{"id":55112,"date":"2026-10-02T11:50:03","date_gmt":"2026-10-02T11:50:03","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=55112"},"modified":"2026-10-02T11:50:42","modified_gmt":"2026-10-02T11:50:42","slug":"vida-do-jovem-domingos-savio-aluno-do-oratorio-de-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/dom-bosco\/vida-do-jovem-domingos-savio-aluno-do-oratorio-de-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"Vida do jovem Domingos S\u00e1vio, aluno do Orat\u00f3rio de S\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"<p><em>\u00abEnt\u00e3o eu sou o tecido; que ela seja a costureira.\u00bb Com essas palavras, em 2 de outubro de 1854, em Becchi, um menino de doze anos se confiava a Dom Bosco. Domingos S\u00e1vio entrou em Valdocco em 29 de outubro e l\u00e1 permaneceu por menos de tr\u00eas anos: morreu em 9 de mar\u00e7o de 1857. Um per\u00edodo breve, mas suficiente para que o gr\u00e3o amadurecesse e fosse recolhido no celeiro do Senhor. Nas p\u00e1ginas de Dom Bosco, ele n\u00e3o aparece como um jovem alheio \u00e0 vida cotidiana, mas como um companheiro capaz de fazer do estudo, da ora\u00e7\u00e3o, da amizade e da recrea\u00e7\u00e3o um caminho de santidade. Seu \u00abQuero me tornar santo\u00bb ainda interpela cada menino: \u00abSe ele conseguiu, por que eu n\u00e3o?\u00bb. Apresentamos o texto integral na quarta edi\u00e7\u00e3o (1878), a \u00faltima preparada pessoalmente pelo autor.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838011\">CAP\u00cdTULO I. P\u00e1tria &#8211; \u00cdndole deste jovem &#8211; Seus primeiros atos de virtude<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838012\">CAP\u00cdTULO II. Conduta moral em Murialdo &#8211; Belos tra\u00e7os de virtude &#8211; Frequ\u00eancia \u00e0 escola daquele povoado<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838013\">CAP\u00cdTULO III. \u00c9 admitido \u00e0 primeira Comunh\u00e3o &#8211; Prepara\u00e7\u00e3o &#8211; Recolhimento e lembran\u00e7as daquele dia<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838014\">CAP\u00cdTULO IV. Escola de Castelnuovo d\u2019Asti &#8211; Epis\u00f3dio edificante &#8211; S\u00e1bia resposta a um mau conselho<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838015\">CAP\u00cdTULO V. Sua conduta na escola de Castelnuovo d\u2019Asti &#8211; Palavras de seu professor<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838016\">CAP\u00cdTULO VI. Escola de Mondonio &#8211; Suporta uma grave cal\u00fania<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838017\">CAP\u00cdTULO VII. Primeiro conhecimento que tive dele &#8211; Epis\u00f3dios curiosos nessa ocasi\u00e3o<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838018\">CAP\u00cdTULO VIII. Vem para o Orat\u00f3rio de S\u00e3o Francisco de Sales &#8211; Seu primeiro modo de vida<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838019\">CAP\u00cdTULO IX. Estudo do latim &#8211; Epis\u00f3dios curiosos &#8211; Comportamento na escola &#8211; Impede uma briga &#8211; Evita um perigo<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838020\">CAP\u00cdTULO X. Sua decis\u00e3o de tornar-se santo<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838021\">CAP\u00cdTULO XI. Seu zelo pela salva\u00e7\u00e3o das almas<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838022\">CAP\u00cdTULO XII. Epis\u00f3dios e belos modos de conversar com os companheiros<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838023\">CAP\u00cdTULO XIII. Seu esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o &#8211; Devo\u00e7\u00e3o \u00e0 M\u00e3e de Deus &#8211; O m\u00eas de Maria<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838024\">CAP\u00cdTULO XIV. Sua frequ\u00eancia aos santos Sacramentos da Confiss\u00e3o e da Comunh\u00e3o<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838025\">CAP\u00cdTULO XV. Suas penit\u00eancias<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838026\">CAP\u00cdTULO XVI. Mortifica\u00e7\u00f5es de todos os sentidos externos<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838027\">CAP\u00cdTULO XVII. A Companhia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838028\">CAP\u00cdTULO XVIII. Suas amizades particulares &#8211; Suas rela\u00e7\u00f5es com o jovem Camilo G\u00e1vio<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838029\">CAP\u00cdTULO XIX. Suas rela\u00e7\u00f5es com o jovem Jo\u00e3o Massaglia<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838030\">CAP\u00cdTULO XX. Gra\u00e7as especiais e fatos particulares<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838031\">CAP\u00cdTULO XXI. Seus pensamentos sobre a morte e sua prepara\u00e7\u00e3o para morrer santamente<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838032\">CAP\u00cdTULO XXII. Sua solicitude pelos enfermos &#8211; Deixa o Orat\u00f3rio &#8211; Suas palavras nessa ocasi\u00e3o<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838033\">CAP\u00cdTULO XXIII. Despede-se de seus companheiros<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838034\">CAP\u00cdTULO XXIV. Curso de sua doen\u00e7a &#8211; \u00daltima Confiss\u00e3o, recebe o Vi\u00e1tico &#8211; Fatos edificantes<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838035\">CAP\u00cdTULO XXV. Seus \u00faltimos momentos e sua preciosa morte<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838036\">CAP\u00cdTULO XXVI. An\u00fancio de sua morte &#8211; Palavras do professor padre Picco a seus alunos<\/a><\/p>\n<p><a href=\"#_Toc241838037\">CAP\u00cdTULO XXVII. Emula\u00e7\u00e3o pela virtude de S\u00e1vio &#8211; Muitos se recomendam a ele para obter favores celestes e s\u00e3o atendidos &#8211; Uma lembran\u00e7a para todos<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Car\u00edssimos jovens,<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 V\u00f3s me pedistes v\u00e1rias vezes, car\u00edssimos jovens, que vos escrevesse alguma coisa a respeito de vosso <\/em>companheiro DOMINGOS<em> S\u00c1VIO; e eu fiz o que pude para satisfazer esse vosso piedoso desejo. Eis aqui a vida dele, narrada com aquela brevidade e simplicidade que sei serem do vosso agrado.