9 Jun 2026, Ter

Mártires salesianos que deram a vida pela fé

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A espiritualidade salesiana, recebida de São João Bosco, gerou um extraordinário florescimento de santidade. Uma vastíssima multidão de homens e mulheres encarnou com radicalidade o carisma salesiano: alguns já elevados aos altares, outros a caminho da canonização, muitíssimos conhecidos apenas por Deus e que serão conhecidos somente no Céu.

Trata-se de uma santidade que amadurece na doação total de si, aquela que o Antigo Testamento representava no holocausto: uma oferta inteiramente consumida no fogo para o Senhor. Doar a vida, para esses santos, não significou apenas consagrar a Deus tempo e energias, mas entregar-lhe o que de mais íntimo e precioso possuímos, incluindo a própria existência terrena quando Ele a exigiu.

É impressionante descobrir que, entre os 175 santos e beatos salesianos canonizados ou em processo de canonização, 118 são mártires: mais de 67%. Mais de dois em cada três. Um rio de sangue que atravessa sobretudo o século XX, formando um coro poderoso de testemunhas que, com a vida oferecida, selaram a fecundidade e a atualidade do carisma salesiano.

 

 

Em um discurso feito sobre as missões no início de 1876, Dom Bosco dizia: “Se o Senhor, então, em sua Providência, quisesse dispor que algum de nós sofresse o martírio, por acaso deveríamos nos assustar com isso?”

Dom Bosco talvez não imaginasse com quanta literalidade seus filhos responderiam a essa pergunta. O século XX – época de ideologias ferozes, perseguições religiosas e totalitarismos – exigiu da Congregação Salesiana um preço altíssimo: o sangue de mais de cem confrades e de tantos jovens que cresceram nos oratórios e nas escolas salesianas. Eram sacerdotes, coadjutores, ex-alunos, jovens de oratório. Tinham em comum a alegria salesiana, o amor pelos jovens, a fidelidade a Cristo. E quando foi necessário escolher entre a vida e a fé, escolheram a fé.

Lembrar dessas testemunhas não é um exercício de memória: é reconhecer que a santidade salesiana não tem apenas o rosto sorridente do educador com os jovens no pátio, mas também o rosto transfigurado de quem levou até o fim a lógica do dom total. Como escrevia o IX Reitor-Mor, padre Juan Vecchi, “o serviço pastoral do povo e a dedicação educativa aos jovens não podem ser realizados sem a disposição que constitui internamente o martírio, isto é, a oferta da vida”.

Lembremos sucintamente destes gloriosos mártires salesianos.

 

Na China: Versiglia e Caravario

O primeiro capítulo do martirológio salesiano do século XX se abre na China, nas margens do rio Han, na noite entre 24 e 25 de fevereiro de 1930. Luigi Versiglia (1873–1930), bispo de Shiu Chow, e Callisto Caravario (1903–1930), jovem sacerdote de apenas 26 anos, são capturados por um bando de piratas enquanto acompanham um grupo de jovens catequistas rumo à sua missão. Quando os bandidos lhes ordenam que entreguem as moças, os dois salesianos se interpõem com o corpo. São arrastados para a margem e fuzilados.

Beatificados por João Paulo II em 15 de maio de 1983 e canonizados em 1º de outubro de 2000, são os primeiros mártires salesianos elevados às honras dos altares. A morte deles é emblemática do espírito de Dom Bosco: morrer não por uma abstração teológica, mas para proteger os jovens, os mais vulneráveis. Versiglia havia passado trinta anos na China construindo escolas e comunidades cristãs; Caravario havia chegado há pouco tempo, mas ardia de fervor missionário. Juntos, encarnam duas gerações do mesmo ideal.

 

Na Polônia: Kowalski e os cinco de Poznań

A ocupação nazista da Polônia trouxe à Congregação Salesiana um dos tributos de sangue mais consistentes: oitenta e oito confrades mortos apenas no território polonês. Entre eles, destaca-se a figura do padre Giuseppe Kowalski (1911–1942), sacerdote salesiano preso em 23 de maio de 1941 – véspera de Maria Auxiliadora – e deportado para o campo de extermínio de Auschwitz com o número 17.350. Por mais de um ano, resistiu na chamada “companhia de rigor”, continuando clandestinamente seu ministério sacerdotal: confessava os moribundos, distribuía a Comunhão, organizava orações ao amanhecer, confortava os companheiros.

