9 Jan 2026, Sex

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A riqueza que nos ameaça deixar cegos e surdos

A parábola do rico e do pobre Lázaro, que encontramos no evangelho de Lucas, capítulo 16,19-31, não é simplesmente uma história sobre a justa distribuição das riquezas materiais. É um relato que penetra no cerne da condição humana, confrontando-nos com uma pergunta inquietante: quem realmente possui quem? O rico possuía sua riqueza, ou era a riqueza que o possuía, transformando-o em seu escravo?
Essa inversão de perspectiva abre um espaço de reflexão profunda. O homem da parábola não foi condenado por roubar ou explorar, mas por ter-se tornado cego e surdo. Sua tragédia não residia em ter, mas em não ver e em não ouvir. Vivia num mundo reduzido às únicas e exclusivas dimensões de sua casa, de seus bens, do seu bem-estar imediato. À porta de sua casa jazia Lázaro, coberto de feridas que os cães vinham lamber, mas aquele pobre havia se tornado invisível, seu grito silencioso inaudível.

A riqueza existencial
Quando falamos de riqueza, tendemos imediatamente a pensar em dinheiro, bens materiais, sucesso econômico. Mas existe uma riqueza mais sutil e pervasiva: a existencial. É a riqueza de quem está bem, de quem encontrou seu espaço de conforto, de quem vive rodeado de relações positivas, de experiências gratificantes, de certezas reconfortantes. É a riqueza de uma comunidade que funciona, de um grupo onde se sente acolhido, de um ambiente onde tudo flui agradavelmente.
Essa riqueza existencial é um dom, sem dúvida. É justo desfrutá-la, celebrá-la, perceber a beleza do que se vive. Mas é justamente aí que se esconde o perigo mais insidioso: o de se fechar nessa abundância, de transformar o espaço do bem-estar num gueto dourado, separado da realidade circundante.
O rico da parábola vivia assim. Não lhe faltava nada, e ainda assim lhe faltava tudo: faltava-lhe a capacidade de ver além de si mesmo, de perceber o outro, de deixar-se tocar pela realidade que pressionava à sua porta. Sua riqueza havia se tornado uma prisão invisível, com grades feitas de hábito, indiferença e autorreferencialidade.

A cegueira e a surdez do conforto
A zona de conforto é um dos conceitos mais perigosos da modernidade. Ilude-nos, fazendo crer que o bem-estar é um direito a ser protegido em vez de um dom a ser compartilhado. Convence-nos de que preservar nosso equilíbrio é mais importante do que nos abrir ao grito dos outros. Sussurra-nos que já fizemos o suficiente, que finalmente podemos relaxar, que os outros problemas não nos dizem respeito diretamente.
A cegueira do rico não era física, mas espiritual. Via seu palácio, suas roupas, sua mesa farta. Mas não via Lázaro. Não porque Lázaro estivesse escondido, mas porque o rico havia desenvolvido aquela forma particular de cegueira que filtra a realidade, deixando passar apenas o que confirma sua visão do mundo.
E havia também a surdez. O texto nos revela esse segundo defeito quando o homem, do além, suplica a Abraão que envie alguém dentre os mortos para que seus irmãos ouçam. Mas foi ele quem não ouviu! Era surdo ao grito silencioso da pobreza, àquela sofrência que não grita, mas persiste, que não incomoda, mas existe, que não reclama, mas espera.

A escuta interior como condição indispensável da escuta exterior
Como superar essa dupla paralisia da cegueira e da surdez? A resposta não está num simples esforço de vontade ou num programa de atividades sociais. A resposta está numa conversão mais profunda: não podemos ver Cristo no pobre se não contemplarmos Cristo dentro de nós. Não podemos ouvir o grito dos vulneráveis se não estivermos sintonizados com a voz de Deus em nosso coração.
Os grandes testemunhos da caridade – de Dom Bosco à Madre Teresa de Calcutá – não partiram de uma análise sociológica da pobreza, mas de uma experiência mística do amor de Deus. Sua capacidade de ver, ouvir e responder ao exterior nascia de uma vida interior intensa, de uma contemplação que não era fuga do mundo, mas preparação para o encontro com o mundo.
Este é o paradoxo: quanto mais se desce à profundidade do próprio coração para aí reconhecer o amor de Deus, mais se adquire a capacidade de sair de si mesmo para encontrar o outro. A vida espiritual não é um retraimento narcisista, mas o treino necessário para desenvolver aquela sensibilidade que nos permite perceber Cristo onde quer que Ele se manifeste.

A missão como partilha da riqueza
Cada pessoa é uma missão. Esta afirmação não significa que todos devemos nos tornar ativistas frenéticos ou nos engajar em projetos grandiosos. Significa antes que a riqueza que recebemos – material, cultural, espiritual, existencial – não é nossa propriedade exclusiva, mas um dom destinado à circulação.
Quem ama põe-se em movimento, sai de si, deixa-se atrair e atrai por sua vez. O amor é dinâmico por natureza: não pode ser acumulado, conservado, blindado numa zona de conforto. Ou o compartilhamos, ou o perdemos. Ou o fazemos circular, ou se corrompe.
O desafio, portanto, não é renunciar à riqueza existencial, mas possuí-la de modo diferente: não como proprietários ciumentos, mas como administradores generosos; não como destinatários finais, mas como canais de transmissão; não como ponto de chegada, mas como ponto de partida para novos percursos de partilha.

Minoria criativa e sinais de esperança
Num mundo marcado por crescentes desigualdades e indiferenças estruturais, quem escolhe não se tornar cego e surdo torna-se necessariamente uma minoria. Mas essa é uma minoria criativa, capaz de acender luzes de esperança mesmo pequenas e, certamente, contagiosas.
A esperança não é otimismo ingênuo nem resignação passiva. A esperança é uma pessoa: Cristo, que continua a interpelar-nos através de cada Lázaro que jaz à porta de nossa existência. Reconhecê-lo aí, no rosto desfigurado do pobre, no grito silencioso do excluído, no sofrimento ignorado do vulnerável, é a única maneira de não nos tornarmos escravos de nossa riqueza, de não acabar consumidos pelo nosso próprio bem-estar.
A parábola deixa-nos com uma urgência: hoje, agora, antes que seja tarde demais, abrir os olhos e os ouvidos à realidade que nos rodeia. Porque amanhã, do outro lado, não servirá de nada arrepender-se de não ter visto e ouvido.

P. Fabio ATTARD

Reitor-Mor dos Salesianos de Dom Bosco