23 Out 2026, Sex

O Amado do Cântico dos Cânticos, segundo São Francisco de Sales

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No ‘Cântico dos Cânticos’, São Francisco de Sales descobre muito mais do que um poema de amor: ele lê ali o mistério do amor de Deus pelo homem, plenamente revelado em Jesus Cristo. O Amado é sobretudo o Filho, o divino Esposo que atrai a alma para si, mas sempre na comunhão com o Pai, origem de todo chamado, e com o Espírito Santo, que difunde nos corações o dom da caridade. Francisco contempla Cristo como um “abismo de beleza”: admira seu rosto, seu coração, sua voz, sua doçura e seu fascínio irresistível. As imagens poéticas do Cântico tornam-se assim uma linguagem da fé e da mística, capaz de narrar o encontro da alma com Aquele que a ama, a chama e a arrasta na corrida do amor.

 

 

Quem é o Amado do Cântico?

            Para São Francisco de Sales, que segue a linha da interpretação alegórica e mística deste livro do Antigo Testamento, a resposta à pergunta só pode ser encontrada à luz da plenitude da Revelação realizada no Novo Testamento.

Quando o doutor do amor divino lê os poemas do Cântico dos Cânticos, seu pensamento e seu coração vão espontaneamente a Deus e a Jesus Cristo, mais raramente ao Espírito Santo.

Frequentemente, mas sobretudo no Tratado do Amor de Deus, ele chama o Esposo do Cântico simplesmente de Deus, a quem designa de bom grado com um de seus atributos: a divina Majestade, o divino Criador, a divina Providência ou a divina Bondade.

Em outros lugares, em particular quando pensa mais precisamente em Jesus Cristo, ele o chama de Nosso Senhor, o Salvador, o divino Amante, o divino Enamorado, o divino Redentor, o divino Pastor, o Rei do amor, o Amor de nossos corações, o Amigo tão amável.

Embora Deus possa normalmente designar cada uma das pessoas da Santíssima Trindade, a atenção do autor concentra-se principalmente em Jesus Cristo, mas em relação às outras pessoas da Trindade. A união, ou melhor, a unidade, entre o Filho e o Pai é bem expressa pelo desejo do Filho elevado ao céu de receber o beijo do Pai:

 

            Que ele me beije com o beijo de sua boca.

 

Na realidade, o Filho está sempre voltado para o Pai, atento a louvá-lo como só ele sabe fazer.

Jesus é a “Voz” entre todas as vozes que se elevam ao céu e sobre a terra para louvar a Deus Pai; a sua é única, “voz rainha de todas as vozes, voz em comparação à qual as outras vozes não são mais que um mudo e triste silêncio”.

Cristo, de fato, ama a melodia da glória e do louvor de seu Pai mais do que todos, “ele exulta de louvores e bênçãos sobre todos”.

De um poema inteiramente dedicado à atração recíproca dos amantes, um dos versos frequentemente citados por Francisco de Sales é aquele que expressa o ardente desejo da amada:

 

            Arrasta-me atrás de ti,

            correremos ao odor dos teus perfumes.

 

O Amado, que é Cristo, tem a iniciativa desta corrida de amor na qual arrasta a sua amada, mas tudo provém em última análise do Pai, como lembra o nosso autor, citando a declaração de Jesus: “Ninguém pode vir a mim, se o Pai não o atrair”.

O Pai atrai certamente cada pessoa humana, mas quer que ela corra atrás do Filho, livremente, com o apoio da graça.

 

O amor, dom do Espírito Santo

O Espírito Santo não é esquecido. Desde as primeiras palavras do Prefácio ao Tratado do Amor de Deus, o autor não deixou de lembrar que o Espírito é o verdadeiro Autor do Cântico dos Cânticos e que nos fala de amor através da boca da Igreja:

 

            O Espírito Santo ensina que os lábios da esposa divina, isto é, da Igreja, são semelhantes ao escarlate e ao vaso que destila o mel.

 

Para falar da ação do Espírito no coração dos fiéis, Francisco de Sales recorre abundantemente às imagens do Cântico. O Espírito Santo é a árvore da vida que nos dá o delicioso fruto do amor; é o pombo do qual cada pessoa consagrada pode dizer:

 

            Meu caro pombo é tudo para mim,

            e eu sou toda dele.

 

Os sete dons do Espírito Santo são como as colunas de prata que sustentam a liteira real da Santa Virgem; o vento do Espírito Santo é o vento bom do amor divino, que sopra do meio-dia e afasta o vento frio; sopra em nosso jardim e faz sair dele perfumes abundantes; é Ele quem nos dá a graça de aspirar a Ele e de respirar por Ele.

