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Em 1858, São João Bosco publicou “O mês de maio consagrado a Maria Santíssima Imaculada para uso do povo”, uma obra simples e acessível, pensada para favorecer a devoção mariana entre os fiéis, em particular entre os jovens e as famílias. O mês de maio, tradicionalmente dedicado a Maria na piedade popular, é aqui marcado por meditações diárias, exemplos edificantes e práticas de piedade que ajudam o leitor a viver cada dia com intensidade espiritual. Com uma linguagem clara e afetuosa, Dom Bosco propõe um caminho que une doutrina e vida, afeto filial por Nossa Senhora e compromisso concreto de conversão. O texto reflete sua pedagogia pastoral, centrada na confiança em Maria Imaculada como guia segura para Jesus. Esta obra insere-se no mais amplo projeto educativo e espiritual do santo turinense, que via na devoção mariana uma chave para a formação cristã do povo.
Sumário
A Igreja aprova esta devoção e concede indulgências a quem a pratica
Instruções sobre a forma de praticar o mês mariano
Três coisas a praticar durante todo o mês
“Fioretti” a serem sorteados e praticados um por dia durante todo o mês
Primeiro dia de maio. Deus nosso Criador
Quarto dia. A Igreja de Jesus Cristo
Sexto dia. Os Pastores da Igreja
Oitavo dia. Os Santos Sacramentos
Nono dia. Dignidade do cristão
Décimo dia. Preciosidade do tempo
Décimo primeiro dia. Presença de Deus
Décimo segundo dia. Fim do homem
Décimo terceiro dia. A salvação da alma
Décimo sexto dia. Juízo particular
Décimo sétimo dia. O juízo universal
Décimo oitavo dia. Os castigos do inferno
Décimo nono dia. Eternidade das penas do inferno
Vigésimo dia. A misericórdia de Deus
Vigésimo primeiro dia. A confissão
Vigésimo segundo dia. O confessor
Vigésimo terceiro dia. A Santa Missa
Vigésimo quarto dia. A Santa Comunhão
Vigésimo quinto dia. O pecado da desonestidade
Vigésimo sexto dia. A virtude da pureza
Vigésimo sétimo dia. O respeito humano
Vigésimo oitavo dia. Do Paraíso
Vigésimo nono dia. Um meio para garantir o Paraíso
Trigésimo dia. Maria, nossa protetora na vida presente
Trigésimo primeiro dia. Maria, nossa protetora na hora da morte
Primeiro dia de junho. Como garantir a proteção de Maria
Fórmula da oferta do coração a Maria
Indulgências concedidas pelo Papa Pio IX
O mês de maio, que é o mais encantador do ano, deveria, com toda a razão, ser consagrado a Maria. Neste mês, a natureza cobre os prados de ervas, as plantas de flores e as vinhas de brotos. Nele, o homem se dedica com especial ardor ao cultivo da terra, que começa a lhe dar esperança de uma colheita abundante; mas que para ele é motivo de temor pelos perigos a que estão expostos os frutos de seu trabalho. Pois um granizo, um turbilhão, uma invasão, uma seca ou outro infortúnio podem, num instante, destruir todas as suas esperanças e causar fome e escassez a uma vila, a uma cidade e, às vezes, a todo um reino. Portanto, além das necessidades espirituais que a todo momento devem nos levar a recorrer a esta mãe misericordiosa, há uma razão temporal, ou seja, que Ela abençoe e proteja nossas casas, nosso gado, os frutos do campo e nos defenda dos infortúnios.
É verdade que a devoção a esta grande Rainha do Céu foi em todos os tempos o conforto da humanidade. Desde o tempo dos Apóstolos até nós, não há século, ano, mês, semana, dia, hora, e podemos dizer que não há momento que não seja marcado por alguma graça obtida por esta mãe piedosa aos seus devotos. É verdade também que não há reino, cidade, vila ou casa onde, se não houver um altar, haja pelo menos uma imagem ou estátua em honra de Maria, em sinal das graças e favores recebidos. No entanto, o mês de maio pareceu dever ser consagrado de maneira especial a Maria.
Desde o ano de1700, em várias cidades do Piemonte, realizavam-se exercícios especiais de piedade cristã em todos os dias de maio em honra de Maria. Descobriu-se que esta série de súplicas diárias feitas a esta Mãe misericordiosa era um meio muito poderoso para obter a sua proteção nas nossas várias necessidades. Esta devoção cresceu cada vez mais. Famílias, comunidades religiosas, cidades e vilas acolheram esta devoção como fonte de grandes bênçãos. Párocos e bispos promoveram-na com zelo nas suas respectivas dioceses. E no ano de 1747, Dom Saporiti, arcebispo de Gênova, ordenou que fosse impresso um livro intitulado: O mês de Maria, ou seja, o mês de maio consagrado a Maria com o exercício de várias flores da virtude a praticar nas casas das famílias cristãs.
A Igreja aprova esta devoção e concede indulgências a quem a pratica
No início deste século, com as necessidades espirituais e temporais se tornando mais evidentes, aumentou também a preocupação dos devotos de Maria em propagar a devoção a Ela no mês de maio. Os bispos aprovaram-na e empenharam-se em torná-la permanente nas suas dioceses. Mas as práticas religiosas não satisfazem inteiramente o católico, se não forem aprovadas pelo Vigário de Jesus Cristo, Pastor Supremo estabelecido por Deus para reger e governar o rebanho universal de toda a cristandade. Eis que os mesmos Pontífices aprovam, promovem e enriquecem com tesouros celestiais as práticas que se fazem neste mês em honra de Maria. Sua Santidade Pio VII, de santa memória, com seu Decreto de 21 de março de 1815, concedeu as seguintes indulgências:
1ª 300 dias de indulgência em cada dia a todos aqueles que realizarem alguma prática de piedade no mês de maio em honra de Maria Santíssima.
2ª Indulgência plenária no dia da encerramento ou em qualquer dia desse mês em que se faça a confissão e a comunhão.
3ª O mesmo Sumo Pontífice, com outro Decreto de 18 de junho de 1822, confirmou as indulgências acima mencionadas, tornando-as aplicáveis às almas do Purgatório.
Eis, ó leitor cristão, um breve resumo sobre a origem do mês mariano. Tal devoção baseia-se na grande veneração que os fiéis cristãos sempre professaram pela grande Rainha do Céu; baseia-se nas grandes necessidades espirituais e temporais que nos cercam e das quais podemos ser aliviados por Maria; baseia-se no consenso dos fiéis, na aprovação dos bispos e do próprio Vigário de Jesus Cristo.
Animado, portanto, pelo espírito de um filho que recorre a uma mãe terna, comece a ler e a praticar o que foi exposto para o bem comum.
Instruções sobre como praticar o mês mariano
Todo cristão é calorosamente convidado a participar das funções sagradas que se realizam na paróquia ou em outra igreja pública. Aqueles que não podem participar na igreja, ou querem, além do que se faz em público, acrescentar algo em sua família, podem seguir o seguinte[1]: No último dia de abril, em sua casa e na sala onde a família se reúne para recitar as orações diante da imagem de Maria, prepare um pequeno altar e decore essa imagem ou estátua da melhor maneira possível; coloque castiçais, tapetes, alguns vasos de flores, principalmente se forem frescas, como as que a estação oferece. Se possível, faça isso na mesma sala onde se trabalha, estuda, brinca, se diverte, para santificar assim aquele lugar e regular nossas ações, como se fossem feitas sob os olhos puríssimos da Santíssima Virgem.
Na noite anterior ao primeiro dia de maio, reunida a família com outros fiéis diante do altar iluminado acima mencionado, recite-se a terceira parte do Rosário, ou pelo menos as Ladainhas da Virgem Maria. Terminadas estas orações, leia-se a consideração designada para cada dia, com o exemplo anexo e a jaculatória. Em seguida, tire-se à sorte uma das florezinhas espirituais que a seguir apresentamos. Elas devem ser copiadas e dobradas em forma de bilhetinhos com os atos de virtude que devem ser o exercício diário de cada dia do mês.
Para facilitar as práticas de piedade deste mês, é bom não aumentar muito os exercícios cristãos, porque eles se tornariam muito apressados ou feitos de má vontade, principalmente se houver crianças ou pessoas muito ocupadas com assuntos temporais.
Leiam com atenção a consideração designada para cada dia, cumpram pontualmente a prática que será indicada pela florzinha extraída. À noite, antes de se deitarem, farão bem em recordar a leitura do dia.
Durante o mês, aproximem-se pelo menos duas vezes dos Santos Sacramentos da confissão e da comunhão.
Uma vez que as indulgências que podem ser lucradas neste mês podem ser aplicadas às almas do Purgatório, recomenda-se vivamente que as apliquem, porque, como ensina Santo Agostinho, ao aliviar as almas do Purgatório, também procuramos um bem maior para nós mesmos.
É bom avisar que, para obter as santas indulgências, não é necessário usar este ou outro livro, basta participar das funções da igreja ou fazer algum exercício devoto em família. Os Sumos Pontífices exigem apenas que se faça alguma prática de piedade em honra de Maria, rezando pelas necessidades atuais da Santa Igreja.
No final do mês, farão a oferta do coração a Maria, tal como está exposto no final das considerações diárias.
Três coisas a praticar durante todo o mês
1ª Fazer tudo o que pudermos para não cometer nenhum pecado durante este mês: que ele seja todo consagrado a Maria.
2ª Dedicar-se com grande zelo ao cumprimento dos deveres espirituais e temporais do nosso estado. Por exemplo, recitar com especial devoção as orações da manhã e da noite; a oração com o sinal da Santa Cruz, que se costuma fazer antes e depois das refeições. Participar com maior exemplaridade nas funções sagradas da igreja nos dias festivos.
3ª Convidar nossos parentes, amigos e todos aqueles que dependem de nós a participar das práticas de piedade que se fazem em honra de Maria durante o mês.
Florezinhas a serem sorteadas e praticadas, uma por dia, durante o mês
- Chegada a hora de levantar-me, levantar-me-ei logo da cama, vestindo-me com a máxima modéstia.
- Ouvirei devotamente a Santa Missa em sufrágio das almas do Purgatório e, se não puder, recitarei cinco Pai-Nossos, Ave-Marias e Réquiem.
- Perdoarei de bom coração todos aqueles que me ofenderam e direi: Senhor, perdoai os meus pecados, assim como eu perdoo aos que que me ofenderam.
- Mortificarei minha língua com o silêncio, ocupando-a em cantar algum louvor a Maria.
- Mortificarei a boca, abstendo-me de alguma porção de comida ou bebida.
- Mortificarei os olhos, mantendo-os fixos por alguns instantes sobre um crucifixo ou sobre uma imagem de Maria.
- Direi com especial devoção o Angelus Domini [Santo Anjo] pela manhã, à tarde e ao meio-dia, beijando a medalha de Maria.
- À noite, antes de me deitar, recitarei uma Salve Maria por aqueles que Deus chamará nesta noite para a eternidade.
- Ficarei alguns instantes refletindo nos frutos obtidos das confissões passadas, depois farei um ato de contrição.
- Ficarei alguns instantes refletindo na paixão de Jesus Cristo, depois direi: Santa Mãe, por favor, fazei com que as chagas do Senhor fiquem impressas no meu coração. Cada vez que se recita esta jaculatória, ganha-se a indulgência de trezentos dias.
- Tudo o que fizer amanhã, quero fazê-lo por aquela alma do Purgatório, que em vida foi mais devota que Maria.
- Antes de me deitar, beijarei o Crucifixo dizendo: Maria, se eu morrer esta noite, fazei com que eu morra na graça de Deus.
- Vou me preparar para fazer uma confissão como se fosse a última da minha vida.
- Farei a comunhão em honra de Maria; e, se não puder, recitarei os atos de fé, esperança e caridade.
- Darei um bom conselho a alguém de meu conhecimento, para reparar o escândalo causado pelas conversas da minha vida passada.
- Darei uma esmola de acordo com a minha condição; se não puder fazê-la, recitarei três Ave-Marias pela conversão dos pecadores.
- Beijarei três vezes a terra, dizendo: eu sou terra e em breve voltarei à terra.
- Ficarei algum tempo a considerar as confissões da vida passada e, se alguma coisa me fizer julgá-las nulas ou duvidosas, preparar-me-ei para remediar o mais rapidamente possível com uma confissão geral.
- Recitarei trinta e três Glórias ao Pai em honra dos trinta e três anos vividos por Jesus com Maria, sua mãe.
- Não comerei nem beberei durante o dia sem necessidade.
- Mandarei celebrar ou, pelo menos, irei ouvir uma missa pelas almas dos meus parentes falecidos.
- Passarei o dia em recolhimento, em louvor ao tempo que Maria passou no Templo.
- Jejuarei de acordo com o meu estado em honra das dores sofridas por Maria na paixão de Jesus, seu filho.
- Farei uma esmola em sufrágio da alma que há mais tempo sofre no Purgatório.
- Fugirei da vaidade no vestir e no falar, e direi três Angelus Dei [Santo Anjo] para obter o espírito de humildade e penitência. Cada vez que se diz o Santo Anjo, ganha-se a indulgência de 100 dias.
- Recitarei as ladainhas da Virgem Maria para que ela obtenha de Jesus que todos aqueles que morrerem neste mês morram na graça de Deus.
- Preparar-me-ei para fazer uma confissão geral, ou pelo menos rever as minhas confissões desde a última confissão geral, segundo o conselho do meu confessor.
- Recitarei as sete alegrias e, se não puder, direi sete Ave-Marias, dizendo: Jesus, José e Maria, que a minha alma descanse em paz convosco.
- Em honra de Maria, quero desapropriar-me de algo que me é caro, para que não me seja tão doloroso abandonar o mundo na hora da morte.
- Pensarei na ocasião que me fez recair em pecado e me esforçarei para fugir dela no futuro.
- Fugirei da ociosidade e pedirei perdão a Maria pelas negligências cometidas neste mês e, com os braços em cruz, direi: Salve, Rainha, etc.
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia[2] .
Motivos para ser devotos de Maria
Vem comigo, ó cristão, e considera os inúmeros motivos que todos temos para ser devotos de Maria. Começarei por mencionar os três principais, que são os seguintes: Maria é mais santa do que todas as criaturas, Maria é mãe de Deus, Maria é nossa mãe.
1º Em todo o Antigo Testamento, Maria é chamada de toda bela e sem mancha: é comparada ao sol resplandecente; à lua em sua plenitude de luz; às estrelas mais brilhantes; a um jardim cheio das flores mais deliciosas; a uma fonte selada de onde brota a água mais límpida; a uma pomba humilde; a um lírio puríssimo. No Evangelho, ela é chamada pelo anjo Gabriel de cheia de graça, “Ave, gratia plena”. Cheia de graça, ou seja, criada e formada na graça, o que significa que Maria, desde o primeiro instante de sua existência, foi sem mancha original e atual, e sem mancha perseverou até o último suspiro de vida. Cheia de graça, e por isso não houve o menor defeito que entrasse no seu coração puríssimo; nem há virtude alguma que não tenha sido praticada por Maria no grau mais sublime. A Igreja Católica expressa esta santidade de Maria definindo que ela sempre esteve isenta de toda culpa, e nos convida a invocá-la com as seguintes palavras preciosas: Regina sine labe originali concepta, ora pro nobis. Rainha concebida sem pecado original, rogai por nós que recorremos a vós.[3]
2° O fato de Maria estar isenta de toda mancha de pecado original e atual; ser adornada com todas as virtudes que podemos imaginar; ter sido repleta por Deus com mais graça do que qualquer outra criatura, todas essas prerrogativas a fizeram ser escolhida entre todas as mulheres para ser elevada à dignidade de mãe de Deus. Esta é a notícia que o Anjo lhe deu: isto repetiu Santa Isabel quando foi visitada pela Santa Virgem: esta é a saudação que os fiéis cristãos lhe dirigem todos os dias, dizendo: Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós. Ó glorioso nome de Mãe de Deus, o intelecto humano falha, por isso, inclinando a testa em sinal de profunda veneração, limitamo-nos a dizer que nenhuma criatura pode ser elevada a dignidade mais sublime, nenhuma criatura pode alcançar maior grau de glória; e, consequentemente, nenhuma criatura pode ser mais poderosa junto a Deus do que Maria.
3º Mas se o título de Mãe de Deus é glorioso para Maria, é também muito consolador e útil para nós, que somos seus filhos. Pois, tornando-se mãe de Jesus, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, ela tornou-se também nossa mãe. Jesus Cristo, em sua grande misericórdia, quis chamar-nos seus irmãos e, com esse nome, constitui-nos todos filhos adotivos de Maria. O Evangelho confirma o que aqui dizemos. O Divino Salvador estava na cruz e sofria as dores da mais penosa agonia. Sua Mãe Santíssima e o apóstolo São João estavam a seus pés, imersos na mais profunda dor; quando Jesus abriu os olhos, e talvez fosse a última vez que os abria em sua vida mortal, viu o discípulo predileto e sua querida Mãe. Então, abriu os lábios moribundos e disse a Maria: “Mulher, eis o teu filho”; depois disse a João: “Eis a tua mãe”; “mulier, ecce filius tuus; ecce mater tua”. Neste fato, os santos Padres reconhecem unanimemente a vontade do Divino Salvador, que antes de deixar o mundo quis nos dar Maria como nossa Mãe amorosa e nos constituiu todos seus filhos. Maria é também nossa mãe porque nos regenerou por meio de Jesus Cristo na graça. Pois, assim como Eva é chamada mãe dos viventes, Maria é mãe de todos os fiéis pela graça (Ricardo de São Lourenço). A este respeito, São Guilherme Abade expressa-se assim: Maria é Mãe da Cabeça, portanto é também Mãe dos membros, que somos nós: Nos sumus membra Christi [Nós somos membros de Cristo]. Maria, ao dar à luz Jesus, regenerou-nos também espiritualmente. Por isso, Maria é justamente chamada por todos de Mãe e, como tal, merece ser honrada. (Gugl. Ab. cant. 4.)
Eis, ó cristãos, a pessoa que venho propor à vossa veneração durante este mês. Ela é a mais santa entre todas as criaturas; a mãe de Deus, nossa mãe, mãe poderosa e piedosa que deseja ardentemente nos cumular de favores celestiais. Ela nos diz: eu moro no mais alto dos céus para encher de graças e bênçãos os meus devotos: ut ditem diligentes me, et thesauros eorum repleam [para enriquecer os que me amam e encher os seus tesouros – Pr 8,21).
Coragem, portanto, devotos de Maria; trata-se de fazer uma grande festa à nossa Mãe, à Mãe de Jesus. Quando chega o dia da festa de nossa mãe temporal, nós nos alegramos por poder reunir parentes e amigos para nos colocarmos em sua companhia e oferecer um ramo de flores com algumas expressões de afeto. O mês de maio é a festa da nossa verdadeira Mãe, da nossa celestial Protetora. Celebremo-la, portanto, com alegria. O mais belo ramo que podemos oferecer-lhe é aquele que será composto pelas virtudes que Ela nos deu como exemplos luminosos.
Decidamos neste dia que queremos dirigir, de manhã e à noite, as orações e todos os afetos do nosso coração àquela que temos o prazer de chamar de nossa Mãe. Oremos desde agora para que ela interceda por nós junto a seu filho Jesus. Peçamos-lhe a graça de que mais precisamos.
Exemplo
Para animá-los a celebrar com fervor o mês de maio em honra de Maria, vale o exemplo do exército do Oriente quando se encontrava em Constantinopla. Longe da pátria, sem igrejas e quase sem ministros sagrados, aqueles soldados cristãos levaram de suas casas a devoção e a confiança em Maria. Eis o relato feito por um periódico publicado em 7 de junho de 1855: “O mês de maio foi celebrado em alguns hospitais com uma solenidade piedosa e regular, que honra muito o exército do Oriente. Não há dúvida de que as bênçãos do céu derramadas sobre muitas almas tocadas pela graça se derramarão sobre todo o exército e serão coroadas com um resultado feliz da própria guerra.
Antes de essas salas estarem em nosso poder, eram mesquitas, ou seja, igrejas consagradas a Maomé. Neste ano, começaram a ressoar ali os louvores da Rainha do Céu. Foi erguido ali um altar a Maria, adornado com um gosto que demonstra que cada regimento tem os seus artistas. Lá se veem colunas esculpidas como por encanto. Ali, mármores trabalhados que apresentam toda a semelhança com os mármores mais finos. Ali, arranjos em papel e cores, que são trabalhos de alguns convalescentes que dedicam seu tempo a coisas que servem para aumentar o decoro do culto à Santa Virgem. Cada casa organizou seu coro de cânticos, todos os músicos e todos os mais talentosos da sociedade harmônica se preocupam em participar. Alguns compuseram canções espirituais, que todos cantam juntos com alegria em honra de Maria. À noite, quando termina o canto dos louvores sagrados e das ladainhas da Santa Virgem, o capelão ou outro convidado faz uma instrução adaptada ao dia, que é seguida com avidez pelos ouvintes em grande número reunidos e devotos. Muitas vezes, a sala não consegue conter a multidão de ouvintes. Os próprios feridos fazem-se levar para lá meia hora antes, para terem a certeza de ter lugar. Este é para eles o momento mais bonito do dia.” Eis, ó cristão, como também nós podemos celebrar este mês e dar a Maria um sinal de terna devoção. Nas cidades, no campo, nas casas, na solidão, nos claustros e nos regimentos dos mesmos militares, podem-se oferecer homenagens de devoção à Rainha de todos os Santos.
Jaculatória
Virgem piedosa, eis o meu coração; inflamai-o com o santo amor.
Oração
Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que têm recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência, e reclamado o vosso socorro, fosse por vós desamparado. Animado eu, pois, de igual confiança, a vós, ó Virgem, entre todas singular, como a Mãe recorro, de vós me valho e, gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos vossos pés. Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus humanado, mas dignai-vos de as ouvir propícia e de me alcançar o que vos rogo. Amém. [4]
Primeiro dia de maio. Deus nosso Criador
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Em honra de Maria, pare por alguns instantes para contemplar a majestade de Deus Criador. Se nós, cristãos, abrimos os olhos e damos livre curso aos nossos pensamentos, não podemos deixar de reconhecer a existência, o poder e a sabedoria de Deus, por quem tudo foi criado, de quem tudo depende e se conserva. Quem admira uma casa de excelente construção não ousa dizer que foi por acaso que ela foi construída e organizada. Quem dissesse que um relógio foi feito por si mesmo, nós o desprezaríamos como louco. Assim, diante da ordem e da maravilhosa harmonia que reina em todo o universo, não se pode hesitar um instante sobre a crença em um Deus que criou, deu movimento a todas as coisas e as conserva. Ele é Deus que disse: “Haja luz”, e a luz foi feita. A luz foi separada das trevas e, num instante, espalhou-se pelos vastos espaços do céu e da terra. À palavra do Deus todo-poderoso, o mar foi encerrado em certos limites, a terra cobriu-se de ervas, árvores e plantas frutíferas. À sua voz, os pássaros, os peixes e os outros animais povoaram o céu, a terra e as águas. Dizendo fiat, faça-se, ele iluminou o sol, a lua e as estrelas. A tudo Ele deu existência com sua onipotência, a tudo provê com sua bondade. É Ele quem sustenta e move o peso formidável da imensidão. É Ele quem dá movimento e vida a todos os seres vivos. Ele dá existência a tudo como criador, provê a tudo como conservador, e a Ele tudo se refere como fim último. A todas as coisas Ele diz: fui eu que te fiz: ego sum [Eu sou]. E nesta palavra, que todo homem pode e deve compreender, expressa-se a sua potência e a sua divindade.
- Mas aqui há uma verdade que certamente aumentará nosso espanto. Todas as coisas que contemplamos no universo foram criadas por Ele para nós. O sol que brilha durante o dia, a lua que dissipa as trevas da noite, as estrelas que embelezam o firmamento, o ar que nos dá o fôlego, a água que serve aos usos do homem, o fogo que nos aquece, a terra que nos dá os frutos, tudo foi feito por Deus para nós. Omnia subiecisti sub pedibus eius [Pusestes tudo sob os seus pés]. Que sentimentos de gratidão, respeito e amor devemos ter por um Deus tão grande e ao mesmo tempo tão bom! O que devemos fazer para corresponder a esta grande bondade do nosso Deus? Cumprir exatamente os preceitos da sua santa lei. Vê, ó cristão, se formos obedientes aos mandamentos deste nosso Deus, além do que já fez por nós, Ele acrescentará favores a favores. Nossa vida será repleta de bênçãos celestiais na vida presente e na futura. Mas este Deus, sendo infinitamente justo e misericordioso, dará uma recompensa eterna pelo serviço que lhe prestarmos. Recompensa de glória, se o servirmos com boas obras; mas um castigo terrível, se formos rebeldes à sua santa lei.
Exemplo
Cada objeto que se apresenta aos nossos olhos neste mundo é um fato que fala da majestade, poder e bondade de Deus criador. Poderíamos citar muitos exemplos de corajosos cristãos que fizeram grandes sacrifícios para servir a Deus; mas nós nos limitamos a citar a oferta de Maria no templo. Quando Maria chegou à idade em que as meninas começam a correr perigo no mundo, seus pais, São Joaquim e Santa Ana, a levaram ao templo. Certamente ela teve que fazer um grande sacrifício ao abandonar seus parentes, amigos e todas as comodidades da casa paterna com o único objetivo de aprender a servir a Deus. Mas esse sacrifício foi feito por Maria com alegria, porque se tratava de promover a glória de Deus. Lá permaneceu vários anos, fazendo resplandecer as virtudes mais luminosas, imitando um grupo de outras virgens que, no mesmo lugar, eram instruídas na religião e na maneira de conservar a inocência dos costumes. A Igreja celebra esta oferta de Maria ao templo no dia 21 de novembro. É em imitação de Maria que muitos abandonaram as comodidades da terra para ir servir a Deus nos claustros ou nos desertos, ou sacrificando a própria vida em meio aos mais atrozes tormentos. Nós, pelo menos, empreguemos para o Senhor o tempo de vida que, em sua bondade, Ele nos conceder.
Jaculatória
Oh, quantas graças
Devo render
Ao grande Deus
Que me criou!
Que no batismo
Me fez seu filho,
Do eterno exílio
Me libertou!
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Deus não é apenas o Criador de todas as coisas que existem no céu e na terra, mas é também o nosso Criador. Ele criou o corpo com as belas qualidades que nele contemplamos; a este corpo uniu uma alma que é muito mais preciosa do que o corpo e todas as outras coisas que vemos no mundo. Deus nos deu uma alma, ou seja, nos deu aquele ser invisível que sentimos dentro de nós e que tende continuamente a elevar-se a Deus; aquele ser inteligente que pensa e raciocina, e que não pode encontrar a sua felicidade na terra e que, por isso, mesmo no meio das riquezas e de todos os prazeres da terra, está sempre inquieto até que descanse em Deus, pois só Deus pode torná-lo feliz.
- Esta alma é imortal. Deus é infinitamente justo e infinitamente misericordioso; como justo, ele deve recompensar a virtude muitas vezes oprimida na vida presente e deve igualmente punir o vício muitas vezes triunfante entre os homens: como isso não acontece neste mundo, deve haver outra vida, na qual a justiça divina conceda aos bons a recompensa merecida e aos maus o castigo devido. Além disso, a alma é feita à imagem e semelhança de Deus. Essa imagem e semelhança seriam imperfeitas se não tivessem a principal prerrogativa do Criador, que é a imortalidade. Isso sentimos em nós mesmos, naquela voz interior que fala a todos no coração e diz: a tua alma não poderá ser aniquilada e viverá eternamente. Quando Deus criou a alma, soprou sobre o homem e lhe deu o espírito da vida; este sopro é simples, é espiritual, feito à imagem e semelhança de Deus, que é eterno e imortal; por isso, a nossa alma deve ser imortal. Por meio da alma, temos a faculdade de criar ideias, combiná-las, produzir certas obras-primas, que elevam o homem acima de todas as outras criaturas e provam, como de fato é, que a alma é o símbolo ou a marca da inteligência de Deus.
