15 Jun 2026, Seg

Conheçamos Dom Bosco (10). Dom Bosco na encruzilhada

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O discernimento vocacional de João Bosco, inicialmente atraído pela vida religiosa franciscana como caminho de perfeição e de luta interior, não foi claro desde o início. Entre sonhos, incertezas e falta de guias estáveis, amadurece nele o desejo de se consagrar totalmente a Deus. Após uma primeira tentativa de ingresso entre os franciscanos, um sonho e, sobretudo, a intervenção decisiva do P. José Cafasso o orientam para o seminário. A entrada no estado clerical marca para ele um “despojamento” e um “revestimento” espiritual. No seminário, distingue-se pela piedade, equilíbrio e caridade, até a confirmação definitiva de que sua missão não será o claustro, mas o apostolado educativo entre os jovens.

 

 

Porque, como todos, ele teve dificuldade em encontrar seu verdadeiro caminho.

 

 

Porque este jovem “sonhador” [João Bosco] é um positivo e, se aos olhos de seu coração resplandece um ideal divino, o Espírito Santo ainda não lhe abriu o caminho de sua concreta realização; apenas lhe pôs no coração um ardente desejo de ir além do dever e entrar, com maior e mais perfeito sacrifício, no caminho dos conselhos evangélicos.

Provavelmente seu amigo, o P. Jacinto, pretendeu respeitar o convite feito antes por outros, porque João “em Chieri frequentara o convento dos franciscanos e alguns daqueles padres, conhecidas as suas raras qualidades, o haviam convidado a entrar em sua ordem” e, por isso, o dominicano, embora mantendo e conservando uma amizade que o Beato sempre apreciou muito, se apaga completamente.

Permanece no espírito de João o embate, quase inevitável, entre o ideal visto e saboreado, e os meios para julgar em conformidade com ele e a serem ordenados à realização do programa divino. E esta é uma página de angústia na qual João reflete toda a sabedoria de seu coração: “O sonho de Morialdo” (no qual vira que continuaria a estudar e que se tornaria sacerdote educador da juventude), “estava sempre impresso em mim; aliás, renovara-se outras vezes de modo muito claro, pelo que, querendo dar-lhe crédito, devia escolher o estado eclesiástico, para o qual justamente me sentia propenso, mas não queria acreditar em sonhos e meu modo de viver e a falta absoluta das virtudes necessárias a este estado tornavam duvidosa e muito difícil essa deliberação. Oh, se então eu tivesse tido um guia que tivesse cuidado da minha vocação, teria sido para mim um grande tesouro, mas este tesouro me faltava”. (P. José Calosso morrera em 21 de novembro de 1830; o P. Jacinto Giusiana não parece ter notado este aspecto do coração de seu amigo, conhecido na “escola” como ótimo “aluno”; o confessor, por sua vez, não se preocupava com isso). “Tinha um ótimo confessor que se preocupava em me fazer bom cristão, mas de vocação nunca quis se intrometer.

Aconselhando-me comigo mesmo, depois de ter lido alguns livros que tratavam da escolha do estado, decidi entrar na ordem franciscana. – Se eu permanecer clérigo no século, dizia a mim mesmo, minha vocação corre grande perigo de naufrágio.

Abraçarei o estado eclesiástico, renunciarei ao mundo, irei para um claustro, me dedicarei ao estudo, à meditação e assim, na solidão, poderei combater as paixões, especialmente a soberba, que, em meu coração, havia lançado profundas raízes”.

Nós já conhecemos a sábia resposta de Mamãe Margarida quando, apesar das observações do pároco de Castelnuovo, ela, com perfeita abnegação, mostrou, claramente, sacrificar tudo ao beneplácito de Deus; mas aquilo em que talvez ainda não se pensou é o modo como João pretende realizar o que ele conhece como vontade de Deus e o modo diferente com que o Espírito Santo acaba por realizar o mesmo desejo de maior perfeição, para seu fim sobrenatural: aquele é cristãmente humano; este é espiritualmente divino.

O modo de João é unir, em um estado de perfeição já aprovado – a ordem religiosa dos franciscanos – o ofício sacerdotal e o desejo de realizar a perfeição da caridade na perfeição do sacrifício; no ano seguinte, “aproximando-se a festa da Páscoa que naquele ano de 1834 caía em 30 de março”, fez “pedido para ser aceito entre os Reformados”. Foi… “ao convento de Santa Maria dos Anjos em Turim”, submeteu-se “ao exame”, foi “aceito em meados de abril e tudo estava preparado para entrar no convento da Paz em Chieri”.

