{"id":55579,"date":"2026-11-06T07:10:22","date_gmt":"2026-11-06T07:10:22","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=55579"},"modified":"2026-11-06T07:10:51","modified_gmt":"2026-11-06T07:10:51","slug":"conhecamos-dom-bosco-20-o-trabalho-colossal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/dom-bosco\/conhecamos-dom-bosco-20-o-trabalho-colossal\/","title":{"rendered":"Conhe\u00e7amos Dom Bosco (20). O trabalho colossal"},"content":{"rendered":"<p><em><i>Dom Bosco \u00e9 apresentado dentro de uma espiritualidade do trabalho que, em sintonia com o magist\u00e9rio de Jo\u00e3o Paulo II, afirma sua dignidade sem absolutiz\u00e1-lo: n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo, mas um lugar onde a pessoa se expressa e cresce na caridade. Nessa perspectiva, Dom Bosco aparece como o santo do \u201cfazer\u201d: une ora\u00e7\u00e3o e a\u00e7\u00e3o, santifica o trabalho e o assume como caminho educativo e \u201cescada m\u00edstica\u201d para Deus. Para ele, trabalho significa o cumprimento do pr\u00f3prio dever de estado: manual, intelectual, apost\u00f3lico e caritativo. Insiste na laboriosidade e na temperan\u00e7a como sinais salesianos, convencido de que o \u00f3cio favorece o mal. Seu testemunho \u00e9 o de uma vida de operosidade colossal, at\u00e9 o esgotamento e a morte.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Porque o trabalho e a temperan\u00e7a far\u00e3o florescer a Congrega\u00e7\u00e3o Salesiana.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A import\u00e2ncia que o tema do trabalho assumiu em nosso tempo \u00e9 demonstrada pela imponente literatura, que analisa seus aspectos e valores em cont\u00ednuo desenvolvimento. Mesmo que desfigurado por certas ideologias, o trabalho \u00e9 de fato um valor central na sociedade e na cultura de hoje. Ele evidencia um aspecto da miss\u00e3o do homem no mundo: o de dominar a natureza para humaniz\u00e1-la e coloc\u00e1-la a servi\u00e7o da pessoa.<\/p>\n<p>Em sua Enc\u00edclica <em><i>Laborem Exercens<\/i><\/em> e em in\u00fameras outras interven\u00e7\u00f5es, o Sumo Pont\u00edfice Jo\u00e3o Paulo II tra\u00e7a as linhas de uma espiritualidade do trabalho que exalta seu valor, mas desmistifica qualquer idolatria a seu respeito. O trabalho, de fato, n\u00e3o \u00e9 um fim em si mesmo, n\u00e3o \u00e9 um absoluto. \u00c9, ao contr\u00e1rio, \u00abum modo importante de expressar a pessoa como \u201ccocriadora\u201d ou \u201ccorredentora\u201d na terra e no tempo. Para n\u00f3s, torna-se testemunho da tr\u00edade espiritual: f\u00e9, esperan\u00e7a, caridade. Nesse sentido, n\u00e3o \u00e9 tanto a qualidade do trabalho que engrandece a pessoa, mas as motiva\u00e7\u00f5es e o cora\u00e7\u00e3o com que ele \u00e9 realizado, ou seja, a medida do amor de caridade que o permeia\u00bb (E. Vigan\u00f2). Dom Bosco fez do trabalho sua bandeira, santificou-se trabalhando, e trabalhando muito. Vejamos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>A atividade incessante<\/b><\/strong><\/p>\n<p>O acad\u00eamico italiano Francisco Orestano, escrevendo sobre Dom Bosco, ap\u00f3s destacar sua grandeza moral e for\u00e7a de vontade, continua nestes termos: \u00abPor mais importantes que sejam as caracter\u00edsticas do homem e de sua obra, a originalidade de