- Deus deu à nossa alma a liberdade, ou seja, a faculdade de escolher o bem ou o mal, garantindo-lhe uma recompensa, se fizer o bem, e ameaçando-a com um castigo, se escolher o mal. O que, como já foi dito, não se realiza na vida presente, Deus reservou para a eternidade, onde aqueles que agiram bem serão recompensados com uma recompensa que nunca terá fim; e aqueles que transgrediram a lei divina serão punidos com um castigo eterno. Isso foi exatamente o que ensinou nosso Divino Salvador quando disse: os ímpios irão para um castigo eterno preparado para os demônios e seus seguidores; os bons, porém, irão para a posse de um reino de glória, onde desfrutarão de todos os bens.
Ó cristão, que também tens uma alma imortal, pensa que se a salvares, tudo estará salvo; mas, se a perderes, tudo estará perdido. Tens uma única alma, um único pecado pode fazer perder tudo. O que seria de nós e da nossa alma, se, neste momento, Deus nos chamasse ao seu divino tribunal? Tu que lês, pensa na tua alma, e eu que escrevo pensarei seriamente na minha.
Exemplo
Um fato ocorrido com um ministro do rei Luís XVI da França nos ensina sobre o amoroso cuidado que Maria tem pela salvação de nossa alma. Esse ministro, quando jovem, teve a infelicidade de se associar a más companhias, que o fizeram perder o amor pela virtude, pela religião e pela fé. Ele estava chegando aos oitenta anos de idade. Desde os 15 anos, não praticava mais nenhum ato religioso. Depois de ter sido filósofo, maçom e materialista, acabou se tornando ateu, não acreditando mais em nada. Deus, que havia criado aquela alma para si, estava esperando por ela; Maria era a Mãe da misericórdia que deveria conduzi-la a Jesus, seu filho. Ele havia ficado cego, doente, e sua alma estava às portas da eternidade. O pároco, que realmente se importava com a salvação daquela alma, não mediu esforços para conquistá-la. Dez vezes ele se apresentou à porta dele, e dez vezes lhe foi proibida a entrada pelos criados, seguindo as ordens do patrão. Aquele pastor zeloso, profundamente aflito pelo temor de que aquela alma redimida com o sangue de Jesus Cristo fosse para a perdição, não sabendo mais o que fazer, recorreu àquela que é chamada a salvação do mundo ou o refúgio dos pecadores. Ele depositou sua confiança em Maria, rezou e pediu que rezassem para que ela fosse mãe de misericórdia também para aquela alma, que parecia prestes a se apresentar perante o tribunal de Deus. Ele então se dirigiu à porta daquele senhor, e os criados tentaram mandá-lo embora, como nas outras vezes. Ele insistiu e, finalmente, foi recebido. Após algumas cortesias, o doente diz sem preâmbulos ao pároco: Senhor Padre, Vossa Excelência teria a bondade de me dar a sua bênção? O pároco, surpreso com tais palavras, respondeu de todo o coração. Depois de recebê-la, acrescentou: Oh, como me consola a sua visita! Eu sou cego e não posso vê-lo, mas sinto bem a sua presença. Desde que está perto de mim, sinto uma paz no meu coração que não me lembro de ter sentido em toda a minha vida. O pároco, abençoando em seu coração e com misericórdia, começa a falar-lhe dos confortos que a religião católica dá na vida e muito mais na hora da morte. O doente acolhe com alegria as palavras do Ministro Sagrado, prepara-se para se confessar, começa e termina nos dias seguintes com grande satisfação. A vida daquele senhor prolongou-se por cerca de seis meses, mas sempre cheio de fé em Deus e de confiança na grande Virgem Maria. Ele deu sinais inequívocos de arrependimento pelos seus pecados, esforçou-se por reparar o escândalo causado e, munido dos Santos Sacramentos e dos outros confortos que a religião católica administra ao cristão enfermo, entregou a alma ao Senhor em 10 de abril de 1837. (Do Manual da Arquiconfraria)
Jaculatória.
Recorro suplicante
A Vós, ó Maria,
Mostrai-me
O caminho do céu.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Um mistério incompreensível para a mente humana, que demonstra a preciosidade da nossa alma e a grande bondade de Deus para conosco, é a redenção do gênero humano. Nossos pais Adão e Eva pecaram e, com o seu pecado, fecharam o Paraíso para si mesmos e para toda a sua descendência. Deus, com um gesto de infinita bondade, prometeu reparar a perdição eterna dos homens por meio do Messias que enviaria na plenitude dos tempos. Para que a fé no Messias, ou seja, no Salvador, se mantivesse viva entre os homens, Deus fez com que fosse anunciada em todos os tempos pelos santos Patriarcas e Profetas. Uma clara revelação foi feita a Abraão, a Jacó, a Moisés, a Davi e, mais tarde, a muitos outros profetas. Isaías disse: um homem de admirável doçura, santo por natureza, concebido pelo Espírito Santo, nascerá de uma Virgem. Por outros é chamado Deus forte, autor da paz, predizendo que nasceria em Belém.
O profeta Daniel, cinco séculos antes do nascimento do Salvador, fixa a época com um cálculo de setenta semanas de anos, que correspondem a quatrocentos e noventa anos. No final dessas semanas, Jesus nasceu em Belém, da Virgem Maria, e sob as aparências mais humildes, Deus, Criador do céu e da terra, se fez homem: et Verbum caro factum est [e a Palavra se encarnou]. Assim, Deus, com repetidas profecias, avisava os homens para manter viva a esperança no Salvador. Quanto mais se aproximava o tempo da vinda, mais claras se tornavam as promessas divinas.
- O Salvador, então, para demonstrar a sua vinda e dar a conhecer a todo o mundo que ele era o Messias prometido, dá início à sua pregação com uma doutrina santa e divina, confirmada por uma série de milagres espantosos, que todos tendem a demonstrar a sua bondade e o seu poder divino. À sua palavra, os cegos recuperam a visão, os surdos a audição, os mudos a fala e os mortos saem vivos de seus túmulos. Jesus prega, mas não prega apenas recompensas temporais; ele ensina que é preciso adorar um único Deus em espírito e verdade; amar e adorar somente a Ele; ensina que é preciso estender nossa beneficência a todos os homens, mesmo aos nossos inimigos, porque o objetivo de sua religião e de sua vinda é a caridade. Ele prega a paciência, a submissão e a humildade, a ponto de nos alegrarmos com as tribulações que nos envia. Ele anuncia uma vida feliz e eterna, ou seja, o céu; mas essa felicidade deve ser conquistada por nós com nossos esforços, com a prática da virtude, com a fuga do vício.
- Paremos aqui, ó cristão, e enquanto, cheios de gratidão, consideramos a imensa bondade de Deus, peço-te que fixes a tua alma em dois pensamentos: ou seja, considerar o tesouro precioso que trazes contigo, que é a tua alma, pela qual Deus se fez homem, e considerar também que grande mal é o pecado, pois para reparar as consequências dele, o Filho de Deus teve que deixar as delícias do céu, submeter-se a todas as misérias da nossa vida e terminar com a morte na cruz. Mas enquanto admiramos a bondade do nosso Divino Salvador, prometamos-lhe evitar tudo o que possa renovar os sofrimentos que Ele suportou pela nossa alma. Admiremos a sua grande humildade e fujamos especialmente da vaidade e da soberba. É verdade que este corpo é um belo dom que Deus nos deu para cobrir a nossa alma; mas a humildade é o mais belo ornamento da alma, e a vaidade e a soberba são pecados que devem ser evitados em todos os momentos, e sobretudo durante este mês dedicado à mais pura e humilde das virgens, Maria Santíssima.
Exemplo
São Francisco de Jerônimo sempre nutriu em seu coração e procurou acender nos outros uma terna devoção pela santíssima humanidade de Jesus Cristo e pelos seus mistérios. Era também singularmente devoto do mistério da encarnação. Costumava dizer que somos extremamente obrigados a santificar o mês de março, porque nessa época o Divino Verbo, com inefável dignidade, se rebaixou a ponto de revestir-se de carne humana por amor a nós, no seio puríssimo de Maria. Quando contemplava o Menino Jesus, derramava lágrimas amargas por compaixão pelos seus sofrimentos.
A essa devoção pelo mistério da redenção, unia uma ternura filial pela sua Santíssima Mãe. Desde muito jovem, não sabia falar dela senão com grande veneração. Em obediência a Ela, jejuava apenas a pão e água todos os sábados do ano e nas vésperas das festas em sua honra, acrescentando ainda uma flagelação sangrenta do seu corpo. Não perdia nenhuma ocasião, seja nas pregações ou nos discursos, para exaltar as qualidades, a grandeza e a bondade de Maria em nosso favor, junto ao seu Divino Filho. Embora ocupado da manhã à noite, nunca deixava de recitar todos os dias o seu Rosário: costume que observava inviolavelmente até nas viagens. Encontrando-se no mar, entre Nápoles e Massa, convidou os barqueiros a recitar com ele o Rosário; e para inflamá-los com uma devoção tão louvável, começou a explicar-lhes os mistérios que nele se recordam.
Para aumentar o culto, pregou durante vinte e dois anos, todas as terças-feiras, expondo a um numeroso povo as glórias e grandezas desta Rainha, contando as graças que ela concedeu aos seus devotos. Introduziu o costume piedoso de renovar publicamente todos os meses a oferta de si mesmo a Maria. Mandou imprimir em versos italianos a Salve Rainha, fazia cantar nas ruas, distribuía muitos milhares de cópias aos fiéis devotos e, com este meio, conseguiu impedir o canto de muitas canções profanas e até escandalosas. Procuremos imitar este Santo no que pudermos.
Jaculatória.
O fruto amável
Do vosso seio
A nós mostrai,
Ó Grande Mãe.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Quarto dia. A Igreja de Jesus Cristo
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Nosso Divino Salvador, descendo do céu para nos salvar, quis estabelecer um meio pelo qual fosse assegurada a preservação da fé, fundando um reino espiritual sobre a terra. Este reino é a sua Igreja, ou seja, a congregação dos fiéis cristãos de todo o mundo, que professam a doutrina de Jesus Cristo sob a condução dos legítimos pastores, e especialmente do Romano Pontífice, que é o seu chefe estabelecido por Deus. Esta Igreja, como mãe amorosa, deveria em todos os tempos e em todos os lugares receber todos aqueles que quisessem refugiar-se em seu seio materno; e ser, portanto, em todos os tempos visível e acessível a todos. Por isso, no Evangelho, esta Igreja é comparada a uma coluna, contra a qual nada valem os ataques dos inimigos das almas. É comparada a uma pedra, sobre a qual repousa um grande edifício que deve durar até o fim dos séculos. Tu és Pedro, disse Jesus Cristo ao Príncipe dos Apóstolos ao constituí-lo chefe da Igreja, tu és Pedro, e sobre esta pedra fundarei a minha Igreja, e as portas do inferno não a poderão vencer.
Jesus Cristo recomendou aos seus seguidores que, se surgissem questões entre eles, remetessem a resolução à Igreja: dic ecclesiæ [dize-o à Igreja]; que se alguém se recusasse a ouvir a Igreja, considerassem-no como gentio e publicano: quod si ecclesiam non audierit, sit tibi tamquam ethnicus et publicanus. Esta Igreja é a coluna e o fundamento de toda a verdade, de modo que toda doutrina que não se apoia no fundamento desta Igreja se apoia no erro: ecclesia est columna et fundamentum veritatis [a Igreja é coluna e fundamento da verdade], diz São Paulo.
- Esta Igreja é chamada católica, que significa universal, porque, como já foi dito, como uma mãe amorosa acolhe em todos os tempos e em todos os lugares aqueles que querem vir ao seu seio materno. Universal porque abraça toda a doutrina ensinada por Jesus Cristo e pregada pelos Apóstolos.
Diz-se também Santa, porque o seu fundador, que é Jesus Cristo, é a fonte de toda a santidade; ninguém pode ser santo fora desta Igreja, pois somente nela se ensina a verdadeira doutrina de Jesus Cristo, somente nela se pratica a sua fé, a sua lei e se administram os sacramentos por Ele instituídos.
Costuma-se também chamá-la Apostólica porque seus pastores são sucessores dos Apóstolos e ensinam a mesma doutrina pregada pelos Apóstolos, tal como a aprenderam de Jesus Cristo.
Acrescenta-se ainda o título de Romana, porque o seu chefe, que é o Papa, é bispo de Roma e, por isso, esta cidade, outrora capital do Império Romano, é agora o centro da religião, a capital do mundo católico.
- E como existe um só Deus, uma só fé, um só batismo, existe também uma só Igreja verdadeira, fora da qual ninguém pode salvar-se.
Considera, ó cristão, e treme ao refletir sobre o grande número daqueles que não estão no seio da Igreja Católica e, portanto, todos fora do caminho que conduz ao céu. Considera e alegra-te em teu coração, porque Deus te criou nesta sua Igreja, na qual há tantos meios de salvação. Sê grato a Deus e, para lhe agradecer, procura observar os preceitos que a Igreja, em nome de Deus, propõe aos seus filhos. Sê constante em ouvir Missa inteira todos os domingos e outros dias festivos, observa os jejuns e vigílias, e não comas carne às sextas-feiras e sábados. Em suma, procuremos ser católicos não apenas no nome, mas nos fatos, observando com exatidão o que a Igreja manda, abstendo-nos do que ela proíbe.
Se acontecer de falar ou ouvir outros falarem da Igreja, comportemo-nos como filhos respeitosos para com a sua mãe amorosa: nunca digamos nada contra o que a Igreja ordena ou proíbe; e, na medida do possível, falemos sempre bem dela e oponhamo-nos corajosamente a quem quer que tente falar mal dela.
Exemplo
Os anais da Igreja estão repletos de exemplos que demonstram como Maria foi, em todos os tempos, não apenas o sustento da Igreja, mas uma mãe piedosa que, com a mais amorosa solicitude, vai em busca de seus filhos, realizando, às vezes, milagres luminosos para aumentar o seu número. Escolhemos o exemplo de Afonso Ratisbona, um jovem judeu das famílias mais ricas da Alemanha. Muito apegado à sua religião, era inimigo implacável dos cristãos, especialmente desde que um de seus irmãos abraçou a fé. Por diversão, ele foi a Roma no ano de 1842. Lá cresceu seu ódio contra a religião cristã e seu ardor pelo judaísmo. Ele já estava prestes a partir da cidade quando foi se despedir do Barão Bussiere, um protestante convertido ao catolicismo. Este senhor começou a conversar sobre religião com Afonso e, ao vê-lo obstinado no judaísmo, pediu-lhe que, pelo menos por cortesia, deixasse que lhe colocasse ao pescoço a medalha de Maria. Ele, rindo loucamente dessa ideia, consentiu. Era 20 de janeiro de 1842, Afonso estava por um momento numa igreja onde havia entrado por curiosidade. De repente, o edifício desapareceu de seus olhos, e uma luz intensa se derramou sobre ele e encheu o lugar onde se encontrava. Ali, no meio daquele esplendor radiante, ele viu em pé sobre o altar, cheia de majestade e doçura, a Virgem Maria, tal como aparece na medalha milagrosa. Com a mão, ela lhe fez sinal para que se ajoelhasse e, com uma força irresistível, ele foi atraído para Maria. Foi nesse momento feliz que Afonso abriu os olhos para a verdade e, iluminado pela fé, começou a chorar copiosamente. Seu coração não encontrava mais conforto do que em expressar sua gratidão e pedir com veemência o batismo. Ele se preparou durante onze dias e, em 31 de janeiro do mesmo ano, foi regenerado em Cristo, e Maria ganhou mais um filho. Uma conversão tão espantosa e repentina foi declarada milagrosa pela Santa Sé, após exames diligentes. Todos os anos, em 20 de janeiro, celebra-se em Roma uma festa em memória desse prodígio na igreja de Santo André do Horto, local onde ocorreu o milagre.
Jaculatória.
Fazei que expire,
Virgem Maria,
Como um bom católico
A minha alma.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Jesus Cristo, no Evangelho, comparou a sua Igreja a um reino, a um império, a uma república, a uma cidade, a uma fortaleza, a uma família. Todas estas coisas são, por sua natureza, visíveis e não podem existir sem que haja um chefe que comande e súbditos que obedeçam. O chefe invisível da Igreja é Jesus Cristo, que assiste os santos pastores do céu até ao fim do mundo: ecce ego vobiscum sum usque ad consummationem sæculi [eis que estarei convosco até a consumação dos séculos]. O chefe visível foi São Pedro e, depois dele, os Pontífices, seus sucessores.
O Divino Salvador disse a São Pedro: tu és Pedro, e sobre esta pedra fundarei a minha Igreja, e as portas do inferno nunca a poderão vencer. Eu te darei as chaves do reino dos céus; tudo o que ligares na terra será ligado no céu; tudo o que desligares na terra será desligado no céu. Com estas palavras, o Salvador constitui São Pedro chefe da sua Igreja e confere-lhe a plenitude do poder, em virtude do qual ele pode estabelecer tudo o que contribui para o bem espiritual e eterno.
Após a ressurreição, Jesus Cristo confirmou o que foi dito a São Pedro. Tendo aparecido aos seus apóstolos nas margens do mar de Tiberíades, disse a São Pedro: apascenta as minhas ovelhas, apascenta os meus cordeiros; pasce oves meas, pasce agnos meos. Da Sagrada Escritura, fica claro que os cordeiros indicam todos os fiéis cristãos, e as ovelhas são os pastores sagrados, que devem depender do Pastor Supremo, que é Pedro, e depois dele, seus sucessores.
- Para que ficássemos seguros de que este Supremo Pastor conservaria sempre o depósito da fé sem nunca cair em erro, Jesus Cristo disse a São Pedro: Eu roguei por ti, Pedro, para que a tua fé não desfaleça: rogavi pro te, Petre, ut non deficiat fides tua. Et tu aliquando conversus confirma fratres tuos [E tu, uma vez convertido, com firma os teus irmãos]. É por isso que os outros apóstolos, após a ascensão do Salvador, consideraram São Pedro como seu chefe. Assim que o Salvador subiu ao céu, ele imediatamente assumiu o governo da Igreja; propôs a eleição de um apóstolo no lugar do traidor Judas; ele foi o primeiro a pregar ao povo; o primeiro a fazer milagres indo ao templo; o primeiro a ser instruído por Deus que não só os judeus, mas também os gentios são chamados à fé. Surgem dificuldades na Igreja? Reúne-se um concílio na cidade de Jerusalém; Pedro propõe a questão, explica-a, define-a, e todos obedecem a Pedro como ao próprio Jesus Cristo. Assim fizeram os verdadeiros católicos em todos os tempos, em todos os lugares, em todas as questões religiosas: sempre se recorreu ao Sumo Pontífice, e todos os cristãos se submeteram a ele como a São Pedro, como ao próprio Jesus Cristo.
- Eis, ó cristão, o que te proponho para tua consideração. Um Deus feito homem para nos salvar; antes de partir do mundo, funda uma Igreja e designa um Chefe para agir em seu lugar sobre a terra até o fim dos séculos: usque ad consummationem sæculi. Reconhecemos também no Romano Pontífice o Pai universal de todos os cristãos, o sucessor de São Pedro, o Vigário de Jesus Cristo, aquele que representa Deus na terra, aquele a quem Jesus Cristo disse: tudo o que ligares na terra será ligado no céu; tudo o que desligares na terra será também desligado no céu. Mas lembremo-nos bem que ninguém pode professar a religião de Jesus Cristo, se não for católico; ninguém é católico, se não estiver unido ao Papa.
Exemplo
Os hereges, para afastar os católicos da Igreja e do Romano Pontífice, sempre começaram por desprezar a devoção à Santíssima Virgem, porque Maria é mãe misericordiosa de todos aqueles que a invocam. Na verdade, temos muitos hereges convertidos que atribuem sua conversão à devoção a Maria. Vale por todos o exemplo do protestante e agora fervoroso católico Frederico Hurter. Ele era presidente do Consistório protestante em Schaffhausen, na Suíça, e era considerado um dos melhores pregadores e professores do calvinismo. Embora fosse muito apegado aos erros de sua seita, lamentava muito, como ele mesmo confessa, que o protestantismo, ao qual pertencia, recusasse qualquer culto à Santíssima Virgem. Este foi o grão de mostarda que produziu a árvore da conversão de Hurter. Desde a sua juventude, sem qualquer conhecimento particular da doutrina católica sobre a Grande Mãe de Deus, sentia-se penetrado por uma veneração inexprimível por Ela. Encontrava nela a advogada dos cristãos. A ela se dirigia do fundo do coração em sua vida privada. Às vezes, tentava, da cátedra, despertar em seus alunos pensamentos de veneração pela Virgem Maria, e até se esforçava por dar a conhecer as grandezas daquela que é Mãe de Deus.
À medida que o amor por Maria crescia em seu coração, Frederico começou a ter algumas dúvidas sobre sua crença. A dúvida o levou a examinar melhor a religião católica, que se mostrava a cada dia mais verdadeira, divina, e até mesmo a única verdadeira em seu coração. Movido unicamente pelo desejo de conhecer a verdade, renunciou às funções de presidente do Consistório e dedicou-se com a máxima diligência ao estudo dos dogmas católicos. Passou quatro anos nesse estudo e, durante todo esse tempo, rezava com fervor à Santa Virgem para que lhe revelasse a verdade, intimamente convencido de que estava longe da verdade enquanto vivesse no protestantismo. Em 29 de fevereiro de 1844, partiu para Roma com o firme propósito de se declarar filho fiel, como ele mesmo se expressa, daquela terna mãe que é a Santa Igreja Católica. Chegado à cidade que é o centro da unidade, a capital do mundo cristão, não quis mais adiar a execução de seu grande ato. Renunciou às honras, aos cargos e aos salários que tinha entre os protestantes, não deu importância às reclamações dos parentes e amigos e, superando todo respeito humano, abriu mão dos seus erros, recebeu a sagrada comunhão e a crisma no mês de junho daquele ano de 1844. Este ilustre literato reconhece a graça extraordinária de sua conversão pela intercessão da Santíssima Virgem.
Que este fato sirva de conforto a todos os bons católicos para se manterem firmemente unidos e obedientes ao chefe da nossa santa religião, que é de maneira tão especial protegido pela grande Mãe de Deus a Santíssima Virgem.
Jaculatória
Nunca me separe
Por causa de um fato triste
Do grande Vigário
De Jesus Cristo.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Sexto dia. Os Pastores da Igreja
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- A Igreja é uma congregação de fiéis cristãos espalhados por todo o mundo, que, como um numeroso rebanho, são governados por um pastor supremo, que é o Romano Pontífice. Mas se cada cristão tivesse uma relação direta com o Vigário de Jesus Cristo, dificilmente poderia fazer chegar até ele as suas palavras e raramente comunicar-lhe os seus pensamentos. Deus, porém, pensou e providenciou todas as necessidades da nossa alma. Ouçam, este é um dos traços mais belos do catolicismo. Deus estabeleceu São Pedro como Chefe da Igreja e, após sua morte, os Pontífices Romanos lhe sucederam no governo da mesma, e sucederam-se de tal forma que, desde o atual Papa Pio IX, temos uma série ininterrupta até São Pedro, e de São Pedro temos a série dos Pontífices, um sucessor do outro, que nos conservaram intacta a Santa Religião de Jesus Cristo até nós.
Os apóstolos exerceram o seu apostolado de acordo e dependentes de São Pedro. Aos apóstolos sucederam outros bispos, que sempre de acordo e sempre dependentes do sucessor de São Pedro governaram as várias dioceses da cristandade. Os bispos acolhem as súplicas, ouvem as necessidades dos povos e as fazem chegar até a pessoa do Sumo Hierarca da Igreja. O Papa, então, segundo a necessidade, comunica suas ordens aos bispos de todo o mundo, que depois as transmitem aos simples fiéis cristãos.
Além dos apóstolos, Jesus Cristo estabeleceu setenta e dois discípulos, que enviou a vários lugares para pregar o Evangelho. Os apóstolos também ordenaram sete diáconos e outros ministros para ajudá-los na pregação do Evangelho e na administração dos sacramentos. Assim, entre nós, além do Papa e dos bispos, há outros ministros sagrados, especialmente os párocos, que, estreitamente unidos e em acordo com os bispos, os ajudam na pregação e na administração dos sacramentos, ajudam-nos a manter a unidade da fé e, sobretudo, a conservar uma estreita relação com o Chefe da religião, o que é indispensável para manter sempre as verdades da fé longe do erro.
- Por isso, podemos dizer que nossos párocos nos unem aos bispos, os bispos ao Papa, e o Papa nos une a Deus. Além disso, os santos pastores que governam as igrejas particulares, tendo-se sucedido regularmente, sempre dependentes do Papa, sempre ensinando a mesma doutrina, administrando os mesmos sacramentos, segue-se a certeza de que os ministros da Igreja católica, em todos os tempos e em todos os lugares, sempre praticaram a mesma fé, a mesma lei, os mesmos sacramentos, como foram pregados pelos Apóstolos e como foram instituídos por nosso Senhor Jesus Cristo.
- Sejamos, portanto, dóceis às vozes dos ministros sagrados, como as ovelhas devem ser à voz do seu pastor. Deus os deu a nós como mestres na ciência da religião; vamos, portanto, aprender com eles e não com os mestres mundanos. Deus os deu a nós como guias no caminho do céu; portanto, sigamos os seus ensinamentos. Deus disse aos seus ministros: qui vos audit, me audit; quem vos ouve, a mim ouve; qui vos spernit, me spernit; quem vos despreza, a mim despreza. Por isso, vamos de bom grado ouvi-los nas pregações, nas instruções, nos catecismos, nas explicações do Evangelho. Sigamos os conselhos que nos dão quando nos aproximamos dos sacramentos, ou quando nos instruem para recebê-los dignamente; ouçamos as suas vozes como se viessem do próprio Jesus Cristo.
Exemplo
O fato ocorrido com São Romano, quando era conduzido ao martírio, pode nos dar uma norma para a resposta que podemos dar quando somos interrogados sobre os motivos da nossa crença. Este santo, cruelmente torturado por um prefeito chamado Asclepíades, visando a dureza do tirano, quis provar que ele era um homem de pouca fé com um milagre. Virando-se para ele, Asclepíades disse-lhe: se não acreditas em mim, pergunta àquela criança que vês nos braços de sua mãe, e da sua boca inocente ouvirás confirmar o que eu te preguei e te prego sobre a minha religião. O prefeito olhou para a criança e, convencido de que, devido à sua idade, ela era incapaz de articular palavras, disse-lhe em tom de brincadeira: “Você sabe me dizer quem é o Cristo que os cristãos adoram?” Então, a criança levantou a voz com franqueza e gritou com força: “Jesus Cristo, adorado pelos cristãos, é o verdadeiro Deus”. “Quem te disse isso?”, perguntou Asclepíades. O outro respondeu: “Minha mãe disse, ou seja, a Igreja. E quem disse isso à tua mãe?”, perguntou o prefeito, maravilhado. “Deus disse à minha mãe: mihi mater, matri Deus”. Assim deveriam responder os cristãos se fossem interrogados sobre a verdade da fé. Quem disse que Jesus Cristo é filho de Deus, que morreu para nos salvar, que nos julgará a todos juntos no fim do mundo? Quem disse isso? Disseram-no os ministros sagrados, que aprenderam isso de nossa mãe, que é a Igreja; a Igreja aprendeu isso do próprio Deus. Mihi mater matri Deus. (Boll. in s. Romano).
Jaculatória.
Fazei que eu ouça,
Ó meu Senhor,
As vozes providenciais
Do meu pastor.
