20 Jan 2026, Ter

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 O Venerável Dom Otávio Ortiz Arrieta Coya passou a primeira parte de sua vida como oratoriano, estudante e depois se tornou salesiano, engajado nas obras dos Filhos de Dom Bosco no Peru. Ele foi o primeiro salesiano formado na primeira casa salesiana do Peru, fundada em Rimac, um bairro pobre, onde aprendeu a viver uma vida austera de sacrifício. Entre os primeiros salesianos que chegaram ao Peru em 1891, ele conheceu o espírito de Dom Bosco e o Sistema Preventivo. Como salesiano da primeira geração, aprendeu que o serviço e o dom de si seriam o horizonte de sua vida; por isso, como jovem salesiano, assumiu responsabilidades importantes, como abrir novas obras e dirigir outras, com simplicidade, sacrifício e dedicação total aos pobres.
            Viveu a segunda parte de sua vida, a partir do início da década de 1920, como bispo de Chachapoyas, uma imensa diocese, vacante há anos, onde as condições proibitivas do território levavam a um certo fechamento, especialmente nas aldeias mais remotas. Aí, o campo e os desafios do apostolado eram imensos. Ortiz Arrieta era de temperamento vivo, acostumado à vida comunitária; além disso, era delicado de espírito, a ponto de ser chamado de “pecadito” em sua juventude, por sua exatidão em detectar falhas e ajudar a si mesmo e aos outros a se corrigirem. Ele também possuía um senso inato de rigor e dever moral. No entanto, as condições em que teve de exercer seu ministério episcopal eram diametralmente opostas a ele: a solidão e a impossibilidade substancial de compartilhar uma vida salesiana e sacerdotal, apesar dos repetidos e quase suplicantes pedidos à sua própria Congregação; a necessidade de conciliar o próprio rigor moral com uma firmeza cada vez mais dócil e desarmada; uma delicada consciência moral, continuamente posta à prova pela aspereza das escolhas e pela tibieza no seguimento, por parte de alguns colaboradores menos heroicos do que ele, e de um povo de Deus que sabia opor-se ao bispo quando a sua palavra se tornava uma denúncia de injustiça e um diagnóstico dos males espirituais. O caminho do Venerável em direção à plenitude da santidade, no exercício das virtudes, foi, portanto, marcado por provações, dificuldades e pela contínua necessidade de converter o olhar e o coração, sob a ação do Espírito.
            Embora certamente encontremos episódios em sua vida que podem ser definidos como heroicos no sentido estrito, devemos também, e talvez acima de tudo, destacar aqueles momentos em sua jornada virtuosa em que ele poderia ter agido de forma diferente, mas não o fez; ceder ao desespero humano, enquanto renovava a esperança; contentar-se com uma grande caridade, mas não totalmente disposto a exercer aquela caridade heroica que praticou com fidelidade exemplar por várias décadas. Quando, por duas vezes, lhe foi oferecida uma mudança de sede e, no segundo caso, a sede primacial de Lima, ele decidiu permanecer entre os seus pobres, aqueles que ninguém queria, verdadeiramente na periferia do mundo, permanecendo na diocese que sempre abraçou e amou como era, comprometendo-se de todo o coração a torná-la apenas um pouco melhor. Ele era um pastor “moderno” em seu estilo de presença e no uso de meios de ação, como o associacionismo e a imprensa. Homem de temperamento decidido e de firmes convicções de fé, o bispo Ortiz Arrieta certamente fez uso desse “don de gobierno” [dom de governo] em sua liderança, sempre combinado, porém, com respeito e caridade, expressos com extraordinária consistência.
            Embora ele tenha vivido antes do Concílio Vaticano II, a maneira como planejou e executou as tarefas pastorais que lhe foram confiadas ainda é relevante hoje: do cuidado pastoral das vocações ao apoio concreto de seus seminaristas e sacerdotes; da formação catequética e humana dos mais jovens ao cuidado pastoral das famílias, por meio do qual ele encontrou casais em crise ou casais que coabitavam relutantes em regularizar sua união. Dom Ortiz Arrieta, por outro lado, não educa apenas por sua ação pastoral concreta, mas por seu próprio comportamento: por sua capacidade de discernir por si mesmo, em primeiro lugar, o que significa e o que implica renovar a fidelidade ao caminho percorrido. Perseverou verdadeiramente na pobreza heroica, na fortaleza diante das muitas provações da vida e na fidelidade radical à diocese para a qual havia sido designado. Humilde, simples, sempre sereno; entre a seriedade e a delicadeza, a doçura do olhar deixava transparecer toda a tranquilidade do espírito: esse foi o caminho de santidade que ele percorreu.
            As belas características que seus superiores salesianos encontraram nele antes de sua ordenação sacerdotal – quando o descreveram como uma “pérola salesiana” e elogiaram seu espírito de sacrifício – retornaram como uma constante ao longo de sua vida, também como bispo. De fato, pode-se dizer que Ortiz Arrieta “fez-se tudo para todos, a fim de salvar alguns a qualquer custo” (1Cor 9,22): de alto prestígio com as autoridades, simples com as crianças, pobre entre os pobres; manso com aqueles que o insultavam ou tentavam deslegitimá-lo por ressentimento; sempre pronto a não retribuir o mal com o mal, mas a vencer o mal com o bem (cf. Rm 12,21). Toda a sua vida foi dominada pelo primado da salvação das almas: uma salvação à qual ele também queria que seus sacerdotes se dedicassem ativamente; buscava contrariar a tentação de se confinarem a uma segurança fácil ou de se entrincheirarem atrás de posições de maior prestígio, a fim de comprometê-los, em vez disso, com o serviço pastoral. Pode-se dizer que ele realmente se colocou nessa medida “elevada” da vida cristã, o que faz dele um pastor que encarnou a caridade pastoral de maneira original, buscando a comunhão entre o povo de Deus, indo ao encontro dos mais necessitados e testemunhando uma vida evangélica pobre.

Ángel Card. FERNÁNDEZ ARTIME

Reitor-Mor dos Salesianos de Dom Bosco