{"id":55443,"date":"2026-10-31T19:51:17","date_gmt":"2026-10-31T19:51:17","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=55443"},"modified":"2026-10-31T19:51:50","modified_gmt":"2026-10-31T19:51:50","slug":"viagem-a-cidade-do-fogo-1868","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/sem-categorizacao\/viagem-a-cidade-do-fogo-1868\/","title":{"rendered":"Viagem \u00e0 cidade do fogo (1868)"},"content":{"rendered":"<p><em>A Viagem \u00e0 cidade do fogo \u00e9 um dos mais famosos \u201csonhos\u201d de S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco, narrado aos seus meninos em 3 de maio de 1868. Nesta vis\u00e3o dram\u00e1tica, o educador, escoltado por um enigm\u00e1tico \u201chomem do bon\u00e9\u201d, atravessa uma paisagem desolada at\u00e9 os basti\u00f5es do inferno, onde v\u00ea jovens conhecidos precipitando-se entre la\u00e7os invis\u00edveis e chamas eternas. Cada epis\u00f3dio \u00e9 um s\u00edmbolo moral: os fios representam o respeito humano, as facas a ora\u00e7\u00e3o, as portas de bronze as consequ\u00eancias do pecado. Dom Bosco transformou a ang\u00fastia do sonho em catequese, advertindo seus alunos contra a desobedi\u00eancia, a impureza, a avareza e a ociosidade, e indicando os sacramentos, a devo\u00e7\u00e3o mariana e a obedi\u00eancia como caminhos de salva\u00e7\u00e3o. O relato permanece um documento incompar\u00e1vel de seu zelo pastoral e ardente caridade educativa.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No domingo \u00e0 noite, 03 de maio, festa do patroc\u00ednio de S\u00e3o Jos\u00e9, Dom Bosco retornou a narra\u00e7\u00e3o do que tinha visto nos sonhos. Falou:<\/p>\n<p>\u2013 Devo contar-lhes um outro, que pode ser considerado como consequ\u00eancias dos que lhes narrei sexta-feira \u00e0 noite. Estes me deixaram desolado a ponto de n\u00e3o mais aguentar. Voc\u00eas podem cham\u00e1-los sonhos ou deem-lhes outro nome&#8230; enfim, chamem-no como quiserem.<\/p>\n<p>\u2013 \u201cFalei-lhes de um sapo apavorante que na noite de 17 de abril amea\u00e7ava engolir-me; quando desapareceu, uma voz me disse: \u2013 Por que n\u00e3o fala? \u2013 Virei-me para o lado de onde vinha essa voz e vi ao lado de minha cama um gentil personagem. Tendo entendido a causa dessa repreens\u00e3o, perguntei-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 O que devo dizer aos nossos jovens?<\/p>\n<p>\u2013 O que viu e lhe foi falado nos \u00faltimos sonhos e o que mais desejava saber, lhe ser\u00e1 revelado na pr\u00f3xima noite! E desapareceu.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o durante todo o dia seguinte fiquei pensando na horr\u00edvel noite que deveria ter; chegada a noite n\u00e3o conseguia decidir-me a ir dormir. Fiquei na escrivaninha tentando ler at\u00e9 a meia-noite. Aterrorizava-me ter que ver outros espet\u00e1culos assustadores. Finalmente me obriguei e me deitei\u201d.<\/p>\n<p>E assim continuou a contar:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A fim de n\u00e3o adormecer t\u00e3o cedo, por temer que a imagina\u00e7\u00e3o me conduzisse aos sonhos costumeiros, apoiei meu travesseiro na parede e na cabeceira da cama. Por\u00e9m, cansado como estava, peguei no sono sem perceber. Eis que improvisamente vi no quarto, perto da cama, o homem da noite anterior (por ele chamado muitas vezes o homem do <em>bonetto<\/em> ou do bon\u00e9). Ele me falou:<\/p>\n<p>\u2013 Levante-se e acompanhe-me.<\/p>\n<p>Respondi:<\/p>\n<p>\u2013 Pe\u00e7o por caridade! Deixe-me estar, pois estou muito cansado! Olhe! H\u00e1 v\u00e1rios dias que sou atormentado por dor de dente. Deixe-me descansar. Tive sonhos apavorantes, estou esgotado. \u2013 Dizia isto tamb\u00e9m porque a apari\u00e7\u00e3o desse homem \u00e9 sempre sinal de grandes inquieta\u00e7\u00f5es, de cansa\u00e7o e de pavor.<\/p>\n<p>Ele me respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 Levante-se, pois n\u00e3o h\u00e1 tempo para perder.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o levantei-me e o segui. Enquanto caminh\u00e1vamos eu o interrogava: \u2013 Aonde quer me conduzir agora?<\/p>\n<p>\u2013 Venha e ver\u00e1.<\/p>\n<p>Conduziu-me a um lugar onde havia uma extensa e vasta plan\u00edcie. Olhei ao redor, n\u00e3o via os limites daquela regi\u00e3o, de nenhum lado, t\u00e3o imensa que era. N\u00e3o se via planta alguma, rio nenhum; o capim amarelo e seco apresentava um triste espet\u00e1culo. N\u00e3o sabia onde eu estava nem o que ia fazer. Por alguns instantes n\u00e3o vi mais o guia. Tive receio de estar perdido. N\u00e3o havia mais nem P. Rua nem P. Francesia, nem outros. Quando eis que descubro o amigo que vinha ao meu encontro. Respirei e:<\/p>\n<p>\u2013 Onde estou? \u2013 perguntei-lhe.<\/p>\n<p>\u2013 Venha comigo e ver\u00e1!<\/p>\n<p>\u2013 Est\u00e1 bem, irei contigo!<\/p>\n<p>Ele foi na frente e eu o seguia em sil\u00eancio. Ap\u00f3s longa e triste viagem, Dom Bosco v\u00ea um imenso deserto. Ent\u00e3o pensa: Quanta fome passarei!, pobre de mim com as pernas inchadas.<\/p>\n<p>De repente, apareceu na minha frente uma estrada. Quebrei o sil\u00eancio e perguntei ao guia: \u2013 Aonde devemos ir agora?<\/p>\n<p>\u2013 Por aqui, \u2013 respondeu.<\/p>\n<p>Entramos nessa estrada. Era bonita, larga, espa\u00e7osa e bem cal\u00e7ada. (<em>Via peccantium complanata lapidibus, et in fine illorum inferi, et tenebrae, et poenae<\/em> \u2013 O caminho dos pecadores \u00e9 pavimentado de pedras, mas desemboca no inferno, nas trevas e nos tomentos \u2013 cf. Eclo 21,11). Em ambos os lados era ladeada por sebes verdes, cobertas de flores raras. De maneira especial as rosas despontavam de todos os lados em meio \u00e0s folhas. \u00c0 primeira vista esta estrada parecei plana e c\u00f4moda; meti-me por ela sem nada suspeitar. Mas, andando, me dei conta que eu corria com tamanha facilidade que me dava a impress\u00e3o de ser levado pelos ares. Antes, dei-me conta de que ia adiante sem mover os p\u00e9s. Corr\u00edamos rapidamente. Pensando que seria muito dif\u00edcil e cansativo retornar por uma estrada t\u00e3o longa, falei ao amigo:<\/p>\n<p>\u2013 Como faremos para voltar ao Orat\u00f3rio?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o se preocupe \u2013 respondeu. O Senhor \u00e9 todo-poderoso e quer que voc\u00ea ande. Quem o conduz e o ensina a ir em frente saber\u00e1 tamb\u00e9m traz\u00ea-lo de volta.