O amor, do qual nos fala Francisco de Sales em seus comentários, não pode ser o produto das forças naturais: é um dom do Espírito Santo que “o doa e o difunde em nossos corações”.

Quando rezo ao Pai com as palavras que Jesus me ensinou, explica ele, peço-lhe que o fogo do Espírito Santo “penetre até o âmago da minha alma, para que as grandes águas da tribulação não possam apagar a caridade”.

Quem é, pois, o divino Amante ou o divino Enamorado do Cântico dos Cânticos? Sem esquecer nem o Pai nem o Espírito Santo, o Esposo principal de quem o autor quer nos falar é Jesus Cristo, o Filho do Pai, que me fala de amor através do seu Espírito.

 

Um “abismo de beleza”

“Oh, como és belo, meu Amado, oh, como és belo!” exclama a esposa do Cântico, descrevendo o seu Amado. Deus é belo, Jesus é belo, a natureza humana é bela.

Lembremos que o Tratado do Amor de Deus começa com um capítulo dedicado à “beleza da natureza humana”, reflexo da de Deus.

O Amado que ela admira é branco e vermelho – são “as cores do Esposo” – e é “escolhido entre mil”.

É luminoso como o sol ao meio-dia, quando não há sombras.

É belo este Pastor, de quem o Cântico celebra o casto amor com uma “casta pastora”.

Sua cabeça é de ouro, sem dúvida porque usa uma coroa preciosa.

Seus cachos são como os brotos das palmeiras, cuja aparente escuridão faz ressaltar a brancura que se esconde em seu interior.

Todo o seu rosto é belo e gracioso.

Seus olhos límpidos e transparentes são pombas que revelam um coração cheio de amor.

Suas bochechas são como canteiros de flores.

A força está em suas mãos, “cheias de jacinto”.

Suas pernas são como colunas de mármore e seu passo é semelhante ao do cervo e do filhote de cervo, os animais mais ágeis e graciosos.

Jesus é a flor desabrochada da Virgem, acrescenta ele, o lírio entre os espinhos, a árvore do desejo.

Assemelha-se à macieira entre os arbustos.

É delicioso como a uva da vinha.

É assim que “a amante sagrada dispõe nos Cânticos divinos, como um exército bem ordenado, todas as perfeições do seu Esposo, uma após a outra”.

 

O coração do Amado

O divino Pastor é belo exteriormente, mas o que dizer da sua beleza interior?

Em um poema de 1598 sobre a Transfiguração, que não cita o Cântico, mas é claramente inspirado nele, a beleza luminosa do coração de Cristo é exaltada muito além do esplendor exterior:

 

Vimos, Senhor, este rosto tão claro,

Mil vezes mais claro que o belo sol

Quando ao meio dia brilha mais forte

E olha com olho pleno o universo.

 

Mas, se tal é o corpo, quanto mais resplandecente

A glória do teu coração, do teu coração feliz

De uma tal felicidade sobre qualquer outra abundante,

Que, desde o seu primeiro ponto, o tornou glorioso.

 

Coração tão cheio de esplendores, que os derrama

Sobre todas as suas vestes, que até mostrou

Tão brancas e radiantes, que uma neve tão branca

Para mostrar aos nossos olhos o céu não tem o poder.

 

A beleza exterior brota da beleza interior, tanto que se reflete em particular nas vestes do Esposo, cujos perfumes revelam a sua presença.

Do interior, isto é, do coração deste “tranquilo e pacífico Salomão”, provêm todos os seus favores, muito melhores que o vinho das consolações humanas e mundanas.

A contemplação da sua beleza faz quase desmaiar a fiel amante:

 

            Fiquei tão inebriada e santamente embriagada pela complacência que senti neste abismo de beleza que a minha alma definha, ferida por um desejo amorosamente mortal que me impulsiona a louvar para sempre uma bondade tão eminente.

 

O que há de surpreendente se a amada o persegue, arrastando consigo as jovens? O seu fascínio é verdadeiramente poderoso.

 

A voz do Amado

E o que dizer do fascínio da sua voz? “Oh, como é doce a sua voz!”, exclama, porque sai dos lábios “sobre os quais se derrama a plenitude da graça”.

Seus lábios são como lírios: destilam mirra de doçura; as palavras que deles saem são a própria doçura; a sua voz derrete o coração de quem o escuta.

Evocando o perfeito louvor que só o Filho pode render ao Pai, o autor do Tratado do Amor de Deus exclama:

 

            Oh! Que cântico do Filho para o Pai!

 

Continua dando voz à alma que exclama: “Ei! Eu o ouço; oh! a voz, a voz do meu Amado, voz rainha de todas as vozes, voz em comparação à qual as outras vozes não são mais que um mudo e triste silêncio!”.

 

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