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A Viagem à cidade do fogo é um dos mais famosos “sonhos” de São João Bosco, narrado aos seus meninos em 3 de maio de 1868. Nesta visão dramática, o educador, escoltado por um enigmático “homem do boné”, atravessa uma paisagem desolada até os bastiões do inferno, onde vê jovens conhecidos precipitando-se entre laços invisíveis e chamas eternas. Cada episódio é um símbolo moral: os fios representam o respeito humano, as facas a oração, as portas de bronze as consequências do pecado. Dom Bosco transformou a angústia do sonho em catequese, advertindo seus alunos contra a desobediência, a impureza, a avareza e a ociosidade, e indicando os sacramentos, a devoção mariana e a obediência como caminhos de salvação. O relato permanece um documento incomparável de seu zelo pastoral e ardente caridade educativa.
No domingo à noite, 03 de maio, festa do patrocínio de São José, Dom Bosco retornou a narração do que tinha visto nos sonhos. Falou:
– Devo contar-lhes um outro, que pode ser considerado como consequências dos que lhes narrei sexta-feira à noite. Estes me deixaram desolado a ponto de não mais aguentar. Vocês podem chamá-los sonhos ou deem-lhes outro nome… enfim, chamem-no como quiserem.
– “Falei-lhes de um sapo apavorante que na noite de 17 de abril ameaçava engolir-me; quando desapareceu, uma voz me disse: – Por que não fala? – Virei-me para o lado de onde vinha essa voz e vi ao lado de minha cama um gentil personagem. Tendo entendido a causa dessa repreensão, perguntei-lhe:
– O que devo dizer aos nossos jovens?
– O que viu e lhe foi falado nos últimos sonhos e o que mais desejava saber, lhe será revelado na próxima noite! E desapareceu.
Então durante todo o dia seguinte fiquei pensando na horrível noite que deveria ter; chegada a noite não conseguia decidir-me a ir dormir. Fiquei na escrivaninha tentando ler até a meia-noite. Aterrorizava-me ter que ver outros espetáculos assustadores. Finalmente me obriguei e me deitei”.
E assim continuou a contar:
A fim de não adormecer tão cedo, por temer que a imaginação me conduzisse aos sonhos costumeiros, apoiei meu travesseiro na parede e na cabeceira da cama. Porém, cansado como estava, peguei no sono sem perceber. Eis que improvisamente vi no quarto, perto da cama, o homem da noite anterior (por ele chamado muitas vezes o homem do bonetto ou do boné). Ele me falou:
– Levante-se e acompanhe-me.
Respondi:
– Peço por caridade! Deixe-me estar, pois estou muito cansado! Olhe! Há vários dias que sou atormentado por dor de dente. Deixe-me descansar. Tive sonhos apavorantes, estou esgotado. – Dizia isto também porque a aparição desse homem é sempre sinal de grandes inquietações, de cansaço e de pavor.
Ele me respondeu:
– Levante-se, pois não há tempo para perder.
Então levantei-me e o segui. Enquanto caminhávamos eu o interrogava: – Aonde quer me conduzir agora?
– Venha e verá.
Conduziu-me a um lugar onde havia uma extensa e vasta planície. Olhei ao redor, não via os limites daquela região, de nenhum lado, tão imensa que era. Não se via planta alguma, rio nenhum; o capim amarelo e seco apresentava um triste espetáculo. Não sabia onde eu estava nem o que ia fazer. Por alguns instantes não vi mais o guia. Tive receio de estar perdido. Não havia mais nem P. Rua nem P. Francesia, nem outros. Quando eis que descubro o amigo que vinha ao meu encontro. Respirei e:
– Onde estou? – perguntei-lhe.
– Venha comigo e verá!
– Está bem, irei contigo!
Ele foi na frente e eu o seguia em silêncio. Após longa e triste viagem, Dom Bosco vê um imenso deserto. Então pensa: Quanta fome passarei!, pobre de mim com as pernas inchadas.
De repente, apareceu na minha frente uma estrada. Quebrei o silêncio e perguntei ao guia: – Aonde devemos ir agora?
– Por aqui, – respondeu.
Entramos nessa estrada. Era bonita, larga, espaçosa e bem calçada. (Via peccantium complanata lapidibus, et in fine illorum inferi, et tenebrae, et poenae – O caminho dos pecadores é pavimentado de pedras, mas desemboca no inferno, nas trevas e nos tomentos – cf. Eclo 21,11). Em ambos os lados era ladeada por sebes verdes, cobertas de flores raras. De maneira especial as rosas despontavam de todos os lados em meio às folhas. À primeira vista esta estrada parecei plana e cômoda; meti-me por ela sem nada suspeitar. Mas, andando, me dei conta que eu corria com tamanha facilidade que me dava a impressão de ser levado pelos ares. Antes, dei-me conta de que ia adiante sem mover os pés. Corríamos rapidamente. Pensando que seria muito difícil e cansativo retornar por uma estrada tão longa, falei ao amigo:
– Como faremos para voltar ao Oratório?
– Não se preocupe – respondeu. O Senhor é todo-poderoso e quer que você ande. Quem o conduz e o ensina a ir em frente saberá também trazê-lo de volta.
A estrada era sempre em descida. Seguíamos o caminho entre flores e rosas, quando em nosso mesmo trajeto vi caminhando atrás de nós todos os nossos jovens do Oratório, acompanhados de muitíssimos companheiros por mim nunca vistos; e eu me achei no meio deles. Enquanto os observava, noto que ora um ora outro caía e eram num instante arrastados por força invisível para uma descida terrível, avistada um pouco distante; vi depois que terminava numa fornalha. Perguntei ao meu companheiro:
– O que leva esses jovens a cair? (Funes extenderunt in laqueum; iuxta iter scandalum posuerunt. Estenderam as cordas na rede, colocando tropeços ao longo do caminho – Sl 139,6).
