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Em 16 de julho, a Igreja celebra a memória da Bem-Aventurada Virgem Maria do Monte Carmelo. É uma festa que parece pertencer inteiramente à família carmelita, com o seu escapulário, os seus santos, a sua longa tradição contemplativa. No entanto, folheando os escritos de Dom Bosco, descobre-se com surpresa o quanto o santo dos jovens conhecia, amava e contava de bom grado a história do Carmelo. Não se trata de um interesse marginal: o Carmelo entra nos seus livros de história sagrada, nas suas obras de divulgação mariana, nas suas escolhas espirituais para as Filhas de Maria Auxiliadora, e até nas suas viagens. É um aspecto pouco conhecido da devoção mariana de Dom Bosco.
O Carmelo contado aos jovens
Dom Bosco foi, entre mil outras coisas, um incansável escritor e editor popular. Nas suas Leituras Católicas quis colocar nas mãos do povo e dos jovens a história da Igreja, e em particular as vidas dos papas. Em 1857, apresentando a figura de São Telésforo, o oitavo papa da série dos pontífices, Dom Bosco detém-se de bom grado para explicar de onde vinha aquele santo: tinha sido um anacoreta do Monte Carmelo.
Com o seu estilo simples e narrativo, Dom Bosco explica aos leitores que aquele “gênero de vida” – monges, eremitas, anacoretas, solitários – “é muito antigo”, e que os profetas Elias e Eliseu “se tinham retirado sobre um alto monte da Palestina chamado Carmelo, onde foram seguidos por muitos outros”. Os chefes daquelas comunidades eram chamados profetas, os discípulos “filhos dos profetas”, porque o superior era “um verdadeiro pai espiritual que se empenhava pelo seu bem espiritual e temporal, e especialmente para conduzi-los a Deus”. É interessante notar como Dom Bosco, quase sem perceber, descreve no pai espiritual do Carmelo antigo o retrato daquilo que ele mesmo queria ser para os seus jovens de Valdocco: um pai que cuida do bem espiritual e temporal, para conduzir a Deus.
Seguindo a tradição então comumente aceita, Dom Bosco conta que depois de Pentecostes muitos fervorosos fiéis se retiraram no Carmelo e começaram a ser chamados Carmelitas; e que aqueles monges, “arrebatados pelas maravilhas que ouviam contar da Bem-Aventurada Virgem”, lhe ergueram uma igreja sobre aquele monte “no tempo em que a Grande Mãe de Deus vivia ainda entre os mortais, por volta do ano 38 de Jesus Cristo”. E acrescenta, com evidente complacência: “Acredita-se comumente que esta seja a mais antiga igreja da cristandade fora de Jerusalém”. Aquele santuário tornou-se meta de peregrinos “de todas as partes”, e a Igreja – anota Dom Bosco – “recorda este glorioso acontecimento na solenidade que se celebra no dia 16 de julho”.
Também na sua História Sagrada para as escolas primárias (1876), Dom Bosco não esquece o Carmelo. No pequeno dicionário dos nomes bíblicos distingue com precisão a cidade de Carmelo, na tribo de Judá, do monte “entre Ptolemaida e Dora no Mediterrâneo, célebre pela morada de Elias e pelas maravilhas por ele ali operadas”, e anota que “os Carmelitas tiram o nome deste monte por causa dos profetas Elias e Eliseu que ali habitaram, e que eles consideram como seus fundadores”. Até num manual escolar, portanto, Dom Bosco encontrava o modo de dar a conhecer aos jovens as raízes proféticas do Carmelo.
A nuvenzinha do Carmelo e Maria Auxiliadora
Mas o texto mais surpreendente é de 1877, e traz um título todo carmelita: A nuvenzinha do Carmelo, ou seja, a devoção a Maria Auxiliadora premiada com novas graças. Dom Bosco, o grande apóstolo de Maria Auxiliadora, escolhe como imagem da devoção que está difundindo no mundo justamente a pequena nuvem que o profeta Elias viu subir do mar no alto cume do Carmelo (cf. 1Rs 18,44): aquela nuvenzinha que, depois de três anos de seca, trouxe a chuva sobre a terra ressequida, e que a tradição sempre leu como “uma insigne figura de Maria”. Ele mesmo escreve: “À nuvenzinha vista pelo profeta Elias é justamente comparada nestes últimos tempos a devoção a Maria Auxiliadora”.
A comparação é audaciosa e belíssima: como a nuvenzinha do Carmelo, pequena como a mão de um homem, cresceu até cobrir o céu e derramar sobre a terra a chuva benéfica, assim a devoção à Auxiliadora, partida do humilde santuário de Valdocco, ia se dilatando levando a toda parte uma chuva de graças. Para Dom Bosco, o Carmelo não é, portanto, uma “outra” devoção em relação a Maria Auxiliadora: é a mesma Mãe, contemplada na fonte da sua história entre os homens.
Naquela pequena obra Dom Bosco mostra como “pelos próprios fiéis da Igreja primitiva se fazia um constante recurso a Maria como poderoso auxílio dos cristãos”, e relata com comoção a narração de São João Damasceno sobre a gloriosa dormição da Virgem: os apóstolos reunidos milagrosamente em Jerusalém, o canto dos anjos por três dias junto ao sepulcro do Getsêmani, e por fim o túmulo encontrado vazio, sinal de que o corpo imaculado de Maria tinha sido “honrado com a trasladação ao céu antes da ressurreição comum e universal”.
