.

    § 3º Durante a semana procuraremos comungar na quinta-feira, a menos que alguma ocupação grave nos impeça.

    N. 9. Todos os dias, especialmente durante a recitação do Rosário, recomendaremos nossa sociedade a Maria, pedindo-lhe que nos obtenha a graça da perseverança.

    N. 10. Procuraremos consagrar todos os sábados, em honra de Maria, alguma prática especial ou ato de piedade cristã em honra de sua Imaculada Conceição.

    N. 11. Manteremos, portanto, comportamento ainda mais edificante na oração, nas leituras devotas, durante os ofícios divinos, no estudo e na escola.

    N. 12. Guardaremos com o máximo zelo a santa palavra de Deus e voltaremos a meditar as verdades que tivermos ouvido.

    N. 13. Evitaremos qualquer perda de tempo para proteger nosso espírito das tentações que costumam atacar-nos fortemente no ócio; por isso:

    N. 14. Depois de satisfazer às obrigações próprias de cada um, consagraremos as horas que restarem livres a ocupações úteis, como leituras devotas e instrutivas ou a oração.

    N. 15. A recreação é recomendada ou pelo menos permitida depois das refeições, depois da escola e depois do estudo.

    N. 16. Procuraremos manifestar aos nossos superiores qualquer coisa que possa favorecer nossa conduta moral.

    N. 17. Procuraremos também economizar muito no uso das permissões que nos são concedidas pela bondade de nossos superiores, pois um de nossos objetivos especiais é certamente a exata observância das regras da casa, tantas vezes prejudicada pelo abuso dessas permissões.

    N. 18. Aceitaremos de nossos superiores aquilo que for destinado ao nosso alimento, sem jamais nos queixarmos da comida servida à mesa, e procuraremos impedir também os outros de fazê-lo.

    N. 19. Quem desejar fazer parte desta sociedade deverá antes de tudo purificar a consciência pelo Sacramento da Confissão e alimentar-se à Mesa Eucarística; depois deverá dar prova de sua conduta durante uma semana de experiência, ler atentamente estas regras e prometer sua exata observância a Deus e a Maria Santíssima Imaculada.

    N. 20. No dia de sua admissão, os irmãos aproximar-se-ão da santa Comunhão, pedindo à Divina Majestade que conceda ao companheiro as virtudes da perseverança, da obediência e o verdadeiro amor de Deus.

    N. 21. A sociedade é colocada sob os auspícios da Imaculada Conceição, cujo título teremos e de quem usaremos uma medalha devota. Uma confiança sincera, filial e ilimitada em Maria, uma singular ternura para com ela e uma devoção constante nos tornarão superiores a todo obstáculo, firmes nas resoluções, rigorosos conosco mesmos, amorosos com o próximo e exatos em tudo.

    Aconselhamos ainda aos irmãos que escrevam os santos nomes de Jesus e de Maria primeiro no coração e na mente, depois nos livros e sobre os objetos que possam cair sob os olhos.

    Pedimos ao nosso diretor que examine estas regras e nos manifeste seu juízo a respeito delas, assegurando-lhe que todos nós dependemos inteiramente de sua vontade. Ele poderá introduzir neste regulamento as modificações que lhe parecerem convenientes.

    E Maria? Que ela abençoe nossos esforços, pois a inspiração de dar vida a esta piedosa sociedade foi inteiramente sua. Que ela sorria para nossas esperanças e atenda a nossos votos; e nós, cobertos por seu manto e fortalecidos por seu patrocínio, desafiaremos as tempestades deste mar traiçoeiro e superaremos os assaltos do inimigo infernal. Assim confortados por ela, esperamos ser edificação para os companheiros, consolação para os superiores e filhos prediletos de Maria; e, se Deus nos conceder graça e vida para servi-lo no ministério sacerdotal, empenharemos todas as nossas forças em fazê-lo com o máximo zelo e, desconfiando de nossas forças mas confiando ilimitadamente no auxílio divino, poderemos esperar que, depois deste vale de lágrimas, consolados pela presença de Maria, alcancemos com segurança, naquela última hora, a recompensa eterna que Deus reserva a quem o serve em espírito e verdade.

    O diretor do Oratório leu, de fato, o regulamento de vida acima exposto e, depois de examiná-lo atentamente, aprovou-o com as seguintes condições:

    1. As promessas mencionadas não têm força de voto.
    2. Também não obrigam sob pena de culpa alguma.
    3. Nas conferências estabeleça-se alguma obra externa de caridade, como a limpeza da igreja, a assistência ou o catecismo de algum menino mais ignorante.
    4. Dividam-se os dias da semana de modo que em cada dia haja algumas Comunhões.
    5. Não se acrescente nenhuma prática religiosa sem especial permissão dos superiores.
    6. Proponha-se como objetivo fundamental promover a devoção a Maria Santíssima Imaculada e ao Santíssimo Sacramento.
    7. Antes de admitir alguém, faça-se que leia a vida de Luís Comollo[10].

     

     

    CAPÍTULO XVIII. Suas amizades particulares – Suas relações com o jovem Camilo Gávio

     

    Todos eram amigos de Domingos; quem não o amava respeitava-o por suas virtudes. Ele sabia conviver bem com todos. Estava tão firme na virtude que foi aconselhado a aproximar-se de alguns jovens um tanto indisciplinados para tentar ganhá-los para o Senhor. Aproveitava a recreação, os jogos e até as conversas indiferentes para tirar delas algum proveito espiritual. Entretanto, os inscritos na sociedade da Imaculada Conceição eram seus amigos particulares, com os quais, como se disse, reunia-se ora em conferências espirituais, ora para realizar exercícios de piedade cristã. Essas conferências eram feitas com licença dos superiores, mas eram assistidas e dirigidas pelos próprios jovens. Nelas tratavam do modo de celebrar as novenas das principais solenidades, distribuíam entre si as Comunhões que cada um se encarregaria de fazer nos dias determinados da semana, designavam reciprocamente os jovens que necessitavam de assistência moral, e cada um tomava algum deles como cliente e protegido, empregando todos os meios sugeridos pela caridade cristã para encaminhá-lo à virtude.

    Sávio era um dos mais animados e pode-se dizer que nessas conferências fazia o papel de mestre.

    Poder-se-iam mencionar vários companheiros de Sávio que participavam dessas conferências e tinham grande convivência com ele; mas, estando ainda vivos, parece prudente não falar deles. Mencionarei apenas dois, que já foram chamados à pátria celeste. São Camilo Gávio, de Tortona, e João Massaglia, de Marmorito.

    Gávio permaneceu somente dois meses entre nós, e esse tempo bastou para deixar santa lembrança de si entre os companheiros.

    Sua luminosa piedade e seu grande talento para a pintura e a escultura haviam levado a municipalidade daquela cidade a ajudá-lo para que pudesse vir a Turim prosseguir os estudos de sua arte. Tinha sofrido uma grave doença em sua terra; e, quando chegou ao Oratório, seja por estar convalescente, seja por encontrar-se longe de sua terra e dos parentes, seja ainda por estar entre jovens todos desconhecidos, permanecia observando os outros brincarem, mas absorvido em graves pensamentos. Sávio o viu e logo se aproximou para confortá-lo, mantendo com ele exatamente este diálogo.

    Sávio começou: «Então, meu caro, você ainda não conhece ninguém, não é verdade?»

    Gávio. – É verdade, mas me distraio vendo os outros brincarem.

    – Como você se chama?

    – Camilo Gávio, de Tortona.

    – Quantos anos você tem?

    – Quinze completos.

    – De onde vem essa melancolia que aparece em seu rosto? Você esteve doente?

    – Sim, estive realmente doente; tive uma doença de palpitações que me levou à beira do túmulo, e ainda não estou completamente curado.

    – Você deseja sarar, não é verdade?

    – Não tanto; desejo fazer a vontade de Deus.

    Estas últimas palavras revelaram Gávio como jovem de piedade nada comum e causaram verdadeira consolação ao coração de Sávio; por isso, com toda confiança, continuou: «Quem deseja fazer a vontade de Deus deseja santificar a si mesmo; portanto, você tem vontade de tornar-se santo?»

    – Essa vontade é grande em mim.

    – Muito bem; aumentaremos o número de nossos amigos. Você será um daqueles que participarão do que fazemos para nos tornarmos santos.

    – É belo o que você me diz, mas eu não sei o que devo fazer!

    – Eu lhe direi em poucas palavras: saiba que aqui fazemos consistir a santidade em estar muito alegres. Procuraremos apenas evitar o pecado como um grande inimigo que nos rouba a graça de Deus e a paz do coração; procuraremos cumprir exatamente nossos deveres e frequentar as práticas de piedade. Comece desde hoje a escrever como lembrança: Servite Domino in laetitia, servi ao Senhor com santa alegria.

    Essa conversa foi como um bálsamo para as aflições de Gávio, que sentiu verdadeiro conforto. Desde aquele dia tornou-se fiel amigo de Sávio e constante seguidor de suas virtudes. Mas a doença que o levara à beira do túmulo e que não fora extirpada reapareceu ao cabo de dois meses e, apesar dos cuidados dos médicos e dos amigos, já não foi possível encontrar remédio. Depois de alguns dias de agravamento, tendo recebido com grande edificação os últimos Sacramentos, entregou a alma ao Criador em 30 de dezembro de 1856[11].

    Domingos foi visitá-lo várias vezes durante a doença e oferecia-se para passar as noites vigiando junto dele, embora isso não lhe fosse permitido. Quando soube que havia expirado, quis vê-lo pela última vez e, contemplando-o morto, comovido lhe dizia:

    «Adeus, ó Gávio; estou intimamente convencido de que você voou para o céu; por isso, prepare um lugar para mim. Serei sempre seu amigo, mas, enquanto o Senhor me deixar em vida, rezarei pelo repouso de sua alma.»

    Depois foi com os outros companheiros recitar o ofício dos mortos no quarto do falecido; fizeram-se outras orações durante o dia; em seguida convidou alguns dos melhores colegas a fazer a santa Comunhão, e ele próprio a fez várias vezes em sufrágio do amigo falecido.

