8 Jan 2026, Qui

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Estreia 2026. “Fazei tudo o que ele vos disser”

Crentes, livres para servir

Comentário à Estreia 2026

Introdução
a. O primeiro sinal de Jesus é um ‘portal de entrada’
b. A irrupção definitiva de Deus na história
c. Jesus inaugura uma relação de amor, uma aliança de bondade e abundância
1. VER – A acolhida dos sinais dos tempos
a. Maria não era uma hóspede “neutra”
b. Os desafios e as dificuldades devem ser reconhecidos e enfrentados, não postos de lado
c. A história é o escrínio revelador da ação de Deus
d. Convite à reflexão
2. ESCUTAR – Enraizados na fé em Cristo
a. Os eventos devem ser lidos e vividos à luz de Cristo
b. A vontade de Deus emerge dos eventos que vivemos
c. Um processo nutrido e iluminado pela Palavra
d. Convite à reflexão
3. ESCOLHER – Viver o chamado com liberdade
a. A escuta livre com uma confiança completa
b. Toda ação tem sentido – logos – somente na e a partir da Palavra – Logos
c. O perigo de uma fé que se adapta à cultura dominante
d. Convite à reflexão
4. AGIR – Servir com total generosidade
a. Servir livremente porque enraizados em Cristo
b. Cooperadores no projeto de Deus para os jovens
c. A ousadia da fé
d. Convite à reflexão
5. 150 anos – Salesianos Cooperadores: o sonho profético de Dom Bosco continua
6. Algumas propostas pastorais
1. “Fazei tudo o que ele vos disser”: para uma pedagogia da escuta pessoal
2. Maria em Caná: educadora da liberdade autêntica
3. A arte de ler os sinais dos tempos com os jovens
4. Escolher: a liberdade cristã como resposta vocacional
5. Os 150 anos dos Salesianos Cooperadores: um modelo para hoje
Conclusão

Caríssimos Irmãos,
Filhas de Maria Auxiliadora,
Membros todos da Família Salesiana,
Jovens,

O encontro com a ESTREIA oferece a cada ano a oportunidade de todos os Grupos da Família Salesiana reunir-se ao redor de um tema específico, para compartilhar e viver momentos intensos de oração e reflexão, de escuta e de fraternidade. É um desejo e uma esperança de que cada Grupo e as pessoas que o compõem possam encontrar alimento para o caminho e apoio para sua vivência educativo-pastoral e pessoal.

Introdução
A ESTREIA que nos acompanhou no ano passado, construída ao redor do tema jubilar da esperança, ofereceu-nos a oportunidade de olhar para o mistério de Cristo como fonte de luz que nos ajuda a contemplar as maravilhas de Deus no momento presente. Vivenciamos momentos que nos fortaleceram na fé naquilo que o Senhor ainda tem para nos revelar, e entendemos a esperança como força do “” e coragem do “ainda não”. Também contemplamos como em Dom Bosco a força da esperança ajudou-o e sustentou-o em seu caminho de descoberta e na concretização do projeto de Deus.
Há 150 anos, a esperança foi o motor do coração pastoral de Dom Bosco, um coração capaz de ler os sinais dos tempos e contemplar o mundo apoiado na fé em Deus. A comemoração dos cento e cinquenta anos da primeira expedição missionária salesiana não quer ser uma celebração confinada a um momento cronológico. Ao recordar esse momento histórico, contemplamos como o espírito de Deus encontrou em Dom Bosco um coração aberto e disponível. A resposta de Dom Bosco soube superar uma visão estreita e autorreferencial da vida.
Dom Bosco vivia em Turim, mas o seu coração e a sua mente pertenciam ao mundo inteiro. A sua esperança fundamentava-se na certeza de que – uma vez descoberto o projeto de Deus – não há outro caminho a não ser seguir a sua vontade até o fim. Contemplando a virtude teologal da esperança que animava a sua vida, podemos entrever aquilo que os seus primeiros discípulos já sentiam e mais tarde comentaram: Dom Bosco homem de fé, Dom Bosco crente, “Dom Bosco com Deus”.
Este ano, eu gostaria de propor como Estreia o tema da . Ele surgiu de maneira gradual, mas clara, quando no início de junho de 2025 os vários Grupos da Família Salesiana se reuniram para a Consulta Mundial. As reflexões compartilhadas indicavam o tema da fé: não apenas como um seguimento natural da esperança, mas como o “fundamento” da própria esperança. Se a força da esperança se apoia na fé, uma vida verdadeiramente cheia de esperança remete a uma relação de fé mais profunda e autêntica com Jesus, o Filho do Pai, que se fez homem por nós e continua presente entre nós com a força do Espírito. Será, portanto, como uma peregrinação na fé de toda a Família Salesiana: juntos para nos renovar, juntos para viver no mundo como cristãos (e salesianos).
Em sua primeira Carta Encíclica Lumen fidei[1], o Papa Francisco oferece sobre isso alguns pontos muito pertinentes. Antes de tudo, como introdução geral ao tema da fé, o Papa convida-nos à correção do olhar: a fé, não como algo teologicamente distante, mas como “uma luz a redescobrir“. Crer, viver pela fé significa querer caminhar na luz. A fé, portanto, é o fundamento que temos e o caminho que empreendemos porque realmente queremos viver a vida de maneira bela e saudável. Abraçar a fé expressa esse desejo profundo de viver na luz, recusando viver na escuridão, no vazio, no sem-sentido. Escreve o Papa Francisco que este chamado a “recuperar o seu caráter de luz” nós o queremos percorrer porque “quando a sua chama se apaga, todas as outras luzes acabam também por perder o seu vigor. De fato, a luz da fé possui um caráter singular, sendo capaz de iluminar toda a existência do homem” (n .4).
Este primeiro convite interpela-nos diretamente quando reconhecemos que a nossa missão é educar à fé e na fé. O desafio que logo surge é muito evidente: como podemos fazê-lo se essa fonte de luz em mim for sendo apagada? Como podemos permanecer tranquilos quando percebemos que a extinção da luz em nosso coração significa, a longo prazo, deixar os jovens e todos aqueles que acompanhamos nas trevas mais densas?
Além disso, essa luz tem algumas características que precisam ser nomeadas. São características que surgem como apoios necessários nos momentos duros e difíceis no caminho da fé.
Antes disso, pela sua potência, a luz da fé “não pode dimanar de nós mesmos, (mas) tem de vir de uma fonte mais originária, deve vir em última análise de Deus” (n. 4). Na verdade, não se trata apenas de oferecer coisas humanas, inteligentes e profissionais, mas de algo muito maior. Essa luz, então, não é nossa; ela nos foi dada.
Há um segundo aspecto, fruto da extraordinária gratuidade divina, e o Papa Francisco descreve-o em termos ao mesmo tempo profundos e ternos: “A fé nasce no encontro com o Deus vivo, que nos chama e revela o seu amor: um amor que nos precede e sobre o qual podemos apoiar-nos para construir solidamente a vida”. A fé não é um produto. Nasce não tanto “do encontro com Deus”, mas “no encontro com Deus”. Um encontro que deve ser vivido como expressão de plena liberdade e como fonte contínua que nos alimenta com a sua luz.
Esta breve introdução já estabelece as bases necessárias para situar o tema da fé no interior de uma dinâmica relacional. Uma dinâmica típica do nosso carisma salesiano. A vivência da fé no encontro com Jesus, Filho de Deus, emerge como a espinha dorsal das nossas ações pela força do seu Espírito. Por meio dessa energia trinitária somos os primeiros beneficiários daquele dom que dá forma e significado a tudo o que somos e, consequentemente, a tudo o que fazemos e propomos para a salvação dos jovens.

“Fazei tudo o que ele vos disser”

Crentes, livres para servir

Deixemo-nos guiar neste ano por uma frase do Evangelho de João pronunciada por Maria logo no início do mesmo Evangelho. Naquilo que deveria ser uma bela festa de casamento surge uma dificuldade: falta vinho. Diante da possibilidade de a festa se tornar um fracasso, encontramos a reação que sai do coração de Maria: é preciso intervir. E o que Maria faz é simplesmente apresentar a situação real a Jesus. Mas a sua hora, a de Jesus, ainda não chegou. Maria, a mãe atenciosa, com grande serenidade, convida os servos a apenas ouvir o que Jesus lhes dirá no momento da “sua hora”.
Proponho neste ano que aceitem o convite de Maria com a mesma atitude de disponibilidade e liberdade que vemos nos servos. Nós também, membros dos vários Grupos da Família Salesiana, devemos recordar a verdade da nossa opção e identidade: somos servos, apenas servos. E hoje Maria também nos diz: “Façam o que ele lhes disser”. Seja o que for que Jesus nos diga, devemos simplesmente acolhê-lo, assumi-lo e vivê-lo, sem condições.
Convido a todos, queridas irmãs e queridos irmãos, depois de termos vivido a força da esperança, aquela “esperança que não engana”, a permitir que as palavras de Maria cheguem ao nosso coração, e a dirigir o nosso olhar e a nossa escuta a Jesus, ao que ele nos vai dizer, na consciência e na alegria de sermos servos.
Queremos ser sustentados pela mesma fé ao encher as ânforas até a borda, a levar a água transformada em vinho às realidades cotidianas que habitamos e compartilhamos com todos. Como muitos de nós nos vemos na linha de frente, em situações difíceis e em locais críticos, reconhecemos o risco de uma fé frágil, às vezes até ausente, com as dramáticas consequências que então constatamos: a falta de compartilhar o “vinho” da bondade, da empatia e do amor.

