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A vida não é feita apenas de trabalho e de ocupações sérias; ela também é marcada por momentos de descanso, descontração e “recreações”. Para um homem interessado na formação e na educação como Francisco de Sales, essa dimensão da vida humana não podia deixar de chamar atenção. Certamente, sua abordagem é sobretudo de caráter ético: ele não se ocupa da descontração ou do jogo em si; não há nele uma reflexão sobre o valor educativo de tal ou qual jogo ou divertimento. Preocupa-se, antes, em definir as condições que tornam os divertimentos necessários, úteis, bons, indiferentes ou nocivos, conforme os casos. No entanto, manifesta seu humanismo também neste tema, graças à sua abertura de espírito e de coração a tudo o que é humano e, em particular, ao que interessa à juventude.
Necessidade de repouso e descontração
“De vez em quando é necessário fazer descansar o corpo e o espírito com alguma forma de recreação”, afirma o autor da Filoteia. Mesmo nos mosteiros das visitandinas, a recreação é um momento indispensável:
“As religiosas precisam de descontração” – afirma –, e sobretudo é preciso promover uma boa recreação para as noviças. Não se deve manter o espírito continuamente tenso, sob pena de se tornar melancólico. Eu não gostaria que alguém ficasse inquieto por ter passado toda uma recreação falando de coisas indiferentes; em outra ocasião falará de coisas boas.
O capítulo da Filoteia dedicado aos “passatempos e recreações” enumera várias atividades comuns na época, consideradas “permitidas e louváveis”:
Tomar ar, passear, entreter-se com alguém em alegre e amável conversação, tocar alaúde ou outro instrumento, cantar, caçar são recreações tão honestas que, para delas se servir bem, basta um pouco de prudência comum, a qual atribui a tudo o lugar, o tempo e medida convenientes.
A lista começa com dois tipos de descontração inseparáveis: tomar ar e passear, dois aspectos da mesma atividade relaxante. “Tomar ar” é como o pássaro que “toma o ar e foge”, eleva-se e voa com as asas abertas, enquanto o viajante se serve dos seus pés. Ao passear pode-se atribuir, à primeira vista, o que o autor diz sobre a necessidade de recreações bem feitas, pois elas têm a dupla vantagem de aliviar o espírito e também o corpo.
Dar ao passeio “o lugar, o tempo, o local e a medida convenientes” significa que tal atividade vem depois das ocupações sérias, que fazem parte dos deveres de cada um. O tempo a dedicar depende evidentemente do que é necessário e aconselhável para cada pessoa.
O passeio pode ser um bom remédio em caso de sobrecarga de trabalho: “Quando o trabalho excessivo lhe causava algum mal-estar – conta seu amigo Dom Camus –, seu médico lhe aconselhava a tomar um pouco de ar, dedicar algum tempo a passear, durante alguns dias, com o objetivo de eliminar, com essas descontrações, os maus humores que havia acumulado e que o tornavam pesado”. Muito obediente ao médico, o bispo ia passear “em um vasto jardim”.
Os jogos de destreza
Na época de Francisco de Sales estavam em voga “a «pallacorda», a pelota, o «pallamaglio», a corrida dos anéis”. O jogo da «pallacorda» é o antecessor do tênis: alguém rebatia a bola sobre uma corda, com a palma da mão ou com uma raquete. A paixão por esse jogo devia ser grande, se suscitou este alerta: “Jogar bola muito tempo não significa descansar o corpo, mas extenuá‑lo”.
O jogo da pelota serviu-lhe um dia para descrever o desprezo pelas honras: “Quem é aquele que, no jogo da pelota, a recebe melhor? Aquele que a lança mais longe”. O «pallamaglio», antecessor do críquete e do golfe, consistia em lançar e repelir uma bola de madeira dura com uma espécie de malho, um bastão com uma extremidade em formato de martelo. Sabe‑se que existia um jogo de «pallamaglio» em Annecy, às margens do lago. Quanto à corrida dos anéis, consistia em correr fazendo passar por uma vara, que se segurava na mão, uma série de anéis. Exigia grande concentração, o que o levou a dizer: “Os que fazem a corrida dos anéis não pensam de modo algum no público que os observa, mas em fazer uma boa corrida para vencer”.