<\/p>\n<p>A estrada era sempre em descida. Segu\u00edamos o caminho entre flores e rosas, quando em nosso mesmo trajeto vi caminhando atr\u00e1s de n\u00f3s todos os nossos jovens do Orat\u00f3rio, acompanhados de muit\u00edssimos companheiros por mim nunca vistos; e eu me achei no meio deles. Enquanto os observava, noto que ora um ora outro ca\u00eda e eram num instante arrastados por for\u00e7a invis\u00edvel para uma descida terr\u00edvel, avistada um pouco distante; vi depois que terminava numa fornalha. Perguntei ao meu companheiro:<\/p>\n<p>\u2013 O que leva esses jovens a cair? (<em>Funes extenderunt in laqueum; iuxta iter scandalum posuerunt<\/em>. Estenderam as cordas na rede, colocando trope\u00e7os ao longo do caminho \u2013 Sl 139,6).<\/p>\n<p>\u2013 Aproxime-se um pouco mais \u2013 respondeu-me.<\/p>\n<p>Aproximei-me, e vi que os jovens passavam por entre muitos la\u00e7os, alguns ao r\u00e9s-do-ch\u00e3o, outros \u00e0 altura da cabe\u00e7a; estes n\u00e3o eram vistos. Por isso, muitos jovens caminhando ficavam presos nesses la\u00e7os, sem perceberem o perigo; e ao ficar presos davam um pulo, caindo de ponta cabe\u00e7a no ch\u00e3o, de pernas para o ar; e ent\u00e3o, levantando-se corriam precipitadamente para o abismo. Uns ficavam la\u00e7ados pela cabe\u00e7a, outros pelos quadris, e no mesmo instante eram puxados para baixo. Os la\u00e7os colocados no ch\u00e3o pareciam de estopa e quase invis\u00edveis, semelhantes a teia de aranha; contudo parecia que n\u00e3o causassem grande mal. Entretanto, vi tamb\u00e9m que todos os jovens presos por esses la\u00e7os ca\u00edam no ch\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu estava maravilhado. Ent\u00e3o o guia me disse \u2013 Sabe o que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 somente um pouco de estopa, \u2013 respondei.<\/p>\n<p>E vendo que muitos continuavam sendo presos nos la\u00e7os, perguntei:<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 que muitos ficam presos nesses la\u00e7os? Quem os arrasta assim?<\/p>\n<p>E ele:<\/p>\n<p>\u2013 Aproxime-se mais, olhe e ver\u00e1!<\/p>\n<p>Observei um pouco. Depois disse:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o vejo nada.<\/p>\n<p>\u2013 Olhe um pouco melhor, \u2013 repetiu-me.<\/p>\n<p>Peguei um desses la\u00e7os, puxei-o em minha dire\u00e7\u00e3o. Percebi que a extremidade n\u00e3o vinha. Puxei mais um pouco, mas n\u00e3o pude ver onde acabava o fio, pelo contr\u00e1rio, senti que eu mesmo estava sendo puxado. Ent\u00e3o segui o fio; cheguei \u00e0 boca de uma apavorante caverna. Parei porque n\u00e3o queria entrar nesse enorme buraco. Puxei o fio para mim e me dei conta que vinha um pouco; contudo era preciso fazer grande esfor\u00e7o. Eis que, depois de muito puxar, aos poucos saiu um horr\u00edvel, grande e nojento monstro. Ele segurava com firmeza com as enormes unhas a extremidade de uma corda, na qual estavam amarrados juntos todos os la\u00e7os. Quando algu\u00e9m mal ca\u00eda nessas malhas, o arrastava imediatamente para ele. Eu disse para mim mesmo: \u2013 \u00c9 in\u00fatil apostar for\u00e7as com este horr\u00edvel bandido, pois n\u00e3o o ven\u00e7o; melhor \u00e9 combat\u00ea-lo com o sinal da cruz e com jaculat\u00f3rias.<\/p>\n<p>Voltei ent\u00e3o para perto de meu guia, que me disse:<\/p>\n<p>\u2013 Agora sabe quem \u00e9?<\/p>\n<p>\u2013 Oh, sim, claro que sei! \u00c9 o dem\u00f4nio que estende estes la\u00e7os para que meus jovens caiam no inferno.<\/p>\n<p>Observei atentamente muitos la\u00e7os, notando que cada um tinha nome espec\u00edfico. La\u00e7o da <em>soberba<\/em>, da <em>desobedi\u00eancia<\/em>, da <em>inveja<\/em>, do <em>sexto mandamento<\/em>, do <em>roubo<\/em>, da <em>gula<\/em>, da <em>pregui\u00e7a<\/em>, da <em>ira<\/em> etc. Depois me afastei um pouco para ver quais eram os la\u00e7os que pegavam o maior n\u00famero de jovens. Vi que eram: da desonestidade, da desobedi\u00eancia, da soberba. Outros dois estavam amarrados neste \u00faltimo. Depois disso vi muitos outros la\u00e7os. Faziam um grande estrago, mas n\u00e3o tanto como os primeiros dois. Continuando a observar, vi muitos jovens correndo mais precipitadamente do que os outros. Perguntei:<\/p>\n<p>\u2013 Por que tanta rapidez?<\/p>\n<p>\u2013 Porque \u2013 foi-me dito \u2013 s\u00e3o puxados com la\u00e7os do respeito humano.<\/p>\n<p>Reparando mais atentamente ainda, vi que, aqui e acol\u00e1 entre os la\u00e7os, havia facas espalhadas por uma m\u00e3o providencial. Serviam para cort\u00e1-los ou romp\u00ea-los. A faca maior era contra o la\u00e7o da soberba; significava a medita\u00e7\u00e3o. Outra faca, bastante grande, por\u00e9m menor do que a anterior, significava a leitura espiritual bem feita. Havia mais duas espadas. Uma indicava a devo\u00e7\u00e3o ao Sant\u00edssimo Sacramento, especialmente com a comunh\u00e3o frequente. A outra, a devo\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora. Havia tamb\u00e9m um martelo: a confiss\u00e3o. Outras facas eram s\u00edmbolos de v\u00e1rias devo\u00e7\u00f5es a S\u00e3o Jos\u00e9, a S\u00e3o Lu\u00eds etc. etc. Muitos cortavam os la\u00e7os com estas armas ou se defendiam para n\u00e3o serem amarrados.<\/p>\n<p>De fato, vi jovens passando pelos la\u00e7os sem nunca ficar presos; passavam antes de o la\u00e7o cair. Se passassem quando o la\u00e7o ca\u00eda, sabiam se desviar; e o la\u00e7o batia nos ombros, nas costas, ou de um lado ou outro, sem peg\u00e1-los.<\/p>\n<p>Quando o guia disse que eu observara tudo, mandou-me continuar a estrada ladeada pelas rosas. \u00c0 medida que segui em frente, as rosas da sebe rareavam, aparecendo espinhos compridos. Depois, por mais que se olhasse, n\u00e3o se descobria mais nenhuma rosa. No fim a sebe se tornara totalmente cheia de espinhos, queimada pelo sol e sem folhas. Depois, dos arbustos esparramados, secos, sa\u00edam galhos que serpenteando pelo ch\u00e3o o atravancavam, espalhando espinhos de tal modo que a muito custo se podia caminhar. Chegamos a uma depress\u00e3o cujas margens escondiam todos os lugares ao redor. A estrada, sempre em descida, era sem cal\u00e7amento, esburacada, desnivelada, com pedras e cascalho redondo. Eu perdera de vista todos os meus jovens, muit\u00edssimos dos quais tinham sa\u00eddo daquela estrada trai\u00e7oeira, tomando outros caminhos.<\/p>\n<p>Prossegui meu caminho. Quanto mais avan\u00e7ava, mais a descida se tornava dif\u00edcil, r\u00e1pida a ponto de, por vezes, eu escorregar, caindo pesado no ch\u00e3o. A\u00ed ficava sentado a fim de retomar o f\u00f4lego. De quando em quando o guia me segurava e me levantava. A cada passos as juntas se dobravam dando a impress\u00e3o de que as pernas se separassem. Arfante, dizia a meu guia:<\/p>\n<p>\u2013 Mas, meu caro! As pernas n\u00e3o me sustentam mais. Estou t\u00e3o alquebrado que me \u00e9 imposs\u00edvel prosseguir viagem.