    Entre outras coisas, disse aos amigos: «Meus caros, não esqueçamos a alma de nosso amigo. Espero que a esta hora ele já goze a glória do céu; contudo, não deixemos de rezar pelo repouso de sua alma. Tudo o que agora fazemos por ele, Deus disporá que outros façam um dia por nós.»

     

     

    CAPÍTULO XIX. Suas relações com o jovem João Massaglia

     

    Mais longas e mais íntimas foram as relações de Sávio com Massaglia, de Marmorito, localidade pouco distante de Mondonio.

    Os dois chegaram ao mesmo tempo à casa do Oratório; eram de localidades vizinhas; ambos tinham a mesma vontade de abraçar o estado eclesiástico e verdadeiro desejo de tornar-se santos.

    – Não basta – dizia um dia Domingos ao amigo – não basta dizer que queremos tornar-nos eclesiásticos; é preciso empenhar-nos em adquirir as virtudes necessárias a esse estado.

    – É verdade – respondia o amigo –, mas, se fizermos de nossa parte tudo o que pudermos, Deus não deixará de nos dar graça e força para merecermos favor tão grande como o de nos tornarmos ministros de Jesus Cristo.

    Chegado o tempo pascal, fizeram com os outros jovens os exercícios espirituais com grande exemplaridade. Terminados os exercícios, Domingos disse ao companheiro: «Quero que sejamos verdadeiros amigos, verdadeiros amigos nas coisas da alma; por isso desejo que, de agora em diante, sejamos um para o outro como monitores em tudo o que possa contribuir para o bem espiritual. Assim, se você perceber em mim algum defeito, diga-me logo para que eu possa corrigi-lo; ou, se perceber alguma coisa boa que eu possa fazer, não deixe de sugeri-la.»

    – Farei isso de boa vontade por você, embora você não precise; mas você deve fazê-lo muito mais por mim, que, como sabe, por causa da idade, dos estudos e da escola me encontro exposto a maiores perigos.

    – Deixemos os cumprimentos de lado e ajudemo-nos a fazer o bem à alma.

    Desde então Sávio e Massaglia tornaram-se verdadeiros amigos, e sua amizade foi duradoura porque fundada na virtude; pois competiam entre si, com o exemplo e os conselhos, para ajudar-se a fugir do mal e praticar o bem.

    No fim do ano letivo, realizados os exames, foi dada a cada jovem da casa licença para passar as férias com os pais ou com algum outro parente.

    Alguns, movidos pelo desejo de progredir nos estudos e dedicar-se melhor aos exercícios de piedade, preferiram permanecer no Oratório; entre eles estavam Sávio e Massaglia. Sabendo quanto eram ansiosamente esperados pelos parentes e quanto eles próprios precisavam recuperar as forças, disse aos dois: «Por que não vão passar alguns dias de férias?» Em vez de responder, puseram-se a rir. – «O que querem dizer com esse riso?»

    Domingos respondeu: «Sabemos que nossos parentes nos esperam com alegria; nós também os amamos e iríamos de boa vontade. Mas sabemos que o pássaro, enquanto está na gaiola, não goza de liberdade, é verdade; contudo está seguro do falcão. Ao contrário, se está fora da gaiola, voa para onde quer, mas de um momento para outro pode cair nas garras do falcão infernal.»

    Apesar disso, julguei conveniente mandá-los por algum tempo para casa, pelo bem de sua saúde, e eles se renderam à minha vontade apenas por obediência, permanecendo lá somente os dias que lhes haviam sido estritamente determinados.

    Se eu quisesse escrever os belos traços de virtude do jovem Massaglia, deveria repetir em grande parte as coisas ditas de Sávio, de quem foi fiel seguidor enquanto viveu. Gozava de boa saúde e dava ótima esperança de si na carreira dos estudos. Concluído o curso de retórica, prestou com bom resultado o exame para a vestição clerical. Mas essa veste, tão amada e respeitada por ele, pôde usá-la apenas por alguns meses. Atingido por uma constipação que parecia simples resfriado, não queria sequer interromper os estudos. Desejando que fizesse um tratamento radical e afastá-lo da ocasião de estudar, os pais levaram-no para casa. Foi durante essa permanência em sua terra que escreveu ao amigo uma carta do seguinte teor:

     

    Caro amigo,

     

    Eu pensava passar apenas alguns dias em casa e depois voltar ao Oratório; por isso deixei aí todos os meus materiais escolares. Agora, porém, percebo que as coisas vão se prolongar e o resultado de minha doença torna-se cada vez mais incerto. O médico diz que estou melhorando. A mim parece que estou piorando. Veremos quem tem razão. Caro Domingos, sinto grande aflição longe de você e do Oratório, porque aqui não tenho facilidade para dedicar-me aos exercícios de devoção. Só me consolo lembrando aqueles dias que tínhamos fixado para nos preparar e aproximar-nos juntos da santa Comunhão.

    Espero, contudo, que, embora separados no corpo, não o sejamos no espírito.

    Entretanto, peço que vá à sala de estudo e faça uma visita de busca ao meu armário. Ali encontrará alguns papéis manuscritos; perto deles está o Kempis, isto é, De imitatione Christi. Faça de tudo um só pacote e envie-me. Preste bem atenção: esse livro é em latim; pois, embora eu goste da tradução, ela continua sendo tradução e nela não encontro o gosto que sinto no original latino. Sinto-me cansado de não fazer nada; contudo o médico me proíbe de estudar. Dou muitas voltas pelo quarto e frequentemente fico dizendo: Vou me curar desta doença? Voltarei a ver meus companheiros? Será esta a minha última doença? O que será de todas essas coisas, só Deus sabe. Parece-me estar pronto a fazer, em qualquer dos três casos, a santa e amável vontade de Deus.

    Se tiver algum bom conselho, procure escrevê-lo para mim. Diga-me como vai sua saúde; lembre-se de mim em suas orações e especialmente quando fizer a santa Comunhão. Coragem, ame-me de todo o coração no Senhor; e, se não pudermos permanecer juntos por muito tempo na vida presente, espero que um dia possamos viver felizes em doce companhia na bem-aventurada eternidade.

    Saúde nossos amigos e especialmente os irmãos da Companhia da Imaculada Conceição. O Senhor esteja com você e creia-me sempre seu afeiçoadíssimo

    JOÃO MASSAGLIA.

     

    Domingos cumpriu a incumbência do amigo e, ao enviar-lhe o que pedira, juntou a seguinte carta:

     

    Meu caro Massaglia,

     

    Sua carta me deu alegria, porque por ela tive certeza de que você ainda vive; pois, depois de sua partida, não tínhamos recebido mais notícias suas e eu não sabia se devia dizer-lhe o Gloria Patri ou o De profundis. Você receberá os objetos que me pediu. Só devo adverti-lo de que o Kempis é um bom amigo, mas está morto e nunca se move do lugar. É preciso, portanto, que você o procure, o sacuda, o leia e se esforce por pôr em prática o que for lendo nele.

    Você suspira pela facilidade que temos aqui para os exercícios de piedade, e tem razão. Quando estou em Mondonio, sinto a mesma dificuldade. Eu procurava compensá-la fazendo todos os dias uma visita ao Santíssimo Sacramento e procurando levar comigo tantos companheiros quantos pudesse. Além do Kempis, lia O tesouro escondido na santa Missa, do beato Leonardo. Se lhe parecer bem, faça também você o mesmo. Diz que não sabe se voltará ao Oratório para nos visitar; minha carcaça também parece bastante gasta, e tudo me faz pressentir que me aproximo a largos passos do fim de meus estudos e de minha vida. De qualquer modo, façamos assim: rezemos um pelo outro, para que ambos possamos ter uma boa morte. Aquele de nós que for primeiro ao Paraíso prepare um lugar para o amigo e, quando este for encontrá-lo, estenda-lhe a mão para introduzi-lo na morada do céu.

    Deus nos conserve sempre em sua graça e nos ajude a tornar-nos santos, mas santos depressa, porque temo que nos falte tempo. Todos os nossos amigos desejam sua volta ao Oratório e o saúdam carinhosamente no Senhor.

    Eu, com amor e afeto fraterno, declaro-me sempre

    Afeiçoado amigo

          DOMINGOS SÁVIO.

     

     

    A doença do jovem Massaglia, a princípio, parecia leve; várias vezes pareceu completamente vencida e várias vezes recaiu, até que, quase inesperadamente, chegou ao extremo da vida.

    «Ele teve tempo», escrevia o teólogo Valfré, seu diretor espiritual durante as férias, «de receber com a máxima exemplaridade todos os confortos de nossa santa religião católica; morreu a morte do justo, que deixa o mundo para voar ao céu[12].»

    Com a perda daquele amigo, Sávio ficou profundamente entristecido e, embora resignado à vontade divina, chorou-o durante vários dias. Foi a primeira vez que vi aquele rosto angélico entristecer-se e chorar de dor. Seu único conforto foi rezar e fazer rezar pelo amigo falecido. Algumas vezes foi ouvido exclamar: «Caro Massaglia, você morreu e espero que já esteja em companhia de Gávio no paraíso; e eu, quando irei alcançá-los na imensa felicidade do céu?»

    Durante todo o tempo em que Domingos sobreviveu ao amigo, teve-o sempre presente nas práticas de piedade e costumava dizer que não podia ir ouvir a santa Missa nem assistir a algum exercício devoto sem recomendar a Deus a alma daquele que, em vida, tanto se havia empenhado pelo seu bem. Essa perda foi muito dolorosa para o terno coração de Domingos, e sua própria saúde ficou sensivelmente alterada.