Dom Bosco ainda n\u00e3o est\u00e1 a\u00ed. Ei-la. Necessidades educativas e sociais, profundamente intu\u00eddas em perfeita rela\u00e7\u00e3o com os novos tempos, fizeram-no descobrir <em><i>a grande lei de educar com e para o trabalho<\/i><\/em>. Do trabalho como instrumento educativo, Dom Bosco sentiu a extraordin\u00e1ria pot\u00eancia edificante da personalidade humana em todos os sentidos e momentos. O trabalho, via eminente de enobrecimento do esp\u00edrito: \u201cN\u00e3o vos recomendo penit\u00eancias e disciplinas, mas trabalho, trabalho, trabalho\u201d. E ainda no leito de morte, recomendava-o a todos os salesianos, que ele quis organizados como uma mil\u00edcia social, n\u00e3o empenhada em pr\u00e1ticas asc\u00e9ticas, mas totalmente imbu\u00edda das necessidades da vida moderna. Ele n\u00e3o apreciou o trabalho apenas como instrumento educativo, mas como conte\u00fado de vida. Do trabalho, sentiu toda a dignidade, mesmo em suas aplica\u00e7\u00f5es manuais mais modestas, procurou exemplarmente aprender e praticar todas elas, e por isso mesmo, enobrec\u00ea-las. E nunca considerou o trabalho um meio de enriquecimento, pois, ao contr\u00e1rio, julgou, como sua santa m\u00e3e havia sentenciado com retid\u00e3o, que enriquecer era uma desgra\u00e7a; mas apenas como plenitude, sa\u00fade e santidade de vida\u00bb.<\/p>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o \u00e9 pertinente porque capta, com clareza penetrante, o aspecto talvez mais original de sua pedagogia e de sua santidade, que \u00e9 o da eleva\u00e7\u00e3o do homem e do crist\u00e3o <em><i>por meio do trabalho e com o trabalho<\/i><\/em>. Com uma condi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m: que a palavra \u201ctrabalho\u201d seja tomada na gama de significados que tinha para Dom Bosco, para quem era, a cada momento, sin\u00f4nimo de atividade <em><i>manual<\/i><\/em>, artesanal, t\u00e9cnica, profissional; <em><i>intelectual<\/i><\/em>, escola, estudo, cultura; <em><i>apost\u00f3lica<\/i><\/em>, catequese, evangeliza\u00e7\u00e3o, zelo pastoral; <em><i>sacerdotal<\/i><\/em>, a\u00e7\u00e3o lit\u00fargica, sacramentos; <em><i>caritativa<\/i><\/em>, em suas diversas formas; <em><i>dever de estado<\/i><\/em>. \u00abPor trabalho entende-se o cumprimento dos deveres do pr\u00f3prio estado\u00bb.<\/p>\n<p>Ser\u00e1, portanto, o contexto que nos dar\u00e1 o significado pretendido, a cada vez, por Dom Bosco quando fala de trabalho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>A \u00abescada m\u00edstica\u00bb do trabalho<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Do trabalho entendido como <em><i>atividade apost\u00f3lica, caritativa e humanizadora<\/i><\/em>, Dom Bosco intuiu a suprema grandeza, a divina virtude santificadora, e n\u00e3o hesitou em fazer dela sua <em><i>escada m\u00edstica<\/i><\/em> para ir a Deus.<\/p>\n<p>N\u00e3o separou o trabalho da ora\u00e7\u00e3o: \u00abSe houve um santo que nos tempos modernos uniu e personificou em si de forma t\u00e3o maravilhosa os dois elementos da tradi\u00e7\u00e3o beneditina \u201corar e trabalhar\u201d, foi precisamente Dom Bosco\u00bb (Card. C. Salotti). Mas a ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 o que mais aparece nele, n\u00e3o \u00e9 sua marca. \u00abO que aparece ao mundo \u00e9 o trabalho intenso e desinteressado. Dom Bosco \u00e9 um santo extremamente concreto: para diz\u00ea-lo de forma um pouco crua, mas verdadeira, n\u00e3o acredita numa piedade que n\u00e3o se expresse na vida, que n\u00e3o se torne a\u00e7\u00e3o, caridade ativa, que n\u00e3o se traduza num trabalho incessante por amor a Deus e aos irm\u00e3os\u00bb.