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O menino que cresce está destinado a inserir-se mais ou menos depressa no tecido social e econômico por meio dos estudos ou do aprendizado de um ofício. Na época de Francisco de Sales, para a grande maioria dos rapazes o estágio “no local de trabalho” começava muito cedo, a ponto de passarem da infância à vida adulta sem nenhuma etapa intermédia. Eram raros os que, como o futuro bispo de Genebra, seguiam um longo currículo de estudos, em vista da carreira a que estavam destinados.
Preparação para a vida ativa na sociedade
O estudo e o trabalho serviam primeiro a quem neles se dedicava, mas sua utilidade normalmente repercutia na família e na sociedade. Como estudante em Paris, o jovem Francisco expressava seu ideal de vida em termos de serviço. A um amigo do pai que o visitou escrevia:
“Como me encontro no melhor período dos meus estudos, sentirei um encorajamento ainda mais forte para prosseguir nos estudos empreendidos, os quais, ouso esperar (sem me iludir), me conduzirão ao bom fim que desejo com a ajuda de Deus, que é, em primeiro lugar, poder servi-Lo bem e, em segundo lugar, prestar bons serviços a vós, aos quais tenho tantos deveres de gratidão.”
Como se vê, depois do serviço a Deus, Francisco de Sales tinha como objetivo preparar-se para servir o próximo.
Tendo-se tornado um bispo muito inserido na sociedade de seu tempo, empenhou-se, segundo suas possibilidades, em ajudar a juventude a formar-se. Seu ecônomo, Jorge Rolland, informa-nos que Francisco de Sales hospedou por cerca de um ano “em sua casa” um jovem convertido, o fez estudar no colégio dos jesuítas em Chambéry, “lhe deu também alimento e vestuário”; a outro jovem “ensinou, às suas custas, a profissão de amolador” e a outro ainda “a profissão de pedreiro”. Às vezes tinha de empregar jovens para serviços domésticos.
Num contexto social em que a maioria das pessoas abraçava um estado de vida e uma profissão sem poder realmente escolher, Francisco de Sales ensinava-os a fazer de qualquer tipo de “estágio” (treinamento) uma vocação e um serviço. As duas palavras quase homônimas (em italiano vacazione e vocazione – isto é, treinamento e vocação) serviam-lhe para valorizar em cada um a profissão, o dever ou a incumbência próprios, a ponto de torná-los também um critério para a devoção. Afirmava que cada um deve aprender a “passar da oração a todos os vários tipos de atividades que os [seus] compromissos e a [sua] profissão justa e legitimamente exigem de [si]”; “um advogado deve saber passar da oração à defesa; o comerciante, aos seus negócios; a mulher casada, aos seus deveres familiares e ao barulho doméstico”. Tudo deveria ser conforme ao tipo de ocupação de cada pessoa. O objetivo da Filoteia era também ensinar uma devoção que fosse “conveniente a toda espécie de vocação e profissão”. Mesmo a humildade, tão estimada pelo autor, devia ser “conforme à própria vocação”.
O valor do trabalho
A aprendizagem da “nobreza” do trabalho começa na família. Numa carta em latim aos filhos do amigo Antônio Favre, Francisco de Sales convidava-os a imitar o pai, jogando com o sentido da palavra latina faber [artesão]:
Fazeis muito bem em imitar os exemplos do vosso ilustre e excelente pai, escrevendo-me com um tom tão afetuoso. Imitai com o mais alto respeito esse vosso modelo; mantende, dia e noite, o vosso olhar fixo em seus excelentes exemplos, amigos caríssimos. Assim, enquanto agora sois excelentes aprendizes [de Favre], saireis de sua oficina como nobilíssimos artesãos (“fabri nobilissimi”).
A vida laboriosa do bispo de Genebra podia também servir de incentivo ao trabalho. Em suas cartas dizia frequentemente estar “circundado”, “distraído e impedido por um amontoado de trabalhos”, “arrastado daqui para ali pelos afazeres”, “ocupado e sobrecarregado pelos negócios”, com o espírito “sobrecarregado por tantos compromissos”, imerso “num mundo de incumbências”, num “mar de ocupações ordinárias” ou num “grande emaranhado de negócios”. Sabia por experiência que “a diversidade e multiplicidade dos afazeres pesa mais do que o próprio peso deles”.
Do mesmo modo, quando escreveu a Filoteia, dirigiu-se com critério a quantos são “pressionados pelos negócios temporais”, a pessoas encarregadas de “muitos trabalhos mundanos”, ocupadas em “afazeres e ocupações comuns”, tomadas por “multiplicidade de funções humanas”.
