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Continuamos com o sétimo e último episódio sobre os textos principais do sistema preventivo de Dom Bosco.
Artigo anterior: O sistema preventivo (6/7). A um formador de padres. A resposta ao reitor do Seminário de Montpellier, Dupuy
O olhar retrospectivo: a exposição das Memórias Biográficas
A última etapa é de natureza diferente das anteriores, e a série deve dizer isso abertamente ao leitor. O capítulo XLVII do quarto volume das Memórias Biográficas não é um texto publicado por Dom Bosco em vida: é a reconstrução sistemática que o padre João Batista Lemoyne compõe reunindo práticas, testemunhos e lembranças da primeira geração, e a situa narrativamente nos anos por volta de 1851-1853. Segue-se, no capítulo XLVIII, a palavra sobre os castigos.
Seu valor não é, portanto, de fonte direta, mas de recepção: diz-nos como os primeiros salesianos haviam compreendido e reorganizado o que tinham visto fazer. Lido no final da série, funciona como um espelho: permite medir o quanto da prática do fundador já havia passado para a doutrina compartilhada.
(MBp IV, 487-499, todo o capítulo XLVII)
«CAPÍTULO XLVII – O Sistema Preventivo – Sua aplicação – Suas vantagens
De quanto já expusemos nos volumes precedentes, certamente os nossos leitores já terão formado um juízo exato do sistema aplicado por Dom Bosco na educação da juventude. Este não era um sistema repressivo, mas sim um sistema preventivo, mais adequado à razão e à religião. A religião ensina a caridade que combate a soberba e o egoísmo, torna sociáveis, agradecidos e respeitosos uns com os outros, espontaneamente obedientes em relação àqueles que têm o direito e a obrigação de comandar, e adorna os mais rudes com uma gentileza um tanto natural porque exclui o temor.
Depois, a razão demonstra com a experiência que sem verdadeira afeição é inútil o ministério do educador. A primeira felicidade de um menino é saber que é amado. Ele corresponde a esse amor, persuade-se de quanto o professor afirma, ama tudo o que o mestre ensina. A ele, agrada-lhe o que ao mestre agrada. Afeiçoa-se por todo o tempo da vida à verdade e aos ensinamentos assimilados por ele. Por fim, sente-se inclinado à mesma profissão sacerdotal ou religiosa de seu educador e o ama como o pai de sua alma.
Nesses anos, o Sistema Preventivo tinha se tornado uma necessidade. As aspirações populares de um governo mais indulgente, secundadas pelos respectivos príncipes, faziam os jovens exigirem de seus superiores uma direção mais afetuosa e paterna. Portanto, um sistema de educação rude e repressivo como o praticado em certos tempos ter-se-ia tornado repulsivo pela natureza dos tempos. Entre outros males, teria gerado dois muito graves: afastaria os jovens do Oratório, para onde se dirigiam espontaneamente e de onde podiam se retirar de livre e espontânea vontade, sem que nenhuma lei ou autoridade os detivesse; e ficariam confirmadas entre eles as más notícias que jornalistas mercenários, saltimbancos e histriões espalhavam de que os padres eram tiranos, inimigos da liberdade e exploradores do povo.
Por meio de seu Sistema Preventivo, Dom Bosco impediu que tal malefício se infiltrasse entre seus jovens. Por isso, o Oratório sempre foi muito frequentado, tanto que se tornou obrigatória a abertura de novos Oratórios em vários bairros da cidade. Se, entretanto, alguma língua maldosa viesse a ser inconveniente com relação aos padres na presença dos jovens, era-lhes bastante lembrar o tratamento da requintada bondade que Dom Bosco usava em favor deles. Isso daria aos maldizentes um solene desmentido.
Nas oficinas, diversas vezes, foi aduzido esse argumento contra aqueles que falavam mal dos padres. Muitos recordam que, então, não sabendo o que responder, os murmuradores respondiam:
– Se os padres fossem todos como o seu Dom Bosco, vocês teriam razão. Mas não é assim, não!