<\/p>\n<p>Acrescentamos que, no s\u00e9culo XIX, a ora\u00e7\u00e3o era ainda uma realidade t\u00e3o fortemente inserida no costume crist\u00e3o, que Dom Bosco n\u00e3o considerou oportuno insistir nela excessivamente, como provavelmente faria em uma situa\u00e7\u00e3o diferente. Urgia, ao contr\u00e1rio, santificar o trabalho e divinizar a a\u00e7\u00e3o. Foi este o seu carisma.<\/p>\n<p>A isso ele se sentia inspirado e inclinado. Sabia que a palavra n\u00e3o \u00e9 persuasiva se n\u00e3o no momento em que se torna a\u00e7\u00e3o, e quis que a a\u00e7\u00e3o se tornasse palavra, que suas ideias tivessem m\u00e3os, como de fato acontecia.<\/p>\n<p>Era, por temperamento, o que se chama de \u00abhomem de a\u00e7\u00e3o\u00bb, \u00abo realizador de sucesso\u00bb, o \u00abg\u00eanio da organiza\u00e7\u00e3o\u00bb. O trabalho era sua segunda natureza. \u00abDeus \u2013 dizia ele \u2013 me deu a gra\u00e7a de que o trabalho e o cansa\u00e7o, em vez de serem um peso para mim, sempre me fossem um al\u00edvio\u00bb.<\/p>\n<p>O impulso para agir era poderosamente estimulado pelas novas e imensas necessidades de seu s\u00e9culo, pela condi\u00e7\u00e3o miser\u00e1vel em que se encontrava a juventude marginalizada ou negligenciada de seu tempo. Mas o que o atra\u00eda sobretudo era o exemplo de Jesus, o divino trabalhador da casinha de Nazar\u00e9, o amigo das crian\u00e7as e dos humildes, o ap\u00f3stolo do Pai continuamente em a\u00e7\u00e3o para nossa salva\u00e7\u00e3o: \u00abMeu Pai trabalha sempre, e eu tamb\u00e9m trabalho\u00bb (Jo 5,17); Jesus \u00abcome\u00e7ou a fazer e a ensinar\u00bb (At 1,1). \u00c9 este o modelo que ele prop\u00f5e a seus filhos quando escreve as Constitui\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00abJesus Cristo come\u00e7ou a fazer e a ensinar, assim os congregados come\u00e7ar\u00e3o por se aperfei\u00e7oar a si mesmos mediante a pr\u00e1tica das virtudes internas e externas\u00bb.<\/p>\n<p>Quando Dom Bosco cita a Palavra de Deus, demonstra uma acentuada prefer\u00eancia pelos textos que destacam a \u201ccategoria do fazer\u201d, do an\u00fancio, da evangeliza\u00e7\u00e3o; em seu volumoso epistol\u00e1rio, a men\u00e7\u00e3o \u00e0s realidades divinas e \u00e0 ora\u00e7\u00e3o \u00e9 quase cont\u00ednua, embora quase nunca tematizada. Em vez disso, s\u00e3o cuidadosamente sublinhadas frases deste teor: <em><i>\u00abOpus fac evangelistae\u00bb <\/i><\/em>(<em><i>2Tm <\/i><\/em>4,5: \u00abFaze o trabalho de um evangelizador\u00bb); <em><i>\u00abTu vero praedica Verbum opportune et importune\u00bb <\/i><\/em>(<em><i>2Tm<\/i><\/em> 4,2: \u00abProclama a Palavra de Deus, insiste oportuna e inoportunamente\u00bb); <em><i>\u00abOpera Dei revelare et confiteri honorificum est\u00bb <\/i><\/em>(<em><i>Tb<\/i><\/em> 12,7: \u00ab\u00c9 honroso revelar e celebrar as obras de Deus\u00bb).