Mas em tudo isso não há nada de extraordinário. “O homem nasce para trabalhar e o pássaro para voar”, escrevia num esboço de sermão sobre o tema da criação. A atividade que a pessoa desempenha tem um papel positivo. Segundo uma possível interpretação que gostava de citar, não é o homem que guarda o jardim do Gênesis, mas o jardim que guarda o homem por meio do trabalho. Davi “caiu na tentação que procurara com o ócio e com a ociosidade”. O trabalho afasta a tentação. “Como a ociosidade é a mãe de todos os vícios, uma ocupação necessária e oportuna liberta a alma de mil fantasias”. Num vigoroso discurso enfatizava essa verdade dirigindo-se aos preguiçosos:
Levanta-te da tua cama, ó preguiçoso, porque é hora, e não te assustes pelo trabalho do dia, porque é natural que, sendo a noite feita para repousar, o dia seguinte seja destinado ao trabalho. Sai, por favor, da tua covardia, e fixa bem no teu espírito a verdade que não pode ser desmentida: a saber, que todos devem ser tentados, todos devem estar prontos a combater, a fim de alcançar a vitória. Visto que a tentação tem um domínio extraordinário sobre nós quando nos encontra ociosos, trabalhemos, pois, e não nos cansemos.
Consequentemente, “não façais como os preguiçosos que se perturbam quando despertam de noite com a preocupação de que em breve será dia e será preciso trabalhar. Os preguiçosos e os covardes têm medo de tudo e acham tudo árduo e difícil”. Francisco de Sales, pregador constante da paz, preocupa-se em ser bem compreendido; por isso define que “a verdadeira paz não consiste em não combater, mas em vencer”. Sem procrastinação: “Não se deve perder tempo a discorrer quando há que correr, nem ficar a deliberar sobre as dificuldades quando é necessário desatá-las”. A tranquilidade, tão apreciada por ele, não é indolência, porque “a tranquilidade não exercida na tempestade é uma tranquilidade preguiçosa e enganadora” e “a paz não é legítima, se foge ao trabalho exigido para glorificar o nome de Deus”. “Não devemos contentar-nos com o bem quando podemos alcançar o melhor”.
“Continuemos a trabalhar bem – conclui Francisco de Sales com otimismo –, porque não há terreno tão ingrato que o amor do lavrador não possa tornar fecundo”. Aliás, segundo Santo Agostinho, o amor torna o trabalho e o sofrimento mais leves: “O esforço – diz – não tem lugar onde há amor, ou, se está presente, é amado”.
Tratar os negócios com cuidado, mas sem aflição ou ansiedade
O título de um capítulo da Filoteia diz: “Devemos cuidar de nossos negócios com zelo, mas sem aflição ou ansiedade”. Era uma recomendação das mais frequentes: “O cuidado e a diligência que devemos pôr em todos os nossos afazeres são coisas bem diferentes da apreensão, da ansiedade ou da aflição”. O trabalho pode ser fonte de “felicidade”, mas desde que seja realizado com “ânimo tranquilo e pacífico”. É preciso trabalhar com diligência, com constância, mas sem precipitação, como faz a senhora de Chantal quando maneja o fuso:
Fazei sempre assim: ponde sempre a mão em um pouco de trabalho; fiai todos os dias um pouco, seja de dia […], seja de noite, à luz da lâmpada […]. Fazei com que os vossos projetos se tornem realidade, e certamente deles colhereis fruto. Cuidado, porém, para não serdes impacientes; caso contrário dali sairia um fio cheio de nós e revestiríeis muito mal o vosso fuso. Caminhemos sempre e, por mais devagar que caminhemos, percorreremos sempre uma longa estrada.
A “aflição”, sinônimo de agitação, é um comportamento prejudicial: “Não vos precipiteis sobre os vossos compromissos: porque qualquer espécie de pressa perturba a razão e a capacidade de juízo e até impede de bem fazer as coisas pelas quais nos afadigamos”. A sabedoria é bem expressa no antigo provérbio: “É preciso apressar-se com calma” e fazer as coisas “com ordem, uma depois da outra”. Imitemos o lavrador cuidadoso, mas nada agitado: “Não sabes que justamente cabe a ti cultivar a terra, ará-la e semeá-la, mas que só Deus faz chover sobre o semeado e o faz crescer de modo que possas ter boa colheita?”.
Mas de onde vem essa agitação que por vezes nos domina? Grande parte do mal-estar e do descontentamento que sentimos no trabalho deriva de desejos e sonhos que nos desviam das ocupações presentes, conformes ao nosso estado de vida e aos nossos deveres, para nos imergir num mundo irreal, fora do nosso alcance e da nossa tarefa. O pensamento do autor da Filoteia é claro a esse respeito:
Não posso de forma alguma aprovar que uma pessoa com seu dever ou seu compromisso se entregue a desejar um tipo de vida diferente daquele conforme ao seu dever, ou a atividades incompatíveis com sua condição atual; porque isso dissipa a concentração do coração e o torna distraído nas ocupações necessárias.