Que a minha alma
Confie-se inteiramente a ele,
Para que, com segurança,
Ele me guie ao céu.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Nossa religião é sobrenatural e divina, por isso nela se encontram certas verdades tão sublimes que o homem, na vida presente, após muitas dificuldades, mal consegue compreender uma pequena parte delas. Isso não deve nos surpreender, pois nos mesmos objetos temporais que se apresentam aos nossos olhos, como as ervas, as plantas, a água, o fogo, a estrutura do corpo humano, vemos muitas coisas cuja existência conhecemos, mas cujas qualidades compreendemos de forma imperfeita. Portanto, se somos obrigados a admitir segredos nas coisas temporais, com muito mais razão devemos admiti-los nas coisas espirituais. Tais verdades no ato da religião são chamadas de mistérios. O ato pelo qual submetemos a nossa vontade a acreditar é chamado de fé. Sem a fé é impossível agradar a Deus, diz São Paulo. A fé é a substância das coisas que devemos esperar de Deus. A fé é a base e o fundamento de toda a nossa justificação, diz a Igreja, em nome de Deus.
- Esta fé não se apoia na autoridade dos homens, que podem cair em erro, mas se apoia inteiramente na palavra de Deus, que é eterna, imutável e que nunca pode variar em nada. Portanto, com fé acreditamos que Deus criou o céu e a terra e todas as coisas que neles existem; acreditamos que, pelo pecado original, toda a humanidade se tornou indigna do Paraíso e merecedora do inferno; que Deus prometeu um Salvador, que veio e é Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem; que ele se fez homem para salvar a nossa alma e que morreu na cruz por nós. É também verdade de fé que existe um único Deus em três pessoas realmente distintas, que existe um único batismo, uma única Igreja verdadeira, que é a católica; que ninguém pode salvar-se fora desta Igreja; que o chefe desta Igreja é o Romano Pontífice, a quem devemos obedecer como a Jesus Cristo, de quem ele é o representante; que os sacramentos instituídos por nosso Senhor Jesus Cristo são sete, nem mais nem menos. É verdade de fé que existe Deus, que recompensa os bons com o Paraíso e castiga os maus com o inferno; que temos uma alma simples e imortal; que um único pecado mortal pode fazê-la perder-se por toda a eternidade. Estas coisas são as principais verdades que nossa religião nos propõe acreditar. Não nos preocupemos, porém, se não compreendemos estas verdades; pelo contrário, devemos alegrar-nos porque é sinal de que Deus nos reservou coisas grandiosas na outra vida; coisas que, como diz São Paulo, os ouvidos nunca ouviram, os olhos nunca viram, a língua não pode expressar, nem o coração do homem pode imaginar. Estas coisas não compreendemos na vida presente. Mas Deus nos assegura que elas estão preparadas para nós na outra vida. Portanto, tenhamos coragem, pois compreenderemos tudo na bem-aventurada eternidade, se pela misericórdia de Deus formos salvos. Então compreenderemos o que aqui na terra nos parece mistério, então veremos Deus como ele é em si mesmo: tunc videbimus sicuti est [então o veremos como ele é], diz São Paulo.
- Devo, porém, advertir-te, ó cristão, que a nossa fé deve ter certas qualidades, sem as quais nada serve para nos salvar. A nossa fé deve ser inteira, isto é, deve abraçar todos os artigos da nossa religião. Todas as verdades da fé são reveladas por Deus; portanto, quem nega acreditar em um único artigo da fé, nega acreditar em Deus mesmo. Por isso, aquele que diz amar o próximo e, ao mesmo tempo, toma o nome de Deus em vão; aquele que honra os pais e, ao mesmo tempo, rouba a propriedade alheia ou se entrega à desonestidade, ao desprezo pelos sacramentos e pelo Vigário de Jesus Cristo, esse, digo, transgride um artigo da fé que o torna culpado de todos os outros. Os artigos da fé estão todos ligados entre si e formam uma corrente que une a razão com a revelação, constituindo uma escada pela qual o homem sobe até Deus. Mas, se um elo da corrente se rompe, ou um degrau dessa escada mística se quebra, toda a nossa relação com Deus se rompe. De que vale acreditar na Igreja, no Vigário de Jesus Cristo, se depois se despreza os seus ensinamentos, se fala mal do Sumo Pontífice? Falemos claro: ou todos os artigos da nossa fé ou nenhum; porque negar um só é negá-los todos. Para que a fé seja verdadeiramente completa, deve ser operativa, isto é, deve estar unida às boas obras. Aqui Jesus Cristo fala claramente no Evangelho: nem todos, diz ele, nem todos os que dizem: Senhor, Senhor, entrarão no reino dos céus, mas todos aqueles que fizerem a vontade do meu Pai Celestial. (Mateus c.7). De que servirá, diz São Tiago, de que servirá, meus irmãos, se algum de vós disser ter fé sem obras? Assim como um corpo sem alma está morto, assim também a fé sem obras é uma fé morta. Ó cristão, queres saber se a tua fé está viva ou morta? Lê com atenção e o saberás. Tem fé morta quem acredita que basta um único pecado mortal para nos levar ao inferno e, entretanto, o comete com indiferença. Tem fé morta quem acredita que devemos amar a Deus acima de todas as coisas e, entretanto, ama as criaturas, ama os prazeres do mundo e se ocupa exclusivamente em engrandecer e enriquecer a família; fides sine operibus mortua est. Tem uma fé morta aquele que sabe que os avarentos não possuirão o reino dos céus; e, entretanto, vê o pobre devorado pela fome, oprimido pelo frio e não se comove nem lhe presta qualquer socorro; fides sine operibus mortua est.
Oremos a Nossa Senhora para que nos mantenha firmes na fé e nos obtenha de seu Divino Filho a graça e a força para sermos constantes nas práticas de nossa santa religião até o último suspiro da vida.
Exemplo
Não há fé mais viva e ativa do que a dos mártires. A história da Igreja conta mais de dezesseis milhões desses heróis gloriosos que podem nos servir de exemplo. Nós escolhemos preferencialmente um fato recente, o martírio do missionário Marchand de Besançon. Em 1835, ele pregava o Evangelho na China, um país muito distante de nós, quando, por ser cristão, foi preso. Após cinco anos de prisão, foi retirado e colocado numa jaula de ferro. Levado perante o rei, este perguntou-lhe: “És tu também partidário dos rebeldes?”. “Não”, respondeu ele, “não participei em nenhuma rebelião”. No entanto, o rei, seguindo as acusações feitas pelos mandarins, submeteu-o à dolorosa tortura das tenazes. Imediatamente, os carrascos aqueceram tenazes de ferro e, com elas, arrancaram-lhe a carne das coxas, pedaço por pedaço. O corajoso missionário ofereceu o seu corpo ao Deus que lho tinha dado, recomendou-lhe a sua alma e, com os olhos voltados para o céu, sentiu o seu coração inundar-se de alegria, por se ter tornado digno de sofrer por Jesus Cristo. O rei, indignado com a heroica paciência do confessor da fé, o condena à morte cruel. Os mandarins, ou seja, os carrascos, afastam Marchand do palácio do rei; depois, tirando-o da jaula, o despem quase nu e começam a torturá-lo. Com cinco tenazes em brasa, apertam-lhe de repente a carne das coxas e das pernas. Sobe uma fumaça e um fedor; os espectadores tremem; e o santo mártir, firme na fé em Jesus Cristo, levanta os olhos para o céu e diz apenas: ah, meu Pai, meu Deus… Enquanto se renovam esses tormentos atrozes, um mandarim lhe faz a seguinte pergunta: por que na religião cristã arrancam os olhos dos moribundos? Ele aludia à administração do óleo santo. O missionário reúne suas forças e responde: isso não é verdade: nada disso foi feito pelos cristãos. As palavras são interrompidas por novos tormentos, então o mandarim o interroga novamente assim: por que os noivos se apresentam diante do padre perto do altar? Os noivos, respondeu o missionário, vêm para dar a conhecer ao padre a sua união e implorar as bênçãos celestiais. Os tormentos das tenazes se renovam, então o mandarim retoma: que pão encantado é dado àqueles que se confessam, para que se tornem tão afeiçoados à religião? Respondeu o missionário semivivo: não é pão o que lhes é dado; é o corpo de nosso Senhor Jesus Cristo que se tornou alimento da alma. Então, quase em castigo pelas palavras proferidas, colocaram-lhe uma mordaça na boca e, acompanhado por cem soldados e uma multidão imensa, foi conduzido a um quilômetro de distância daquele lugar. Lá, o missionário é depositado aos pés de um patíbulo em forma de cruz. De repente, os carrascos pegam o paciente, levantam-no e amarram-lhe os braços quase em forma de cruz. Dois carrascos ficam ao seu lado com facas nas mãos. Ouve-se um som fúnebre de tambores, que cessando, agarram as mamas do condenado, cortam-nas com um único golpe e jogam os pedaços no chão. Enquanto se renovam tais tormentos, a vítima volta os olhos para o céu pela última vez; então, colocando sua alma nas mãos de Jesus Crucificado, quase feito em pedaços, abaixa a cabeça, dá o último suspiro e sua alma voa para Deus. Então, seu corpo é feito em pedaços.
Vai para o céu, feliz ministro de Jesus Cristo, e enquanto admiramos o teu triunfo, implora-nos do céu a graça e a força para seguir o teu exemplo; e que, se não tivermos a gloriosa sorte de dar a vida pela fé, pelo menos vivamos como cristãos fervorosos até à morte. (Anais da prop. n. 53).
Jaculatória.
Deus glorioso
Que tudo vê
Que me torne firme
Na minha fé.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Oitavo dia. Os Santos Sacramentos
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Quanto mais consideramos nossa santa religião católica, mais aprendemos sua beleza, sua grandeza, e mais se manifesta a bondade, a sabedoria e a misericórdia de Deus, que é seu fundador. Isso aparece de maneira luminosa nos Santos Sacramentos. É verdade de fé que esses Sacramentos são sete, nem mais, nem menos; todos foram instituídos por nosso Senhor Jesus Cristo enquanto estava neste mundo. Esses sacramentos são: Batismo, Crisma, Eucaristia, Penitência, Extrema-Unção [Unção dos Enfermos], Ordem e Matrimônio. Esses sacramentos são sinais sensíveis estabelecidos por Deus para dar às nossas almas as graças necessárias para nos salvarmos, o que significa que os sete sacramentos são como sete canais pelos quais as graças celestiais são comunicadas por Deus à humanidade.
- Por meio do Batismo, somos acolhidos no seio da Santa Mãe Igreja, deixamos de ser escravos do demônio, tornamo-nos filhos de Deus e, portanto, herdeiros do Paraíso.
Na Crisma, ou Confirmação, recebemos a plenitude dos dons do Espírito Santo e nos tornamos cristãos perfeitos.
Na Eucaristia, Jesus Cristo nos dá seu corpo, seu sangue, sua alma e sua divindade sob as espécies do pão e do vinho consagrados.
Este é o maior prodígio da potência divina. Com um ato de amor imenso por nós, Deus encontrou maneira de dar às nossas almas um alimento proporcional e espiritual, isto é, dando-nos a sua própria Divindade.
Na Penitência, somos perdoados dos pecados cometidos após o Batismo.
Na Extrema-Unção [Unção dos Enfermos], ou óleo santo, Deus vem em socorro dos enfermos e, por meio da sagrada unção, nos comunica as graças necessárias para apagar da nossa alma os pecados com suas penas, para nos dar força para suportar pacientemente o mal, ter uma boa morte, caso Deus tenha decretado nos chamar para a eternidade, e também para dar a saúde corporal, se for útil para a saúde da alma.
No sacramento da Ordem, ou seja, na sagrada ordenação, Deus comunica aos ministros sagrados as graças necessárias para adquirir aquele alto grau de santidade que lhes é necessário; e também para poder guiar e instruir os fiéis cristãos nas verdades da fé, na fuga do vício e na prática da virtude.
Finalmente, o Matrimônio é aquele sacramento que dá aos cônjuges a graça de viverem entre si em paz e caridade e de criarem cristãmente os seus filhos, se Deus, na sua infinita sabedoria, julgar concedê-los.
- Eis, ó cristão, brevemente expostos os grandes meios que Jesus Cristo instituiu para a nossa salvação. Ele nos proporcionou grandes benefícios com a sua encarnação, mas todos esses benefícios são comunicados por meio dos seus Santos Sacramentos. Se, entretanto, não te preocupas em aproveitar esses meios de salvação de acordo com a tua condição, não podes participar do grande mistério da Redenção e, portanto, não poderás salvar a tua alma. Por alguns instantes, detém-te a fim de refletir sobre como respondeste a estes grandes sinais do amor divino; se perceberes que a tua consciência te acusa por algum pecado, procura remediar isso o mais rápido possível, especialmente preparando-te para fazer uma boa confissão e uma boa comunhão.
Exemplo
Nas vidas dos Santos Padres, lemos um fato que demonstra quanto a piedade é benéfica para nossos interesses espirituais e temporais. Viveram na cidade de Alexandria, no Egito, dois sapateiros; um tinha uma família numerosa, mas enquanto se ocupava em sustentá-la, era muito zeloso das coisas da alma, seguindo o conselho de Cristo, que disse: buscai primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e as outras coisas Deus vos dará por acréscimo. Ele frequentava muito a Igreja, ou seja, participava de bom grado para ouvir a palavra de Deus, era assíduo à confissão e à comunhão e aos outros exercícios da piedade cristã; parecia mesmo que Deus multiplicava os seus bens temporais. O outro fazia o contrário, ou seja, era preocupado com os ganhos temporais, não se importando em ir à Igreja e pensar na alma. Por isso, seus negócios iam mal e, embora fosse solteiro, sem família e trabalhasse mais que o companheiro, mal conseguia ganhar o pão de cada dia. Vendo o vizinho que, com menos esforço, sustentava a si mesmo e à família, começou a se admirar e a invejá-lo. Um dia, não conseguiu se conter e disse-lhe: “Como vão os negócios? Eu me esforço mais do que você no trabalho e não ganho o suficiente para me alimentar; e você, trabalhando menos, consegue sustentar a si mesmo e à sua família? A essa pergunta, querendo enganar santamente o companheiro e levá-lo a frequentar a Igreja, ele respondeu assim: “Sabe, irmão, que vou a um certo lugar onde encontro dinheiro, pelo qual estou enriquecido; se quiseres vir comigo, todos os dias te chamarei, e o que encontrarmos será metade meu e metade teu”. De boa vontade, respondeu o outro; e começou a acompanhá-lo, e todos os dias o levava consigo à igreja. Como agradou a Deus, em pouco tempo tornou-se rico e abastado. Então o companheiro lhe disse: agora vê, meu irmão, quanto te serviu frequentar a Igreja! Fica sabendo que aqui se encontra a graça de Deus, que é o melhor tesouro do mundo; e como tu mesmo experimentaste, a quem se preocupa com Deus, Deus se preocupa com ele. Faze, portanto, como começaste, frequenta a Chiesa, e Deus não faltará contigo.
Cristãos, muitos querem fazer fortuna com o pecado, enquanto vivem inimigos de Deus, não frequentam as igrejas, não rezam, não se aproximam dos sacramentos, não santificam as festas e, entretanto, gostariam que Deus os fizesse prosperar e os tornasse felizes. Tolos! Não sabem que o pecado é o que torna os povos miseráveis e infelizes? Miseros facit populos peccatum [O pecado torna miseráveis os povos] (Prov. c. 14).
Jaculatória
Jesus Senhor,
Que nos redimiste
Que ao céu me conduzam
Os sacramentos.
E tu, grande Virgem,
Mãe do amor,
Acende em meu coração
O ardor da fé.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Nono dia. Dignidade do cristão
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Por dignidade do cristão, não me refiro aos bens corporais, nem mesmo às qualidades preciosas da alma criada à imagem e semelhança do próprio Criador. Refiro-me apenas à tua dignidade, ó homem, na medida em que foste feito cristão pelo santo Batismo e recebido no seio da Santa Mãe Igreja. Antes de seres regenerado nas águas do Batismo, eras escravo do demônio e inimigo de Deus e excluído para sempre do Paraíso. Mas, no mesmo ato em que este augusto Sacramento te abriu a porta da verdadeira Igreja, romperam-se as cadeias com que o inimigo da tua alma te mantinha preso; fechou-se para ti o inferno e abriu-se o Paraíso. Ao mesmo tempo, tu te tornaste objeto de amor especial por parte de Deus; em ti foram infundidas as virtudes da fé, da esperança e da caridade. Assim, tornado cristão, pudeste levantar os olhos para o céu e dizer: Deus, criador do céu e da terra, é também meu Deus. Ele é meu pai, me ama e me manda chamá-lo por este nome.
Pai nosso, que estais nos céus; Jesus Salvador me chama de irmão, e como irmão eu pertenço a Ele, aos seus méritos, à sua paixão, à sua morte, à sua glória, à sua dignidade.
Os sacramentos instituídos por este amoroso Salvador foram instituídos para mim. O Paraíso que meu Jesus abriu com a sua morte, abriu-o para mim e o mantém preparado para mim. Para que eu tivesse alguém que pensasse por mim, Deus quis dar-me Deus por pai, a Igreja por mãe e a Palavra Divina por guia.
Conhece, pois, ó cristão, a tua grande dignidade. Agnosce, christiane, dignitatem tuam. Mas enquanto te convido a alegrar-te em teu coração pela grande benevolência que te foi concedida ao te tornares cristão, peço-te que penses nos muitos homens que também foram redimidos pelo precioso sangue de Jesus Cristo, mas que vivem mergulhados na idolatria ou na heresia e, portanto, fora do caminho da salvação. Muitos deles bendiriam a cada momento o Criador se pudessem ter as graças, os favores e as bênçãos que tu tens. Mas, dize-me: como respondeste à grande bondade que Deus usou para contigo?
- Meu irmão, se dermos uma olhada em nossa vida passada, veremos que não apenas desonramos a dignidade de cristão, mas que nos comportamos com este Pai Celestial de tal maneira que nem mesmo os infiéis teriam feito pior. Todas as vezes que transgredimos algum mandamento de Deus ou de sua Igreja, desonramos a dignidade de cristão.
Infeliz de mim! Se considero as transgressões cometidas contra a santa lei de Deus, se considero a facilidade e os muitos meios com que poderia servi-lo, devo cobrir o rosto de vergonha e repetir a repreensão feita por Deus pela boca de um de seus profetas: o homem, diz ele, tendo sido elevado à mais alta honra, não a reconheceu: e degradou-se ao agir como um animal insensato e teve uma conduta semelhante à dos animais imundos: homo cum in honore esset, non intellexit: jumentis insipientibus comparatus est et similis factus illis. Vem agora, ó cristão, e decide firmemente corresponder melhor à tua dignidade no futuro. Prostremo-nos diante de Deus e digamos com o coração: Meu Deus, Pai das misericórdias, arrependo-me de todo o coração por ter-te ofendido; proponho emendar-me no futuro e fazer tudo o que puder para corresponder à dignidade de cristão, à qual me elevaste.
Mas, como o mais belo ornamento do cristianismo é a Mãe do Salvador, Maria Santíssima, assim me dirijo a vós, ó Virgem Maria clementíssima; estou certo de adquirir a graça de Deus, o direito ao Paraíso, de recuperar, enfim, a minha dignidade perdida, se rezardes por mim. Auxilium christianorum, ora pro nobis [Auxiliadora dos cristãos, rogai por nós].
Exemplo
Muitos exemplos demonstram que Maria Santíssima sempre foi o auxílio dos cristãos. Os títulos gloriosos que todos os dias lhe são dirigidos nas Ladainhas da Virgem Maria são prova disso; vejamos alguns. A palavra “ladainhas” significa súplicas, porque as ladainhas não são senão uma série de súplicas com as quais pedimos à Santíssima Trindade que tenha misericórdia de nós, e pedimos à Virgem Maria que interceda por nós junto a Deus. Também se chamam ladainhas lauretanas, porque na Igreja de Loreto são cantadas com maior solenidade. Estas ladainhas são muito antigas na Igreja. São Sérgio, Papa, para agradecer à Virgem por um favor especial que recebeu dela, decretou que fossem recitadas nas principais festas da Nossa Senhora. Outros Pontífices enriqueceram-nas com muitas indulgências. Pio VII estendeu essa indulgência a 300 dias cada vez que forem recitadas, aplicável às almas do Purgatório. Nas ladainhas, lemos a invocação: Maria, auxílio dos cristãos; Auxilium christianorum. São Pio V, após uma vitória dos cristãos contra os turcos por intercessão de Maria, foi o primeiro a acrescentar essa invocação às ladainhas, no ano de 1771. O glorioso Pio VII, reconhecendo na proteção de Maria o seu restabelecimento na Sé pontifícia e a paz devolvida à Igreja após uma série de acontecimentos tristes, em sinal de gratidão para com a grande Rainha do Céu, instituiu no ano de 1815, em sua honra, a festa chamada Maria Auxiliadora dos Cristãos. Esta festa é celebrada no dia 24 de maio. Invocamos a ajuda de Maria especialmente com a recitação frequente das suas ladainhas.
Jaculatória.
No meio dos perigos
Do mar da vida,
Maria, ajudai-me,
Guiai-me ao céu.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Décimo dia. Preciosidade do tempo
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Os bens concedidos por Deus aos cristãos são grandes; mas Deus fixou um tempo ao homem para que ele possa deles se servir. O número de anos, meses, semanas, dias, horas e minutos que passam desde o nascimento até a morte é o tempo que Deus colocou a nosso dispor para que usemos de seus benefícios e salvemos nossa alma.
Este tempo é um tesouro precioso. Um filósofo pagão, chamado Sêneca, costumava dizer que não há nada mais precioso do que o tempo: nullum temporis pretium. Esse filósofo dizia isso porque o homem, empregando bem o tempo, pode adquirir ciência, honras, riquezas. Mas nós, cristãos, estimamos o tempo por motivos muito importantes. Dizemos que o tempo é precioso porque, em um momento bem aproveitado, diz São Bernardino de Sena, o homem pode ganhar a felicidade eterna. Por isso, um momento vale tanto quanto Deus: tantum valet tempus, quantum Deus. Tempore enim bene consumpto comparatur Deus [o tempo vale tanto quanto Deus, pois com o tempo bem empregado se iguala a Deus].
Mas estejamos bem atentos que somente nesta vida podemos aproveitar o tempo. No inferno existe apenas a eternidade. Os condenados choram amargamente pelo tempo perdido, dizendo: oh si daretur hora! [oh, se nos fosse concedida uma hora!] Ou se nos fosse dado um único momento para consertar as coisas da alma; mas esse momento eles não terão mais. No céu, porém, não se chora, mas se os bem-aventurados pudessem chorar, chorariam apenas pelo tempo perdido nesta vida, em que poderiam ter adquirido mais méritos para o Paraíso. Os santos conheceram esta grande verdade e, por isso, usavam a maior diligência para empregá-lo bem. Santo Afonso de Ligório, por ser de certa forma obrigado a ocupar santamente o tempo, fez voto de nunca perder um momento da vida, e agora goza da recompensa do tempo bem empregado com uma eternidade de glória.
- Mas o quê? exclama São Bernardo, não há coisa mais preciosa do que o tempo, e não há coisa mais desprezada. Nihil pretiosius tempore, sed nihil vilius æstimatur. Você verá aquele jogador perdendo tempo em jogos e passando os dias e as noites; se você lhe perguntar: o que você está fazendo? Ele responderá: estamos passando o tempo. Louco, não vês que, perdendo o tempo em jogos, o demônio joga com a tua salvação eterna? Verás aquele outro vagando, passando horas inteiras nas ruas, olhando quem passa, falando de coisas inúteis e, às vezes, obscenas. Se lhe perguntares: o que fazes? Ele responderá: passo o tempo. Pobres cegos! Perdem tantos dias, e dias que nunca mais voltam. Ó tempo desprezado, tu serás a coisa mais desejada pelos mundanos à beira da morte. Eles desejarão ter tempo para arrumar as coisas da alma, mas Deus responderá: tempus non erit amplius [não haverá mais tempo]. Por isso, Deus nos exorta a lembrar-nos dele e a procurar a sua graça antes que falte a luz dos nossos dias. Memento creatoris tui, antequam tenebrescat sol et lumen [Lembra-te do teu Criador, antes que se obscureçam o sol e a luz] (Ecl 12,1.2). Que pena é para o peregrino que se apercebe de ter errado o caminho quando já é noite e não há mais tempo para remediar! Esta será a pena daqueles que se encontram à beira da morte e não terão passado o seu tempo a servir a Deus. Irmão, sigamos o conselho que nos dá o Salvador e comecemos a caminhar pelo caminho do Céu enquanto temos a luz, porque esta luz se perde na morte. Ambulate, dum lucem habetis [Caminhai, enquanto tendes a luz – Jo 12,35].
- Se a algum de nós fosse dada a notícia de que em breve teria de tratar da causa da sua vida e dos seus bens, certamente se apressaria em arranjar um bom advogado, para defender as suas razões, empregando todos os meios para obter uma sentença favorável! E nós, o que fazemos? Sabemos com certeza que em breve, e pode ser a qualquer momento, teremos que tratar do negócio da nossa salvação eterna, e nós perdemos tempo. Alguns dirão: mas eu sou jovem, depois me entregarei a Deus. Eu respondo: Fica sabendo que o inferno está cheio daqueles que desejavam entregar-se ao Senhor mais tarde. Jesus Cristo amaldiçoou a figueira que encontrou sem frutos, embora não fosse época de frutos. Non enim erat tempus ficorum (Mc 11,13). Com isso, Jesus Cristo quis nos dizer que o homem, em todos os momentos, mesmo na juventude, deve dar frutos de boas obras; caso contrário será amaldiçoado e não dará mais frutos no futuro. Iam non amplius in æternum ex te fructum quisquam manducet [Nunca mais ninguém coma do teu fruto]. Assim disse o Redentor àquela árvore, e assim amaldiçoa aqueles que, chamados por Ele, não correspondem.
Outro dirá: mas eu, que mal faço? Meu Deus! Não é mal perder o tempo em jogos, em conversas inúteis que nada aproveitam à alma? Será que Deus nos dá este tempo para que o percamos desta maneira? Que mal faziam aqueles trabalhadores que estavam na praça ociosos porque ninguém lhes dava trabalho? No entanto, foram repreendidos pelo dono da vinha com estas palavras: por que estais aí o dia inteiro desocupados? (Mt 20,6). Talvez o Salvador não disse que, no fim da vida, nos pedirá conta de cada palavra ociosa: de omni verbo otioso. Nos pedirá conta de cada momento da nossa vida usque ad ultimum quadrantem?[até o último centavo]. Ouçam, portanto, o que Deus nos diz: se no passado ocupamos mal o tempo: redimamus tempus et horas: procuremos reparar o tempo e as horas perdidas. E repararemos o tempo e as horas perdidas se fizermos no futuro o que negligenciamos no passado: tempus redimes, diz Santo Anselmo, si quæ facere neglexisti facis [recuperas o tempo se fizeres o que negligenciaste no passado].
Fazei, ó meu Deus, que eu me arrependa do tempo perdido e empregue o tempo que me dareis de vida em fazer boas obras e chorar os meus pecados.
Exemplos
Os santos compreendiam o valor do tempo e, por isso, trabalhavam dia e noite para ocupá-lo para a maior glória de Deus. São Bernardo dizia: todo o tempo que passas sem pensar no Senhor, pensa que o perdeste. São Lourenço Justino dizia que um mundano daria, na hora da morte, riquezas, honras e todos os prazeres por um momento de vida. São Francisco de Bórgia, ouvindo outros gastar o tempo falando de coisas do mundo, voltava-se para Deus com santos afetos. Mas, quando lhe pediam sua opinião sobre o que havia sido dito, ele não sabia o que responder. Tendo sido repreendido por isso, respondeu: prefiro ser considerado curto de inteligência a perder o tempo; malo rudis vocari, quam temporis facturam pati. Uma religiosa, falecida em conceito de santidade, apareceu a uma companheira e disse-lhe: eu ficaria feliz em sofrer a dolorosa enfermidade que padecia na morte até o dia do juízo final para adquirir a glória que corresponde ao mérito de uma única Ave Maria.
Jaculatória.
Maria, dai-me
Uma alma pura
Mostrai-me do céu
O caminho seguro.