<\/p>\n<p>O guia n\u00e3o respondeu e, animando-me, continuou seu caminho, at\u00e9 que, vendo-me totalmente suado e morto de cansado, me conduziu sobre um pequeno patamar da mesma estrada. Sentei-me, respirei fundo; pareceu-me descansar um pouco. Enquanto isso olhava para cima, a estrada que j\u00e1 tinha feito: assemelhava-se a um pico, cheia de pontas e pedras soltas. Olhava para baixo, a estrada que ainda tinha por fazer, e fechava os olhos arrepiado, at\u00e9 que exclamei:<\/p>\n<p>\u2013 Retornemos, por caridade. Se formos mais adiante, como faremos para voltar ao Orat\u00f3rio? \u00c9 imposs\u00edvel que eu possa dar conta desta subida!<\/p>\n<p>O guia resolutamente me respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 Agora que chegamos at\u00e9 aqui, quer ficar sozinho?<\/p>\n<p>Diante de tal amea\u00e7a, exclamei com voz lamuriosa:<\/p>\n<p>\u2013 Sem o senhor, como poderia retornar ou continuar a viagem?!<\/p>\n<p>Ergui-me e continuamos a descer. A estrada tornava-se cada vez mais abrupta, de modo que quase eu n\u00e3o podia ficar direito em p\u00e9.<\/p>\n<p>Eis que no fundo desse precip\u00edcio, que ficava no final de um vale escuro, aparece um enorme edif\u00edcio que em frente \u00e0 nossa estrada tinha uma porta muito alta fechada. Chegamos ao fundo do abismo. Um calor sufocante me oprimia e uma fuma\u00e7a gordurosa, quase verde, atravessada por l\u00ednguas sanguinolentas de fogo, subia naqueles pared\u00f5es. Levanto os olhos para essas muralhas; eram mais altas do que uma montanha. Dom Bosco perguntou ao guia:<\/p>\n<p>\u2013 Onde estamos? O que \u00e9 isto?<\/p>\n<p>Ele me respondeu: \u2013 Leia naquela porta. Pelo que est\u00e1 escrito saber\u00e1 onde estamos! \u2013 Olhei. Na porta havia a inscri\u00e7\u00e3o: <em>Ubi non est redemptio<\/em> (Onde n\u00e3o h\u00e1 reden\u00e7\u00e3o). Percebi que est\u00e1vamos \u00e0s portas do inferno. O guia me convidou a dar uma volta ao redor dos pared\u00f5es daquela horr\u00edvel cidade. De quando em quando se via uma porta de bronze como a primeira, aos p\u00e9s de uma descida terr\u00edvel. Cada porta tinha uma inscri\u00e7\u00e3o diferente. <em>Discedite, maledicti, in ignem aeternum, qui paratus est diabolo et angelis eius&#8230; Omnis arbor quae non facit fructum bonum excidetur et in ignem mittetur<\/em> (Afastai-vos de mim, malditos! Ide para o fogo eterno, preparado para o diabo e para os seus anjos&#8230; Toda \u00e1rvore que n\u00e3o produz frutos bons \u00e9 cortada e lan\u00e7ada ao fogo \u2013 Mt 25,41; 7,19). Peguei o caderno para copiar essas inscri\u00e7\u00f5es. O guia me falou:<\/p>\n<p>\u2013 Pare. O que faz?<\/p>\n<p>\u2013 Tomo nota destas inscri\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u2013 O senhor n\u00e3o tem necessidade, pois est\u00e3o todas na B\u00edblia. Ainda mais, algumas o senhor colocou nos p\u00f3rticos.<\/p>\n<p>Diante desse espet\u00e1culo desejava voltar atr\u00e1s e chegar ao Orat\u00f3rio. Dera alguns passos, mas o guia n\u00e3o se virou. Passamos por tremendo penhasco e novamente nos encontramos na estrada com descida violenta pela qual t\u00ednhamos passado, na frente da primeira porta. De repente o guia se virou com semblante sombrio e contra\u00eddo, fazendo sinal com a m\u00e3o para eu me afastar. Disse:<\/p>\n<p>\u2013 Observe!<\/p>\n<p>Tremendo, olhei para cima e vi \u00e0 grande dist\u00e2ncia, naquela precipitosa estrada, algu\u00e9m que descia em grand\u00edssima velocidade. \u00c0 medida que se aproximava, tentava fix\u00e1-lo no rosto; reconheci nele um de meus jovens. Parte de seus cabelos desgrenhados estavam hirtos na cabe\u00e7a, e parte esvoa\u00e7ando por causa do vento. Os bra\u00e7os estendidos para a frente, como se estivesse nadando para fugir do naufr\u00e1gio. Queria parar, mas n\u00e3o podia. Batia com os p\u00e9s nas pedras salientes, que serviam para lhe dar mais impulso. Eu gritava:<\/p>\n<p>\u2013 Corramos, paremo-lo, ajudemo-lo \u2013 estendendo as m\u00e3os em sua dire\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E o guia:<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o. Deixe.<\/p>\n<p>\u2013 E por que n\u00e3o posso par\u00e1-lo?<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea n\u00e3o sabe como \u00e9 tremenda a vingan\u00e7a de Deus? Cr\u00ea que pode parar algu\u00e9m que foge da ira acesa do Senhor?<\/p>\n<p>E esse jovem olhava para tr\u00e1s para ver se a ira de Deus ainda o seguia; Precipitava-se no fundo indo bater na porta de bronze, como se na sua fuga n\u00e3o encontrasse melhor chance.<\/p>\n<p>Eu perguntava: \u2013 Por que esse jovem olha para tr\u00e1s t\u00e3o aterrorizado?<\/p>\n<p>\u2013 Porque a ira de Deus passa por todas as portas do inferno, indo atorment\u00e1-lo tamb\u00e9m no meio do fogo.<\/p>\n<p>O fato \u00e9 que naquela batida, provocando enorme estrondo ao soltar as grandes corrente, a porta ficou escancarada. E depois dela foram se abrindo ao mesmo tempo, com estrondo ensurdecedor, duas, dez, cem, mil outras, acionadas pelo choque do jovem, carregado como por um invis\u00edvel turbilh\u00e3o, irresist\u00edvel e veloc\u00edssimo. Todas as portas de bronze, uma depois da outra, mesmo estando longe, ficaram abertas por um instante; ent\u00e3o, vi no fundo \u00e0 grande dist\u00e2ncia, algo parecido com a boca de uma grande fornalha. Daquele abismo, enquanto o jovem se precipitava, sa\u00edam globos de fogo. As portas tornaram a se fechar rapidamente como se tinham aberto. A\u00ed, peguei o caderno para tomar nota do nome do infeliz. Mas o guia pegou-me pelo bra\u00e7o e:<\/p>\n<p>\u2013 Pare. Observe novamente \u2013 intimou-me.<\/p>\n<p>Eu observei. Eis novo espet\u00e1culo. Vi outros tr\u00eas jovens de nossas casas precipitar-se daquela descida. Pareciam pedras, que rolavam com grande velocidade uma atr\u00e1s da outra. Tinham os bra\u00e7os abertos e berravam de pavor. Chegando ao fundo, se chocaram na primeira porta. Nesse momento Dom Bosco reconheceu os tr\u00eas. E a porta se abriu, e atr\u00e1s dela as outras mil; os jovens foram atirados naquele corredor comprid\u00edssimo; foi ouvido prolongado ru\u00eddo infernal cada vez mais distante e eles desapareceram e as portas se fecharam. De vez em quando muitos outros foram caindo depois desses. Vi cair um coitadinho empurrado por um p\u00e9rfido companheiro. Uns ca\u00edam sozinhos, outros em grupo; outros abra\u00e7ados, outros separados, mas pr\u00f3ximos ao lado. Cada um levava o pr\u00f3prio pecado escrito na testa. Angustiado, eu os chamava enquanto ca\u00edam. Mas eles n\u00e3o me ouviam, as portas ressoavam infernalmente; abriam-se e fechavam; em seguida, um sil\u00eancio mortal.