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Duas dificuldades se opunham \u00e0 publica\u00e7\u00e3o deste trabalho; a primeira era a cr\u00edtica a que geralmente se exp\u00f5e quem escreve sobre acontecimentos dos quais ainda existe grande n\u00famero de testemunhas vivas. Creio ter superado essa dificuldade, esfor\u00e7ando-me por narrar unicamente as coisas que foram vistas por v\u00f3s ou por mim, e que quase todas conservo por escrito e assinadas por vossa pr\u00f3pria m\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Outro obst\u00e1culo era a necessidade de falar muitas vezes de mim mesmo. Como este jovem viveu cerca de tr\u00eas anos nesta casa, cabe-me frequentemente relatar fatos dos quais participei. Creio ter superado tamb\u00e9m este obst\u00e1culo, atendo-me ao dever do historiador, que \u00e9 escrever a verdade dos fatos sem olhar \u00e0s pessoas. Contudo, se encontrardes algum fato em que eu fale de mim com certa complac\u00eancia, atribu\u00ed-a ao grande afeto que eu nutria pelo amigo falecido e que nutro por todos v\u00f3s; afeto que me leva a abrir-vos o \u00edntimo do meu cora\u00e7\u00e3o, como faria um pai que fala a seus filhos amados.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Algum de v\u00f3s perguntar\u00e1 por que escrevi a vida de DOMINGOS<\/em> S\u00c1VIO e n\u00e3o <em>a dos outros jovens que viveram entre n\u00f3s com fama de virtude exemplar. \u00c9 verdade, meus caros, que a Divina Provid\u00eancia se dignou enviar-nos v\u00e1rios modelos de virtude: tais<\/em> foram Gabriele Fascio, Lu\u00eds Rua, Camilo G\u00e1vio, Jo\u00e3o Massaglia e outros;<em> mas as a\u00e7\u00f5es deles n\u00e3o foram igualmente conhecidas e not\u00e1veis como as de <\/em>S\u00c1VIO, <em>cujo modo de viver foi reconhecidamente admir\u00e1vel. De resto, se Deus me der sa\u00fade e gra\u00e7a, tenho a inten\u00e7\u00e3o de recolher as a\u00e7\u00f5es desses vossos virtuosos companheiros, para poder satisfazer os vossos desejos e os meus, dando-as a ler e a imitar naquilo que for compat\u00edvel com o vosso estado.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nesta nova edi\u00e7\u00e3o, acrescentei ainda v\u00e1rias not\u00edcias que espero tornem a obra interessante tamb\u00e9m para aqueles que j\u00e1 leram o que foi impresso nas edi\u00e7\u00f5es anteriores.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entretanto, come\u00e7ai a tirar proveito do que vos irei narrando e dizei em vosso cora\u00e7\u00e3o o que dizia Santo Agostinho: \u2018Si ille, cur non ego?\u2019 <\/em>Se<em> um companheiro meu, da mesma idade, no mesmo lugar, exposto aos mesmos e talvez a maiores perigos, encontrou contudo tempo e modo de permanecer fiel seguidor de Jesus Cristo, por que n\u00e3o posso eu fazer o mesmo? Lembrai-vos bem de que a verdadeira religi\u00e3o n\u00e3o consiste apenas em palavras; \u00e9 preciso passar \u00e0s obras. Portanto, ao encontrardes alguma coisa digna de admira\u00e7\u00e3o, n\u00e3o vos contenteis em dizer: Isto \u00e9 belo, isto me agrada. Dizei antes: quero esfor\u00e7ar-me para fazer aquelas coisas que, lidas na vida de outros, despertam em mim admira\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Deus conceda a v\u00f3s e a todos os leitores deste livrinho sa\u00fade e gra\u00e7a para tirarem proveito do que nele lerem; e a Sant\u00edssima Virgem, de quem o jovem S\u00c1VIO era<\/em> <em>fervoroso devoto, nos obtenha a gra\u00e7a de podermos formar um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma para amar o nosso Criador, que \u00e9 o \u00fanico digno de ser amado acima de todas as coisas e fielmente servido todos os dias de nossa vida.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><strong>DECLARA\u00c7\u00c3O<\/strong><\/p>\n<p>Para obedecer ao decreto do Sumo Pont\u00edfice Urbano VIII, de santa mem\u00f3ria, declaro que n\u00e3o pretendo atribuir aos fatos sobrenaturais aqui relatados outro valor sen\u00e3o o de autoridade humana, enquanto a Santa S\u00e9 n\u00e3o os tiver aprovado com sua infal\u00edvel autoridade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838011\"><\/a>CAP\u00cdTULO I. P\u00e1tria &#8211; \u00cdndole deste jovem &#8211; Seus primeiros atos de virtude<a name=\"_Toc504540951\"><\/a><a name=\"_Toc504541386\"><\/a><a name=\"_Toc504541948\"><\/a><a name=\"_Toc530304045\"><\/a><a name=\"_Toc24283658\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Os pais do jovem cuja vida nos propomos escrever foram Carlos S\u00e1vio e Br\u00edgida, sua esposa, pobres mas honestos habitantes<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a> de Castelnuovo d\u2019Asti<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>, localidade distante dez milhas de Turim. No ano de 1841, encontrando-se os bons esposos em graves dificuldades e sem trabalho, foram morar em Riva<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a>, localidade distante duas milhas de Chieri, onde o marido passou a exercer o of\u00edcio de ferreiro, profiss\u00e3o em que se havia exercitado na juventude. Enquanto moravam nesse lugar, Deus aben\u00e7oou seu matrim\u00f4nio, concedendo-lhes um filho que haveria de ser sua consola\u00e7\u00e3o. O nascimento ocorreu em 2 de abril de 1842. Quando o levaram para ser regenerado nas \u00e1guas batismais, deram-lhe o nome de Domingos; circunst\u00e2ncia que, embora indiferente em si mesma, viria a ser para nosso menino objeto de elevada considera\u00e7\u00e3o, como veremos.<\/p>\n<p>Domingos completava o segundo ano de idade quando, por algumas conveni\u00eancias de fam\u00edlia, seus pais decidiram voltar \u00e0 terra natal e foram fixar resid\u00eancia em Murialdo, povoado de Castelnuovo d\u2019Asti.<\/p>\n<p>Todos os cuidados dos bons pais se dirigiam a dar uma educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3 ao filho, que desde ent\u00e3o era objeto de suas alegrias. Ele recebera da natureza uma boa \u00edndole, um cora\u00e7\u00e3o verdadeiramente nascido para a piedade. Aprendeu com admir\u00e1vel facilidade as ora\u00e7\u00f5es da manh\u00e3 e da noite e, com apenas quatro anos, j\u00e1 as recitava sozinho. Mesmo naquela idade de natural distra\u00e7\u00e3o, dependia em tudo de sua m\u00e3e; e, se alguma vez se afastava dela, era apenas para se recolher em algum canto da casa e fazer com maior liberdade suas ora\u00e7\u00f5es durante o dia.<\/p>\n<p>\u00abDesde a mais tenra idade, afirmam seus pais, quando, por falta de reflex\u00e3o, as crian\u00e7as s\u00e3o cont\u00ednuo inc\u00f4modo e preocupa\u00e7\u00e3o para as m\u00e3es; idade em que querem ver tudo, tocar em tudo e, na maioria das vezes, estragar tudo, o nosso Domingos nunca nos deu o menor desgosto. N\u00e3o s\u00f3 era obediente e pronto a qualquer ordem nossa, mas procurava antecipar as coisas que percebia serem do nosso agrado.