Fazei que toda obra
Da minha vida
Volte para o meu Deus
Sempre agradável.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Décimo primeiro dia. Presença de Deus
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Deus está no céu, na terra, em todos os lugares. Deus sabe tudo, vê tudo, está presente em tudo. À tua direita está Deus, à tua esquerda está Deus, acima de ti está Deus, dentro de ti está Deus. Em Deus vivemos, diz o Apóstolo, em Deus nos movemos e em Deus temos a nossa existência. Vai aonde quiseres, e estarás sempre na presença de Deus. Dizia o profeta Davi: se eu subir ao céu, aí estais vós, ó meu Deus; se eu descer ao inferno, aí te encontrarei; se eu puser asas como as aves e voar para além dos mares mais remotos, também aí a tua mão me sustentará e me firmará. Depois disso, o profeta Davi, inspirado por Deus, diz assim: talvez as trevas me escondam da tua face? Talvez a escuridão da noite me esconda da tua presença, para que eu possa entregar-me aos prazeres? Mas não: porque as trevas diante de ti não têm escuridão, e a noite brilha como o meio-dia. Tenebræ non obscurabuntur a te; et nox sicut dies illuminabitur.
- Deus nos vê; vê todas as nossas ações passadas, vê o que fazemos no presente, vê o que fazemos em atos, palavras e pensamentos, mesmo nos lugares mais obscuros e secretos. Nada pode ser escondido dele. Humilia respicit in cælo et in terra [Ele olha para os humildes no céu e na terra]. Tenhamos coragem de fazer o bem, pois a menor ação de nossa vida é manifesta diante dos olhos de Deus. Os homens muitas vezes esquecem o que fazemos por eles; Deus não faz assim. Ele vê um copo de água fresca dado em sua honra e glória, e prepara a recompensa. Coragem, pois Deus vê e prepara a recompensa pelo que fazemos por Ele.
- Mas, se Deus vigia nossas boas ações para recompensá-las, Ele vigia igualmente nossas más ações para puni-las. Portanto, sempre que formos tentados pelo perigo de cometer ações indignas, de dizer palavras más, de nutrir pensamentos perversos, digamos imediatamente com o patriarca José: como posso fazer este mal na presença do meu Deus? Cuidado com aqueles que dizem: Deus não vê, Deus não ouve, Deus não conhece tal ação. Non est Deus in conspectu eius [para o ímpio Deus não existe] (Sl 9,25). Aqueles que falam assim te enganam. Deus vê tudo e prepara uma recompensa e um castigo para as nossas ações; vê tudo, e cada pequena ação da nossa vida será levada ao seu tribunal divino. Para um pouco e considera… não podes dizer uma palavra, não podes dar um passo, não podes mover uma mão, nem um olho, sem que Deus te veja e, mais ainda, sem que Deus te dê força para agir. Vê, portanto, ó cristão, o que fazes quando pecas! Ofendes um Deus que te vê, um Deus que te conserva a vida, um Deus que pode fazer-te perder a vida num instante; um Deus que te julgará e que pode fazer-te cair num instante, de alma e corpo, no inferno. Ó grande bondade do meu Deus! Vós estais sempre ao meu lado para me favorecer, e eu, ingrato, vivi completamente esquecido de vós. Fazei com que, pelo menos no futuro, eu não pense em mais nada além de vós, de vos servir, de vos amar, meu Bem Supremo, na vida presente, para um dia chegar a desfrutar eternamente de vós no Paraíso.
Exemplo
Quando Deus chamou o patriarca Abraão do meio da idolatria e o enviou para Canaã, deu-lhe como única lembrança a presença de Deus: anda na minha presença e sê perfeito; ambula coram me, et esto perfectus; querendo significar que basta o pensamento da presença de Deus para nos libertar do pecado em qualquer lugar e em qualquer perigo em que nos encontremos.
Entre os ensinamentos que o grande Tobias dava ao seu filho, um era este: meu filho, em todos os dias da tua vida, tem sempre presente o teu Deus. Omnibus diebus vitae tuae in mente habeto Deum. Santa Taís caminhava pela via da iniquidade. Ela encontrou São Pafúncio, que lhe disse: Deus te vê, ousarias pecar na sua presença? Este pensamento bastou para impedi-la do mal; ela entregou-se a Deus e, sempre acompanhada pelo pensamento da presença de Deus, tornou-se uma grande santa. Santa Teresa dizia que todo mal nos vem de não refletirmos que Deus está presente.
Jaculatória.
Pensando em Deus presente
Fazei com que os lábios, o coração e a mente
Sigam o caminho da virtude,
Ó grande Virgem Maria.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Décimo segundo dia. Fim do homem
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Todas as coisas que existem no céu e na terra foram feitas para servir ao homem. Omnia subiecisti sub pedibus eius [Tudo pusestes sob os seus pés – Sl 8,7]. Mas tu, ó homem, para que fim Deus te criou? Tu me respondes: fui criado por Deus para que eu o conheça, o ame, o sirva nesta vida e, por este meio, um dia vá gozar com Ele no Paraíso. Resposta belíssima! Portanto, nasceste para conhecer Deus; por isso, deves empregar todas as faculdades da tua alma, todas as diligências do teu corpo para conhecer este Criador benéfico. Toda a ciência dos homens é nada se não houver a ciência de Deus. Vani sunt omnes homines quibus non subest scientia Dei [Vãos são todos os homens que não possuem o conhecimento de Deus]. Se possuis a ciência de todos os filósofos antigos e modernos; se conheces todos os segredos da natureza; se tivesses também a ciência dos querubins, dos serafins e de todos os anjos do céu, mas com todo esse conhecimento te faltasse a ciência de Deus, nada valeria, diz São Paulo: nihil prodest. Mas, ai de mim, quanto tempo perdi aprendendo coisas inúteis, ouvindo, lendo, estudando coisas perigosas, às vezes pecaminosas, contrárias à lei do próprio Deus! Se no passado foste negligente na ciência das coisas de Deus, se não queres trair o teu fim, sê mais diligente no futuro, procura fazer boas leituras, frequentar boas companhias, ser mais assíduo às pregações, às explicações do Evangelho, aos catecismos. Se alguém te convidar a participar de coisas inúteis ou prejudiciais ao bem da alma, responde imediatamente: Deus me criou para conhecê-lo, e devo fazer todo o esforço para obter esse conhecimento dele. Tudo é tolice no mundo sem o conhecimento das coisas de Deus: Sapientia huius mundi, stultitia est apud Deum [A sabedoria deste mundo é loucura diante de Deus].
- Tu foste criado para conhecer a Deus, foste criado para amar a Deus. Ama também qualquer objeto da terra, mas sempre encontrarás um vazio no teu coração, se não amares a Deus. Só Ele pode nos satisfazer na vida presente e na futura. Embora o preceito do amor a Deus seja natural ao homem, Deus quis que fosse registrado no Evangelho: amarás o Senhor teu Deus: diliges Dominum Deum tuum. Se tivesses dois corações, ou pudesses dividir em duas partes o que tens: poderias empregar uma parte para amar a Deus, outra parte para amar o mundo. Mas não, diz Deus, amarás o Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com toda a tua mente. Diliges Dominum Deum tuum ex toto corde tuo, ex tota anima tua, ex tota mente tua.
Ó cristão! O que amaste no passado? Não serás obrigado a dizer, como o filho pródigo, que desperdiçou seus bens espirituais e temporais vivendo luxuosamente? Não empregaste teu coração e tua alma no amor às criaturas, às riquezas, às honras e a certos prazeres ilícitos? Se por nossa desgraça fomos desses infelizes, não sejamos mais no futuro. Amemos este Deus, amemo-lo porque Ele foi o primeiro a nos amar. Ele nos criou, nos conservou, nos fez tantos benefícios, amemo-lo porque nos conserva a vida e nos dá tudo o que precisamos. Amemo-lo pelos grandes bens que, com a sua paixão e com a sua morte, nos preparou na vida presente e muito mais na futura. Amemo-lo porque só Ele, no céu e na terra, é digno de ser amado acima de todas as coisas e servido fielmente.
- Deus nos criou para servi-lo. Grande verdade; amarás o teu Deus e servirás somente a Ele: diliges Dominum Deum tuum, et illi soli servies. Esta palavra “servir” significa fazer aquilo que lhe agrada e fugir de tudo aquilo que lhe desagrada. Por isso, o serviço a Deus consiste na observância exata dos mandamentos de Deus e da Igreja. Este culto, este serviço supremo e absoluto, Deus quer que seja prestado somente a Ele: illi soli servies. Por isso, muitos cristãos se enganam ao aplicar estas verdades. Se lhes perguntamos: para que fim se dirigem as vossas grandes preocupações? A maioria responde: eu trabalho para ter um bom emprego. Outros dizem: procuramos comprar um campo, uma vinha, um prado, uma casa de campo. Outros dizem: estudo para lucrar com esse dinheiro, para vencer aquela disputa, para ganhar bem, para conseguir aquela honra, aqueles prazeres. Oh, tolos que sois! Vós vos enganais. Se fôsseis criados para essas coisas, eu vos diria: amai-as, procurai-as; fazei-as objeto de vossas preocupações. Mas nós, ó cristãos, fomos criados para servir a Deus e a ninguém mais. Se seguimos outro caminho no passado, erramos. Portanto, abramos os olhos enquanto há tempo, peçamos ao Senhor que tenha misericórdia do triste serviço que lhe prestamos na vida passada e prometamos servi-lo melhor no futuro. Façamos como um viajante que, percebendo que se enganou de caminho, volta atrás e se coloca na estrada certa que seguramente o levará ao lugar aonde pretendia ir. Mas lembremo-nos de que servir a Deus nesta vida é o único meio de ir desfrutá-lo um dia na pátria celeste. A Virgem Santa, que dedicou cada momento de sua vida ao serviço do Senhor, nos conceda poder consagrar a Deus pelo menos o tempo que, em sua infinita bondade, Ele se dignará nos deixar viver. Que ela nos obtenha de Jesus, seu Divino Filho, a graça de poder conhecer, amar e servir a Deus nesta vida e, um dia, ir desfrutar eternamente no céu.
Exemplos
Um ministro de Francisco I, rei da França, dedicou-se a servir fielmente o seu rei durante toda a sua vida. Mas, como fazem muitos homens do mundo, ele pensava pouco na coisa mais importante: a sua alma. Chegando ao ponto da morte, expressava seus remorsos com estas palavras: “Infeliz de mim! Consumi tanto papel escrevendo cartas para o meu soberano e não gastei uma folha sequer para escrever meus pecados e fazer uma boa confissão”. Não esperemos o ponto da morte para ajustar as coisas da consciência.
São Dositeu pertencia a uma família rica e nobre; seus pais se preocuparam muito em dar-lhe uma educação mundana, criando-o no luxo e nas comodidades; mas pouco se importaram com as verdades da religião cristã. A divina providência dispôs que o jovem nobre fosse fazer uma viagem à Palestina por diversão; e entre outros lugares, ele foi visitar o horto de Getsêmani, onde o divino Salvador havia suado sangue. Lá, ele viu um quadro representando ao vivo as penas do inferno. Ao ver isso, Dositeu ficou horrorizado e, refletindo que o modo de vida que levara até então o levaria sem dúvida à perdição eterna, resolveu abandonar parentes, amigos, riquezas, honras e prazeres mundanos para se entregar totalmente a Deus e garantir a salvação da alma. Com esse objetivo, dirigiu-se a um mosteiro, insistindo muito para ser recebido. Ao ver um jovem delicado e vestidos com roupas nobres, o abade hesitou em recebê-lo, temendo que fosse um fervor passageiro. Ele fez muitas dificuldades em torno da austeridade da vida que ele teria que levar; mas o jovem, que queria a qualquer custo salvar sua alma, não respondia outra coisa senão: eu quero salvar minha alma. Diante dessa resposta franca e repetida, o abade o recebeu no mosteiro. Lá, esquecido do mundo, Dositeu passou sua vida em penitência e virtude, e morreu santo.
Jaculatória.
Para que fui criado
Fazei-me saber, meu Senhor,
Fazei-me evitar o caminho
Que conduz ao horror eterno.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Décimo terceiro dia. A salvação da alma
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Suspende por um momento, cristão, tuas ocupações, e vem comigo ouvir o que Jesus Cristo nos diz. Ele nos fala assim: por que vos ocupais com tantas coisas no mundo? Uma única coisa é necessária, e essa é salvar a alma. Unum est necessarium. Se vós salvardes esta alma, tudo estará salvo para vós; mas se a perderdes, tudo estará perdido. Podeis adquirir riquezas, empregos, honras, glória; podeis parecer muito sábios diante do mundo; ser considerados os mais valentes, os mais dotados entre vossos vizinhos, em vossa terra, em todo o mundo; mas a vossa alma é o tesouro mais precioso do mundo: anima humana est toto mundo pretiosior [a alma humana é mais preciosa do que todo o mundo] (São João Crisóstomo). Nada se pode comparar ao valor da alma. O que poderás dar, diz Jesus Cristo, que possa compensar a tua alma? Quam dabit homo commutationem pro anima sua? [Que poderá alguém dar em troca da própria vida? (Mt 16,25b). De que te adianta, ó homem, ganhar o mundo inteiro, se isso prejudica a tua alma? Quid prodest homini, si mundum universum lucretur, animæ vero suæ detrimentum patiatur? [Que adianta a alguém ganhar o mundo inteiro, se perde a própria vida? (Mt 16,25a).
- Ó cristão! Acreditas nesta grande verdade? Se acreditas, por que não pensas nisso? Se pensas, por que não abandonas o pecado? Por que não colocas imediatamente tua alma na graça de Deus com uma boa confissão? Se tivéssemos duas almas, alguém poderia dizer: quero desfrutar dos prazeres da terra e assim perder uma; e depois salvarei a que me resta. Mas nós temos uma única alma. Por isso Jesus Cristo nos diz que a salvação da alma é a coisa mais necessária neste mundo. Unum est necessarium. Ó Senhor, dizia o profeta Davi, eu te peço uma única coisa: salvar a minha alma: unam petii, hanc requiram, ut inhabitem in domo Domini [Uma só coisa pedi ao Senhor, só isto desejo: morar na casa do Senhor (Sl 27(26),4). Por isso, o apóstolo São Paulo advertia os cristãos da cidade de Filipos que, com temor e tremor, se empenhassem em salvar a alma: cum metu et tremore salutem vestram operamini [realizai a vossa salvação com temor e tremor (Fl 2,12). São Francisco Xavier dizia que no mundo há um único bem e um único mal: o único bem é salvar-se, o único mal é perder-se. Santa Teresa repetia frequentemente às suas companheiras: irmãs, uma alma, uma eternidade. Querendo dizer: uma alma, se for perdida esta, tudo está perdido, e por uma eternidade.
- A salvação da alma é um assunto importante, é único; mas é irreparável, ou seja, se se erra uma vez, está errado para sempre. Se se perde uma disputa, pode-se recorrer a outro tribunal ou tentar ganhar outra; se se perde a saúde, espera-se recuperá-la com os cuidados dos médicos; se se faz um contrato ruim, tenta-se fazer outro; se um granizo nos tira a colheita deste ano, espera-se uma melhor no próximo ano; mas se, por infelicidade, se erra a salvação da alma, tudo está perdido para sempre: periisse semel æternum est [perdida a alma uma vez, está perdida para sempre]. Pensa, ó cristão, se a morte te atingisse neste momento, o que seria da tua alma? Se tens a consciência tranquila, agradece a Deus e faze todo esforço para te manteres nesse estado. Mas se tens escândalos a reparar, coisas a devolver, hábitos antigos a erradicar, confissões duvidosas ou sacrílegas, ah! Por caridade, não adies! Porque se a morte te surpreender nesse estado, perderás o que é mais importante, perderás o que é único, perderás o que é irreparável, porque uma vez perdida, a alma está perdida para sempre.
Exemplos
São Francisco Xavier estava em Paris, absorto em pensamentos mundanos, quando ouviu Santo Inácio dizer-lhe: de que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se perder a alma? São Francisco ouvia em profundo silêncio, e Santo Inácio acrescentou: pensa, Francisco, que o mundo é um traidor. Ele promete e não cumpre. Mas mesmo que cumprisse a promessa, nunca poderia satisfazer o teu coração. Mas, mesmo que te satisfizesse, quanto duraria essa tua felicidade? Poderia durar mais do que a tua vida? E, no fim, o que levarás para a eternidade? Existe talvez um rico que tenha levado consigo uma moeda ou um servo para seu conforto na outra vida? Ao ouvir estas palavras, São Francisco abandonou o mundo e, profundamente penetrado pelo pensamento de salvar a alma, dedicou-se a seguir Jesus Cristo e tornou-se um grande santo.
Bento XII foi solicitado por um príncipe por uma graça que não podia conceder-lhe sem pecar. O Papa respondeu ao embaixador: dizei ao vosso soberano que se eu tivesse duas almas, poderia perder uma por ele e reservar a outra para mim; mas como tenho apenas uma, não posso nem quero perdê-la. Se no futuro também formos tentados a cometer algum pecado, respondamos àqueles que nos seduzem para o mal: se eu tivesse duas almas, poderia perder uma e cometer esse pecado; mas tenho uma única alma e quero salvá-la a qualquer custo.
Jaculatória.
Jesus, José e Maria, a vós dou meu coração e minha alma.
Jesus, José e Maria, assisti-me na minha última agonia.
Jesus, José e Maria, que a minha alma descanse em paz convosco[5].
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Antes de considerar o que é o pecado, volta o teu olhar para um crucifixo e depois reflete assim no teu coração: o pecado é um fato, um desejo, uma palavra contra a santa lei de Deus. Quando cometo um pecado, volto as costas para Deus criador, para aquele Deus de bondade que me cumulou de tantos benefícios, e desprezo a sua graça e a sua amizade. Quem peca diz ao Senhor: Vai-te, ó Deus, longe de mim, não quero mais te obedecer, não quero mais te servir, não quero mais te reconhecer como meu Deus, non serviam [não servirei]. O Senhor diz da cruz: não te vingues; e o homem responde: e eu quero me vingar. Deus diz: não tomes o que é dos outros; e o homem responde: e eu quero tomar. Deus diz: priva-te desse prazer desonesto; o homem responde: não quero privar-me dele. Deus diz: santifica os dias festivos; o homem responde: e eu quero profaná-los; e, assim dizendo abandona Deus, a bondade suprema, para se entregar às criaturas e satisfazer este corpo miserável.
- Mas quem é Deus, contra quem queres te revoltar? Ele é aquele que te deu a vida, que a preserva e que pode tirá-la a qualquer momento. Deus é aquele grande benfeitor que te deu tudo o que tens na vida presente. Saúde, bens temporais, memória, língua, olhos, ouvidos, pés, mãos, tudo foi dado por Ele, e usaste esses dons para ofendê-lo. Além disso, esse mesmo Deus que desprezas é o teu Salvador, que para salvar a tua alma sofreu uma morte dolorosa e derramou todo o seu sangue na cruz. E, depois de tudo isso, preparou para ti a felicidade eterna. E quem és tu, ó cristão, que te rebelas contra o teu Criador? Tu és uma criatura miserável, que nada pode, um cego que nada vê, um pobre que nada possui. Miser et pauper et cæcus et nudus [miserável, pobre, cego e nu] (Ap 3,17). E tu, criatura miserável, tens a ousadia de irritar este teu Deus, na presença do qual tremem o céu, o inferno e a terra? Vilis pulvisculus tam terribilem maiestatem audet irritare? [Uma partícula tão vil de poeira ousa irritar tão terrível majestade?] (São Bernardo).
- Enquanto consideras a majestade do teu Deus, a quem ofendes, e a tua própria vilania, peço-te que reflitas seriamente comigo. Este Deus, sendo teu senhor, pode num instante privar-te de todos os bens que te deu, pode privar-te da saúde, da vida e precipitar-te nas penas eternas do inferno. É verdade que Deus é infinitamente bom, mas sendo justo, não pode deixar de ficar muito indignado quando o ofendes. Portanto, quando pecas, tens motivos para temer que teus pecados cheguem a um número tal que ponha fim ao número que Deus estabeleceu. In plenitudine peccatorum puniet [Na plenitude dos pecados ele punirá]. Não é que falte a misericórdia de Deus, mas que te falta tempo para pedir perdão, te falta a vontade, te falta aquele traço de graça especial que não mais merece aquele que abusa da misericórdia divina para ofendê-lo. Portanto, deves temer justamente que, por outro pecado mortal, a ira divina te atinja e te condene eternamente.
Meu Deus, basta o que vos ofendi; a vida que me resta, quero empregá-la amando-vos e chorando os meus pecados. Arrependo-me de todo o coração, meu Jesus; quero amar-vos, dai-me força. Santíssima Virgem Maria, Mãe de Deus, ajudai-me. Assim seja.
Exemplos
Se, após o pecado, Deus punisse imediatamente quem o comete, certamente não seria tão desonrado como, infelizmente, vemos todos os dias. Mas, embora difira na aplicação da plenitude dos castigos, Ele nos deixou exemplos terríveis para que saibamos que também na vida presente castiga aqueles que ultrajam a sua santa lei. Lúcifer era o anjo mais belo do paraíso. Ele cometeu um pecado de soberba ao querer ser semelhante a Deus; e por esse pecado foi expulso do paraíso juntamente com uma numerosa multidão de seus companheiros, e todos foram condenados às penas eternas no inferno.
Adão e Eva cometeram um pecado de desobediência no paraíso terrestre e foram imediatamente expulsos daquele lugar de delícias, condenados com sua descendência às penas gravíssimas na alma e no corpo, às quais ainda estamos sujeitos.
Com o aumento da humanidade, os vícios se multiplicam. Deus envia um dilúvio que cobre toda a face da terra e faz perecer todos os homens e todos os animais, exceto aqueles que Ele fez entrar na arca.
Os habitantes de Sodoma, Gomorra e outras cidades vizinhas se entregam ao pecado da desonestidade. Deus envia uma chuva de fogo, incendeia as casas, incinera os habitantes e abre voragens na terra que absorvem tudo, e surge um lugar que chamamos de Asfaltite ou Mar Morto.
Os judeus pecam e, em castigo pela sua iniquidade, milhares perecem no deserto. Toda a nação judaica recai no pecado e agora é escravizada, oprimida por outros flagelos, e acaba por ser totalmente dispersa, sem rei, sem príncipe, sem sacerdócio, sem cidade onde se possa reunir e formar um corpo nacional.
Judas Iscariotes trai o divino Mestre e vai se enforcar. Ananias e Safira mentem a São Pedro e caem mortos na hora. Se Deus tantas vezes, de tantas maneiras, castigou os pecados na vida presente, quão grande, assustador e terrível será o castigo reservado na eternidade!
Jaculatória.
Do pecado que o homem encadeia
Aos prazeres enganosos aqui embaixo
Libertai a alma, ó Maria, e, serena,
Busque sempre vosso filho Jesus.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Antes de considerarmos o que é a morte, vem comigo em pensamento até a beira do leito de um moribundo e, na presença dele, leiamos o decreto que Deus faz ouvir a todos os homens pela boca do apóstolo São Paulo: statutum est omnibus hominibus semel mori. Está estabelecido que todos os homens devem morrer uma só vez. Todos os que viveram desde o princípio do mundo até agora, todos tiveram que se submeter a este decreto. Não há ciência, nem poder, nem saúde, nem robustez que possa resistir à morte. Resiste-se ao ferro, ao fogo, à água, mas quem pode resistir à morte? Resistitur ignibus, undis, ferro, regibus, morti autem quis resistit? [Resiste-se ao fogo, às ondas, aos reis; mas quem resiste à morte?] Vamos procurar quem ainda existe, entre tantos reis, monarcas, imperadores, que viveram nos tempos passados; todos mudaram de país e partiram para a eternidade. Deles não resta nada, a não ser algumas inscrições sobre seus túmulos, e se abrirmos os mesmos túmulos, nada mais vemos do que um punhado de cinzas, que em breve se dispersará com o resto do pó da terra. Dic mihi, ubi sunt amatores mundi? diz São Bernardo. Dize-me onde estão os amantes do mundo? O mesmo santo responde: nihil ex eis remansit, nisi cineres et vermes. Nada restou deles, a não ser cinzas e vermes. Pelo menos soubéssemos o lugar e a hora da nossa morte; mas não, diz o Salvador, ela virá quando menos esperarmos. Pode ser que a morte me surpreenda na minha cama, no trabalho, na estrada ou em outro lugar. Uma doença, uma febre, um acidente, algo que caia sobre mim, um golpe de um assassino, um raio, são todas coisas que podem tirar-me a vida. Isso pode acontecer daqui a um ano, daqui a um mês, a uma semana, a um dia, a uma hora, e talvez possa acontecer assim que terminarmos de ler esta reflexão. Cristão, se a morte nos atingisse neste momento, o que seria da sua alma? O que seria da minha alma? Ai de nós, se não estivermos preparados; quem hoje não está preparado para morrer bem, corre grave perigo de morrer mal.
- Talvez possamos nos iludir que a morte não virá para nós? Ninguém jamais foi tão tolo a ponto de se considerar isento da morte. O decreto da morte é para todos. A hora da nossa morte chegará, isso é certo. Chegará aquele dia, aquela noite em que também nós nos encontraremos deitados numa cama. Se Deus nos conceder tal favor, teremos um sacerdote, que segurará numa mão o Crucifixo e na outra uma vela acesa, recomendando a nossa alma ao Senhor. Os parentes e os amigos mais fiéis formarão uma coroa à nossa volta, chorando. Oh, se pudesses refletir agora sobre os pensamentos que correrão pela tua mente naquele último instante de vida! Agora, o demônio, para induzir-te ao pecado, encobre e desculpa as culpas, mas na morte revelará a gravidade delas e as colocará diante de ti. Mas o que fazer naquele momento terrível em que deves partir para a eternidade?
- Momento terrível, do qual depende a tua salvação eterna ou a tua condenação eterna. Perto do último fechar da boca, será acesa uma vela, quase para iluminar a tua alma para empreender o caminho para a eternidade. Duas vezes se mantém acesa uma vela diante de nós: quando somos batizados e no momento da morte. Na primeira vez, vemos os preceitos da lei de Deus; na segunda vez, saberemos se eles foram observados por nós. Portanto, ó cristão, à luz desta vela, verás se amaste o teu Deus ou se o desprezaste; se honraste o seu santo nome ou se o blasfemaste; verás o escândalo causado, as coisas não devolvidas, a honra do próximo não reparada, verás as confissões feitas sem dor e sem propósito…
Mas, ó Deus! Verás tudo num instante, quando aos teus olhos se abrirá o caminho da eternidade. Ponto, ou momento, do qual depende uma eternidade de glória ou de pena. Entendes, cristão, o que te digo? Quero dizer que desse momento depende ir para sempre para o Paraíso ou para sempre para o inferno; ser sempre feliz ou sempre atormentado; ser sempre filho de Deus ou sempre escravo do demônio; desfrutar sempre com os anjos e os santos no céu ou gemer e arder para sempre com os condenados no inferno. Ó meu Deus, a partir deste momento eu me converto a vós; eu vos amo, quero vos amar e servir até a morte. Virgem Santíssima, minha Mãe piedosa, ajudai-me nesse momento. Jesus, José e Maria, que minha alma expire em paz convosco.
Exemplos
São Bernardino de Sena narra que um príncipe, encontrando-se à beira da morte, disse, todo apavorado: “Eis que tenho tantas terras e tantos palácios neste mundo; mas, se morrer esta noite, não sei qual será o meu lugar na eternidade”. Santo Afonso conta que um rei da França, chegando ao fim da vida, disse aos seus amigos: com todo o meu poder, não posso conseguir que a morte atrase um momento a sua chegada. O irmão do grande servo de Deus Tomás de Kempis convidou um amigo para visitar uma casa que ele mandara construir com grande luxo. Mas o amigo disse-lhe que havia um grande defeito. Qual? perguntou ele. “A falha”, respondeu ele, “é a porta que mandaste fazer”. “Como assim?”, retrucou o outro, “uma falha na porta?”. “Sim”, concluiu o amigo, “porque por essa porta um dia terás que sair morto, abandonando assim a casa e todos os teus bens”. Com a morte, abandonamos tudo neste mundo; somente as boas obras nos acompanharão na eternidade.
Jaculatória.