<\/p>\n<p>N\u00e3o foi, por\u00e9m, um pragmatista, nem elevou a pr\u00e1xis a crit\u00e9rio de verdade. Sempre colocou acima de tudo tanto a doutrina da f\u00e9 quanto o Magist\u00e9rio: princ\u00edpios e valores solidamente adquiridos. Mas foi \u00abo empreendedor de Deus\u00bb, o realista que, por instinto, antep\u00f5e o pr\u00e1tico ao te\u00f3rico, o vivido ao abstrato, os fatos \u00e0s palavras, que n\u00e3o acredita na f\u00e9 sem obras, nem num Evangelho que n\u00e3o esteja incorporado \u00e0 vida. Somente \u00abquem pratica a verdade se aproxima da luz\u00bb (<em><i>Jo<\/i><\/em> 3,21). Apenas a linguagem dos fatos e das obras lhe parecia suficientemente cr\u00edvel.<\/p>\n<p>\u00abO mundo tornou-se material \u2013 dizia ele \u2013 por isso \u00e9 preciso trabalhar e dar a conhecer o bem que se faz. Se algu\u00e9m faz at\u00e9 milagres rezando dia e noite em sua cela, o mundo n\u00e3o liga e n\u00e3o acredita mais. O mundo precisa ver e tocar. O mundo atual quer ver as obras, quer ver o clero trabalhar&#8230;\u00bb.<\/p>\n<p>Numa \u00e9poca em que os religiosos eram vistos como gente ociosa, in\u00fatil para o progresso da sociedade, ele quis sua institui\u00e7\u00e3o fundada na grande lei do trabalho e dizia, n\u00e3o sem humor, que o lema de seus religiosos seria o das \u00abmangas arrega\u00e7adas\u00bb.<\/p>\n<p>Com a coragem e a aud\u00e1cia dos empreendedores que tornaram c\u00e9lebre a cidade de Turim \u2013 especialmente no \u00faltimo quarto do s\u00e9culo XIX \u2013, sustentado por uma f\u00e9 inabal\u00e1vel, lan\u00e7a seus salesianos muito jovens, formados \u201cna pr\u00e1tica\u201d e com pouca teoria, para fundar suas obras de caridade: orat\u00f3rios, abrigos, escolas, col\u00e9gios, miss\u00f5es.<\/p>\n<p>Em 1878, tem a aud\u00e1cia de escrever a Le\u00e3o XIII, rec\u00e9m-eleito, para que desse aten\u00e7\u00e3o especial \u00e0s novas institui\u00e7\u00f5es que o Esp\u00edrito Santo faz surgir na Igreja: \u00abAs fam\u00edlias religiosas recentes s\u00e3o <em><i>chamadas pela necessidade dos tempos<\/i><\/em>. Com a firmeza na f\u00e9, com suas obras materiais, devem combater as ideias de quem no homem v\u00ea apenas mat\u00e9ria. Estes frequentemente desprezam quem reza e medita, mas ser\u00e3o for\u00e7ados a acreditar nas obras de que s\u00e3o testemunhas oculares\u00bb. Palavras antigas! Poderiam ser ditas hoje e v\u00e1lidas em escala planet\u00e1ria, t\u00e3o invocada e exigida \u00e9 por toda parte <em><i>a apologia vitae<\/i><\/em> [o testemunho de vida] dos crentes, o testemunho autenticamente crist\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>\u00abOnde h\u00e1 trabalho, n\u00e3o est\u00e1 o dem\u00f4nio\u00bb<\/b><\/strong><\/p>\n<p>As afirma\u00e7\u00f5es audaciosas que outros santos fizeram em louvor \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, Dom Bosco as fez em louvor ao trabalho.<\/p>\n<p>\u00abNoventa por cento de seus discursos aos coirm\u00e3os \u2013 escreve A. Caviglia \u2013 s\u00e3o sobre o trabalho, a temperan\u00e7a, a pobreza. Eis \u2013 acrescenta argutamente \u2013 o esc\u00e2ndalo de um santo; de um santo, podemos dizer, \u201camericano\u201d; diz muito mais vezes: <em><i>\u201cTrabalhemos\u201d<\/i><\/em>, do que: <em><i>\u201cRezemos\u201d<\/i><\/em>\u00bb.