Todos esses jogos, que demandam grande gasto de energia, são particularmente adequados aos jovens. Francisco de Sales os aconselha a um jovem, acrescentando a equitação: “Exercitai‑vos em passatempos que exigem força, como cavalgar, saltar e outros jogos semelhantes”.
Aquele que joga o faz evidentemente por prazer e para agradar aos outros. Mas é preciso evitar que o jogo se transforme em dependência, da qual não se pode mais libertar. Nossos afetos são tão preciosos – dizia –, “que exigem não deixá‑los enredar em coisas inúteis”.
Os jogos de salão
O xadrez e os jogos “de mesa” fazem parte dos “divertimentos em si bons e honestos” (I III 31). Os jogos de mesa designavam todos os jogos que exigiam uma mesa, em particular o jogo de damas e o de xadrez. Este último podia transformar‑se numa paixão difícil de moderar com o tempo, de modo que “depois de jogar xadrez por cinco ou seis horas, alguém sai morto de cansaço e vazio de espírito”.
Os jogos de azar com dados ou cartas, nos quais se joga dinheiro e às vezes se apostam grandes quantias, são francamente desaconselhados. No capítulo sobre “os jogos proibidos”, o autor da Filoteia expõe três motivos contra os jogos de azar. Em primeiro lugar, “nestes jogos não se vence por razão, mas pela força da sorte, que muitas vezes recompensa quem por habilidade ou trabalho não merecia nada”. Em segundo lugar, não são verdadeiramente jogos, mas sim “ocupações violentas”: nelas mantém‑se “o espírito todo concentrado e tenso numa atenção contínua, e todo agitado por inquietações, temores e ansiedades perpétuas”. Por fim, a alegria do vencedor é a alegria de um só, “visto que se obtém somente às custas e com o pesar do companheiro”.
A paixão pelo jogo pode conduzir o jogador à ruína mais completa: “Aquele que se habitua a jogar pequenas quantias, depois jogará escudos, depois pistolas, depois cavalos e, depois dos cavalos, toda a sua fortuna”. Por todas essas razões, Francisco de Sales adverte o jovem que está “para zarpar no vasto mar da corte” contra os riscos do jogo. Mas como sempre em Francisco de Sales, há uma exceção: alguém pode jogar um jogo de azar para agradar a outro, por “condescendência”: “Os jogos de azar, que de outro modo seriam repreensíveis, não o são se, uma ou outra vez, os fizermos por justa condescendência”.
Diversões culturais
Depois do jogo da dança, o autor da Filoteia enumera como fonte de recreação e diversão certas atividades artísticas, tais como as “comédias”, termo que designava então qualquer representação teatral; ou como “tocar” o alaúde ou qualquer outro instrumento e “cantar músicas”. A música é feita “para alegrar” o ouvido. Há grande diferença “entre uma música escrita e uma música cantada”. A música é fonte de prazer, mas o prazer é mais ou menos grande “conforme os ouvidos são mais ou menos delicados”:
Nem todos, neste mundo, são capazes de compreender da mesma maneira o som e a harmonia de uma música: quem tem o ouvido um pouco mais rude não pode captar todas as nuances que são utilizadas para tornar perfeita a melodia, embora entenda e conheça a música, coisa que é possível para quem tem o ouvido mais fino; e embora o primeiro desfrute da doçura que sente ao ouvir essa música, contudo não experimenta um prazer tão grande quanto quem tem o ouvido mais fino, embora ambos estejam contentes.
Cantar exige certo esforço, mas o canto eleva: “O peregrino que segue alegre cantando em sua viagem soma concretamente o esforço do canto ao do caminhar, e não obstante com tal aumento de esforço anima‑se e alivia o esforço da marcha”. Contudo, não se deveria fazer “como os cantores que ficam roucos, por força de repetir um motete à exaustão”.
Existem ainda outros meios de descontração, como a leitura e também a escrita. Lê‑se ou escreve‑se não apenas para instruir a si mesmo ou aos outros, mas também para recrear a si mesmo e aos outros. Sente‑se prazer também em escrever, e o autor do Teótimo confessava isso de bom grado ao seu leitor:
Como os escultores de pérolas preciosas, sentindo que a vista se cansa de mantê‑la fixa em traços delicados de sua obra, põem com prazer diante de si alguma esplêndida esmeralda, para que, admirando de vez em quando o verde, possam recrear‑se e fazer repousar seus olhos cansados. Do mesmo modo, nestas múltiplas ocupações que minha condição me acumula incessantemente, sempre tenho pequenos projetos sobre temas religiosos a tratar, nos quais penso quando posso, para elevar e fazer repousar meu espírito.