<\/p>\n<p>\u2013 Eis uma importante causa de t\u00e3o numerosas condena\u00e7\u00f5es! \u2013 exclamou o guia: os colegas e livros maus, e os h\u00e1bitos perversos.<\/p>\n<p>Os la\u00e7os vistos antes puxavam os jovens para o precip\u00edcio. Vendo que eram muitos os que ca\u00edam, disse em tom desesperado:<\/p>\n<p>\u2013 Mas, ent\u00e3o, nosso trabalho nos col\u00e9gios \u00e9 in\u00fatil, se tantos acabam assim! N\u00e3o haver\u00e1 rem\u00e9dio para acabar com tantos preju\u00edzos \u00e0s almas?<\/p>\n<p>O guia:<\/p>\n<p>\u2013 Esta \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o atual deles. Se morressem, viriam para c\u00e1.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o permita-me anotar os nomes para que eu os advirta e os coloque no caminho do Para\u00edso.<\/p>\n<p>\u2013 Acredita o senhor que alguns, se avisados, se emendariam? O conselho os tocar\u00e1 no primeiro momento. Depois o abandonar\u00e3o dizendo: \u00e9 um sonho! Ficar\u00e3o piores do que antes. Haver\u00e1 os que, vendo que foram descobertos, frequentar\u00e3o os Sacramentos, sem espontaneidade e merecimento, pois n\u00e3o os receber\u00e3o bem. Outros se confessar\u00e3o por temor passageiro do inferno, sem abandonar o apego do cora\u00e7\u00e3o ao pecado.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o n\u00e3o haver\u00e1 mais remiss\u00e3o para esses infelizes? D\u00ea-me um conselho especial para salv\u00e1-los.<\/p>\n<p>Nesse \u00ednterim, novo grupo de jovens se precipita; abrem-se as portas por um instante, e:<\/p>\n<p>\u2013 Venha para dentro tamb\u00e9m o senhor! \u2013 Falou-me o guia.<\/p>\n<p>Afastei-me horrorizado. Estava louco para voltar ao Orat\u00f3rio, a fim de avisar os jovens e preveni-los, de maneira que outros n\u00e3o se perdessem. Entretanto, o guia insistiu:<\/p>\n<p>\u2013 Venha e aprender\u00e1 muitas coisas. Antes, por\u00e9m, diga-me: quer ir sozinho ou acompanhado? \u2013 Falou assim para que eu reconhecesse a insufici\u00eancia de minhas for\u00e7as e, ao mesmo tempo, a necessidade sua ben\u00e9vola assist\u00eancia. Eu respondi:<\/p>\n<p>\u2013 Sozinho, nesse lugar de horror? Sem o apoio de sua bondade? Quem me indicar\u00e1 o caminho da volta?<\/p>\n<p>De repente me senti cheio de coragem, pensando comigo mesmo: \u2013 Antes de ir para o inferno \u00e9 preciso apresentar-se ao julgamento. E eu, ao ju\u00edzo ainda n\u00e3o fui. Exclamei decidido:<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o entremos!<\/p>\n<p>Entramos nesse horr\u00edvel e estreito corredor! Corr\u00edamos com a rapidez de um corisco. Em cada uma das portas interiores brilhava, em fosca claridade, uma amea\u00e7adora inscri\u00e7\u00e3o. Terminando de percorr\u00ea-lo, desembocamos num p\u00e1tio amplo e sombrio; no fundo dele havia um al\u00e7ap\u00e3o feio, grande, como nunca tinha visto outro pior. Nele estavam escritas estas palavras: <em>Ibunt impii in ignem aeternum<\/em> (Ir\u00e3o os \u00edmpios ao fogo eterno \u2013 cf. Mt 25,41). Todas as paredes ao redor eram cobertas de inscri\u00e7\u00f5es. Pedi licen\u00e7a a meu guia para l\u00ea-las. Ele me respondeu:<\/p>\n<p>\u2013 Esteja \u00e0 vontade.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o observei todos os lados. Num lugar estava escrito: <em>Dabo ignem in carnes eorum ut comburantur in sempiternum<\/em> ([O Senhor] meter\u00e1 fogo em suas carnes e elas arder\u00e3o para sempre \u2013 Jd 16,17). \u2013 <em>Cruciabantur die ac nocte in saecula saeculorum<\/em> (Ser\u00e3o atormentados noite e dia, pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos \u2013 Ap 20,10). \u2013 Em outro lugar: \u2013 <em>Hic universitas malorum per saecula saeculorum<\/em> (Aqui reina todo mal para sempre). \u2013 Em outros lugares: \u2013 <em>Nullus est hic ordo, sed horror sempiternum inhabitat<\/em> (Onde n\u00e3o h\u00e1 ordem, mas habita o horror sempiterno \u2013 cf. Jo 10,22) \u2013 <em>Fumus tormentorum suorum in aeternum abscendit<\/em> (A fuma\u00e7a do seu tormento subir\u00e1 pelos s\u00e9culos dos s\u00e9culos \u2013 Ap 14,11) \u2013 <em>Non est pax impiis<\/em> (N\u00e3o h\u00e1 paz para os \u00edmpios \u2013 Is 48,22) \u2013 <em>Clamor et stridor dentium<\/em> (Clamor e ranger de dentes \u2013 cf. Mt 8,12).<\/p>\n<p>Enquanto eu girava e lia as inscri\u00e7\u00f5es, o guia se aproximou e me disse:<\/p>\n<p>\u2013 Daqui para frente ningu\u00e9m poder\u00e1 ter um companheiro que o ajude, um amigo que lhe d\u00ea for\u00e7a, um cora\u00e7\u00e3o que o ame, um olhar de compaix\u00e3o, uma palavra bondosa. Cruzamos a linha. O senhor deseja ver ou experimentar?<\/p>\n<p>\u2013 Quero somente ver \u2013 respondi.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o venha comigo, \u2013 acrescentou o amigo. Tomando-me pela m\u00e3o, conduziu-me at\u00e9 a frente daquele al\u00e7ap\u00e3o abrindo-o. Este dava num corredor. No fundo dele havia uma enorme gruta fechada por larga janela de um \u00fanico vidro que se erguia do ch\u00e3o at\u00e9 o alto, por onde se podia olhar dentro. Dei um passo para al\u00e9m do limiar; parei r\u00e1pido tomado por indescrit\u00edvel pavor. Diante de meus olhos apareceu uma grande caverna que se perdia em reentr\u00e2ncias cavadas nas v\u00edsceras das montanhas. Estavam todas cheias de fogo, n\u00e3o como o vemos sobre a terra em l\u00ednguas, mas de tal forma que por dentro tudo estava incandescente e branco por causa do forte calor. Paredes, tetos, piso, ferro, pedras, lenha, carv\u00e3o, tudo branco e brilhante. Com certeza, esse calor ia al\u00e9m de milhares de graus. Nada virava cinza, nada se consumia. Eu n\u00e3o tenho condi\u00e7\u00f5es de descrever esta espelunca em toda sua pavorosa realidade. (<em>Praeparata est enim ab heri Thopheth, a rege praeparata, profunda, et dilatata, Nutrimenta eius, ignis et ligna multa: flatus Domini sicut torrens sulphuris succendens eam<\/em> \u2013 J\u00e1 faz tempo que est\u00e1 pronto o Tofet, preparado, profundo e largo, com sua fogueira de lenha abundante. O sopro do Senhor, como torrente de enxofre, o acender\u00e1 \u2013 Is 30,33).<\/p>\n<p>Enquanto totalmente atordoado eu observava, eis vir com todo o \u00edmpeto de uma abertura um jovem que, quase sem se aperceber de nada, soltando um berro agud\u00edssimo, semelhante a algu\u00e9m que estivesse para cair num tanque de bronze derretido, precipita-se no meio, fica branco como a caverna inteira, permanecendo im\u00f3vel, enquanto o eco de sua voz continua a se prolongar por alguns instantes.