No entanto, os que viam o Teólogo Borel, Chiaves ou Carpano, Murialdo, Vola ou Marengo e outros exemplares sacerdotes a formar esplêndida coroa a Dom Bosco e esmerarem-se por imitá-lo no querer bem e no tratar os jovens e mesmo os malandros de amigos e de pais, estavam firmes em suas convicções, julgavam as maledicências calúnias, como de fato o eram. E seguiam em frente.
Dessa maneira, com o amor e o apego à Religião Católica, cultivavam para com os seus ministros grande estima e veneração. Não se tem o direito de duvidar de que esses frutos eram devidos à educação que lhes ministravam Dom Bosco e seus pacientes colaboradores.
Esse sistema, Dom Bosco o tinha comprovado, com muito bons resultados para o bem-estar moral dos jovens. Depois de ter infundido em seus ajudantes essa prática e feito diversos encontros com o Teólogo Eugênio Galletti, pároco do Corpus Domini, por fim escreveu brevemente sobre os dois sistemas, demonstrando em que consistem o repressivo e o preventivo. Depois explicou por que era preferível o segundo ao primeiro, ensinando a aplicação prática e desvendando-lhe as grandes vantagens. Esse utilíssimo escrito veio à luz, depois, no Regulamento para as Casas Salesianas. Cremos ser do interesse dos leitores que seja reproduzido aqui. Assim, escreveu Dom Bosco:
São dois os sistemas até hoje usados na educação da juventude: o Preventivo e o Repressivo. O Sistema Repressivo consiste em tornar conhecida a lei aos súditos e depois vigiar para conhecer os seus transgressores e infligir, quando necessário, o merecido castigo. Nesse sistema, as palavras e o aspecto do superior devem ser sempre severos e até ameaçadores, e ele próprio deve evitar qualquer familiaridade com os dependentes. Além disso, o Diretor, para dar maior prestígio à sua autoridade, raramente deverá achar-se entre seus dependentes e só quando se trata de punir e ameaçar. Esse sistema é fácil, menos trabalhoso. Serve especialmente para soldados e, em geral, entre adultos e ajuizados, que devem, por si mesmos, estar em condição de saber e lembrar o que é conforme às leis e outras determinações.
Diferente, e eu diria oposto, é o Sistema Preventivo. Este consiste em fazer conhecer as prescrições e os Regulamentos de um Instituto e, depois, vigiar, de modo que os alunos estejam sempre sob os olhares do diretor e dos assistentes, que, como pais amorosos, devem falar e servir de guias em todas as circunstâncias, dando conselhos e amorosamente corrigindo-os, o que quer dizer: “Colocar os alunos na impossibilidade de cometer faltas”. Esse sistema apoia-se todo na razão, na religião e na bondade. Exclui, por isso, todo castigo violento e procura evitar também os castigos leves. Parece que esse método seja preferível pelos seguintes motivos:
1. O aluno previamente avisado não fica abatido pelas faltas cometidas, como acontece quando são levadas ao conhecimento do superior. Não se irrita pela correção feita ou pelo castigo ameaçado ou mesmo infligido, pois sempre há uma palavra amiga que o leva a refletir e, o mais das vezes, consegue convencê-lo e ganhar-lhe o coração. Assim, o culpado percebe a necessidade do castigo e quase o deseja.
2. A razão essencial é a volubilidade do jovem, que num momento esquece as regras disciplinares e os castigos que o ameaçam. É por isso que, amiúde, um menino transgride uma norma e torna-se merecedor de uma pena cuja causa ele sequer lembra. Teria agido de forma diferente se, naquela hora, uma voz amiga o tivesse advertido.
3. O Sistema Repressivo poderá impedir desordens, mas dificilmente melhorará os ânimos. Ficou constatado que os jovens não esquecem os castigos recebidos e, por vezes, conservam a mágoa com o desejo de sacudir o jugo e obter vingança. Parece que, no momento, eles não dão importância, mas quem lhes segue os passos sabe que são terríveis as reminiscências da juventude. Esquecem facilmente os castigos que recebem dos pais, mas muito dificilmente os de seus educadores. Há casos de alguns que na velhice se vingaram brutalmente de certos castigos justos no tempo de sua educação. Ao contrário, o Sistema Preventivo torna o aluno amigo, e ele vê no assistente um benfeitor que o adverte porque quer fazê-lo bom, livrá-lo de dissabores, castigos e desonra.