E aqui Dom Bosco insere, referindo-o do ofício litúrgico de 16 de julho, o coração da tradição carmelita: desde os dias em que Maria ainda vivia, muitos homens piedosos, tomados “por especial afeto para com a Santíssima Virgem”, construíram no Carmelo – lá onde Elias tinha visto subir a nuvenzinha – um pequeno santuário em sua honra, reunindo-se todos os dias para venerá-la “como singular protetora da Ordem”; por isso foram chamados “os irmãos da bem-aventurada Virgem do monte Carmelo”. Dom Bosco recorda também o dom do escapulário: a própria Maria “estabeleceu para eles como divisa um sagrado escapulário, que deu ao bem-aventurado Simão Stock, inglês, para que com este escapulário celeste se distinguisse aquela sagrada ordem e fosse protegido de todo mal quem o usasse”. O santo educador, que tanto recomendava aos seus jovens os sinais concretos da piedade, olhava com simpatia para aquele “escapulário celeste” que colocava a proteção de Maria literalmente sobre os ombros dos seus devotos.
Os santos do Carmelo na vida de Dom Bosco
O apreço de Dom Bosco pelo Carmelo não parou nos livros. Em 1865 publicou a Vida da bem-aventurada Maria dos Anjos, carmelita descalça turinense, dando a conhecer aos seus leitores uma filha de Santa Teresa crescida justamente em Turim, quase a dizer que a santidade do Carmelo florescia também à sombra da sua cidade. E quando em 1883 fez a célebre viagem a Paris, a sua primeira Missa na capital francesa celebrou-a justamente no Carmelo da Avenida de Messine. O epistolário conserva a memória das relações com a superiora daquele mosteiro – que levava, por uma sugestiva coincidência, o mesmo nome da bem-aventurada turinense: Maria dos Anjos.
Mas a figura carmelita que mais marcou o coração de Dom Bosco foi sem dúvida Santa Teresa de Ávila, a “filha e mãe do Monte Carmelo”. Numa sua página de 1871 descreve-a com admiração: “encerrada num claustro, oprimida por enfermidades, perseguida pelos homens e pelos demônios, no meio da aridez mais desoladora conservava toda a alegria do seu bom espírito”, a ponto de louvar uma sua religiosa “tão espirituosa a ponto de fazer rir toda a comunidade”. É fácil entender por que aquele retrato o conquistasse: a santidade alegre era o próprio coração do seu sistema educativo.
Não surpreende então que, fundando as Filhas de Maria Auxiliadora, Dom Bosco tenha querido Santa Teresa entre as padroeiras do Instituto. As Constituições de 1885 estabeleciam que se celebrassem com particular devoção e solenidade as festas de São José, de São Francisco de Sales e de Santa Teresa de Jesus, “Padroeiros particulares do Instituto”. E o próprio Dom Bosco ali escreveu que “Santa Teresa queria as Religiosas alegres, sinceras e abertas”, indicando à Mestra das noviças para formar assim as suas alunas, porque freiras daquele caráter são as mais adequadas para inspirar às jovens estima e amor pela piedade. Visitando a comunidade de Alassio, exortava as freiras com uma frase que ficou famosa: “Recomendo-vos santidade, sanidade, ciência… e alegria! Fazei-vos todas santas Teresas!”.
Havia também uma raiz histórica: as primeiras Filhas de Maria Auxiliadora vinham do grupo das Filhas da Imaculada de Mornese, cuja formação era em grande parte “teresiana”. Graças ao padre Frassinetti conheciam páginas do Caminho de perfeição, e Maria Domingas Mazzarello amava ler e meditar as petições do Pai-Nosso de Santa Teresa. Escolhendo Teresa como padroeira, Dom Bosco não impunha nada de estranho: confirmava uma espiritualidade que em Mornese já era viva e respirada.
Uma afinidade profunda
O que via então Dom Bosco no Carmelo? Reconhecia ali traços profundamente afins ao seu espírito: o realismo espiritual, uma vida interior unificada pelo amor, uma oração simples e afetiva feita com o coração, a alegria como sinal de uma espiritualidade sadia, a harmonia entre contemplação e ação, e sobretudo o amor filial e terníssimo a Nossa Senhora. O Carmelo mostrava-lhe que se pode ser todo de Maria vivendo inteiramente para as almas; e Maria Auxiliadora, para ele, era a mesma Virgem do Carmelo que continua do céu, “com o maior sucesso, a missão de mãe da Igreja e auxiliadora dos cristãos que havia começado na terra”.
O dia 16 de julho, então, é um pouco festa também para a Família Salesiana. Olhando a nuvenzinha que sobe do mar no cume do Carmelo, podemos repetir com Dom Bosco que aquela pequena nuvem é figura da Mãe que não cessa de trazer chuva de graças sobre a terra sedenta: ontem no monte de Elias, hoje em qualquer lugar onde um jovem levanta os olhos para Maria, Auxílio dos cristãos.