Ó mãe de Deus,
Ó rosa mística,
Socorrei, piedosa,
O meu espírito.
Ó Santa Maria,
A vossa forte ajuda
Concedei na hora da morte
À minha alma.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Décimo sexto dia. Juízo particular
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Duas vezes teremos que comparecer perante o tribunal de Jesus Cristo: no julgamento universal, que acontecerá no fim do mundo, e no julgamento particular após a morte. Três coisas deves considerar no julgamento particular: o comparecimento, o interrogatório e a sentença. Os maiores santos tremiam todos ao pensar em ter que comparecer perante Deus para serem julgados. Assim que der o último suspiro, a alma terá que comparecer imediatamente perante o Divino Juiz. A primeira coisa que torna terrível este comparecimento é encontrar-se sozinha diante de Deus que está prestes a julgá-la. Que coisas poderá a alma levar consigo? O Apóstolo nos diz: ela levará tanto do bem quanto do mal que fez durante a sua vida. Referet unusquisque prout gessit sive bonum sive malum [Cada um dá conta, de acordo com o que tiver feito, seja o bem, seja o mal]. Não se pode encontrar nem desculpa, nem pretexto. Diz Santo Agostinho que teremos acima um juiz irado, de um lado os pecados que nos acusam, do outro os demônios prontos para executar a sentença, dentro da consciência que nos agita e nos atormenta, abaixo um inferno que está prestes a nos engolir. Naquele momento, a alma gostaria de fugir, mas a força poderosa de Deus a retém: manifestari oportet [deve ser manifestado]. Bem-aventurados os cristãos que comparecerão diante de Deus com um conjunto de boas obras!
- Antes de proferir a sentença, o Salvador examinará tudo o que fizemos em nossa vida. Ele abrirá os livros da nossa consciência. Iudicium sedit, et libri aperti sunt [O julgamento está definido e os livros estão abertos]. Nesses livros, nessa consciência, quantas coisas serão vistas. Ai! Quem és tu? Ele começará a perguntar, quem és tu? Responderás: cristão. Se és cristão, verei se observaste a minha lei. Então começará a lembrar-te das promessas feitas no Santo Batismo, com as quais renunciaste ao demônio, ao mundo, à carne; lembrar-te-á das graças concedidas, dos sacramentos recebidos, das pregações, das instruções, das correções dos parentes; tudo será colocado diante de ti. Mas tu, dirá o juiz, apesar de tantos dons, de tantas graças, quanto mal correspondeste à profissão de cristão. Assim que começaste a conhecer-me, logo começaste a ofender-me. Crescendo em idade, aumentaste o desprezo pela minha lei. Missas perdidas, profanações dos dias festivos, blasfêmias, confissões mal feitas, comunhões sem fruto e, às vezes, sacrílegas, eis o que fizeste em vez de me servir. Então, o Divino Juiz se voltará cheio de indignação para o escandaloso, dizendo-lhe: vês aquela alma que caminha pela estrada do pecado? Foste tu que, com as tuas palavras, insinuaste-lhe a malícia. Vês aquele outro que está lá no inferno? Foste tu que, com os teus conselhos perversos, a tiraste de mim, a entregaste ao demônio e foste a causa da sua perdição. Agora vai com a tua alma pela alma que fizeste perder: repetam animam tuam pro anima illius [tirarei a tua vida pela vida dele]. Treme, ó cristão, diante deste exame e começa desde agora a acalmar a ira do Juiz Supremo com uma pronta emenda dos teus pecados.
- Na conta rigorosa que o Divino Juiz exige do pecador, talvez ele procure algum pretexto para se desculpar e diga que não pensava em passar por um exame tão rigoroso. Mas imediatamente lhe será respondido: não ouviste aquela pregação, não leste naquele livro que eu te pediria conta usque ad ictum oculi, até um olhar, usque ad ultimum quadrantem, até o último minuto da tua vida? A alma se recomendará à misericórdia divina, e a misericórdia não é mais para ela, porque com a morte termina o tempo da misericórdia. Recomendar-se-á aos Anjos, aos Santos, a Maria Santíssima; e Ela, em nome de todos, responderá: pedes agora a minha ajuda? Não me quiseste como mãe em vida, nem eu te quero como filho após a morte, não te conheço mais. Nescio vos. O pecador, não encontrando escapatória, assustado com a aparência ameaçadora do Juiz, com o inferno que vê aberto sob seus pés, exclamará cheio de terror: horrendum est incidere in manus Dei viventis; é coisa horrível cair nas mãos de um Deus julgador. Naquele mesmo instante, o Juiz proferirá a sentença terrível, dizendo: pela tua própria boca és julgado, servo infiel, ex ore tuo te iudico, serve nequam. Afasta-te de mim, meu Pai Celestial te amaldiçoou, e eu te amaldiçoo: vai para o fogo eterno. Proferida esta palavra, a alma é abandonada nas mãos dos demônios, que a arrastam consigo para sofrer os tormentos do inferno. Sentença terrível e assustadora!
Por amor de Jesus e de Maria, prepara-te com boas obras para ouvir uma sentença favorável. Coragem, a sentença proferida contra o pecador é assustadora, mas a consolação é imensa no convite que Jesus Cristo fará ao cristão fiel. Vem, dir-lhe-á, vem para a posse da glória que te preparei. Tu me serviste, agora desfrutarás eternamente: intra in gaudium Domini tui [entra na alegria do teu Senhor]. Meu Jesus, concedei-me a graça de que, com uma vida santa, eu possa preparar-me para aquele momento terrível em que terei de comparecer perante o vosso Divino Tribunal. Virgem Santíssima, ajudai-me, protegei-me na vida e na morte, e especialmente quando eu comparecer perante o vosso Divino Filho para ser julgado.
Exemplos
O venerável Ancina, bispo de Saluzzo, sempre que ouvia falar do julgamento de Deus, ficava tomado por um medo terrível. Um dia, ao ouvir cantar o Dies Irae, ficou aterrorizado ao pensar no momento em que a alma se apresentaria ao tribunal de Deus. Resolveu então abandonar o mundo, como de fato fez, e levou uma vida tal que morreu em conceito de santidade.
Filipe I, rei da Espanha, certa vez, para repreender um servo que lhe havia mentido, disse simplesmente: “Assim me enganas?” Aquele servo ficou tão sentido diante daquela repreensão que, ao voltar para casa, morreu de dor. O que será do cristão quando Jesus Cristo lhe disser: “Assim ultrajaste a minha lei?”
Jaculatória.
Fazei-me provar, ó Virgem,
Na vida, um sofrimento atroz,
Os espinhos, o fel, a cruz,
Tudo me faze provar.
Mas no dia extremo
Quando Jesus indignado
Vier, por favor,
Aplacai-o, por piedade.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Décimo sétimo dia. O juízo universal
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Assim como um pai de família, em certas épocas do ano, reúne seus filhos para ver quem merece recompensa ou castigo, assim Deus, Pai de toda a humanidade, reunirá um dia todos os homens para dar publicamente uma sentença de glória eterna aos justos e de castigo eterno aos maus. Eu reunirei, diz Deus, todas as nações no vale de Josafá e farei com elas um julgamento público. Congregabo omnes gentes in vallem Iosaphat et disceptabo cum eis. Antes da vinda do Juiz, descerá do céu um fogo que queimará a terra e todas as coisas que nela existem. Terra et quæ in ipsa sunt opera exurentur [A terra será consumida com todas as obras que nela se encontrarem]. (2Pd 3,10). Assim, palácios, igrejas, vilas, cidades, reinos, tudo se tornará um monte de cinzas. Quando todos os homens estiverem mortos, ouvir-se-á um som de trombeta, que ressoará em todos os cantos da terra, e todos os cadáveres sairão de seus túmulos, retomando a mesma forma que tinham antes. Canet enim tuba; et mortui ressurgent [Soará a trombeta; e os mortos ressuscitarão]. (1Cor 15,52). Ao som dessa trombeta, as almas bem-aventuradas do céu descerão para se unir aos seus corpos, com os quais serviram a Deus nesta vida; e as almas infelizes dos condenados sairão do inferno para se unir aos corpos com os quais ofenderam a Deus. Que grande consolo será para a alma do justo que se une ao corpo para ir com ele desfrutar da glória eterna do céu. Por outro lado, que pena sentirá a alma do condenado ao se reunir ao corpo com o qual terá que ir sofrer para sempre as penas do inferno. Este pensamento fazia tremer São Jerônimo. Sempre que penso no dia do juízo final, tremo em todos os membros e parece-me ouvir sempre aquela trombeta que ressoa aos meus ouvidos: surgite, mortui; venite ad iudicium [levantai-vos, mortos; vinde ao julgamento].
- Depois que todos os homens ressuscitarem e as almas se unirem aos seus corpos, os anjos enviados por Deus gritarão por todas as partes: povos, povos, ouvi a voz de Deus e reuni-vos no vale do julgamento, no vale de Josafá. Feita essa grande reunião, os anjos separarão os réprobos dos justos (cf. Mt 13,41). Os justos ficarão à direita e os condenados à esquerda. Imaginemos que momento terrível será para os réprobos verem-se separados de tantos amigos, de tantos parentes, que terão de abandonar e nunca mais verão. Quando então estiver iminente a aparição do Juiz, todos os eleitos serão elevados no ar e irão ao encontro do Senhor (1Ts 4,17). Enquanto isso, os céus se abrem e todos os anjos do céu vêm para assistir ao julgamento, levando consigo os sinais da paixão (Santo Tomás, op. 2°). Aparecerá a Cruz, depois os Apóstolos e todos os Santos que os imitaram; virá a Rainha de todos os Santos e Anjos, Maria Santíssima; por fim, virá o Eterno Juiz, sentado sobre as nuvens do céu, no máximo esplendor de sua majestade (Mt 24,30). Que terror surpreenderá os pecadores ao verem aparecer o Filho de Deus, a quem eles tanto ultrajaram, e que será seu juiz!
- Mas, enquanto isso, o Divino Juiz apareceu, e todos aqueles que viveram desde o primeiro dia do mundo até aquele último dia estão esperando o grande julgamento do Divino Juiz. Ele então, para que todos conheçam publicamente o motivo de sua salvação e de sua condenação, revelará a todos os homens os pecados, mesmo os mais secretos e vergonhosos. Revelabo pudenda tua [Revelarei a tua nudez] (Nm 3,5). Os teólogos mais conceituados dizem que os pecados dos eleitos serão manifestos, mas como cicatrizes gloriosas trazidas da guerra contra o inimigo; segundo as palavras do profeta Davi, que disse: Bem-aventurados aqueles cujas iniquidades foram perdoadas e cujos pecados foram cobertos. Ao contrário, diz São Basílio, que todos os pecados dos réprobos serão vistos por todos com um único olhar. Mas é nada o reunir-se no vale de Josafá, é nada a manifestação dos pecados, é também pouco o aparecimento do Juiz em comparação com a terrível sentença que Ele pronunciará. Ele se voltará primeiro para os eleitos e lhes dirá estas palavras consoladoras: vinde, ó benditos de meu Pai Celestial, vinde, possuí o reino que vos foi preparado desde o princípio do mundo. Ele também abençoará Maria Santíssima e seus devotos e os convidará a ir consigo para o céu. Cantando hinos de glória a Cristo Salvador, os eleitos entrarão triunfantes no Paraíso para possuir, amar e louvar a Deus eternamente. Os condenados, ao se verem sozinhos, exclamarão: “E nós, o que será de nós?”. E Jesus Cristo lhes dirá: “Afastai-vos de mim, meu Pai vos amaldiçoou e eu vos amaldiçoo, ide para o fogo eterno”. In ignem æternum. Naquele momento, a terra se abrirá, e todos aqueles infelizes, misturados com os demônios, cairão nos abismos que nunca mais se abrirão.
Ó minha alma, por favor! Reza à Santíssima Virgem para que ela interceda por ti junto ao Juiz Eterno e obtenha o perdão de tuas culpas antes daquele dia terrível. Agora ela é tua mãe e defenderá tua causa. Ó Maria, sede minha libertadora e, no dia do julgamento, acalmai a ira de vosso Filho, obtende dele misericórdia e perdão.
Exemplo
Para que todos tenham uma norma sobre as coisas que devem fazer ou evitar para obter um julgamento favorável no último dia do mundo, é bom referir o fato que lemos no Santo Evangelho, onde é descrita a vinda do Salvador no juízo final. Diz o Evangelho: quando vier o Salvador em sua majestade e com ele todos os anjos, então se sentará sobre o trono de sua majestade, e todas as nações da terra se reunirão diante dele. Ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos; colocará as ovelhas à sua direita e os cabritos, isto é, os réprobos, à sua esquerda. Então o Rei, isto é, o Juiz Eterno, dirá aos que estiverem à direita: vinde, benditos de meu Pai, entrai na posse do reino preparado para vós desde a fundação do mundo; (lê com atenção, cristão) porque tive fome e me destes de comer, tive sede e me destes de beber, era peregrino e me acolhestes em vossa casa; estava nu, e vós me vestistes; estava doente, e vós me visitastes; estava na prisão, e vós viestes ver-me. Então os justos lhe responderão: Senhor, quando te vimos com fome e te demos de comer; com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te acolhemos em nossa casa? Nu, e te vestimos? Ou quando te vimos doente e preso e fomos visitar-te? O rei responderá e dirá a eles: em verdade vos digo que todas as vezes que fizestes alguma coisa a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes.
Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para os demônios e seus seguidores. Porque eu tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber. Era peregrino e não me acolhestes; estava nu e não me vestistes; estava doente e preso, e não me visitastes. Então também eles lhe responderão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou preso, e não te assistimos? Então ele lhes responderá: em verdade vos digo que, sempre que deixastes de fazer essas coisas a um destes meus irmãos mais pequeninos, foi a mim que deixastes de fazer. E eles irão para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna.
Jaculatória.
No dia extremo,
dia de pranto,
Maria, cobri-me
com vosso manto.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Décimo oitavo dia. As penas do inferno
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- A misericórdia de Deus e a sua justiça são os dois atributos que mais brilham na potência divina. Enquanto o homem vive com a alma unida ao corpo, é tempo de misericórdia. Mas, separada a alma do corpo, começa para o homem o tempo da justiça; e aqueles que não quiseram aproveitar a misericórdia divina na vida presente, terão de sofrer os rigores da justiça divina no inferno. Por inferno entende-se um lugar destinado pela justiça divina para punir com tormento eterno aqueles que morrem em pecado mortal. É de fé que existe este lugar de tormento eterno. Quer o chamemos inferno, abismo, voragem, prisão, lugar de tormentos, lugar de confusão, de escuridão, de desordem, de ranger de dentes, de raiva, de vingança, de tenebrosidade, de fumaça, de fogo, ou com qualquer outro nome que se queira chamar, segundo é revelado na Sagrada Escritura, sempre se indica um lugar onde cada um é punido pelos pecados cometidos na vida. Per quæ peccat quis, per hæc et torquetur (Sb 11,16). O santo profeta Davi diz: que o homem é lançado no inferno, como um tronco de madeira é precipitado dentro de uma fornalha ardente. Em um momento, esse tronco é todo cercado pelas chamas e se torna carvão ardente. Pone eos ut clibanum ignis [coloca-os num forno de fogo]. E quanto mais um sentido do corpo pecou, tanto mais será atormentado. Quantum in deliciis fuit, tantum date illi tormenti (Ap 18). A vista será atormentada pelas trevas, o olfato pelos odores mais repugnantes, a audição por gritos contínuos e pelos prantos dos condenados. A boca sofrerá uma fome voraz.
- Mas um dos maiores tormentos é a pena do fogo. Segundo o Evangelho, existe um fogo terrível que não se extingue nem de dia nem de noite. Esse fogo aceso pela justiça de Deus atormenta os condenados em todas as partes. Esses infelizes, atormentados dessa maneira, sofrerão sede, fome e o ardor das chamas; choram, gritam e se desesperam. Ó inferno, ó inferno, quão infelizes são aqueles que caem em ti! O que dizes, cristão? Se agora não consegues manter um dedo sobre a luz de uma vela, não consegues suportar uma faísca de fogo na mão sem gritar, como poderás viver entre aquelas chamas? Pensa que um único pecado basta para te enviar para o inferno e fazer-te sofrer aquelas penas atrozes por toda a eternidade.
- Os tormentos dos condenados aumentam muito quando pensam na razão pela qual foram condenados. Eles sofrem esses terríveis tormentos pelo prazer de um momento, por um desabafo de paixão, por uma coisa sem importância. Propter pugillum hordei et fragmen panis [Por um punhado de cevada e um bocado de pão – Ez 13,19]. Pensarão no tempo que lhes foi dado para remediar sua perdição eterna, pensarão nos bons exemplos dos companheiros, nos avisos dos confessores, nas resoluções feitas na confissão e não cumpridas, e pensarão nisso em um momento em que não há mais remédio para a ruína. A vontade nunca mais terá nada do que deseja e, pelo contrário, sofrerá todos os males. O intelecto conhecerá o grande bem que perdeu, ou seja, o Paraíso. Ó inferno, ó inferno, que males horríveis preparas para os ultrajadores da lei de Deus! Portanto, penitência; não esperes quando não haja mais tempo; quem sabe se este não é o último chamado que Deus te faz, ao qual, se não corresponderes, Ele deixará livre o curso de sua justiça e te fará cair naqueles suplícios eternos? Cristão, vai e escreve por toda parte que um único pecado mortal pode te enviar para o inferno e, portanto, guarda-te de cometê-lo.
Exemplo
Temos no Evangelho um exemplo terrível sobre as penas do inferno. O divino Salvador o expõe da seguinte maneira (Lc 16,19-31). Havia um homem rico, que se vestia de púrpura e outras roupas de grande luxo. Sua grande alegria era preparar todos os dias banquetes suntuosos para si e para seus amigos. Havia também um certo mendigo chamado Lázaro, que, embora coberto de feridas, se arrastava até a porta daquele rico e ficava ali deitado, esperando esmola. Não podendo obter nada, pedia que pelo menos lhe dessem as migalhas de pão que caíam da mesa do rico. Mas nem o rico nem seus servos queriam lhe dar nada. Apenas os cães iam lamber suas feridas. Não demorou muito para que o mendigo morresse, talvez de necessidade e fome. Mas, ó morte feliz! Os anjos levaram sua alma para o seio de Abraão, ou seja, para o limbo, que era o lugar onde repousavam as almas dos justos mortos antes da vinda do Salvador. Pouco depois da morte de Lázaro, morreu também o rico, mas quão triste foi o destino que o seguiu. Morreu o rico, diz o Evangelho, e a sua alma foi sepultada no inferno. Deus permitiu que aquele rico pudesse levantar os olhos do meio dos tormentos e visse ao longe Abraão e com ele o mesmo Lázaro que estava glorioso ao seu lado. O rico não teve coragem de se recomendar a Lázaro, porque o havia desprezado demais em vida; ele se voltou para Abraão e exclamou assim: ó pai Abraão, tem piedade de mim. O que queres, respondeu Abraão? Pai Abraão, continuou o outro, não te peço que me libertes destas chamas, nem que as diminuas; não peço que desfrute das delícias que desfrutei em vida; só te peço um favor, e concede-me por piedade. Qual é esse favor? Que mandes Lázaro molhar a ponta do dedo na água e vir aqui deixar cair uma gota sobre a minha língua para refrescá-la, pois estou sendo terrivelmente atormentado por estas chamas. Abraão respondeu: filho, lembra-te de que desfrutaste dos prazeres e riquezas durante a tua vida; Lázaro, ao contrário, não teve nada além de sofrimentos. Não é justo, então, que ele agora seja consolado e tu sejas atormentado? Além disso, há um grande abismo, ou seja, uma grande divisão entre nós e vós, de modo que ninguém daqui pode ir até vós, nem ninguém daquele lugar pode vir até aqui. Vendo que não podia ter nenhum conforto pessoal, o epulão pensou em pelo menos avisar seus parentes para que fizessem melhor uso das riquezas e não fossem um dia aumentar seus tormentos com a presença deles no inferno. Ele disse então a Abraão: Pai, já que não podes me ajudar, peço-te que mandes este Lázaro à casa de meu pai, pois tenho cinco irmãos e desejo que ele os avise das desgraças que os aguardam, para que eles também não venham para este lugar. Observa bem, ó cristão, que aqueles que não acreditam na santa palavra de Deus, nem mesmo acreditam nos mortos, caso ressuscitem. Por isso, Abraão respondeu assim: teus irmãos e outros parentes têm a lei de Moisés e os profetas, que os escutem. Não, disse ele, não, pai Abraão, mas se algum morto fosse até eles para lhes contar o horror dessas penas, certamente eles se arrependeriam. Abraão concluiu: se eles não dão ouvidos à lei de Moisés e ao que os profetas pregaram, nem acreditarão em alguém que ressuscitasse dos mortos.
Jaculatória.
Dos males horríveis
Do eterno exílio,
Maria, salvai-me;
Sou vosso filho.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Décimo nono dia. Eternidade das penas do inferno
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- As penas dos condenados não causariam tanto terror se um dia tivessem fim. Mas não é assim. Tirai esse engano, diz Deus; os condenados no inferno serão atormentados dia e noite por todos os séculos. Cruciabuntur die ac nocte in sæcula sæculorum [Serão atormentados dia e noite, por toda a eternidade] (Ap 20,10). Esta é verdade de fé, e Deus quis que fosse repetida em muitos lugares da Sagrada Escritura: afastai-vos de mim, diz o Salvador aos réprobos, ou malditos, ide para o fogo eterno (Mt 25,41). Os ímpios irão para um castigo eterno, e as penas dos condenados serão como uma morte que nunca mata, eternamente (2Ts 1,9). Ó cristão, se por infelicidade caíres no inferno, nunca mais sairás, e sofrerás esses males por toda a eternidade. Quem não tremerá com este pensamento?
- O condenado no meio das chamas é atormentado na alma e no corpo. Mas os remorsos da consciência são o pior de todos os males. Diz o Salvador que o fogo do inferno está associado ao remorso que, como um verme, corroerá a consciência dos réprobos para sempre: vermis eorum non moritur et ignis non extinguitur [o verme deles não morre e o fogo nunca se apaga] – (Mc 9,48). O primeiro remorso será pensar por quão pouco foi condenado. Que dor pensar que por uma satisfação momentânea se perdeu um reino eterno de felicidade! Jônatas, quando se viu condenado à morte por Saul, seu pai, pensando que era condenado apenas por ter provado um pouco de mel, exclamava: não me dói morrer; mas o que me entristece é morrer apenas por ter provado um pouco de mel. Paululum gustavi melis, et ecce morior. Ó Deus! E que pena trará ao condenado o pensamento da causa de sua condenação? Oh, se pudéssemos interrogar os condenados e perguntar-lhes: o que ainda vos resta, infelizes, daqueles sabores, daquelas satisfações, daqueles prazeres desfrutados em vida? O que ainda vos resta daquele último pecado pelo qual fostes condenados? Ah, nós, infelizes! responderão eles, por um prazer momentâneo, que desapareceu como o vento, teremos de arder neste fogo, desesperados e atormentados por toda a eternidade! Os condenados pensarão também na facilidade com que poderiam ter-se salvado. Apareceu um condenado a Santo Humberto e disse que a maior aflição que sofria no inferno era o pensamento do pouco pelo qual se tinha condenado e do pouco que teria de fazer para se salvar.
- Se pelo menos o condenado pudesse enganar a si mesmo e dizer: esses tormentos um dia acabarão; mas não! Passarão vinte anos desde que você estará no inferno, passarão mil e o inferno então começará; passarão cem mil, cem milhões, mil milhões de anos e séculos, e o inferno recomeçará. Se um anjo levasse a notícia a um condenado de que Deus o quer libertar do inferno quando tiverem passado tantos milhões de séculos, quantas são as gotas de água, as folhas das árvores, os grãos de areia do mar e da terra, essa notícia traria o maior consolo a um condenado. Ele diria: é verdade que têm de passar tantos séculos, mas um dia terão de acabar. Mas todos esses séculos e todos os tempos imagináveis passarão e o inferno continuará sendo o que era no início. Todo condenado faria este pacto com Deus: Senhor, aumentai quanto quiserdes as minhas penas, deixai-me ficar nestes tormentos o tempo que quiserdes, basta que me deis a esperança de que um dia eles acabarão. Mas não, esse fim nunca chegará, e Deus sempre responderá: in inferno nulla est redemptio [no inferno não há redenção]. Tudo o que vê, tudo o que ouve, tudo o que prova, tudo o que sofre, tudo lhe lembra a eternidade. “Sempre, nunca, eternidade” verá escrito nas chamas que o queimam; “sempre, nunca, eternidade”, na ponta das espadas que o perfuram; “sempre, nunca, eternidade”, nos demônios que dia e noite o atormentam; “sempre, nunca, eternidade”, nas portas que nunca mais se abrirão. Quantos, ao pensar na eternidade, abandonaram o mundo, a pátria, os parentes para se confinarem em cavernas, nos desertos, vivendo apenas de pão e água e, às vezes, apenas de raízes de ervas, e tudo isso para evitar as penas eternas do inferno! E tu, cristão, o que fazes? Depois de tantas vezes merecer essas penas com o pecado, o que fazes? Prostremo-nos aos pés do nosso Deus e, arrependidos dos pecados cometidos, digamos-lhe assim: Senhor, prometo nunca mais pecar no futuro, dai-me todo o mal na vida presente, desde que não me mandeis para o inferno. Querida Mãe Virgem Maria, libertai a minha alma do inferno.
Exemplos
São Policarpo, bispo de Esmirna, quando estava sendo conduzido ao martírio, disse ao procônsul que mandasse trazer os animais selvagens contra ele. O procônsul respondeu: já que os animais selvagens não te assustam, certamente temerás o fogo, no qual te farei queimar vivo, se não renunciares à tua religião. Ao que São Policarpo respondeu: realmente me fazes uma ameaça terrível; achas que se deve temer um fogo que depois de uma hora ou pouco mais se apaga? Eu te direi qual é o fogo se deve temer e que tu não conheces. Há um fogo de penas atrozes que está reservado na outra vida para os ímpios; este é o fogo que eu temo. (De Cesari).
Há um senhor no reino da França que passou a vida em diversões e prazeres mundanos. Ele era muito culto e, certo dia, começou a pensar se os condenados no inferno seriam libertados após mil anos; e respondeu a si mesmo que não. Em seguida, disse consigo mesmo: talvez sejam libertados após cem mil anos? Mas logo respondeu a si mesmo que não. Então ele dizia consigo mesmo: talvez depois de mil milhões de anos eles serão libertados? Não, dizia ele. Ou pelo menos os condenados sairão do inferno quando tiverem passado tantos milhares de anos quantas são as gotas de água no mar? E respondeu a si mesmo que nunca, não. Comovido por tal pensamento, sentiu uma grande dor pelos seus pecados e começou a chorar pela vida desregrada que tinha levado até então; depois abandonou o pecado, o mundo e as suas vaidades. Quando começou a saborear a doçura do serviço de Deus, dizia: oh, como são tolos e miseráveis os homens do mundo, que pelo prazer de um momento vão para as penas eternas que nunca terão fim. (Do Passavanti).
Jaculatória.
Sinto no fundo do meu coração
Uma voz que sempre me diz:
Ou boa, ou infeliz,
Terás a eternidade.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo dia. A misericórdia de Deus
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- A justiça com que Deus castiga o pecado na outra vida causa temor aos corações mais obstinados na culpa. Infelizes aqueles que já se encontram naqueles lugares de tormentos eternos. Bem-aventurados nós, que ainda podemos recorrer à misericórdia de Deus. Alegra-te, ó cristão, e abre o coração a grandes esperanças. Enquanto a alma está unida ao corpo, é tempo de misericórdia e perdão. Deus, que prova grande desgosto pelas nossas ofensas, nos suporta com infinita bondade, dissimulando os nossos pecados, esperando que nos arrependamos. Dissimulans peccata hominum propter pænitentiam [Perdoando os pecados dos homens por causa do arrependimento] (cf. Sb 11). Não, diz Deus em outro lugar, não quero a morte do pecador, mas quero que ele se converta e viva. Que o pecador abandone o caminho da iniquidade e se converta ao seu Senhor, e terei compaixão dele. Mais ainda, diz Deus, se a tua alma estiver toda manchada de pecados, volta para mim, e eu te restituirei branca como a neve. Dealbabuntur ut nix [Ficarão brancas como a neve]. Coragem, pois, ó pecador. Deus poderia ter-te feito morrer assim que cometeste o primeiro pecado. Mas Ele te conservou em vida para usar da sua misericórdia para contigo, e agora te oferece a sua graça.
