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El Greco, São Pedro e São Paulo, 1595-1600, óleo sobre tela, Museu Nacional d’Art de Catalunya, Barcelona
O sonho que Dom Bosco contou aos seus irmãos na noite entre 12 e 13 de maio de 1884 oferece uma janela privilegiada para o dinamismo espiritual que animava o “pai e mestre da juventude”. Nessa cena onírica, os grandes apóstolos Pedro e Paulo aparecem a ele com vestes orientais, quase a lembrar a abertura universal da Igreja e a continuidade de sua missão. O diálogo – simples, afável, mas carregado de referências bíblicas – torna-se uma exortação concreta: reimprimir e difundir suas vidas, para que os jovens do Oratório encontrem modelos de fé viva. No centro, a invocação comovida a Maria, “Rainha dos Apóstolos”, ilumina todo o relato com a típica nota mariana da espiritualidade salesiana, fundindo contemplação e ação apostólica em uma única visão.
Estando nessa situação, na noite do dia 13 teve um sonho, que ele narrou, quando começou a se recuperar. Pareceu-lhe estar numa casa onde encontrou São Pedro e São Paulo. Vestiam uma túnica que chegava até um pouco abaixo dos joelhos, e traziam na cabeça um chapéu de tipo oriental. Sorriam a Dom Bosco. Perguntando-lhes se tinham alguma missão para ele ou para outra pessoa a ser transmitida, não responderam à pergunta, mas começaram a falar do Oratório e dos jovens. De repente, chega um amigo de Dom Bosco, muito conhecido entre os salesianos, mas que Dom Bosco não recordava quem ele fosse.
– Veja quem são essas duas pessoas, então disse ao recém-chegado.
O amigo olhou e exclamou:
– Mas quem é que estou vendo? Possível? São Pedro e São Paulo?
Dom Bosco, então, repetiu a solicitação feita um pouco antes aos dois Apóstolos que, embora se mostrassem muito afáveis, todavia, evasivamente, continuaram a falar de outros assuntos. Depois, de repente, São Pedro lhe pergunta:
E a Vida de São Pedro?
Também São Paulo intervém:
– E a Vida de São Paulo?
– É verdade – confessou Dom Bosco – em ato de humilde pedido de desculpas. De fato, ele tinha pensado em reimprimir aquelas duas Vidas, mas depois acabou esquecendo completamente.
– Se não fizer logo, não terá mais tempo, advertiu-o São Paulo.
Nesse interim, São Pedro descobriu a cabeça; ela apareceu calva, com dois tufos de cabelos nas têmporas: tinha o aspecto de um velhinho rubicundo. Afastando-se um pouco, pôs-se a rezar. Dom Bosco queria segui-lo, mas São Paulo ordenou-lhe:
– Deixe-o rezar!
Dom Bosco respondeu:
– Gostaria de ver diante de que coisa ele se ajoelhou.
E foi até junto dele e viu que estava diante de uma espécie de altar, mas que não era altar, e perguntou a São Paulo:
– Mas não há velas?
– Não há necessidade de velas, onde há o sol eterno, respondeu-lhe o Apóstolo.
– Não vejo nem a mesa do altar.
– A vítima não se sacrifica, se ela vive para sempre.
– Mas, afinal, não há altar?
– O altar, para todos, é o Monte Calvário.
Então São Pedro, com voz alta e harmoniosa, mas sem cantar, rezou assim:
– Glória a Deus Pai Criador, glória a Deus Filho Redentor, glória a Deus Espírito Santificador. Só a Deus seja honra e glória por todos os séculos dos séculos. A ti seja louvor, ó Maria. O céu e a terra te proclamam sua Rainha. Maria… Maria… Maria. Pronunciava esse nome com uma pausa entre uma exclamação e outra, com tal expressão de afeto e num crescendo de tão grande comoção que não era possível descrever e se derramavam lágrimas de ternura.
São Pedro levantou-se, e São Paulo ajoelhou-se no mesmo lugar, onde, com voz distinta, também começou a rezar:
– Oh profundidade dos arcanos divinos! Grande Deus! Os teus segredos são inacessíveis aos mortais. Somente no céu será possível penetrar sua profundidade e majestade, acessível unicamente aos habitantes das alturas. Ó Deus Uno e Trino, a ti seja a honra, a salvação e a ação de graças de todos os pontos do universo. O teu nome, ó Maria, seja louvado e abençoado por todos. Cantam no céu a tua glória, e sobre a terra sé sempre o auxílio, o consolo, a salvação. Regina Sanctorum omnium, alleluia, alleluia (Rainha de todos os Santo, aleluia, aleluia).
Dom Bosco, ao narrar o sonho, terminou dizendo:
– Essa oração, pelo modo de proferir as palavras, provocou em mim tal emoção, que comecei a chorar e acordei. Em seguida, ficou na minha alma uma indizível alegria.
(MB XVII 27-29 / MB XVII PT-BR 27-28)

