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Continuamos com o sexto episódio sobre os principais textos do sistema preventivo de Dom Bosco.
Artigo anterior: O sistema preventivo (5/7). Convite à leitura do livro de Alberto DU BOYS, “Dom Bosco e a Pia Sociedade Salesiana”
A um formador de padres: a resposta ao reitor Dupuy
Em 2 de julho de 1886, o superior do seminário maior de Montpellier, Dupuy, escreve a Turim (MBp XVIII, 514-515). Ele já havia perguntado a Dom Bosco como ele conseguia, com tão poucos colaboradores, educar tantos jovens, e ouviu como resposta que tudo consistia em infundir o santo temor a Deus. Isso não lhe bastava: o temor a Deus, objetava ele, é o princípio da sabedoria; ele queria saber o método para conduzir as almas ao amor de Deus.
Quando lhe leem a carta, Dom Bosco reage com uma frase que vale por um tratado: querem que ele exponha o seu método, e ele é o primeiro a confessar: «Nem eu mesmo o sei». Sempre seguiu em frente conforme o Senhor lhe inspirava e as circunstâncias exigiam.
É o texto que fecha o arco da maneira mais justa. Após trinta anos de formulações, o fundador recusa-se a sistematizar: o sistema preventivo não é uma teoria a ser aplicada, mas uma prática dócil ao Espírito e à realidade. Ao lado, vale a pena ler a formulação curtíssima de MBp X, 553, que diz em poucas linhas o que em outros lugares exige páginas.
A caridade, o santo temor a Deus infundido nos corações
(1886, MBp VI, 364-365)
«Muitas pessoas, em diferentes épocas, questionaram Dom Bosco sobre seu sistema educativo que conseguia conduzir os jovens com êxito pelo caminho da virtude. E Dom Bosco costumava responder: – O Sistema Preventivo: a caridade! – Forçado a dar maiores explicações e a sugerir meios que se poderiam usar para fazer triunfar esta caridade, certa vez ele respondia: – O santo temor de Deus infundido nos corações. – Mas o Reitor do Seminário de Montpellier em 1886 escreveu-lhe: – Mas, o santo temor de Deus não é senão o princípio da Sabedoria; faça o favor de explicar-me o segredo para que eu possa servir-me dele para o bem de meus seminaristas.
Dom Bosco leu a carta e disse aos membros do Capítulo que lhe estavam perto: – Querem que eu exponha o meu Sistema! Mas nem eu mesmo sei! Sempre fui para frente sem sistemas, assim como o Senhor me inspirava e as circunstâncias exigiam.
Contudo, nós percebemos que ele tinha uma sua maneira particular que, em poucas palavras, pode-se pincelar: caridade, temor de Deus, confiança no superior, frequência aos Sacramentos da Confissão e da Comunhão, comodidade de os jovens poderem se confessar. É verdade, como já temos visto e como poderemos ver, Deus o assistia sem interrupção. Esta assistência especial, que formava como que a base de seu sistema, não era coisa que se pudesse pretender de outros. Isto pode ser chamado de artifício ordinário e humano que facilmente pode ser imitado por um Diretor sacerdote comprometido com o imperioso dever da salvação das almas.»
Querem que eu exponha o meu sistema! Mas se nem eu mesmo o sei!
(1886, MBp XVIII, 106-107)
«Aquela hospitalidade oferecida a ele tão cordialmente no Seminário de Montpellier teve uma continuação, da qual não poderíamos deixar de falar. Ao senhor Dupuy, superior do Seminário, Dom Bosco havia mandado de Turim, com os seus agradecimentos, também algumas publicações suas, entre outras a Vida de S. Vicente de Paulo. Aquele, respondendo em 2 de julho, depois de lhe ter agradecido, dizia-lhe: “O Seminário de Montpellier guarda ainda a mais grata impressão da sua visita; os bons habitantes da cidade, que lhe fizeram tão bela acolhida, estariam dispostos a renová-la e eu me ofereceria novamente para ampará-lo e protegê-lo do assalto da multidão. E olhe que tive de suar um bocado para conter o ímpeto do povo, que queria beijar a mão de um padre pobre entre os pobres e cheio de achaques”. Mas, no entanto, tinha ficado com um grande pesar. Tendo-o deixado inteiramente à disposição dos outros, nunca tinha conseguido arranjar a oportunidade de conversar com ele a sós, enquanto teria tido um grande desejo de interrogá-lo sobre o método por ele usado para levar as almas a Deus. Tinha-lhe, sim, perguntado como fazia com tão escasso número de ajudantes para governar tantos jovens, e Dom Bosco lhe havia respondido que todo o segredo estava em infundir-lhes o santo temor a Deus; mas com esta sua resposta o Superior não estava satisfeito. “O temor a Deus, observava na mesma carta, é apenas o princípio da sabedoria; eu, em vez disso, gostaria de saber qual é o seu método para guiar as almas ao ápice da sabedoria, que é o amor de Deus”.
Quando lhe leram a carta, Dom Bosco exclamou: Querem que eu exponha o meu método. Ah!… Nem eu mesmo o sei. Sempre segui em frente conforme o Senhor me inspirava e as circunstâncias exigiam. – O que respondeu ou mandou responder, não se sabe; mas certamente estas palavras na sua simplicidade querem dizer muito. Elas não significam de modo algum que fosse seu costume, como nota o P. Fascie, andar sem saber para onde, mas que não se tinha enrijecido num sistema estereotipado, o qual “lhe cortasse a liberdade de movimentos diante de novas iniciativas ou de novas exigências”. De fato, o seu espírito eminentemente prático fugia das abstrações. Um método verdadeiramente Dom Bosco fez seu, o chamado método preventivo, mas extraindo os seus elementos da “tradição humana e cristã” e do estudo sobre a alma dos jovens, longe, portanto, do campo da Pedagogia teórica.»
Apêndice: “Lembrem-se de nunca colocar os jovens na ocasião de poderem cometer uma falta: eis o sistema preventivo de Dom Bosco” (MBp X, 553)
«Num colégio, as Irmãs tinham comprado um pouco de maçãs frescas e bonitas, e as puseram numa cestinha ao lado da janela da despensa. De repente, todas elas desapareceram!… A Diretora vê Dom Bosco, se aproxima e lhe diz:
– Sabe, Padre, o que nos fizeram os jovens nesta manhã? Tínhamos providenciado um pouco de bonitas maçãs para o almoço dos visitantes [era dia de festa no colégio], e roubaram todas!…
Ele, com sua calma habitual comentou:
– O erro não é dos jovens, é vosso. Chamai o prefeito, e dizei-lhe que Dom Bosco mandou colocar uma grade de ferro naquela janela… E lembrai-vos de nunca colocar os jovens na ocasião de poder cometer uma falta; eis o Sistema Preventivo de Dom Bosco!
Em todos os momentos, era sempre um bom pai e um mestre exemplar!»