- O tempo em que Deus usa a sua misericórdia é a vida presente. Ele quis nos dar a conhecer esta importantíssima verdade com uma longa série de fatos registrados na Bíblia. Adão desobedece a Deus e, com essa desobediência, condena a si mesmo e toda a sua descendência à morte eterna; mas Deus vem logo em socorro com a sua misericórdia e, trocando a morte eterna da alma pela morte temporal do corpo, proporciona um meio de salvação com a promessa do Salvador.
Multiplicando-se os homens, encheram a terra de iniquidade, a tal ponto que Deus decidiu enviar um dilúvio universal. Mas antes de efetuar tal castigo, enviou Noé para pregar o flagelo divino iminente durante o espaço de cento e vinte anos. Ele castigou várias vezes o povo judeu, mas assim que este dava sinais de arrependimento, Deus logo o tomava sob sua proteção e o libertava da opressão de seus inimigos. A populosa cidade de Nínive se entrega à maior desordem, e Deus decide puni-la com a destruição total da cidade e dos cidadãos. Mas Deus ainda quer fazer um esforço, enviando o profeta Jonas para pregar a penitência. Nínive ouve a voz do ministro de Deus, abandona o pecado, a ira divina se acalma, substituída pela misericórdia infinita, e Nínive é salva.
O que diremos então dos sinais de misericórdia que nos deu o nosso Divino Salvador? Quantos milagres, quantas parábolas, quantos fatos, quantas expressões demonstram esta verdade no Evangelho. Basta dizer que, como nos assegura o Salvador, há mais alegria no céu por um pecador que se converte do que por noventa e nove justos que caminham pela via da salvação. O que mais? O Salvador chegou a dizer que não tinha vindo chamar os justos, mas os pecadores: non veni vocare iustos, sed peccatores (Lc 5,32). Se desejas um fato que demonstre até que ponto chegou a misericórdia de Deus, levanta os olhos para um crucifixo; e verás o Filho de Deus morto por nós, isto é, para salvar as nossas almas condenadas ao inferno pelo pecado.
Esta misericórdia é grande, e Deus quer usá-la em nossa vida presente; mas ai daqueles que abusam dela. Por isso, diz Santo Agostinho, se agora, por infelicidade, estás em pecado, espera na misericórdia, mas se estás em graça, teme a sua justiça. Post peccatum spera misericordiam, ante peccatum pertimesce iustitiam [Depois do pecado, espera pela misericórdia; antes do pecado, teme a justiça]. Lembremo-nos de que Deus é misericordioso e justo. Ele é misericordioso com aqueles que querem aproveitar-se da sua misericórdia, mas usa o rigor da sua justiça para com aqueles que não querem aproveitar-se da sua misericórdia.
Coragem, cristão, Deus nos chama, nos oferece um generoso perdão dos pecados, quer nos fechar o inferno, quer nos abrir o Paraíso. Jesus nos chama da cruz, Maria e todos os santos nos convidam do céu. Façamos uma grande festa no Paraíso com um pronto retorno ao Senhor.
Exemplo
Um jovem de Módena, de família honrada, após concluir os estudos, deixou-se seduzir por alguns maus companheiros. Um abismo leva a outro abismo, de modo que ele se entregou aos jogos, à devassidão, aos prazeres, chegando até a tornar-se líder de outros companheiros para levá-los consigo pelo caminho do pecado. Toda a cidade de Módena falava da vida escandalosa daquele jovem, quando a mão de Deus o atingiu com uma grave doença. À medida que a doença avançava, o médico considerou seu estado desesperador e recomendou que o doente recebesse os santos sacramentos o mais rápido possível. Convidado pela mãe para se confessar, o infeliz filho afastou-a com palavras de desprezo e insultos. Pouco depois, ela tentou novamente e expôs-lhe os motivos mais emocionantes da religião: o filho irrompeu em blasfêmias. A boa mãe, profundamente aflita, não sabia mais a que se agarrar. Uma vizinha, avisada do triste caso, chamou a mãe à parte e sugeriu-lhe que colocasse a medalha da Imaculada Conceição debaixo do travesseiro do filho, sem que ele soubesse. Feito isso, as duas se uniram para recitar as ladainhas da Virgem Maria. Oh, quão piedosa és, Maria! As ladainhas ainda não haviam terminado quando o doente chamou em voz alta: mãe, mãe. Ela correu toda ofegante, e o filho logo lhe disse: rápido, rápido, vá chamar o padre para me confessar. Com o coração cheio de alegria, a mãe correu para o confessor, que jubilante foi logo até o doente. Ele ouve a confissão e, em seguida, leva-lhe o Santíssimo Sacramento, acompanhado por muitas pessoas. Entrando Jesus no quarto do doente, o jovem, cheio de compunção pelos seus pecados, entre lágrimas e suspiros, pede perdão pelos escândalos causados, prometendo repará-los, se Deus, na sua misericórdia, ainda o mantivesse com vida. Contra todas as expectativas, em pouco tempo o doente se cura da sua doença mortal e, mantendo a promessa com todo o empenho, procura imediatamente, com uma conduta edificante, reparar os gravíssimos danos causados aos seus companheiros com a sua vida escandalosa. Para que a graça e a sua conversão, que ele reconhece como vindas da Mãe da misericórdia, se tornassem públicas, mandou escrever todo o fato por um notário público e, como narração autêntica, foi publicado em muitos jornais, entre outros, no Amico della gioventù [Amigo da Juventude].
Jaculatória.
Ó Mãe de amor,
Implora ao meu coração
Que, ingrato, pecou
Amor pelo meu Deus,
Que tanto me amou.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo primeiro dia. A confissão
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Um grande traço da misericórdia de Deus para com os pecadores temos no Sacramento da Confissão. Se Deus tivesse dito que nos perdoaria os nossos pecados somente com o Batismo, e não mais aqueles que, por infelicidade, fossem cometidos depois de receber este Sacramento, quantos cristãos certamente iriam para a perdição! Mas Deus, conhecendo a nossa grande miséria, estabeleceu outro Sacramento, pelo qual nos são perdoados os pecados cometidos depois do Batismo. Este é o Sacramento da Confissão. Eis como fala o Evangelho: oito dias depois da sua ressurreição, Jesus apareceu aos seus discípulos e disse-lhes: a paz esteja convosco. Como o Pai Celestial me enviou, assim eu vos envio, isto é, a faculdade que me foi dada pelo Pai Celestial de fazer o que for bom para a salvação das almas, a mesma eu vos dou. Então, o Salvador soprou sobre eles e disse: “Recebei o Espírito Santo; aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, serão retidos”. Todos compreendem que as palavras “reter” ou “não reter” significam “dar” ou “não dar” a absolvição. Esta é a grande faculdade dada por Deus aos seus Apóstolos e aos seus sucessores na administração dos Santos Sacramentos. Destas palavras do Salvador nasce uma obrigação para os ministros sagrados de ouvir as confissões, e nasce igualmente a obrigação para o cristão de confessar as suas culpas, a fim de que se saiba quando se deve dar ou não dar a absolvição, que conselhos sugerir para reparar o mal feito; dar, em suma, todos aqueles conselhos paternos que julgar necessários para reparar os males da vida passada e não os cometer mais no futuro.
- A confissão não foi praticada apenas em algum tempo e em algum lugar. Assim que os Apóstolos começaram a pregar o Evangelho, logo começou a ser praticado o sacramento da Penitência. Lemos que, quando São Paulo pregava em Éfeso, muitos fiéis que já haviam abraçado a fé vinham aos pés dos Apóstolos e confessavam seus pecados: Confitentes et annunciantes actus suos (At 19,18). Desde o tempo dos Apóstolos até nós, sempre se observou a prática deste grande Sacramento. A Santa Igreja Católica condenou em todos os tempos como hereges aqueles que tiveram a audácia de negar esta verdade. Nem mesmo há alguém que tenha podido dispensar-se dela. Ricos e pobres, servos e senhores, reis, monarcas, imperadores, sacerdotes, bispos, os próprios Sumos Pontífices, todos devem dobrar os joelhos aos pés de um ministro sagrado para obter o perdão das culpas que porventura tenham cometido após o Batismo. Mas, ai de mim! Quantos cristãos raramente aproveitam, ou aproveitam mal, este Sacramento! Alguns se aproximam sem fazer exame, outros se confessam com indiferença, sem dor ou sem propósito, outros ainda omitem coisas importantes na confissão ou não cumprem as obrigações impostas pelo confessor. Estes tomam a coisa mais santa e mais útil para se servirem dela em sua própria ruína. Santa Teresa teve uma visão terrível a este respeito. Ela viu que as almas caíam no inferno como a neve cai no inverno sobre o dorso das montanhas. Assustada com tal revelação, pediu a Jesus Cristo uma explicação e recebeu como resposta que aqueles iam para a perdição por causa das confissões mal feitas durante a vida.
- Coragem, ó cristãos, aproveitemos este Sacramento da misericórdia, mas aproveitemo-lo com as devidas disposições. Que preceda um exame diligente das nossas culpas, confessemo-las todas, certas como certas, duvidosas como duvidosas, da maneira como as conhecemos, mas com grande dor por tê-las cometido; prometamos não mais cometê-las no futuro. Mas, acima de tudo, mostremos o fruto das nossas confissões com uma melhoria na nossa vida. Deus diz no Evangelho que pelos frutos se conhece a bondade da árvore, assim pela melhoria da nossa vida aparecerá a bondade ou a nulidade das nossas confissões: ex fructibus eorum cognoscetis eos [pelos seus frutos os conhecereis].
Exemplo
Um jovem da cidade de Montmirail, na França, viveu cristãmente até aos quinze anos, quando teve a infelicidade de se envolver com más companhias. As conversas ruins e a leitura de livros ruins o jogaram no abismo da descrença e da libertinagem. Seus pais se esforçaram para levá-lo ao bom caminho, mas, não conseguindo, foram à igreja na noite da Imaculada Conceição (8 de dezembro de 1839) e o recomendaram às orações dos agregados ao Sagrado Coração de Maria. Na mesma noite em que foi recomendado, o jovem voltou para casa e, sem dizer nada, contrariando seu costume, foi se deitar. Ele não pensava em Maria, mas Ela pensava nele. No dia 10 de dezembro, quase fora de si, chamou seu pai e disse-lhe: pai, estou infeliz e sofro muito, há trinta e seis horas que não consigo comer nem dormir. Sou um leão enfurecido e não sei mais o que dizer nem o que fazer; preciso ir ao padre. Ele sai, vai ao padre e, todo agitado pelos remorsos da consciência, implora que o confesse. Por favor, disse ao padre, confesse-me imediatamente. Não posso mais viver assim. O pároco o animou, confortou-o e, pouco depois, ouviu sua dolorosa confissão. Recebida a absolvição, sentiu imediatamente o coração inundar-se de tal consolação que não podia conter dentro de si. Chegando a casa, manifestou ao pai a graça recebida e a tranquilidade do paraíso que sentia. O que ainda lhe pesava no coração era o arrependimento daqueles que ele havia levado ao mal com seus escândalos. Cheio de coragem cristã, sem se importar com o que seus antigos companheiros diriam, contou-lhes o que havia acontecido, a consolação que sentia após a confissão e exortou-os, tanto quanto pôde, a fazerem também a prova. Em suma, esta nova presa da misericórdia de Maria fez como o penitente Davi, quando, para reparar o escândalo causado, procurou ganhar almas para Deus. Docebo iniquos vias tuas [Aos maus ensinarei vossos caminhos] – (Sl 50,15).
Jaculatória.
Implora a Deus por mim
Mãe de amor,
das minhas culpas
viva dor.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo segundo dia. O confessor
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Quando tu, cristão, vais à igreja e vês um sacerdote no tribunal da penitência, lembra-te de que ele é ministro de Jesus Cristo, que em nome de Deus perdoa os pecados dos homens. Se houvesse um réu condenado à morte por um crime grave e, no momento de ser conduzido ao patíbulo, se apresentasse a ele um ministro do rei dizendo: tua culpa está perdoada; o rei te concede a graça do perdão e te acolhe entre os seus amigos; e para que não duvides do que digo, eis o decreto que me autoriza a revogar a sentença de morte contra ti; que sentimentos de gratidão e amor não expressaria esse culpado para com o rei e para com o seu ministro! Isso acontece precisamente conosco. Nós somos verdadeiramente culpados, pois, pecando, merecemos a pena eterna do inferno. O ministro do Rei dos reis, em nome de Deus, no tribunal da penitência, nos diz: Deus me enviou a vós para absolver-vos de vossas culpas, para fechar-vos o inferno, abrir-vos o Paraíso, para restaurar-vos na amizade com Deus. Para que não duvidem do poder que me foi concedido, eis um decreto assinado pelo próprio Jesus Cristo, que me autoriza a revogar a sentença de morte. O decreto é expresso assim: aqueles a quem perdoardes os pecados, serão perdoados; aqueles a quem os retiverdes, serão retidos. Quorum remiseritis peccata, remittuntur eis; quorum retinueritis, retenta sunt. Com que estima e veneração devemos nos aproximar de um ministro que, em nome de Deus, pode nos fazer tanto bem e impedir-nos tanto mal!
- Portanto, toda vez que você se aproximar deste augusto Sacramento, imagine que está se aproximando do próprio Jesus Cristo. Ele mesmo diz: quem vos ouve, isto é, seus ministros, ouve a mim; quem vos despreza, despreza a mim. Qui vos audit, me audit; qui vos spernit, me spernit. Estejamos convencidos de que, quando nos confessamos, ouvimos a voz de Deus, que pronuncia a sentença de absolvição ou de condenação. Mas, assim como tudo o que o confessor faz e diz, ele faz com autoridade divina; e como pai, assim também, naquele tribunal de penitência, ele é um amigo que nada mais deseja senão o bem da nossa alma, é um médico capaz de curar todas as feridas da alma; é um juiz, mas não para nos condenar, mas para nos absolver e libertar da morte eterna; é um ministro de Deus que com o sangue de Jesus Cristo lava as manchas da alma. Com que confiança não deveríamos falar com ele e abrir-lhe sinceramente todos os segredos da nossa consciência!
- Nem deve nos impedir o medo de que ele revele a outros as coisas ouvidas na confissão. Não, isso nunca aconteceu no passado, nem nunca acontecerá no futuro. Um bom pai mantém sem dúvida em segredo as confidências dos seus filhos. O confessor é um verdadeiro pai espiritual; por isso, mesmo falando humanamente, ele mantém em sigilo rigoroso tudo o que lhe revelamos. Mas há mais: um preceito absoluto, natural, eclesiástico e divino obriga o confessor a calar tudo o que ouve na confissão. Mesmo que se trate de impedir um mal grave, de libertar a si mesmo e ao mundo inteiro da morte, ele não pode usar de uma informação obtida na confissão, a menos que o penitente lhe dê expressamente permissão para falar. Vai, portanto, cristão, vai frequentemente a este amigo, quanto mais vezes fores a ele, mais terás a certeza de caminhar pelo caminho do céu; quanto mais vezes fores a ele, mais terás a confirmação do perdão dos teus pecados e terás a garantia da felicidade eterna, prometida pelo próprio Jesus Cristo, que deu um poder tão grande aos seus ministros. Não te deixes deter pela multidão, nem pelo peso das culpas. O sacerdote é ministro da misericórdia de Deus, que é infinita. E, por isso, ele pode absolver qualquer número de pecados, por mais graves que sejam. Levemos apenas o coração humilde e contrito, e então teremos certamente o perdão. Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies [Não desprezas, ó Deus, um coração contrito e humilhado].
Exemplo
Entre os muitos exemplos que podem ser citados de firmeza em guardar o sigilo da confissão, é famoso o de São João Nepomuceno, cônego da Boêmia. Este santo sacerdote dedicou-se inteiramente a ouvir as confissões dos fiéis. Todos corriam para ele; a própria rainha o escolheu como seu confessor. Ora, aconteceu que o rei, que se chamava Venceslau, por algum capricho, quis saber o que a rainha lhe dizia em confissão: insistiu várias vezes com São João para que lhe contasse, mas ele sempre respondia que o que tinha ouvido só Deus sabia, que um grande segredo o obrigava a guardar e que por nada neste mundo diria a menor coisa que tivesse ouvido em confissão. Se não me disseres o que te peço, disse o rei, eu te punirei severamente; mandarei colocar-te na prisão, a pão e água, mandarei espancar-te com varas, e quem sabe… se tua cabeça não pagará pelo preço de tua obstinação. Príncipe, respondeu o santo confessor, digo-vos novamente que um grande dever me prende diante de Deus, a quem devo obedecer rigorosamente. Podeis dispor da minha vida como quiserdes e condenar-me a qualquer pena, mesmo à morte, mas eu nunca, jamais, revelarei nada do que ouvi em confissão. Só Deus pode penetrar neste segredo. O rei, enfurecido, condenou o santo a tormentos atrozes e a uma morte cruel. O valente confessor, firme no seu dever, suportou todos os sofrimentos com heroísmo cristão e com o seu próprio sangue confirmou aquele dogma tão glorioso para o cristianismo que diz: o segredo da confissão é inviolável; só Deus pode penetrá-lo.
Jaculatória.
Maria, libertai-me
Dos laços do pecado,
E fazei-vos luz
Dos meus olhos.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo terceiro dia. A Santa Missa
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Se quiseres, ó cristão, ter uma ideia justa da Santa Missa, transporta-te em pensamento para o cenáculo, quando o Salvador a celebrou pela primeira vez com os seus Apóstolos. Na véspera da sua paixão, o Salvador reuniu os seus discípulos para celebrar com eles a última Páscoa. No final da ceia, Ele levantou-se da mesa, tomou o pão, abençoou-o e deu-o aos seus discípulos, dizendo: tomai, comei, isto é o meu corpo, aquele corpo que será sacrificado pela vossa salvação. Tomou então um cálice, derramou nele vinho, ergueu os olhos ao céu, abençoou-o e deu-o aos seus apóstolos, dizendo: “Tomai e bebei todos, pois este é o meu sangue, que será derramado pela remissão dos pecados do mundo. Todas as vezes que fizerdes isto, fazei-o em memória de mim”.
Com estas palavras, Jesus Cristo instituiu o Sacramento da Eucaristia e, portanto, instituiu a Santa Missa, sem a qual este Sacramento não se realiza. Além disso, ordenou que fizéssemos o que ele mesmo tinha feito. Eis a razão pela qual a Santa Missa é chamada o Sacramento e o Sacrifício do corpo e do sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é oferecido e distribuído sob as espécies do pão e do vinho. Este sacrifício foi feito por Jesus Cristo no Monte Calvário, e é chamado sangrento, isto é, com o derramamento de todo o seu sangue. O que se faz na Santa Missa é o mesmo, com a única diferença de que este é incruento, isto é, sem derramamento de sangue. Portanto, quando vemos o sacerdote sair da sacristia e dirigir-se ao altar para celebrar a Santa Missa, é o mesmo que ver Jesus Cristo sair da cidade de Jerusalém e levar a cruz ao Monte Calvário para ser crucificado e derramar até a última gota do seu precioso sangue. Como não se pode imaginar nada mais precioso, mais santo, maior do que o corpo e o sangue de Jesus Cristo, assim também nós, quando vamos ouvir a Santa Missa, não podemos fazer nada que possa trazer maior glória a Deus e maior utilidade para as nossas almas.
- Quero, porém, que tenhas em mente, ó cristão, que o sangue de Jesus Cristo foi derramado na cruz também pelas almas do Purgatório. Por isso, a Santa Missa é o meio mais eficaz para aliviar as almas dos fiéis defuntos, se porventura se encontrassem nessas penas. Procura, portanto, mandar celebrar alguma missa e, se não puderes, procura pelo menos ouvi-la em sufrágio de teus parentes ou de algum amigo falecido. Ouve o que dizem os Santos Padres a este respeito. São Gregório Magno diz: a pena dos vivos e dos mortos será mitigada para aqueles por quem se celebra a Santa Missa: tal pena será mitigada de modo especial para aqueles por quem se reza propositadamente na Santa Missa. O mesmo Santo diz em outro lugar: ouvir devotamente uma missa é elevar as almas dos fiéis defuntos, obtendo a remissão dos seus pecados. São Jerônimo, grande Doutor da Santa Igreja, expressa-se assim: Por cada missa celebrada devotamente, muitas almas saem do Purgatório. Em outro lugar, acrescenta: As almas que são atormentadas no Purgatório não sofrem nenhum tormento enquanto se celebra uma missa, se o sacerdote reza por elas ao oferecer este sacrifício. Por isso, recomendo-te, com todo o meu conhecimento e poder, que nunca te esqueças dos teus parentes e amigos falecidos, sempre que mandar celebrar ou for ouvir uma missa.
- Devo, porém, recomendar-te, ó leitor, que não aconteça contigo o que, infelizmente, acontece a muitos cristãos, quando vão ouvir a Santa Missa. Oh, como é triste ver tantos cristãos dar pouca ou nenhuma importância a este augusto sacrifício do altar! Alguns vão ouvi-la raramente, ou ficam lá de má vontade; outros a ouvem distraídos, sem modéstia, sem veneração, sem respeito, permanecendo sentados ou em pé, às vezes rindo, às vezes falando ou olhando para cá e para lá. Quando formos ouvir a Santa Missa, procuremos assistir com o máximo recolhimento. Nosso espírito, nosso coração, nossos sentimentos não se concentrem em outra coisa senão em honrar a Deus. Oh! Uma missa bem ouvida, que graças e bênçãos ela pode nos trazer? Ouçamos o que nos diz o Beato Leonardo: “Eu creio, diz ele, que se não fosse a Santa Missa, o mundo já teria afundado, por não poder mais suportar o peso de tantas iniquidades. A Santa Missa é esse poderoso apoio que o mantém de pé”. Para animar todos os cristãos a serem diligentes em ouvir a Santa Missa, o mesmo Santo costumava pregar assim: deixem-me subir ao cume das montanhas mais altas e lá gritar em alta voz: povos enganados, povos enganados: o que vocês estão fazendo? Por que não correis para a igreja para ouvir santamente quantas missas puderdes?
Exemplo
Vamos com diligência ouvir a Santa Missa. Se tivermos que sofrer algum incômodo ou perder algum tempo, não nos inquietemos; Deus saberá recompensar tudo. Santo Isidoro era um pobre camponês. Todos os dias do ano, ele levantava-se de manhã cedo, ia ouvir a Santa Missa e depois ia fazer o que seu patrão lhe mandava. Dessa forma, atraía as bênçãos do Senhor sobre o seu trabalho e sobre as terras dos seus patrões, de modo que tudo lhe corria bem. Se a Missa é fonte de bênçãos nas coisas temporais, que graças não nos proporcionará do Senhor para a nossa alma, na vida presente e na vida futura?
Jaculatória.
Salve, Santíssimo
Corpo divino,
Da Virgem pura
Nascido menino.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo quarto dia. A Santa Comunhão
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Compreendes, ó cristão, o que significa fazer a Santa Comunhão? Significa aproximar-se da mesa dos anjos para receber o corpo, o sangue, a alma e a divindade de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é dado em alimento à nossa alma sob as espécies do pão e do vinho consagrado. Na Missa, no momento em que o sacerdote pronuncia sobre o pão e o vinho as palavras da consagração, o pão e o vinho se tornam o corpo e o sangue de Jesus Cristo. As palavras usadas por nosso divino Salvador ao instituir este sacramento são: isto é o meu corpo, este é o cálice do meu sangue: hoc est corpus meum, hic est calix sanguinis mei. Essas mesmas palavras são usadas pelos sacerdotes em nome de Jesus Cristo no sacrifício da Santa Missa. Portanto, quando vamos comungar, recebemos o próprio Jesus Cristo em corpo, sangue, alma e divindade, isto é, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, vivo como está no céu. Não é a sua imagem, nem a sua figura, como uma estátua, um crucifixo, mas é o próprio Jesus Cristo, tal como nasceu da Virgem Maria Imaculada e morreu por nós na cruz. O próprio Jesus Cristo assegurou-nos a sua presença real na Santa Eucaristia quando disse: este é o meu corpo que será dado pela salvação dos homens: corpus, quod pro vobis tradetur. Este é o pão vivo que desceu do Céu: hic est panis vivus, qui de caelo descendit. O pão que eu darei é a minha carne. A bebida que eu darei é o meu verdadeiro sangue. Quem não comer deste corpo e não beber deste sangue, não tem a vida em si.
- Tendo instituído este sacramento para o bem das nossas almas, Jesus deseja que nos aproximemos dele frequentemente. Eis as palavras com que ele nos convida: vinde a mim todos vós que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei: venite ad me omnes qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos. Em outro lugar, dizia aos judeus: “Vossos pais comeram o maná no deserto e morreram; mas aquele que come o alimento figurado no maná, aquele alimento que eu dou, aquele alimento que é meu corpo e meu sangue, não morrerá para sempre. Quem come a minha carne e bebe o meu sangue, permanece em mim e eu nele; porque a minha carne é verdadeira comida e o meu sangue é verdadeira bebida». Quem poderia resistir a esses convites amorosos do divino Salvador? Para corresponder a esses convites, os cristãos dos primeiros tempos iam todos os dias ouvir a palavra de Deus e todos os dias se aproximavam da Santa Comunhão. É neste sacramento que os mártires encontravam sua força, as virgens seu fervor, os santos sua coragem.
E nós, com que frequência nos aproximamos deste alimento celestial? Se examinarmos os desejos de Jesus Cristo e a nossa necessidade, devemos comungar com muita frequência. Assim como o maná serviu de alimento corporal aos judeus todos os dias durante todo o tempo em que viveram no deserto, até serem conduzidos à terra prometida, assim a sagrada comunhão deveria ser o nosso conforto, o alimento diário nos perigos deste mundo, para nos guiar à verdadeira terra prometida do paraíso. Santo Agostinho diz assim: Se todos os dias pedimos a Deus o pão corporal, por que não procuraremos também alimentar-nos todos os dias do pão espiritual com a Santa Comunhão? São Filipe Néri encorajava os cristãos a se confessarem a cada oito dias e a comungarem ainda mais frequentemente, segundo o conselho do confessor. Finalmente, a Santa Igreja manifesta seu vivo desejo pela frequente comunhão no Concílio de Trento, onde diz: “seria sumamente desejável que todo cristão fiel se mantivesse em tal estado de consciência que pudesse fazer a sagrada comunhão sempre que participasse da santa missa”. O Papa Clemente XIII, para encorajar os cristãos a se aproximarem com grande frequência da santa confissão e da comunhão, concedeu o seguinte benefício: os fiéis cristãos que têm o louvável costume de se confessar todas as semanas podem adquirir a indulgência plenária sempre que fizerem a santa comunhão.
- Alguém dirá: sou muito pecador. Se és pecador, procura te colocar em graça com o sacramento da confissão e, em seguida, recebe a sagrada comunhão, e terás grande ajuda. Outro dirá: eu comungo raramente para ter mais fervor. Isso é um engano. As coisas que se fazem raramente, na maioria das vezes se fazem mal. Além disso, sendo frequentes as tuas necessidades, frequente deve ser o socorro para a tua alma. Alguns acrescentam: estou cheio de enfermidades espirituais e não ouso comungar com frequência. Jesus Cristo responde: aqueles que estão bem não precisam de médico; portanto, aqueles que estão mais sujeitos a doenças precisam ser visitados frequentemente pelo médico. Coragem, portanto, ó cristão! Se queres fazer a ação mais gloriosa a Deus, mais agradável a todos os santos do céu, mais eficaz para vencer as tentações, mais segura para perseverar no bem, é certamente a Santa Comunhão.