Evangelho de João 2, 1-11

No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava lá.
Também Jesus e seus discípulos foram convidados para o casamento. Faltando o vinho, a mãe de Jesus lhe disse: “Eles não têm vinho!” Jesus lhe respondeu: “Mulher, que é isso, para mim e para ti? A minha hora ainda não chegou”. Sua mãe disse aos que estavam servindo: “Fazei tudo o que ele vos disser!”
Estavam ali seis talhas de pedra, de quase cem litros cada, destinadas às purificações rituais dos judeus. Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água”! E eles as encheram até à borda. Então disse: “Agora, tirai e levai ao encarregado da festa”. E eles levaram. O encarregado da festa provou da água mudada em vinho, sem saber de onde viesse, embora os serventes que tiraram a água o soubessem. Então chamou o noivo e disse-lhe: “Todo o mundo serve primeiro o vinho bom e, quando os convidados já beberam bastante, serve o menos bom. Tu guardaste o vinho bom até agora”.
Este início dos sinais, Jesus o realizou em Caná da Galileia. Manifestou sua glória, e os seus discípulos creram nele.

Entremos no cerne do trecho que inspirou o título da ESTREIA, com a meditação do primeiro “sinal” que Jesus realiza em Caná da Galileia, conforme o relato de João (2,1-11).
Três breves reflexões introdutórias oferecem-nos a chave “hermenêutica” que torna o trecho significativo para a nossa experiência pessoal e comunitária.

a. O primeiro sinal de Jesus é um ‘portal de entrada’
Em uma das suas audiências, o Papa Francisco comenta este trecho com uma imagem muito concreta. Diz que o primeiro sinal de Jesus é “uma espécie de ‘portal de entrada’, no qual são esculpidas palavras e expressões que iluminam o inteiro mistério de Cristo e abrem o coração dos discípulos à fé”[2]. O primeiro sinal de Jesus não é um espetáculo para admirar; é antes um convite dirigido ao coração de cada crente. Nele encontramos um apelo às atitudes que garantem a tomada da proposta da fé nele, como evocado no final do trecho: “seus discípulos creram nele” (v.11). Esse primeiro sinal em Caná vai imediatamente ao centro da mensagem de Jesus: o convite a apostar a nossa existência na sua palavra. “Caná” é, hoje, a casa onde habitamos, a obra onde vivemos a nossa missão, o grupo de jovens, de professores, de pais que acompanhamos. Nós somos os servos e os discípulos das várias experiências concretas e cotidianas.
Como em Caná, Maria continua ainda hoje a ter uma missão fundamental e fundante nesse processo. É ela que, a caminhar conosco, convida-nos a dar o passo da fé, uma fé assumida livremente para podermos ser servos autênticos. Esse mesmo processo, feito de , liberdade e serviço, é o mesmo vivido por Dom Bosco ao longo da sua vida. Também Dom Bosco, desde o sonho dos 9 anos, reconhece Maria como Mãe e Mestra que o sustentava na sua fé, que lhe deu coragem para ser um servo livre para os jovens no campo por ela indicado.

b. A irrupção definitiva de Deus na história
Um segundo ponto de reflexão é oferecido pelo Papa Bento XVI a partir das palavras que introduzem este primeiro sinal: “No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia” (v. 1).
No seu livro Jesus de Nazaré, o Papa Bento diz que vemo-nos aqui no coração do mistério de Deus que se manifesta. A indicação temporal é um símbolo de toda a ação de Deus na história. O “terceiro dia” comunica a antecipação do cumprimento da história da salvação que acontece na ressurreição de Cristo, no terceiro dia. Temos, neste exato momento, diz o Papa, “a irrupção definitiva de Deus sobre a terra[3]. Caná é um lugar que contém, de maneira humilde e oculta, o cumprimento do projeto do amor de Deus pela humanidade. Caná é qualquer lugar para onde somos enviados, enquanto espaço onde Deus continua a se fazer presente por meio daqueles que escutam a sua palavra, creem nela e nela vivem.
Esta reflexão tem um alcance realmente significativo para nós. Se “Caná” é qualquer lugar onde habitamos, então é a nós que o Senhor chama para ser sinais e portadores do seu amor pelos jovens, pela humanidade. Certamente não depende de nós a “irrupção de Deus sobre a terra”, mas a nós é dada a oportunidade de facilitá‑la como dom recebido gratuitamente e livremente acolhido. Cada uma das nossas ações vividas de forma generosa participa desse desígnio de Deus… mas também cada uma de nossas resistências ou recusas corre o risco de negar esse “bom vinho” aos outros.

c. Jesus inaugura uma relação de amor, uma aliança de bondade e abundância
Um terceiro ponto introdutório, ainda tirado do Papa Bento XVI: o ambiente da festa “nupcial” é a dimensão mais adequada que caracteriza a relação de Deus com a humanidade, a aliança nupcial por excelência.[4]
Na verdade, percebemos que Jesus não vem simplesmente para nos deixar uma mensagem. Mediante este primeiro sinal, o que Jesus está prestes a inaugurar é uma relação de amor, uma aliança de bondade e abundância. Jesus convida-nos a entrar em uma relação viva e vivificante. Com ele habitamos um espaço sagrado onde, antes de tudo, descobrimos que somos amados. Nessa relação de amor somos positivamente desafiados e encorajados a segui-lo.
Reconhecendo que estamos sempre em busca do “vinho bom” que nunca falta, o caminho a percorrer é um só, aquele indicado por Maria: “Fazei tudo o que ele vos disser”. A festa nupcial, de um lado, inaugura uma nova realidade e, de outro, confere um sigilo à nova e eterna aliança.
Podemos dizer que a experiência de Caná é um verdadeiro “ventre” onde a fidelidade de Deus vem ao nosso encontro, completando e levando à plenitude a busca do amor por parte do homem. Isso significa que, quando chega a hora, responde-se à proposta de Jesus obedecendo (ob-audire), com a escuta da fé, vivida fielmente.
O banquete torna-se assim o altar que distribui abundantemente o vinho novo da Palavra. Uma distribuição generosa, fruto da fé vivida com liberdade. Seguindo o convite de Maria, a vida iluminada pela Palavra de Jesus é vivida na forma de serviço para o bem de todos, com plena disponibilidade do coração.
À luz do trecho das bodas de Caná, são vários os desafios que a ESTREIA 2026 nos apresenta. Estou convencido de que o apelo para cada Grupo da Família Salesiana viver melhor o próprio carisma encontra, neste trecho do Evangelho, novos estímulos a ser vivido em favor dos jovens e de todos os que partilham a missão salesiana. Não só, mas também para servir muitas pessoas em várias partes do mundo às quais o Senhor pede para levarem o vinho da esperança, a alegria da comunhão.

1. VER – A acolhida dos sinais dos tempos
Um primeiro apelo que os convido a acolher e em que refletir é sobre a atitude de Maria: a mulher atenta ao que estava acontecendo ao seu redor. O evangelho diz-nos simplesmente que “No terceiro dia, houve um casamento em Caná da Galileia, e a mãe de Jesus estava lá” (v.1). O evangelho não dá outras informações. Mas quando ouvimos essas poucas palavras relacionando-as à sua reação, começamos a vislumbrar alguns elementos significativos do coração de Maria.

a. Maria não era uma hóspede “neutra”
A sua presença era atenta e viva em tudo o que acontecia ao seu redor. Em termos figurados, mas cheios de significado, podemos dizer que Maria abraçou o tempo e a história daqueles que a receberam como convidada na festa do seu casamento. Maria podia sentir-se muito bem como alguém que não devia interferir, embora pressentisse a triste consequência da falta de vinho. E, ainda assim, escolheu não ficar indiferente.
Aqui está um primeiro aspecto sobre o qual nós, quais seguidores de Jesus, somos chamados a interrogar-nos: em que medida nos sentimos interpelados pelos acontecimentos da história que estamos a viver e pelos lugares que habitamos? Que posição assumimos quando podemos optar por permanecer à distância porque em certas coisas “não é comigo”, “não é minha responsabilidade”? À luz do que Maria fez, diante dos desafios que nos cercam, sentimo-nos profunda e pessoalmente interpelados. Na cultura do anonimato e da indiferença, reconhecemos que também corremos o risco de tomar decisões pautadas pelo “politicamente correto”!
Abraçar o tempo e a história como atitude existencial implica certas exigências que só podemos perceber e assumir à luz da fé em Cristo.
No campo educativo-pastoral, a opção de Maria é para nós um chamado ao mesmo tempo forte e gentil para não cair naquela indiferença que não apenas justifica as coisas, mas também as favorece passiva e indiretamente. Quantas vezes encontramos até mesmo pessoas ditas “de igreja” que, diante do drama dos refugiados, dos pobres, dos vulneráveis, se retraem em seu bem-estar, considerando-os apenas como incômodo e descarte?