     

     

    CAPÍTULO XX. Graças especiais e fatos particulares

     

    Até agora relatei coisas que nada apresentam de extraordinário, se não quisermos chamar extraordinária uma conduta constantemente boa, que sempre foi se aperfeiçoando com a inocência da vida, as obras de penitência e o exercício da piedade. Poder-se-ia também chamar extraordinária a vivacidade de sua fé, sua firme esperança, sua ardente caridade e a perseverança no bem até o último suspiro. Aqui, porém, quero expor graças especiais e alguns fatos incomuns, que talvez fiquem sujeitos a alguma crítica. Por isso julgo conveniente advertir o leitor de que quanto aqui relato tem plena semelhança com fatos registrados na Bíblia e na vida dos santos; relato coisas que vi com meus próprios olhos, asseguro que escrevo escrupulosamente a verdade, entregando-me depois inteiramente às reflexões do prudente leitor. Eis a narração.

    Várias vezes, indo à igreja, especialmente no dia em que Domingos fazia a santa Comunhão ou quando estava exposto o Santíssimo Sacramento, ele ficava como que arrebatado dos sentidos; tanto que deixava passar um tempo excessivamente longo, se não fosse chamado para cumprir seus deveres habituais.

    Certo dia aconteceu que faltou ao café da manhã, à aula e até ao próprio almoço, e ninguém sabia onde estava; não estava na sala de estudo, nem na cama. Informado o diretor, suspeitou aquilo que de fato acontecera outras vezes: que estivesse na igreja. Entrou na igreja, foi ao coro e o encontrou ali imóvel como uma pedra. Tinha um pé sobre o outro, uma mão apoiada no atril do antifonário, a outra sobre o peito, o rosto fixo e voltado para o tabernáculo. Não movia uma pálpebra. Chamou-o, e ele não respondeu. Sacudiu-o, e então Domingos voltou o olhar e disse: «Oh! A Missa já terminou?» «Veja», acrescentou o diretor, mostrando-lhe o relógio, «são duas horas.» Ele pediu humildemente perdão por ter transgredido as regras da casa, e o diretor o mandou almoçar, dizendo: «Se alguém lhe perguntar: de onde vem? Responda que vem de executar uma ordem minha.» Isso foi dito para evitar perguntas inoportunas que talvez os companheiros lhe fizessem.

    Outro dia, terminado o costumeiro agradecimento depois da Missa, eu estava para sair da sacristia quando ouvi no coro uma voz como de alguém que discutia. Fui ver e encontrei Sávio falando e depois parando, como quem dá espaço à resposta. Entre outras coisas ouvi claramente estas palavras: «Sim, meu Deus, já vos disse e torno a dizer: eu vos amo e quero amar-vos até a morte. Se vedes que eu venha a ofender-vos, mandai-me a morte: sim, antes a morte, mas não pecar.»

    Às vezes perguntei-lhe o que fazia naqueles seus longos atrasos, e ele com toda simplicidade respondia: «Pobre de mim, vem-me uma distração e, naquele momento, perco o fio de minhas orações e parece-me ver coisas tão belas que as horas fogem como um instante.»

    Certo dia entrou em meu quarto dizendo: «Depressa, venha comigo, há uma bela obra a fazer.» «Aonde você quer me levar?», perguntei. «Venha depressa», acrescentou, «depressa.» Eu ainda hesitava, mas, como insistisse e já tivesse experimentado outras vezes a importância desses convites, consenti. Segui-o. Saiu de casa, passou por uma rua, depois por outra e ainda outra, sem parar nem dizer palavra; finalmente tomou outra rua, e eu o acompanhei de porta em porta até que parou. Subiu uma escada, chegou ao terceiro andar e tocou fortemente a campainha. «É aqui que o senhor deve entrar», disse, e imediatamente foi embora.

    Abriram-me a porta: «Oh, depressa», disseram-me, «depressa, senão já não haverá tempo. Meu marido teve a desgraça de se tornar protestante; agora está à beira da morte e pede, por piedade, poder morrer como bom católico.»

    Dirigi-me imediatamente ao leito daquele enfermo, que mostrava viva ansiedade de pôr em ordem as coisas de sua consciência. Resolvidas com a maior rapidez as questões daquela alma, chegou o pároco da paróquia de Santo Agostinho, que já havia sido chamado anteriormente. Ele mal pôde administrar-lhe o Sacramento da Unção dos Enfermos com uma única unção, pois o doente tornou-se cadáver.

    Um dia quis perguntar a Sávio como ele pudera saber que ali havia um enfermo; ele me olhou com ar de dor e depois começou a chorar. Não lhe fiz mais nenhuma pergunta.

    A inocência de vida, o amor a Deus e o desejo das coisas celestes haviam levado a mente de Domingos a tal estado que se podia dizer habitualmente absorto em Deus.

    Às vezes interrompia a recreação, voltava o olhar para outro lado e começava a passear sozinho. Perguntado por que deixava assim os companheiros, respondia: «Assaltam-me as distrações de costume, e parece-me que o paraíso se abre sobre minha cabeça; então preciso afastar-me dos companheiros para não lhes dizer coisas que talvez eles ridicularizassem.» Certo dia, durante a recreação, falava-se da grande recompensa preparada por Deus no céu para os que conservam a veste da inocência. Entre outras coisas dizia-se: «Os inocentes são no céu os mais próximos da pessoa de nosso Divino Salvador e cantarão para Ele hinos especiais de glória por toda a eternidade.»

    Isso bastou para elevar seu espírito ao Senhor e, permanecendo imóvel, abandonou-se como morto nos braços de um dos presentes.

    Esses arrebatamentos de espírito aconteciam-lhe durante o estudo, na ida e volta da escola e na própria escola.

    Falava com grande prazer do Romano Pontífice e exprimia seu vivo desejo de poder vê-lo antes de morrer, afirmando repetidas vezes que tinha algo de grande importância a dizer-lhe.

    Como repetisse frequentemente as mesmas coisas, quis perguntar-lhe qual era aquela grande coisa que gostaria de dizer ao Papa.

    – Se eu pudesse falar com o Papa, gostaria de dizer-lhe que, em meio às tribulações que o esperam, não deixe de ocupar-se com especial solicitude da Inglaterra; Deus prepara um grande triunfo para o catolicismo naquele reino.

    – Em que você se baseia para dizer isso?

    – Eu lhe direi, mas não gostaria que falasse disso a outros, para não me expor talvez a zombarias. Se, porém, for a Roma, conte-o a Pio IX. Eis o que aconteceu. Numa bela manhã, enquanto fazia a ação de graças depois da Comunhão, fui surpreendido por uma forte distração e pareceu-me ver uma vastíssima planície cheia de gente envolvida numa densa névoa. Caminhavam, mas como homens que, tendo perdido o caminho, já não veem onde põem os pés. «Este país», disse-me alguém que estava perto de mim, «é a Inglaterra.» Enquanto eu queria perguntar outras coisas, vi o Sumo Pontífice Pio IX tal como o havia visto representado em alguns quadros. Majestosamente vestido, trazendo nas mãos uma tocha muito luminosa, avançava para aquela imensa multidão. À medida que se aproximava, à luz daquela tocha a névoa desaparecia e os homens ficavam na claridade como ao meio-dia. «Esta tocha», disse-me o amigo, «é a religião católica, que deve iluminar os ingleses.»

          No ano de 1858, tendo ido a Roma, quis contar isso ao Sumo Pontífice, que o ouviu com bondade e satisfação. «Isto», disse o Papa, «confirma-me no propósito de trabalhar energicamente em favor da Inglaterra, para a qual já dirigi minhas mais vivas solicitudes. Este relato, ao menos, é para mim como o conselho de uma alma boa.»

    Omito muitos outros fatos semelhantes, contentando-me em escrevê-los e deixando que outros os publiquem quando se julgar que possam resultar em maior glória de Deus.

     

     

    CAPÍTULO XXI. Seus pensamentos sobre a morte e sua preparação para morrer santamente

     

    Quem leu o que até agora escrevemos sobre o jovem Domingos Sávio compreenderá facilmente que sua vida foi uma contínua preparação para a morte. Ele considerava, porém, a Companhia da Imaculada Conceição como meio eficaz para assegurar a proteção de Maria Santíssima no momento da morte, que todos pressentiam não estar distante. Não sei se ele recebeu de Deus alguma revelação do dia e das circunstâncias de sua morte ou se teve apenas um piedoso pressentimento. É certo, porém, que falou dela muito tempo antes que acontecesse, e o fazia com tal clareza que não o teria feito melhor quem dela falasse depois de sua morte.

    Em vista de seu estado de saúde, tomaram-se todos os cuidados para moderá-lo nas coisas de estudo e de piedade; contudo, tanto por sua natural fragilidade como por alguns incômodos pessoais e também pela contínua tensão do espírito, suas forças diminuíam dia após dia. Ele mesmo percebia e às vezes dizia: «Preciso correr, senão a noite me surpreende pelo caminho.» Queria dizer que lhe restava pouco tempo de vida e que devia apressar-se em fazer boas obras antes que chegasse a morte.

    Há nesta casa o costume de nossos jovens fazerem uma vez por mês o exercício da boa morte. Esse exercício consiste em preparar-nos para fazer uma Confissão e uma Comunhão como se fossem as últimas da vida. O reinante Pio IX, em sua grande bondade, enriqueceu esse exercício com várias indulgências. Domingos o fazia com um recolhimento que não poderia ser maior. No fim da função sagrada costuma-se recitar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria por aquele que, entre os presentes, será o primeiro a morrer. Certo dia, brincando, ele disse: «Em vez de dizer ‘por aquele que será o primeiro a morrer’, diga assim: ‘um Pai-Nosso e uma Ave-Maria por Domingos Sávio, que será o primeiro de nós a morrer’.» Disse isso várias vezes.

    No fim de abril de 1856 apresentou-se ao diretor e perguntou-lhe como deveria proceder para celebrar santamente o mês de Maria.

    – Você o celebrará – respondeu – com o exato cumprimento de seus deveres, contando todos os dias um exemplo em honra de Maria e procurando comportar-se de modo a poder fazer diariamente a santa Comunhão.

    – Procurarei fazer isso pontualmente; mas que graça devo pedir?

    – Pedirá à santa Virgem que lhe obtenha de Deus saúde e graça para tornar-se santo.