Exemplo
Um jovem chamado Domingos Sávio, pelo vivo desejo de agradar a Maria, oferecia-lhe todos os dias alguma oração, mas todos os sábados fazia a sagrada comunhão em honra daquela que ele costumava chamar de Mãe muito querida. No ano de 1856, fez o mês de Maria com tal fervor que todos os seus companheiros ficaram edificados. Todos os dias pedia a Maria que o tirasse do mundo antes que perdesse a virtude da pureza. No dia do encerramento, pediu uma única graça: poder fazer uma boa comunhão antes de morrer. A Santa Virgem atendeu-o. Nove meses depois (9 de março de 1857), ele morreu aos quinze anos de idade, depois de receber o Santíssimo Viático com a maior ternura e devoção. Nos momentos que se passaram entre o recebimento do Viático e sua morte, ele repetia: “Ó Maria, vós me atendeste, eu sou muito rico. Não vos peço nada mais, senão que me assistais nestes últimos momentos de vida e me acompanheis desta vida para a eternidade. Quase no mesmo momento em que ele deixou de proferir estas palavras, sua alma voou para o céu, certamente acompanhada por Maria, de quem ele fora fervoroso devoto durante toda a vida.
Jaculatória.
Eu vos adoro a cada momento
Ó pão vivo do céu,
Grande Sacramento.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo quinto dia. O pecado da desonestidade
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- São Paulo ordena que esse pecado nem sequer seja mencionado entre os cristãos: impudicitia nequidem nominetur in vobis. Eu omitiria falar sobre isso, ó grande Apóstolo de Jesus Cristo, se esse pecado não fosse aquele grande mestre que leva tantas almas à perdição eterna. Podemos realmente dizer que esse pecado abriu o inferno, e muitos se precipitam infelizmente nele. Para ter um horror justo, vejamos como Deus detesta este vício abominável. Quem se entrega a este pecado é comparado a animais imundos. O homem, que foi elevado à maior dignidade, perdeu o intelecto e tornou-se semelhante aos animais imundos que se arrastam na lama. Jumentis insipientibus comparatus est, et similis factus est illis [Ele foi comparado a animais irracionais e tornou-se como eles]. Ó cristão, reconhece a tua dignidade e, ao mesmo tempo, compreende o grande mal que fazes quando te abandonas a palavras, pensamentos e obras impuras. Além disso, por que Deus enviou um dilúvio sobre toda a terra? Porque a humanidade se abandonou à desonestidade. Omnis caro corruperat viam suam [toda a carne havia corrompido o seu caminho sobre a terra – Gn 6,12]. Por que enviou um incêndio sobre Sodoma, Gomorra e as cidades vizinhas? Porque aqueles habitantes se abandonaram a esse vício. Por que Onã foi atingido por uma morte repentina após um único pecado? Porque aquele era um pecado de desonestidade. Que preceito especial Deus promulgou no Monte Sinai entre trovões e relâmpagos? É aquele que diz: não cometerás adultério, isto é, não farás coisas desonestas. Qual é o mal que o divino Salvador proibiu de fixar com o olhar ou de reter no pensamento? É a desonestidade. Qual é esse grande mal que São Paulo considera tão grande que não deve ser mencionado entre os cristãos? É a imoralidade. Impudicitia nequidem nominetur in vobis [A imoralidade nem sequer seja mencionada entre vós – Ef 5,3].
- A partir desta doutrina revelada por Deus, você conhecerá o grande mal que é a desonestidade: mas você a conhecerá muito mais se considerar suas consequências funestas. Se entrares nas famílias e perguntares a causa de tantas discórdias, de tantas misérias, de tantos patrimônios arruinados, muitos serão obrigados a responder que o vício abominável da desonestidade foi a causa. Perguntemos aos médicos que frequentam as casas particulares e os hospitais públicos, e eles nos dirão quantos são enviados para a sepultura na flor da idade. Oh! Se as cinzas deles pudessem falar dos túmulos, poderiam nos dar conselhos muito úteis. Uns diriam que a desonestidade foi causa de brigas, jogos, embriaguez, morte. Outros, que esse vício enfraqueceu sua saúde e os levou prematuramente à sepultura, confirmando neles que os pecados encurtam a vida: dies impiorum bremabuntur [os dias dos ímpios serão encurtados].
- Mas vamos lançar um véu sobre essas desgraças que recaem sobre o corpo e mencionar alguns dos males que ela produz no espírito. Deus diz que entregar-se à desonestidade é o mesmo que perder a fé: luxuriari idem est ac apostatare a Deo [entregar-se à luxúria é o mesmo que apostatar de Deus]. De fato, vemos cristãos alegres, cheios de fervor nas práticas religiosas, assíduos aos sacramentos: mas assim que a desonestidade entra em seus corações, começam a se tornar indiferentes, diminuem a frequência dos sacramentos, se cansam da palavra de Deus, começam a duvidar das verdades da fé e, caindo de abismo em abismo, acabam se tornando incrédulos e, às vezes, verdadeiros apóstatas. Luxuriari idem est ac apostatare a Deo. O que diremos então das penas eternas reservadas na outra vida aos impudicos? Não quero continuar com esta terrível consideração; prefiro sugerir alguns meios para manter longe deste vício aqueles que são inocentes e preservar aqueles que tiveram a desgraça de ser infectados por ele. A confissão frequente e a comunhão frequente são os dois remédios mais eficazes. Fugir de conversas obscenas, de leituras ruins, de pessoas entregues ao jogo, à embriaguez e a desordens semelhantes. Frequentar a palavra de Deus e ler bons livros, rezar três Ave-Marias à Imaculada Virgem Maria pela manhã e à noite e beijar a medalha dela. Se tu, cristão, praticares esses meios, sem dúvida te manterás longe desse vício terrível que já enviou tantas almas para o inferno.
Exemplo
Uma jovem da cidade de Turim teve a infelicidade de se entregar ao vício de que falamos. E, como acontece com muitos outros infelizes, ela também perdeu a devoção, abandonou a casa paterna para levar uma vida dissoluta. Arruinada assim nas coisas da alma, logo o foi também nas coisas do corpo; e, caindo em grave doença, estava quase à beira da morte. Ninguém ousava falar-lhe de religião. Quem ousava dizer-lhe alguma palavra era mandado embora com execração. Um piedoso sacerdote, informado do triste caso, foi corajoso o suficiente para tentar também. Apresentou-se à doente, mas ela, como uma fúria do inferno, proferiu mil maldições e queria obrigá-lo a fugir. O fiel ministro de Deus suportou tudo e, após muitos incidentes, conseguiu que ela aceitasse uma medalha da Imaculada Conceição. Cheio de esperança de ganhar uma filha para Maria, o padre partiu e foi se juntar a outros devotos que se reuniam na igreja para invocar a proteção daquela que é refúgio dos pecadores. Ao fim do mesmo dia, ele voltou para a doente, que o recebeu melhor. Ele conseguiu que ela rezasse três Ave-Marias. Depois partiu. Ainda não tinha chegado a casa, quando uma pessoa do serviço o chamou com grande pressa para que voltasse para a doente, que queria se confessar. Ele foi prontamente e a encontrou chorando de dor pelos seus pecados, desejando se confessar antes de morrer. Ela fez sua confissão, dando sinais do mais sincero arrependimento. Ela mesma pediu para receber a Sagrada Eucaristia, a extrema-unção [unção dos enfermos] e a bênção papal, que lhe foram prontamente administradas. Parecia que ela estava prestes a dar o último suspiro quando, reunindo todas as suas forças, dirigiu estas últimas palavras às pessoas que, em grande número e com grande piedade, estavam ao redor da cama: alegrai-vos todos em vosso coração; eu fui infeliz, o mundo me enganou. Eu abandonei Deus e sua Santíssima Mãe; mas ela não me abandonou. Ela conseguiu que eu não morresse de morte ruim; conseguiu de seu Filho a graça de poder me confessar e, assim, fechar o inferno e abrir o paraíso para mim. Depois da minha morte, contem a todos a grande graça que Maria me concedeu. Eu morro e, morrendo, espero encontrá-la no céu. Dito isso, ela deixou cair a cabeça sobre a cama e, após alguns instantes, expirou.
Jaculatória.
Maria, vós sois mãe, tentareis
Pelos inocentes, e ao mesmo tempo
Pelo pecador que geme,
Que espera em vossa piedade.
Tomai o meu coração, ó Virgem,
Vós podeis transformá-lo;
Dai-lhe os vossos afetos
Dai-lhe o vosso amor divino.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo sexto dia. A virtude da pureza
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Tanto quanto é horrível falar do pecado da desonestidade, tanto é consolador falar da virtude da pureza. Esta única virtude basta para tornar santo quem a possui. Os amantes dela no Evangelho são comparados por Jesus aos anjos: erunt sicut angeli Dei in caelo [serão como anjos de Deus no céu] – (Mt 22,30). Oh, quão digna és da estima dos homens, ó santa virtude da pureza! Tu fazes do homem, que é pó e cinza, um espírito celestial, um anjo. Melhor ainda, superior aos próprios anjos, porque os anjos são espíritos puros, e nós, para conservá-la, devemos domar as inclinações do corpo. Esta virtude é tão preciosa aos olhos de Deus que o próprio Espírito Santo nos assegura que não há nada no mundo mais precioso: non est ponderatio digna continentis animae [não há medida que determine o valor da alma casta] – (Eclo 26,20). São João Evangelista foi o discípulo predileto de Jesus Cristo porque conservou esta virtude de forma sublime. E Deus quis recompensá-lo também na vida presente, fazendo-lhe conhecer o grande prêmio que está reservado aos castos e aos virgens no céu. Enquanto estava exilado na ilha de Patmos, Deus revelou-lhe muitos mistérios, elevando-o para contemplar as belezas do Paraíso. Entre outras coisas, ele viu uma multidão de bem-aventurados vestidos com uma túnica branca e com uma palma na mão; e cantando um hino que ninguém mais podia cantar, eles cercavam constantemente a pessoa do Salvador por onde quer que ele fosse. Maravilhado, o santo apóstolo disse ao anjo que o acompanhava pelo paraíso: Quem são estes que gozam de tanta glória? O anjo respondeu: Estes são os virgens, aqueles que não mancharam a estola da inocência e, por isso, seguem o divino Cordeiro por onde quer que Ele vá. Virgines enim sunt, hi sequuntur agnum quocumque ierit – [estes são virgens; seguem o Cordeiro aonde quer que vá] (Ap 14,4).
- Esta virtude é preciosa não só aos olhos de Deus, mas é também fonte de bênçãos na vida presente. Deus demonstrou a grande estima que tem por ela com muitos fatos. Ele quis ter São José como pai putativo, que era virgem; quis nascer de uma mãe virgem; e mais ainda, que ela fosse virgem antes do parto, durante o parto e depois do parto. O Espírito Santo nos diz que, com a virtude da pureza, todos os bens nos são dados: venerunt omnia bona pariter cum illa – todos os bens me vieram junto com ela] (Sb 7,11). De fato, aqueles que têm a sorte de poder falar com essas almas que conservam esse precioso tesouro descobrem uma tranquilidade, uma paz de coração, uma satisfação tal que superam todos os bens da terra. Tu os vês pacientes na miséria, caridosos com o próximo, pacíficos diante das injúrias, resignados nas doenças, atentos aos seus deveres, fervorosos nas orações, ansiosos pela palavra de Deus. Tu percebes em seus corações uma fé viva, uma firme esperança e uma caridade inflamada.
- Coragem, portanto, ó cristão, faze todo esforço para conservar o tesouro inestimável desta virtude. Se assim fizeres, te elevarás acima de todos os homens e serás igual aos anjos do paraíso, mesmo nesta vida. Mas se quiseres consumar esta virtude, é preciso que imites a Rainha das Virgens. Imitá-la na diligência nas práticas religiosas e no exercício da humildade, porque somente os humildes são fortalecidos por Deus para combater as tentações dos sentidos. Imitá-la na discrição, de modo que as tuas conversas não sejam com outras pessoas, a não ser com os anjos, isto é, com pessoas que falam das coisas do Senhor, e não das coisas desordenadas do mundo. Imita-a tratando com pessoas que amem esta virtude e, especialmente, fugindo de pessoas do sexo oposto. Imita-a na modéstia dos olhos, na sobriedade em comer e beber, na fuga dos teatros, dos bailes e de outros espetáculos perigosos. Se imitares assim a Santa Virgem, terás a certeza de conservar intacta a virtude da pureza aqui na terra, para depois receberes a gloriosa recompensa no céu.
Exemplo
São Luís Gonzaga pode servir de modelo para todos aqueles que desejam conservar a virtude de que falamos. Desde muito jovem, ele era tão reservado que, quando os criados iam ajudá-lo a vestir-se, não ousava nem mesmo deixar ver os pés descalços; era tão modesto nos olhos que nunca olhou diretamente para o rosto de sua própria mãe. Um dia, ele estava em companhia de outras pessoas, quando uma pessoa já bastante idosa começou a falar de coisas indecentes. “Ei”, disse Luís, “essa maneira de falar não convém a esses cabelos brancos e muito menos na presença desses jovens cristãos que o ouvem”. O velho corou e calou-se. São Luís, porém, para se assegurar de conservar essa virtude, começou desde muito jovem a praticar uma devoção filial àquela que é chamada de Mãe puríssima e poderosa protetora daqueles que querem oferecer o coração a Deus. Aos dez anos de idade, fez voto de castidade perpétua, colocando-se inteiramente sob a poderosa proteção de Maria, rogando-lhe que o ajudasse a conservar essa virtude até a morte. A Santa Virgem atendeu-o, e Luís está no número das almas privilegiadas que levaram para a outra vida a estola da inocência batismal, que certamente lhe forma agora no céu uma coroa especial de glória eterna.
Jaculatória
Maria concebida sem pecado original, rogai por nós, que recorremos a vós[6] .
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo sétimo dia. O respeito humano
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Se alguém te perguntasse, ó cristão, o que é o respeito humano, talvez respondesses que nem sequer sabes. E eu te digo quase o mesmo. No entanto, por algo que nem sabemos o que é, muitos vão para a perdição eterna. Para dar alguma definição a esse inimigo das almas, parece-me que se pode dizer: um medo sem fundamento que nos impede de fazer o bem ou que nos leva a fazer o mal para não desagradar aos homens. Acredita, cristão, muitos trilhariam o caminho da virtude se esse medo inútil não os enganasse e os fizesse abandonar o bem que devem fazer, levando-os a praticar o mal que em seu coração gostariam de evitar. Aquele jovem quer se entregar a Deus, santificar os dias festivos, ir ouvir a palavra de Deus. Mas ele teme seus companheiros, que zombam dele. Aquele pai de família gostaria de ficar longe daquele jogo, daquela taberna, de não mais ficar na praça durante as funções sagradas, gostaria de cuidar melhor de sua família, mas teme ser ridicularizado por alguns companheiros de jogo, por isso continua no mal. Outros dizem: se eu não for mais àquela casa, dirão que o confessor me proibiu. Se eu abandonar esses companheiros, dirão que quero ir para um deserto. Se eu não participar dessas conversas obscenas, dirão que não tenho espírito. Se me aproximar dos sacramentos com mais frequência, dirão que quero ser frade. E por esses medos inúteis, continuam no mal, omitindo as práticas mais importantes para a alma. Infelizes! Não sabem que a sabedoria do mundo é loucura diante de Deus? Sapientia huius mundi stultitia est apud Deum?
- Mas convence-te de que, na maioria das vezes, não se dizem tais coisas, é um medo inútil que te faz pensar assim. Acredita em mim, se te virem constante no cumprimento dos teus deveres, terão grande veneração por ti. E mesmo que dissessem tais coisas, isso causaria algum dano aos teus bens, à tua reputação? E mesmo que te causassem algum dano, deverias por isso fazer o que diz o mundo, e não o que diz Deus? O mundo fala, Jesus Cristo fala; quem é mais digno de ser ouvido? É melhor ouvir Jesus Cristo e ir para a vida eterna, ou ouvir o mundo e ir para o inferno? Oh, loucos! dizia um bom cristão a alguns que queriam levá-lo ao mal, loucos que são; se por vos ouvir eu for para o inferno, talvez venhais me tirar de lá?
- Se o que dissemos em geral não basta para nos fazer desprezar o respeito humano, pelo menos nos resolva o que diz Jesus Cristo no santo Evangelho. Ouçamos as suas palavras: quem se declarar por mim diante dos homens, também eu me declararei por ele diante do meu Pai que está nos céus. Quem me renegar diante dos homens, também eu o renegarei diante do meu Pai que está nos céus (cf. Mt 10,32-33). Coragem, cristão; e nunca deixes que as tagarelices do mundo te façam omitir algum bem e te induzam a fazer algum mal.
Exemplo
Um soldado chamado Belsoggiorno recitava todos os dias sete Pai-nossos e sete Ave-Marias em memória das sete alegrias e das sete dores da Santa Virgem. Se durante o dia não tinha tempo, fazia-o à noite antes de se deitar. Além disso, se se lembrava de que não tinha cumprido este dever quando já estava na cama, levantava-se imediatamente e recitava de joelhos essa oração. Imaginem quantas risadas e quantos sinais de desprezo seus companheiros lhe terão feito! Ele não deu importância e perseverou em sua oração. Um dia, em batalha, Belsoggiorno se viu na primeira fila, diante do inimigo, esperando o sinal de ataque. Lembra-se então que não tinha feito a oração habitual e, fazendo rapidamente o sinal da Santa Cruz, começou a recitá-la. Assim que seus companheiros perceberam, começaram a zombar dele, e as zombarias passavam de boca em boca, de modo que quase todos o ridicularizavam. Belsoggiorno havia aprendido a vencer o respeito humano e, vendo que as palavras dos companheiros não lhe faziam mal algum, continuou sua oração. Entretanto, começou a batalha, que foi sangrenta para ambos os lados. Mas qual foi a surpresa de Belsoggiorno quando viu todos aqueles que um momento antes zombavam dele estendidos no chão ao seu redor, sem que ele tivesse sofrido nenhum ferimento. Ele não pôde deixar de sentir temor e gratidão pela poderosa proteção de Maria, que o havia salvado. No restante daquela guerra, que foi muito longa, ele nunca mais sofreu nenhum ferimento. Ó devoto de Maria, nunca te envergonhes de saudar esta Mãe piedosa sempre que passares diante de alguma de suas igrejas, estátuas ou imagens. Quando ouvires na rua o sinal da Ave Maria, descobre a cabeça sem respeito humano e recita-a devotamente, pois Maria nos dará grande recompensa por esta homenagem (De vários autores).
Jaculatória.
Ó doce e terna Mãe,
Fonte de santo amor,
Parte do vosso fervor
Fazei descer ao meu coração.
Fazei com que o pensamento profano
Eu despreze com desdém,
Que me acostume a buscar
A glória do Senhor.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo oitavo dia. Do Paraíso
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Argumento consolador, ó cristão, proponho hoje à tua consideração. É sobre o paraíso. Para que tenhas uma ideia, consideremos as coisas visíveis da terra e depois comparemo-las com as do céu. Imagina uma noite serena: quão belo é ver o firmamento celeste com aquela multidão e variedade de estrelas! Supõe também um belo dia em que a claridade do sol não impeça a visão das estrelas e da lua. Reúne então tudo o que se pode encontrar de grande, precioso, saboroso e delicioso no mar, nos campos, nas cidades e nas cortes dos reis e monarcas de todo o mundo. Tudo isso junto não é nada quando comparado com a glória do paraíso, porque isso é uma ideia dos bens da terra; mas o que será quando formos admitidos por Deus para contemplar e desfrutar dos bens imensos que existem no reino daquela glória? Gostamos da liberdade? Bem, no paraíso poderemos, a nosso bel-prazer, passear por todos os lugares pelo ar, pela lua, pelas estrelas, pelo sol. Podemos, em um instante, transportar-nos do céu à terra e da terra ao céu, podemos penetrar nos lugares mais fechados, nos recantos mais secretos, sem obstáculos e sem medo. Gostamos de música? Mas que música doce será a dos anjos e dos santos no paraíso! Um único instrumento celeste tocado por alguns instantes por um serafim arrebatou de seus sentidos, em êxtase, São Francisco de Assis. Gostamos de ser literatos? Vamos para o paraíso e, num instante, nos tornaremos mais eruditos que Salomão, mais iluminados que todos os filósofos; lá, num instante, sem tédio e sem fadiga, aprenderemos as ciências mais sublimes. Gostamos de admirar as belezas das criaturas? Mas quanto mais belo deve ser o Criador!
- Considera então a alegria que a alma sentirá ao encontrar parentes e amigos, ao contemplar a nobreza, a beleza, a multidão dos querubins, dos serafins e de todos os anjos, de todos os santos, que aos milhões e milhões louvam e bendizem o Criador. Lá veremos Adão, Abraão, os patriarcas, os profetas, o coro dos Apóstolos, o imenso número de mártires, confessores e virgens. Oh, como eles se alegram naquele reino feliz! Estão sempre felizes, sem enfermidades, sem tristezas, sem preocupações que perturbem sua alegria, seu contentamento: [não haverá mais luto nem clamor] – (Ap 21,4).
- Observa, porém, ó cristão, que tudo o que consideramos até agora é muito pouco em comparação com a grande consolação que se prova na visão de Deus. Ele consola os bem-aventurados com seu olhar amoroso e derrama em seus corações um mar de delícias. Não o veremos mais com os olhos da fé, mas o veremos face a face, contemplaremos de perto seu rosto, sua divina majestade. Videbimus eum sicuti est [Nós o veremos tal como ele é] – (1Jo 3,2). O bem-aventurado ficará tão imerso nas delícias que exclamará: estou saciado, ó Senhor, da tua glória. Satiabor cum apparuerit gloria tua [Saciar-me-ei quando aparecer a tua glória] – (Sl 16,15). Assim como o sol ilumina e embeleza todo o mundo, assim Deus, com a sua presença, ilumina todo o paraíso e enche aqueles felizes habitantes de uma alegria incompreensível. Por isso, todas as hostes dos anjos, dos santos e dos bem-aventurados, no auge da sua alegria, em sinal de gratidão a Deus, cantarão: Santo, santo, santo é o Deus dos exércitos, a quem seja dada honra e glória por todos os séculos. Coragem, portanto, ó cristão, pois terás de sofrer alguma coisa neste mundo, mas a recompensa que receberás no céu compensará infinitamente tudo o que sofreres na terra. Que grande consolo será o teu quando te encontrares no Céu, na posse da bem-aventurada eternidade, na companhia dos teus parentes, amigos, santos e bem-aventurados, e dirás: Estarei sempre com o Senhor, esta minha felicidade nunca mais faltará: semper cum domino erimus [Estaremos sempre com o Senhor] – (1Ts 4,17). Então sim, abençoarás aquele momento em que te entregaste ao Senhor, abençoarás o momento em que fizeste aquela boa confissão e começaste a te aproximar com frequência dos santos sacramentos; abençoarás aquele dia em que, deixando as más companhias, te entregaste à virtude; e, cheio de gratidão, te voltarás para o teu Deus, cantando-lhe louvor e glória por todos os séculos dos séculos. Assim seja.
Exemplo
Algumas aparições de Maria na vida presente bastaram para encher de alegria extraordinária os seus devotos. Onde estará então a alegria de desfrutar para sempre da companhia dela no céu? São Gregório Magno conta que uma jovem chamada Musa era muito devota de Maria: tinha, porém, o defeito de se divertir com as suas companheiras em coisas frívolas. Para que, com o passar dos anos, ela não perdesse a devoção e a inocência, Maria quis levá-la consigo. Mas antes, como uma mãe terna, foi preparando-a aos poucos. Uma noite, esta senhora apareceu-lhe acompanhada de muitas virgens que pareciam ter a mesma idade e disse-lhe: “Queres acompanhar estas donzelas e ser minha serva? Se Deus quiser, respondeu Musa, ficarei com prazer na companhia delas. Ora, disse a Virgem, se queres obter tal favor, tens de mudar os teus costumes, deixando de fazer tantas brincadeiras e frivolidades. Se assim fizeres, voltarei com elas daqui a um mês e tu te tornarás como uma destas belas donzelas. Ao ver isso, Musa ficou atônita e ficou tão séria que parecia ter amadurecido; ficava retraída, falava pouco, raramente ria, não fazia mais nenhuma ação de menina. Seus pais, vendo tal mudança, perguntaram-lhe o que havia acontecido, e ela contou-lhes tudo o que tinha visto. Eles acharam que era um sonho, mas como o prazo era curto, ficaram esperando o resultado. Aproximava-se o trigésimo dia, e a menina adoeceu de tal maneira que, num instante, ficou à beira da morte. Estando com os olhos fechados, ela os abriu de repente e viu a Santíssima Virgem, com a mesma companhia de antes, chamando-a. Musa respondeu: “Eis que vou, Senhora, vou, Senhora”, e, dizendo isso, morreu para se juntar ao coro das santas virgens no céu, cantando para sempre os louvores de Jesus e de sua Santíssima Mãe.
Jaculatória.
Oh, que prêmio e que coroa
À nossa fidelidade
O Senhor promete e dá
Na imensa eternidade.
Querido Deus, bondade infinita,
Quero ser fiel a vós;
Ofereço-vos o meu coração, ofereço-vos a minha vida.
Dai-me apenas um dia o céu.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Vigésimo nono dia. Um meio para garantir o Paraíso
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Um meio muito eficaz, mas bastante negligenciado pelos homens para ganhar o paraíso, é a esmola. Por esmola, entendo qualquer obra de misericórdia praticada ao próximo por amor a Deus. Deus diz na Sagrada Escritura que a esmola obtém o perdão dos pecados, mesmo que sejam em grande quantidade. Eleemosyna operit multitudinem peccatorum [A esmola cobre uma multidão de pecados]. O divino Salvador diz assim no Evangelho: o que sobra das vossas necessidades, dai-o aos pobres. Quem tem duas túnicas, dê uma ao necessitado, e quem tem mais do que o necessário, partilhe com quem tem fome (Lc 3,10). Deus nos assegura que tudo o que fazemos pelos pobres, Ele considera como feito a Ele mesmo; diz Jesus Cristo: “tudo o que fizerdes a um dos meus irmãos mais infelizes, a mim o fizestes” (Mt 25,40). Desejais que Deus perdoe os vossos pecados e vos livre da morte eterna? Dai esmola. Eleemosyna ab omni peccato et a morte liberat [A esmola livra de todo pecado e da morte] – (cf. Tb 4,10). Quereis impedir que a vossa alma vá para as trevas do inferno? Dai esmola. Eleemosyna non patietur animam ire ad tenebras [A esmola não permitirá que a alma vá para as trevas] – (Tb 4,10). Em suma, Deus nos assegura que a esmola é um meio muito eficaz para obter o perdão dos nossos pecados, para nos fazer encontrar misericórdia aos olhos de Deus e nos conduzir à vida eterna. Eleemosyna est quae purgat a peccato, facit invenire misericordiam et vitam aeternam [A esmola é o que purifica do pecado, faz encontrar misericórdia e vida eterna].
- Se, portanto, desejas que Deus tenha misericórdia de ti, começa tu a ter misericórdia dos pobres. Dirás: eu faço o que posso. Se fazes o que podes, fica tranquilo. Mas presta bem atenção ao que o Senhor te diz: dá aos pobres tudo o que te sobra: quod superest, date pauperibus. Por isso te digo que são supérfluas as aquisições e os aumentos de riqueza que tens ano após ano. É supérfluo o requinte que tens nos objetos de mesa, nos pratos, nos tapetes, nas roupas, que poderiam servir para quem tem fome, para quem tem sede e para cobrir os nus. É supérfluo o luxo nas viagens, nos teatros, nos bailes e outros divertimentos, onde se pode dizer que vai parar o patrimônio dos pobres.