4. O Sistema Preventivo trata o aluno de modo que o educador pode falar-lhe sempre com a linguagem do coração no tempo da educação e depois dela. Com esse tal sistema, o educador, conquistando o coração de seu protegido, poderá exercer sobre ele um grande domínio, avisá-lo, aconselhá-lo e também corrigi-lo quando se encontrar nos empregos, nos escritórios e no comércio.
Por essas e muitas outras razões, parece que o Sistema Preventivo deva ser preferido ao Repressivo.
Depois disso, Dom Bosco passa a falar de sua aplicação e continua assim:
A prática desse sistema está toda apoiada sobre as palavras de São Paulo, que diz: Charitas patiens est, benigna est, omnia suffert, omnia sperat, omnia sustinet (“A caridade é paciente, é benigna, tudo sofre, tudo espera, tudo suporta”). E também sobre estas outras dirigidas aos pais: “Pais, não provoqueis a ira de vossos filhos, a fim de que não percam o ânimo”. Portanto, só o cristão pode aplicar o Sistema Preventivo com sucesso. Razão e Religião são os meios de que o educador deve fazer uso constante se quiser conseguir seu objetivo. Eis, portanto, as principais regras de aplicação do supracitado Sistema:
a) O diretor deve consagrar-se todo inteiro a seus educandos. Nunca assumir compromissos que o afastem de sua função. Antes, esteja sempre com os alunos todas as vezes que não estiverem obrigatoriamente ocupados com alguma atividade, exceto se estiverem devidamente assistidos por outros.
b) Os professores e os assistentes devem ser de moralidade comprovada. Procurem evitar como a peste toda sorte de afeição ou amizade particulares com os alunos. Lembrem-se de que o desvio de um só pode comprometer um Instituto educativo. Aja-se de tal modo que os alunos não fiquem nunca sozinhos. Porquanto possível, os assistentes cheguem antes que os alunos ao lugar onde os jovens devem se reunir. Entretenham-se com eles até que fiquem sob os cuidados de outros e não os deixem nunca desocupados, nem mesmo em tempo de recreio.
c) Seja dada ampla liberdade de saltar, correr, gritar à vontade. Ginástica, música, declamação, teatro e passeios são meios eficacíssimos para obter disciplina e favorecer a moralidade e a saúde. Observe-se, porém, que seja devidamente escolhida a matéria do entretenimento, sejam honestas, e não perigosas as pessoas que nele intervêm e as conversas que aí tiverem não sejam repreensíveis. Dizia o grande apóstolo da juventude, São Felipe Néri: “Fazei tudo quanto quiserdes, a mim basta-me que não cometais pecados”.
d) Confissão e Comunhão frequentes são as colunas que devem reger um edifício educativo, do qual deve ficar longe a ameaça e o chicote. Nunca obriguem os jovens a frequentar os Sacramentos, mas apenas os incentivem e lhes deem a comodidade de se aproximarem deles. Por ocasião de Exercícios Espirituais, tríduos, novenas, pregações e catequeses, relevem-se a beleza, a grandeza e a santidade da religião que proporciona meios tão fáceis, tão úteis à sociedade civil, à tranquilidade do coração, à salvação da alma, como são, justamente, os Sacramentos. Dessa forma, os meninos ficam espontaneamente desejosos dessas práticas de piedade e delas aproximar-se-ão com convicção e com fruto.
e) Use-se a máxima atenção para impedir que no Instituto se introduzam companheiros e livros maus ou pessoas que tenham más conversas. A escolha de um bom porteiro é um tesouro para uma casa de educação.