b. Os desafios e as dificuldades devem ser reconhecidos e enfrentados, não postos de lado
Assim procedeu Maria em Caná. Quantas vezes acontece-nos que, diante de situações imprevistas de desconforto, em vez de enfrentá-las com a força da serenidade e da paixão apostólica, afastamo-nos delas, justificando-nos com demasiada facilidade! O perigo é que, gradualmente, essa inércia pastoral possa tornar-se “cultura” também entre nós. Esperamos e pedimos com veemência que os outros façam a sua parte, talvez atribuindo-lhes as culpas, e assim acreditamos anestesiar as nossas consciências, fingindo crer que não temos nada a oferecer, ou que não somos chamados a intervir.
Quando o pobre bate à porta, não nos é lícito fazer de conta que não o vemos. Para o nosso pai e mestre Dom Bosco, a sua resposta não vinha de cálculos sobre os meios, mas da disponibilidade do coração, que estava em sintonia com os jovens do seu tempo. Desde o início, ele foi movido pelo desejo de entrar em contato com os jovens, pobres e necessitados como eram. Prestemos muita atenção para não nos deixarmos levar pela perspectiva de uma vida consagrada e pastoral fortemente condicionada por uma mentalidade burguesa e seletiva. O pobre não é escolhido por nós, mas nos é enviado pela Providência. Acolher os jovens pobres e fazer o possível por eles é um chamado que devemos levar a sério.

c. A história é o escrínio revelador da ação de Deus
Um terceiro ponto que tiramos da ação de Maria é a consciência de que, nos momentos breves e humildes, quando vividos com generosidade, a história se torna um escrínio que revela a ação de Deus. Uma simples atenção materna, um convite urgente aos servos, preparam o terreno para a hora de Jesus, para o seu primeiro sinal. Como o Senhor nos surpreende quando prestamos atenção aos detalhes da existência humana, especialmente quando estamos com os pobres e necessitados! Quantas vidas experimentaram o bálsamo da misericórdia de Deus mediante os gestos de atenção de educadores e educadoras que, com bondade maternal, ofereceram um sorriso, uma palavra de encorajamento, em vez de olhares de condenação ou palavras humilhantes!
A experiência toda de dom Bosco diz que “o pátio”, tanto o físico quanto o metafórico, é o lugar onde se revela a bondade de Deus. Comunicamos a ternura vivendo-a de forma serena quando estamos presentes entre e para os jovens, que assim se sentem reconhecidos, valorizados e amados. A partilha constrói-se nas relações com os nossos colaboradores e colaboradoras quando eles nos pedem aqueles “cinco minutos” de escuta. A sabedoria pastoral e educativa passa pela cotidianidade dos gestos, vividos com um coração aberto, disponível, atento e cheio de afeto.
Vale a pena trazer aqui uma reflexão mais atual do que nunca, oferecida pelo salesiano Dominic Veliath sobre o contexto da Ásia Sul[5]. Ele escreve:

O carisma salesiano ainda está em peregrinação. Toda peregrinação envolve certa dose de risco; às vezes é preciso enfrentar o desafio de aventurar-se por um caminho que pode parecer ainda inexplorado. É nesse contexto que todo Salesiano, inclusive aquele do contexto da Ásia Sul, confiante na presença constante do Espírito de Deus, enraizado no carisma salesiano e em comunhão fraterna com toda a Congregação salesiana, é chamado a continuar o próprio caminho com um pouco daquela confiança que o poeta Antonio Machado descreveu tão intensamente em seu poema Caminante no hay Camino: “Caminhante, não há um caminho; o caminho se faz ao caminhar”.[6]

Maria, a mulher atenta ao que estava acontecendo ao seu redor convida-nos a não ficar distantes, indiferentes às necessidades daqueles que o Senhor nos pede para acompanhar.

d. Convite à reflexão
Como Comunidades e Grupos, perguntemo-nos se temos espaços e momentos em que, juntos, refletimos sobre as pobrezas que nos rodeiam.
Perguntemo-nos se o nosso estilo de vida é realmente um testemunho autêntico para aqueles que nos conhecem, para aqueles a quem servimos, às vezes verdadeiros pobres em alma e corpo.
Perguntemo-nos se os pobres são números e objetos de ideologia e estratégia pastoral, ou se somos para eles servos com os meios que temos. Quão generosos somos com os nossos “cinco peixes e dois pães”?

2. ESCUTAR – Enraizados na fé em Cristo
Maria, atenta ao que acontecia ao seu redor, diz aos servos: “fazei tudo o que ele vos disser” (v. 5). O convite é claro e simples. Contudo, bem sabemos que também é muito exigente. Não se trata apenas de reconhecer os acontecimentos com suas urgências e necessidades, mas de interpretá-los à luz da fé em Cristo. Na maior parte das vezes, fazemos uma boa leitura dos fatos, de forma profissional e competente, com análises geralmente bem desenvolvidas e precisas, num nível, por assim dizer, “horizontal”. Mas para nós, que seguimos Jesus, esse nível, que nunca deve faltar, precisa ser absolutamente acompanhado pelo “vertical”. É muito fácil que, ao responder às várias emergências, tomemos o caminho de uma atividade frenética a favor dos pobres e necessitados e, a longo prazo, acabemos muitas vezes sugados por um abismo de ativismo que não nos deixa mais tempo para olhar o rosto daqueles que queremos servir, nem o rosto d’Aquele que nos chamou a servi-los em seu nome!

a. Os eventos devem ser lidos e vividos à luz de Cristo
Maria convida a uma resposta que certamente atende a uma dificuldade inesperada, mas com indicação bem clara: “fazei tudo o que (ele) vos disser”. O relevo principal não está no que se deve fazer, mas em quem diz o que se deve fazer! Os acontecimentos devem ser lidos e enfrentados à luz de Cristo. Trata-se de uma indicação irrenunciável, assim como uma fonte de verdadeira energia para quem crê. Existem diferentes maneiras de responder às pobrezas. O crente opta por esta: agir a partir da Palavra de Jesus. Para o crente em Cristo vale o que muitos santos da caridade transmitiram com a sua vida e o seu testemunho. O nosso próprio pai, Dom Bosco, também o transmitiu de forma clara: agir em nome de Jesus.
É de grande relevância para nós o que os primeiros Salesianos conservaram em sua memória da figura de Dom Bosco, sobretudo nos seus aspectos mais profundamente espirituais e místicos. Em um artigo das Constituições Salesianas, o artigo 10, que abre a seção sobre o espírito salesiano, encontramos a síntese dessa vocação que Dom Bosco viveu de maneira autêntica:

Artigo 10:
Dom Bosco, sob a inspiração de Deus, viveu e nos transmitiu um estilo original de vida e de ação: o espírito salesiano.
Centro e síntese desse espírito é a caridade pastoral, caracterizada por aquele dinamismo juvenil que tão fortemente se revelava em nosso Fundador e nas origens da nossa Sociedade: é um ardor apostólico que nos faz buscar as almas e servir somente a Deus.

b. A vontade de Deus emerge dos eventos que vivemos
Nessa dinâmica, enraizada em Cristo, surge uma experiência que progressivamente nos faz desvendar o plano de Deus. A vontade de Deus emerge de dentro da nossa colaboração nos acontecimentos que vivemos n’Ele e por causa d’Ele. E quando, com sinceridade, vivemos e agimos a partir do seu olhar, o Senhor da vida sempre nos surpreende da maneira mais inesperada. Crer, então, não é uma opção que garante sucessos e triunfos; crer é entregar-se nas suas mãos, é crescer na certeza segura que provém de um coração guiado pela Providência Divina. Se, em lugar dessa opção radical, prevalecer a lógica do cálculo, então tudo tomará outra direção, cujo destino desconhecemos. Maria permanece como guia de uma confiança total e confiável. Assim foi, assim continua a ser.
No episódio evangélico que estamos meditando não encontramos, de fato, nenhuma palavra de dúvida ou desconfiança, nem mesmo de resignação por parte dos servos: apenas gestos de confiança, plena e total:

Sua mãe disse aos servos: «Façam tudo o que ele vos disser».
Estavam ali seis talhas de pedra, de quase cem litros cada, destinadas às purificações rituais dos judeus. Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água”! E eles as encheram até à borda. Então disse: “Agora, tirai e levai ao encarregado da festa”. E eles levaram (v. 5-8).