Um episódio o retrata em sua grandeza: surpreendido com o rosário na mão por um oficial nazista, recusou-se a pisoteá-lo, apesar das ameaças. Aquele rosário tornou-se o símbolo de sua resistência espiritual. Antes de morrer – afogado na cloaca do campo na noite entre 3 e 4 de julho de 1942 – rezou com um companheiro de prisão: “Ajoelhe-se e reze comigo por todos estes que nos matam”.

Beatificado em 1999, o padre Kowalski é acompanhado aos altares por cinco jovens oratorianos de Poznań – Eduardo Klinik, Francisco Kesy, Jarogniew Wojciechowski, Czesław Jóźwiak e Eduardo Kaźmierski – rapazes entre 20 e 23 anos, animadores do oratório, decapitados em Dresden em 24 de agosto de 1942, festa mensal de Maria Auxiliadora. A última mensagem deles aos familiares é um documento de altíssima espiritualidade: “Com alegria parto para o além, mais do que experimentaria a alegria de uma eventual libertação”.

Esses seis beatos juntos revelam uma verdade salesiana profunda: a santidade cresce no oratório, no encontro entre educadores e jovens, e pode chegar – através dessa mesma amizade – até o martírio.

 

Na Hungria: Stefano Sándor

Na Hungria, o regime comunista dissolveu a Congregação Salesiana em 1952. Stefano Sándor (1914–1953), coadjutor salesiano, continuou clandestinamente a formar os jovens na fé. Preso, torturado e julgado sob a acusação de atividade contrarrevolucionária, foi enforcado em 8 de junho de 1953. Em seu testamento, escreveu: “Morro com alegria pela juventude húngara”. Beatificado em 2013, é o primeiro beato do Leste Europeu na Família Salesiana. Seu martírio fala de dedicação silenciosa, de catequese realizada em segredo, de um salesiano que não renunciou à sua missão com os jovens nem mesmo quando se tornou perigoso fazê-lo.

 

Na Eslováquia: Titus Zeman

Figura de heroísmo discreto é a do padre Titus Zeman (1915–1969), sacerdote salesiano eslovaco. Após a supressão das comunidades religiosas na Tchecoslováquia pelo regime comunista em 1950, arriscou várias vezes a liberdade para fazer expatriar clandestinamente para o Ocidente jovens aspirantes salesianos, a fim de que pudessem realizar o noviciado e a ordenação. Preso em 1951 e condenado a 25 anos de prisão, sofreu por onze anos torturas e degradações físicas que minaram sua saúde. Libertado em 1964, nunca mais foi o mesmo. Morreu em 1969 pelas consequências dos maus-tratos sofridos. Beatificado em 2017 em Bratislava, o padre Zeman é o mártir do ministério “subterrâneo”: aquele que gastou a vida para que a corrente da vocação salesiana não se rompesse sob as garras do totalitarismo.

 

No Brasil: Rodolfo Lunkenbein

O martírio nem sempre carrega as cores do regime totalitário. No Brasil, o padre Rodolfo Lunkenbein (1939–1976), missionário salesiano alemão entre os Bororo de Mato Grosso, foi morto em 15 de julho de 1976 no meio de um confronto entre indígenas e fazendeiros que pretendiam se apropriar de suas terras. O padre Rodolfo havia se posicionado abertamente em defesa do território e dos direitos do povo Bororo. Naquele dia, interpôs-se entre os agressores e a comunidade indígena: foi atingido por um projétil e morreu pouco depois. Com ele morreu também um jovem indígena Bororo, Simão Cristino Kyrireu, que tentava protegê-lo. O martírio deles tem a forma do compromisso com a justiça, da missão encarnada no grito dos mais pobres, do seguimento de Cristo que assume a defesa dos últimos.

