5 Ago 2026, Qua

Conheçamos Dom Bosco (14). A Marquesa de Barolo

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Julieta Colbert de Barolo, nobre francesa marcada pelo exílio e por profundas provações familiares, dedicou toda a vida, junto com o marido Carlos Tancredi Falletti, às obras de caridade em Turim. Após a morte do marquês, multiplicou as iniciativas em favor dos pobres, das encarceradas, das jovens em perigo, das órfãs e das meninas com deficiência, fundando instituições, escolas, hospitais e congregações religiosas, coordenadas na Obra Pia Barolo. Entre as obras mais significativas destaca-se o Refúgio para jovens mulheres. Em 1844 acolheu Dom Bosco como capelão, apoiando seus inícios e intuindo seu valor apostólico. Mulher de profunda espiritualidade e grande influência social, deixou todos os bens às suas fundações. Morreu em 1864; está em curso a causa de beatificação.

 

 

Porque era sempre sincero e coerente.

 

 

Juliette Victorienne Françoise de Colbert-Maulévrier, descendente do ministro das finanças de Luís XIV, nasce na Vendeia em 27 de junho de 1785. Recebe uma cuidadosa educação cristã e uma excelente formação cultural. Sua infância é marcada por lutos dolorosos: aos sete anos perde a mãe; depois, a avó paterna é morta pelos revolucionários. Junto com o pai, o irmão e a irmã, precisa fugir para o exílio na Alemanha e na Holanda. Retorna a Paris no período napoleônico e é chamada à corte imperial. Ali encontra o marquês de Barolo, Carlos Tancredi Falletti (1782-1838), rico cavalheiro piemontês. O próprio Napoleão favorece e organiza o casamento deles em 1807. Até 1814 o casal vive entre Paris e Turim. Depois se estabelece definitivamente na capital da Saboia, no belo palácio setecentista dos Barolo. Não têm filhos, circunstância que os leva a dedicar-se completamente às obras de caridade.

Os cônjuges Barolo viajam muito. Assim podem observar o que está sendo feito no campo da assistência social e da intervenção caritativa na França, especialmente em Paris. Procuram fazer o mesmo em Turim. Quando, em 1838, o marquês morre prematuramente, deixando à esposa suas vastas propriedades, ela continua as obras iniciadas em favor dos pobres e necessitados, fundando novas.

Conta-se que um dia de 1819, durante a semana da Páscoa, enquanto se ajoelhava na rua à passagem do Viático, ouviu de uma janela da prisão feminina próxima uma blasfêmia. Entrou na prisão e pediu para falar com aquela pessoa; assim percebeu as miseráveis condições em que viviam as detentas. A partir desse momento decidiu responsabilizar-se por elas. Apesar das objeções de amigos, autoridades e até de seu confessor, começou a frequentar regularmente a prisão e a ensinar às reclusas higiene, rudimentos de escrita e leitura, catecismo, bordado e costura. Conseguiu instituir uma sala de aula e um ateliê, introduzir cerimônias religiosas. A partir dessa experiência, elaborou e realizou o projeto de uma prisão feminina moderna, da qual foi nomeada superintendente.

Os cônjuges Barolo fundaram muitas outras obras para os pobres que habitavam os bairros do norte da cidade, algumas das quais estão ativas até hoje. Para dar continuidade e solidez econômica a todas essas iniciativas, a marquesa instituiu a Obra Pia Barolo, ainda existente. Graças ao empenho dela e do marido, as escolas primárias populares de Turim foram confiadas aos Irmãos das Escolas Cristãs e às Irmãs de São José.

Entre todas as suas instituições caritativas, a mais imponente foi o Refúgio (Pia Obra de Nossa Senhora “Refugium Peccatorum”), inspirada na obra do abade Légris Duval de Paris, iniciada em 1821 para oferecer abrigo e formação a 300 jovens mulheres em situação de risco ou egressas da prisão. Em 1825, com o beneplácito do rei Carlos Félix, convidaram a Turim as Dames du Sacré Coeur [Damas do Sagrado Coração] para a educação das moças de família nobre. Em 1829, a exemplo da parisiense Madame Pastoret, abriram no próprio palácio o primeiro jardim de infância para meninos e meninas de classe pobre. Em 1832 iniciaram uma escola gratuita e um refeitório para os pobres que servia 250 refeições por dia; durante a estação de inverno cada um recebia também uma provisão semanal de lenha para se aquecer.