São versículos que comunicam, no total silêncio dos protagonistas, uma disponibilidade, uma prontidão e uma generosidade que podem até causar um pouco de perplexidade. Mas não! É a reação de quem decide apostar na Palavra ouvida. É a postura de quem realmente crê. É a escolha de quem não fica ali fazendo perguntas ou, pior ainda, impondo condições. Eis o servo fiel!

c. Um processo nutrido e iluminado pela Palavra
Por fim, colhamos um dado que nós, crentes, não podemos perder: este é um processo que se sustenta por ser continuamente nutrido e iluminado pela Palavra. Interpretar tudo à luz de Deus e contemplar a sua vontade nos acontecimentos que se revelam diante de nós não é algo automático. Exige um coração em sintonia com o poder da Palavra. Esta é uma necessidade que, em uma cultura como a nossa – onde a eficiência se sobrepõe à eficácia e onde o resultado é considerado mais importante que o processo – corremos continuamente o risco de subestimar, passando diretamente para a ação, mesmo com as melhores intenções. A consequência é que o ponto de referência – a Palavra meditada e contemplada – torna-se cada vez mais fraco e, a longo prazo, chega a ser considerado até mesmo como tempo perdido.
Quantas vezes ouvimos, até mesmo em nossas comunidades religiosas, que não temos tempo para a meditação porque estamos muito ocupados com trabalhos pastorais? E quanto maiores se tornam esses trabalhos, mais abandonamos a amizade com a Palavra. O resultado, infelizmente, é a autorreferência pastoral que se reforça em nome da ação e dos trabalhos pastorais. Correspondendo àquilo que o Papa Francisco chamou certa vez de “mundanidade espiritual”, corremos um risco muito semelhante: o beco sem saída da “mundanidade pastoral”. Ou seja, trabalhamos com grande empenho na obra de Deus, mas, com o tempo, esquecemos daquele Deus que inicialmente nos chamou para servi‑Lo. Que tragédia quando, crendo servir a Deus nos pobres, acabamos por justificar a Sua própria irrelevância. Acabamos por elevar a ídolos os nossos próprios projetos pastorais!
Gostaria de oferecer aqui uma reflexão sobre a força e a centralidade da Palavra de uma santa da caridade que muitos de nós encontraram: Madre Teresa de Calcutá. Ela escreve às suas consagradas palavras que também valem para nós hoje:

Preocupa-me pensar que algumas dentre vós ainda não encontraram Jesus face a face, sozinhas, a sós. Podeis até mesmo passar algum tempo na capela, mas já vistes com os olhos da alma o amor com que Ele olha para vós? Conheceis realmente o Jesus vivo: não pelos livros, mas por estar com Ele no vosso coração? Já ouvistes as palavras de amor que Ele vos dirige?… Jamais abandoneis esse contato íntimo e cotidiano com Jesus como pessoa viva e real e não como mera ideia. Como poderíamos passar um único dia sem sentir Jesus nos dizer: eu te amo? É impossível. Nossa alma precisa disso tanto quanto o nosso corpo precisa respirar. Caso contrário, a oração morre e a meditação degenera em reflexão. Jesus quer que cada uma de nós o ouça e lhe fale no silêncio do coração. Vigiai sobre tudo aquilo que poderia impedir esse contato pessoal com o Jesus vivo.[7]

O caloroso convite de Santa Teresa de Calcutá dirige-se a todos que desejam fazer da fé a fonte da própria identidade e das suas ações. Ser crentes coloca-nos no coração da história para que, como protagonistas, acolhamos e vivamos a história e na história, à luz de Cristo. Só assim alimentados e nutridos com o alimento da Palavra poderemos constatar, admirados, como a vontade de Deus surge mais clara diante dos nossos olhos.

d. Convite à reflexão
– Reconhecemos o quão fácil é responder às necessidades dos pobres e oferecer processos educativos e pastorais sem uma prévia leitura humana e, ao mesmo tempo, espiritual da situação?
– Como Comunidade e Grupos, reconhecemos a urgência da coragem de “perder” tempo para refletir e rezar, antes de agir? O valor das propostas reside, de fato, nas raízes que alimentam a árvore para que ela dê frutos bons e duradouros.
– Interiorizamos que servir os pobres é consequência do nosso encontro com Cristo, por que são eles mesmos que nos remetem a Ele para que O sirvamos ainda mais?
– Percebemos constantemente que o perigo da “mundanidade pastoral” acaba alimentando o nosso ego, com a consequência de que, em vez de servir os pobres, terminamos por nos servir dos pobres?

3. ESCOLHER – Viver o chamado com liberdade
O relato do “sinal” de Caná oferece novos elementos que iluminam mais a nossa experiência de fé vivida, servindo como guia e apelo para os nossos itinerários educativo-pastorais. Os servos ouvem, acolhem e obedecem, como Maria lhes pedira que fizessem. As atitude e opções deles são como a realização de outra declaração de Jesus, quando no episódio lucano da “mulher da multidão [que] levantou a voz no meio da multidão e lhe disse: «Feliz o ventre que te trouxe e os seios que te amamentaram!»” ele responde: “Felizes, sobretudo, são os que ouvem a Palavra de Deus e a põem em prática” (Lc 11,27-28).
Essa é a chave da virada. É importante e decisivo sentir-se parte da história da humanidade, acolhendo e “lendo” os sinais dos tempos; é absolutamente necessário estar enraizado na fé em Cristo. Mas a verdade desses dois comportamentos revela-se na sua melhor forma quando se acolhe e vive a Palavra. Surge então o itinerário de uma fé autêntica, marcada por um crescimento saudável e sólido.

a. A escuta livre com uma confiança completa
O momento da virada é marcado por essa escuta livre, pautada por uma confiança completa. As frases do evangelho têm uma carga muito forte e um significado sempre atual.

Jesus disse aos que estavam servindo: “Enchei as talhas de água”! E eles as encheram até à borda. Então disse: “Agora, tirai e levai ao encarregado da festa”. E eles levaram (v.7-8).

Quando alguém confia em Jesus, não há espaço para mais nada. Pelo contrário, a disponibilidade humana torna-se ainda mais plena e alegre, mais pronta e generosa. O autor do evangelho oferece um detalhe que, como educadores e pastores, não podemos deixar de notar: “encheram (as talhas) até à borda” (v.7). Até a borda, além da já grande quantidade de litros das talhas. Vale a pena ser generoso, sempre, com uma generosidade “transbordante”. Quando Jesus chama, procede-se assim, obedecendo – ob-audire – com liberdade e sem medida, de novo e de novo, como sugere o trecho seguinte do Evangelho: “disse-lhes novamente: “Agora, tirai e levai ao encarregado da festa”. E eles levaram (v. 8).
Creio que muitos de nós, em nossa vida, quando crianças e jovens, e creio que também na fase adulta, tivemos a alegria de encontrar pessoas que nos lembram a generosidade desses servos. Pessoas que ainda carregamos no coração e na memória, não tanto pelas coisas que fizeram, mas pela atitude livre e generosa que nos transmitiram. Essas pessoas certamente nos marcaram, porque o seu coração era habitado pela presença de Jesus, tinham um coração iluminado e guiado pela Palavra e nutrido pela Eucaristia.

b. Toda ação tem sentido – logos – somente na e a partir da Palavra – Logos
Nós servimos apreendendo o que hoje nos é pedido, se realmente quisermos oferecer uma experiência de crescimento integral àqueles a quem somos chamados a servir. Seremos educadores e pastores autênticos somente na medida em que cada ação nossa buscar sentido (razão, motivo, logos) na e a partir da Palavra (Logos). Somente numa prática de vida entrelaçada de palavras e ações que se deixam contagiar pela Palavra poderemos ir além do muro da indiferença e da apatia, tão difundidos hoje. Quando vemos que falta o vinho da esperança e da verdadeira alegria, quando nos sentimos impotentes diante de tantos desafios reais que encontramos todos os dias, a tentação é defender-nos tomando distância e fazendo o mínimo.
Contudo, há outra opção, que é evangélica e salesiana: “abandonar-se” e “entregar-se” à sua palavra… Como nos testemunham os servos, como nos testemunham Dom Bosco e tantos Salesianos conhecidos, com as suas opções concretas, sempre precedidas de uma precisa e sistemática atenção às fontes da própria vida. Tudo emana desse espaço profundo e sagrado. Foram discípulos e servos que, da sua vida para e com os outros, fizeram uma experiência que prolongava a sua relação com Jesus, vivida com a força da sua Palavra. O deles não era devocionismo abstrato nem pietismo emotivo, mas expressão e síntese de maturidade humana e espiritual, de visão inteligente e sábia, de empatia humana e impulso místico. No ob-audire vivido com uma personalidade forte e determinada não vemos sinais de fraqueza ou de resignação passiva. Podemos dizer que viveram o seu protagonismo dentro de um quadro relacional marcado pela graça de unidade, um quadro existencial profundamente humano e profundamente divino. Obedecendo, jamais renunciaram à sua personalidade; antes, moldaram-na através dela. A confiança deles na palavra de Jesus, como a dos servos, continua a oferecer-nos vinho novo que inaugura uma vida nova, para nós e para os nossos jovens.