    – Que me ajude a tornar-me santo, que me ajude a ter uma santa morte e que, nos últimos momentos da vida, me assista e me conduza ao céu.

    De fato, durante aquele mês demonstrou tal fervor que parecia um anjo revestido de forma humana. Se escrevia, falava de Maria; se estudava, cantava ou ia à escola, tudo era em honra dela. Durante a recreação procurava ter todos os dias pronto um exemplo para contá-lo ora a estes, ora àqueles companheiros reunidos.

    Certo dia um companheiro lhe disse: «Se você fizer tudo neste ano, o que vai querer fazer no próximo?»

    – Deixe comigo – respondeu. – Neste ano quero fazer o que posso; no próximo, se ainda estiver aqui, direi o que farei.

    Para empregar todos os meios capazes de fazê-lo recuperar a saúde, mandei realizar uma consulta médica. Todos admiravam a jovialidade, a prontidão de espírito e a sensatez das respostas de Domingos. O doutor Francesco Vallauri, de feliz memória, que era um dos beneméritos consultores, cheio de admiração disse: «Que pérola preciosa é este jovem!»

    – Qual é a origem do mal que faz sua saúde diminuir cada dia mais? – perguntei-lhe.

    – Sua constituição delicada, o desenvolvimento precoce da inteligência e a contínua tensão do espírito são como limas que vão consumindo insensivelmente as forças vitais.

    – Que remédio poderia ser-lhe mais útil?

    – O remédio mais útil seria deixá-lo ir para o paraíso, para o qual me parece muito bem preparado. A única coisa que poderia prolongar-lhe a vida seria afastá-lo inteiramente, por algum tempo, dos estudos e mantê-lo em ocupações manuais adequadas às suas forças.

     

     

    CAPÍTULO XXII. Sua solicitude pelos enfermos – Deixa o Oratório – Suas palavras nessa ocasião

     

    O esgotamento de forças em que se encontrava não era tal que o mantivesse continuamente na cama; por isso às vezes ia à escola, ao estudo ou se ocupava de tarefas domésticas. Entre as coisas de que se ocupava com grande prazer estava servir os companheiros enfermos, quando havia algum na casa.

    – Não tenho mérito algum diante de Deus – dizia – em assistir ou visitar os enfermos, porque faço isso com demasiado prazer; antes, é para mim um querido divertimento.

    Enquanto lhes prestava serviços materiais, era muito hábil em sugerir sempre alguma coisa espiritual. «Esta carcaça», dizia a um companheiro doente, «não pode durar eternamente, não é verdade? É preciso deixar que se desgaste pouco a pouco até ir para o túmulo; mas então, meu caro, nossa alma, livre dos impedimentos do corpo, voará gloriosa ao céu e gozará uma saúde e uma felicidade sem fim.»

    Aconteceu que um companheiro se recusava a beber um remédio porque era amargo. «Meu caro», dizia-lhe Domingos, «devemos tomar qualquer remédio, porque fazendo assim obedecemos a Deus, que estabeleceu médicos e medicamentos por serem necessários para recuperar a saúde perdida; e, se sentimos alguma repugnância por causa do gosto, teremos maior mérito para a alma. Além disso, você acha que este seu remédio é tão amargo e áspero quanto o fel misturado com vinagre que deram a Jesus na cruz?» Essas palavras, ditas com sua admirável franqueza, faziam com que ninguém ousasse mais levantar dificuldade.

    Embora a saúde de Sávio tivesse se tornado muito delicada, ir para casa era para ele a coisa mais desagradável, porque lhe pesava interromper os estudos e suas práticas habituais de piedade. Alguns meses antes eu já o havia enviado para casa, e ele permaneceu ali apenas poucos dias, aparecendo logo de novo no Oratório. Devo dizê-lo: o pesar era recíproco; eu o teria conservado nesta casa a qualquer custo, e meu afeto por ele era o de um pai para com um filho dos mais dignos de afeição. Contudo, o conselho dos médicos era aquele e eu queria segui-lo, tanto mais que havia alguns dias se manifestara uma tosse persistente.

    Avisou-se, portanto, o pai, e estabeleceu-se a partida para o dia 1º de março de 1857.

    Domingos submeteu-se a essa decisão, mas apenas para fazer dela um sacrifício a Deus. «Por que», perguntaram-lhe, «você vai para casa com tão pouca vontade, quando deveria ir com alegria para desfrutar a companhia de seus queridos pais?» «Porque», respondeu, «desejo terminar meus dias no Oratório.»

    – Você irá para casa e, depois de recuperar um pouco a saúde, voltará.

    – Oh! Isso não, não; eu vou embora e não voltarei mais.

    Na noite anterior à partida, não conseguia afastá-lo de perto de mim: tinha sempre coisas a perguntar. Entre outras, dizia: «Qual é a melhor coisa que um doente pode fazer para adquirir mérito diante de Deus?»

    – Oferecer frequentemente a Deus tudo o que sofre.

    – Que outra coisa ainda poderia fazer?

    – Oferecer sua vida ao Senhor.

    – Posso ter certeza de que meus pecados me foram perdoados?

    – Asseguro-lhe, em nome de Deus, que seus pecados lhe foram perdoados.

    – Posso ter certeza de que serei salvo?

    – Sim; pela divina misericórdia, que não lhe faltará, você pode estar certo de salvar-se.

    – Se o demônio vier tentar-me, o que devo responder-lhe?

    – Responderá que vendeu sua alma a Jesus Cristo e que Ele a comprou pelo preço de seu sangue; se o demônio ainda lhe apresentar alguma dificuldade, pergunte-lhe o que ele fez por sua alma. Ao contrário, Jesus Cristo derramou todo o seu Sangue para libertá-la do inferno e conduzi-la consigo ao paraíso.

    – Do paraíso poderei ver meus companheiros do Oratório e meus pais?

    – Sim; do paraíso verá tudo o que acontece no Oratório, verá seus pais, as coisas que lhes dizem respeito e outras coisas mil vezes mais belas.

    – Poderei vir visitá-los alguma vez?

    – Poderá vir, contanto que isso resulte em maior glória de Deus.

    Fazia essas e muitas outras perguntas e parecia uma pessoa que já tivesse um pé às portas do paraíso e, antes de entrar, quisesse informar-se bem sobre as coisas que havia dentro.

     

     

    CAPÍTULO XXIII. Despede-se de seus companheiros

     

    Na manhã de sua partida fez com os companheiros o exercício da boa morte com tal transporte de devoção na Confissão e na Comunhão que eu, que fui testemunha, não sei como exprimi-lo. «É preciso», dizia, «que eu faça bem este exercício, porque espero que será realmente para mim o exercício de minha boa morte. E, se me acontecesse morrer pelo caminho, já teria comungado.» Empregou todo o restante da manhã em pôr suas coisas em ordem. Arrumou o baú, colocando cada objeto como se nunca mais fosse tocá-lo. Depois foi visitar um por um os companheiros: a um dava um conselho, advertia outro a corrigir-se de um defeito, animava outro ainda a perseverar no bem. A um de quem devia receber dois soldos, chamou e disse: «Venha cá, acertemos nossas contas; caso contrário, isso me causará dificuldade quando eu for acertar as contas com o Senhor.» Falou aos irmãos da Sociedade da Imaculada Conceição e, com as expressões mais animadas, encorajou-os a serem constantes na observância das promessas feitas a Maria Santíssima e a depositarem nela a mais viva confiança. No momento de partir, chamou-me e disse exatamente estas palavras: «Então o senhor não quer esta minha carcaça (carcame ou esqueleto), e sou obrigado a levá-la para Mondonio. O incômodo seria de poucos dias… depois tudo estaria acabado; contudo, seja feita a vontade de Deus. Se for a Roma, lembre-se da missão da Inglaterra junto ao Papa; reze para que eu possa ter uma boa morte e até nos revermos no paraíso.» Já tínhamos chegado à porta que dá para fora do Oratório, e ele ainda me apertava a mão, quando se voltou para os companheiros que o rodeavam e disse: «Adeus, queridos companheiros, adeus a todos; rezem por mim e até nos revermos lá onde estaremos sempre com o Senhor.» Já estava à porta do pátio quando o vi voltar e dizer-me:

    – Dê-me um presente para guardar como lembrança sua.

    – Diga-me que presente lhe agrada e darei imediatamente. Quer um livro?

    – Não; alguma coisa melhor.

    – Quer dinheiro para a viagem?

    – Sim, justamente: dinheiro para a viagem da eternidade. O senhor disse que obteve do Papa algumas indulgências plenárias para a hora da morte; coloque também a mim entre aqueles que podem participar delas.

    – Sim, meu filho, você também pode ser incluído nesse número e vou imediatamente escrever seu nome naquele documento.

    Depois disso deixou o Oratório, onde havia permanecido cerca de três anos com tanto prazer para si, tanta edificação para seus companheiros e para seus próprios superiores; e o deixou para nunca mais voltar.

    Todos nós ficamos admirados com aquelas despedidas insólitas. Sabíamos que sofria de muitos problemas de saúde, mas, como quase sempre se mantinha fora da cama, não dávamos grande importância à doença. Além disso, tendo constantemente uma aparência alegre, ninguém podia perceber pelo rosto que sofresse males do corpo ou do espírito. E, embora aquelas despedidas incomuns nos tivessem entristecido, esperávamos vê-lo em breve voltar para junto de nós. Mas não seria assim: estava maduro para o céu; no breve curso de sua vida já havia conquistado a recompensa dos justos como se tivesse vivido até idade muito avançada, e o Senhor queria chamá-lo a si na flor dos anos para libertá-lo dos perigos em que frequentemente naufragam até as melhores almas.