– Aproxime-se um pouco mais – respondeu-me.
Aproximei-me, e vi que os jovens passavam por entre muitos laços, alguns ao rés-do-chão, outros à altura da cabeça; estes não eram vistos. Por isso, muitos jovens caminhando ficavam presos nesses laços, sem perceberem o perigo; e ao ficar presos davam um pulo, caindo de ponta cabeça no chão, de pernas para o ar; e então, levantando-se corriam precipitadamente para o abismo. Uns ficavam laçados pela cabeça, outros pelos quadris, e no mesmo instante eram puxados para baixo. Os laços colocados no chão pareciam de estopa e quase invisíveis, semelhantes a teia de aranha; contudo parecia que não causassem grande mal. Entretanto, vi também que todos os jovens presos por esses laços caíam no chão.
Eu estava maravilhado. Então o guia me disse – Sabe o que é isto?
– É somente um pouco de estopa, – respondei.
E vendo que muitos continuavam sendo presos nos laços, perguntei:
– Como é que muitos ficam presos nesses laços? Quem os arrasta assim?
E ele:
– Aproxime-se mais, olhe e verá!
Observei um pouco. Depois disse:
– Não vejo nada.
– Olhe um pouco melhor, – repetiu-me.
Peguei um desses laços, puxei-o em minha direção. Percebi que a extremidade não vinha. Puxei mais um pouco, mas não pude ver onde acabava o fio, pelo contrário, senti que eu mesmo estava sendo puxado. Então segui o fio; cheguei à boca de uma apavorante caverna. Parei porque não queria entrar nesse enorme buraco. Puxei o fio para mim e me dei conta que vinha um pouco; contudo era preciso fazer grande esforço. Eis que, depois de muito puxar, aos poucos saiu um horrível, grande e nojento monstro. Ele segurava com firmeza com as enormes unhas a extremidade de uma corda, na qual estavam amarrados juntos todos os laços. Quando alguém mal caía nessas malhas, o arrastava imediatamente para ele. Eu disse para mim mesmo: – É inútil apostar forças com este horrível bandido, pois não o venço; melhor é combatê-lo com o sinal da cruz e com jaculatórias.
Voltei então para perto de meu guia, que me disse:
– Agora sabe quem é?
– Oh, sim, claro que sei! É o demônio que estende estes laços para que meus jovens caiam no inferno.
Observei atentamente muitos laços, notando que cada um tinha nome específico. Laço da soberba, da desobediência, da inveja, do sexto mandamento, do roubo, da gula, da preguiça, da ira etc. Depois me afastei um pouco para ver quais eram os laços que pegavam o maior número de jovens. Vi que eram: da desonestidade, da desobediência, da soberba. Outros dois estavam amarrados neste último. Depois disso vi muitos outros laços. Faziam um grande estrago, mas não tanto como os primeiros dois. Continuando a observar, vi muitos jovens correndo mais precipitadamente do que os outros. Perguntei:
– Por que tanta rapidez?
– Porque – foi-me dito – são puxados com laços do respeito humano.
Reparando mais atentamente ainda, vi que, aqui e acolá entre os laços, havia facas espalhadas por uma mão providencial. Serviam para cortá-los ou rompê-los. A faca maior era contra o laço da soberba; significava a meditação. Outra faca, bastante grande, porém menor do que a anterior, significava a leitura espiritual bem feita. Havia mais duas espadas. Uma indicava a devoção ao Santíssimo Sacramento, especialmente com a comunhão frequente. A outra, a devoção a Nossa Senhora. Havia também um martelo: a confissão. Outras facas eram símbolos de várias devoções a São José, a São Luís etc. etc. Muitos cortavam os laços com estas armas ou se defendiam para não serem amarrados.
De fato, vi jovens passando pelos laços sem nunca ficar presos; passavam antes de o laço cair. Se passassem quando o laço caía, sabiam se desviar; e o laço batia nos ombros, nas costas, ou de um lado ou outro, sem pegá-los.
Quando o guia disse que eu observara tudo, mandou-me continuar a estrada ladeada pelas rosas. À medida que segui em frente, as rosas da sebe rareavam, aparecendo espinhos compridos. Depois, por mais que se olhasse, não se descobria mais nenhuma rosa. No fim a sebe se tornara totalmente cheia de espinhos, queimada pelo sol e sem folhas. Depois, dos arbustos esparramados, secos, saíam galhos que serpenteando pelo chão o atravancavam, espalhando espinhos de tal modo que a muito custo se podia caminhar. Chegamos a uma depressão cujas margens escondiam todos os lugares ao redor. A estrada, sempre em descida, era sem calçamento, esburacada, desnivelada, com pedras e cascalho redondo. Eu perdera de vista todos os meus jovens, muitíssimos dos quais tinham saído daquela estrada traiçoeira, tomando outros caminhos.
Prossegui meu caminho. Quanto mais avançava, mais a descida se tornava difícil, rápida a ponto de, por vezes, eu escorregar, caindo pesado no chão. Aí ficava sentado a fim de retomar o fôlego. De quando em quando o guia me segurava e me levantava. A cada passos as juntas se dobravam dando a impressão de que as pernas se separassem. Arfante, dizia a meu guia:
– Mas, meu caro! As pernas não me sustentam mais. Estou tão alquebrado que me é impossível prosseguir viagem.