No mesmo ano, construíram um convento destinado às jovens do Refúgio que desejavam consagrar-se ao Senhor (Retiro de Santa Maria Madalena): a nova congregação foi aprovada pelas autoridades eclesiásticas com o título de Irmãs Penitentes de Santa Maria Madalena (popularmente chamadas de Madalenas). Sempre em 1832, ao lado do instituto das Madalenas, e sob seus cuidados, os Barolo construíram uma casa para acolher meninas abandonadas com menos de 12 anos (chamadas Madaleninas).

Em 1834 fundaram a Congregação das Irmãs de Santa Ana e da Divina Providência para a educação das moças de condição civil. Ao lado da comunidade das Irmãs de Santa Ana, abriram uma casa para cerca de trinta moças órfãs (as Julietas), as quais, uma vez completada a própria educação, recebiam 500 francos de dote.

Após a morte do marido, a marquesa não se limitou a sustentar as instituições caritativas anteriores, mas iniciou ou colaborou em novas fundações. Contribuiu, por exemplo, para a construção do convento das Adoradoras do Santíssimo Sacramento e participou da fundação turinense da Associação para a Adoração Perpétua. Em 1844, fundou o instituto das Terciárias de Santa Maria Madalena para aquelas jovens do Refúgio que não se sentiam chamadas à vida religiosa, mas queriam empenhar-se cristãmente no serviço. Entre 1844 e 1845 construiu o Pequeno Hospital de Santa Filomena, para acolher 120 meninas com deficiência entre 3 e 12 anos, confiadas às Irmãs de São José.

Fundou também outras obras inovadoras, como as Famílias de Santa Maria, de São José e de Santa Ana, uma espécie de casa-família para pequenos grupos de moças aprendizes confiadas ao cuidado de uma “mãe” leiga. Subvencionou a construção da paróquia e do Oratório de Santa Júlia no Bairro Vanchiglia, iniciada em 1862 e concluída em 1866, dois anos após sua morte.

 

A amiga genial

Dom Bosco encontrou a marquesa em 1844, quando lhe foi apresentado pelo teólogo Borel. Ela intuiu imediatamente estar diante de um homem de valor e, no outono daquele ano, decidiu assumi-lo como capelão do Pequeno Hospital e colaborador pastoral nas outras obras.

Não apenas lhe permitiu continuar os catecismos para os meninos pobres, como lhe concedeu temporariamente o uso dos locais do Pequeno Hospital e o sustentou economicamente em sua ação caritativa. Quando percebeu sua saúde frágil, procurou limitá-lo nas fadigas apostólicas, pedindo-lhe que se dedicasse apenas aos seus deveres de capelão. Como ela mesma explica em uma carta a Borel, não era contrária ao oratório, mas muito preocupada com o estado de Dom Bosco. Nessa perspectiva deve ser interpretado o ultimato intimado ao Santo; de fato, apesar de sua afirmação enérgica (“Ele irá afundar-se em dívidas; virá a mim, e eu protesto desde já que nunca lhe darei um tostão para os seus meninos”), continuará a sustentá-lo economicamente também depois, por meio do P. Cafasso e de Borel. É preciso acrescentar que Dom Bosco continuará a colaborar pastoralmente nas obras Barolo, pessoalmente ou por meio de seus salesianos. Aliás, após a morte de Júlia Colbert (19 de janeiro de 1864), as relações com as Irmãs de Santa Ana se intensificaram, tanto que o Santo educador, ao escrever as constituições das Filhas de Maria Auxiliadora (1870-1872), “contratou” a sua madre geral, a beata Henriqueta Dominici; além disso, duas irmãs de Santa Ana viveram por algum tempo em Mornese para ajudar a primeira comunidade das Filhas de Maria Auxiliadora.

A marquesa, além de ser uma mulher piedosa, hábil e extraordinária, gozava da estima da corte e da nobreza. Além disso, em seu palácio, mantinha um salão em estilo francês, frequentado por personagens ilustres como Péllico (seu secretário), César Balbo, os irmãos Cavour, José de Maistre, o poeta Lamartine, Dom Dupanloup e outros. Embora se apresentasse magnânima e independente, não era de modo algum uma pessoa mundana. Era profundamente espiritual e cresceu cada vez mais sob a orientação de mestres espirituais como o teólogo Luís Guala e o P. José Cafasso. Viveu uma vida de intensa oração e mortificação (usava cilício). Morreu em 19 de janeiro de 1864, após ter disposto que suas riquezas fossem destinadas ao sustento das obras de caridade. Está em curso a causa de beatificação.1

 

Arthur J. LENTI. Dom Bosco história e carisma, volume 1, pág. 455

 

P. Bruno FERRERO

Salesiano de Dom Bosco, especialista em catequese, autor de vários livros. Ele foi diretor editorial da editora salesiana Elledici. Ele é o diretor do "Boletim Salesiano", impresso em italiano.