Tu dirás: eu não tenho riquezas; se não tens riquezas, dá o que puderes. Mas não te faltam meios e maneiras de fazer esmola. Não há enfermos para visitar, assistir, velar? Não há jovens abandonados para acolher, instruir, hospedar em tua casa, se puderes, ou pelo menos conduzir onde possam aprender a ciência da salvação? Não há pecadores para admoestar, duvidosos para aconselhar, aflitos para consolar, brigas para acalmar, injúrias para perdoar? Vê com quantos meios podes fazer esmola e merecer a vida eterna! Não podes fazer mais do que alguma oração, alguma confissão, comunhão, recitar um rosário, assistir a uma missa em sufrágio das almas do purgatório, pela conversão dos pecadores, ou para que os infiéis sejam iluminados e venham à fé? Não é também uma grande esmola queimar livros perversos, difundir livros bons e falar o quanto puderes em honra da nossa santa religião católica.
- Outro motivo ainda deve nos estimular a dar esmolas, e é aquele que o Salvador menciona no santo Evangelho. Ele diz assim: não dareis aos pobres um copo de água fresca sem que o Pai celeste vos recompense. De tudo o que derdes aos pobres, recebereis o cêntuplo na vida presente e uma recompensa na vida eterna. De modo que dar algo aos pobres na vida presente é multiplicar, ou seja, é dar emprestado cem por um também na vida presente, reservando para nós a recompensa plena na outra vida.
Eis a razão pela qual se veem tantas famílias dar esmolas abundantes em todos os lugares e crescer sempre em riquezas e prosperidade. A razão é dada por Deus: dai aos pobres, e vos será dado; dai, e vos será dado. Ser-vos-á dado o cêntuplo na vida presente e a vida eterna na outra: centuplum accipiet in hac vita et vitam aeternam possidebit.
Exemplo
A história de Tobias é um modelo de como se deve dar esmola. Ele dizia ao seu filho estas palavras memoráveis: dá esmola de acordo com os teus recursos e nunca desvies o rosto de nenhum pobre, porque assim acontecerá que nem mesmo o rosto do Senhor se desviará de ti. Sê misericordioso na medida do possível. Se tens muito, dá em abundância; se tens pouco, dá o pouco que puderes, mas de boa vontade, pois a esmola será uma recompensa que ganharás agora e será um tesouro diante de Deus no dia da necessidade. Lembra-te, ó filho, que Deus ama quem dá de boa vontade (cf. Tb 4,7-8).
Imitemos também Maria em dar esmola. Guiada por um verdadeiro espírito de caridade, ela foi visitar Santa Isabel e ficou em sua casa por três meses, servindo-a como uma humilde serva. Ela foi convidada para um casamento na cidade de Caná, na Galileia. No meio do almoço, faltou vinho. Não podendo providenciá-lo, ela convidou seu filho Jesus, que, a pedido dela, transformou a água em vinho. Imaginemos quantas graças e bênçãos Maria obterá no céu de seu amado Jesus em favor daqueles que, com seus conselhos, suas obras, suas orações, suas esmolas ou de alguma outra maneira, praticam atos de misericórdia para com o próximo.
Jaculatória.
Feliz aquele que, neste mundo
Souber fazer com suas riquezas
A eterna felicidade
Na glória do Senhor.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Trigésimo dia. Maria, nossa protetora na vida presente
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Estamos neste mundo como num mar tempestuoso, como num exílio, num vale de lágrimas. Maria é a estrela do mar, o conforto no nosso exílio, a luz que nos indica o caminho do céu, enxugando as nossas lágrimas. E isso faz esta terna mãe, obtendo-nos contínuos auxílios espirituais e temporais. Não podemos entrar em algumas cidades, em algumas vilas, onde não haja algum monumento das graças obtidas por Maria aos seus devotos. Deixando de lado muitos santuários famosos da cristandade, onde milhares de testemunhos de graças recebidas pendem das paredes, menciono apenas o da Consolata, que felizmente temos em Turim. Vai, leitor, e com fé de bom cristão entra naquelas paredes sagradas e contempla os sinais de gratidão a Maria pelos benefícios recebidos. Aqui vês um doente enviado pelos médicos, que recupera a saúde. Ali, graça recebida, e há um que foi libertado das febres; ali outro curado da gangrena. Aqui, graça recebida, e eis alguém que foi libertado por intercessão de Maria das mãos dos assassinos; ali, outro que não foi esmagado por uma enorme rocha que caiu; ali, pela chuva ou pela serenidade obtida. Se você der uma olhada na praça do santuário, verá um monumento que a cidade de Turim ergueu a Maria no ano de 1835, quando foi libertada de uma terrível epidemia de cólera que assolava os bairros vizinhos.
- As graças mencionadas dizem respeito apenas às necessidades temporais, mas o que diremos das graças espirituais que Maria obteve e obtém para seus devotos? Seria necessário escrever grandes volumes para enumerar as graças espirituais que seus devotos receberam e recebem todos os dias pelas mãos desta grande benfeitora da humanidade. Quantas virgens devem a preservação de tal estado à proteção dela! Quanto conforto aos aflitos! Quantas paixões combatidas! Quantos mártires fortalecidos! Quantas armadilhas do demônio superadas! São Bernardo, depois de enumerar uma longa série de favores que Maria obtém todos os dias para seus devotos, termina dizendo que todo o bem que nos vem de Deus nos vem por meio de Maria: Totum nos Deus habere voluit per Mariam.
- Ela não é apenas o auxílio dos cristãos, mas também o sustento da Igreja universal. Todos os títulos que lhe damos lembram uma graça; todas as solenidades que se celebram na Igreja tiveram origem em algum grande milagre, em alguma graça extraordinária que Maria obteve em favor da Igreja.
Quantos hereges confundidos, quantas heresias extirpadas, a ponto de a Igreja expressar sua gratidão dizendo a Maria: Somente vós, ó grande Virgem, fostes aquela que erradicastes todas as heresias: cunctas haereses sola interemisti in universo mundo.
Exemplos
Relataremos alguns exemplos que confirmam as grandes graças que Maria obteve para seus devotos. Comecemos pela Ave Maria. A saudação angélica, ou seja, a Ave Maria, é composta pelas palavras ditas pelo anjo à Santa Virgem e pelas que Santa Isabel acrescentou quando foi visitá-la. A santa Maria foi acrescentada pela Igreja no século V. Nesse século, vivia em Constantinopla um herege chamado Nestório, homem cheio de soberba. Ele chegou à impiedade de negar publicamente o augusto nome de Mãe de Deus à Santíssima Virgem. Era uma heresia que visava derrubar todos os princípios da nossa santa religião. O povo de Constantinopla tremia de indignação diante de tal blasfêmia; e para esclarecer a verdade, foram enviadas súplicas ao sumo pontífice, que então se chamava Celestino, pedindo instantemente uma reparação ao escândalo. Em 431, o papa convocou um concílio geral em Éfeso, cidade da Ásia Menor, às margens do Arquipélago. Participaram desse concílio bispos de todas as partes do mundo católico. São Cirilo, patriarca de Alexandria, presidiu em nome do papa. Todo o povo, desde a manhã até a noite, permaneceu às portas da Igreja onde estavam reunidos os bispos; quando viu a porta se abrir e São Cirilo aparecer à frente de mais de 200 bispos, e ouviu pronunciar a condenação do ímpio Nestório, palavras de júbilo ressoaram em todos os cantos da cidade. Na boca de todos se repetiam as seguintes palavras: o inimigo de Maria foi vencido! Viva Maria! Viva a grande, a excelsa, a gloriosa mãe de Deus. Foi nessa ocasião que a Igreja acrescentou à Ave Maria estas outras palavras: Santa Maria, mãe de Deus, rogai por nós pecadores. Assim seja. As outras palavras agora e na hora da nossa morte foram introduzidas pela Igreja em tempos posteriores. A solene declaração do Concílio de Éfeso, o título augusto de Mãe de Deus dado a Maria, foi também confirmado em outros concílios, até que o Papa São Paulo V instituiu a festa da Maternidade da Bem-Aventurada Virgem, que se celebra todos os anos no segundo domingo de outubro. Nestório, que ousou rebelar-se contra a Igreja e blasfemar contra a Grande Mãe de Deus, foi severamente punido também na vida presente.
Outro exemplo. Na época de São Gregório Magno, uma grande peste assolava muitas partes da Europa e especialmente Roma. São Gregório, para fazer cessar este flagelo, invocou a proteção da Grande Mãe de Deus. Entre as obras públicas de penitência, ordenou uma procissão solene com a imagem milagrosa de Maria, venerada na Basílica de Libério, hoje Santa Maria Maior. À medida que a procissão avançava, a doença contagiosa se afastava daqueles bairros, até que, ao chegar ao local onde se encontrava o monumento do imperador Adriano (que por isso foi chamado de Castelo de Santo Ângelo), apareceu sobre ele um anjo em forma humana. Ele guardou a espada ensanguentada na bainha, em sinal de que a ira divina havia sido apaziguada e que, pela intercessão de Maria, o terrível flagelo estava prestes a cessar. Ao mesmo tempo, ouviu-se um coro de anjos cantando o hino: Regina coeli, laetare aleluia [Rainha do céu, alegrai-vos, aleluia]. O santo pontífice acrescentou a este hino mais dois versículos com a oração, e desde então começou a ser usado pelos fiéis para honrar a Anunciação do Senhor no tempo pascal, tempo de alegria pela ressurreição do Salvador. Bento XIV concedeu as mesmas indulgências do Angelus Domini [Anjo do Senhor] aos fiéis que o recitam no tempo pascal.
O costume de recitar o Angelus é muito antigo na Igreja. Não se sabendo a hora exata em que a Anunciação foi anunciada, se pela manhã ou ao entardecer, os primeiros fiéis a saudavam nestes dois momentos com a Ave Maria. Daí surgiu mais tarde o costume de tocar os sinos pela manhã e à tarde, para lembrar aos cristãos esta piedosa tradição. Acredita-se que isso tenha sido introduzido pelo pontífice Urbano II no ano de 1088. Ele havia ordenado isso para incitar os cristãos a recorrerem a Maria a fim de implorar pela manhã a sua proteção na guerra que então ardia entre os cristãos e os turcos, e à noite para implorar pela felicidade e concórdia entre os príncipes cristãos. Gregório IX, em 1221, acrescentou também o toque dos sinos ao meio-dia. Os pontífices enriqueceram este exercício de devoção com muitas indulgências. Bento XIII, em 1724, concedeu a indulgência de 100 dias cada vez que fosse recitada e, a quem a recitasse durante um mês inteiro, a indulgência plenária, desde que num dia do mês tivesse feito a confissão sacramental e a comunhão.
Jaculatória.
Ó Maria, nossa advogada,
Dispensadora de todas as graças,
Mensageira da salvação
Ao homem justo e ao pecador.
Ó Mãe piedosa, do céu,
Olhai para os vossos devotos,
Atendei aos nossos pedidos,
Ó grande Mãe do Senhor.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Trigésimo primeiro dia. Maria, nossa protetora na hora da morte
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Maria protege os seus devotos em todas as necessidades da vida, mas protege-os ainda mais na hora da morte. Como um capitão corre para defender a fortaleza quando ela está em perigo, assim Maria vem combater os inimigos da nossa alma, que farão todos os esforços para ganhar a nossa alma naqueles momentos extremos da vida. Maria será uma capitã terrível, que, como um exército bem ordenado, reprimirá os ataques do inimigo infernal; terribilis ut castrorum acies ordinata.
São Luís Gonzaga, nos últimos momentos de sua vida, confortado por Maria, não só não temia a morte, mas estava cheio de alegria à medida que se aproximava a última hora de sua vida. Notemos que Maria é tão terrível para os espíritos malignos que, como diz São Boaventura, ao invocar o seu nome, todo o inferno treme: ab invocatione nominis tui trepidat spiritus malignus. Por isso, o doente, livre das tentações, se dispõe a morrer santamente. Assim, o filho de Santa Brígida, chamado Carlos, foi libertado das ciladas do demônio, e a misericórdia da Mãe nem mesmo permitiu que os inimigos da alma entrassem no quarto do doente. Assim Deus revelou à mesma Santa Brígida.
- De fato, consideremos Maria como nossa mãe e teremos então alguma ideia das graças que ela nos obterá na hora da morte. As mães terrenas nunca abandonam seus filhos. Quanto mais crescem suas misérias e seus males, tanto mais elas se empenham com solicitude maternal para levantá-los em meio a qualquer perigo. Assim, Maria, que tanto ama seus filhos em vida, com que ternura, com que bondade não correrá para protegê-los nos últimos momentos, quando maior é a necessidade? Ela mesma revelou a Santa Brígida estas palavras precisas: Eu, como mãe fiel, quero estar presente na morte de todos aqueles que me serviram, quero estar presente, quero protegê-los, quero consolá-los.
- Maria ajuda a todos os seus devotos na hora da morte, aparecendo-lhes às vezes visivelmente. Tal é o sentimento de São Boaventura, de São Carlos Borromeu, de São Filipe Néri, de Santo Afonso e de muitos outros. Tal é também o pensamento da Igreja, que chama Maria auxilium christianorum: auxílio dos cristãos. Esta ajuda deve ser certamente maior quando os perigos são maiores, como na hora da morte. É precisamente isso que pedimos todos os dias quando dizemos: Santa Maria, rogai por nós na hora da nossa morte. Mas mais do que todas as outras são ternas e consoladoras as palavras que dizem os ministros sagrados e os outros que recitam o ofício da Bem-Aventurada Virgem, quando invocam: Maria, mãe da graça e da misericórdia, defendei-nos das ciladas do inimigo infernal e, na hora da morte, acolhei a nossa alma. Tu nos ab hoste protege, et mortis hora suscipe.
Exemplo
Eu poderia citar aqui muitos exemplos em que Maria se mostrou visivelmente favorável aos seus devotos à beira da morte. Escolho apenas um, remetendo o leitor especialmente à obra notável de Pallavicino, que relata cem casos, todos eles narrados com aquela reserva crítica que é a principal qualidade daquele ilustre escritor. O doutor da Igreja Vicente Belloacese expõe o seguinte. Um sacerdote foi chamado para prestar os últimos confortos da religião a uma moribunda. Tendo ido à igreja e levado consigo o Santo Viático, dirigiu-se ao local onde se encontrava a enferma. Entrando em um quarto miserável, desprovido de qualquer conforto, viu a pobre agonizante deitada sobre um pouco de palha, mergulhada nas mais graves misérias; sentiu então em seu coração uma dor de verdadeira compaixão; mas a dor transformou-se em surpresa quando viu um coro de virgens descer do céu propositadamente para prestar ajuda e conforto à pobre moribunda. E o que é mais notável, a própria Mãe de Deus, com sua mão santa, servia à sua devota. Diante de tal espetáculo, o padre não ousava avançar, quando a gloriosa Virgem lhe lançou um olhar benigno, e ele se ajoelhou, inclinando a testa até o chão para adorar seu Filho sacramentado. Feito isso, Ela e as outras Virgens também se inclinaram profundamente, levantaram-se e retiraram-se para deixar livre o caminho ao sacerdote. Além disso, quando a viúva pediu para se confessar antes de receber a Santa Hóstia, a Virgem Santa imediatamente se levantou do chão e, não encontrando nada, pegou um assento rústico e, com as próprias mãos, o levou para o lugar onde o confessor poderia ouvir melhor a confissão sacramental. O humilde padre não ousava sentar-se na presença de Jesus e Maria; mas foi obrigado a sentar-se para obedecer aos sinais de Maria. Depois de ouvir a confissão, administrou o viático àquela alma feliz, que, transportada pelo amor de Deus, pela companhia de Maria e das outras Virgens gloriosas, separou-se do corpo para voar para o céu e agradecer por todos os séculos à sua grande benfeitora.
Jaculatória.
Ó Mãe incomparável,
Que em vida e na hora extrema
Sois nossa verdadeira esperança,
Confortai o nosso coração.
Fazei com que, nos últimos suspiros,
Da morte no terrível horror,
A alma e o coração pronunciem:
Maria, esperança, amor.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Primeiro dia de junho. Maneira de garantir a proteção de Maria
Antes de fazer a leitura diária, dir-se-á: Deus, in adjutorium meum intende. – Domine ad adjuvandum me festina [Vinde, ó Deus, em meu auxílio – Socorrei-me sem demora]. – Glória ao Pai… – Meu Jesus, misericórdia.
- Agora que terminamos o mês de Maria, considero oportuno, para concluir, dar-vos algumas lembranças úteis para garantir a proteção desta nossa grande Mãe na vida e na morte. Maria, sendo nossa mãe, certamente deve abominar as ofensas feitas a Jesus, seu filho. Portanto, quem deseja gozar da sua proteção na vida e na morte, deve abster-se do pecado. Seria vã a nossa esperança, se acreditássemos gozar da proteção de Maria, ofendendo seu filho Jesus, a quem ela ama acima de tudo. Mas não devemos apenas evitar ofender Jesus, mas também meditar com todas as forças do nosso coração os mistérios divinos da sua paixão e segui-lo na penitência. Maria mesma disse um dia a Santa Brígida: filha, se queres fazer-me uma coisa agradável, ama de coração o meu filho Jesus.
Maria é refúgio dos pecadores, por isso também nós devemos empenhar-nos com conselhos santos, com solicitude, orações, bons livros e de outras maneiras para conduzir as almas a Jesus e aumentar os filhos de Maria. Nada está mais no coração de Jesus do que a salvação das almas; por isso Maria, que ama ternamente o seu Filho, não pode receber homenagem mais agradável do que aquela que se faz ganhando-lhe alguma alma.
Devemos também procurar oferecer-lhe em homenagem a vitória de alguma paixão. Assim, se alguém de natureza colérica, frequentemente irrompe em atos de impaciência, em imprecações e blasfêmias, ou se adquiriu o hábito de falar obscenamente e com pouco respeito pelas coisas da religião, convém que refreie a sua língua para prestar uma homenagem agradável à Virgem. Em suma, é preciso que cada um se esforce por fugir do mal e fazer o bem por amor a Maria.
- Entre as muitas homenagens que podemos prestar a Maria, estão a preparação para celebrar devotamente as suas solenidades com tríduos, novenas e oitavas, segundo o costume, seja nas igrejas públicas, seja nas casas particulares. Santa Isabel, rainha de Portugal, jejuava a pão e água todos os sábados e todas as vigílias que antecediam as solenidades da Virgem. Outros costumam se confessar e comungar todos os dias festivos, como faziam São Luís Gonzaga, Santo Estanislau Kostka e outros. Outros dão esmola aos pobres, em sufrágio das almas que foram mais devotas de Maria em vida. Há também alguns devotos de Maria que, em sua honra, assistem frequentemente à Santa Missa com a intenção de agradecer à Santíssima Trindade, que elevou Maria ao mais belo trono do céu. Outros reverenciam com culto especial os santos mais próximos a ela, como São José, seu santíssimo esposo, São Joaquim e Santa Ana, seus felicíssimos pais.
- Existem ainda práticas especiais de devoção, que são como chamas de fogo que inflamam esta piedosa Mãe de amor por nós. Por exemplo, o Angelus pela manhã, ao meio-dia e à noite; o Rosário todos os dias ou pelo menos em todos os dias festivos; assistir às vésperas, participar dos exercícios de piedade que se fazem aos sábados em honra do seu coração imaculado. Mas recomendo-vos que todas as noites, antes de vos deitardes, digais três vezes a seguinte jaculatória: “Querida Mãe Virgem Maria, fazei que eu salve a minha alma”. Lembremo-nos sempre que ser devoto de Maria é um dos meios mais seguros para alcançar a vida eterna. Ela mesma nos assegura dizendo: aqueles que são meus devotos terão a vida eterna: qui elucidant me, vitam aeternam habebunt.
Exemplo
Recomendo-vos que nunca deixeis passar um sábado sem fazer algo em honra de Maria. Desde os primeiros tempos da Igreja, os cristãos costumavam praticar alguma devoção à Santa Virgem no dia de sábado. O dia de sábado significa descanso, e foi escolhido para aludir ao descanso, ou seja, à morada que o Verbo Divino se dignou fazer no seio puríssimo de Maria. Um dos mais fervorosos propagadores do culto a Maria no sábado foi Santo Ildefonso, arcebispo de Toledo. Ele compôs alguns cânticos em louvor a esta mãe misericordiosa e, no sábado seguinte, ouviu os anjos cantá-los na igreja, no meio dos quais estava a própria Virgem Maria. Depois deste fato, o culto do sábado se propagou rapidamente por toda a Europa. Desde o século X, era costume abster-se de carne nesse dia em honra de Maria. Pouco depois, foi composta a oração e o ofício próprio para ser recitado nesse dia. Tanto a oração como o ofício foram aprovados pelo pontífice Urbano II no concílio de Chiaramonti, no ano de 1095. Não deixemos passar nenhum sábado sem praticar algum ato de virtude em honra de Maria e, se pudermos, façamos a santa comunhão ou, pelo menos, vamos ouvir uma missa em sufrágio das almas do purgatório.
Jaculatória.
Oh, se um dia eu pudesse ver
Todos os corações languescer de amor
Por uma rainha tão bela e ouvir
Seu nome por toda parte;
De modo que em toda a terra
Ressoasse com doce harmonia:
Viva, viva para sempre Maria,
Viva Deus que tanto a amou.
Oração. Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…
Para oferecer o coração a Maria, escolhe-se o primeiro dia de junho, consagrado ao seu sagrado coração, ou também outro dia antes ou depois, especialmente se for uma festa solene, como Pentecostes, Corpus Christi ou semelhantes. Para oferecer a si mesmo e todo o mês, que dedicareis em honra de Maria, no dia anterior à santa Confissão, vos disporeis a receber a Santíssima Comunhão com singular fervor e disposição de pensamentos piedosos e afetos devotos, após o que, tendo feito o agradecimento habitual, devereis com fervor:
- Oferecer a Maria todas as devoções que praticastes durante todo o mês e apresentá-las como obséquio ao seu adorável coração.
- Venerar agora e ao longo do dia o coração de Maria, que, como revelou o Senhor, é o objetivo do seu amor e do amor de todos os corações depois do amor de Jesus, é cheio de toda a graça, é aquele coração de onde e por onde toda a graça desce sobre nós.
- Uni o vosso coração ao coração de todos os santos, especialmente daqueles que nesta vida foram mais devotos de Maria, para assim suprir a imperfeição do vosso amor.
- Pedi à Virgem, que aceite para sempre a oferta que fazemos do nosso coração, concedendo-nos um dia poder ir prestar-lhe homenagem perfeita no céu, como agora a prestamos fracamente na terra.
- Nesse dia, recitai as vossas orações com mais fervor e devoção, visitai alguma igreja ou imagem de Maria, dai alguma esmola; enfim, empregai-o da maneira mais santa que puderdes.
Que Jesus e Maria vivam sempre em vosso coração.
Fórmula da oferta do coração a Maria
Santíssima Virgem, Mãe de Deus Maria, eu, N. N., embora pecador indigno, prostrado a vossos pés, na presença do Deus Todo-Poderoso e de toda a Corte celeste, apresento-vos e ofereço-vos o meu coração com todos os seus afetos: consagro-o a vós e desejo que seja sempre vosso e do vosso querido Jesus. Aceitai, ó Mãe benigníssima, deste vosso pobre servo a oferta devota unida ao coração de todos os santos, e fazei com que a partir deste momento eu comece e continue a viver no futuro unicamente para vós, para o vosso santíssimo Filho e meu Deus. Com a sua ajuda divina e com a vossa assistência amorosa, espero conseguir, e, da minha parte, prometo. Entre os vossos dois corações, Jesus e Maria, colocai o meu pobre coração, para que se inflame todo do vosso amor puríssimo, a fim de que, vivendo do vosso belo fogo na terra, arda depois de amor eterno por vós lá em cima no céu, na companhia dos anjos e dos santos.
Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria, que nunca se ouviu dizer que algum daqueles que tenha recorrido à vossa proteção, implorado a vossa assistência e reclamado o vosso socorro, fosse por vós desamparado. Animado eu, pois, de igual confiança, a vós, ó Virgem, entre todas singular, como a Mãe recorro, de vós me valho, e, gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos vossos pés. Não desprezeis as minhas súplicas, ó Mãe do Filho de Deus humanado, mas dignai-vos de as ouvir propícia e de me alcançar o que Vos rogo. Amém.
Indulgências concedidas pelo Papa Pio IX
Com grande consolação anunciamos aos nossos leitores que o Santo Padre, o Papa Pio IX, dignou-se conceder a bênção apostólica a todos aqueles que, de alguma forma, se empenham na difusão das Leituras Católicas.
O sacerdote João Bosco, no vivo desejo de promover louvores e cânticos espirituais em honra de Deus, da Bem-Aventurada Virgem Maria e dos santos, suplicou ao Sumo Pontífice Pio IX que concedesse as seguintes indulgências, às quais o Santo Padre benignamente acedeu, assinando o venerado rescrito de seu próprio punho.
- Indulgência de um ano para quem ensinar gratuitamente o canto das laudes sagradas, praticando-o em público ou em privado pelo menos algumas vezes; outra de cem dias para quem praticar o exercício em oratório público ou privado sempre que for celebrado.
- Indulgência plenária a ser lucrada no encerramento do mês mariano por aqueles que, durante o mesmo, se ocuparam de maneira especial em cantar louvores sagrados na igreja e participaram da devoção do mês mariano.
- Indulgência plenária uma vez por mês para aqueles que, em pelo menos quatro dias festivos ou mesmo feriais, participarem cantando ou ensinando cânticos sagrados; e esta indulgência será obtida no dia em que se fizer a Confissão e a Comunhão. Para que se possam obter as indulgências mencionadas, é necessário que os louvores tenham a aprovação da autoridade eclesiástica.
- Tais indulgências podem ser aplicadas às almas dos fiéis defuntos.
Romae apud S. Petrum, die 7 aprilis 1858. [Roma, junto a São Pedro, dia 7 de abril de 1858]
Benigne annuimus iuxta petita [De boa vontade acolhemos o pedido]
PIUS P. P. IX.
Louvai Maria,
Ó línguas fiéis.
Ressoe nos céus
A vossa harmonia.
Louvai, louvai, louvai Maria.
Maria, tu és lírio
De pura candura
Que enamora o coração
Do Verbo, teu Filho.
Louvai, louvai, louvai Maria.
De luz divina
Tu és a nobre aurora,
O sol te adora.
A lua se inclina.
Louvai, louvai, louvai Maria.
Com pés poderosos
O chefe inimigo
Tu oprimes a antiga
Serpente maligna.
Louvai, louvai, louvai Maria.
Seu seio puro
Deu alimento e abrigo
Ao grande menino
Jesus Nazareno.
Louvai, louvai, louvai Maria.
Já reinas feliz
Entre coros angelicais,
Com cantos sonoros
Exaltada por todos.
Louvai, louvai, louvai Maria.
O céu te dá
As graças mais belas,
E um círculo de estrelas
Forma tua coroa.
Louvai, louvai, louvai Maria.
Ó Mãe de Deus,
E mística rosa
Socorres piedosa
O meu espírito.
Louvai, louvai, louvai Maria.
Com aprovação da Revisão Eclesiástica.
Turim, tip. G. B. Paravia e Compagnia, 1858
[1] V. O mês de maio; Gênova, 1747.
[2] O Papa Pio IX, gloriosamente reinante, concede a indulgência de cem dias cada vez que se recitar esta jaculatória.
[3] O Papa Pio IX, gloriosamente reinante, concede a indulgência de cem dias cada vez que se recita esta jaculatória.
[4] O Papa Pio IX, gloriosamente reinante, concedeu a indulgência de trezentos dias cada vez que se recitar esta oração de São Bernardo com coração contrito, e a indulgência plenária a quem a recitar durante um mês inteiro, a ser lucrada num dia do referido mês escolhido a critério próprio.
[5] O Papa Pio IX , gloriosamente reinante, concede 300 dias de indulgência cada vez que se recita esta jaculatória; e quem a recitar todos os dias durante um mês ganhará indulgência plenária no dia em que fizer a sua confissão e a sua comunhão.
[6] O Papa Pio IX, gloriosamente reinante, concede a indulgência de 100 dias cada vez que se recitar esta jaculatória, e a indulgência plenária a quem a recitar durante um mês, no dia em que fizer a confissão e a comunhão.