\u00bb<\/p>\n<p>Eram curiosas e ao mesmo tempo agrad\u00e1veis as acolhidas que fazia ao pai quando o via chegar em casa depois dos trabalhos habituais. Corria ao seu encontro, tomava-o pela m\u00e3o e \u00e0s vezes lhe saltava ao pesco\u00e7o. \u00abQuerido papai\u00bb, dizia-lhe, \u00abcomo o senhor est\u00e1 cansado! N\u00e3o \u00e9 verdade? O senhor trabalha tanto por mim, e eu n\u00e3o sirvo para outra coisa sen\u00e3o para lhe dar trabalho; rezarei ao bom Deus para que lhe d\u00ea sa\u00fade e me fa\u00e7a bom.\u00bb Dizendo isso, acompanhava-o para dentro de casa, apresentava-lhe uma cadeira ou banco para que se sentasse, fazia-lhe companhia e lhe prodigalizava mil carinhos. \u00abIsto\u00bb, dizia o pai, \u00abera para mim um doce conforto em minhas fadigas, e eu ficava quase impaciente por chegar em casa para dar um terno beijo no meu Domingos, que possu\u00eda todos os afetos do meu cora\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>Sua devo\u00e7\u00e3o crescia mais depressa que a idade e, com apenas quatro anos, j\u00e1 n\u00e3o era necess\u00e1rio lembrar-lhe de rezar as ora\u00e7\u00f5es da manh\u00e3 e da noite, antes e depois das <em>refei\u00e7\u00f5es, nem o <\/em>Angelus; ao contr\u00e1rio, ele mesmo convidava os outros da casa a rezar quando por acaso se esqueciam.<\/p>\n<p>Aconteceu que, certo dia, seus familiares, distra\u00eddos por alguns ru\u00eddos, se sentaram para almo\u00e7ar sem mais nada. \u00abOh, papai\u00bb, disse o atento Domingos, \u00abainda n\u00e3o pedimos a b\u00ean\u00e7\u00e3o.\u00bb Outra vez, um forasteiro acolhido em sua casa p\u00f4s-se igualmente a comer sem fazer qualquer ato de religi\u00e3o. Domingos, n\u00e3o ousando adverti-lo, retirou-se triste para um canto da casa. Interrogado depois pelos pais sobre aquela novidade, respondeu: \u00abN\u00e3o ousei sentar-me \u00e0 mesa com algu\u00e9m que se p\u00f5e a comer como os animais do Senhor, sem agradecer a Deus pelos nossos alimentos.\u00bb Dito isso, ele mesmo fez o sinal da santa cruz e recitou a ora\u00e7\u00e3o de costume.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838012\"><\/a>CAP\u00cdTULO II. Conduta moral em Murialdo &#8211; Belos tra\u00e7os de virtude &#8211; Frequ\u00eancia \u00e0 escola daquele povoado<a name=\"_Toc504540952\"><\/a><a name=\"_Toc504541387\"><\/a><a name=\"_Toc504541949\"><\/a><a name=\"_Toc530304046\"><\/a><a name=\"_Toc24283659\"><\/a><a name=\"_Toc504540953\"><\/a><a name=\"_Toc504541388\"><\/a><a name=\"_Toc504541950\"><\/a><a name=\"_Toc530304047\"><\/a><a name=\"_Toc24283660\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui fatos em que dificilmente se acreditaria, se quem os afirma n\u00e3o afastasse nossas d\u00favidas. Atenho-me ao relato que o capel\u00e3o daquele povoado<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a> teve a bondade de me fazer a respeito de seu querido aluno.<\/p>\n<p>\u00abNos primeiros dias\u00bb, diz ele, \u00abdepois que cheguei a este povoado de Murialdo, via muitas vezes um menino de talvez cinco anos vir \u00e0 igreja em companhia de sua m\u00e3e. A serenidade do seu rosto, a compostura de sua pessoa e sua atitude devota atra\u00edam para ele os meus olhares e os dos outros. Se, chegando \u00e0 igreja, a encontrava fechada, ent\u00e3o se dava um espet\u00e1culo agrad\u00e1vel. Longe de correr de um lado para outro ou fazer barulho, sozinho ou com outros, como costumam fazer os meninos dessa idade, ele se dirigia ao limiar da porta, ajoelhava-se e, com a cabecinha inclinada e as inocentes m\u00e3ozinhas juntas diante do peito, rezava fervorosamente at\u00e9 que a igreja fosse aberta. Note-se que \u00e0s vezes o ch\u00e3o estava coberto de lama, ou nevava ou chovia; mas ele n\u00e3o se importava com nada e se ajoelhava igualmente para rezar. Admirado e movido por piedosa curiosidade, quis saber quem era aquele menino que se tornara objeto de minha admira\u00e7\u00e3o, e soube que era filho do ferreiro Carlos S\u00e1vio.<\/p>\n<p>\u00abQuando depois me encontrava pela rua, come\u00e7ava de longe a dar sinais de satisfa\u00e7\u00e3o e, com uma express\u00e3o verdadeiramente ang\u00e9lica, antecipava respeitosamente minha sauda\u00e7\u00e3o. Come\u00e7ou tamb\u00e9m a frequentar a escola e, como era dotado de intelig\u00eancia e muito diligente no cumprimento de seus deveres, fez em pouco tempo not\u00e1vel progresso nos estudos. Era obrigado a conviver com jovens indisciplinados e distra\u00eddos, mas nunca me aconteceu v\u00ea-lo em discuss\u00e3o. Se surgia alguma alterca\u00e7\u00e3o, suportava com paci\u00eancia os insultos dos companheiros e logo se afastava deles. Tamb\u00e9m n\u00e3o me lembro de t\u00ea-lo visto tomar parte em divertimentos perigosos nem causar o menor transtorno na escola. Muitos companheiros o convidavam a ir com eles fazer brincadeiras com pessoas idosas, atirar pedras, roubar frutas alheias ou causar danos nos campos; mas ele sabia habilmente desaprovar a conduta deles e recusava-se a participar.<\/p>\n<p>\u00abA piedade que j\u00e1 demonstrara rezando no limiar da igreja n\u00e3o diminuiu com o avan\u00e7ar da idade. Aos cinco anos j\u00e1 aprendera a servir \u00e0 santa Missa e a servia com grand\u00edssima devo\u00e7\u00e3o. Ia todos os dias; se outro queria servi-la, ele a assistia; do contr\u00e1rio, prestava-se a servi-la com a atitude mais edificante. Como era jovem e de pequena estatura, n\u00e3o conseguia transportar o missal; e era curioso v\u00ea-lo aproximar-se ansioso do altar, erguer-se na ponta dos p\u00e9s, estender os bra\u00e7os quanto podia e fazer todo esfor\u00e7o para alcan\u00e7ar o atril. Se o sacerdote ou outra pessoa quisesse fazer-lhe a coisa mais agrad\u00e1vel do mundo, n\u00e3o devia transportar o missal em seu lugar, mas aproximar-lhe o atril o bastante para que pudesse alcan\u00e7\u00e1-lo; ent\u00e3o ele, com alegria, o levava para o outro lado do altar.<\/p>\n<p>\u00abConfessava-se com frequ\u00eancia e, assim que foi capaz de distinguir o p\u00e3o celeste do p\u00e3o terreno, foi admitido \u00e0 santa Comunh\u00e3o, que recebia com devo\u00e7\u00e3o verdadeiramente admir\u00e1vel. \u00c0 vista dessas belas obras que a gra\u00e7a divina realizava naquela alma inocente, muitas vezes disse comigo mesmo: Eis um jovem de \u00f3timas esperan\u00e7as. Queira Deus abrir-lhe um caminho para levar \u00e0 maturidade frutos t\u00e3o preciosos.