<\/p>\n<p>Escreve, por sua vez, E. Ceria: \u00abSeria dif\u00edcil encontrar outro santo que, na medida de Dom Bosco, tenha conjugado e feito conjugar o verbo <em><i>trabalhar<\/i><\/em>\u00bb. Quis seus salesianos alegres, pobres, frugais, e sobretudo, laborios\u00edssimos: \u00abTrabalho, trabalho, trabalho! \u2013 repetia \u2013. Eis qual deveria ser o objetivo e a gl\u00f3ria dos padres. Nunca se cansar de trabalhar. Quantas almas se salvariam!\u00bb. \u00abQuem n\u00e3o sabe trabalhar n\u00e3o \u00e9 salesiano\u00bb.<\/p>\n<p>Queria que o trabalho tivesse a continuidade da respira\u00e7\u00e3o: \u00abSempre trabalhar [&#8230;]. Este deve ser o fim de todo salesiano e seu cont\u00ednuo suspiro\u00bb. A ideia do cansa\u00e7o n\u00e3o deveria ser um pensamento que freia, mas servir de est\u00edmulo para fazer mais. \u00abDe n\u00f3s n\u00e3o se quer dinheiro, mas esfor\u00e7o\u00bb. \u00ab\u00c9 preciso que busquemos trabalhos superiores \u00e0s nossas for\u00e7as; e, assim, quem sabe, n\u00e3o chegaremos a fazer tudo o que podemos\u00bb.<\/p>\n<p>A pregui\u00e7a e o \u00f3cio lhe inspiravam horror. Chegou a dizer esta frase de extremo rigor: \u00abO padre ou morre pelo trabalho ou morre pelo v\u00edcio\u00bb.<\/p>\n<p>O que para outros Institutos eram as penit\u00eancias aflitivas, os longos jejuns, para Dom Bosco era o trabalho: \u00abMeus caros \u2013 repetia \u2013, n\u00e3o vos recomendo penit\u00eancias e disciplinas, mas trabalho, trabalho, trabalho\u00bb.<\/p>\n<p>Quando via o grande trabalho que seus filhos faziam, alegrava-se intimamente: \u00abQuando vou \u00e0s casas e ou\u00e7o que h\u00e1 muito a fazer, vivo tranquilo. Onde h\u00e1 trabalho, n\u00e3o est\u00e1 o dem\u00f4nio\u00bb. \u00ab\u00c9 verdade \u2013 acrescentava \u2013, o trabalho supera as for\u00e7as, mas ningu\u00e9m desanima, e parece que o cansa\u00e7o \u00e9 um segundo alimento depois do alimento material\u00bb.<\/p>\n<p>Estava convencido de que \u00abde S\u00e3o Pedro at\u00e9 n\u00f3s, os tempos nunca foram t\u00e3o dif\u00edceis\u00bb, mas queria que, \u00abem vez de encher o ar de lamentos chorosos\u00bb, se reagisse intensificando o trabalho: \u00abTrabalhar ao m\u00e1ximo\u00bb.<\/p>\n<p>Pio IX lhe havia dito: \u00abEu estimo que esteja em melhor condi\u00e7\u00e3o uma casa religiosa onde se reza pouco, mas se trabalha muito, do que outra na qual se fa\u00e7am muitas ora\u00e7\u00f5es e se trabalhe nada ou pouco\u00bb. E ainda: \u00abN\u00e3o coloquem os novi\u00e7os na sacristia, para que n\u00e3o se tornem ociosos: mas ocupem-nos a trabalhar, a trabalhar!\u00bb.<\/p>\n<p>\u00c9 o que Dom Bosco fazia desde sempre, suscitando perplexidades e desconfian\u00e7as em outros religiosos e na pr\u00f3pria autoridade eclesi\u00e1stica.<\/p>\n<p>Era repreendido, por exemplo, por sacrificar o \u201cnoviciado asc\u00e9tico\u201d e os m\u00e9todos \u201ctradicionais\u201d de forma\u00e7\u00e3o, envolvendo imprudentemente os jovens coirm\u00e3os em atividades apost\u00f3licas dissipadoras e precoces. Mas Dom Bosco respondia em sua defesa: \u00abA experi\u00eancia de trinta e tr\u00eas anos nos ensina que estas ocupa\u00e7\u00f5es ass\u00edduas s\u00e3o um baluarte inexpugn\u00e1vel da moralidade. E observei que os mais ocupados e os mais laboriosos lembram-se melhor de sua antiga condi\u00e7\u00e3o, gozam de muita sa\u00fade, conservam-se mais virtuosos e, feitos sacerdotes, colhem copiosos frutos do sagrado minist\u00e9rio\u00bb.