12 Set 2026, Sáb

O sistema preventivo (4/7). A carta ao Ministro do Interior Francisco Crispi

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Continuamos com o quarto episódio sobre os principais textos do sistema preventivo de Dom Bosco.
Artigo anterior: O sistema preventivo (3/7). Apêndice à Inauguração do Patronato de São Pedro em Nice

 

Ao governo do Reino: a carta a Francisco Crispi

A data deve ser observada duas vezes. Em 9 de janeiro de 1878 havia morrido Vitório Emanuel II; em 7 de fevereiro, Pio IX; em 20 de fevereiro havia sido eleito Leão XIII. Dom Bosco escreve no dia seguinte, estando à procura de um local para abrir uma casa para os jovens em Roma. No Ministério do Interior senta-se Francisco Crispi, no governo Depretis: a Esquerda histórica está no poder há dois anos e discute a reforma das prisões e das casas de correção para menores.

Aqui o sistema preventivo é traduzido para a linguagem administrativa: não espiritualidade educativa, mas proposta de política pública para os «jovens em perigo». Oratórios festivos, instrução, encaminhamento ao trabalho, assistência: medidas que precedem o crime em vez de segui-lo. O documento é ao mesmo tempo audacioso e realista, e conserva o seu rigor – Dom Bosco é muito mais confiante em prevenir do que em recuperar quem já conheceu a prisão. A proposta não teve seguimento nem com Crispi nem com seus sucessores, e isso também diz algo: o texto de 1854 e o de 1878 são as duas extremidades de uma longa, cortês e infrutífera conversa com o Estado italiano.

 

 

Carta ao Ministro do Interior Francisco Crispi

(21 de fevereiro de 1878, MBp XIII, 490-493)

 

«Excelência,

​Tenho a honra de apresentar a V. E. as bases sobre as quais se pode reger o Sistema Preventivo aplicado entre jovens periclitantes nas vias públicas e em casas e internatos de educação.

 

​Ao mesmo tempo, ansioso para cumprir a boa vontade expressa por V. E., atrevo-me a citar alguns lugares em Roma que podem servir a este propósito e que são dependentes do mesmo governo.

​Esses lugares seriam:

​1º O prédio e o pátio em frente à Paróquia de São Bernardo ocupado pelo comando militar da 20ª cavalaria que dizem que devem se mudar para outro lugar. No mapa em anexo, é indicado com a cor verde.

​Recebido este edifício do governo, o Marquês Berardi vende a parte da área que poderia ser necessária para o pio projeto.

​2º Edifício, pátio do renomado instituto de S. Miguel em Ripa.

​3º Edifício e terreno, já ocupado pelos franciscanos, conhecido pelo nome de Convento para as missões estrangeiras. Está localizado entre as Quatro Fontes e S. Maria Maior.

​4º S. Caio com terra e casas não muito longe das Quatro Fontes.

​5º Convento de S. Ágata anteriormente habitado pelos Religiosos Doutrinários em Trastevere.

​6º S. Nicola dei Cesarini, casa e pátio anteriormente habitados pelas Carmelitas. Está na praça com mesmo nome.

​Qualquer um desses locais que o governo gostasse de deixar à minha disposição iria destiná-los exclusivamente a crianças pobres e periclitantes, e tenho plena confiança de que isso pode ser feito com ligeiro investimento das finanças do governo. Desta forma, iria prover para um grande número de crianças pobres que pedem para ser internadas, e também haveria um fim para o inconveniente sério e caro de enviar uma multidão de meninos da cidade para o Internato de Turim e Sampierdarena.

​Com plena confiança e com profunda gratidão, rezo para que Deus preserve a E. V. e me professo

​Da E. V.

Roma, 21 de fevereiro de 1878.

Humilde Suplicante
P. João Bosco.

 

 

O Sistema Preventivo na educação da juventude

Dois são os sistemas usados na educação moral e civil da juventude: repressivo e preventivo.

Um e outro são aplicáveis na sociedade civil e nas casas de educação. Aqui apresentaremos de forma geral o Sistema Preventivo enquanto pode ser usado na sociedade civil: em seguida, diremos como pode ser aplicado com sucesso nos reformatórios, colégios, albergues e nos próprios educandários.

 

​Sistema Preventivo e Repressivo em meio à sociedade

            O Sistema Repressivo consiste em fazer conhecer as leis e as penas que elas estabelecem; em seguida, a autoridade deve vigiar para conhecer e punir os culpados. Este sistema é usado no exército e em geral entre os adultos.