\u00bb At\u00e9 aqui, o capel\u00e3o de Murialdo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838013\"><\/a>CAP\u00cdTULO III. \u00c9 admitido \u00e0 primeira Comunh\u00e3o &#8211; Prepara\u00e7\u00e3o &#8211; Recolhimento e lembran\u00e7as daquele dia<a name=\"_Toc504540954\"><\/a><a name=\"_Toc504541389\"><\/a><a name=\"_Toc504541951\"><\/a><a name=\"_Toc530304048\"><\/a><a name=\"_Toc24283661\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nada faltava a Domingos para ser admitido \u00e0 primeira Comunh\u00e3o. Sabia de cor todo o pequeno catecismo; tinha clara compreens\u00e3o deste augusto sacramento e ardia de desejo de aproximar-se dele. Somente a idade se lhe opunha, pois nos povoados geralmente n\u00e3o se admitiam as crian\u00e7as \u00e0 primeira Comunh\u00e3o antes dos onze ou doze anos completos. S\u00e1vio estava apenas no s\u00e9timo ano de vida. Al\u00e9m da apar\u00eancia infantil, tinha um corpinho que o fazia parecer ainda mais novo; por isso o capel\u00e3o hesitava em apresent\u00e1-lo. Pediu tamb\u00e9m conselho a outros sacerdotes, os quais, tendo ponderado bem a precocidade de seus conhecimentos, sua instru\u00e7\u00e3o e os vivos desejos de Domingos, deixaram de lado todas as dificuldades e o admitiram a participar pela primeira vez do p\u00e3o dos Anjos.<\/p>\n<p>\u00c9 muito dif\u00edcil exprimir os sentimentos de santa alegria com que tal an\u00fancio lhe encheu o cora\u00e7\u00e3o. Correu para casa e o contou com entusiasmo \u00e0 m\u00e3e; ora rezava, ora lia; passava muito tempo na igreja antes e depois da Missa, e parecia que sua alma j\u00e1 habitava com os anjos do C\u00e9u. Na v\u00e9spera do dia marcado para a Comunh\u00e3o, chamou sua m\u00e3e: \u00abMam\u00e3e\u00bb, disse-lhe, \u00abamanh\u00e3 vou fazer a minha Comunh\u00e3o; perdoe-me todos os desgostos que lhe causei no passado; daqui em diante prometo ser muito melhor; serei atento na escola, obediente, d\u00f3cil e respeitoso em tudo o que a senhora me mandar.\u00bb Dito isso, emocionou-se e come\u00e7ou a chorar. A m\u00e3e, que dele n\u00e3o recebera sen\u00e3o consola\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m se comoveu e, contendo com dificuldade as l\u00e1grimas, consolou-o dizendo: \u00abVai tranquilo, querido Domingos, tudo est\u00e1 perdoado; reza a Deus para que te conserve sempre bom; reza tamb\u00e9m por mim e por teu pai.\u00bb<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 daquele memor\u00e1vel dia levantou-se cedo e, vestindo suas melhores roupas, foi \u00e0 igreja, que encontrou ainda fechada. Ajoelhou-se, como j\u00e1 fizera outras vezes, no limiar e rezou at\u00e9 que, com a chegada de outras crian\u00e7as, a porta fosse aberta. Entre as confiss\u00f5es, a prepara\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as depois da Comunh\u00e3o, a fun\u00e7\u00e3o durou cinco horas. Domingos entrou primeiro na igreja e saiu por \u00faltimo. Durante todo aquele tempo, j\u00e1 n\u00e3o sabia se estava no c\u00e9u ou na terra.<\/p>\n<p>Aquele dia permaneceu sempre memor\u00e1vel para ele e pode ser chamado verdadeiro princ\u00edpio, ou melhor, continua\u00e7\u00e3o de uma vida que pode servir de modelo a todo fiel crist\u00e3o. V\u00e1rios anos depois, quando o faziam falar de sua primeira Comunh\u00e3o, ainda se via transparecer no rosto a mais viva alegria. \u00abOh!\u00bb, costumava dizer, \u00abaquele foi para mim o mais belo dia, um grande dia.\u00bb Escreveu algumas lembran\u00e7as que conservava cuidadosamente num livro de devo\u00e7\u00e3o e lia com frequ\u00eancia. Pude t\u00ea-las entre as m\u00e3os e as insiro aqui em sua simplicidade original. Eram do seguinte teor: \u00abLembran\u00e7as feitas por mim, Domingos S\u00e1vio, no ano de 1849, quando fiz a primeira Comunh\u00e3o, tendo sete anos.<\/p>\n<ol>\n<li>Vou me confessar com muita frequ\u00eancia e comungarei todas as vezes que o confessor me der licen\u00e7a.<\/li>\n<li>Quero santificar os dias festivos.<\/li>\n<li>Meus amigos ser\u00e3o Jesus e Maria.<\/li>\n<li>Antes morrer, mas n\u00e3o pecar.\u00bb<\/li>\n<\/ol>\n<p>Essas resolu\u00e7\u00f5es, que repetia muitas vezes, foram como o guia de suas a\u00e7\u00f5es at\u00e9 o fim da vida.<\/p>\n<p>Se entre aqueles que lerem este livrinho houver algu\u00e9m que ainda deva fazer a primeira Comunh\u00e3o, eu gostaria de recomendar-lhe vivamente que tomasse o jovem S\u00e1vio por modelo. Mas recomendo, quanto sei e posso, aos pais, \u00e0s m\u00e3es de fam\u00edlia e a todos aqueles que exercem alguma autoridade sobre a juventude, que deem a maior import\u00e2ncia a este ato religioso. Ficai persuadidos de que uma primeira Comunh\u00e3o bem feita estabelece um s\u00f3lido fundamento moral para toda a vida; e seria coisa estranha encontrar algu\u00e9m que tenha cumprido bem esse solene dever e n\u00e3o tenha depois levado uma vida boa e virtuosa. Ao contr\u00e1rio, contam-se aos milhares os jovens indisciplinados que s\u00e3o a desola\u00e7\u00e3o dos pais e de quem cuida deles; mas, se formos \u00e0 raiz do mal, veremos que sua conduta come\u00e7ou a se tornar tal por causa da pouca ou nenhuma prepara\u00e7\u00e3o para a primeira Comunh\u00e3o. \u00c9 melhor adi\u00e1-la; antes, \u00e9 melhor n\u00e3o faz\u00ea-la, do que faz\u00ea-la mal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838014\"><\/a>CAP\u00cdTULO IV. Escola de Castelnuovo d\u2019Asti &#8211; Epis\u00f3dio edificante &#8211; S\u00e1bia resposta a um mau conselho<a name=\"_Toc504540955\"><\/a><a name=\"_Toc504541390\"><\/a><a name=\"_Toc504541952\"><\/a><a name=\"_Toc530304049\"><\/a><a name=\"_Toc24283662\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Conclu\u00eddos os primeiros estudos, Domingos j\u00e1 deveria ter sido enviado h\u00e1 muito tempo a outro lugar para prosseguir os estudos, o que n\u00e3o podia fazer numa capelania rural. Domingos o desejava, e isso tamb\u00e9m estava muito no cora\u00e7\u00e3o de seus pais. Mas como realiz\u00e1-lo, faltando completamente os recursos financeiros? Deus, soberano Senhor de todas as coisas, proveria os meios necess\u00e1rios para que este menino pudesse seguir a carreira para a qual o chamava.<\/p>\n<p><em>\u00abSe eu fosse um p\u00e1ssaro\u00bb, <\/em>dizia \u00e0s vezes Domingos, <em>\u00abgostaria de voar de manh\u00e3 e \u00e0 tarde at\u00e9 Castelnuovo e assim continuar meus estudos.\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>Seu vivo desejo de estudar fez com que superasse todas as dificuldades, e decidiu frequentar a escola municipal da cidade, embora ficasse a quase duas milhas de dist\u00e2ncia. E eis um menino de apenas dez anos empreendendo diariamente um percurso de seis milhas entre ida e volta da escola. \u00c0s vezes havia vento inc\u00f4modo, sol escaldante, lama ou chuva opressiva. N\u00e3o importava: suportavam-se todos os inc\u00f4modos e venciam-se todas as dificuldades; ele via nisso a obedi\u00eancia aos pais e um meio de aprender a ci\u00eancia da salva\u00e7\u00e3o, e isso bastava para faz\u00ea-lo suportar com prazer qualquer desconforto. Uma pessoa j\u00e1 de certa idade, vendo um dia Domingos ir sozinho \u00e0 escola \u00e0s duas da tarde, sob um sol abrasador, aproximou-se dele, quase para alivi\u00e1-lo, e lhe disse:<\/p>\n<p>\u2013 Meu caro, voc\u00ea n\u00e3o tem medo de caminhar sozinho por estas estradas?