<\/p>\n<p>A confirma\u00e7\u00e3o da bondade de seu m\u00e9todo vinha tamb\u00e9m dos misteriosos sonhos que, como cartas do c\u00e9u, marcam as viradas decisivas de sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p>No \u00absonho de Lanzo\u00bb (1876), por exemplo, o guia que o acompanha lhe mostra o campo vast\u00edssimo da a\u00e7\u00e3o salesiana e lhe diz em tom perempt\u00f3rio: \u00abOlha; \u00e9 preciso que mandes imprimir estas palavras que ser\u00e3o como o vosso bras\u00e3o, a vossa palavra de ordem, o vosso distintivo. Nota bem: <em><i>O trabalho e a temperan\u00e7a far\u00e3o florescer a Congrega\u00e7\u00e3o Salesiana<\/i><\/em>. Far\u00e1s explicar estas palavras, as repetir\u00e1s, insistir\u00e1s\u00bb.<\/p>\n<p>Extraordin\u00e1ria import\u00e2ncia sempre teve na tradi\u00e7\u00e3o salesiana o sonho dos \u00abdez diamantes\u00bb, ou das dez virtudes, que brilham com luz resplandecente sobre o manto do personagem que personifica o \u00abmodelo do verdadeiro salesiano\u00bb. Dois desses diamantes trazem a inscri\u00e7\u00e3o: \u00abTrabalho\u00bb, \u00abTemperan\u00e7a\u00bb. Est\u00e3o colocados respectivamente no ombro direito e esquerdo, como que a delinear a figura do salesiano.<\/p>\n<p>Lembramos, por fim, as palavras talvez mais grandiosas de sua vida: \u00abQuando acontecer \u2013 assim termina seu Testamento espiritual \u2013 que um salesiano sucumba ou deixe de viver trabalhando pelas almas, ent\u00e3o direis que a nossa Congrega\u00e7\u00e3o alcan\u00e7ou um grande triunfo e sobre ela descer\u00e3o copiosas as b\u00ean\u00e7\u00e3os do c\u00e9u\u00bb. Ainda no leito de morte, recomendou por duas vezes a Dom Cagliero: \u00abRecomendo que diga a todos os salesianos que trabalhem com zelo e ardor: trabalho, trabalho\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>O testemunho<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Mas, acima das palavras, est\u00e1 o testemunho de sua vida. Uma vida, como a definiu Pio XI, \u00abque foi um verdadeiro, aut\u00eantico e grande mart\u00edrio: uma vida de trabalho colossal que dava a impress\u00e3o de opress\u00e3o s\u00f3 de olhar\u00bb.<\/p>\n<p>Custa a crer que um s\u00f3 homem tenha conseguido trabalhar tanto e se ocupar de tantas coisas ao mesmo tempo. Escreve A. Caviglia que em Dom Bosco parecem operar, simultaneamente, v\u00e1rias pessoas: \u00abO educador e o pedagogo, o pai dos \u00f3rf\u00e3os e o acolhedor dos meninos abandonados, o fundador de congrega\u00e7\u00f5es religiosas, o propagador do culto a Maria Auxiliadora, o instituidor de uni\u00f5es leigas espalhadas pelo mundo inteiro, o incentivador da caridade operante, o arauto de miss\u00f5es distantes, o escritor popular de livros morais e apologias religiosas, o defensor da imprensa honesta e cat\u00f3lica, o criador de oficinas crist\u00e3s e de cole\u00e7\u00f5es de livros, o homem da piedade religiosa e da caridade e o homem dos neg\u00f3cios humanos ou de interesse p\u00fablico&#8230; Todos ao mesmo tempo operam e avan\u00e7am como se fossem outras tantas pessoas nascidas ou destinadas apenas \u00e0quilo, e se fundem na \u00fanica pessoa de um padre sem apar\u00eancias, que nunca deixa perturbar a serenidade de seu semblante nem a composta mod\u00e9stia de seu trato com grandes gestos decorativos, nem enriquece seu vocabul\u00e1rio com a ret\u00f3rica de grandes frases\u00bb.