O guia não respondeu e, animando-me, continuou seu caminho, até que, vendo-me totalmente suado e morto de cansado, me conduziu sobre um pequeno patamar da mesma estrada. Sentei-me, respirei fundo; pareceu-me descansar um pouco. Enquanto isso olhava para cima, a estrada que já tinha feito: assemelhava-se a um pico, cheia de pontas e pedras soltas. Olhava para baixo, a estrada que ainda tinha por fazer, e fechava os olhos arrepiado, até que exclamei:
– Retornemos, por caridade. Se formos mais adiante, como faremos para voltar ao Oratório? É impossível que eu possa dar conta desta subida!
O guia resolutamente me respondeu:
– Agora que chegamos até aqui, quer ficar sozinho?
Diante de tal ameaça, exclamei com voz lamuriosa:
– Sem o senhor, como poderia retornar ou continuar a viagem?!
Ergui-me e continuamos a descer. A estrada tornava-se cada vez mais abrupta, de modo que quase eu não podia ficar direito em pé.
Eis que no fundo desse precipício, que ficava no final de um vale escuro, aparece um enorme edifício que em frente à nossa estrada tinha uma porta muito alta fechada. Chegamos ao fundo do abismo. Um calor sufocante me oprimia e uma fumaça gordurosa, quase verde, atravessada por línguas sanguinolentas de fogo, subia naqueles paredões. Levanto os olhos para essas muralhas; eram mais altas do que uma montanha. Dom Bosco perguntou ao guia:
– Onde estamos? O que é isto?
Ele me respondeu: – Leia naquela porta. Pelo que está escrito saberá onde estamos! – Olhei. Na porta havia a inscrição: Ubi non est redemptio (Onde não há redenção). Percebi que estávamos às portas do inferno. O guia me convidou a dar uma volta ao redor dos paredões daquela horrível cidade. De quando em quando se via uma porta de bronze como a primeira, aos pés de uma descida terrível. Cada porta tinha uma inscrição diferente. Discedite, maledicti, in ignem aeternum, qui paratus est diabolo et angelis eius… Omnis arbor quae non facit fructum bonum excidetur et in ignem mittetur (Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos… Toda árvore que não produz frutos bons é cortada e lançada ao fogo – Mt 25,41; 7,19). Peguei o caderno para copiar essas inscrições. O guia me falou:
– Pare. O que faz?
– Tomo nota destas inscrições.
– O senhor não tem necessidade, pois estão todas na Bíblia. Ainda mais, algumas o senhor colocou nos pórticos.
Diante desse espetáculo desejava voltar atrás e chegar ao Oratório. Dera alguns passos, mas o guia não se virou. Passamos por tremendo penhasco e novamente nos encontramos na estrada com descida violenta pela qual tínhamos passado, na frente da primeira porta. De repente o guia se virou com semblante sombrio e contraído, fazendo sinal com a mão para eu me afastar. Disse:
– Observe!
Tremendo, olhei para cima e vi à grande distância, naquela precipitosa estrada, alguém que descia em grandíssima velocidade. À medida que se aproximava, tentava fixá-lo no rosto; reconheci nele um de meus jovens. Parte de seus cabelos desgrenhados estavam hirtos na cabeça, e parte esvoaçando por causa do vento. Os braços estendidos para a frente, como se estivesse nadando para fugir do naufrágio. Queria parar, mas não podia. Batia com os pés nas pedras salientes, que serviam para lhe dar mais impulso. Eu gritava:
– Corramos, paremo-lo, ajudemo-lo – estendendo as mãos em sua direção.
E o guia:
– Não. Deixe.
– E por que não posso pará-lo?
– Você não sabe como é tremenda a vingança de Deus? Crê que pode parar alguém que foge da ira acesa do Senhor?
E esse jovem olhava para trás para ver se a ira de Deus ainda o seguia; Precipitava-se no fundo indo bater na porta de bronze, como se na sua fuga não encontrasse melhor chance.
Eu perguntava: – Por que esse jovem olha para trás tão aterrorizado?
– Porque a ira de Deus passa por todas as portas do inferno, indo atormentá-lo também no meio do fogo.
O fato é que naquela batida, provocando enorme estrondo ao soltar as grandes corrente, a porta ficou escancarada. E depois dela foram se abrindo ao mesmo tempo, com estrondo ensurdecedor, duas, dez, cem, mil outras, acionadas pelo choque do jovem, carregado como por um invisível turbilhão, irresistível e velocíssimo. Todas as portas de bronze, uma depois da outra, mesmo estando longe, ficaram abertas por um instante; então, vi no fundo à grande distância, algo parecido com a boca de uma grande fornalha. Daquele abismo, enquanto o jovem se precipitava, saíam globos de fogo. As portas tornaram a se fechar rapidamente como se tinham aberto. Aí, peguei o caderno para tomar nota do nome do infeliz. Mas o guia pegou-me pelo braço e:
– Pare. Observe novamente – intimou-me.
Eu observei. Eis novo espetáculo. Vi outros três jovens de nossas casas precipitar-se daquela descida. Pareciam pedras, que rolavam com grande velocidade uma atrás da outra. Tinham os braços abertos e berravam de pavor. Chegando ao fundo, se chocaram na primeira porta. Nesse momento Dom Bosco reconheceu os três. E a porta se abriu, e atrás dela as outras mil; os jovens foram atirados naquele corredor compridíssimo; foi ouvido prolongado ruído infernal cada vez mais distante e eles desapareceram e as portas se fecharam. De vez em quando muitos outros foram caindo depois desses. Vi cair um coitadinho empurrado por um pérfido companheiro. Uns caíam sozinhos, outros em grupo; outros abraçados, outros separados, mas próximos ao lado. Cada um levava o próprio pecado escrito na testa. Angustiado, eu os chamava enquanto caíam. Mas eles não me ouviam, as portas ressoavam infernalmente; abriam-se e fechavam; em seguida, um silêncio mortal.
