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A história dos olhos de Dom Bosco revela um traço surpreendente e profundamente humano do Santo. Entre as muitas imagens que o retratam, a fotografia tirada em Gênova em 1886 identifica com maior fidelidade sua fisionomia: um olhar luminoso, capaz de conquistar e transmitir seu coração de pai, apesar de na época o olho direito já estar apagado e o esquerdo gravemente enfraquecido. Desde jovem, de fato, Dom Bosco sofria de problemas de visão, agravados por acidentes relacionados a tempestades, por uma vida de estudo incansável e por contínuos sacrifícios. Apesar disso, nunca deixou de se dedicar aos jovens e à missão que lhe fora confiada, enfrentando com paciência e fé até a crescente cegueira.
Porque tinha os pés bem firmes na terra e os olhos fixos no céu.
Entre todas as fotografias de Dom Bosco, há uma que, segundo quem o conheceu, melhor de todas reproduz sua verdadeira fisionomia. É a fotografia feita por Ângelo Ferretto, do Estabelecimento Gustavo Luzzati de Gênova, em 16 de março de 1886, quando Dom Bosco, aos 71 anos, em viagem para a Espanha, havia parado alguns dias em Sampierdarena.
Essa fotografia foi depois retocada em 1888 pelo pintor Giuseppe Rollini para o famoso retrato a óleo conservado nos aposentos de Dom Bosco. Foi também utilizada por Giovanni Crida para seus conhecidos quadros do Santo.
No retrato genovês, os olhos de Dom Bosco brilham com uma luz particular que invade e conquista, revelando o coração de pai que ele possuía.
E quem diria? Quando Dom Bosco posou para essa fotografia, seu olho direito já estava apagado e o esquerdo cansado e doente.
A vista de Dom Bosco
Desde jovem Dom Bosco sofria de ardor nos olhos, devido às longas vigílias e ao contínuo ler e escrever à luz de vela ou de lâmpada a óleo.
Em 1840, no seminário de Chieri, enquanto olhava pela janela o céu ameaçador, o raio caiu sobre o parapeito e alguns tijolos soltos o atingiram no estômago, lançando-o ao chão desmaiado (MBp I, 396).
Anos depois, numa noite de tempestade, enquanto estava em Santo Inácio em Lanzo para os Exercícios Espirituais, a porta de vidro do corredor onde se encontrava se escancarou com estrondo sob o ímpeto da ventania e o raio se descarregou, entre um dilúvio de chuva, a seus pés. Ele saiu milagrosamente ileso; sofreu, no entanto, uma dor nos olhos que se repetiu frequentemente, enquanto o olho direito ficou sempre turvo (MBp V, 436-437).
Não foi a última vez que o raio perturbou Dom Bosco. Em Valdocco, na noite de 15 de maio de 1861, voltou a atormentá-lo. Após esse incidente, sua dor nos olhos agravou-se a ponto de deixar completamente apagado o olho direito e enfraquecer tanto o esquerdo que se temeu o pior. Foi então prescrito que não lesse nem escrevesse após o pôr do sol (MBp VI, 869-870).
Não consta que Dom Bosco tenha obedecido à prescrição, mas foi obrigado a usar óculos escuros (“os óculos azuis”, dizem as Memórias). Um ex-aluno de Borgo San Martino, Carlos Rampini, recorda em “A Voz do Colégio” (La Voce del Collegio, Ano XIII, n. 4) uma visita de Dom Bosco inesquecível em sua memória e diz: “Assim que desceu para o pátio, houve imediatamente uma corrida geral ao seu redor para lhe beijar as mãos e ouvir suas paternais recomendações. E Dom Bosco, sempre bom para com seus queridos rapazes, assumiu um gesto quase profético e, pondo os óculos, perscrutando por baixo das lentes os nossos olhos, brincava dizendo: – Neste momento, caros filhos, eu não só vos vejo, como também vejo os vossos pensamentos”.
Assim, Dom Bosco, pelo menos por algum tempo, chegou até a usar… óculos de sol!
Foi também obrigado a pedir dispensa da recitação do Breviário pelos períodos em que não podia ler sem grande esforço. Ele mesmo disse um dia ao beato P. Filipe Rinaldi que, jovem clérigo, lhe havia comunicada a necessidade do oculista:
– Vês, eu também sempre tive a vista fraca e depois ela se enfraqueceu tanto que em certos períodos não consigo ler nada, absolutamente nada, enquanto em outros leio e escrevo com menor ou maior dificuldade (MB XIX, 400).
O P. Rinaldi compreendeu então que o mesmo lhe aconteceria. E foi justamente assim, porque também o P. Rinaldi durante muito tempo não pôde nem mesmo recitar o Breviário, situação que conseguiu, porém, fazer mais tarde sem dificuldade.
De várias cartas de Dom Bosco há pormenores interessantes sobre o estado de sua vista. Escrevendo à Condessa Callori em 14 de novembro de 1873, ele lhe dizia: “Meus exames oftalmológicos deram por sentença: o olho direito com pouca esperança; o esquerdo pode ser conservado no status quo mediante abstinência de ler e escrever. Portanto comer, beber bem, dormir, passear etc. etc. Assim iremos em frente” (E 1126). À mesma Condessa, em 25 de novembro de 1878, escreveu: “Aqui estamos todos bem em geral. Somente a minha vista está precipitadamente piorando. Deus considera bom assim, porque eu não a usava como devia” (E 1866).
Em sua viagem à França em 1879, Dom Bosco, escrevendo ao P. Rua, de Marselha, em 11 de janeiro, informou: “Minha saúde em geral é bastante boa. O olho esquerdo não piorou, o direito melhorou um pouco. Neste momento leio as palavras Le Citoyen, coisa que em dois meses se me tornou absolutamente impossível” (E 1891).
Na viagem de 1880 visitou as casas de Saint-Cyr e de Navarre, antes de voltar a Marselha. Acompanhava-o o P. Ronchail, substituído depois pelo P. Cagliero. Este constatou que Dom Bosco “tinha boas pernas para caminhar, mas pouca visão para ver”. O próprio Dom Bosco observou naquele ano: “É verdade. Com um olho vejo menos do que com dois. No entanto espero que o Senhor me conservará este, porque caso contrário eu não poderia mais trabalhar. Oh! o Senhor saberá ajeitar bem as coisas de alguma forma!” (MBp XIV, 43).
Após 1880 suas condições pioraram muito, tanto que em 14 de outubro de 1884 Dom Bosco foi obrigado a pedir à Penitenciaria Apostólica a indulto para celebrar nos dias festivos a missa votiva da Bem-Aventurada Virgem e nos dias feriais a missa pelos fiéis defuntos. E ainda assim nunca se lamentou, nem sequer rezou para ser curado. Foram seus filhos que rezaram; mas o Senhor tinha seus caminhos. E Dom Bosco, apesar do mal, continuou com imenso esforço a ocupar-se de todos e de tudo para promover a glória de Deus e o bem das almas, até a morte.
Natale CERRATO, Dom Bosco e seu estilo, p. 48