f) Todas as noites, depois das orações comuns e antes que os alunos se recolham, o diretor ou alguém por ele dirija algumas palavras afetuosas em público, dê algum aviso ou conselho sobre as coisas a se fazer ou se evitar. Procure retirar ensinamentos dos fatos acontecidos durante o dia no Instituto ou fora dele. Essa conversa não deve ultrapassar os cinco minutos. Esse sermãozinho bem encaminhado é como a chave da moralidade e do sucesso da educação.
g) Mantenha-se longe a pestilenta opinião de alguém que quereria diferir a Primeira Comunhão para uma idade mais avançada quando o demônio já tomou posse do coração de um jovem e causou incalculável prejuízo à sua inocência. Conforme a disciplina da Igreja primitiva, costumavam-se dar às crianças as Hóstias Consagradas que sobravam da Comunhão dos adultos. Isso deve nos tornar cientes de quanto a Igreja aprecia que as crianças sejam admitidas em tempo à Sagrada Comunhão. Quando um jovem sabe distinguir entre pão e pão e demonstra suficiente instrução, não se olhe mais para a idade e que venha o Soberano Senhor reinar nessa alma bendita.
h) Com relação à Comunhão, os catecismos recomendam a frequência. São Felipe Néri a aconselhava a cada oito dias e até mais amiúde. O Concílio de Trento diz claro que deseja sumamente que todo fiel cristão, quando vai à Missa, também faça a Comunhão não só espiritual, mas sacramental, a fim de obter o maior fruto desse augusto e divino Sacrifício.
A utilidade desse sistema de educação não pode escapar à consideração de uma pessoa sensata. Todavia, para melhor persuadi-la, Dom Bosco continua:
Alguém dirá que o Sistema Preventivo é difícil na prática. Observo que da parte dos alunos se torna muito mais fácil, mais agradável e mais vantajoso. Da parte dos educadores, encerra algumas dificuldades que, porém, ficam amenizadas se mergulharem com todo zelo em sua obra. O educador é um indivíduo consagrado ao bem de seus alunos. Por isso, deve estar pronto para afrontar qualquer incômodo ou canseira para conseguir seu objetivo, que é a civil, a moral e a científica educação de seus alunos. Além das vantagens apresentadas acima, acrescento as seguintes:
O aluno terá sempre muito respeito para com o educador e sempre se lembrará com prazer da orientação recebida. Considerará pais e irmãos seus mestres e os demais superiores.
Qualquer que for o caráter, a índole, o estado moral de um jovem na época de sua aceitação, os pais poderão estar seguros de que seu filho não poderá piorar e ter a certeza de que se obterá sempre uma melhora. Alguns meninos que eram a amargura dos pais e até rejeitados pelas casas correcionais, por terem sido cultivados segundo os princípios desse Sistema, mudaram de índole, mudaram o caráter, se deram às boas maneiras e, atualmente, desempenham honrosas atividades na sociedade e são o suporte da família e o decoro da pátria.
Os alunos que, por acaso, entrarem num Instituto com maus hábitos não podem prejudicar seus companheiros. Nem os jovens bons poderão receber prejuízo deles, porque não haveria nem tempo, nem lugar, nem oportunidade, por estarem sempre amorosamente assistidos e protegidos.
Dom Bosco conclui seu pequeno tratado com uma palavra sobre os castigos.
Que norma observar ao infligir castigos? Ele responde:
Se possível, nunca se faça uso de castigos. Onde a necessidade peça repreensão, observe-se quanto segue:
1º) Entre os alunos, o educador procure fazer-se amar se quer fazer-se temer. Nesse caso, a subtração da benevolência é um castigo, mas um castigo que estimula, infunde coragem e nunca deprime.
2º) Entre os jovens, é castigo aquilo que se faz servir para isso. Observou-se que um olhar não amável para alguém produz maior efeito que um tapa. O elogio por uma boa ação ou a censura por um descuido culpável podem servir otimamente de prêmio ou de castigo.
3º) Exceto em raríssimos casos, as correções, os castigos não sejam dados em público, mas em particular e longe dos olhares dos companheiros. Use-se da maior prudência e paciência para fazer o aluno compreender seu erro pela razão e pela religião.