– Eis uma importante causa de tão numerosas condenações! – exclamou o guia: os colegas e livros maus, e os hábitos perversos.
Os laços vistos antes puxavam os jovens para o precipício. Vendo que eram muitos os que caíam, disse em tom desesperado:
– Mas, então, nosso trabalho nos colégios é inútil, se tantos acabam assim! Não haverá remédio para acabar com tantos prejuízos às almas?
O guia:
– Esta é a situação atual deles. Se morressem, viriam para cá.
– Então permita-me anotar os nomes para que eu os advirta e os coloque no caminho do Paraíso.
– Acredita o senhor que alguns, se avisados, se emendariam? O conselho os tocará no primeiro momento. Depois o abandonarão dizendo: é um sonho! Ficarão piores do que antes. Haverá os que, vendo que foram descobertos, frequentarão os Sacramentos, sem espontaneidade e merecimento, pois não os receberão bem. Outros se confessarão por temor passageiro do inferno, sem abandonar o apego do coração ao pecado.
– Então não haverá mais remissão para esses infelizes? Dê-me um conselho especial para salvá-los.
Nesse ínterim, novo grupo de jovens se precipita; abrem-se as portas por um instante, e:
– Venha para dentro também o senhor! – Falou-me o guia.
Afastei-me horrorizado. Estava louco para voltar ao Oratório, a fim de avisar os jovens e preveni-los, de maneira que outros não se perdessem. Entretanto, o guia insistiu:
– Venha e aprenderá muitas coisas. Antes, porém, diga-me: quer ir sozinho ou acompanhado? – Falou assim para que eu reconhecesse a insuficiência de minhas forças e, ao mesmo tempo, a necessidade sua benévola assistência. Eu respondi:
– Sozinho, nesse lugar de horror? Sem o apoio de sua bondade? Quem me indicará o caminho da volta?
De repente me senti cheio de coragem, pensando comigo mesmo: – Antes de ir para o inferno é preciso apresentar-se ao julgamento. E eu, ao juízo ainda não fui. Exclamei decidido:
– Então entremos!
Entramos nesse horrível e estreito corredor! Corríamos com a rapidez de um corisco. Em cada uma das portas interiores brilhava, em fosca claridade, uma ameaçadora inscrição. Terminando de percorrê-lo, desembocamos num pátio amplo e sombrio; no fundo dele havia um alçapão feio, grande, como nunca tinha visto outro pior. Nele estavam escritas estas palavras: Ibunt impii in ignem aeternum (Irão os ímpios ao fogo eterno – cf. Mt 25,41). Todas as paredes ao redor eram cobertas de inscrições. Pedi licença a meu guia para lê-las. Ele me respondeu:
– Esteja à vontade.
Então observei todos os lados. Num lugar estava escrito: Dabo ignem in carnes eorum ut comburantur in sempiternum ([O Senhor] meterá fogo em suas carnes e elas arderão para sempre – Jd 16,17). – Cruciabantur die ac nocte in saecula saeculorum (Serão atormentados noite e dia, pelos séculos dos séculos – Ap 20,10). – Em outro lugar: – Hic universitas malorum per saecula saeculorum (Aqui reina todo mal para sempre). – Em outros lugares: – Nullus est hic ordo, sed horror sempiternum inhabitat (Onde não há ordem, mas habita o horror sempiterno – cf. Jo 10,22) – Fumus tormentorum suorum in aeternum abscendit (A fumaça do seu tormento subirá pelos séculos dos séculos – Ap 14,11) – Non est pax impiis (Não há paz para os ímpios – Is 48,22) – Clamor et stridor dentium (Clamor e ranger de dentes – cf. Mt 8,12).
Enquanto eu girava e lia as inscrições, o guia se aproximou e me disse:
– Daqui para frente ninguém poderá ter um companheiro que o ajude, um amigo que lhe dê força, um coração que o ame, um olhar de compaixão, uma palavra bondosa. Cruzamos a linha. O senhor deseja ver ou experimentar?
– Quero somente ver – respondi.
– Então venha comigo, – acrescentou o amigo. Tomando-me pela mão, conduziu-me até a frente daquele alçapão abrindo-o. Este dava num corredor. No fundo dele havia uma enorme gruta fechada por larga janela de um único vidro que se erguia do chão até o alto, por onde se podia olhar dentro. Dei um passo para além do limiar; parei rápido tomado por indescritível pavor. Diante de meus olhos apareceu uma grande caverna que se perdia em reentrâncias cavadas nas vísceras das montanhas. Estavam todas cheias de fogo, não como o vemos sobre a terra em línguas, mas de tal forma que por dentro tudo estava incandescente e branco por causa do forte calor. Paredes, tetos, piso, ferro, pedras, lenha, carvão, tudo branco e brilhante. Com certeza, esse calor ia além de milhares de graus. Nada virava cinza, nada se consumia. Eu não tenho condições de descrever esta espelunca em toda sua pavorosa realidade. (Praeparata est enim ab heri Thopheth, a rege praeparata, profunda, et dilatata, Nutrimenta eius, ignis et ligna multa: flatus Domini sicut torrens sulphuris succendens eam – Já faz tempo que está pronto o Tofet, preparado, profundo e largo, com sua fogueira de lenha abundante. O sopro do Senhor, como torrente de enxofre, o acenderá – Is 30,33).