<\/p>\n<p>Muito horrorizado contemplei ainda um pouco esse jovem, parecia-me ser um do Orat\u00f3rio, um dos meus filhos.<\/p>\n<p>\u2013 Este n\u00e3o \u00e9 um dos meus jovens? \u2013 perguntei ao guia: \u2013 n\u00e3o \u00e9 o tal?<\/p>\n<p>\u2013 Sim \u2013 respondeu-me.<\/p>\n<p>\u2013 Por que n\u00e3o troca de posi\u00e7\u00e3o? Por que est\u00e1 em brasa e n\u00e3o se consome?<\/p>\n<p>E ele:<\/p>\n<p>\u2013 O senhor escolheu ver e n\u00e3o falar: olhe e ver\u00e1. Do resto <em>omnis enim igne salietur et omnis victima sale salietur<\/em> (Todos ser\u00e3o salgados com o fogo e as v\u00edtimas ser\u00e3o salgadas com sal \u2013 cf. Mc 9,48).<\/p>\n<p>Mal havia dirigido o olhar e eis que um outro jovem em desesperada raiva e grand\u00edssima velocidade corre e se precipita na mesma caverna. Esse tamb\u00e9m era do Orat\u00f3rio. Caiu, e n\u00e3o se mexeu mais. Ele igualmente soltara um \u00fanico grito angustiante, confundindo-se sua voz com o \u00faltimo murm\u00fario daquele que ca\u00edra antes. Depois desse vieram outros, tendo a mesma forma de queda horr\u00edvel. Aumentava cada vez mais seu n\u00famero, emitindo todos o mesmo grito; ficavam im\u00f3veis, incandescentes como os que os tinham precedido. Notei que o primeiro ficou com uma m\u00e3o para o ar e um p\u00e9 igualmente suspenso no alto. O segundo ficara encurvado para o ch\u00e3o. Alguns tinham os p\u00e9s para o ar, outros o rosto no ch\u00e3o. Estes quase suspensos apoiando-se num s\u00f3 p\u00e9; aqueles sentados ou deitados; uns apoiados sobre um lado, outros em p\u00e9 ou de joelhos com as m\u00e3os nos cabelos. Em suma, havia grande grupo de jovens, parecendo est\u00e1tuas, em posi\u00e7\u00e3o uma mais dolorosa do que outra. Chegaram outros mais para essa fornalha. Uma parte desses jovens eu conhecia, outros me eram desconhecidos. Ent\u00e3o lembrei-me do que est\u00e1 escrito na B\u00edblia que, na posi\u00e7\u00e3o que se cai no inferno, assim se permanecer\u00e1 na eternidade: <em>Lignum, in quocumque loco ceciderit, ibi erit<\/em> (A \u00e1rvore &#8230; no lugar em que cair, a\u00ed ficar\u00e1 \u2013 Ecl 11,3).<\/p>\n<p>Aumentava meu medo; perguntei ao guia:<\/p>\n<p>\u2013 Esses que correm t\u00e3o velozmente n\u00e3o sabem que v\u00eam para c\u00e1?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, sabem que est\u00e3o indo para o fogo; foram alertados mil vezes, mas correm voluntariamente por causa do pecado que n\u00e3o detestam e n\u00e3o quiseram deixar, pois desprezaram e rejeitaram a miseric\u00f3rdia de Deus, que continuamente os chamava \u00e0 penit\u00eancia. Ent\u00e3o, a justi\u00e7a divina, provocada, os rejeita, segue, persegue, e eles s\u00f3 param quando chegam neste lugar.<\/p>\n<p>\u2013 Como n\u00e3o deve ser o desespero desses infelizes, j\u00e1 sem esperan\u00e7a de sair daqui! \u2013 exclamei.<\/p>\n<p>\u2013 Quer conhecer os anseios \u00edntimos e as raivas de suas almas? Aproxime-se mais um pouco, \u2013 respondeu o guia.<\/p>\n<p>Dei alguns passos em dire\u00e7\u00e3o da janela. Vi que muitos desses miser\u00e1veis se batiam uns nos outros com golpes e terr\u00edveis feridas, mordiam-se como c\u00e3es raivosos; outros se arranhavam o rosto, se cortavam as m\u00e3os, se rasgavam as carnes, atirando-as ao ar com irrita\u00e7\u00e3o. Nesse instante a cobertura inteira daquela espelunca foi transformada como em vidro: atrav\u00e9s dele se entrevia um peda\u00e7o de c\u00e9u e as figuras luminosas dos colegas salvos para sempre.<\/p>\n<p>Os condenados ficavam tremendo com feroz inveja, respirando angustiosamente, pois, antes, consideraram os justos como objeto de esc\u00e1rnio (<em>Peccator videbit et irascetur; dentibus suis fremet et tabescet<\/em> \u2013 O \u00edmpio v\u00ea e se encoleriza, range os dentes e se consome \u2013 Sl 112,10).<\/p>\n<p>Perguntei ao guia: \u2013 Diga-me, por que n\u00e3o ou\u00e7o nenhuma voz? Aproxime-se ainda mais \u2013 gritou-me.<\/p>\n<p>Fui para perto do vidro da janela e ouvi que uns berravam e choravam contorcendo-se. Outros blasfemavam e imprecavam contra os santos. Era um barulho de vozes e gritos, altos e confusos. Por isso, perguntei novamente ao amigo:<\/p>\n<p>\u2013 O que dizem? O que gritam?<\/p>\n<p>E ele:<\/p>\n<p>\u2013 Vendo a felicidade de seus companheiros bons, eles s\u00e3o obrigados a confessar: <em>Nos insensati! Vitam eorum aestimabamus insaniam et finem eorum sine honore. Ecce quomodo computati sunt inter filios Dei et inter sanctos sors illorum est. Ergo erravimus a via veritatis<\/em> (N\u00f3s, insensatos, consideramos suas vidas uma loucura e sua morte, uma desonra. Como, ent\u00e3o, agora ele \u00e9 contado entre os filhos de Deus e compartilha a sorte dos santos? De fato, n\u00f3s nos desviamos do caminho da verdade \u2013 Sb 5,4-6). Por isso gritam: <em>Lassati sumus in via iniquitatis et perditionis. Erravimus per vias difficiles, viam autem Domini ignoravimus. \u2013 Quid nobis profuit superbia? \u2013 Transierunt omnia illa tamquam umbra<\/em> (Ficamos enredados nas trilhas da iniquidade e da perdi\u00e7\u00e3o, atravessamos desertos intransit\u00e1veis e ignoramos o caminho do Senhor! \u2013 Que proveito nos trouxe o orgulho? \u2013 Tudo isso passou como uma sombra \u2013 cf. Sb 5,7-9). Estes s\u00e3o os l\u00fagubres cantos que ressoar\u00e3o aqui por toda a eternidade. Mas in\u00fateis s\u00e3o os gritos, os esfor\u00e7os, os choros. <em>Omnis dolor irruet super nos!<\/em> (Toda sorte de dores vir\u00e1 sobre n\u00f3s \u2013 cf. J\u00f3 20, 22). Aqui n\u00e3o h\u00e1 mais tempo. S\u00f3 a eternidade.<\/p>\n<p>Enquanto contemplava com horror a situa\u00e7\u00e3o de muitos de meus jovens, de repente vem um pensamento \u00e0 minha mente.<\/p>\n<p>\u2013 Como \u00e9 poss\u00edvel que os que est\u00e3o aqui encontrem-se todos condenados? Esses jovens estavam ainda com vida no Orat\u00f3rio ontem \u00e0 noite!<\/p>\n<p>O amigo falou: \u2013 Esses que voc\u00ea v\u00ea est\u00e3o todos mortos para a gra\u00e7a de Deus; se morressem agora e continuassem a agir como fazem no presente, estariam condenados. N\u00e3o percamos tempo. Vamos adiante.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o afastou-me daquele lugar. E por um corredor que levava a um profundo subterr\u00e2neo, conduziu-me a outro, em cuja entrada estava escrito: \u2013 <em>Vermis eorum non moritur, et ignis non extinguitur. Dabit Dominus omnipotens ignem et vermes in carnes eorum, ut urantur et sentiant usque in sempiternum<\/em> (Seu verme n\u00e3o morrer\u00e1 e seu fogo jamais se apagar\u00e1 &#8230; O Senhor onipotente mandar\u00e1 sobre suas carnes o fogo e os vermes, para que ardam, penando para sempre \u2013 cf. Is 66,24; Jd 16,17). Aqui havia o espet\u00e1culo dos remorsos, e qu\u00e3o atrozes, dos que foram educados em nossas casas!