O modo do Espírito Santo é agir de forma diferente, e João é avisado em sonho, “um sonho dos mais estranhos”: “Pareceu-me ver, ele diz, uma multidão daqueles religiosos com as vestes rasgadas e correr em sentidos opostos um ao outro. Um deles veio me dizer: – Tu buscas a paz e aqui a paz não encontrarás. Vê a atitude de teus irmãos. Outro lugar, outra messe Deus te prepara”.

Esta é uma dolorosa manifestação, irradiada por uma luz consoladora, apenas nas últimas palavras… O Beato corre ao seu diretor para concluir positivamente alguma coisa, mas este “não quis ouvir falar nem de sonhos nem de frades: – Neste assunto, respondeu, é preciso que cada um siga suas próprias propensões e não os conselhos alheios”.

 

O sinal do caminho

João se recolhe; uma alma simples e boa, “Evásio Savio, ferreiro” de Castelnuovo “que há muito tempo amava João”, depois de lhe dar o testemunho afetuoso de seu coração, convidando-o para almoçar, “parece que o exortou a pedir conselho ao P. José Cafasso, o santo sacerdote de Turim”.

E este “homem de Deus” foi muito preciso; dissuadiu-o de se juntar aos franciscanos, dizendo-lhe: “Prossiga tranquilamente nos estudos. Entre no seminário. E siga o que a Divina Providência lhe está preparando”.

A Divina Providência é o terceiro fator que age na história, aquele que não só permite compreender melhor a concatenação dos fatos e o trabalho emaranhado da liberdade humana, mas quando a mente se eleva à consideração desta causa suprema, adquire a inteligência também daquilo que escapa à razão humana; a vida torna-se sabiamente ordenada, segundo o programa divino, que o regime providencial realiza na história.

João reencontrou assim sua aspiração interior em uma determinação exterior muito precisa e teve a confirmação com uma advertência celeste que lhe ordenava colocar-se à frente de um grupo de meninos e tornar-se seu “guia”.

Mas não está dito que uma palavra externa, mesmo que sábia, se torne imediatamente regra de vida, sem um verdadeiro e próprio despojamento do próprio modo de ver.

“Ao final daquele último ano do ginásio (1834-1835), João esteve novamente em angústias por sua vocação. Aterrado pelos perigos que se encontram no mundo, estava novamente em dúvida sobre a escolha do seminário ou do claustro, e depois de muitas reflexões decidiu entrar na benemérita ordem dos franciscanos, convencido de que isso não poderia impedir o desenvolvimento dos destinos que Deus lhe havia fixado”.

Esta nova retomada não encontrou João sozinho. O amigo Comollo – santa alma de jovem estudante – o assiste, convidando-o a rezar à Virgem Mãe, sede da sabedoria, e enquanto ele mesmo escreve ao tio, pároco de Cinzano, reza fervorosamente.

O P. Comollo expressa na carta de resposta os mesmos sentimentos do P. Cafasso: entrar no seminário “esperando para se decidir por uma ordem religiosa em idade mais madura”. Também o pároco de Castelnuovo, o P. Miguel Antônio Cinzano, que tanto amava aquele santo jovem, havia dado o mesmo conselho.

 

A sábia sugestão

João, embora permanecendo internamente decidido a abraçar o estado de perfeição da vida religiosa, no momento em que o Senhor lhe abrisse o caminho, entra no seminário; em 25 de outubro de 1835, “na igreja paroquial de Castelnuovo, antes da missa solene”, ele é vestido com o hábito clerical.

Esta cerimônia externa marca uma etapa característica na vida espiritual do Beato, porque se João, seguindo a “sábia sugestão” de seus conselheiros, se deixa guiar pelo Espírito Santo pelo caminho que o conduzirá ao sacerdócio, ao dar o primeiro passo sente todo o significado do despojamento externo simbolizando o interno, e sente também todo o significado do revestimento externo, simbolizando o interno.

“Quando o pároco me ordenou que tirasse as vestes seculares, com aquelas palavras: O Senhor te despoje do homem velho com todos os seus atos, disse em meu coração: – Oh, quanta coisa velha há para tirar. Meu Deus, destruí em mim todos os meus maus hábitos”, expressando com esta oração o desejo de uma total purificação do espírito.