<\/p>\n<p>Tanta multiplicidade de aspectos era, por\u00e9m, unificada, em profundidade, pela ideia que domina sua vida: a da salva\u00e7\u00e3o das almas e da gl\u00f3ria de Deus, como vimos.<\/p>\n<p>A Provid\u00eancia havia temperado Dom Bosco para o trabalho desde os anos dif\u00edceis e pobres da inf\u00e2ncia. Sabemos que ele fez de tudo, tendo sido pastor de rebanhos, trabalhador do campo, empregado, alfaiate, ferreiro, gar\u00e7om, confeiteiro, saltimbanco, professor particular, estudante, sacrist\u00e3o, barbeiro; passou de um patr\u00e3o para outro, experimentando o quanto \u00ab\u00e9 salgado\u00bb o p\u00e3o alheio.<\/p>\n<p>Essa experi\u00eancia deixar\u00e1 nele uma marca indel\u00e9vel: ser\u00e1 para sempre extremamente sens\u00edvel aos problemas da juventude pobre e marginalizada, bem como aos das humildes classes trabalhadoras, e ser\u00e1 para sempre um trabalhador e um realizador formid\u00e1vel: \u00abAs coisas n\u00e3o andam apenas a vapor \u2013 escrevia em 1878 \u00e0 condessa Uguccioni \u2013 mas como o tel\u00e9grafo. Em um ano, com a ajuda de Deus e com a caridade de nossos benfeitores, conseguimos abrir vinte casas. Veja como cresceu a Sua fam\u00edlia\u00bb.<\/p>\n<p>Fiel a um seu antigo prop\u00f3sito, na maturidade, n\u00e3o concedia ao sono mais de cinco horas por noite. \u00abPode-se dizer \u2013 dep\u00f4s nos processos Dom Bertagna \u2013 que ele passou metade das noites trabalhando: e o ouvi dizer v\u00e1rias vezes que, quando estava mais saud\u00e1vel, passava tamb\u00e9m v\u00e1rias vezes duas noites \u00e0 escrivaninha escrevendo. Apesar disso, de manh\u00e3 estava na sacristia para celebrar a missa e ouvir as confiss\u00f5es por v\u00e1rias horas\u00bb. Nos primeiros tempos do Orat\u00f3rio, em certas circunst\u00e2ncias, confessava tamb\u00e9m por muitas horas ao dia.<\/p>\n<p>No per\u00edodo de sua m\u00e1xima operosidade, escrevia com uma velocidade surpreendente e de pr\u00f3prio punho at\u00e9 250 cartas em um dia. \u00abFa\u00e7o passar muito trabalho pelos meus dedos \u2013 dizia \u2013 [&#8230;]; adquiri uma celeridade que n\u00e3o sei se pode ser maior\u00bb. Nos per\u00edodos de atividade mais intensa, muitas vezes sentava-se \u00e0 escrivaninha \u00e0s duas da tarde e continuava at\u00e9 as oito, para retomar novamente depois. \u00abH\u00e1 meses que me sento \u00e0 escrivaninha \u00e0s duas da tarde e me levanto \u00e0s oito e meia para ir jantar\u00bb.<\/p>\n<p>A \u00abfadiga mortal\u00bb a que as preocupa\u00e7\u00f5es di\u00e1rias o obrigavam transparece nas cartas em desabafos s\u00fabitos que n\u00e3o deixam de comover: \u00abO trabalho est\u00e1 me enlouquecendo\u00bb; \u00abEstou t\u00e3o cansado que n\u00e3o aguento mais\u00bb; \u00abEstou muito cansado\u00bb.<\/p>\n<p>E era verdade. Pode-se dizer que n\u00e3o conheceu outro descanso sen\u00e3o o do t\u00famulo. \u00abN\u00e3o me lembro \u2013 dep\u00f4s Dom Cagliero \u2013 que em toda a sua vida ele tenha tirado um dia de f\u00e9rias por lazer ou para descansar, e muitas vezes, encontrando-nos cansados e exaustos pelo trabalho: \u201cCoragem \u2013 nos dizia \u2013 coragem, <em><i>trabalhemos, trabalhemos sempre, porque l\u00e1 em cima teremos um descanso eterno<\/i><\/em>\u201d\u00bb.