Como fazer para conferir qualidade a todas as nossas ações? Isso depende não só do modo como as realizamos, mas também da intenção que as guia. Podemos, de fato, cumprir nossos compromissos por motivos egoístas ou com espírito de serviço. Podemos fazer com que tenham qualidade não apenas “as empresas importantes e de grande relevo”, mas também “as coisas pequenas e humildes”; é possível valorizar “as grandes obras, mas também as menos importantes e até as mais humildes”.
As “virtudes pequenas e humildes”, como “o serviço aos pobres, as visitas aos doentes, o cuidado da família, com as atividades a elas anexas e conexas, e a frutuosa diligência que não vos deixará ociosos”, têm seu justo valor que merece ser apreciado. Entre visões e êxtases, Santa Catarina de Sena não se esquecia de “girar humildemente o espeto na cozinha, atiçar o fogo, preparar os alimentos, amassar o pão e realizar todos os trabalhos domésticos mais humildes”.
Aqui vai um conselho muitíssimo útil para evitar a agitação: façamos de vez em quando uma pequena pausa, seguindo o exemplo de quem tem uma longa viagem a empreender: “O peregrino que bebe um pouco de vinho para alegrar o coração e refrescar a boca, embora demore um momento, não por isso interrompe sua viagem; ao contrário, ganha forças para completá-la antes e mais facilmente, visto que apenas se detém para seguir mais depressa”. Em suma, trata-se de conciliar ardor e calma, paixão e paz.
Socorrer os pobres
Francisco de Sales quis ouvir “o clamor dos pobres e necessitados”, bem sabendo não apenas que “existe a obrigação de socorrer o próximo”, mas que “é preciso cumpri-la”. Ele elaborou uma “teologia salesiana da pobreza”. Evocando numa pregação as catástrofes naturais que ameaçavam privar os camponeses dos produtos de seus campos, quando, após uma desastrosa seca, a tempestade ameaçava destruir tudo, escrevia:
Eis que chega um vento quente e impetuoso, […] acompanhado de nuvens negras ameaçadoras; […] com relâmpagos, granizo e tempestade destruirá aqueles poucos produtos que a seca deixou nos campos e nos prados […]. Então esses pobres camponeses […], levantando as mãos para o céu sombrio, empunhando velas bentas, implorarão ao Criador que afaste sua ira.
E o que dizer dos ainda “mais pobres pastores que dormem sobre a terra nua, sob as pontes e nos bosques?”.
A situação pessoal do bispo não lhe permitia fazer tudo o que gostaria em favor dos necessitados. Como seus predecessores, após a revolta protestante, fora privado de sua catedral, do seu palácio e das principais rendas e recursos. Ao tornar-se bispo da diocese de Genebra, “esta miserável barca, toda estilhaçada e com o interior aberto”, não herdou uma fortuna. No entanto, desde o início de seu episcopado Francisco de Sales havia estabelecido uma regra em que a generosidade para com os que recorriam a ele em suas necessidades ocupava lugar de destaque:
Quanto à esmola […], deve-se fazer com que seja mais abundante no inverno do que no verão, especialmente depois da festa dos Reis Magos, porque então os pobres mais precisam; por isso distribuir-se-ão leguminosas. Não sei se será conveniente que o bispo distribua a esmola com as próprias mãos, quando vir que isso possa ser feito comodamente: como na quarta-feira da semana santa ou na quinta e na sexta da Paixão. Na quinta-feira santa, por ocasião da lavar os pés, oferecer-se-á uma refeição aos pobres.
Para um bispo como o de Genebra, a questão dos pobres constituía uma preocupação fundamental e permanente, numa época em que os necessitados não tinham “direito” a qualquer proteção ou segurança. Por isso o meio mais ordinário para ajudar os pobres era a esmola. Assim escrevia à esposa do presidente do parlamento da Borgonha:
Quanto às vossas esmolas, minha cara filha, aumentai-as sempre um pouco e em boa medida, mas com a discrição que anteriormente vo-lo disse de viva voz ou por escrito; porque o que lançais no seio da terra produz poucos frutos da sua fertilidade, enquanto bem sabeis que o que lançais no seio de Deus vos será restituído, de um modo ou de outro, infinitamente mais frutuoso.
Se todos são obrigados a ajudar o próximo necessitado, deve-se contudo levar em conta as condições e as possibilidades de cada um. O responsável de uma família, assim como o dirigente político, devem pensar no futuro da respetiva instituição.