<\/p>\n<p>\u2013 Eu n\u00e3o estou sozinho; tenho o anjo da guarda, que me acompanha em todos os passos.<\/p>\n<p>\u2013 Pelo menos o caminho deve ser penoso com este calor, tendo de faz\u00ea-lo quatro vezes por dia!<\/p>\n<p>\u2013 Nada \u00e9 penoso, nada \u00e9 cansativo quando se trabalha para um patr\u00e3o que paga muito bem.<\/p>\n<p>\u2013 Quem \u00e9 esse patr\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 Deus Criador, que recompensa at\u00e9 um copo de \u00e1gua dado por amor a Ele.<\/p>\n<p>A mesma pessoa contou esse epis\u00f3dio a alguns amigos e terminava sempre dizendo: um jovem de t\u00e3o tenra idade, que j\u00e1 alimenta pensamentos assim, certamente dar\u00e1 muito que falar na carreira que vier a seguir.<\/p>\n<p>No caminho de ida e volta da escola, ele correu grave perigo para a alma por causa de alguns companheiros.<\/p>\n<p>Muitos jovens, nos calores do ver\u00e3o, costumam ir banhar-se ora nos fossos, ora nos riachos, ora nos a\u00e7udes e lugares semelhantes. O fato de v\u00e1rios meninos se reunirem despidos e, \u00e0s vezes, em lugares p\u00fablicos para se banhar \u00e9 perigoso para o corpo, tanto que infelizmente temos de lamentar com frequ\u00eancia afogamentos de meninos e de outras pessoas que terminam a vida nas \u00e1guas; mas o perigo \u00e9 muito maior para a alma. Quantos jovens lamentam a perda da inoc\u00eancia e atribuem sua causa ao fato de terem ido banhar-se com certos companheiros naqueles lugares infelizes!<\/p>\n<p>V\u00e1rios colegas de S\u00e1vio tinham o costume de ir a esses lugares. N\u00e3o satisfeitos de irem eles mesmos, queriam levar tamb\u00e9m Domingos consigo, e uma vez conseguiram atra\u00ed-lo. Mas, tendo sido advertido de que aquilo era mau, mostrou-se profundamente pesaroso; nunca mais foi poss\u00edvel faz\u00ea-lo voltar, e chegou a lamentar e chorar v\u00e1rias vezes pelo perigo em que se colocara, tanto para a alma como para o corpo. Contudo, dois dos companheiros mais desembara\u00e7ados e faladores fizeram nova tentativa, dizendo-lhe:<\/p>\n<p>\u2013 Domingos, quer vir conosco para uma brincadeira?<\/p>\n<p>\u2013 Que brincadeira?<\/p>\n<p>\u2013 Vamos nadar.<\/p>\n<p>\u2013 Oh, n\u00e3o! Eu n\u00e3o vou; n\u00e3o sei nadar e tenho medo de morrer na \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u2013 Venha, \u00e9 muito gostoso. Quem vai nadar deixa de sentir o calor, fica com bom apetite e ganha muita sa\u00fade.<\/p>\n<p>\u2013 Mas eu tenho medo de morrer na \u00e1gua.<\/p>\n<p>\u2013 Ora, n\u00e3o tenha medo; n\u00f3s lhe ensinaremos o que for preciso. Primeiro voc\u00ea ver\u00e1 como fazemos e depois far\u00e1 o mesmo. Vai nos ver andar na \u00e1gua como peixes e dar saltos de gigante.<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o \u00e9 pecado ir a lugares onde h\u00e1 tantos perigos?<\/p>\n<p>\u2013 De modo nenhum; todo mundo vai.<\/p>\n<p>\u2013 O fato de todos irem n\u00e3o prova que n\u00e3o seja pecado.<\/p>\n<p>\u2013 Se voc\u00ea n\u00e3o quiser entrar na \u00e1gua, comece apenas olhando os outros.<\/p>\n<p>\u2013 Basta; estou confuso e n\u00e3o sei o que dizer.<\/p>\n<p>\u2013 Venha, venha; confie na nossa palavra: n\u00e3o h\u00e1 mal algum, e n\u00f3s o livraremos de todo perigo.<\/p>\n<p>\u2013 Antes de fazer o que voc\u00eas dizem, quero pedir licen\u00e7a \u00e0 minha m\u00e3e: se ela disser que sim, irei; caso contr\u00e1rio, n\u00e3o vou.<\/p>\n<p>\u2013 Fique quieto, bobo; n\u00e3o v\u00e1 contar isso \u00e0 sua m\u00e3e. Ela certamente n\u00e3o vai deixar voc\u00ea vir; al\u00e9m disso, vai contar aos nossos pais e eles nos far\u00e3o passar o calor com boas varadas.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! Se minha m\u00e3e n\u00e3o me deixa ir, \u00e9 sinal de que a coisa \u00e9 errada; por isso n\u00e3o vou. E, se querem que eu fale francamente, direi que fui enganado e fui uma \u00fanica vez, mas nunca mais irei no futuro; porque nesses lugares h\u00e1 sempre perigo de morrer na \u00e1gua ou de ofender o Senhor de alguma outra maneira. E n\u00e3o voltem a falar comigo de nadar; se isso desagrada aos pais de voc\u00eas, tamb\u00e9m voc\u00eas n\u00e3o deveriam faz\u00ea-lo, porque o Senhor castiga os filhos que fazem coisas contr\u00e1rias \u00e0 vontade do pai e da m\u00e3e.<\/p>\n<p>Assim o nosso Domingos, dando s\u00e1bia resposta \u00e0queles maus conselheiros, evitava um grave perigo no qual, se tivesse ca\u00eddo, talvez perdesse o inestim\u00e1vel tesouro da inoc\u00eancia, ao qual se seguem mil tristes consequ\u00eancias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838015\"><\/a>CAP\u00cdTULO V. Sua conduta na escola de Castelnuovo d\u2019Asti &#8211; Palavras de seu professor<a name=\"_Toc504540956\"><\/a><a name=\"_Toc504541391\"><\/a><a name=\"_Toc504541953\"><\/a><a name=\"_Toc530304050\"><\/a><a name=\"_Toc24283663\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Frequentando essa escola, come\u00e7ou a aprender como devia comportar-se com os companheiros. Se via um colega atento \u00e0s aulas, d\u00f3cil, respeitoso, que soubesse bem as li\u00e7\u00f5es, fizesse seus trabalhos e fosse elogiado pelo professor, esse logo se tornava amigo de Domingos. Havia algum indisciplinado ou insolente, que descuidasse dos deveres, falasse mal ou blasfemasse? Domingos o evitava como se evita a peste. Aos que eram um pouco negligentes, cumprimentava-os e lhes prestava algum servi\u00e7o quando havia ocasi\u00e3o, mas n\u00e3o mantinha com eles familiaridade.<\/p>\n<p>A conduta que teve na escola de Castelnuovo d\u2019Asti pode servir de modelo a qualquer jovem estudante que deseje progredir na ci\u00eancia e na piedade. A esse respeito transcrevo o criterioso relato escrito por seu professor, o sacerdote padre Alessandro Allora, ainda hoje professor municipal desta sede distrital. Eis o seu teor:<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 com grande satisfa\u00e7\u00e3o que exponho meu ju\u00edzo sobre o jovem Domingos S\u00e1vio, que em pouco tempo soube conquistar toda a minha benevol\u00eancia, de modo que o amei com a ternura de um pai. Aceito de bom grado este convite, porque ainda conservo viva, distinta e plena mem\u00f3ria de seus estudos, de sua conduta e de suas virtudes.