c. O perigo de uma fé que se adapta à cultura dominante
Reconhecemos aqui o convite para não sucumbir ao perigo de uma fé que se adequa à cultura dominante. A dimensão profética da nossa missão deve confrontar-se com um contexto como o atual, que “puxa para baixo”, para o imediato, o útil e vantajoso, para aquilo que gratifica aqui e agora, ou, no mínimo, para o mais cômodo. A palavra de Jesus aos servos poderia ser “administrada” e “tratada” de maneira puramente humana, com uma desconfiança mais do que plausível e “razoável”. O resultado teria sido muito diferente; podemos imaginá-lo facilmente.
Quantas vezes, também hoje, acontece que – diante de desafios pastorais urgentes – prevalece o raciocínio humano. Uma leitura meramente horizontal, construída intencionalmente, acaba por tornar menos potente e até excluir uma leitura de fé dos desafios que somos chamados a enfrentar. De um lado, sabemos que estudos e pesquisas sobre os jovens nos convidam a escutar a sua busca de sentido; de outro, porém – a essa consciência que exige uma resposta profética – nós nos limitamos a dar uma resposta meramente horizontal ou, talvez, respondendo apenas a uma necessidade em vez de à pergunta implícita de significado.
Tem-se a impressão de que se, às vezes, projetamos os nossos medos nos jovens, é porque nos incomoda enfrentá-los e superá-los, tirando-nos da zona de conforto. Mantendo-nos no plano meramente humano e racional, ou na cultura dominante, sentimos uma justificativa superficial, enquanto nossos jovens continuam a gritar no deserto.
Lendo a história dos primórdios em Valdocco, na casa Pinardi a partir de 1847, vemos que Dom Bosco ofereceu experiências intensas e sólidas aos jovens. Ele procurava jovens pobres e sem teto para lhes dar o mínimo necessário: alimentação, alojamento, educação. Mas já desde o início Dom Bosco estava consciente de que era preciso oferecer propostas que hoje chamamos de “integrais”. Pietro Braido escreve:

Humilde nas origens, a primeira instituição de Dom Bosco crescia lentamente como o grão de mostarda do Evangelho. Essa instituição, porém, existia graças a um agente de tal força interior, de fé humana e cristã tão sólida, de capacidade de envolvimento e irradiação tão acentuada, que acabava por oferecer uma imagem de si muito mais dilatada do que era realmente. Teria sido igual no futuro.[8]
Entretanto, ele não trabalhava só para a publicidade. Na ação de recuperação e de capacitação religiosa, moral e também civil da juventude, sobretudo trabalhadora, os “pobres pequenos aprendizes”, ele sabia recorrer igualmente a meios fortes, como os exercícios espirituais. Já em 1847 fizera a primeira experiência com os oratorianos. Fora pregador o jovem teólogo Federico Albert (1820-1876),106 proclamado beato em 1984. A repetição de experiência semelhante em 1848 era mais seguramente atestada pelo próprio Dom Bosco. Ela comportara, para uma boa alíquota de cinquenta participantes, a permanência dia e noite nos ambientes do Oratório, o que foi possível pela disponibilidade de toda a casa Pinardi.[9]

Para que a nossa resposta seja cheia de fé na palavra de Jesus, é urgente aceitarmos esse convite com grande prontidão, tanto em relação Àquele que nos chama quanto como resposta àqueles que estão à espera. A nossa hesitação, o nosso vacilo não devem ter a última palavra.

d. Convite à reflexão
Comprometamo-nos para que a nossa vida de fé tenha a forma de um relacionamento marcado pela liberdade e pelo abandono confiante.
Façamos um exame de consciência sobre as nossas motivações: se elas são enraizadas e nutridas pela Palavra (Logos), livres de motivações autorreferenciais.
Desenvolvamos a nossa capacidade intelectual sempre à luz da sabedoria de Deus. Que a nossa inteligência não apague nem atenue a voz profética da Boa Nova.

4. AGIR – Servir com total generosidade
O casamento de Caná foi uma “festa” enriquecida pela resposta confiante e generosa dos servos ao pedido de Maria de fazer o que Jesus lhes dissesse para fazer. Quando o serviço é marcado pela dedicação generosa de si, uma generosidade enraizada na fé, os resultados são um dom para todos. Podemos constatá-lo nos vários processos educativo-pastorais conduzidos por pessoas dedicadas à missão, por colaboradores e colaboradoras que se sentem parte viva do carisma e do projeto pastoral salesiano. Dedicação e pertença que são uma verdadeira e real acolhida do chamado, a sua realização, não mero apêndice. São opções que condicionam positivamente seu desfecho. No fim das contas, são essas opções fundamentais que dão alma a todo itinerário de crescimento integral dos jovens. São opções que condicionam positivamente o seu desfecho.

a. Servir livremente porque enraizados em Cristo
Não há liberdade mais autêntica e verdadeira do que aquela que emana da relação com Cristo. A alegria do servo livre provém de um coração que já encontrou o centro da própria identidade. O servo que se alimenta da fonte que é Cristo não tem intenções ou motivações alternativas. Vive bem o seu serviço sem precisar depender da busca de gratificações pessoais vindas de fora. O seu coração já está cheio d’Aquele que o chamou e enviou, e isso basta e é suficiente.
A sua doação, portanto, é transparente, e por isso comunica externamente o senso de liberdade interior. Daí vem a verdadeira alegria que todo autêntico servo dos jovens carrega consigo. Somos portadores do vinho bom, somos “sinais e portadores do amor de Deus aos jovens, especialmente aos mais pobres” (Const. 2), não porque nós o tenhamos produzido, mas porque cremos que nos foi dado gratuitamente. Só nos é pedido para não o guardar como propriedade pessoal, mas para distribuí‑lo com generosidade. A alegria que comunicamos quando estamos enraizados em Cristo é uma alegria que nos é dada em abundância, mas com a promessa de que essa alegria se torne plena ao compartilhá‑la. A promessa de Jesus na última ceia continua a sustentar-nos nesse serviço:

Como meu Pai me ama, assim também eu vos amo. Permanecei no meu amor. Se observardes os meus mandamentos, permanecereis no meu amor, assim como eu observei o que mandou meu Pai e permaneço no seu amor. Eu vos disse isso, para que a minha alegria esteja em vós, e a vossa alegria seja completa (Jo 15,9-11)

Nestes meses do Jubileu do Ano Santo de 2025, muitos de nós viveram ou acompanharam de perto a experiência do Jubileu dos Jovens, entre o final de julho e o início de agosto. É impactante recordar aqui as palavras que São João Paulo II escreveu em sua Carta Apostólica, Novo millennio ineunte, ao término do Ano Santo de 2000, onde encontramos um comentário sobre o Jubileu dos Jovens daquele ano. São palavras marcadas pela alegria. Parecem escritas para nós hoje, lidando com jovens nascidos ao redor do milênio:

Porventura não é Cristo o segredo da verdadeira liberdade e da alegria profunda do coração? Não é Cristo o maior amigo e, simultaneamente, o educador de toda a amizade autêntica? Se Cristo lhes for apresentado com o seu verdadeiro rosto, os jovens reconhecem-No como resposta convincente e conseguem acolher a sua mensagem, mesmo se exigente e marcada pela Cruz. Por isso, vibrando com o seu entusiasmo, não hesitei em pedir-lhes uma opção radical de fé e de vida, apontando-lhes uma missão estupenda: fazerem-se « sentinelas da manhã » (cf. Is 21,11-12) nesta aurora do novo milênio (NMI 9).[10]

Sim, os jovens ainda estão em busca de quem tenha a coragem e a convicção da fé em Cristo. A busca por parte dos jovens não falta. Precisamos de pessoas maduras na fé, prontas para apresentar o rosto de Jesus, como servos e peregrinos. Precisamos de educadores e pastores dispostos a ouvir e viver a boa nova.

b. Cooperadores no projeto de Deus para os jovens
Através deste serviço convicto e alegre nós, educadores e pastores, tornamo-nos cooperadores no projeto de Deus para os jovens. Como Maria, também nós fizemos a opção de não nos distanciarmos do que está acontecendo ao nosso redor. Escolhemos fazer parte da história dos jovens. Porque estamos convencidos de que esses jovens, hoje mais do que nunca, trazem no coração a pergunta sobre “onde habita o Senhor”. Eles estão buscando-o talvez até sem o saber. Não têm o vocabulário para dizê‑lo, mas têm aquela sede profunda que não deixa o coração em paz. Se falta a linguagem adequada, certamente não falta o coração inquieto.
Quão grande é a nossa responsabilidade, nós que encontramos Jesus, que frequentemente nos detemos com Jesus, todos os dias! Contudo, somente quando vivemos esse encontro com fidelidade e consistência conseguimos entender e compreender a pergunta silenciosa dos jovens. Nessa lógica de um “silêncio que interpela de forma ensurdecedora”, os verdadeiros educadores e pastores comunicam, com o seu testemunho e a sua fidelidade, aquela centelha que, somente ela, sabe incendiar os corações. Foi-nos entregue o “talento” da boa-nova. Ai de nós se o negligenciarmos, ou pior ainda, se o enterrarmos.
Em sua vida breve, mas intensa, Simone Weil (1909–1943) filósofa, ativista política e mística francesa, uma mulher desesperadamente em busca deixou uma marca profunda no pensamento filosófico francês do século XX. Em certo período de sua vida, ela esteve em contato com o dominicano padre Joseph-Marie Perrin. Dessa experiência ela escreve em seu diário:

Não é pela maneira como um homem fala de Deus, mas pela maneira como ele fala das coisas terrenas, que se pode discernir melhor se a sua alma habita no fogo do amor de Deus.[11]

É uma frase lapidar que se encaixa perfeitamente em nossos contextos educativo-pastorais. Na maior parte do tempo, os nossos encontros com os jovens e com todos os que o Senhor nos permite encontrar são simples contato humano, uma generosa disponibilidade para necessidades e temas imediatos. Entretanto, esse espaço de pura humanidade torna-se lugar de revelação do amor de Deus: nesses momentos ocupamos uma “terra sagrada” que não se deve pisar. Nos pátios do mundo, a nossa presença não é apenas física, mas carrega o que o nosso coração contém. Mesmo falando de “coisas terrenas”, sem o perceber, comunicamos “quem” ou “o que” acolhemos e hospedamos em nosso coração. Nesses momentos simples, a nossa presença, portadora de um coração sadio, facilita de maneira surpreendente a revelação do projeto de Deus para cada jovem que encontramos. Bem-aventurados nós se estivermos continuamente conscientes disso. Bem-aventurados os jovens que encontram estes servos crentes, generosos e cheios de alegria verdadeira e autêntica.

c. A ousadia da fé
Enfim, não devemos ter nem medo nem vergonha: incentivemos, em nível pessoal e comunitário, a ousadia da fé. Não se trata de uma postura que desafia o mundo, muito menos de um fundamentalismo sem sentido. Trata-se, antes, de uma opção que nos enraíza em Cristo, e assim caminhamos ao encontro do mundo. Não se trata de confrontar, mas de promover espaços de fraternidade, fomentar a cultura do diálogo, viver relações marcadas pela compaixão e pela empatia.
Em uma passagem da Encíclica Lumen fidei, o Papa Francisco detém-se sobre a potencialidade de uma fé que não visa conquistar, mas colaborar para o bem comum. Como portadores de um carisma que educa e evangeliza, a reflexão do Papa nos ilumina e exorta a seguir adiante.

A fé não afasta do mundo, nem é alheia ao esforço concreto dos nossos contemporâneos. Sem um amor fiável, nada poderia manter verdadeiramente unidos os homens: a unidade entre eles seria concebível apenas enquanto fundada sobre a utilidade, a conjugação dos interesses, o medo, mas não sobre a beleza de viverem juntos, nem sobre a alegria que a simples presença do outro pode gerar (n. 51).

O Papa em seguida recorda que essa tomada de posição se torna um dom inestimável pelas suas consequências sociais. Esse apelo para nós, Grupos da Família Salesiana, é crucial porque nos alerta para o perigo de considerar “a fé” como “propriedade privada”, que possuímos em contraposição aos demais. Não é esse o sentido do chamado. Recordando o contexto da festa de Caná, o vinho é para todos, inclusive para aqueles que não fizeram bem as contas, inclusive para quem entrou de penetra na festa e para os mendigos que passam. A fé em Cristo, como o vinho novo, inaugura a festa da aliança. Eis as palavras do Papa Francisco:

A fé faz compreender a arquitetura das relações humanas, porque identifica o seu fundamento último e destino definitivo em Deus, no seu amor, e assim ilumina a arte da sua construção, tornando-se um serviço ao bem comum. Por isso, a fé é um bem para todos, um bem comum: a sua luz não ilumina apenas o âmbito da Igreja nem serve somente para construir uma cidade eterna no além, mas ajuda também a construir as nossas sociedades de modo que caminhem para um futuro de esperança (n.51).

A ousadia da fé é uma confirmação de que queremos levar a sério o chamado a ser cooperadores no projeto de Deus para os jovens. Dom Bosco viveu esse chamado com uma consciência extraordinária e transformou-a em sistema, projeto e experiência de família. Era uma ousadia que o fez dizer (e viver): “Nas coisas que são de vantagem à juventude em perigo ou servem para ganhar almas para Deus, eu corro adiante até a temeridade.”[12]
Nós vivemos a ousadia da fé para favorecer um futuro marcado pela esperança. A ousadia da fé com as raízes no coração do educador, do pastor, que nunca deixa de amar, de esperar, de cuidar do seu rebanho.

d. Convite à reflexão
Não tenhamos medo de interrogar-nos de forma íntima e sincera para saber se estamos realmente servindo os jovens ou se estamos servindo-nos deles para a nossa própria agenda e razões pessoais.
Chamados como Comunidade a educar com o coração do bom pastor, esforcemo-nos por encontrar momentos que fortalecem em nós a consciência de que a nossa presença e a nossa contribuição visam favorecer a descoberta do projeto de Deus para cada jovem.
Evocando a frase de Simone Weil, a minha alma habita no fogo do amor de Deus? Se eu não habito na fornalha do amor de Deus, pouco importa a alternativa, onde eu decidir habitar!

5. 150 anos – Salesianos Cooperadores: o sonho profético de Dom Bosco continua
Convido-vos a olhar para a ocorrência dos 150 anos de fundação dos Salesianos Cooperadores como uma experiência que prolonga a palavra de Maria aos servos: “Fazei tudo o que ele vos disser”.
As reflexões feitas até aqui podem ser atualizadas no projeto que Dom Bosco amadureceu desde o início de sua missão em Valdocco.
a. O coração de Dom Bosco era um coração aberto para acolher os sinais dos tempos, com seus desafios e oportunidades.
b. Desde o início houve um caminho enraizado na fé em Cristo, e a sua experiência pessoal tinha unicamente em Cristo o seu ponto de partida.
c. A proposta que foi amadurecendo tinha como objetivo oferecer aos jovens e aos seus primeiros colaboradores um chamado a descobrir e viver o projeto pessoal de vida com liberdade.
d. Num ambiente saudável e santo, onde a razão (sensatez) e a fé (religião) se alimentavam reciprocamente num contexto de bondade/amorevolezza, esse caminho tinha como único propósito servir os jovens com total generosidade e amá-los sem condições.
e. Nas últimas décadas tivemos várias ocasiões e momentos de reflexão que nos ajudam a contemplar a experiência dos Salesianos Cooperadores à luz do carisma salesiano. Refiro-me a três fontes que, ao longo deste ano, podem nutrir muitos momentos de estudo e reflexão, como também de pesquisa voltada a novas e criativas propostas pastorais.

O Padre Pietro Braido dedica várias páginas aos Salesianos Cooperadores[13]. Aqui, eu quero apenas mencionar algumas ideias para uma visão geral que nos é oferecida pela memória projetada além do imediatismo histórico e temporal. Se fizermos uma verdadeira memória das opções de Dom Bosco, perceberemos que o tema da ESTREIA 2026 está em plena sintonia com a sua ação, tendo ele sempre sido atento e obediente à direção do sopro do Espírito de Deus.
A ideia de Dom Bosco era criar uma verdadeira força missionária organizada, um “exército potencialmente ilimitado de pessoas, homens e mulheres”. A característica revolucionária era que esses membros compartilhariam a missão salesiana permanecendo no mundo, sem a obrigação dos votos religiosos (pobreza, castidade, obediência) nem da vida comunitária típica dos religiosos. Eram chamados a viver uma fé “evangelizadora e civilizadora” em seu contexto cotidiano.
Desde o início do Oratório, Dom Bosco sempre pôde contar com a colaboração de padres e leigos. A verdadeira novidade estava em dar a essa colaboração uma forma oficial e estruturada: uma Associação ou União eclesial. Essa entidade seria formalmente “agregada” à Sociedade Salesiana, criando um vínculo espiritual e jurídico reconhecido.
A ideia não surgiu de repente. Já nas versões preliminares das Constituições Salesianas dos anos 60, Dom Bosco havia previsto um capítulo sobre os “Sócios Externos”. Embora essa proposta tenha sido inicialmente rejeitada pelas autoridades vaticanas, Dom Bosco não desistiu. Ele queria transformar uma rede de ajuda espontânea e informal em uma família espiritual reconhecida, com identidade clara e papel ativo na missão salesiana.

Na ‘Introdução’ de 1854 do ‘Plano de Regulamento para o Oratorio Masculino de São Francisco de Sales’ Dom Bosco manifestava a esperança de que o regulamento pudesse “servir de norma (…) para administrar essa parte do sagrado ministério, e de guia às pessoas eclesiásticas e seculares que aí consagram suas fadigas com caridosa solicitude e em bom número”. De fato, gostava de recordar como tinha sido grande o grupo dos colaboradores eclesiásticos e leigos (Braido, Vol. 2, p. 164).