Enquanto totalmente atordoado eu observava, eis vir com todo o ímpeto de uma abertura um jovem que, quase sem se aperceber de nada, soltando um berro agudíssimo, semelhante a alguém que estivesse para cair num tanque de bronze derretido, precipita-se no meio, fica branco como a caverna inteira, permanecendo imóvel, enquanto o eco de sua voz continua a se prolongar por alguns instantes.
Muito horrorizado contemplei ainda um pouco esse jovem, parecia-me ser um do Oratório, um dos meus filhos.
– Este não é um dos meus jovens? – perguntei ao guia: – não é o tal?
– Sim – respondeu-me.
– Por que não troca de posição? Por que está em brasa e não se consome?
E ele:
– O senhor escolheu ver e não falar: olhe e verá. Do resto omnis enim igne salietur et omnis victima sale salietur (Todos serão salgados com o fogo e as vítimas serão salgadas com sal – cf. Mc 9,48).
Mal havia dirigido o olhar e eis que um outro jovem em desesperada raiva e grandíssima velocidade corre e se precipita na mesma caverna. Esse também era do Oratório. Caiu, e não se mexeu mais. Ele igualmente soltara um único grito angustiante, confundindo-se sua voz com o último murmúrio daquele que caíra antes. Depois desse vieram outros, tendo a mesma forma de queda horrível. Aumentava cada vez mais seu número, emitindo todos o mesmo grito; ficavam imóveis, incandescentes como os que os tinham precedido. Notei que o primeiro ficou com uma mão para o ar e um pé igualmente suspenso no alto. O segundo ficara encurvado para o chão. Alguns tinham os pés para o ar, outros o rosto no chão. Estes quase suspensos apoiando-se num só pé; aqueles sentados ou deitados; uns apoiados sobre um lado, outros em pé ou de joelhos com as mãos nos cabelos. Em suma, havia grande grupo de jovens, parecendo estátuas, em posição uma mais dolorosa do que outra. Chegaram outros mais para essa fornalha. Uma parte desses jovens eu conhecia, outros me eram desconhecidos. Então lembrei-me do que está escrito na Bíblia que, na posição que se cai no inferno, assim se permanecerá na eternidade: Lignum, in quocumque loco ceciderit, ibi erit (A árvore … no lugar em que cair, aí ficará – Ecl 11,3).
Aumentava meu medo; perguntei ao guia:
– Esses que correm tão velozmente não sabem que vêm para cá?
– Sim, sabem que estão indo para o fogo; foram alertados mil vezes, mas correm voluntariamente por causa do pecado que não detestam e não quiseram deixar, pois desprezaram e rejeitaram a misericórdia de Deus, que continuamente os chamava à penitência. Então, a justiça divina, provocada, os rejeita, segue, persegue, e eles só param quando chegam neste lugar.
– Como não deve ser o desespero desses infelizes, já sem esperança de sair daqui! – exclamei.
– Quer conhecer os anseios íntimos e as raivas de suas almas? Aproxime-se mais um pouco, – respondeu o guia.
Dei alguns passos em direção da janela. Vi que muitos desses miseráveis se batiam uns nos outros com golpes e terríveis feridas, mordiam-se como cães raivosos; outros se arranhavam o rosto, se cortavam as mãos, se rasgavam as carnes, atirando-as ao ar com irritação. Nesse instante a cobertura inteira daquela espelunca foi transformada como em vidro: através dele se entrevia um pedaço de céu e as figuras luminosas dos colegas salvos para sempre.
Os condenados ficavam tremendo com feroz inveja, respirando angustiosamente, pois, antes, consideraram os justos como objeto de escárnio (Peccator videbit et irascetur; dentibus suis fremet et tabescet – O ímpio vê e se encoleriza, range os dentes e se consome – Sl 112,10).
Perguntei ao guia: – Diga-me, por que não ouço nenhuma voz? Aproxime-se ainda mais – gritou-me.
Fui para perto do vidro da janela e ouvi que uns berravam e choravam contorcendo-se. Outros blasfemavam e imprecavam contra os santos. Era um barulho de vozes e gritos, altos e confusos. Por isso, perguntei novamente ao amigo:
– O que dizem? O que gritam?
E ele:
– Vendo a felicidade de seus companheiros bons, eles são obrigados a confessar: Nos insensati! Vitam eorum aestimabamus insaniam et finem eorum sine honore. Ecce quomodo computati sunt inter filios Dei et inter sanctos sors illorum est. Ergo erravimus a via veritatis (Nós, insensatos, consideramos suas vidas uma loucura e sua morte, uma desonra. Como, então, agora ele é contado entre os filhos de Deus e compartilha a sorte dos santos? De fato, nós nos desviamos do caminho da verdade – Sb 5,4-6). Por isso gritam: Lassati sumus in via iniquitatis et perditionis. Erravimus per vias difficiles, viam autem Domini ignoravimus. – Quid nobis profuit superbia? – Transierunt omnia illa tamquam umbra (Ficamos enredados nas trilhas da iniquidade e da perdição, atravessamos desertos intransitáveis e ignoramos o caminho do Senhor! – Que proveito nos trouxe o orgulho? – Tudo isso passou como uma sombra – cf. Sb 5,7-9). Estes são os lúgubres cantos que ressoarão aqui por toda a eternidade. Mas inúteis são os gritos, os esforços, os choros. Omnis dolor irruet super nos! (Toda sorte de dores virá sobre nós – cf. Jó 20, 22). Aqui não há mais tempo. Só a eternidade.
