26 Out 2026, Seg

⏱️ Tempo de leitura: 4 min.

Dom Bosco com os missionários da segunda expedição missionária salesiana, Turim, 1876.

 

Dom Bosco, desde os seus primeiros anos de sacerdócio, nutriu um profundo desejo missionário, convencido de que a divulgação do Evangelho era prioritária para a construção do Reino de Deus. Embora retido em Turim pelo seu mestre o P. Cafasso, ele iniciou o Oratório e fundou a Sociedade Salesiana com finalidades missionárias. Seus célebres “sonhos missionários”, vividos entre 1872 e 1886, mostraram-lhe territórios da Patagônia, América Latina, África e China, delineando a expansão mundial da Congregação. Com textos proféticos e visões espirituais, Dom Bosco traçou a vocação dos Salesianos para os jovens mais necessitados, lançando as bases de uma obra que logo se concretizaria também no Extremo Oriente.

 

 

Dom Bosco, ainda jovem clérigo, pensava nas missões. O conhecimento da história da Igreja lhe trazia à mente tudo o que ela havia feito para a divulgação do Evangelho e aguçava nele o desejo de consagrar todas as suas forças à construção do Reino de Deus no mundo. Ordenado sacerdote em 1841 e entrando no Convitto [Colégio] Eclesiástico de Turim sob a orientação do P. José Cafasso, foi tomado por dois desejos principais: o cuidado dos jovens pobres e abandonados e a vontade de partir para as missões, mas aconselhado pelo P. Cafasso a não pensar em partir para as terras missionárias, iniciou em Turim seu Oratório, cuidou das vocações eclesiásticas e religiosas e fundou a Sociedade Salesiana, que deveria ser uma Congregação missionária.

A partir de 1849, o jovem Miguel Rua, seu sucessor na liderança dos Salesianos, ouviu-o várias vezes exclamar:

– Oh, se eu tivesse doze Padres à minha disposição, quanto bem se poderia fazer (MBp III, 433).

Constituído o primeiro núcleo de Salesianos em 1859, seu interesse pelas missões cresceu a ponto de falar delas com mais frequência e de consultar mapas para determinar quais territórios ainda não haviam sido tocados pela evangelização. Obtido em 1869 o reconhecimento jurídico definitivo da Sociedade Salesiana, Dom Bosco não perdeu mais de vista o problema missionário. Após 1874, não teve mais dúvidas sobre o destino missionário da Sociedade Salesiana. E os pedidos de fundações na Ásia, América e África se multiplicaram rapidamente (MBp X, 791.889.1268-1269).

 

Os sonhos missionários

A Providência lhe deu indicações mais significativas em cinco grandes sonhos missionários que ele teve entre 1872 e 1886. O primeiro foi sobre a Patagônia, o segundo e o terceiro sobre várias nações da América Latina, o quarto sobre a África e a China, e o último foi como um olhar sobre o desenvolvimento missionário da Congregação no mundo, de Valparaíso a Pequim.

Foram visões? Dom Bosco foi um grande sonhador. Ele via com a imaginação todo o campo de apostolado destinado pelo Senhor aos seus missionários e o via com o entusiasmo do crente e com o zelo do apóstolo. E não podemos reduzir facilmente seus sonhos a simples artifícios pedagógicos. Nos sonhos missionários de Dom Bosco, no entanto, é bom distinguir os possíveis elementos humanos das reais inspirações divinas.

A parte importante de seus sonhos é o tema geral e sua mensagem. Outra coisa são os detalhes ambientais, que poderiam ser fruto de conhecimentos prévios ou da imaginação fervorosa de Dom Bosco. Mas esses sonhos têm, sem dúvida, um valor espiritual grandíssimo, reconhecível em seu tema geral. O historiador P. Carlos Socol, missionário na China, sintetiza a mensagem em três elementos:

  1. A salvação das almas como prioridade e objetivo da missão (“Da mihi animas”);
  2. A opção preferencial dos salesianos pela juventude pobre e necessitada de evangelização;
  3. As características do trabalho missionário salesiano: trabalho e temperança (“caetera tolle”).

 

O testamento de Dom Bosco e dois sonhos sobre a China

No que foi chamado de Testamento espiritual de Dom Bosco, lemos:

«No seu tempo, nossas missões chegarão à China, precisamente a Pequim. Mas não nos esqueçamos que somos destinados aos meninos pobres e abandonadas. Entre povos desconhecidos e que ignoram o verdadeiro Deus, ver-se-ão maravilhas até agora inacreditáveis, mas que Deus Todo-poderoso manifestará ao mundo» (Pequena Biblioteca do ISS nº 4, p. 59).

Em 1885, Dom Bosco teve um sonho que lhe revelou os desígnios de Deus sobre o futuro distante. Ele o contou em 2 de julho aos membros do seu Conselho Geral. Foi levado a fazer uma viagem ao centro da África, “terra de Cam”, e às “terras de Arfaxad”.

Esse enigmático Arfaxad é mencionado no décimo capítulo do Gênesis. Em sua obra História da Igreja, Rohrbacher afirmava que os chineses descendem de Arfaxad. Dom Bosco então concluiu que se tratava da China.

No sonho feito em Barcelona na noite de 9 para 10 de abril de 1886, Dom Bosco revisitou o território chinês, precisamente uma grande cidade atravessada por um rio, sobre o qual havia algumas grandes pontes: Pequim!

 

Na verdade, Pequim não fica às margens de um rio. Excetuando um pequeno curso d’água com cinco pontes pequenas, um aqueduto moderno e um lago artificial, não há rios. Um rio fica fora da cidade, a 30 km de distância, com a famosa ponte de mármore chamada “Ponte de Marco Polo”. O Rio Amarelo está bem longe dali. No entanto, à parte esse detalhe incerto e impreciso, é evidente que a China estava na mente de Dom Bosco.

Mas a Pastorinha, que o guiava como no sonho dos nove anos, o encorajou:

– Não se perturbe. Isso farão seus filhos, filhos dos seus filhos e seus descendentes; mas mantenha-se firme na observância das regras e no espírito da Congregação.

            – Mas onde encontrar tanta gente? E como enviar missionários para esses lugares?

– Veja – respondeu a Pastorinha –. Tenha boa vontade: há uma única coisa a fazer: recomendar que meus filhos cultivem constantemente as virtudes de Maria.

– Pois bem, sim, parece que entendi! – respondeu Dom Bosco.

 

Os sonhos que se tornaram realidade

A Obra Salesiana na China foi iniciada em 1906 pelo P. Luís Versiglia, com outros dois sacerdotes e três leigos da família salesiana, e o martírio de Dom Versiglia e do P. Calisto Caravario em 1930 foi semente de cristãos.

Indo, portanto, ao cerne dos sonhos de Dom Bosco, já podemos ver certamente uma parte significativa de sua realização. Dom Bosco foi um sonhador inspirado, um visionário corajoso ao empreender missões aparentemente impossíveis. Sua confiança ilimitada na Divina Providência e sua resposta heroica ao chamado divino abriram para seus filhos os horizontes infinitos do Evangelho de Cristo, nosso Senhor!

P. Natale CERRATO

Salesiano de Dom Bosco, missionário na China de 1948 a 1975, estudioso de Dom Bosco e da salesianidade, escreveu obras e artigos, realizando um trabalho valioso na divulgação da vida e das obras do Santo da Juventude. Faleceu em 2019.