A visão original de Dom Bosco ainda nos interpela, porque nos convida a renovar hoje aquele mesmo espírito apostólico que ele sonhava como base e fundamento. Para Dom Bosco, a figura do Salesiano Cooperador era multifacetada, com identidade e missão bem definidas.
A identidade deles era a de um Salesiano no mundo: cristão (leigo, padre, homem ou mulher) que vive o espírito salesiano em sua condição de vida, na família e na sociedade. Não é um religioso, mas compartilha com os religiosos salesianos o mesmo coração e a mesma paixão pela salvação dos jovens.
A missão deles tinha um duplo propósito: a santificação pessoal (“fazer o bem a si mesmo”: ou seja, chamado a viver uma vida cristã exemplar, com estilo de vida simples e virtuoso, quase como se estivesse “na Congregação”). E a salvação dos outros, a ação apostólica, com o objetivo de um trabalho ativo pelo próximo, com um foco especial na “juventude periclitante”.
Dom Bosco, com grande pragmatismo, estabeleceu que quem não pudesse realizar essas obras diretamente (“por si”) ainda podia contribuir apoiando quem as fazia (“por meio de outros”). Esse princípio tornava a experiência acessível a todos, independentemente da idade, da saúde ou dos recursos econômicos.

O P. Egídio Viganò, escreveu uma carta em 1986 sobre A Associação dos Cooperadores Salesianos[14], na ocasião da promulgação solene do então novo Regulamento de vida apostólica da Associação dos Cooperadores Salesianos. Nessa carta, o P. Viganò escreve que o novo Regulamento não era uma simples atualização normativa, mas um acontecimento de alcance histórico que completava a renovação pós‑conciliar de toda a Família Salesiana. E diz que “Dom Bosco não considerou concluída a sua longa e trabalhosa missão de Fundador enquanto não conseguiu dar uma estrutura válida e uma Carta de identidade própria a esta Associação. Ela esteve presente, em certa maneira e como semente, já desde os inícios do seu projeto em favor das Obras dos Oratórios.
Acrescenta, ainda, que o carisma salesiano possui uma “vitalidade maleável” que lhe permite adaptar-se aos tempos sem perder a própria essência. Dom Bosco partiu da intuição fundamental da missão juvenil e da urgência de ter colaboradores permanentes. Somente após mais de trinta anos de discernimento, de 1841 a 1876, conseguiu dar forma definitiva ao seu projeto, passando de uma dimensão diocesana para uma vocação universal.

O Padre Pascual Chávez, enfim, em uma intervenção sobre O Cooperador na mente de Dom Bosco, comenta “O Projeto de Vida Apostólica: caminho de fidelidade ao carisma de Dom Bosco” ressaltando a intuição original de Dom Bosco e recordando a célebre frase: “Eu sempre precisei de todos!”. Nessa expressão encontramos em síntese a sua visão de forma completa, que não se limita a ver os Cooperadores como simples auxiliares, mas protagonistas essenciais de uma vasta rede de colaboração que, de fato, possibilitou a difusão mundial da obra salesiana.
O Padre Chávez escreve que a identidade do Cooperador, segundo Dom Bosco, articula-se em três dimensões fundamentais: primeiro, é um cristão católico; segundo, tem uma vocação secular; terceiro, é Salesiano no mundo, recordando a mesma conferência de Dom Bosco em 1885. Nessa conferência dom Bosco disse:

O que significa ser Cooperador salesiano? Ser Cooperador salesiano significa concorrer juntamente com outros no apoio a uma obra fundada sob os auspícios de São Francisco de Sales, cuja finalidade é ajudar a Santa Igreja em suas necessidades mais urgentes; significa colaborar para promover uma obra tão recomendada pelo Santo Padre, porque educa os jovens na virtude, no caminho do Santuário, porque tem por principal objetivo instruir a juventude que hoje se tornou alvo dos maus, porque promove no meio do mundo, nos colégios, nos internatos, nos oratórios festivos, nas famílias, promovendo, digo, o amor à religião, os bons costumes, as orações, a frequência aos Sacramentos, e assim por diante.[15]

À luz da visão de Dom Bosco, o Projeto de Vida Apostólica (PVA) traça o caminho para ser um testemunho autêntico do projeto de Deus a favor do crescimento integral dos jovens. Esse caminho torna-se real quando os Salesianos Cooperadores se comprometem a:
a. garantir a identidade da Associação por meio de uma fidelidade dinâmica ao carisma original. O estudo e a reflexão sobre o carisma sejam fonte que nutre continuamente a compreensão e a vivência do chamado;
b. fortalecer a unidade dos membros na sua diversidade. A riqueza das origens, a variedade dos dons de cada membro e a situação pessoal de cada um sejam uma oportunidade para criar espaços de convergência, partilha e habitar novos espaços de ação;
c. por fim, promover a vitalidade missionária de cada Cooperador. O chamado a sentir-nos como Dom Bosco significa sermos guiados por um coração pronto “a sair”, um coração que se sente enviado, um coração missionário. Essa convicção supera o perigo de um fechamento que acaba por apagar o fogo do chamado.
Enfim, com estas propostas do P. Pascual Chávez, vale a pena reafirmar o seu convite a não perdermos o frescor que Dom Bosco transmitia e que hoje cabe a nós não perder nem abrandar. O seu projeto ainda hoje demonstra o seu valor na medida em que cada Salesiano Cooperador procura ser, antes de tudo, uma pessoa dedicada ao bem comum nos âmbitos político, social e humanitário. Nessa ótica, em segundo lugar, a atenção privilegiada aos pobres e aos excluídos torna-se a força que impulsiona a ação pastoral. Em terceiro lugar, reafirma-se o compromisso com uma comunidade de fé, sustentando a vitalidade da Igreja mediante um espírito de serviço autêntico, verdadeiro e desinteressado. Por fim, o convite à formação contínua, para que o testemunho, no seu conjunto e em qualquer lugar, seja nutrido por aquela espiritualidade laical que forma para a vida evangélica, uma vida portadora de boas-novas, fermento na sociedade.

6. Algumas propostas pastorais
Nesta parte final ofereço algumas propostas pastorais que podem ser estudadas e discutidas nos diversos Grupos da Família Salesiana. São propostas que surgem das várias considerações até aqui expostas e intimamente ligadas à Palavra de Deus que nos acompanhou nesta ESTREIA 2026. O meu desejo, e o desejo de cada membro da Família Salesiana, é colocar sempre diante de nós a força e a luz da Palavra. Desta energia pedimos ao Espírito de Deus que nos conceda coragem e determinação para viver com fé a mensagem de Jesus e, vivendo-a, levar o “vinho da esperança” aos jovens.

1. “Fazei tudo o que ele vos disser”: para uma pedagogia da escuta pessoal
As palavras de Maria aos servos de Caná são oferecidas como um verdadeiro método educativo. Maria convida à escuta pessoal que leva do individualismo indiferente à autonomia responsável e solidária, do conformismo exterior estéril à conversão do coração.
Eduquemos os jovens à escuta pessoal da palavra de Deus em vista de uma fé adulta e consciente.
Promovamos o discernimento em nível pessoal e comunitário, de grupos e de assembleias.

2. Maria em Caná: educadora da liberdade autêntica
Maria não obriga os servos, mas dirige-os para Aquele que pode transformar as suas vidas. Ela é o modelo de todo autêntico educador na fé: não impor, mas propor; não obrigar, mas acompanhar; não substituir-se, mas tornar capazes.
Cresçamos como educadores e educadoras que ajudam os jovens a fazer as perguntas certas, evitando o perigo de oferecer respostas prontas.
Tornemo-nos conscientes de que a autoridade nasce do testemunho coerente e autêntico, não do autoritarismo sufocante.
Aceitemos que educar para a liberdade também significa prever o risco do “não”, de uma resposta negativa, de uma recusa, e que, em todo caso, é sempre necessário respeitar as opções dos jovens no interior de um caminho gradual de crescimento.

3. A arte de ler os sinais dos tempos com os jovens
Uma pastoral encarnada sabe ler a realidade juvenil sem preconceitos nem nostalgia do passado. Os jovens vivem em um mundo complexo, atravessado por desafios inéditos: a revolução digital, a incerteza do futuro, a crise das instituições tradicionais, as novas formas de pobreza existencial.
Escutemos de maneira empática: antes de julgar, procuremos compreender o mundo juvenil por dentro.
Façamos uma leitura sapiencial: vejamos nas mudanças culturais não só ameaças, mas também oportunidades para o anúncio.
Promovamos o diálogo no Espírito: vivenciamos a “sinodalidade” de modo evidente quando envolvemos os próprios jovens na escuta recíproca, na análise da sua realidade e na formulação de novas propostas.
Com um olhar de fé, reconheçamos a ação de Deus também nas situações aparentemente mais afastadas do Evangelho.

4. Escolher: a liberdade cristã como resposta vocacional
Um dos pontos mais delicados da pastoral juvenil salesiana de hoje é a relação entre fé e liberdade. Somente a “escuta livre” permite experimentar a força libertadora do Evangelho.
Ofereçamos aos jovens espaços e experiências baseados num cristianismo audacioso, sem medo, uma proposta de vida cristã simples e credível.
Orientemos para a ação: cada ação e cada proposta concreta sejam vividas e guiadas pela Palavra para serem sinais de uma espiritualidade integral. O serviço emerge então como expressão natural de uma fé madura e de uma liberdade autêntica.