Enquanto contemplava com horror a situação de muitos de meus jovens, de repente vem um pensamento à minha mente.
– Como é possível que os que estão aqui encontrem-se todos condenados? Esses jovens estavam ainda com vida no Oratório ontem à noite!
O amigo falou: – Esses que você vê estão todos mortos para a graça de Deus; se morressem agora e continuassem a agir como fazem no presente, estariam condenados. Não percamos tempo. Vamos adiante.
Então afastou-me daquele lugar. E por um corredor que levava a um profundo subterrâneo, conduziu-me a outro, em cuja entrada estava escrito: – Vermis eorum non moritur, et ignis non extinguitur. Dabit Dominus omnipotens ignem et vermes in carnes eorum, ut urantur et sentiant usque in sempiternum (Seu verme não morrerá e seu fogo jamais se apagará … O Senhor onipotente mandará sobre suas carnes o fogo e os vermes, para que ardam, penando para sempre – cf. Is 66,24; Jd 16,17). Aqui havia o espetáculo dos remorsos, e quão atrozes, dos que foram educados em nossas casas!
A lembrança dos pecados individuais não perdoados e da justa condenação; de ter tido mil meios, também extraordinários, para se converter ao Senhor, para ser perseverantes no bem, para ganhar o Paraíso! A lembrança de tantas graças prometidas, oferecidas e dadas por Maria Santíssima e não correspondidas! Ter podido se salvar com pouco, e estar irremissivelmente perdidos! Lembrar os muitos bons propósitos feitos e não cumpridos! Ah, diz o provérbio, o inferno está cheio de boas intenções ineficazes.
E lá revi todos os jovens do Oratório que havia visto pouco antes naquela fornalha; alguns deles estão neste momento me ouvindo, outros já estiveram aqui conosco; a muitos eu não conhecia. Aproximei-me e percebi que todos estavam carregados de vermes e de animais nojentos que os roíam e os consumiam no coração, nos olhos, nas mãos, nas pernas, em todas as partes, tão miseravelmente que não há palavras para explicar. Estavam imóveis e expostos a todo tipo de agressão sem poder de forma alguma se defender. Acerquei-me mais ainda e fiquei mais perto a fim de que me enxergassem, esperando poder falar a eles e que me dissessem alguma coisa. Porém, ninguém falava nem me olhava. Perguntei, então, ao guia qual fosse a causa disso. Foi-me respondido que no outro mundo não há mais liberdade para os condenados. Lá cada um sofre todo o castigo que Deus lhe impõe, não podendo ser diferente, sem mudança de espécie alguma. Acrescentou:
– Agora é preciso que também o senhor vá a esse lugar de fogo que viu!
– Não, não, respondi estarrecido – Para ir ao inferno é preciso ir antes ao julgamento, e eu ainda não fui julgado. Portanto, não quero ir para o inferno!
– Diga-me – observou o amigo – prefere ir ao inferno e libertar seus jovens, ou ficar fora deixando-os no meio de tantos suplícios?
Surpreendido com esta proposta, respondi:
– Oh, os meus queridos jovens, eu os amo muito e os quero todos salvos! Mas não podemos fazer de outro jeito sem precisar, nem eu e nem os outros, irmos para lá?
– Eh, me respondeu o amigo, o senhor tem ainda tempo, e eles também para que o senhor faça tudo o que puder.
Meu coração se dilatou e falei comigo mesmo: – Pouco me importa sofrer, contanto que possa livrar estes meus filhos queridos de tão grandes tormentos.
– Então venha para dentro, continuou o amigo: e veja a bondade e a onipotência de Deus que cheio de amor usa mil meios para levar à penitência seus jovens e salvá-los da morte eterna.
Ele me tomou pela mão para introduzir-me na caverna. Mal coloquei o pé, achei-me numa magnífica sala com portas de cristal. Nelas, em distâncias regulares, pendiam grandes véus cobrindo outras tantas salas que ligavam com a caverna.
O guia me apontou para um dos véus onde se lia: sexto mandamento; e disse:
– Sua transgressão, eis a causa da ruína eterna de muitos jovens.
– Mas eles não se confessaram?
– Sim, se confessaram; mas confessaram mal as culpas contra a bela virtude, ou as calaram totalmente. Por exemplo, um que cometera quatro ou cinco desses pecados, só contou dois ou três. Há jovens que cometeram um na infância, tendo sempre tido vergonha de o confessar, ou então o confessaram mal, ou não falaram tudo. Outros não tiveram arrependimento ou propósito. Outros que, em vez de fazer o exame, pensavam na maneira de enganar confessor. Quem morre com uma decisão assim escolhe se colocar entre os réprobos. Isto será para toda a eternidade. Somente os que arrependidos com verdadeiro coração morrem na esperança da salvação eterna serão felizes para sempre. E agora quer saber porque a divina misericórdia o trouxe aqui? – Ergueu o véu e vi um grupo de jovens do Oratório, todos meus conhecidos, condenados por causa dessa culpa. Entre eles havia alguns que aparentemente têm bom comportamento.
Ao menos agora permitirá que eu tome nota dos nomes desses jovens, a fim de os avisar em particular? – perguntei.
– Não é preciso, – respondeu-me.
– Então, o que devo lhes dizer?
– Faça pregações em todos os lugares contra a falta de modéstia. Basta que sejam avisados em geral. Não esqueça que, mesmo que o senhor os advertisse, eles prometerão, mas nem sempre com firmeza. Para conseguir isto, é necessária a graça de Deus que, se for pedida, ela nunca haverá de faltar a seus jovens. Deus é bom e mostra seu poder especialmente na compaixão e no perdão. Portanto, da parte do senhor, oração e sacrifício. E que os jovens ouçam seus ensinamentos, interroguem a própria consciência. Esta lhes sugerirá o que devem fazer.
