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Há mais de um século e meio, no dia da Natividade de São João Batista, a Família Salesiana festeja o sucessor de Dom Bosco. Uma tradição nascida nos pátios de Valdocco, que começou com dois corações de prata e se tornou, com o tempo, a grande festa da gratidão de uma família espalhada por todo o mundo.
Quem entrasse em Valdocco nos últimos dias de junho, em qualquer ano da segunda metade do século XIX, respiraria um ar de alegre conspiração. Ensaios da banda que eram interrompidos de repente com a aproximação de uma batina bem conhecida, papéis escondidos às pressas debaixo das carteiras, meninos que repassavam em voz baixa versos em italiano, em piemontês, até mesmo em latim e em francês. Lá fora, a cidade se preparava para a festa de seu padroeiro: a catedral de Turim é dedicada a São João Batista e, na véspera, a tradicional fogueira iluminava a noite. Dentro do Oratório, enquanto isso, preparava-se outra festa, mais íntima e a mais esperada de todas: o dia do onomástico de Dom Bosco.
Quando o onomástico era o que importava
Para entender essa festa, é preciso entrar na mentalidade da época: no Piemonte do século XIX, o aniversário de nascimento importava pouco ou nada; comemorava-se o onomástico, o dia do santo cujo nome se levava. O próprio Dom Bosco esteve convencido durante grande parte da vida de ter nascido em 15 de agosto, festa da Assunção, enquanto os registros paroquiais de Castelnuovo indicam 16 de agosto de 1815: ninguém, em Valdocco, jamais sonhou em lhe dar os parabéns em agosto.
Batizado com os nomes de João Melquior, seu dia era 24 de junho, solenidade da Natividade de São João Batista: uma das festas mais antigas do calendário cristão, a única – junto com o Natal do Senhor e a Natividade de Maria – em que a liturgia celebra um nascimento. E em Turim essa data tinha um sabor todo especial, porque o Batista é o padroeiro da cidade. Assim, enquanto Turim festejava o seu santo, os meninos do Oratório festejavam o seu pai. Duas festas em uma: a do Precursor e a de um padre que, entre uma brincadeira e uma confissão, indicava aos meninos mais pobres da cidade o mesmo caminho.
Dois corações de prata
A tradição salesiana remonta tudo a um gesto preciso. Em 24 de junho de 1849, dois jovens do Oratório, Carlos Gastini e Félix Reviglio, apresentaram-se a Dom Bosco em nome de todos os companheiros e lhe ofereceram dois corações de prata. Eram meninos pobres, ajudantes e aprendizes, que para aquele presente haviam juntado, tostão por tostão, as pequenas economias de meses. Dom Bosco – conta a memória salesiana – comoveu-se até as lágrimas.
Aquele presente dizia algo decisivo sobre o método educativo que estava nascendo naquele pátio. Na célebre carta de Roma de 1884, Dom Bosco escreveria que não basta amar os jovens: é preciso que eles percebam que são amados. Os dois corações de prata eram a confirmação antecipada disso: os meninos haviam percebido, e respondiam ao amor com amor. Por isso, a festa do onomástico logo ganhou, na linguagem da casa, outro nome destinado a durar: a festa da gratidão.
Aqueles dois jovens merecem ser acompanhados ao longo do tempo. Félix Reviglio se tornaria sacerdote e pároco estimado em Turim. Carlos Gastini, encadernador de livros, continuaria sendo a alma alegre das festas de Valdocco e, vinte anos depois, daria à festa uma continuação que ninguém havia previsto; ele ficaria na história como o animador e depois promotor do movimento dos ex-alunos salesianos.
A festa mais bonita do ano
Ano após ano, o onomástico de Dom Bosco tornou-se a festa mais esperada do Oratório, capaz de mobilizar a todos por semanas: o programa da “academia”, com poesias, diálogos e discursos nas mais diversas línguas; as músicas, muitas vezes compostas para a ocasião pelo jovem João Cagliero, futuro cardeal; as apresentações do teatrinho e as novas marchas da banda. Na noite da festa, o pátio se transformava: iluminações, balões venezianos, fogos de bengala e, no meio, ele, Dom Bosco, cercado pelo afeto barulhento de seus filhos.
Havia também um costume mais silencioso e precioso: as “cartinhas”, bilhetes que cada menino escrevia a Dom Bosco com os parabéns, alguma confidência, um propósito. Ele lia todas. E quando chegava a sua vez de falar, invertia a lógica dos presentes: o único dom que pedia eram os seus corações e o bem de suas almas. A festa tornava-se assim uma escola de gratidão, de espírito de família, de alegria compartilhada. Afinal, os jovens sabiam muito bem pelo que ser gratos: “Por vós estudo, por vós trabalho, por vós vivo, por vós estou disposto até a dar a vida”, repetia-lhes Dom Bosco. A festa de 24 de junho era a resposta em coro a essa dedicação total.
