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Giorgio Moglia testemunha no processo de beatificação de Dom Bosco, contando como o jovem João, aos treze anos, trabalhou como ajudante na fazenda deles por dois anos, após ter fugido de Becchi por causa dos maus-tratos de seu meio-irmão Antônio. Já naquela época, ele se destacava pela piedade, pelo estudo e pelo zelo em ensinar o catecismo aos meninos. A família Moglia o acolheu com carinho: a mãe lhe dava meias de presente quando ele estava no seminário, e Dom Bosco manteve uma profunda gratidão por toda a vida, levando seus meninos para passear na propriedade dos Moglia e chamando Giorgio de “meu antigo patrão” com orgulho e gratidão.
“Porque ele era simples e cordial”
Seu testemunho está contido no processo ordinário, cópia pública, nas folhas 781-793.
Quando Joãozinho Bosco, num dia frio de fevereiro de 1827, teve que deixar sua casa em Becchi por causa dos maus-tratos de seu meio-irmão Antônio, ele foi procurar trabalho como ajudante na fazenda dos Moglia. No pátio, encontrou toda a família: Luís, o jovem pai de 29 anos; Doroteia, a radiante mãe de 26 anos; seu filho Jorge, de três anos; a jovem irmã de Luís, Teresa, de 15 anos; e José, o tio idoso de Luís.
Quando foi instaurado o «processo de santidade» para Dom Bosco, a senhora Doroteia havia acabado de falecer, uma velhinha alva e frágil de 91 anos. Ao «processo» compareceu seu filho Jorge, de 67 anos.
Meu nome é Jorge Moglia, filho do falecido Luís e da falecida Doroteia Filipello, de 67 anos, nascido e residente em Moncucco Torinese, de profissão camponês, proprietário de alguns bens imóveis no valor de cerca de vinte mil liras (cerca de 48.500 euros de hoje). O que direi é o que sei por conhecimento próprio, e nada mais.
Eu conheci o P. João Bosco quando eu tinha três anos e o jovem Bosco, treze, na época em que ele estava na casa dos meus pais, na qualidade de servo do campo. Já morávamos então em Moncucco, na Vila Moglia. O jovem Bosco ficou cerca de dois anos em nossa casa. Durante esse tempo, eu falava com ele todos os dias, porque se pode dizer que eu estava sempre em sua companhia, tanto no campo quanto em casa. Aliás, minha mãe me entregava aos seus cuidados, e ele o fazia de bom grado, mas agora não me lembro de nada do que ele me dizia, sendo eu de idade infantil.
Dois grãos e quatro espigas
Minha mãe me contou que um dia o jovem Bosco, tendo voltado do campo ao meio-dia junto com o tio do meu pai, este, cansado dos trabalhos, deitou-se em casa para descansar. Ao ver o jovem Bosco que, tendo ouvido o som do Angelus Domini (o sino do meio-dia), se ajoelhou para rezar o Ângelus (oração que recorda a Anunciação de Nossa Senhora), ficou extremamente maravilhado e exclamou: «Essa é boa, eu que sou o patrão e não aguento mais de cansaço, fico aqui, e o meu servo, em vez disso, se põe a rezar de joelhos!».
O jovem Bosco acrescentou: «Oh, vejam, se tudo der certo, ganhei mais eu rezando do que o senhor trabalhando; se rezar, semeando dois grãos, nascem quatro espigas; se não rezar, semeando quatro grãos, colhe duas espigas. E, rindo, acrescentou: reze o senhor também, e em vez de duas, colherá quatro».
O outro, ao ouvir isso, exclamou: «Ora, bolas, que eu tenha que receber lição de um rapazinho?».
Reunia os meninos nos tempos livres e chuvosos
Minha tia, de nome Ana, então solteira, me dizia que nos tempos livres e chuvosos o jovem Bosco reunia os meninos ao seu redor, e lhes ensinava ora o catecismo, ora a cantar algum louvor sacro.
Aos quinze anos, o jovem Bosco, por motivo dos estudos, deixou nossa casa e retornou quando já era clérigo, e nós não o reconhecemos mais. Ao vê-lo e reconhecê-lo, todos sentimos um grande prazer, e meus pais quiseram que ele ficasse com eles. Como a mãe de Bosco estava com pouco espaço para morar, fizeram-no ficar em casa, onde permaneceu por três meses durante as férias. Nesse tempo, via-se que ele estava sempre dedicado à oração e ao estudo, e era assíduo na Igreja.
Quando chegou pela primeira vez
Quando o jovem Bosco foi acolhido em nossa casa como servo do campo, como me foi contado por meus pais, ele tinha saído da casa paterna com a permissão de sua mãe, porque era maltratado por seu meio-irmão. E chegou à nossa casa um dia, ao entardecer. Encontrou-se com o tio do meu pai, de nome José Moglia, que lhe disse: «Oh, aonde vai?» E Bosco respondeu: «Vou procurando um patrão para oferecer meu trabalho». Então o tio lhe disse: «Muito bem, trabalhe!» e o despedia.
Quando uma tia minha ouviu essas palavras, suplicou ao tio que o acolhesse, para que ela ficasse isenta de levar os animais para pastar, e tanto disse que o Moglia o manteve em casa.
«Conheci sua mãe, Margarida»
Pela minha tia Ana, soube que o jovem Bosco se dedicava à oração mesmo quando estava ocupado pastoreando o rebanho no campo. Lembro-me ainda que, quando o jovem Bosco já era clérigo, eu fui à sua casa e lá permaneci por cerca de três meses. Antes de dormirmos, ele me fazia rezar e me dava bons conselhos. Entre outras coisas, disse-me várias vezes:
– A melhor obra que existe no mundo é levar as almas perdidas para o bem, para o bom caminho.