E conversamos quase meia hora a respeito das condições necessárias para fazer bem uma confissão. O guia, então, repetiu diversas vezes em alta voz:
– Avertere!… Avertere!… (Advertir!… Advertir!…).
– O que significa esta sua exclamação?
– Mudar de vida, mudar de vida!
Eu, confuso com esta revelação, inclinei a cabeça. Ia me retirar, mas ele me chamou e disse: O senhor ainda não viu tudo. – Virou-se para o outro lado e levantou mais um grande véu. Nele estava escrito: Qui volunt divites fieri, incidunt in tentationem et laqueum diaboli. (Os que querem enriquecer caem em muitas tentações e laços [do demônio] – 1Tm 6,9). Falei-lhe: – Isto não diz respeito a meus jovens, pois são pobres, como eu sou pobre. Não somos ricos nem procuramos fazer-nos. Nem sequer pensamos nisso!
Removido o véu, no fundo apareceram jovens, todos conhecidos meus, sofrendo como os que tinha visto antes. Ele, apontando em direção a eles, me disse: – Oh, essa inscrição diz respeito, sim, a seus jovens.
– Explique-me, então, esse divites (rico).
E ele:
– Por exemplo, alguns de seus jovens têm o coração apegado a um objeto material de modo que o amor a ele os afasta do amor a Deus, faltando, assim, contra a caridade, a piedade e a mansidão. Não se perverte o coração somente com o uso das riquezas, mas também desejando-as e, mais ainda, se o desejo ofende a justiça. Seus jovens são pobres; mas saiba que a gula e o ócio são péssimos conselheiros. Há um que em sua terra se tornou culpado por causa de furtos até significativos e, podendo, não pensa restituir.
Há quem procura abrir com chaves de fenda as despensas; e quem tenta entrar no escritório do Prefeito (ecônomo); quem vai mexer nos baús dos colegas para roubar comestíveis, dinheiro ou outros objetos; quem recolhe cadernos e livros para seu uso…
Ele me falou os nomes desses e de outros. Prosseguiu:
– Alguns estão aqui por terem se apropriado de peças de vestuário, de lençóis, cobertas e casacos, pertencentes ao guarda-roupa do Oratório, para mandar para suas casas. Há os que causaram voluntariamente algum estrago grande sem o reparar. Outros por não ter restituído objetos e coisas emprestados. Também há aqui quem reteve quantias de dinheiro a eles confiadas para que entregassem ao Superior.
E concluiu:
– E porque esses lhe foram indicados, avise-os, diga-lhes que afastem os desejos inúteis e nocivos, que obedeçam à lei de Deus e se orgulhem da própria honra. De outra forma a cobiça os levará a excessos piores que os mergulharão em dores, na morte e na perdição.
Eu não conseguia entender que, para certas coisas levadas tão pouco a sério por nossos jovens, houvesse penas tão terríveis. O amigo truncou minhas reflexões, dizendo-me:
– Recorde o que lhe foi falado no fato dos cachos estragados na videira. – Ergueu outro véu que escondia muitos outros de nossos jovens; eu os reconheci logo e que estão no Oratório. No véu estava escrito: – Radix omnium malorum (Raiz de todos os males – cf. 1Tm 6,10). – E me perguntou:
– Sabe o que isso significa? A que pecado esta epígrafe se refere?
– Parece-me que não se refira senão à soberba?
– Não. – Respondeu.
– Contudo, eu sempre ouvi dizer que a soberba é a raiz de todos os males.
– Sim! Em geral se fala que é a soberba; mas, sobretudo, sabe o que de fato fez Adão e Eva caírem no primeiro pecado, por causa do qual eles foram expulsos do Paraíso terrestre?
– A desobediência.
– Isso mesmo. A desobediência é a raiz de todo o mal.
– E sobre isso, o que devo dizer a meus jovens?
– Fique atento. Os jovens que o senhor vê são os desobedientes que preparam para si um fim muito triste. Aqueles e outros que o senhor crê que foram dormir, durante a noite descem para passear no pátio e, sem se importar com as proibições, vão a lugares perigosos, sobem nos andaimes das novas construções, pondo em risco também suas vidas. Alguns, apesar do que prescrevem as regras, vão à igreja sem se comportar como devem; em vez de rezar, pensam em coisas totalmente diferentes, e na sua mente constroem castelos no ar; outros incomodam. Há os que procuram se apoiar ou encontrar um bom lugar para se acomodar e dormir durante as funções sagradas; há aqueles que o senhor acredita que vão à igreja, mas não vão. Ai de quem descuida da oração! Quem não reza se condena! Aqui há alguns que, em vez de cantar os hinos sagrados ou o ofício da Bem-Aventurada Virgem, leem livros que nada têm a ver com o lugar sagrado e outros, o que é de grande vergonha, leem até livros proibidos. – Continuou a enumerar muitas outras transgressões que são causa de graves desordens.
Quando terminou, comovido, eu o fixei no rosto. Ele me olhou e eu ainda lhe falei:
– Posso contar tudo isso a meus jovens?
– Sim, pode dizer-lhes tudo o que se lembrar.
– Que conselho poderei lhes dar para que não aconteçam desgraças tão graves?
– Insistirá, mostrando que a obediência, também nas pequenas coisas, a Deus, aos pais, aos Superiores, os salvará.
– Que mais?