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abN\u00e3o posso dizer muitas coisas sobre sua conduta religiosa porque, morando muito longe da cidade, era dispensado da congrega\u00e7\u00e3o; se a tivesse frequentado, certamente teria feito resplandecer sua piedade e devo\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abConclu\u00eddos os estudos do primeiro ano elementar em Murialdo, esse bom menino pediu e obteve com distin\u00e7\u00e3o a admiss\u00e3o \u00e0 minha escola do segundo ano elementar, precisamente em 21 de junho de 1852, dia dedicado pelos alunos a S\u00e3o Lu\u00eds, protetor da juventude. Tinha constitui\u00e7\u00e3o um tanto fraca e delicada, semblante s\u00e9rio misturado com do\u00e7ura, com algo ao mesmo tempo grave e agrad\u00e1vel. Era de \u00edndole muito mansa e dulc\u00edssima, de humor sempre igual. Mantinha constantemente tal comportamento na escola e fora dela, na igreja e em toda parte, que, quando os olhos, o pensamento ou a palavra do professor se voltavam para ele, ficava a mais bela e agrad\u00e1vel impress\u00e3o. Para um professor, isto pode ser chamado um dos queridos compensos dos duros trabalhos que muitas vezes lhe cabe sustentar em v\u00e3o no cultivo de esp\u00edritos \u00e1ridos e mal dispostos de certos alunos. Por isso posso dizer que ele foi S\u00e1vio de nome e s\u00e1bio tamb\u00e9m sempre de fato. Mostrou-o concretamente, isto \u00e9, no estudo, na piedade, no trato com os companheiros e em todas as suas a\u00e7\u00f5es. Desde o primeiro dia em que entrou em minha escola at\u00e9 o fim daquele ano letivo e nos quatro meses do ano seguinte, progrediu nos estudos de modo extraordin\u00e1rio. Mereceu constantemente o primeiro lugar de sua classe, as outras distin\u00e7\u00f5es escolares e quase sempre as melhores notas em cada mat\u00e9ria que sucessivamente se ensinava. Resultado t\u00e3o feliz nos estudos n\u00e3o deve ser atribu\u00eddo apenas \u00e0 intelig\u00eancia incomum de que era dotado, mas tamb\u00e9m ao seu grand\u00edssimo amor ao estudo e \u00e0 sua virtude.\u00bb<\/p>\n<p>\u00ab\u00c9 tamb\u00e9m digna de especial admira\u00e7\u00e3o a dilig\u00eancia com que procurava cumprir os menores deveres de aluno crist\u00e3o e, de modo particular, a assiduidade e admir\u00e1vel const\u00e2ncia na frequ\u00eancia \u00e0 escola. Embora sempre de sa\u00fade fraca, percorria todos os dias mais de quatro quil\u00f4metros de estrada, repetindo esse trajeto quatro vezes entre ida e volta. E fazia isso com admir\u00e1vel tranquilidade de esp\u00edrito e serenidade de semblante mesmo sob as intemp\u00e9ries do inverno, no frio rigoroso, na chuva ou na neve; coisa que seu professor n\u00e3o podia deixar de reconhecer como prova e exemplo de m\u00e9rito raro. Entretanto, tendo adoecido este digno aluno durante o mesmo ano de 1852-1853, e tendo seus pais posteriormente mudado de resid\u00eancia, aconteceu que, com verdadeiro pesar meu, n\u00e3o pude continuar a instru\u00e7\u00e3o de t\u00e3o querido disc\u00edpulo; e as grandes e belas esperan\u00e7as que eu nutria diminu\u00edam \u00e0 medida que cresciam meus temores de que ele j\u00e1 n\u00e3o pudesse prosseguir os estudos por falta de sa\u00fade ou de recursos.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abFoi para mim grande consola\u00e7\u00e3o quando soube que havia sido acolhido entre os jovens do Orat\u00f3rio de S\u00e3o Francisco de Sales, abrindo-se assim para ele o caminho ao cultivo de sua rara intelig\u00eancia e de sua luminosa <em>piedade. (At\u00e9 aqui, o professor.<\/em>)\u00bb<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838016\"><\/a>CAP\u00cdTULO VI. Escola de Mondonio<a name=\"_Toc504540957\"><\/a><a name=\"_Toc504541392\"><\/a><a name=\"_Toc504541954\"><\/a><a name=\"_Toc530304051\"><\/a><a name=\"_Toc24283664\"><\/a><a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\"><strong>[5]<\/strong><\/a> &#8211; Suporta uma grave cal\u00fania<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Parece que a Divina Provid\u00eancia quis fazer este jovem compreender que este mundo \u00e9 um ex\u00edlio em que vamos peregrinando de lugar em lugar; ou melhor, quis que ele se tornasse conhecido em diferentes localidades, mostrando-se assim em v\u00e1rios lugares admir\u00e1vel modelo de virtude.<\/p>\n<p>No fim do ano de 1852, os pais de Domingos deixaram Murialdo e foram estabelecer resid\u00eancia em Mondonio, pequeno povoado vizinho de Castelnuovo. Ele continuou ali o mesmo modo de vida que praticara em Murialdo e Castelnuovo; por isso eu deveria repetir as coisas que seus professores anteriores escreveram a seu respeito, pois o padre Cugliero<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a>, que o teve como aluno, faz um relato quase semelhante. Escolho dele apenas alguns fatos particulares, omitindo o restante para evitar repeti\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>\u00abPosso dizer\u00bb, escreve ele, \u00abque em vinte anos dedicados \u00e0 instru\u00e7\u00e3o dos meninos nunca tive nenhum que igualasse S\u00e1vio na piedade. Era jovem de idade, mas prudente como um homem maduro. Sua dilig\u00eancia, assiduidade ao estudo e afabilidade conquistavam o afeto do professor e faziam dele a alegria dos companheiros. Quando o contemplava na igreja, eu ficava profundamente admirado ao ver tanto recolhimento num jovem de t\u00e3o tenra idade. Muitas vezes disse comigo mesmo: Eis uma alma inocente, para a qual se abrem as del\u00edcias do para\u00edso e que, com seus afetos, vai habitar com os anjos do c\u00e9u.<em>\u00bb<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>Entre os fatos particulares, o professor conta o seguinte:<\/p>\n<p>\u00abCerto dia, houve uma falta entre meus alunos, e a coisa era tal que o culpado merecia ser expulso da escola. Os verdadeiros culpados, querendo prevenir o golpe, foram at\u00e9 o professor e combinaram lan\u00e7ar toda a culpa sobre o bom Domingos. Eu n\u00e3o podia acreditar que ele fosse capaz de semelhante desordem; mas os acusadores souberam dar \u00e0 cal\u00fania tal apar\u00eancia de verdade que fui levado a acreditar. Entrei ent\u00e3o na escola, justamente indignado com o ocorrido; falei em geral ao culpado e depois me voltei para S\u00e1vio: \u2018Era preciso\u2019, disse-lhe, \u2018que essa falta fosse cometida justamente por voc\u00ea? N\u00e3o mereceria ser expulso imediatamente da escola? Felizmente \u00e9 a primeira vez que voc\u00ea faz algo semelhante; caso contr\u00e1rio&#8230; fa\u00e7a com que seja tamb\u00e9m a \u00faltima.