4º) Dar apelidos, bater de qualquer modo, pôr de joelhos em posição dolorosa, puxar orelhas e outros atos semelhantes devem ser absolutamente evitados, porque são proibidos pelas leis civis, irritam sumamente os jovens e rebaixam o próprio educador.
5º) O Diretor torne bem conhecidas as regras, os prêmios e os castigos estabelecidos pelos Regulamentos de disciplina, para que o aluno não possa se desculpar dizendo: “Eu não sabia que isso era mandado ou proibido”.
6º) Antes de aplicar qualquer punição, observe-se qual é o grau de culpabilidade que se encontra no aluno. Onde for suficiente uma admoestação, não se aplique uma repreensão e, quando esta for suficiente, não se vá além.
7º) Quando o ânimo está exaltado, nunca se deve castigar nem com palavras nem com fatos, nunca por falhas de inadvertência e nunca com muita frequência.
Esse Sistema descrito por Dom Bosco, por ele aplicado e recomendado desde o começo do Oratório e do Refúgio, é o mesmo que ainda hoje é estudado e aplicado em todas as casas salesianas. Os superiores sabem que essas casas florescem e dão bons frutos quanto mais o dito Sistema for conhecido e aplicado com exatidão.
Os princípios desse Sistema de educação davam a Dom Bosco assunto para as conferências que proferia a seus colaboradores. Muitas vezes relembrava as palavras de São Francisco de Sales:
– Apanham-se mais moscas com uma colher de mel do que com um barril de vinagre.
E sofria se alguém se mostrasse intransigente com os alunos e com os dependentes, querendo que todos fossem conquistados pela bondade. Repetia com frequência a quem tivesse autoridade sobre os alunos:
– Não se esqueçam nunca de que os jovens falham mais por causa da vivacidade do que por malícia, mais por não serem bem assistidos do que por maldade. É preciso ter para com eles um solícito cuidado, acompanhá-los atentamente sem ares de estar assistindo, tomar parte nos seus jogos, tolerar suas gritarias e os incômodos que provocam. Também o Divino Salvador disse em situação semelhante: Sinite parvulos venire ad me (“Deixem que as crianças venham a mim”).
Dom Bosco vigiava-os onde quer que estivessem. Com frequência aparecia no salão de estudo e andava pelas oficinas. Se acontecia alguma pequena infração, ele logo percebia e procurava sanar com prontidão. Conferia com os outros superiores informando-se da conduta dos jovens e dando sempre orientações para a boa disciplina. Determinou que a cada semana se desse a cada aluno a nota de conduta, de estudo e de trabalho. Ele mesmo lia em público essas notas aos domingos à noite, encorajando os diligentes e advertindo os negligentes.
Dom Bosco tinha certeza de que, com a reflexão, ordinariamente se conduz os jovens a reconhecer as próprias falhas e assim eles podem corrigi-las. Por isso, não se cansava de avisar e aconselhar, e sua paciência era realmente heroica. Quando um superior ficava em dúvida sobre o bom êxito de um jovem para aceitá-lo ou mandá-lo embora, Dom Bosco sugeria colocar em prática, também nesse caso, o conselho de São Paulo:
– Omnia probate, quod bonum est tenete (“Examinem tudo, fiquem com o que é bom”).
Assim deviam ser levadas a vigilância e a oportuna admoestação. No começo do ano, se desconfiasse de que algum dos novos aceitos poderia trazer dano aos companheiros, este era chamado e avisado com as mais vivas expressões de preocupação, sendo depois vigiado de modo especial. Com tal solicitude, conseguiu-se corrigir a muitos que, vindos do mundo, carregavam consigo o mau costume, infelizmente comum, do turpilóquio.