– Dirá a seus jovens que evitem muito a ociosidade, pois esta já foi a causa do pecado de Davi. Diga-lhes que estejam sempre ocupados, pois assim o demônio não encontrará tempo para os assaltar.
Inclinei a cabeça e prometi. Estava tão chocado que não aguentava mais. Disse ao amigo:
– Agradeço-lhe a caridade que usou para comigo, e peço que me deixe sair.
Ele então falou:
– Venha comigo! – e me animando, ele me pegou pela mão, me apoiando, pois estava exausto, sem força. Saímos daquela sala, atravessamos num instante o terrível pátio e o longo corredor da entrada. Antes de deixar o limiar da última porta de bronze, voltou-se para mim de novo, exclamando:
– Agora que viu os tormentos dos outros, precisa experimentar, você também, um pouco do inferno.
– Não! Não! – gritei horrorizado.
Ele insistia, e eu rejeitava sempre!
– Não tenha medo – me disse – é só para experimentar. Toque esta muralha.
Eu não tinha coragem e queria me afastar, mas ele me deteve, dizendo: – Contudo, é necessário que você faça a experiência! – Pegou-me firme pelo braço e levou-me para perto da parede, continuando a dizer:
– Toque-a somente uma vez, ao menos para dizer que visitou as muralhas dos suplícios eternos, e que tocou nelas. Também para compreender como será a última parede se a primeira já é tão terrível. O senhor vê este muro?
Observei com a maior atenção aquele muro de espessura colossal. O guia continuou: – É o milésimo antes de onde está o verdadeiro fogo do inferno. É circundado por mil muros. Cada um tem mil medidas de grossura e de distância um do outro. Cada medida tem mil milhas. Este está distante um milhão de milhas do verdadeiro fogo do inferno. Assim, é um pequenino início do próprio inferno.
Dito isto, eu, afastando-me para não tocar, pegou a minha mão, abriu-a à força e a fez bater na pedra desse milésimo último muro. Naquele momento senti ardência tão intensa e dolorida que, jogando-me para trás e soltando fortíssimo grito, acordei. Achei-me sentado na cama, e tendo a impressão de que minha mão queimasse, abanava-a com a outra para fazer passar aquela sensação. Quando amanheceu, observei que a mão estava realmente inchada. A impressão imaginária daquele fogo teve tamanha força que, logo em seguida, a pele da palma da mão se soltou e trocou.
Notem que não lhes contei essas coisas com todo seu horror, da maneira que as vi e me impressionaram, a fim de não os amedrontar muito. Sabemos que o Senhor nunca citou o inferno a não ser com símbolos, pois, mesmo que o tivesse descrito como é, nós não teríamos compreendido. Mortal algum pode entender essas coisas. O Senhor as sabe e pode contá-las a quem Ele quiser.
Por várias noites a fio, eu, sempre abalado, não consegui pegar no sono por causa do susto. Contei-lhes somente um resumo do que vi em longos sonhos; só lhes fiz uma síntese. Mais adiante vou lhes ensinar seja sobre o respeito humano, seja quanto se refere ao sexto e ao sétimo mandamento, e em relação à soberba. Nada mais farei do que explicar esses sonhos, pois estão conformes à Bíblia Sagrada; mais ainda, não são mais do que comentário do que nela se lê sobre este assunto. Nessas noites já lhes contei alguma coisa. Porém, de vez em quando lhes falarei contando e explicando o resto.
Cumpriu o que prometeu. Depois fez a exposição deste sonho também aos jovens de Mirabello e de Lanzo, sintetizando a narração. Repetindo o que vira, sem fazer mudanças substanciais, não faltaram variações. Contando em particular a seus padres e clérigos de mais confiança, acrescentava algum novo detalhe. Às vezes omitia algo, e manifestava alguma coisa diferente. Quando descreveu os laços, ao falar dos maus hábitos, deu nova ideia sobre a emboscada do demônio e seu modo de atrair as vítimas para o inferno. Deixou de explicar muitas cenas, como por exemplo, quanto aos personagens de belo aspecto, que se encontravam na magnífica sala, e que somos levados a denominar: – O tesouro da misericórdia de Deus, para salvar os jovens que iriam se perder. – Talvez fossem esses os principais mediadores de inumeráveis graças.
Algumas variantes tinham origem na multiplicidade de coisas vistas ao mesmo tempo, pois reaparecendo elas à sua mente, selecionava dentre as coisas que ficaram impressas em sua memória, o que acreditava mais oportuno para quem o ouvia.
A meditação a respeito dos novíssimos era algo familiar para Dom Bosco; assim se acendia em seu coração vivíssima compaixão pelos pecadores ameaçados pelo perigo da eternidade tão horrível. Esta caridade vencia nele todo respeito humano para convidar à penitência, com prudente franqueza, também personagens de grande projeção, e dava tamanha eficácia às suas palavras de maneira a provocar muitas conversões.
O que aqui relatamos fielmente, compilando tudo em um único relato, é o que ouvimos do Venerável por extenso, e o que muitos sacerdotes nos contaram à viva voz ou por escrito. O trabalho foi difícil, pois queríamos reproduzir com exatidão matemática cada palavra, todo nexo e ligação entre as cenas, os diversos fatos, conselhos, repreensões todas as ideias expostas e não explicadas, entre as quais, alguma, talvez, mal interpretada. Conseguimos?
Podemos assegurar aos leitores que procuramos com o maior cuidado somente uma coisa: expor, com a máxima fidelidade que nos fosse possível, as longas falas de Dom Bosco.
(MB IT IX, 166-182 / MB PT IX, 214-231)