     

     

    CAPÍTULO XXIV. Curso de sua doença – Última Confissão, recebe o Viático – Fatos edificantes

     

    Nosso Domingos partiu de Turim no dia 1º de março, às duas da tarde, em companhia de seu pai, e a viagem foi boa; antes, parecia que a carruagem, a variedade das localidades e a companhia dos parentes lhe haviam feito bem. Por isso, chegando em casa, durante quatro dias não se deitou. Mas, vendo que lhe diminuíam as forças e o apetite e que a tosse se tornava cada vez mais forte, julgou-se conveniente mandar examiná-lo pelo médico. Este encontrou a doença muito mais grave do que parecia. Ordenou que voltasse para casa e se deitasse imediatamente e, julgando tratar-se de doença inflamatória, recorreu às sangrias.

    É próprio da idade jovem sentir grande apreensão diante das sangrias. Por isso, o cirurgião, ao começar a operação, exortava Domingos a virar o rosto para outro lado, ter paciência e criar coragem. Ele começou a rir e disse: «O que é uma pequena picada em comparação com os cravos fincados nas mãos e nos pés de nosso inocentíssimo Salvador?» Depois, com toda serenidade de espírito, brincando e sem dar sinal do menor transtorno, observava o sangue sair das veias durante todo o tempo da operação. Feitas algumas sangrias, a doença parecia melhorar; assim assegurava o médico e assim acreditavam os parentes. Domingos, porém, julgava de outro modo. Guiado pelo pensamento de que é melhor receber os Sacramentos antecipadamente do que perdê-los, chamou o pai: «Papai», disse-lhe, «é bom que façamos uma consulta com o médico celestial. Desejo confessar-me e receber a santa Comunhão.»

    Os pais, que também julgavam a doença em melhora, ouviram com pesar essa proposta e, somente para agradá-lo, mandaram chamar o pároco para que viesse confessá-lo. Este veio prontamente para a Confissão e depois, ainda para satisfazê-lo, trouxe-lhe o Santo Viático. Cada um pode imaginar com que devoção e recolhimento ele comungou. Todas as vezes que se aproximava dos santos Sacramentos parecia sempre um São Luís. Agora que julgava ser aquela realmente a última Comunhão de sua vida, quem poderia exprimir o fervor, os transportes de ternos afetos que daquele coração inocente saíram para seu amado Jesus?

    Recordou então as promessas feitas na primeira Comunhão. Disse várias vezes: «Sim, sim, ó Jesus, ó Maria, vós sereis agora e sempre os amigos de minha alma. Repito e digo mil vezes: antes morrer, mas não pecar.» Terminada a ação de graças, disse com toda tranquilidade: «Agora estou contente; é verdade que devo fazer a longa viagem da eternidade, mas com Jesus em minha companhia nada tenho a temer. Oh! Dizei sempre, dizei a todos: quem tem Jesus por amigo e companheiro já não teme mal algum, nem mesmo a morte.»

    Sua paciência foi exemplar em todos os incômodos sofridos durante a vida; mas nesta última doença mostrou-se verdadeiro modelo de santidade.

    Não queria que ninguém o ajudasse nas necessidades ordinárias. «Enquanto eu puder», dizia, «quero diminuir o incômodo de meus queridos pais; eles já suportaram tantos incômodos e tantas fadigas por mim; pudesse eu ao menos recompensá-los de algum modo!» Tomava indiferentemente os remédios, até os mais desagradáveis; submeteu-se a dez sangrias sem demonstrar o menor ressentimento.

    Depois de quatro dias de doença, o médico se alegrou com o enfermo e disse aos parentes: «Agradeçamos à Divina Providência, estamos em bom ponto; a doença foi vencida, precisamos apenas fazer uma convalescença prudente.» Os bons pais se alegravam com essas palavras. Domingos, porém, começou a rir e acrescentou: «O mundo foi vencido; agora só preciso fazer uma prudente apresentação diante de Deus.» Tendo partido o médico, sem se deixar iludir pelo que fora dito, pediu que lhe fosse administrado o Sacramento da Unção dos Enfermos. Também aqui os parentes consentiram apenas para agradá-lo, porque nem eles nem o pároco percebiam nele perigo próximo de morte; ao contrário, a serenidade do rosto e a jovialidade das palavras faziam realmente julgá-lo em estado de melhora. Mas ele, fosse movido por sentimentos de devoção, fosse inspirado por uma voz divina que lhe falasse ao coração, de fato contava os dias e as horas de vida como se calculam as operações de aritmética, e empregava cada momento em preparar-se para comparecer diante de Deus. Antes de receber a Unção dos Enfermos, fez esta oração: «Ó Senhor, perdoai meus pecados; eu vos amo e quero amar-vos eternamente! Este Sacramento, que em vossa infinita misericórdia permitis que eu receba, apague de minha alma todos os pecados cometidos pelo ouvido, pela vista, pela boca, pelas mãos e pelos pés; sejam meu corpo e minha alma santificados pelos méritos de vossa Paixão. Amém.»

    Respondia a cada pergunta com tal clareza de voz e exatidão de conceitos que o teríamos considerado em perfeito estado de saúde.

    Estávamos no dia 9 de março, quarto dia de sua doença e último de sua vida. Já lhe haviam sido feitas dez sangrias, além de outros remédios, e suas forças estavam inteiramente prostradas; por isso recebeu a bênção papal. Ele mesmo recitou o Confiteor e respondia ao que dizia o sacerdote. Quando ouviu dizer que, com aquele ato religioso, o Papa lhe concedia a bênção apostólica com indulgência plenária, sentiu a maior consolação. «Deo gratias», ia dizendo, «et semper Deo gratias.» Depois voltou-se para o crucifixo e recitou estes versos que lhe eram muito familiares durante a vida:

     

    Senhor, toda a liberdade vos dou,

    Eis minhas potências, meu corpo também,

    Tudo vos dou, pois tudo é vosso, ó Deus,

    E em vossa vontade eu me abandono.

     

     

    CAPÍTULO XXV. Seus últimos momentos e sua preciosa morte

     

    É verdade de fé que o homem recolhe na hora da morte o fruto de suas obras. Quae seminaverit homo, haec et metet. Se durante a vida semeou boas obras, recolherá naqueles últimos momentos frutos de consolação; se semeou obras más, então recolherá desolação sobre desolação. Contudo, acontece às vezes que almas boas, depois de uma vida santa, experimentem terror e espanto quando se aproxima a hora da morte. Isso acontece segundo os adoráveis decretos de Deus, que quer purificar aquelas almas das pequenas manchas que talvez tenham contraído durante a vida e assim assegurar-lhes e tornar-lhes mais bela a coroa de glória no céu. Com o nosso Sávio não foi assim. Creio que Deus quis dar-lhe aquele cêntuplo que concede às almas dos justos já antes da glória do paraíso. De fato, a inocência conservada até o último momento da vida, sua fé viva, suas contínuas orações, suas longas penitências e toda uma vida semeada de tribulações certamente lhe mereceram aquele conforto na hora da morte.

    Via, portanto, aproximar-se a morte com a tranquilidade de uma alma inocente; antes, parecia que nem mesmo seu corpo sentisse as angústias e opressões inseparáveis dos esforços que naturalmente a alma deve fazer ao romper os vínculos do corpo. Em suma, a morte de Sávio pode ser chamada repouso mais do que morte.

    Era a noite de 9 de março de 1857; ele havia recebido todos os confortos de nossa santa religião católica. Quem apenas o ouvisse falar e contemplasse a serenidade de seu rosto teria julgado ver alguém deitado para descansar. O aspecto alegre, os olhos ainda vivos e a plena consciência de si eram coisas que faziam todos se admirarem, e ninguém, exceto ele, conseguia convencer-se de que estivesse à beira da morte.

    Uma hora e meia antes de dar o último suspiro, o pároco foi visitá-lo e, vendo sua tranquilidade, escutava admirado as recomendações da alma que Domingos fazia. Ele pronunciava frequentes e prolongadas jaculatórias, todas destinadas a manifestar seu vivo desejo de ir depressa para o céu. «Que se pode sugerir para recomendar a alma a um agonizante desta espécie?», disse o pároco. Depois de recitar com ele algumas orações, o sacerdote estava para sair quando Sávio o chamou, dizendo: «Senhor pároco, antes de partir, deixe-me alguma lembrança.» – «Eu», respondeu, «não saberia que lembrança deixar-lhe.» – «Alguma lembrança que me conforte.» – «Não sei dizer-lhe outra coisa senão que se lembre da Paixão do Senhor.» – «Deo gratias», respondeu, «a Paixão de nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre em minha mente, em minha boca, em meu coração. Jesus, José e Maria, assisti-me nesta última agonia; Jesus, José e Maria, expire em paz convosco a minha alma.» Depois dessas palavras adormeceu e descansou por meia hora. Em seguida, despertando, lançou um olhar para os parentes: «Papai», disse, «chegamos.»

    – Aqui estou, meu filho; do que você precisa?

    – Meu caro papai, chegou a hora; pegue meu Jovem Instruído[13] e leia para mim as orações da boa morte.

    A essas palavras, a mãe desatou a chorar e se afastou do quarto do enfermo. O coração do pai se partia de dor e as lágrimas lhe sufocavam a voz; contudo, criou coragem e começou a ler aquela oração. Domingos repetia atentamente e distintamente cada palavra; mas, no fim de cada parte, queria dizer sozinho: «Jesus misericordioso, tende piedade de mim.» Chegando às palavras: «Quando finalmente minha alma comparecer diante de vós e contemplar pela primeira vez o esplendor imortal de vossa majestade, não a rejeiteis de vossa presença, mas dignai-vos receber-me no seio amoroso de vossa misericórdia, para que eu cante eternamente os vossos louvores», acrescentou: «É justamente isso que eu desejo. Oh, caro papai, cantar eternamente os louvores do Senhor!» Depois pareceu adormecer novamente, como quem reflete seriamente sobre coisa de grande importância. Pouco depois despertou e, com voz clara e sorridente, disse: «Adeus, caro papai, adeus. O pároco queria ainda dizer-me outra coisa e eu não consigo mais lembrar… Oh! Que coisa tão bela estou vendo…» Dizendo isso e sorrindo com expressão de paraíso, expirou com as mãos juntas diante do peito em forma de cruz, sem fazer o menor movimento.