A última vez foi em junho de 1887. Dom Bosco, já consumido pelo cansaço, assistiu à festa quase sem voz, enquanto seus jovens cantavam para ele, contendo a custo as lágrimas. Sete meses depois, na madrugada de 31 de janeiro de 1888, ele morria. Mas a sua festa não morreu com ele.
Daquele pátio nasceram os Ex-alunos
Antes de seguir a festa além da morte do Fundador, é preciso registrar um fruto inesperado. Em 24 de junho de 1870, Carlos Gastini reapresentou-se em Valdocco. Já não era um menino: era um artesão com uma profissão e uma família, e com ele estava um grupo de antigos alunos do Oratório que vieram festejar o onomástico daquele que os havia acolhido, alimentado e instruído. Como presente, traziam um jogo de xícaras de café, comprado juntando as economias, como nos velhos tempos. Aquele retorno, repetido depois de ano em ano com grupos cada vez mais numerosos, é considerado a semente da qual brotou o movimento dos Ex-alunos de Dom Bosco, hoje difundido em todo o mundo.
Em Valdocco, a gratidão não era a emoção de um dia: tornava-se pertencimento para a vida toda. A festa de 24 de junho é, literalmente, uma festa que gerou família.
A festa que não mudou de data
Com a morte de Dom Bosco, a pergunta era inevitável: o que seria da festa? O primeiro sucessor, o beato Miguel Rua, teria o seu onomástico em 29 de setembro, festa de São Miguel Arcanjo. Mas nem se falou nisso: jovens e salesianos continuaram a festejá-lo em 24 de junho. Naquela escolha havia uma intuição profunda: aquela data não celebrava o nome de um homem, celebrava o pai. As Constituições salesianas dizem isso ainda hoje com palavras essenciais: o Reitor-Mor é o sucessor de Dom Bosco, pai e centro de unidade da Família Salesiana (art. 126). Festejá-lo no dia que foi de Dom Bosco significa professar, ano após ano, que aquela paternidade não se interrompeu: nele, a família continua a ver e a amar o Fundador.
Assim foi para todos os sucessores: para o P. Paulo Álbera, que na França chamavam de “o pequeno Dom Bosco”; para o beato Filipe Rinaldi, de quem os salesianos mais velhos diziam que de Dom Bosco só lhe faltava a voz; e depois para o P. Pedro Ricaldone, P. Renato Ziggiotti, P. Luís Ricceri, P. Egídio Viganò, P. Juan Vecchi – primeiro sucessor não italiano –, P. Pascual Chávez e o cardeal Ángel Fernández Artime, chamado pelo Papa Francisco para um novo serviço na Igreja. Até hoje: o décimo primeiro sucessor de Dom Bosco é o P. Fabio Attard. Neste dia 24 de junho, a Família Salesiana se reunirá pela segunda vez ao redor dele: de Turim a Nairóbi, de Roma aos Andes, com os mesmos votos dos meninos de 1849.
Por que festejar ainda
Que sentido faz, hoje, uma festa nascida há cento e setenta e sete anos em um pátio de periferia? Faz pelo menos três, surpreendentemente atuais.
O primeiro: educa para a gratidão. Em uma cultura que dá tudo como garantido, dizer obrigado tornou-se quase um gesto na contramão. A festa do Reitor-Mor – que nas casas salesianas se reflete na festa do diretor e nas “festas da gratidão” celebradas em nível local, inspetorial e mundial – ensina aos jovens a memória do bem recebido. Exatamente como em 1849: a educação que passa pelo coração gera corações capazes de gratidão. Para Dom Bosco, não era um detalhe: era a verificação de que o sistema preventivo funcionava.
O segundo: guarda a unidade. A Família Salesiana conta hoje com cerca de trinta grupos – Salesianos, Filhas de Maria Auxiliadora, Salesianos Cooperadores, Ex-alunos e Ex-alunas, ADMA e muitos outros – e só os Salesianos de Dom Bosco são mais de treze mil, presentes em 136 nações. Uma realidade tão vasta e plural correria o risco de se dispersar, se não tivesse um centro vivo. Festejar juntos, no mesmo dia e em cada canto do planeta, aquele que é pai e centro de unidade significa reconhecer-se como uma única família, com uma única missão: os jovens, especialmente os mais pobres.
O terceiro: mantém jovem o carisma. A cada 24 de junho, a Família Salesiana conta a si mesma de onde vem – um prado, um pátio, um padre que se fez amar – para se lembrar aonde deve ir. A festa não é nostalgia: é memória que se torna futuro, fidelidade que se faz criatividade.
Daqueles dois corações de prata de 1849 até hoje, os balões venezianos deram lugar às conexões digitais e os votos viajam em dezenas de línguas. Mas a essência é a mesma: filhos que dizem obrigado a um pai, e um pai que, como Dom Bosco, não pede em troca senão os seus corações. E em 24 de junho, de cada canto do mundo salesiano, subirá novamente em direção ao sucessor de Dom Bosco o voto de sempre, aquele que os meninos gritavam no pátio iluminado de Valdocco: boa festa, pai!