<\/p>\n<p>A lembran\u00e7a dos pecados individuais n\u00e3o perdoados e da justa condena\u00e7\u00e3o; de ter tido mil meios, tamb\u00e9m extraordin\u00e1rios, para se converter ao Senhor, para ser perseverantes no bem, para ganhar o Para\u00edso! A lembran\u00e7a de tantas gra\u00e7as prometidas, oferecidas e dadas por Maria Sant\u00edssima e n\u00e3o correspondidas! Ter podido se salvar com pouco, e estar irremissivelmente perdidos! Lembrar os muitos bons prop\u00f3sitos feitos e n\u00e3o cumpridos! Ah, diz o prov\u00e9rbio, o inferno est\u00e1 cheio de boas inten\u00e7\u00f5es ineficazes.<\/p>\n<p>E l\u00e1 revi todos os jovens do Orat\u00f3rio que havia visto pouco antes naquela fornalha; alguns deles est\u00e3o neste momento me ouvindo, outros j\u00e1 estiveram aqui conosco; a muitos eu n\u00e3o conhecia. Aproximei-me e percebi que todos estavam carregados de vermes e de animais nojentos que os ro\u00edam e os consumiam no cora\u00e7\u00e3o, nos olhos, nas m\u00e3os, nas pernas, em todas as partes, t\u00e3o miseravelmente que n\u00e3o h\u00e1 palavras para explicar. Estavam im\u00f3veis e expostos a todo tipo de agress\u00e3o sem poder de forma alguma se defender. Acerquei-me mais ainda e fiquei mais perto a fim de que me enxergassem, esperando poder falar a eles e que me dissessem alguma coisa. Por\u00e9m, ningu\u00e9m falava nem me olhava. Perguntei, ent\u00e3o, ao guia qual fosse a causa disso. Foi-me respondido que no outro mundo n\u00e3o h\u00e1 mais liberdade para os condenados. L\u00e1 cada um sofre todo o castigo que Deus lhe imp\u00f5e, n\u00e3o podendo ser diferente, sem mudan\u00e7a de esp\u00e9cie alguma. Acrescentou:<\/p>\n<p>\u2013 Agora \u00e9 preciso que tamb\u00e9m o senhor v\u00e1 a esse lugar de fogo que viu!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, n\u00e3o, respondi estarrecido \u2013 Para ir ao inferno \u00e9 preciso ir antes ao julgamento, e eu ainda n\u00e3o fui julgado. Portanto, n\u00e3o quero ir para o inferno!<\/p>\n<p>\u2013 Diga-me \u2013 observou o amigo \u2013 prefere ir ao inferno e libertar seus jovens, ou ficar fora deixando-os no meio de tantos supl\u00edcios?<\/p>\n<p>Surpreendido com esta proposta, respondi:<\/p>\n<p>\u2013 Oh, os meus queridos jovens, eu os amo muito e os quero todos salvos! Mas n\u00e3o podemos fazer de outro jeito sem precisar, nem eu e nem os outros, irmos para l\u00e1?<\/p>\n<p>\u2013 Eh, me respondeu o amigo, o senhor tem ainda tempo, e eles tamb\u00e9m para que o senhor fa\u00e7a tudo o que puder.<\/p>\n<p>Meu cora\u00e7\u00e3o se dilatou e falei comigo mesmo: \u2013 Pouco me importa sofrer, contanto que possa livrar estes meus filhos queridos de t\u00e3o grandes tormentos.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o venha para dentro, continuou o amigo: e veja a bondade e a onipot\u00eancia de Deus que cheio de amor usa mil meios para levar \u00e0 penit\u00eancia seus jovens e salv\u00e1-los da morte eterna.<\/p>\n<p>Ele me tomou pela m\u00e3o para introduzir-me na caverna. Mal coloquei o p\u00e9, achei-me numa magn\u00edfica sala com portas de cristal. Nelas, em dist\u00e2ncias regulares, pendiam grandes v\u00e9us cobrindo outras tantas salas que ligavam com a caverna.<\/p>\n<p>O guia me apontou para um dos v\u00e9us onde se lia: <em>sexto mandamento<\/em>; e disse:<\/p>\n<p>\u2013 Sua transgress\u00e3o, eis a causa da ru\u00edna eterna de muitos jovens.<\/p>\n<p>\u2013 Mas eles n\u00e3o se confessaram?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, se confessaram; mas confessaram mal as culpas contra a bela virtude, ou as calaram totalmente. Por exemplo, um que cometera quatro ou cinco desses pecados, s\u00f3 contou dois ou tr\u00eas. H\u00e1 jovens que cometeram um na inf\u00e2ncia, tendo sempre tido vergonha de o confessar, ou ent\u00e3o o confessaram mal, ou n\u00e3o falaram tudo. Outros n\u00e3o tiveram arrependimento ou prop\u00f3sito. Outros que, em vez de fazer o exame, pensavam na maneira de enganar confessor. Quem morre com uma decis\u00e3o assim escolhe se colocar entre os r\u00e9probos. Isto ser\u00e1 para toda a eternidade. Somente os que arrependidos com verdadeiro cora\u00e7\u00e3o morrem na esperan\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o eterna ser\u00e3o felizes para sempre. E agora quer saber porque a divina miseric\u00f3rdia o trouxe aqui? \u2013 Ergueu o v\u00e9u e vi um grupo de jovens do Orat\u00f3rio, todos meus conhecidos, condenados por causa dessa culpa. Entre eles havia alguns que aparentemente t\u00eam bom comportamento.<\/p>\n<p>Ao menos agora permitir\u00e1 que eu tome nota dos nomes desses jovens, a fim de os avisar em particular? \u2013 perguntei.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o \u00e9 preciso, \u2013 respondeu-me.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, o que devo lhes dizer?<\/p>\n<p>\u2013 Fa\u00e7a prega\u00e7\u00f5es em todos os lugares contra a falta de mod\u00e9stia. Basta que sejam avisados em geral. N\u00e3o esque\u00e7a que, mesmo que o senhor os advertisse, eles prometer\u00e3o, mas nem sempre com firmeza. Para conseguir isto, \u00e9 necess\u00e1ria a gra\u00e7a de Deus que, se for pedida, ela nunca haver\u00e1 de faltar a seus jovens. Deus \u00e9 bom e mostra seu poder especialmente na compaix\u00e3o e no perd\u00e3o. Portanto, da parte do senhor, ora\u00e7\u00e3o e sacrif\u00edcio. E que os jovens ou\u00e7am seus ensinamentos, interroguem a pr\u00f3pria consci\u00eancia. Esta lhes sugerir\u00e1 o que devem fazer.<\/p>\n<p>E conversamos quase meia hora a respeito das condi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para fazer bem uma confiss\u00e3o. O guia, ent\u00e3o, repetiu diversas vezes em alta voz:<\/p>\n<p>\u2013<em> Avertere!&#8230; Avertere!&#8230;<\/em> (Advertir!&#8230; Advertir!&#8230;).<\/p>\n<p>\u2013 O que significa esta sua exclama\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Mudar de vida, mudar de vida!<\/p>\n<p>Eu, confuso com esta revela\u00e7\u00e3o, inclinei a cabe\u00e7a. Ia me retirar, mas ele me chamou e disse: O senhor ainda n\u00e3o viu tudo. \u2013 Virou-se para o outro lado e levantou mais um grande v\u00e9u. Nele estava escrito: <em>Qui volunt divites fieri, incidunt in tentationem et laqueum diaboli.