    Vai, alma fiel, para junto de teu Criador; o céu está aberto para ti, os anjos e os santos prepararam-te uma grande festa. Aquele Jesus que tanto amaste convida-te e chama-te, dizendo: «Vem, servo bom e fiel, vem; combateste, alcançaste a vitória, agora vem tomar posse de uma alegria que nunca mais te faltará: Intra in gaudium Domini tui.»

     

     

    CAPÍTULO XXVI. Anúncio de sua morte – Palavras do professor padre Picco a seus alunos

     

    Quando o pai de Domingos o viu pronunciar as palavras do modo que relatamos e depois inclinar a cabeça como para repousar, pensou realmente que ele tivesse adormecido de novo. Deixou-o alguns instantes naquela posição; mas logo quis chamá-lo e percebeu que já estava morto. Deixo a cada um imaginar a desolação dos pais pela perda de um filho que à inocência e à piedade unia os modos mais amáveis e mais aptos a fazer-se querer!

    Também nós, aqui na casa do Oratório, estávamos ansiosos por receber notícias desse venerado amigo e companheiro, quando recebi de seu pai uma carta que começava assim: «Com lágrimas nos olhos, anuncio-lhe a mais triste notícia: meu querido filho Domingos, seu discípulo, como cândido lírio, como Luís Gonzaga, entregou sua alma ao Senhor ontem à noite, dia 9 deste mês de março, depois de ter recebido do modo mais consolador os santos Sacramentos e a bênção papal.»

    Essa notícia lançou seus companheiros em consternação. Uns choravam nele a perda de um amigo e de um conselheiro fiel; outros suspiravam por ter perdido um modelo de verdadeira piedade. Alguns se reuniram para rezar pelo repouso de sua alma. Mas a maioria dizia:

    «Ele era santo; agora já está no paraíso.» Outros começaram a recomendar-se a ele como a um protetor junto de Deus. Todos, depois, competiam para possuir algum objeto que lhe tivesse pertencido.

    Levando-se aquela notícia ao professor padre Picco, ele ficou profundamente consternado. Reunidos os alunos, todo comovido comunicou-lhes o triste anúncio com estas palavras: «Não faz muito tempo, caríssimos jovens, falando-vos por acaso da fragilidade da vida humana, eu vos fazia observar como a morte às vezes não poupa nem mesmo a vossa florescente idade, e dava-vos como exemplo que, há dois anos, nestes mesmos dias, frequentava esta mesma escola, sentava-se aqui presente para me ouvir, um jovem cheio de vida e vigor, o qual, depois de poucos dias de ausência, passava desta vida, chorado pelos parentes e pelos amigos. Quando vos recordava aquele caso doloroso, estava bem longe de pensar que o presente ano haveria de ser entristecido por semelhante luto e que tal exemplo se renovaria tão depressa em um daqueles mesmos que me escutavam. Sim, meus caros, devo amargurar-vos com uma dolorosa notícia. A foice da morte ceifou anteontem a vida de um dos mais virtuosos entre vossos companheiros, o bom jovem Domingos Sávio. Talvez vos recordeis de como, nos últimos dias em que frequentou a escola, se mostrava atormentado por uma tosse maligna; por isso nenhum de nós se admirou quando soubemos que fora obrigado por ela a afastar-se das aulas. Para tratar melhor sua doença e já prevendo, como repetidamente disse a alguns, seu próximo fim, seguiu o conselho dos médicos e de seus superiores e foi para junto da família. Ali a violência do mal desenvolveu-se sobremaneira e, depois de apenas quatro dias de doença, entregou ao Criador seu espírito inocente.[14]

    «Li ontem a carta com que o desolado pai comunicava a dolorosa notícia, e ela, em sua simplicidade, fazia tal descrição da santa morte daquele anjo que me comoveu até às lágrimas. Ele não encontra expressão mais adequada para louvar o amado filho do que chamá-lo outro São Luís Gonzaga, tanto na santidade da vida como na bem-aventurada resignação diante da morte. Asseguro-vos que muito me dói que ele tenha frequentado por tão pouco tempo minha escola e que, nesse breve período, sua fraca saúde não me tenha permitido conhecê-lo e conviver com ele mais do que é possível numa escola bastante numerosa. Deixo, portanto, a seus superiores dizer-vos qual era a santidade de seus sentimentos e qual seu fervor na piedade; deixo a seus companheiros e amigos, que diariamente o tinham consigo e conviviam familiarmente com ele, dizer-vos a modéstia de seus costumes e de toda sua conduta, a seriedade de suas palavras; deixo a seus parentes dizer-vos qual era sua obediência, seu respeito, sua docilidade. E o que poderei eu recordar-vos que já não seja conhecido de todos vós? Direi apenas que sempre se tornou louvável por seu comportamento e por sua tranquilidade na escola, por sua diligência e exatidão no cumprimento de cada dever e por sua contínua atenção aos meus ensinamentos; e que eu seria feliz se cada um de vós se propusesse a seguir seu santo exemplo.

    «Antes ainda que a idade e os estudos lhe permitissem frequentar nossa escola, já estando havia três anos entre aqueles que recebem acolhida e instrução no Oratório de São Francisco de Sales, eu tinha ouvido várias vezes o diretor daquele Oratório falar dele e elogiá-lo como um dos jovens mais estudiosos e virtuosos da casa. Tamanho era seu ardor pelo estudo, tão rápido o progresso que fizera nas primeiras classes de latim, que enorme era meu desejo de incluí-lo entre meus alunos e grande a expectativa que eu tinha sobre a felicidade de seu talento. E, antes de tê-lo na escola, já o havia anunciado a alguns de meus alunos como um rival com quem seria belo competir não menos no estudo que na virtude. Nas minhas frequentes visitas ao Oratório, vendo nele uma fisionomia tão doce como vós sabeis que era a sua, e vendo aquele olhar tão inocente, nunca o encontrava sem sentir-me levado a amá-lo e admirá-lo. Certamente ele não desmentiu as belas esperanças que eu havia concebido quando, no presente ano letivo, começou a frequentar minha escola. A vós me dirijo, jovens amadíssimos, que fostes testemunhas de seu recolhimento e de sua aplicação não somente durante o tempo em que o dever o chamava a escutar-me, mas também naquele tempo que muitos jovens, embora não privados de docilidade e diligência, geralmente não têm escrúpulo em perder. A vós pergunto, que fostes seus companheiros não só na escola, mas também nos hábitos domésticos da vida, se alguma vez o vistes fazer algo que o mostrasse esquecido de qualquer de seus deveres.

    «Parece-me ainda vê-lo quando, com aquela modéstia que lhe era inteiramente própria, entrava na escola, tomava seu lugar e, durante todo o tempo da entrada, longe do vão palavreado habitual dos jovens de sua idade, repetia a lição, escrevia anotações ou se entretinha em alguma leitura útil; e depois, começada a aula, com que aplicação eu via aquele seu rosto angélico suspenso de minhas palavras! Não é, portanto, de admirar que, apesar da pouca idade e da saúde fraca, fosse grandíssimo o proveito que sua inteligência tirava dos estudos. Prova disso é que, num número considerável de jovens, a maioria de inteligência mais que mediana, embora já trouxesse dentro de si a doença que afinal o levou ao túmulo e fosse por isso obrigado a ausências frequentes, ele conservou quase sempre os primeiros lugares de sua classe. Mas uma coisa atraía de modo muito particular minha atenção e minha admiração: ver como sua jovem mente se mostrava unida a Deus, afetuosa e fervorosa nas orações. É coisa comum, mesmo entre os jovens menos dissipados, que, arrastados pela natural vivacidade e pelas distrações a que está sujeita esta fervorosa idade, façam pouquíssima reflexão sobre o sentido das orações que são convidados a recitar e quase não as acompanhem com afeto algum do coração. Assim acontece que, em grande parte deles, nada mais haja senão os lábios e a voz. Ora, se tão habitual é a distração da juventude até nas orações dirigidas ao Senhor no silêncio e na tranquilidade das igrejas ou na solidão de seus próprios aposentos, nas orações quotidianas, vós, ó jovens, sabeis quanto isso acontece ainda mais facilmente naquelas brevíssimas orações que costumam ser ditas antes e depois das lições escolares. E foi justamente nessas que me foi dado admirar o fervor de nosso Domingos na piedade e a união de sua alma com Deus. Quantas vezes o observei, com aquele olhar voltado para o céu — o céu que tão cedo haveria de ser sua morada —, recolher todos os seus sentimentos e, com aquele gesto, oferecê-los ao Senhor e à sua Bem-Aventurada Mãe, com aquela plenitude de afetos que justamente exigem as orações recitadas! E esses sentimentos, ó jovens amadíssimos, eram depois aqueles que animavam seus pensamentos no cumprimento de cada dever; eram aqueles que santificavam cada ato e cada palavra sua, e que dirigiam inteiramente toda a sua vida à glória de Deus. Oh, felizes os jovens que se inspiram em tais sentimentos! Farão sua própria felicidade nesta vida e na outra, e felizes tornarão os pais que os educam, os mestres que os instruem e todas as pessoas que se ocupam de seu bem.