É difícil de ser expressa com palavras a habilidade que Dom Bosco tinha de conquistar os jovens para si e conduzi-los ao Senhor. Na ordem da graça e da natureza, possuía dotes e prerrogativas tais que, chamando um jovem para junto de si e falando-lhe confidencialmente ao ouvido, por mais que este fosse indisciplinado e rebelde à graça, dificilmente acontecia de não se emendar e se submeter a seus paternos conselhos. Suas admoestações não ficavam ineficazes porque, pelas almas, cem vezes teria dado a própria vida se fosse o caso.
Suas palavras abriam o coração. Insistia na sinceridade a ser usada especialmente com os superiores em coisas da alma, descrevia as vantagens, chamava a sinceridade de chave da paz interior, a arma mais eficaz para afugentar a melancolia, o segredo mais seguro para achar a alegria na vida e na morte e para alcançar grande perfeição. Com tal recomendação, não visava a outra coisa senão impedir o pecado ou destruí-lo com suas consequências.
Costumava repetir a seus colaboradores:
– Precisamos manter distante da casa o pecado e que os nossos jovens se ponham todos na graça de Deus. Sem isso, as coisas não podem andar bem.
E ainda mais:
– Lembrem-se de que o primeiro método para bem educar é fazer boas Confissões e boas Comunhões.
Ele depositava toda a força de sua missão no meio da juventude sobre a frequência desses Sacramentos. Insistia com seus alunos que os recebessem regularmente, mas sem qualquer imposição. Embora se encontrasse todas as manhãs a confessar, e o desejo de todos era o de confessar-se com ele, nem sempre tinha tempo de satisfazer a todos. Todavia, queria que procurassem outros confessores externos, especialmente nas festas e em suas vigílias. Deixava a todos a máxima liberdade. Não fazia observações nem queria que fossem feitas acerca de quem se confessava com ele ou com outros sacerdotes.
Anos mais tarde, deu uma norma a um seu sacerdote:
– Faça de tal modo que nunca se dê sinal de parcialidade para quem se confessa de preferência com um ou com outro.
Também não permitiu que, nos dias de Comunhão geral, se fizesse sair o banco inteiro em fila para ir ao altar, a fim de que quem não se sentisse preparado não se deixasse vencer pela hesitação ou fosse apontado pelos outros. É melhor a liberdade e um pouco de confusão. Na Missa diária da comunidade, eram numerosas as comunhões, e muitos que vinham de fora perguntaram, mais de uma vez, qual festa estava-se a celebrar, porque lhes parecia estarem vendo uma Comunhão geral.
Quanto ao mais, o bem que Dom Bosco operou por meio da Confissão foi tão grande que ousaríamos chamá-lo de apóstolo da Confissão. Inspirava tranquilidade e confiança em Deus e em suas misericórdias. Muitos, após deixar o Oratório, custavam a habituar-se com outros confessores. Ele inculcava nos penitentes a norma de São Felipe Néri:
– Pecados e melancolia não quero em minha casa.
Com isso, queria que confiassem plenamente na própria salvação eterna.
A frequência aos Sacramentos era a mola poderosa que conduzia a todos pelo caminho da obediência, na paz e na alegria. Por isso, a nota característica do Oratório era uma desenvoltura ruidosa de manifestações, uma vivaz distribuição de brincadeiras unida à religiosidade, à moralidade e à diligência nos próprios deveres. Essa nota era personificada em grande número de jovens ótimos, verdadeiros modelos e exemplo para os outros companheiros. Centenas de antigos alunos, sacerdotes e leigos, confirmaram que não se lembravam de, no seu tempo, terem acontecido graves desordens.
O Côn. Ballesio escreveu:
O freio ao mal, o incentivo ao bem, a alegria e a satisfação nossa, a ordem na casa, nosso sucesso nos estudos e no trabalho, tudo nascia da piedade racional, íntima e fervorosa que o servo de Deus sabia infundir em nós, com seu exemplo, com pregações, com a frequência aos Sacramentos, naquele tempo coisa nova para os jovens, com suas conversas e suas histórias vivas e edificantes.
Ao mesmo tempo, com certas palavras, acenos e olhares, dissipava as sombras, as ansiedades do espírito, enchia-nos a alma de alegria e afervorava-nos no amor à virtude, ao sacrifício e à obediência.