<\/em> (Os que querem enriquecer caem em muitas tenta\u00e7\u00f5es e la\u00e7os [do dem\u00f4nio] \u2013 1Tm 6,9). Falei-lhe: \u2013 Isto n\u00e3o diz respeito a meus jovens, pois s\u00e3o pobres, como eu sou pobre. N\u00e3o somos ricos nem procuramos fazer-nos. Nem sequer pensamos nisso!<\/p>\n<p>Removido o v\u00e9u, no fundo apareceram jovens, todos conhecidos meus, sofrendo como os que tinha visto antes. Ele, apontando em dire\u00e7\u00e3o a eles, me disse: \u2013 Oh, essa inscri\u00e7\u00e3o diz respeito, sim, a seus jovens.<\/p>\n<p>\u2013 Explique-me, ent\u00e3o, esse <em>divites<\/em> (rico).<\/p>\n<p>E ele:<\/p>\n<p>\u2013 Por exemplo, alguns de seus jovens t\u00eam o cora\u00e7\u00e3o apegado a um objeto material de modo que o amor a ele os afasta do amor a Deus, faltando, assim, contra a caridade, a piedade e a mansid\u00e3o. N\u00e3o se perverte o cora\u00e7\u00e3o somente com o uso das riquezas, mas tamb\u00e9m desejando-as e, mais ainda, se o desejo ofende a justi\u00e7a. Seus jovens s\u00e3o pobres; mas saiba que a gula e o \u00f3cio s\u00e3o p\u00e9ssimos conselheiros. H\u00e1 um que em sua terra se tornou culpado por causa de furtos at\u00e9 significativos e, podendo, n\u00e3o pensa restituir.<\/p>\n<p>H\u00e1 quem procura abrir com chaves de fenda as despensas; e quem tenta entrar no escrit\u00f3rio do Prefeito (ec\u00f4nomo); quem vai mexer nos ba\u00fas dos colegas para roubar comest\u00edveis, dinheiro ou outros objetos; quem recolhe cadernos e livros para seu uso&#8230;<\/p>\n<p>Ele me falou os nomes desses e de outros. Prosseguiu:<\/p>\n<p>\u2013 Alguns est\u00e3o aqui por terem se apropriado de pe\u00e7as de vestu\u00e1rio, de len\u00e7\u00f3is, cobertas e casacos, pertencentes ao guarda-roupa do Orat\u00f3rio, para mandar para suas casas. H\u00e1 os que causaram voluntariamente algum estrago grande sem o reparar. Outros por n\u00e3o ter restitu\u00eddo objetos e coisas emprestados. Tamb\u00e9m h\u00e1 aqui quem reteve quantias de dinheiro a eles confiadas para que entregassem ao Superior.<\/p>\n<p>E concluiu:<\/p>\n<p>\u2013 E porque esses lhe foram indicados, avise-os, diga-lhes que afastem os desejos in\u00fateis e nocivos, que obede\u00e7am \u00e0 lei de Deus e se orgulhem da pr\u00f3pria honra. De outra forma a cobi\u00e7a os levar\u00e1 a excessos piores que os mergulhar\u00e3o em dores, na morte e na perdi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o conseguia entender que, para certas coisas levadas t\u00e3o pouco a s\u00e9rio por nossos jovens, houvesse penas t\u00e3o terr\u00edveis. O amigo truncou minhas reflex\u00f5es, dizendo-me:<\/p>\n<p>\u2013 Recorde o que lhe foi falado no fato dos cachos estragados na videira. \u2013 Ergueu outro v\u00e9u que escondia muitos outros de nossos jovens; eu os reconheci logo e que est\u00e3o no Orat\u00f3rio. No v\u00e9u estava escrito: \u2013 <em>Radix omnium malorum<\/em> (Raiz de todos os males \u2013 cf. 1Tm 6,10). \u2013 E me perguntou:<\/p>\n<p>\u2013 Sabe o que isso significa? A que pecado esta ep\u00edgrafe se refere?<\/p>\n<p>\u2013 Parece-me que n\u00e3o se refira sen\u00e3o \u00e0 soberba?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o. \u2013 Respondeu.<\/p>\n<p>\u2013 Contudo, eu sempre ouvi dizer que a soberba \u00e9 a raiz de todos os males.<\/p>\n<p>\u2013 Sim! Em geral se fala que \u00e9 a soberba; mas, sobretudo, sabe o que de fato fez Ad\u00e3o e Eva ca\u00edrem no primeiro pecado, por causa do qual eles foram expulsos do Para\u00edso terrestre?<\/p>\n<p>\u2013 A desobedi\u00eancia.<\/p>\n<p>\u2013 Isso mesmo. A desobedi\u00eancia \u00e9 a raiz de todo o mal.<\/p>\n<p>\u2013 E sobre isso, o que devo dizer a meus jovens?<\/p>\n<p>\u2013 Fique atento. Os jovens que o senhor v\u00ea s\u00e3o os desobedientes que preparam para si um fim muito triste. Aqueles e outros que o senhor cr\u00ea que foram dormir, durante a noite descem para passear no p\u00e1tio e, sem se importar com as proibi\u00e7\u00f5es, v\u00e3o a lugares perigosos, sobem nos andaimes das novas constru\u00e7\u00f5es, pondo em risco tamb\u00e9m suas vidas. Alguns, apesar do que prescrevem as regras, v\u00e3o \u00e0 igreja sem se comportar como devem; em vez de rezar, pensam em coisas totalmente diferentes, e na sua mente constroem castelos no ar; outros incomodam. H\u00e1 os que procuram se apoiar ou encontrar um bom lugar para se acomodar e dormir durante as fun\u00e7\u00f5es sagradas; h\u00e1 aqueles que o senhor acredita que v\u00e3o \u00e0 igreja, mas n\u00e3o v\u00e3o. Ai de quem descuida da ora\u00e7\u00e3o! Quem n\u00e3o reza se condena! Aqui h\u00e1 alguns que, em vez de cantar os hinos sagrados ou o of\u00edcio da Bem-Aventurada Virgem, leem livros que nada t\u00eam a ver com o lugar sagrado e outros, o que \u00e9 de grande vergonha, leem at\u00e9 livros proibidos. \u2013 Continuou a enumerar muitas outras transgress\u00f5es que s\u00e3o causa de graves desordens.<\/p>\n<p>Quando terminou, comovido, eu o fixei no rosto. Ele me olhou e eu ainda lhe falei:<\/p>\n<p>\u2013 Posso contar tudo isso a meus jovens?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, pode dizer-lhes tudo o que se lembrar.<\/p>\n<p>\u2013 Que conselho poderei lhes dar para que n\u00e3o aconte\u00e7am desgra\u00e7as t\u00e3o graves?<\/p>\n<p>\u2013 Insistir\u00e1, mostrando que a obedi\u00eancia, tamb\u00e9m nas pequenas coisas, a Deus, aos pais, aos Superiores, os salvar\u00e1.<\/p>\n<p>\u2013 Que mais?<\/p>\n<p>\u2013 Dir\u00e1 a seus jovens que evitem muito a ociosidade, pois esta j\u00e1 foi a causa do pecado de Davi. Diga-lhes que estejam sempre ocupados, pois assim o dem\u00f4nio n\u00e3o encontrar\u00e1 tempo para os assaltar.<\/p>\n<p>Inclinei a cabe\u00e7a e prometi. Estava t\u00e3o chocado que n\u00e3o aguentava mais. Disse ao amigo:<\/p>\n<p>\u2013 Agrade\u00e7o-lhe a caridade que usou para comigo, e pe\u00e7o que me deixe sair.<\/p>\n<p>Ele ent\u00e3o falou:<\/p>\n<p>\u2013 Venha comigo! \u2013 e me animando, ele me pegou pela m\u00e3o, me apoiando, pois estava exausto, sem for\u00e7a. Sa\u00edmos daquela sala, atravessamos num instante o terr\u00edvel p\u00e1tio e o longo corredor da entrada. Antes de deixar o limiar da \u00faltima porta de bronze, voltou-se para mim de novo, exclamando:<\/p>\n<p>\u2013 Agora que viu os tormentos dos outros, precisa experimentar, voc\u00ea tamb\u00e9m, um pouco do inferno.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o! N\u00e3o! \u2013 gritei horrorizado.<\/p>\n<p>Ele insistia, e eu rejeitava sempre!<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tenha medo \u2013 me disse \u2013 \u00e9 s\u00f3 para experimentar. Toque esta muralha.