\u2019 Domingos poderia ter dito uma \u00fanica palavra em sua defesa, e sua inoc\u00eancia teria sido reconhecida. Mas calou-se, baixou a cabe\u00e7a e, como quem \u00e9 justamente repreendido, n\u00e3o levantou mais os olhos.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abMas Deus protege os inocentes, e no dia seguinte foram descobertos os verdadeiros culpados e, assim, tornou-se manifesta a inoc\u00eancia de Domingos. Cheio de pesar pelas repreens\u00f5es feitas ao suposto culpado, chamei-o \u00e0 parte e disse-lhe: \u2018Domingos, por que voc\u00ea n\u00e3o me disse logo que era inocente?\u2019 Domingos respondeu: \u2018Porque aquele colega, j\u00e1 culpado de outras faltas, talvez tivesse sido expulso da escola; quanto a mim, esperava ser perdoado, pois era a primeira falta de que me acusavam na escola; al\u00e9m disso, pensava tamb\u00e9m em nosso Divino Salvador, que foi injustamente caluniado.\u2019\u00bb<\/p>\n<p>\u00abEnt\u00e3o fiquei em sil\u00eancio, mas todos admiraram a paci\u00eancia de S\u00e1vio, que soubera pagar o mal com o bem, disposto at\u00e9 a suportar um grave castigo em favor do pr\u00f3prio caluniador.\u00bb (Assim escreve<em> o padre Cugliero.<\/em>)<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838017\"><\/a>CAP\u00cdTULO VII. Primeiro conhecimento que tive dele &#8211; Epis\u00f3dios curiosos nessa ocasi\u00e3o<a name=\"_Toc504540958\"><\/a><a name=\"_Toc504541393\"><\/a><a name=\"_Toc504541955\"><\/a><a name=\"_Toc530304052\"><\/a><a name=\"_Toc24283665\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As coisas que vou narrar posso expor com maior riqueza de circunst\u00e2ncias, porque quase todas aconteceram diante de meus olhos e, na maioria das vezes, na presen\u00e7a de grande n\u00famero de jovens, todos concordes em afirm\u00e1-las. Corria o ano de 1854 quando <em>o <\/em>referido padre Cugliero veio falar-me de um aluno seu que, por sua piedade, merecia considera\u00e7\u00e3o especial. \u00abAqui em sua casa\u00bb, dizia ele, \u00abpode ter jovens iguais a ele, mas dificilmente ter\u00e1 algu\u00e9m que o supere em talento e virtude. Fa\u00e7a a experi\u00eancia e encontrar\u00e1 um S\u00e3o Lu\u00eds.\u00bb Combinamos que ele o enviaria a Murialdo na ocasi\u00e3o em que eu costumava estar ali com os jovens desta casa, para faz\u00ea-los desfrutar um pouco do campo e, ao mesmo tempo, fazer a novena e celebrar a solenidade do Ros\u00e1rio de Maria Sant\u00edssima.<\/p>\n<p>Era a primeira segunda-feira de outubro, de manh\u00e3 cedo, quando vi aproximar-se um menino acompanhado de seu pai para falar comigo. Seu rosto alegre, sua express\u00e3o sorridente, mas respeitosa, atra\u00edram para ele o meu olhar.<\/p>\n<p>\u2013 Quem \u00e9 voc\u00ea? \u2013 perguntei-lhe. \u2013 De onde vem?<\/p>\n<p>\u2013 Eu sou \u2013 respondeu \u2013 Domingos S\u00e1vio, de quem lhe falou o padre Cugliero, meu professor; e viemos de Mondonio.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o o chamei \u00e0 parte e, pondo-nos a conversar sobre os estudos feitos e o modo de vida que levara at\u00e9 ent\u00e3o, logo entramos em plena confian\u00e7a, ele comigo e eu com ele.<\/p>\n<p>Reconheci naquele jovem um esp\u00edrito inteiramente conforme ao esp\u00edrito do Senhor e fiquei muito admirado ao considerar as obras que a gra\u00e7a divina j\u00e1 havia realizado em t\u00e3o tenra idade.<\/p>\n<p>Depois de uma conversa um tanto prolongada, antes que eu chamasse o pai, ele me disse estas palavras exatas: \u00abEnt\u00e3o, o que lhe parece? Vai me levar a Turim para estudar?\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Ora! Parece-me que h\u00e1 bom tecido.<\/p>\n<p>\u2013 Para que pode servir esse tecido?<\/p>\n<p>\u2013 Para fazer uma bela roupa de presente ao Senhor.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o eu sou o tecido; o senhor seja o alfaiate; leve-me consigo e far\u00e1 uma bela roupa para o Senhor.<\/p>\n<p>\u2013 Tenho receio de que sua constitui\u00e7\u00e3o fr\u00e1gil n\u00e3o aguente os estudos.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tenha receio disso; aquele Senhor que at\u00e9 agora me deu sa\u00fade e gra\u00e7a tamb\u00e9m me ajudar\u00e1 no futuro.<\/p>\n<p>\u2013 Mas, quando terminar os estudos de latim, o que vai querer fazer?<\/p>\n<p>\u2013 Se o Senhor me conceder tamanha gra\u00e7a, desejo ardentemente abra\u00e7ar o estado eclesi\u00e1stico.<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem. Agora quero experimentar se voc\u00ea tem capacidade suficiente para estudar: pegue este livrinho (era um <em>fasc\u00edculo das Leituras <\/em>Cat\u00f3licas), estude hoje esta p\u00e1gina e amanh\u00e3 volte para recit\u00e1-la para mim.<\/p>\n<p>Dito isso, deixei-o livre para ir divertir-se com os outros jovens e pus-me a conversar com o pai. N\u00e3o se passaram mais de oito minutos quando Domingos se aproximou sorrindo e me disse: \u00abSe quiser, posso recitar agora a minha p\u00e1gina.\u00bb Peguei o livro e, com surpresa, percebi que n\u00e3o s\u00f3 havia estudado literalmente a p\u00e1gina indicada, mas compreendia muito bem o sentido das coisas nela contidas.<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem \u2013 disse-lhe \u2013 voc\u00ea antecipou o estudo de sua li\u00e7\u00e3o e eu antecipo a resposta. Sim, vou lev\u00e1-lo a Turim e, desde j\u00e1, voc\u00ea est\u00e1 contado entre meus queridos filhos; comece tamb\u00e9m, desde agora, a rezar a Deus para que ajude a mim e a voc\u00ea a fazer sua santa vontade.<\/p>\n<p>N\u00e3o sabendo como exprimir melhor sua alegria e gratid\u00e3o, tomou-me a m\u00e3o, apertou-a, beijou-a v\u00e1rias vezes e, por fim, disse: \u00abEspero comportar-me de modo que nunca tenha de se lamentar de minha conduta.\u00bb<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838018\"><\/a>CAP\u00cdTULO VIII. Vem para o Orat\u00f3rio de S\u00e3o Francisco de Sales &#8211; Seu primeiro modo de vida<a name=\"_Toc504540959\"><\/a><a name=\"_Toc504541394\"><\/a><a name=\"_Toc504541956\"><\/a><a name=\"_Toc530304053\"><\/a><a name=\"_Toc24283666\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 pr\u00f3prio da idade vol\u00favel da juventude mudar frequentemente de prop\u00f3sito a respeito do que se quer; por isso n\u00e3o raramente acontece que hoje se decide uma coisa e amanh\u00e3 outra; hoje se pratica uma virtude em grau eminente e amanh\u00e3 o contr\u00e1rio; e, se n\u00e3o houver quem vigie atentamente, muitas vezes termina mal uma educa\u00e7\u00e3o que talvez pudesse ter sido das mais felizes. Com o nosso Domingos n\u00e3o foi assim. Todas aquelas virtudes que vimos nascer e crescer nas diversas etapas de sua vida continuaram a crescer admiravelmente e cresceram juntas, sem que uma prejudicasse a outra.