As festas, os banquetes e as “pompas”
Enquanto os protestantes haviam suprimido a maior parte das festas, os católicos continuavam a celebrar numerosas festividades, em particular as de Nossa Senhora e dos santos. Para Francisco de Sales, “os domingos e as festas sagradas” são dias diferentes dos outros, por isso “em geral veste‑se melhor”.
Além das festas religiosas “mandadas pela Igreja” e “por ela recomendadas”, existem as “festas civis”, como a celebrada em Lião por ocasião da entrada de Luís XIII naquela cidade. Também o bispo de Genebra era festejado durante suas visitas pastorais, como em sua solene entrada em Bonneville:
“Minha querida Filha, que bom povo eu encontrei no meio de tão altas montanhas! Que honra, que acolhimento, que veneração por seu bispo! Outro dia cheguei a tal cidade no meio da noite; mas os habitantes haviam preparado tantas luzes e tanta festa que tudo estava iluminado”.
Por ocasião das festas organizam‑se banquetes e veste‑se “com grande pompa”. Ora, “os banquetes, as pompas” fazem parte das coisas que Francisco de Sales colocava entre aquelas que “em essência não são de modo algum más, mas sim indiferentes”. Tudo depende do uso que se faz delas.
Preparar um bom almoço é demonstração de amizade: de fato, “como se pode mais genuinamente expressar o desejo de que um amigo desfrute de uma boa refeição senão preparando‑lhe um banquete saboroso e requintado?”.
Mas não se deve cair em excessos: “Aqueles que, encontrando‑se num festim, provam cada prato e comem um pouco de tudo, arruínam seriamente o estômago, ao qual provocam uma indigestão tão grave que não dormem a noite inteira, não conseguindo fazer outra coisa senão vomitar”. Os casamentos são grandes ocasiões para festejar e alegrar‑se; mas não é raro, constatava o bispo, que “se deem milhares de desregramentos em passatempos, em banquetes e em conversas”.
Os “colóquios alegres e amáveis”
Entre os passatempos mais comuns e agradáveis da sociedade humana, há enfim as conversas familiares, os “colóquios alegres e amáveis”. Os temas tratados podem ser muito diversos. Segundo Camus, o bispo de Genebra não desprezava falar com os amigos “de construções, de pintura, de música, de caça, de aves, de plantas, de jardins, de flores”. Sabia extrair, ao seu modo, “dessas coisas tantas elevações espirituais”.
Na Filoteia, Francisco de Sales consagra cinco capítulos ao tema Do falar. Entre os dois excessos – tagarelice e taciturnidade – há espaço para a conversa, cujas qualidades principais devem ser a amabilidade e o bom humor. Três defeitos a destroem: as palavras grosseiras, a mentira e o escárnio.
Seguindo Aristóteles e Santo Tomás, Francisco de Sales elogia a “eutrapelia”, palavra grega que designa a conversação agradável, e por isso a Filoteia deve evitar as “risadas e alegrias estúpidas e insolentes”, como “cortar a fala a fulano, difamar beltrano, provocar terceiro, fazer mal a um tolo”.
A alegria não deve ser reduzida a mero sentimento privado; é também, em certo sentido, um dever social. As cartas de Francisco de Sales a seus correspondentes estão cheias de conselhos desse tipo: “Conservai a santa e cordial alegria que nutre as forças do espírito e edifica o próximo”. Para “contentar” os outros, a alegria é indispensável: “Sinto‑me muito consolado pela alegria que permeia o vosso viver; Deus de fato é o Deus da alegria”.
Pode‑se, portanto, brincar e contar gracejos, com a boa consciência do religioso avinhonense que havia “zombado publicamente” dele, porque havia escrito na Filoteia “que durante a recreação se podem contar piadas”. O exemplo vinha de cima:
São Luís, quando os religiosos queriam falar com ele de assuntos importantes depois do almoço: Não é tempo para falar disso – dizia –, mas para se recrear com algo alegre e com gracejos: cada um diga honestamente o que quiser.