<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tinha coragem e queria me afastar, mas ele me deteve, dizendo: \u2013 Contudo, \u00e9 necess\u00e1rio que voc\u00ea fa\u00e7a a experi\u00eancia! \u2013 Pegou-me firme pelo bra\u00e7o e levou-me para perto da parede, continuando a dizer:<\/p>\n<p>\u2013 Toque-a somente uma vez, ao menos para dizer que visitou as muralhas dos supl\u00edcios eternos, e que tocou nelas. Tamb\u00e9m para compreender como ser\u00e1 a \u00faltima parede se a primeira j\u00e1 \u00e9 t\u00e3o terr\u00edvel. O senhor v\u00ea este muro?<\/p>\n<p>Observei com a maior aten\u00e7\u00e3o aquele muro de espessura colossal. O guia continuou: \u2013 \u00c9 o mil\u00e9simo antes de onde est\u00e1 o verdadeiro fogo do inferno. \u00c9 circundado por mil muros. Cada um tem mil medidas de grossura e de dist\u00e2ncia um do outro. Cada medida tem mil milhas. Este est\u00e1 distante um milh\u00e3o de milhas do verdadeiro fogo do inferno. Assim, \u00e9 um pequenino in\u00edcio do pr\u00f3prio inferno.<\/p>\n<p>Dito isto, eu, afastando-me para n\u00e3o tocar, pegou a minha m\u00e3o, abriu-a \u00e0 for\u00e7a e a fez bater na pedra desse mil\u00e9simo \u00faltimo muro. Naquele momento senti ard\u00eancia t\u00e3o intensa e dolorida que, jogando-me para tr\u00e1s e soltando fort\u00edssimo grito, acordei. Achei-me sentado na cama, e tendo a impress\u00e3o de que minha m\u00e3o queimasse, abanava-a com a outra para fazer passar aquela sensa\u00e7\u00e3o. Quando amanheceu, observei que a m\u00e3o estava realmente inchada. A impress\u00e3o imagin\u00e1ria daquele fogo teve tamanha for\u00e7a que, logo em seguida, a pele da palma da m\u00e3o se soltou e trocou.<\/p>\n<p>Notem que n\u00e3o lhes contei essas coisas com todo seu horror, da maneira que as vi e me impressionaram, a fim de n\u00e3o os amedrontar muito. Sabemos que o Senhor nunca citou o inferno a n\u00e3o ser com s\u00edmbolos, pois, mesmo que o tivesse descrito como \u00e9, n\u00f3s n\u00e3o ter\u00edamos compreendido. Mortal algum pode entender essas coisas. O Senhor as sabe e pode cont\u00e1-las a quem Ele quiser.<\/p>\n<p>Por v\u00e1rias noites a fio, eu, sempre abalado, n\u00e3o consegui pegar no sono por causa do susto. Contei-lhes somente um resumo do que vi em longos sonhos; s\u00f3 lhes fiz uma s\u00edntese. Mais adiante vou lhes ensinar seja sobre o respeito humano, seja quanto se refere ao sexto e ao s\u00e9timo mandamento, e em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 soberba. Nada mais farei do que explicar esses sonhos, pois est\u00e3o conformes \u00e0 B\u00edblia Sagrada; mais ainda, n\u00e3o s\u00e3o mais do que coment\u00e1rio do que nela se l\u00ea sobre este assunto. Nessas noites j\u00e1 lhes contei alguma coisa. Por\u00e9m, de vez em quando lhes falarei contando e explicando o resto.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p>Cumpriu o que prometeu. Depois fez a exposi\u00e7\u00e3o deste sonho tamb\u00e9m aos jovens de Mirabello e de Lanzo, sintetizando a narra\u00e7\u00e3o. Repetindo o que vira, sem fazer mudan\u00e7as substanciais, n\u00e3o faltaram varia\u00e7\u00f5es. Contando em particular a seus padres e cl\u00e9rigos de mais confian\u00e7a, acrescentava algum novo detalhe. \u00c0s vezes omitia algo, e manifestava alguma coisa diferente. Quando descreveu os la\u00e7os, ao falar dos maus h\u00e1bitos, deu nova ideia sobre a emboscada do dem\u00f4nio e seu modo de atrair as v\u00edtimas para o inferno. Deixou de explicar muitas cenas, como por exemplo, quanto aos personagens de belo aspecto, que se encontravam na magn\u00edfica sala, e que somos levados a denominar: \u2013 <em>O tesouro da miseric\u00f3rdia de Deus, para salvar os jovens que iriam se perder.<\/em> \u2013 Talvez fossem esses os principais mediadores de inumer\u00e1veis gra\u00e7as.<\/p>\n<p>Algumas variantes tinham origem na multiplicidade de coisas vistas ao mesmo tempo, pois reaparecendo elas \u00e0 sua mente, selecionava dentre as coisas que ficaram impressas em sua mem\u00f3ria, o que acreditava mais oportuno para quem o ouvia.<\/p>\n<p>A medita\u00e7\u00e3o a respeito dos nov\u00edssimos era algo familiar para Dom Bosco; assim se acendia em seu cora\u00e7\u00e3o viv\u00edssima compaix\u00e3o pelos pecadores amea\u00e7ados pelo perigo da eternidade t\u00e3o horr\u00edvel. Esta caridade vencia nele todo respeito humano para convidar \u00e0 penit\u00eancia, com prudente franqueza, tamb\u00e9m personagens de grande proje\u00e7\u00e3o, e dava tamanha efic\u00e1cia \u00e0s suas palavras de maneira a provocar muitas convers\u00f5es.<\/p>\n<p>O que aqui relatamos fielmente, compilando tudo em um \u00fanico relato, \u00e9 o que ouvimos do Vener\u00e1vel por extenso, e o que muitos sacerdotes nos contaram \u00e0 viva voz ou por escrito. O trabalho foi dif\u00edcil, pois quer\u00edamos reproduzir com exatid\u00e3o matem\u00e1tica cada palavra, todo nexo e liga\u00e7\u00e3o entre as cenas, os diversos fatos, conselhos, repreens\u00f5es todas as ideias expostas e n\u00e3o explicadas, entre as quais, alguma, talvez, mal interpretada. Conseguimos?<\/p>\n<p>Podemos assegurar aos leitores que procuramos com o maior cuidado somente uma coisa: expor, com a m\u00e1xima fidelidade que nos fosse poss\u00edvel, as longas falas de Dom Bosco.<\/p>\n<p><strong>\u00a0<\/strong><\/p>\n<p><em>(MB IT IX, 166-182 \/ MB PT IX, 214-231)<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Viagem \u00e0 cidade do fogo \u00e9 um dos mais famosos \u201csonhos\u201d de S\u00e3o Jo\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":55427,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":4,"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[2672,2557,2673,2675,2676,2230],"class_list":["post-55443","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categorizacao","tag-carisma-salesiana","tag-deus","tag-don-bosco","tag-salesiani","tag-santi","tag-sonhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55443","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55443"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55443\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55444,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55443\/revisions\/55444"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55427"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55443"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55443"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55443"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}