5. Os 150 anos dos Salesianos Cooperadores: um modelo para hoje
A comemoração dos 150 anos dos Salesianos Cooperadores oferece à missão salesiana uma oportunidade única: o sonho de Dom Bosco de um “grande movimento de pessoas” comprometidas com o bem da juventude.
Protagonismo juvenil: os jovens não são apenas destinatários da ação pastoral, mas sujeitos ativos. Como os primeiros Cooperadores desde o início, os jovens compartilharam o sonho de Bom Bosco. Isso também deve valer para os jovens de hoje: eles são chamados a ser protagonistas da evangelização, mais explicitamente do que os seus coetâneos.
Alianças educativas: a missão salesiana não pode ser obra de indivíduos isolados, mas requer redes de colaboração entre famílias, comunidades cristãs, escolas, associações e o mundo do trabalho. Os Salesianos Cooperadores de ontem e de hoje representam esse espírito de aliança pastoral.
Dimensão missionária: o carisma salesiano é intrinsecamente missionário. Toda opção pastoral não pode limitar-se à preservação do que já existe, mas deve abrir-se às periferias, às novas formas de pobreza, aos jovens mais distantes.
Laicidade fecunda: os Salesianos Cooperadores testemunham a beleza da vocação laical na Igreja. Isso significa valorizar e levar a sério o papel específico dos leigos na educação à fé, respeitando e promovendo a sua competência e autonomia.

Conclusão
A ESTREIA 2026 oferece à Família Salesiana um programa ao mesmo tempo desafiador e fascinante. Neste tempo em que os jovens são descritos muitas vezes apenas em termos de problemas ou fragilidades, a proposta salesiana vê-los com os olhos da fé: quando encontram propostas críveis e testemunhas confiáveis, os jovens mostram-se portadores sinceros de dons específicos, realmente capazes de escuta autêntica, prontos para fazer escolhas generosas.
Como Maria em Caná, nós, educadores e educadoras na fé, somos chamados a testemunhar Cristo aos jovens, não como “objeto”, mas como relação libertadora; a propor a vida cristã não como regras a seguir, mas como plenitude de vida oferecida gratuitamente. “Fazei tudo o que ele vos disser” não é um convite à obediência cega, mas à liberdade responsável comunicada por quem já encontrou e vive o Amor, e quer compartilhá‑lo porque nele está a verdadeira vida.
Encerro com uma reflexão de Romano Guardini[16]. Ele afirma que a nossa fé é uma “«fé contestada», que deve continuamente verificar o próprio fundamento, e talvez desfazer-se do variado e do belo para apegar-se apenas ao essencial». Isso significa que, quando surge a dúvida ou o desânimo que frequentemente nos atacam em nossa missão percebemos que a verdadeira fé é aquela “que sempre se ergue de novo contra a dúvida. […] Aquela forma característica de fé que (São John Henry) Newman descreveu bem quando afirmou que «crer» significa «poder sustentar a dúvida»”.
O vinho novo do casamento de Caná, que simboliza a novidade promovida por quem crê, nós o levamos com alegria e esperança, também e sobretudo em meio a desafios e dificuldades, dúvidas e incertezas. Seja na Igreja ou na sociedade, os jovens que acompanhamos são portadores de uma sede de vida autêntica. Buscam encontrar crentes que comuniquem uma proposta cristã credível e, por isso, sejam cridos por eles. Esse é o desafio que a ESTREIA 2026 confia a todos nós da Família Salesiana que levamos com seriedade as novas gerações.
O sonho de Dom Bosco continua sempre que um jovem descobre nos educadores e pastores que encontra não um limite à sua liberdade, mas o caminho para se tornar plenamente ele mesmo, um crente que vive a própria fé a serviço dos irmãos. Esta é a “boa nova” que a missão salesiana é chamada a anunciar: a ousadia da fé e a alegria da partilha.

Esta é a ESTREIA que, com alegria e comoção, vos ofereço, e que me comprometo a viver eu mesmo em primeiro lugar.

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O cartaz da STRENNA 2026, com o tema «FAÇA O QUE ELE LHE DIZER», Fiéis, livres para servir, retrata visualmente a passagem do EVANGELHO sobre as Bodas de Caná.

Seguindo a estrutura em quatro partes proposta pelo Reitor-Mor, a ilustração destaca: Maria (à esquerda) olha e percebe a necessidade; ela volta essa consciência para Dom Bosco (ao centro), representando o discernimento cheio de fé e a ação compassiva da missão salesiana, e juntos eles olham para Jesus (com a auréola), que aponta o caminho; o primeiro plano mostra os servos — ouvindo, escolhendo e, finalmente, partilhando o vinho transformado das jarras — para que a comunidade receba a abundância de Deus. As cores e o agrupamento enfatizam a comunhão, o serviço e a atenção: o olhar de Maria desperta a consciência (OLHAR), a presença de Cristo dá profundidade e direção (OUVIR), os gestos livres e confiantes dos servos revelam o consentimento interior (ESCOLHER) e o seu ato de levar o vinho manifesta o serviço alegre (AGIR). Perto do topo da composição, o pequeno cubo flutuante serve como uma provocação subtil — um lembrete de como às vezes podemos permitir-nos ser confinados por medos interiores, atitudes rígidas ou mesmo por novas ideologias e sistemas modernos que prometem progresso, mas silenciosamente limitam a nossa abertura ao Espírito e à genuína liberdade humana. Toda a imagem é um lembrete de que, quando o amor escuta a palavra de Cristo, o coração encontra a liberdade para escolher, servir e partilhar a alegria transformadora de Deus.

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  1. Papa Francisco, Carta Encíclica Lumen fidei (2013).
  2. Papa Francisco, Audiência Geral, 8 de junho de 2016: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/audiences/2016/documents/papa-francesco_20160608_udienza-generale.html
  3. Joseph Ratzinger-Benedetto XVI, Gesù di Nazaret, Libreria Editrice Vaticana, Città del Vaticano, 2007, p.292.
  4. Idem.
  5. Dominic VELIATH, “Encounter of the Salesian Charism. South Asian Context”, in, Journal of Salesian Studies, July–December 2015, Vol.16, n.2, pp.189-207; cf. https://www.salesian.online/wp-content/uploads/2020/03/JSS_16_N_2_Encounter_of_the_Salesian_Charism_with_the_Southern_Asian_Context-Dominic_Veliath1.pdf
  6. Idem, p. 207. Original em inglês: The Salesian charism is still on a pilgrimage. Every pilgrimage involves a certain amount of risk; at times one is challenged to venture along what may seem as yet an uncharted course. It is in this setting that every Salesian, including the Salesian in the South Asian context, confident in the abiding presence of the Spirit of God, rooted in the Salesian charism and in fraternal communion with the Salesian congregation at large, is called to continue his journey with a little of that trust which has so insightfully been described by the poet Antonio Machado in his poem Antonio Machado in his poem Caminante no hay Camino: “Wayfarer! There is no way. The way is made by walking”.
  7. Da carta que Madre Teresa escreveu a toda a família das Missionárias da Carodade, durante a Semana Santa del 1993 – 25 de março, cf.: R. Cantalamessa, La Terza predica d’Avvento, il 19 dicembre 2003: “Conoscete il Gesù vivo?
  8. Pietro BRAIDO, Dom Bosco, padre dos jovens no século da liberdade (Editora Salesiana – São Paulo, 2008), Vol. I, Cap. VII: A revelação de Dom Bosco educador (1846-1850), p.212.
  9. Idem., p.219.
  10. São João Paulo II, Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, 6 de janeiro de 2001.
  11. Simon Weil, Quaderno IV, pp. 182-183.
  12. Lettera al Signor Carlo Vespignani, 11 aprile 1877, in Francesco MOTTO (a cura di), Giovanni BOSCO, Epistolario, Vol. V (1876-1877), LAS-Roma 2012, p.344.
  13. Pietro BRAIDO, Dom Bosco, padre dos jovens no século da liberdade, Vol. 2 (Editora Salesiana – São Paulo, 2008), Sugiro a leitura do Capítulo vinte e dois, Projeto de solidariedade católica na missão entre os jovens (1873-1877), p.173-194.
  14. E. Viganò, A Associação dos Cooperadores Salesiano. Carta publicada em ACG n. 318, 1986.
  15. Bollettino Salesiano, Luglio 1885, Anno IX. n. 7 cf.: https://sdl.sdb.org:9343/greenstone3/library/collection/bolletin/document/HASHf4b23f9c8aeedeefebb44e;jsessionid=5747EC043839057DDD329A721E7B8FAA
  16. R. Guardini, Sorge um dem Menschen, Bd. I, Werkbund, Würzburg 1962, tr. it. di Albino Babolin, Ansia per l’uomo, vol. I, Morcelliana, Brescia 1970, p. 130.

P. Fabio ATTARD

Reitor-Mor dos Salesianos de Dom Bosco