    «Jovens amadíssimos, a vida é um dom preciosíssimo que Deus nos deu para nos oferecer o meio de adquirir méritos para o céu; e assim será se tudo o que fizermos for de tal natureza que possa ser oferecido àquele supremo Doador, como justamente fazia nosso Domingos. Mas o que diremos daquele jovem que passa toda a vida completamente esquecido do fim para o qual Deus o destinou, que nunca encontra um momento em que pense dedicar seus afetos ao Criador, que em seu coração jamais dá lugar a alguma aspiração que o eleve para seu Deus? E que diremos ainda daquele jovem que faz tudo o que está ao seu alcance para manter longe de si tais sentimentos, ou para combatê-los e sufocá-los quando os sente próximos de penetrar em seu coração? Ah! Refleti um pouco sobre a santa vida e o santo fim de vosso caríssimo companheiro, sobre a invejável sorte da qual podemos confiar que ele goze; e depois, voltando o pensamento para vós mesmos, examinai o que ainda vos falta para vos assemelharem a ele e como desejaríeis ser se, como ele, vos encontrásseis prestes a apresentar-vos diante daquele tribunal onde Deus pedirá de todos conta rigorosa até da menor falta. Se, nessa comparação, descobrirdes que é grande a diferença, tomai-o por exemplo, imitai suas virtudes cristãs, preparai vossa alma para ser como a dele, pura e limpa aos olhos de Deus, para que, ao chamado repentino que inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, todos nós teremos de ouvir, possamos responder com alegria no rosto e sorriso nos lábios, como fez vosso angélico condiscípulo. Escutai ainda um desejo meu, com o qual concluo estas palavras. Se eu perceber que meus alunos introduzem em sua conduta uma melhora notável, se os vir de agora em diante mais exatos em seus deveres e mais penetrados da importância de uma verdadeira piedade, acreditarei que isso seja efeito do santo exemplo de nosso Domingos e o considerarei uma graça obtida do alto por suas orações, como recompensa por terdes sido por breve tempo seus companheiros e eu seu professor.»

    Assim o professor padre Picco expunha a seus alunos a profunda e dolorosa impressão que sentira ao receber a notícia da morte de seu querido aluno Domingos Sávio.

     

     

    CAPÍTULO XXVII. Emulação pela virtude de Sávio – Muitos se recomendam a ele para obter favores celestes e são atendidos – Uma lembrança para todos

     

    Quem leu as coisas que escrevemos sobre o jovem Domingos Sávio não se admirará de que Deus se tenha dignado favorecê-lo com dons especiais, fazendo resplandecer suas virtudes de muitas maneiras. Enquanto ainda vivia, muitos se empenhavam em seguir seus conselhos e exemplos e imitar suas virtudes; muitos também, movidos por sua conduta exemplar, pela santidade da vida e pela inocência dos costumes, recomendavam-se a suas orações. Contam-se não poucas graças obtidas pelas orações que o jovem Sávio dirigiu a Deus enquanto ainda estava nesta vida mortal. Mas, depois de sua morte, cresceu muito a confiança e a veneração para com ele.

    Mal chegou entre nós a notícia de sua morte, vários companheiros começaram a proclamá-lo santo. Reuniram-se para recitar as Ladainhas por um defunto; mas, em vez de responder ora pro eo, isto é: «Santa Maria, rogai pelo repouso de sua alma», não poucos respondiam: ora pro nobis: «Santa Maria, rogai por nós.» «Porque», diziam, «a esta hora Sávio já goza a glória do Paraíso e não precisa mais de nossas orações.»

    Outros acrescentavam: «Se Domingos Sávio, que levou vida tão pura e tão santa, não foi diretamente para o Paraíso, quem poderá dizer que consegue ir para lá?» Por isso, desde então, vários amigos e companheiros que admiraram suas virtudes em vida procuravam tomá-lo como modelo no bem agir e começaram a recomendar-se a ele como a um protetor celeste.

    Quase todos os dias se contavam graças recebidas, ora para o corpo, ora para a alma. Vi um jovem que sofria de dor de dentes tão forte que o fazia desesperar. Tendo-se recomendado a seu companheiro Sávio com breve oração, ficou imediatamente aliviado e até agora não voltou a sofrer desse doloroso mal. Muitos se recomendaram a ele para serem libertados das febres e foram atendidos. Fui testemunha de um que obteve instantaneamente a graça de ser libertado de forte febre.[15] Tenho diante dos olhos muitos relatos de pessoas que expõem favores celestes obtidos de Deus por intercessão de Sávio. Mas, embora o caráter e a autoridade das pessoas que testemunham esses fatos sejam sob todos os aspectos dignos de fé, como ainda estão vivas, julgo melhor omiti-los por enquanto e contentar-me em relatar aqui apenas uma graça especial obtida por um estudante de filosofia, colega de escola de Domingos.

    No ano de 1858, esse jovem sofreu graves problemas de saúde. Sua saúde ficou tão alterada que teve de interromper o curso de filosofia, submeter-se a muitos tratamentos e, no fim do ano, não lhe foi possível prestar o exame. Tinha grande interesse em poder ao menos preparar-se para o exame de Todos os Santos, pois desse modo evitaria perder um ano de estudos. Mas, aumentando seus males, suas esperanças iam diminuindo cada vez mais. Foi passar o outono ora com os parentes em sua terra, ora com amigos no campo, e pareceu-lhe já ter melhorado um pouco de saúde. Mas, chegando a Turim e pondo-se a estudar por pouco tempo, recaiu pior do que antes. «Eu estava perto dos exames», depõe ele, «e minha saúde encontrava-se em estado deplorável. Os males do estômago e da cabeça tiravam-me toda esperança de poder prestar o desejado exame, que para mim era de máxima importância. Animado pelo que ouvia contar de meu amado companheiro Domingos, quis também recomendar-me a ele, fazendo a Deus uma novena em honra desse meu colega. Entre as orações que me propus fazer estava esta: ‘Caro companheiro, tu que, para minha grande consolação e felicidade, foste meu condiscípulo por mais de um ano, tu que santamente competias comigo para ocupar os primeiros lugares de nossa classe, sabes quanto preciso prestar meu exame. Obtém-me, portanto, peço-te, do Senhor um pouco de saúde, para que eu possa preparar-me.’»

    «Ainda não se havia completado o quinto dia da novena quando minha saúde começou a apresentar melhora tão notável e rápida que logo pude pôr-me a estudar e, com facilidade incomum, aprender as matérias prescritas e prestar muito bem o exame. A graça não foi apenas momentânea, pois atualmente encontro-me em estado regular de saúde, que há mais de um ano não desfrutava. Reconheço esta graça como obtida de Deus por intercessão desse meu companheiro, meu íntimo em vida e agora meu auxílio e conforto, enquanto goza a glória do céu. Já se passaram mais de dois meses desde que essa graça foi obtida, e minha saúde continua a mesma, para minha grande consolação e proveito.»

    Com este fato ponho fim à vida do jovem Sávio, reservando-me a imprimir mais adiante alguns outros fatos em forma de apêndice, do modo que parecer resultar em maior glória de Deus e proveito das almas. Agora, amigo leitor, já que tiveste a bondade de ler quanto foi escrito sobre este virtuoso jovem, gostaria que chegasses comigo a uma conclusão que possa trazer verdadeira utilidade a mim, a ti e a todos aqueles a quem acontecer ler este livrinho; gostaria, isto é, que nos empenhássemos com espírito resoluto em imitar o jovem Sávio naquelas virtudes que são compatíveis com nosso estado. Em sua pobre condição, ele viveu uma vida das mais alegres, virtuosas e inocentes, coroada por uma santa morte. Imitemo-lo no modo de viver e teremos uma dupla garantia de sermos semelhantes a ele na preciosa morte.

    Mas não deixemos de imitar Sávio na frequência ao Sacramento da Confissão, que foi seu sustentáculo na prática constante da virtude e guia segura que o conduziu a um fim de vida tão glorioso. Aproximemo-nos com frequência e com as devidas disposições desse banho de salvação durante a vida; mas, todas as vezes que nos aproximarmos dele, não deixemos de voltar um pensamento às confissões passadas para assegurar-nos de que foram bem feitas e, se percebermos necessidade, remediemos os defeitos que por acaso tenham ocorrido. Parece-me que este é o meio mais seguro de viver dias felizes em meio às aflições da vida, ao fim da qual veremos também nós aproximar-se com calma o momento da morte. Então, com alegria no rosto e paz no coração, iremos ao encontro de nosso Senhor Jesus Cristo, que benignamente nos acolherá para julgar-nos segundo sua grande misericórdia e conduzir-nos, como espero para mim e para ti, leitor, das tribulações da vida à bem-aventurada eternidade, para louvá-lo e bendizê-lo por todos os séculos. Amém.

     

     

    Com apêndice sobre as graças obtidas por sua intercessão, aos cuidados do sacerdote João Bosco

                    Quarta edição aumentada, Turim, 1878, Tipografia e Livraria Salesiana, Sampierdarena – Nice Marítima

     

    [1] Leia-se camponeses. Erro tipográfico introduzido pela IV edição (N. do E.).

    [2] Antigamente chamava-se Castelnuovo di Rivalba, porque dependia dos condes Biandrate, senhores dessa localidade. Por volta do ano 1300, tendo sido conquistada pelos habitantes de Asti, passou depois a chamar-se Castelnuovo d’Asti. – Naquele tempo era muito povoada por gente industriosa e muito dedicada ao comércio, que exercia em várias cidades da Europa. Foi terra natal de muitos homens célebres. O famoso Giovanni Argentero, chamado o grande médico daquele século, nasceu em Castelnuovo d’Asti em 1513 – escreveu muitas obras de vasta erudição. Era muito piedoso e devotíssimo da grande Mãe de Deus, e erigiu em sua honra a capela de Nossa Senhora do Povo na igreja paroquial de Santo Agostinho, em Turim – seu corpo foi sepultado na igreja metropolitana com honrosa inscrição, que ainda hoje se conserva. – Muitos outros personagens ilustraram essa localidade. Mais recentemente, o sacerdote José Cafasso, homem muito digno de louvor por sua piedade, ciência teológica e caridade para com os enfermos, presos, condenados ao patíbulo e infelizes de toda espécie. Nasceu em 1811 e morreu em 1860. (V. Casalis, dic.) (a). – * Recordamos, para comodidade dos leitores, que a milha piemontesa equivalia a 2,466 km (N. do E.).

    [3] Diz-se Riva di Chieri para distingui-la de outras localidades com o mesmo nome; fica a quatro quilômetros de Chieri. O imperador Frederico, por diploma de 1164, investiu o conde Biandrate do domínio de Riva di Chieri. Depois foi cedida aos habitantes de Asti. No século XVI passou ao domínio da Casa de Savoia. – Monsenhor Agostino della Chiesa e Bonino, na biografia médica, falam longamente de muitos personagens célebres que ali nasceram (a).