Oh! Como ressoavam agradáveis em seus lábios aquelas expressões tão familiares para ele! Ao mesmo tempo, transparecia de seu rosto a fé que tinha no coração:
– Como é bom o Senhor para conosco que não nos deixa faltar nada! Sirvamo-lo de boa mente! Amemos a Deus. Amemo-lo porque é nosso pai! Tudo passa: o que não é eterno não é nada!
Torna-se evidente e, em outras páginas falaremos disso, como o método de educação escolhido por Dom Bosco era a bondade adaptada sábia e suavemente à idade juvenil. Quão desejável seria que tal Sistema fosse introduzido em todas as famílias cristãs, em todos os institutos de educação, públicos ou particulares, masculinos ou femininos! Bem mais fácil se tornaria o exercício do bem para a juventude, pronto estaria o remédio tão logo aparecesse o mal. Enorme seria a garantia para os meninos honestos e inocentes contra os maus exemplos dos perversos. Então não tardaria em surgir uma juventude mais disciplinada e piedosa, uma juventude que seria a consolação das famílias e uma valiosa segurança para a sociedade civil.
E assim o entenderam inúmeros educadores de várias nacionalidades, especialmente na Inglaterra. Ali muitos colégios destinados à juventude pobre e católica tomaram como modelo, depois da morte de Dom Bosco, o Oratório de Turim e seu Regulamento; os fundadores estudaram a vida de Dom Bosco e seu Sistema prático de educação e seguiram seus exemplos com grande fruto para as vocações eclesiásticas. O quadro do homem de Deus ocupa, naqueles institutos, lugar de honra e também nos seminários.
Entre os mesmos protestantes, Dom Bosco teve imitadores. P. Juvenal Bonavia, no dia 12 de junho de 1903, escrevia-nos desde nossa casa em Londres:
Envio-lhe dois jornais que trazem alguma nota sobre Dom Bosco. Não são católicos, mas, ao que parece, pertencem à seção anglicana da Igreja Alta, [Igreja Alta: aquela parte da Igreja Anglicana (chamada High Church) que preserva muito do ritual da Igreja antes da Reforma e insiste na autoridade do episcopado e do sacerdócio] ou seja, ritualista ou puseísta [pertencente ao puseísmo, ou Movimento de Oxford, que, depois da entrada de Newman na Igreja Católica, teve como líder Edward Bouverie Pusey (1800-1882)]. O articulista, certo Norman Potter, creio que seja a mesma pessoa com quem, há alguns meses, um dos nossos sacerdotes travou conhecimento pessoal. É diretor de um internato para jovens muito longe de nossa casa. Quem o visitou viu na sala de visitas dele o quadro de Dom Bosco com o mote: Da mihi animas, caetera tolle (“Dai-me almas, ficai com o resto”). Esse senhor tinha viajado pela Itália e visitou algumas de nossas casas e o Oratório de Turim. Imita Dom Bosco quanto lhe é possível. Há um capelão (protestante) em seu Instituto. Creio que também leia o Boletim Salesiano. Nos dois artigos mencionados acima, faz um leve aceno à vida de Dom Bosco.
O primeiro artigo Goodurtl (lê-se Goodwill): do inglês, “bem-querer”. Aqui se trata do título de um artigo escrito pelo inglês Norman Potter sobre o Oratório de Valdocco por ele visitado], impresso em 1900, é o menor e traz a foto de Dom Bosco. O segundo artigo Common Wealth (“Bem público”) foi divulgado neste ano. É mais extenso e traz também um esboço do Sistema Preventivo extraído do Regulamento em uso em nossas casas. Aí fala da Confissão frequente, da Comunhão e da Missa diária. Traduz a palavra Missa por Eucharist, talvez para evitar a palavra Mass, que é ofensiva para muitos anglicanos. Conclui ambos os artigos fazendo votos para que o Senhor suscite aqui na Inglaterra homens com o espírito de Dom Bosco, do qual há tanta necessidade.»