“Quando depois, ao me dar o colarinho, acrescentou: O Senhor te revista do homem novo que segundo Deus foi criado na justiça e na santidade da verdade, senti-me todo comovido e acrescentei a mim mesmo: – Sim, ó meu Deus, fazei que neste momento eu vista um homem novo, isto é, que a partir deste momento eu comece uma vida nova, toda segundo os desígnios divinos, e que a justiça e a santidade sejam o objeto constante dos meus pensamentos, das minhas palavras e das minhas obras. Assim seja. Ó Maria, sede a minha salvação!”.

Despojamento do homem velho! Se é fácil tirar uma roupa usada e vestir uma nova, a coisa não é tão simples quando se trata da vida espiritual, porque a purificação total da mente e do coração, das faculdades superiores e das inferiores, através do que São João da Cruz chamou de “noite dos sentidos” e “noite do espírito”, é muito dolorosa.

Teremos a oportunidade de estudar este gradual aperfeiçoamento da caridade do Beato, examinando a ação de outros dons do Espírito Santo nele, mas não podemos omitir alguns testemunhos de seu professor de teologia, Monsenhor João Batista Appendini, e de seus companheiros de seminário.

O primeiro notava que “o clérigo Bosco, por piedade e por estudo, fez muitos progressos no seminário, sem ter as aparências disso, por causa daquela sua bonomia que foi depois o caráter de toda a sua vida”.

“O P. Giacomelli atestava: – Desde os primeiros dias em que o conheci no Seminário, considerei-o como se já fosse padre por sua sensatez e bom comportamento –”.

“O Dr. Carlos Allora: – No seminário, dava exemplos preclaros de piedade e de obediência. Tanta era a estima que os clérigos tinham por ele, que o consideravam mais que companheiro, superior. Nós, desde aqueles tempos, o tínhamos como santo –”.

“O P. Grassini, pároco de Scalenghe: – Dom Bosco era pacificador entre companheiros e companheiros –”.

“Muitos outros” davam testemunho de sua amabilidade e de sua santidade: “Este nosso amável companheiro no seminário era tido em grande conta, por santidade de vida”.

Revestimento do homem novo! Sem dúvida, a infusão da graça, das virtudes teologais, dos dons do Espírito Santo, das outras virtudes que aperfeiçoam nosso organismo é uma primeira habilitação para bem operar; mas é também necessário que o homem coopere com esforço sustentado, para que os germes não permaneçam estéreis, as boas qualidades produzam boas ações, e a vida seja plasmada segundo o Modelo divino, toda ordenada em Deus. Nosso espírito, cada vez mais perfeitamente polido e purificado, perde sua dureza e adquire uma grande sensibilidade sobrenatural que o torna flexível e interiormente sempre dócil às inspirações do Espírito Santo.

E não é, talvez, sem profundo significado aquela palavra dita pelo clérigo João Bosco, em seu segundo ano de seminário, quando, para se distinguir de um companheiro que tinha o mesmo nome e que havia escolhido para si o apelido de Bosco d’ puciu (madeira de nespereira, muito dura), ele acrescentava, com fino senso: “E eu me chamo Bosco d’sales, opondo voluntariamente à dureza e rigidez da madeira de nespereira a flexibilidade e a maleabilidade do salgueiro”.

Permanecia, porém, sempre uma decisão sua pessoal, último resíduo de seu modo de entender o chamado do Senhor: a de seu definitivo estado de vida. A última retomada ocorre em 1844, nove anos após a obediência de 1835, quando ele, já sacerdote, iniciou seu apostolado juvenil e está para terminar o terceiro ano de preparação pastoral, no Colégio Eclesiástico de Turim.

Só que naquela última retomada da nostalgia claustral, ele tem ao seu lado um santo: o P. José Cafasso, que já lhe havia expressamente declarado a vontade do Senhor, deixando-lhe, porém, uma possibilidade de escolha ulterior.

Agora, em vez disso, o não! é “seco e resoluto”. Nem franciscano, nem oblato de Maria, nem fora da Itália, como missionário, nem fora de Turim, como vigário ou pároco.

“Meu caro Dom Bosco, abandone toda ideia de vocação religiosa, vá desfazer a mala, se é que a preparou, e continue sua obra em prol dos jovens. Esta é a vontade de Deus e não outra!”.

 

 

Ceslao PERA. Os dons do Espírito Santo na alma do beato João Bosco, p. 61

 

P. Bruno FERRERO

Salesiano de Dom Bosco, especialista em catequese, autor de vários livros. Ele foi diretor editorial da editora salesiana Elledici. Ele é o diretor do "Boletim Salesiano", impresso em italiano.