    [4] O capelão desse povoado era então o sacerdote Giovanni Zucca, de Moriondo, atualmente residente em sua terra natal (a).

    [5] Mondonio, Mondomio ou Mondone é uma pequena localidade de cerca de 400 habitantes, distante duas milhas de Castelnuovo d’Asti, com a qual tem fácil comunicação por meio de uma estrada aberta recentemente mediante a perfuração de uma colina. – Há memórias desse lugar que remontam a 1034. Passou ao domínio da Casa de Savoia pelo tratado de Cherasco, de 1631. (V. Casalis, dic.) (a). – Esta nota histórica foi acrescentada pelo Autor na IV edição.

    [6] O sacerdote Giuseppe Cugliero, depois de passar alguns anos como capelão beneficiado em Pino di Chieri, após uma vida exemplar, repousou no Senhor naquela mesma localidade (a).

    [7] Aqueles prados estão hoje inteiramente cobertos de edifícios, e o local daquela altercação corresponde à área sobre a qual se encontra a igreja paroquial de Santa Bárbara (a). (Nota acrescentada na 5ª ed.).

    [8] Esta pequena coroa encontra-se impressa em muitos livros, entre os quais o Giovane Provveduto (a).

    [9] LUÍS COMOLLO nasceu em Cinzano no ano de 1818 e morreu em 1839, com fama de singular virtude, no Seminário de Chieri, aos 22 anos de idade. A vida desse modelo da juventude foi impressa pela segunda vez no primeiro ano das Letture Cattoliche (a).

    [10] Um dos que mais eficazmente ajudaram Domingos Sávio a instituir a Companhia da Imaculada Conceição e a redigir seu regulamento foi Giuseppe Bongioanni. Tendo ficado órfão de pai e mãe, fora recomendado por uma tia ao diretor do Oratório, que caridosamente o acolheu em novembro de 1854. Tinha então 17 anos e, forçado contra a vontade pelas circunstâncias, veio ainda com a mente cheia das vaidades do mundo e de preconceitos vãos em matéria de religião. Vê-se, porém, claramente nele a ação da graça divina, pois em pouco tempo afeiçoou-se grandemente à casa, às regras e aos superiores; corrigiu insensivelmente suas ideias e entregou-se com todo ardor à aquisição das virtudes e às práticas de piedade. Dotado de inteligência muito perspicaz e de grande facilidade para aprender, foi aplicado aos estudos. Com admirável rapidez concluiu os estudos clássicos, obtendo excelente resultado. Dotado de imaginação viva, mostrou grande habilidade na poesia, tanto em língua italiana como em dialeto; e, enquanto nas conversas familiares divertia os amigos improvisando sobre temas jocosos, escrevia à mesa belíssimas poesias, muitas das quais foram publicadas, como aquela em honra de Maria Auxiliadora que começa: Salve, Salve, pietosa Maria etc., que se encontra no Giovane provveduto.

    Tendo iniciado a carreira eclesiástica, distinguiu-se sempre durante o clericato por sua piedade, fiel observância das regras e zelo pelo bem de seus companheiros. Ordenado sacerdote em 1863, não é possível dizer com que fervor se entregou ao exercício do sagrado ministério. Embora pouco favorecido pela voz, agradava tanto na pregação pela beleza da matéria e pela unção da exposição que era ouvido com muito prazer e obtinha abundantes frutos.

    Depois de ter ajudado Domingos Sávio, com quem estava unido em santa amizade, a instituir a Companhia da Imaculada, quando ainda era apenas clérigo, fundou com permissão do superior outra companhia em honra do Santíssimo Sacramento, que tinha por finalidade promover o culto entre os jovens e exercitar os alunos mais destacados em virtude no serviço das funções sagradas, formando assim um pequeno clero para aumentar-lhes a majestade e a graça. Continuou a cultivar essa companhia com maior atividade e ótimos resultados quando se tornou sacerdote. E bem se pode dizer que, se a Congregação de São Francisco de Sales já pôde dar à Igreja um belo número de ministros dos altares, isso se deve em grande parte aos santos cuidados do padre Bongioanni em torno do Pequeno Clero.

    Em 1868, aproximando-se a época da consagração da igreja erguida em Valdocco em honra de Maria Auxiliadora, padre Bongioanni empenhou-se com toda dedicação para preparar as coisas necessárias a essa função e especialmente para preparar o Pequeno Clero a desempenhar com edificação sua parte no dia da festa e na oitava seguinte, que também devia ser solenizada de modo extraordinário. Impelido por ardente amor a Maria Santíssima, nada poupou de cuidados, fadigas e suores, particularmente na véspera, que foi o dia 8 de junho daquele ano. A Virgem Auxiliadora, acolhendo sua fervorosa devoção e homenagem, obteve-lhe bem depressa a recompensa. Antes, porém, quis submetê-lo a uma prova que, suportada com resignação, certamente resultou de grande mérito para o bom sacerdote. Ele, que tanto se empenhara pelo bom êxito das festas, no dia 9 de junho, dia da consagração, encontrou-se enfermo, de modo que não podia levantar-se da cama. Nos dias seguintes a doença continuava. Desejoso de poder ao menos uma vez celebrar os divinos mistérios na nova igreja, suplicou à Santíssima Virgem com calorosas instâncias que lhe obtivesse essa graça. No domingo dentro da oitava, sentiu tal melhora de forças que pôde, com a devida preparação, aproximar-se do altar e celebrar a santa Missa com imensa consolação de seu coração. Depois da Missa disse a alguns de seus amigos que estava tão contente que bem podia entoar o Nunc dimittis. E assim foi: sentindo as forças diminuírem, voltou para a cama e nunca mais se levantou. Na quarta-feira seguinte, terminada a oitava, fez-se um serviço fúnebre pelos benfeitores falecidos; e à tarde, concluídas todas as funções e solenidades, os jovens alunos dos diversos colégios que tinham vindo participar da festa partiram para seus destinos.

    Uma hora depois, o padre Giuseppe Bongioanni, munido dos confortos da religião, assistido por seu amado diretor e cercado por uma coroa de seus mais caros amigos e confrades, entregou sua bela alma ao Senhor, indo, como firmemente se espera, ver como é festejada no Céu Aquela que constituía o objeto de sua mais terna devoção (a).

    [11] Leia-se: 29 de dezembro de 1855. (N. do E.).

    [12] O sacerdote e teólogo Carlo Valfrè nasceu em Villafranca di Piemonte em 23 de julho de 1813. Com conduta verdadeiramente exemplar e feliz êxito percorreu a carreira dos estudos; seguindo sua vocação, abraçou o estado eclesiástico. Com zelo apostólico trabalhou vários anos no sagrado ministério, até que, em concurso, foi julgado digno da paróquia de Marmorito.

    Era incansável no cumprimento de seus deveres. A instrução das crianças pobres, a assistência aos enfermos e o alívio dos necessitados eram os traços característicos de seu zelo. Por bondade, caridade e desinteresse, podia ser proposto como modelo a qualquer sacerdote encarregado de almas.

    Quando os cuidados paroquiais o permitiam, ia a outros lugares pregar exercícios espirituais, tríduos, novenas e semelhantes. O Senhor abençoava suas fadigas, que eram sempre coroadas de abundantes frutos.

    Mas, justamente no tempo em que mais necessitávamos dele, Deus o encontrou maduro para o céu. Depois de breve doença, com a morte do justo, passou à vida bem-aventurada na bela idade de 47 anos, em 12 de fevereiro de 1861.

    Essa perda privou a Igreja de um digno ministro e tirou de Marmorito um pastor que, com razão, era chamado pai do povo; mas todos nós ficamos não pouco consolados na esperança de ter adquirido um benfeitor junto de Deus no céu (a).

    [13] Com esse nome indicava o livro inteiramente destinado à juventude, que tem por título: O Jovem Instruído para a prática de seus deveres, dos exercícios de piedade cristã, para a recitação do ofício da Bem-Aventurada Virgem, das vésperas de todo o ano e do ofício dos mortos etc. (a).

    [14] Leone Cocchis, estudante do 2º ano de Retórica, jovem de belas esperanças, falecido em 25 de março de 1855, aos 15 anos de idade (a).

    [15] Essa veneração e confiança no jovem Sávio cresceram grandemente depois que ali foi feito um curioso relato pelo pai de Domingos, que está pronto a confirmar sua afirmação em qualquer lugar e na presença de qualquer pessoa. Ele expôs o fato assim:

    «A perda daquele meu filho», diz ele, «foi para mim causa de profundíssima aflição, alimentada pelo desejo de saber o que lhe havia acontecido na outra vida. Deus quis consolar-me. Cerca de um mês depois de sua morte, certa noite, depois de ficar muito tempo sem conseguir dormir, pareceu-me ver abrir-se o teto do quarto em que eu dormia e, em meio a uma grande luz, aparecer-me Domingos com rosto sorridente e alegre, mas de aspecto majestoso e imponente. Diante daquele espetáculo surpreendente, fiquei fora de mim. ‘Ó Domingos!’, comecei a exclamar. ‘Meu Domingos! Como vai? Onde está? Já está no paraíso?’ ‘Sim, pai’, respondeu, ‘estou realmente no Paraíso!’ ‘Ah!’, repliquei, ‘se Deus lhe concedeu tão grande favor de poder gozar a felicidade do céu, reze por seus irmãos e irmãs para que um dia possam ir para junto de você.’ – ‘Sim, sim, pai’, respondeu, ‘rezarei a Deus por eles, para que um dia possam vir comigo gozar a imensa felicidade do céu.’ ‘Reze também por mim’, repliquei, ‘reze por sua mãe, para que todos possamos salvar-nos e encontrar-nos um dia juntos no Paraíso.’ ‘Sim, sim, rezarei.’ Dito isso, desapareceu, e o quarto voltou à escuridão de antes.»

    O pai assegura que depõe simplesmente a verdade e diz que, nem antes nem depois, nem acordado nem dormindo, teve de ser consolado por aparição semelhante (a).