            Quanto aos jovens, faltos de instrução, reflexão, e levados pelos companheiros ou pela irreflexão, frequentemente se deixam arrastar cegamente para a desordem pelo único motivo de serem abandonados.

            Enquanto as leis vigiam sobre os culpados, certamente é preciso usar de grande solicitude para diminuir seu número.

 

Que jovens devem ser considerados em perigo

            Eu creio que podem ser considerados, não maus, mas em perigo de se tornarem tais, os que:

            1º Das cidades ou das diversas localidades do Estado vão para outras cidades e povoados em busca de trabalho. Em geral, eles levam um pouco de dinheiro, que também gastam em pouco tempo. Se depois não encontram trabalho, correm realmente perigo de entregar-se à ladroagem e começar o caminho que os leva para a ruína.

            2º Aqueles que, órfãos de pais, não têm quem os assista e por isso ficam abandonados, entregues à vadiagem e às más companhias, ao passo que uma mão amiga, uma voz caridosa, poderia encaminhá-los pela estrada da honra e do cidadão honesto.

            3º Aqueles que têm pais que não podem ou não querem tomar conta dos próprios filhos; por isso, os expulsam da família ou absolutamente os abandonam. Desses pais desnaturados, infelizmente, grande é seu número.

            4º Os vagabundos que caem nas mãos da segurança pública, mas que ainda não são maus. Estes, se forem acolhidos num albergue onde possam ser instruídos, encaminhados ao trabalho, certamente serão tirados das prisões e restituídos à sociedade civil.

 

Soluções

            A experiência mostrou que é possível socorrer com eficácia estas quatro categorias de meninos:

            1º Com encontros para divertimento nos dias festivos. Mediante uma recreação amena, a música, a ginástica, a corrida, os saltos, a declamação, o teatrinho, é fácil reuni-los. Com as aulas noturnas, dominicais e o catecismo se proporciona alimento moral apropriado e indispensável para esses pobres filhos do povo.

            2º Nessas reuniões, elaborar um levantamento para saber quais são os que não têm um patrão, e procurar que sejam ocupados e assistidos no trabalho durante a semana.

​3º Há também os que são pobres e abandonados, não têm o que vestir e comer, e onde dormir à noite. A esses não se pode ajudar de outra forma senão mediante internatos e casas de preservação, artes, ofícios e também colônias agrícolas.

 

Participação governamental

            O governo, sem assumir uma específica administração, sem tocar no princípio da caridade legal, pode cooperar das seguintes formas:

            1º Providenciar ambientes para divertimento nos dias festivos; ajudar a dotar as escolas e os ambientes de divertimento com os móveis necessários.

            2º Providenciar locais para internatos, provisioná-los com os meios necessários para as artes e os ofícios a que se aplicariam os meninos a serem ali recolhidos.

            3º O governo deixaria livre a aceitação dos jovens, mas daria uma diária ou um subsídio mensal para aqueles que se encontrassem nas situações acima descritas e que fossem internados. Isto se deveria fazer constar por meio de certificados da autoridade civil, ou de boletins de ocorrência da polícia, que com muita frequência encontra jovens que vivem nessa condição.

            4º Esse subsídio diário se limitaria a um terço do que custa um jovem nos reformatórios do Estado. Tomando como base os cárceres correcionais da “Generala” de Turim, e reduzindo a despesa total para cada indivíduo, pode-se calcular a despesa diária em torno de 80 centavos.

            Deste modo, o governo ajudaria, mas deixaria livre a participação da caridade particular dos cidadãos.

 

Resultados

            Com base na experiência de trinta e cinco anos, pode-se constatar que:

            1º Muitos jovens que saíram das prisões facilmente se encaminham para um trabalho com que ganhar honestamente o próprio pão.

            2º Muitos que corriam grande perigo de se tornar maus, começavam a criar problemas aos cidadãos honestos e já provocavam graves perturbações para as autoridades públicas, afastaram-se do perigo e puseram-se no bom caminho do honesto cidadão.

            3º Consta pelos registros que, não menos de cem mil jovens assistidos, recolhidos, educados com este sistema, alguns aprenderam a música, outros a ciência literária, a arte ou um ofício, e se tornaram trabalhadores conscienciosos, gerentes ou donos de casas comerciais, professores, empregados laboriosos, e não poucos ocupam graus honoríficos no exército. Muitos também, dotados pela natureza de grande engenho, puderam fazer os cursos universitários e se laurearam em letras, matemática, medicina, leis, tornaram-se engenheiros, tabeliães, farmacêuticos e semelhantes.»

 

Editor BSOL

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