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“Il pasto nella casa del fariseo” (The Meal in the House of the Pharisee), James Jacques Joseph Tissot (n. Nantes, França, 1836–1902), 1886–1894, aquarela, Brooklyn Museum de Nova York
Esta passagem do Evangelho de Lucas, capítulo 11,37-41, nos conta como Jesus, a caminho de Jerusalém, aceita o convite para almoçar com um fariseu. Temos um diálogo que representa um momento de confronto entre duas visões da religiosidade: a formal, centrada nas prescrições rituais, e a do coração, proposta por Jesus.
À pergunta feita a Jesus sobre porque não segue os gestos rituais da tradição, o fariseu é convidado a ir além das ações exteriores, a verificar se a exterioridade corresponde de fato ao que ele carrega no coração.
Jesus aceita o convite sem condições
Assim como o fariseu, também nós podemos convidar Jesus para a nossa mesa. Sua resposta é surpreendente: Jesus aceita, sempre, sem impor condições. Ele não exige que nossa casa esteja em ordem, não pede garantias sobre nossa coerência. “Ele entrou e pôs-se à mesa” – com esta simplicidade desconcertante, Jesus entra na vida do fariseu, já sabendo o que encontrará, conhecendo as contradições, as sombras, a duplicidade.
Esta é a primeira mensagem libertadora: Jesus não espera que estejamos bem para vir até nós; ele vem para nos ajudar a nos arrumarmos. Não precisamos esconder quem realmente somos para sermos dignos de sua presença. Pelo contrário, é justamente nossa imperfeição que nos torna necessitados do seu encontro.
Uma presença que traz clareza
Mas atenção: se Jesus aceita sem condições, sua presença nunca é neutra ou inofensiva. Jesus entra e traz luz. O fariseu talvez esperasse um convidado complacente, alguém para exibir, para mostrar aos conhecidos: “Vejam, até Jesus vem à minha casa”. Em vez disso, ele se vê desnudado, sem ser humilhado nem constrangido. A presença de Jesus ilumina as contradições, faz emergir o que preferiríamos manter escondido.
Não é uma agressão, é mais como quando acendemos a luz em um cômodo: a luz não cria a poeira que está ali, mas a torna visível. Assim é Jesus: ele não inventa nossos defeitos, mas, com delicadeza e gradualmente, nos ajuda a vê-los como são. Em poucas palavras, sua presença é um convite para trazer clareza à nossa vida: para olhar com honestidade onde somos autênticos e onde vivemos de máscaras, onde há coerência e onde há uma cisão entre o que parecemos e o que somos.
Além das aparências: o chamado à coerência pessoal
“Vós, fariseus, limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de ganância e de maldade.” Jesus não condena as práticas exteriores em si – as abluções, as orações públicas, a observância –, mas lança luz sobre aquela sutil e terrível cisão entre exterior e interior, a duplicidade de quem cuida da imagem enquanto negligencia o coração.
É uma tentação que atravessa todos os tempos. Quanta energia gastamos para construir uma imagem aceitável! Nas redes sociais, na vida profissional, até mesmo nas relações mais íntimas: filtramos, selecionamos, mostramos apenas o que nos valoriza. Jesus, ao contrário, chama a uma coerência em um nível muito pessoal, antes mesmo de ser público. Não se trata do que os outros veem, mas de quem realmente somos quando ninguém está olhando. É ali, na intimidade do coração, que nossa autenticidade está em jogo.
Uma visão sem zonas de sombra
“Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior?” Há aqui uma profunda intuição humana e espiritual: o ser humano é uno. Não somos divididos em compartimentos estanques – a dimensão pública e a privada, o corpo e o espírito, a exterioridade e a interioridade. Não podemos manter zonas de sombra, áreas da vida subtraídas à luz, pensando que não contaminarão o resto.
O convite de Jesus é para uma visão sem zonas de sombra: uma vida na qual não haja cantos escondidos onde cultivamos vícios, egoísmos, duplicidade. Uma transparência interior onde tudo é trazido à luz da consciência e da graça. Isso não significa perfeição imediata, mas honestidade radical: reconhecer nossas fragilidades, chamá-las pelo nome, não as justificar nem as esconder. É o primeiro passo para a cura.
A esmola como dom de si
“Dai antes em esmola o que está dentro, e eis que, para vós, tudo será puro.” Aqui está o ápice da mensagem de Jesus. A verdadeira purificação não vem de rituais exteriores, mas do dom daquilo que está dentro. A coerência tem a capacidade de ser portadora de bondade. A palavra “esmola” em grego tem suas raízes na palavra “misericórdia”, compaixão. Não é apenas uma questão de dar dinheiro, mas de doar a nós mesmos: nosso tempo, nossa atenção, nossa presença, nossa vulnerabilidade.
Quando vivemos essa unidade interior, quando não há mais cisão entre quem somos e quem parecemos, então dessa unidade emana a verdadeira esmola, a autêntica misericórdia: um dom genuíno, não calculado, não instrumental. Não damos para parecer generosos, mas porque a generosidade se tornou quem somos.
A sede dos jovens por adultos autênticos e coerentes
Esta mensagem tem uma ressonância particular hoje, especialmente para as novas gerações. Os jovens vivem imersos em uma cultura onde tudo tem um preço, tudo é calculado em termos de rendimento e utilidade; as identidades são fragmentadas entre mil perfis, máscaras, papéis sociais; as relações são mediadas, filtradas, muitas vezes anônimas ou superficiais.
Nesse contexto, os jovens têm uma sede desesperada de adultos autênticos: pessoas que vivem o que dizem, que não têm um rosto para o público e outro para o privado, que não mentem por conveniência.
Nunca se deve esquecer que os jovens não procuram adultos perfeitos – a esses, eles rejeitam como falsos. Eles procuram adultos verdadeiros: capazes de reconhecer as próprias fragilidades, de ser coerentes nas pequenas coisas do dia a dia, de manter a palavra dada, de ter uma vida interior que transparece. O maior serviço que podemos prestar às novas gerações não é dar-lhes conselhos morais ou regras de comportamento, mas testemunhar uma vida autêntica.
O convite permanente
O fariseu convidou Jesus uma vez. Mas o texto nos revela que Jesus está sempre disponível para ser convidado, hoje como há dois mil anos.
A pergunta para cada um de nós é: estamos dispostos a acolhê-lo, sabendo que sua presença nos colocará diante da verdade sobre nós mesmos? Estamos prontos para deixar que ele ilumine nossas zonas de sombra? E depois: após acolher essa luz, estamos dispostos a viver na autenticidade, renunciando às máscaras, doando aos outros não o que nos sobra, mas “o que está dentro”?
Em um mundo sedento de verdade, ser pessoas autênticas não é um luxo espiritual: é o primeiro ato de caridade que podemos realizar. Especialmente para com aqueles que, como os jovens, têm o direito de ver que é possível viver sem duplicidade, que a integridade não é uma utopia, que a coerência entre o interior e o exterior é o caminho para a verdadeira liberdade.