Não somente a caridade não permite que os pais de família vendam tudo para dá-lo aos pobres, mas ordena-lhes que juntem honestamente o necessário para a educação e o sustento da esposa, dos filhos e dos empregados; como ordena aos reis e príncipes ter um erário que, fruto de uma poupança justa e não de especulações tirânicas, sirva de defesa apropriada contra inimigos visíveis.
Quanto a si, o bispo de Genebra estava pronto a ir além de certas conveniências. Em 1622, durante uma estada em Turim, tomou conhecimento da angústia dos habitantes de Annecy, prostrados pela ocupação das tropas francesas e pela carestia de trigo daquele ano. Abandonando a corte disse: “Vou-me daqui muito contente e firmemente resolvido, quando chegar à nossa diocese, a vender a mitra, a cruz, as vestes, o serviço de louça e tudo o que possuo para socorrer os pobres”.
Servir os pobres
A solidariedade com os pobres manifesta-se de muitas maneiras. Francisco de Sales fazia-se porta-voz dos que nada tinham. Após a miséria provocada por uma catástrofe natural, escreveu ao duque pedindo a supressão do imposto:
Tendo visto em Sixt o assustador e irreparável abatimento ocorrido alguns anos atrás, logo após o deslizamento de uma encosta de montanha, não pude deixar de dar o meu sincero testemunho a favor do justo pedido dos habitantes do lugar, que recorrem à clemência de Vossa Alteza, para serem isentos, em justa proporção, dos impostos. Por isso asseguro que essa desgraça os privou de uma parte considerável de seus bens, de modo que de pobres que eram passaram a ser a miséria personificada, sobre a qual, como sobre um objeto digno de atenção, a caridade de Vossa Alteza derramará a sua esmola, como eles esperam.
O autor da Filoteia recomendava a todos também os “trabalhos úteis ao serviço de Deus e do próximo”, que consistiam particularmente em “servir os doentes”, “socorrer os pobres”, “recolher as almas perdidas e desviadas” e também “promover a paz e a concórdia entre as pessoas”. Aprovava que a baronesa de Chantal preparasse com as próprias mãos roupas destinadas “ou aos altares ou aos pobres”.
Mas há vários graus na prática da esmola; de fato “emprestar aos pobres fora de uma grave necessidade é o primeiro grau do conselho da esmola; um grau superior é dar simplesmente; mais alto ainda é dar tudo; e, finalmente, ainda mais acima, dar também a própria pessoa, consagrá-la ao serviço dos pobres”. Quando servimos os pobres, estes se tornam pessoas importantes:
Quereis fazer ainda mais, minha Filoteia? Então não vos contenteis em ser pobre como os pobres, mas sede ainda mais pobre do que os pobres. Como o podeis fazer? O servo é menos que o senhor: tornai-vos, portanto, serva dos pobres; ide a cuidar-lhes dos leitos quando estão doentes, e com vossas mãos; sede-lhes cozinheira, e às vossas despesas; sede-lhes costureira e lavadeira.
São Vicente de Paulo, seu discípulo, lembrará essas recomendações ao ensinar que “os pobres são nossos mestres”. Francisco de Sales encorajará a senhora de Chantal a perseverar em seu serviço aos pobres, apesar da repugnância que sentia: “Fico contente, minha Filha – escrevia-lhe –, que cuideis dos leitos dos pobres enfermos; e além disso, fico muito contente que sintais, nisso, grande repugnância, porque essa repugnância é motivo de abjeção mais forte do que o mau cheiro e a sujeira que a provocam”.
No seu livro intitulado Utopia, Tomás Morus sonhara com um país em que se viveria sem o teu e o meu. Para Francisco de Sales esse ideal devia ser posto em prática nos mosteiros das visitandinas: “Se alguém quisesse ter algo teu ou meu – dizia-lhes francamente –, era preciso ir dá-lo fora de casa, porque no interior não se fala sequer disso”.
O grande princípio salesiano, segundo o qual “o amor torna os amantes iguais”, aplica-se de modo particular ao caso da pobreza e dos pobres. Amando os pobres a gente se torna semelhante a eles, o que permite a Francisco de Sales dirigir esta recomendação a Filoteia:
Amai os pobres e a pobreza, porque através deste amor vos tornareis verdadeiramente pobres, visto que, diz a Escritura, somos feitos como as coisas que amamos. O amor torna iguais os amantes: quem é doente, que eu não esteja doente com ele também? diz São Paulo. Poderia também ter dito: quem é pobre, que eu não seja pobre com ele também?
De fato, conclui o autor da Filoteia com otimismo, “o amor o fazia ser como aqueles que amava”.