Se as palavras são “limpas, civis e honestas”, qual o mal nisso? Francisco de Sales recomendava frequentemente a alegria, mesmo às visitandinas que podiam ser tentadas a negligenciar a recreação. O dever, as responsabilidades, as ocupações impõem obrigações que facilmente nos fazem esquecer o “dever da alegria”. Francisco de Sales falava por experiência ao escrever:
“É preciso não apenas fazer a vontade de Deus, mas, para ser uma pessoa devota, é preciso fazê‑la de maneira alegre. Se eu não fosse bispo, talvez – sabendo o que isso quer dizer – eu não gostaria de sê‑lo. Mas sendo bispo, não apenas sou obrigado a cumprir o que esta pesada vocação exige; devo também cumpri‑lo com alegria, devo comprazer‑me e considerá‑lo agradável”.
Há que entender que a alegria nem sempre residia em todos os “planos” da alma humana, mas às vezes apenas no seu “ápice”.
O humor salesiano
Ficando sem notícias, a um amigo curioso que as pedia, respondia: “Todas as nossas notícias reduzem‑se a isto: não temos nenhuma”. Observar pequenas estranhezas de uns e outros presta‑se bem a alguma observação espirituosa. A uma de suas filhas espirituais, um tanto presunçosa e autossuficiente, lança esta alfinetada gentilmente zombeteira: “Sinto‑me à vontade pelo fato de os meus livros terem encontrado passagem no vosso espírito, que é tão bom que julga bastar‑se a si mesmo”. Podem‑se autorizar certas damas de Chambéry a entrar no mosteiro para ver a nascente congregação? “Disse‑lhes que sim, contanto que não tragam a longa cauda […] São damas muito boas, salvo a vaidade”.
A ironia é muito fina nesta passagem de uma pregação em que zomba da falsa cortesia que se ostenta ao ouvir o pregador: “Quando se é convidado para jantar, alguém toma para si; aqui, porém, é extremamente cortês, porque nunca se deixa de servir aos outros”. As inúmeras imagens e comparações, tomadas em particular dos animais, fazem frequentemente sorrir, porque o bispo evoca não apenas animais “nobres” como o leão ou “graciosos” como as pombas, mas também macacos, galinhas, rãs, camaleões e crocodilos.
Uma grande questão debatida entre os autores espirituais era saber se era permitido rir. Na realidade, há duas maneiras de rir: “O escárnio suscita riso com desprezo e nojo do próximo; a conversa alegre, porém, provoca riso numa simplicidade tranquila, por confiança e franqueza íntima, unidas à gentileza das palavras”. Quando o bispo de Genebra ensinava catecismo às crianças, gostava “de fazer rir um pouco os presentes” brincando com as máscaras e as danças, tanto que seu auditório o “incitava com palmas a continuar a agir como menino entre as crianças”.
O humor é o sal da conversa e um dos meios mais seguros para se comunicar com o próximo. O bispo de Genebra tinha certo gosto por “jogos de palavras”. Falando da brandura para consigo mesmo, zomba gentilmente daqueles que “tendo-se enfurecido, se enfurecem porque se enfureceram, irritam‑se porque se irritaram e praguejam porque praguejaram”. A respeito de algumas ilusões que alguns fazem sobre segredos bem guardados nos mosteiros femininos, encontramos este agradável comentário: “Não há segredo que não passe secretamente de uma à outra”.
Quando soube que o irmão João Francisco seria seu coadjutor e que em breve o aliviaria do peso da diocese, exclamou: “Isto vale mais do que um chapéu de cardeal”. Esse irmão de caráter impetuoso e impaciente pôs à prova sua paciência várias vezes, até o ponto de lhe escrever um dia: “Penso, meu irmão, que há uma mulher muito afortunada. Adivinha quem é. […] Essa mulher muito afortunada é aquela com quem não casaste”. Outra vez comparou os três irmãos Sales a três ingredientes para fazer uma boa salada:
“Cada um de nós três proverá o necessário para uma boa salada: João Francisco providenciará um bom vinagre, porque é muito forte; Luís providenciará o sal, porque é sensato; e o pobre Francisco é um bom moço que servirá o azeite, tal é sua estima pela doçura”.
Feliz daquele que sabe rir de si mesmo!