 

No Paquistão: Akash Bashir

Entre as histórias mais recentes e comoventes, destaca-se a de Akash Bashir (1994–2015), jovem ex-aluno salesiano paquistanês de fé cristã. Em 15 de março de 2015, prestava serviço como voluntário de segurança do lado de fora da igreja de São João em Youhanabad, Lahore, quando se aproximou um homem-bomba com um colete explosivo. Akash o bloqueou fisicamente, abraçando-o para impedir que o homem pudesse entrar na igreja onde estava sendo celebrada a Missa dominical, frequentada por centenas de fiéis. O artefato explodiu: Akash morreu na hora. Tinha 20 anos. Seu gesto foi um ato de escolha lúcida e deliberada: naquela manhã, havia dito à mãe: “Se eu morrer, morro por Jesus”. Sua causa de beatificação está aberta na diocese de Lahore. Akash encarna a vocação do leigo salesiano, crescido no oratório e capaz de dar tudo – como havia aprendido a fazer com seus educadores.

 

A Espanha de 1936: uma multidão de mártires

Não se pode deixar de lembrar os noventa e cinco mártires salesianos da Guerra Civil Espanhola (1936–1939): sacerdotes, coadjutores, clérigos, cooperadores mortos por ódio à fé nos arredores de Madri, Barcelona, Valência e Sevilha. Entre os grupos já beatificados figuram os mártires de Madri liderados pelo padre Enrique Sáiz Aparicio, os de Valência e Barcelona com o padre José Calasanz Marqués, e os de Sevilha. A morte coletiva deles é o testemunho de uma comunidade inteira que não renegou a própria identidade nem mesmo diante dos pelotões de fuzilamento.

 

Na Polônia: padre Jan Świerc e oito companheiros

Em 6 de junho de 2026, no Santuário de São João Paulo II em Cracóvia, a Família Salesiana viveu um novo e comovente dia de glória: o padre Jan Świerc (1877–1941) e oito de seus confrades – Ignacy Antonowicz, Ignacy Dobiasz, Karol Golda, Franciszek Harazim, Ludwik Mroczek, Włodzimierz Szembek, Kazimierz Wojciechowski e Franciszek Miśka – foram beatificados pelo Papa Leão XIV. Todos sacerdotes salesianos poloneses, haviam sido presos pelos nazistas e mortos nos campos de concentração de Auschwitz e Dachau entre 1941 e 1942. O padre Jan Świerc havia crescido em Turim na escola de Dom Bosco: até o fim tentou confortar os companheiros de prisão, incluindo os judeus. O padre Karol Golda morreu com apenas 28 anos, fiel ao segredo da confissão até a morte. A beatificação ocorreu justamente no santuário dedicado a João Paulo II porque esses nove mártires foram guias espirituais do jovem Karol Wojtyła, que em 1938 frequentava todos os dias a igreja deles no bairro de Dębniki, em Cracóvia. Com eles, o martirológio salesiano adicionou nove novos nomes à sua luminosa multidão de testemunhas.

 

O “martírio incruento” cotidiano

Olhando para essas testemunhas, poderíamos nos perguntar: o que isso tem a ver conosco? Nós vivemos em paz, não nos é pedido que escolhamos entre a vida e a fé. Mas Dom Bosco, ao falar do martírio, não pretendia alimentar uma espiritualidade heroica de tempo de guerra. Pretendia lembrar que todo educador salesiano é chamado a uma forma de martírio cotidiano: a oferta da própria vida, do próprio tempo, da própria energia pelos jovens, sem cálculo e sem reservas. “Quando acontecer que um salesiano sucumba trabalhando pelas almas – escrevia ele – a Congregação terá alcançado um grande triunfo”.

Versiglia, Caravario, Kowalski, os cinco de Poznań, Sándor, Zeman, Lunkenbein, Akash Bashir – cada um deles cresceu em um oratório, uma escola, uma comunidade salesiana. Cada um aprendeu com um educador que a vida se doa, não se retém. Então, quando o momento exigiu, fizeram exatamente o que haviam aprendido.

Guardar a memória deles não é devocionalismo: é entender o que significa, de verdade, ser salesiano. A Família Salesiana conta hoje com cento e setenta e cinco candidatos aos altares. Entre eles, cento e dezoito mártires. Não são heróis de outro tempo. São os frutos do sistema preventivo levado às suas extremas consequências: amar os jovens até dar tudo, inclusive a vida.

 

 

“Nós vivemos o espírito do martírio na caridade pastoral cotidiana” – Padre Juan Vecchi, IX Reitor-Mor

 

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