<\/p>\n<p>Morreu esgotado pelo excesso de trabalho, m\u00e1rtir \u2013 n\u00e3o metaforicamente \u2013 de uma labuta que n\u00e3o conheceu pausas. Suas \u00abvig\u00edlias exageradas e fadigas materiais \u2013 lemos na r\u00e1pida e curiosa biografia de seu m\u00e9dico \u2013 consumiram-lhe a vida: a princ\u00edpio quase imperceptivelmente, depois de 1880 aproximadamente [oito anos antes de sua morte], pode-se dizer que seu organismo estava quase reduzido a um gabinete patol\u00f3gico ambulante, em meio ao qual, no entanto, ainda brilhava uma mente sempre ativa e sempre ansiosa por alcan\u00e7ar sua gloriosa meta\u00bb.<\/p>\n<p>A laboriosidade do \u00abvelho padre\u00bb, do \u00abfilantropo do s\u00e9culo XIX\u00bb, do \u00abcat\u00f3lico intransigent\u00edssimo\u00bb pareceu, aos homens da \u00e9poca, incr\u00edvel e lend\u00e1ria. Na morte de Dom Bosco, os jornais da \u00e9poca definiram sua fadiga e operosidade como \u00abprodigiosa\u00bb <em><i>(L\u2019Illustrazione popolare)<\/i><\/em>, \u00abgigantesca\u00bb <em><i>(La Patrie)<\/i><\/em>, \u00abenorme e ao m\u00e1ximo grau\u00bb <em><i>(La Perseveranza)<\/i><\/em>, \u00abfenomenal\u00bb <em><i>(Il Fanfulla)<\/i><\/em>. \u00abSe Dom Bosco \u2013 l\u00ea-se no mesmo jornal \u2013 tivesse sido ministro das finan\u00e7as, a It\u00e1lia seria economicamente a primeira na\u00e7\u00e3o do mundo\u00bb. Nos Processos Apost\u00f3licos, o Promotor da F\u00e9 n\u00e3o hesitou em cham\u00e1-lo um dos maiores ap\u00f3stolos da Igreja do s\u00e9culo XIX: \u00abA multiplicidade e fecundidade de suas obras beira o prod\u00edgio: seu zelo pela salva\u00e7\u00e3o das almas e pela difus\u00e3o do Reino de Cristo na terra foi t\u00e3o intenso e cont\u00ednuo que a hist\u00f3ria, com raz\u00e3o, o proclama grand\u00edssimo ap\u00f3stolo \u2013 \u201c<em><i>maximum<\/i><\/em>\u201d \u2014 do s\u00e9culo XIX\u00bb.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Pietro BROCARDO. Dom Bosco profundamente homem, profundamente santo, p\u00e1g. 157-158<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dom Bosco \u00e9 apresentado dentro de uma espiritualidade do trabalho que, em sintonia com o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":55565,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":4,"footnotes":""},"categories":[173],"tags":[2672,1749,2673,2579,1863,2031,2025],"class_list":["post-55579","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dom-bosco","tag-carisma-salesiana","tag-conselhos","tag-don-bosco","tag-educacao","tag-trabalho","tag-vida","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55579","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55579"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55579\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55580,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55579\/revisions\/55580"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55565"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55579"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55579"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55579"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}