Outras vezes me dizia:
– Quem perde o respeito pelo pai e pela mãe, atrai para si a maldição de Deus.
E isso ele me disse, depois de eu lhe ter contado que um jovem da minha cidade havia maltratado seu pai.
Eu tenho tanto respeito, estima e amor por Dom Bosco quanto pelos meus próprios pais. E se preciso de graças do Senhor, recorro a ele para obtê-las. Desejo ardentemente a sua beatificação, e, se fosse necessário,que eu fosse a pé até Roma, eu o faria de muito bom grado.
Conheci sua mãe, que se chamava Margarida, camponesa. Tinha uma casa pequena e alguns campinhos. Não conheci o pai dele porque ele morreu quando Dom Bosco ainda era menino. Sua mãe era tida em grande estima por meus pais, e na vila e arredores, e por todos elogiada como uma mãe cristã, verdadeiramente boa.
Minha mãe todo ano lhe presenteava com meias
Quando meu tio arava o campo, o jovem Bosco, que guiava os bois, se estes andavam sem precisar de sua orientação, aproveitava cada momento para tirar um livro e ler.
Depois de o jovem Bosco ter ficado dois anos conosco, ele ficou um ano com o pároco de Castelnuovo, e depois foi para Chieri para continuar seus estudos.
Minha mãe, quando ele já era clérigo no seminário, presenteava-o todo ano com alguns pares de meias, o que prova que ela o considerava como um filho seu.
Eu ouvi a Missa de Dom Bosco nos primeiros meses depois de ele ter sido ordenado sacerdote, enquanto estava de férias em Castelnuovo, e fiquei edificado. Também o ouvi pregar uma vez no início de seu sacerdócio, e eu e meus parentes ficamos muito bem impressionados.
Vi a casinha que foi o início do Oratório
Desde quando estava em nossa casa, o jovem Bosco, nos momentos de liberdade, procurava atrair os meninos e lhes ensinava o catecismo, as ladainhas, algum louvor e contava algum bom exemplo. Depois de se tornar sacerdote, aumentou esse seu desejo de fazer o bem à juventude e fundou então o Oratório para acolher jovens pobres. Eu mesmo, vindo uma vez a Turim, vi a casinha que foi o início do Oratório, na qual já havia alguns jovens. Naquela ocasião, Dom Bosco me disse que, se eu conhecesse algum jovem pobre e sem pais, que o levasse a Turim, ao seu Oratório, que ele o aceitaria: de fato, levei dois ou três.
O número de jovens cresceu cada vez mais. Nos últimos anos em que viveu, Dom Bosco me disse que no Oratório de Valdocco havia mais gente do que no meu povoado de Moncucco.
Li alguns livros e fui associado às Leituras Católicas que Dom Bosco mandava publicar com o objetivo de instruir o povo nas coisas religiosas.
Ele me perguntava sobre sua vinha
Meu tio João Moglia me contava que, quando o jovem Bosco estava em nossa casa, eles plantaram juntos quatro fileiras de videiras. João, com vimes, amarrava uma daquelas fileiras perto do chão, e isso lhe custava esforço. Cansado do trabalho, queixava-se de dor nas costas e nos joelhos, mas meu tio lhe dizia: «Continue. Se não quer ter dor nas costas quando for velho, precisa sofrê-la agora que é jovem».
E Bosco continuou a trabalhar. Mas, depois de alguns instantes, acrescentou: «Pois bem, estas videiras darão a uva mais bonita e o melhor vinho e em maior quantidade, e durarão mais que as outras».
A coisa aconteceu como ele havia previsto, porque as outras videiras daquela terra, com o passar do tempo, se perderam, e, em vez disso, aquelas amarradas pelo jovem Bosco continuaram até 1890, para admiração de todos. E, toda vez que eu vinha ao Oratório em Turim, Dom Bosco sempre me perguntava sobre aquela vinha.
Em 1840, o clérigo Bosco veio a ser padrinho do meu irmão João. Minha mãe se queixava de estar esgotada, temia não recuperar a saúde; ao que Dom Bosco lhe disse: «Tenha coragem e bom humor, a senhora chegará até os noventa anos». De fato, ela morreu com noventa e um anos. Devo dizer que ela confiava muito nessa promessa de Dom Bosco e, embora algumas vezes fosse acometida por doenças, até graves, nunca quis tomar os remédios prescritos pelo médico, porque dizia: «Dom Bosco me garantiu que viverei até os 90 anos». Ela, após a morte de Dom Bosco, recomendava-se a ele todos os dias e morreu com o seu retrato na cama.
«Este é o meu patrão»
Dom Bosco sempre teve grande gratidão por minha família, pelo pouco que fizemos por ele. Nos primeiros anos de seu Oratório, quando ainda não tinha muitos jovens, todos os anos ele os levava à nossa casa para um passeio no campo. E queria que nós considerássemos seu Oratório como nossa casa quando precisássemos ir a Turim. Muitíssimas vezes me fez sentar ao seu lado à mesa, mesmo quando estava rodeado por muitos de seus padres. Uma vez, no almoço, disse aos seus padres e a outras pessoas, virando-se para mim: «Este é o meu antigo patrão», aludindo ao tempo em que, jovem, esteve a serviço do meu pai, Moglia.
Dom Bosco morreu há poucos anos no Oratório de Valdocco. Eu o vi alguns meses antes. Encontrei-o sentado em uma poltrona, esgotado, mas paciente e jovial. Tendo-lhe perguntado como estava, ele me disse: «Eh, estamos nas mãos de Deus».