<\/p>\n<p>Chegando \u00e0 casa do Orat\u00f3rio, foi ao meu quarto para se entregar, como ele dizia, inteiramente nas m\u00e3os de seus superiores. Seu olhar pousou logo num cartaz em que, em grandes caracteres, estavam escritas as seguintes palavras que S\u00e3o Francisco de Sales costumava repetir: Da mihi animas,<em> coetera tolle. P\u00f4s-se a l\u00ea-las <\/em>atentamente, e eu desejava que compreendesse o significado. Por isso o convidei, e at\u00e9 o ajudei, a traduzi-las e tirar delas este sentido: \u00ab\u00d3 Senhor,<em> dai-me almas e ficai com todas as outras coisas.\u00bb Ele pensou<\/em> um instante e depois acrescentou: \u00abEntendi: aqui n\u00e3o se trata de neg\u00f3cio de dinheiro, mas de neg\u00f3cio de almas; entendi. Espero que minha alma tamb\u00e9m fa\u00e7a parte desse com\u00e9rcio.\u00bb<\/p>\n<p>Durante algum tempo, seu modo de vida foi inteiramente comum; nada nele se admirava sen\u00e3o a exata observ\u00e2ncia das regras da casa. Aplicou-se com empenho aos estudos. Cumpria com ardor todos os seus deveres. Escutava com prazer as prega\u00e7\u00f5es. Tinha profundamente arraigado no cora\u00e7\u00e3o que a palavra de Deus \u00e9 o guia do homem no caminho do c\u00e9u; por isso, cada m\u00e1xima ouvida numa prega\u00e7\u00e3o tornava-se para ele uma lembran\u00e7a permanente que nunca mais esquecia.<\/p>\n<p>Todo discurso moral, todo catecismo, toda prega\u00e7\u00e3o, ainda que prolongada, era sempre para ele motivo de alegria. Quando ouvia alguma coisa que n\u00e3o tivesse compreendido bem, logo procurava pedir explica\u00e7\u00e3o. Da\u00ed teve in\u00edcio aquele exemplar modo de vida, aquela exatid\u00e3o no cumprimento dos deveres, al\u00e9m da qual dificilmente se pode ir.<\/p>\n<p>Para ser instru\u00eddo sobre as regras e a disciplina da casa, procurava com delicadeza aproximar-se de algum de seus superiores; fazia perguntas, pedia esclarecimentos e conselhos, suplicando que tivessem a bondade de adverti-lo sempre que o vissem faltar a seus deveres. N\u00e3o era menos louv\u00e1vel o comportamento que mantinha com os companheiros. Via algu\u00e9m dissipado, negligente nos pr\u00f3prios deveres ou descuidado na piedade? Domingos o evitava. Havia um companheiro exemplar, estudioso, diligente, elogiado pelo professor? Esse se tornava logo amigo e \u00edntimo de Domingos.<\/p>\n<p>Aproximando-se a festa da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o de Maria, o diretor dizia todas as noites algumas palavras de incentivo aos jovens da casa, para que cada um se empenhasse em celebr\u00e1-la de modo digno da grande M\u00e3e de Deus; mas insistia especialmente em que pedissem a essa celeste protetora aquelas gra\u00e7as de que cada um reconhecesse ter maior necessidade.<\/p>\n<p>Corria o ano de 1854, em que os crist\u00e3os do mundo inteiro viviam numa esp\u00e9cie de santa agita\u00e7\u00e3o espiritual, porque em Roma se tratava da defini\u00e7\u00e3o dogm\u00e1tica da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o de Maria. Tamb\u00e9m entre n\u00f3s se fazia tudo quanto nossa condi\u00e7\u00e3o permitia para celebrar aquela solenidade com decoro e com fruto espiritual para nossos jovens.<\/p>\n<p>S\u00e1vio era um daqueles que se sentiam arder de desejo de celebr\u00e1-la santamente. Escreveu nove pequenos prop\u00f3sitos, ou seja, nove atos de virtude a praticar, tirando \u00e0 sorte um por dia. Preparou-se, fez com grande satisfa\u00e7\u00e3o a confiss\u00e3o geral e aproximou-se dos santos Sacramentos com o m\u00e1ximo recolhimento.<\/p>\n<p>Na tarde daquele dia, 8 de dezembro, terminadas as sagradas fun\u00e7\u00f5es na igreja, aconselhado pelo confessor, Domingos foi diante do altar de Maria, renovou as promessas feitas na primeira Comunh\u00e3o e depois repetiu v\u00e1rias vezes estas palavras exatas: <strong>\u00abMaria, eu vos dou o meu cora\u00e7\u00e3o; fazei que seja sempre vosso. Jesus e Maria, sede v\u00f3s sempre os meus amigos! Mas, por piedade, fazei-me morrer antes que me aconte\u00e7a a desgra\u00e7a de cometer um s\u00f3 pecado.<\/strong>\u00bb<\/p>\n<p>Tomando assim Maria como sustent\u00e1culo de sua devo\u00e7\u00e3o, sua conduta moral se mostrou t\u00e3o edificante e unida a tais atos de virtude que desde ent\u00e3o comecei a anot\u00e1-los, para n\u00e3o me esquecer deles.<\/p>\n<p>Chegado a este ponto na descri\u00e7\u00e3o das a\u00e7\u00f5es do jovem S\u00e1vio, vejo diante de mim um conjunto de fatos e virtudes que merecem especial aten\u00e7\u00e3o tanto de quem escreve como de quem l\u00ea. Por isso, para maior clareza, julgo conveniente expor as coisas n\u00e3o segundo a ordem cronol\u00f3gica, mas segundo a semelhan\u00e7a dos fatos que t\u00eam entre si rela\u00e7\u00e3o especial ou dizem respeito \u00e0 mesma mat\u00e9ria. Dividirei, portanto, o assunto em outros tantos cap\u00edtulos, come\u00e7ando pelo estudo do latim, que foi o principal motivo pelo qual veio e foi acolhido nesta casa de Valdocco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838019\"><\/a>CAP\u00cdTULO IX. Estudo do latim &#8211; Epis\u00f3dios curiosos &#8211; Comportamento na escola &#8211; Impede uma briga &#8211; Evita um perigo<a name=\"_Toc504540960\"><\/a><a name=\"_Toc504541395\"><\/a><a name=\"_Toc504541957\"><\/a><a name=\"_Toc530304054\"><\/a><a name=\"_Toc24283667\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Ele havia estudado os rudimentos do latim em Mondonio; e, gra\u00e7as \u00e0 grande assiduidade ao estudo e \u00e0 sua capacidade nada comum, em pouco tempo conseguiu ser colocado na quarta classe, ou, como dizemos hoje, na segunda gram\u00e1tica latina. Fez esse curso com o piedoso e caridoso professor Giuseppe Bonzanino, pois naquela \u00e9poca ainda n\u00e3o estavam estabelecidas na casa do Orat\u00f3rio as escolas ginasiais, como est\u00e3o atualmente. Eu deveria tamb\u00e9m aqui descrever seu comportamento, aproveitamento e exemplaridade com as mesmas palavras de seus professores anteriores. Por isso relatarei apenas algumas coisas que, naquele ano de latim e nos dois seguintes, foram observadas com particular admira\u00e7\u00e3o por aqueles que o conheceram. O professor Bonzanino afirmou v\u00e1rias vezes n\u00e3o se lembrar de ter tido aluno mais atento, mais d\u00f3cil e mais respeitoso do que o jovem S\u00e1vio. Em tudo ele se mostrava modelo. No modo de vestir e de pentear-se n\u00e3o havia qualquer afeta\u00e7\u00e3o; mas, na mod\u00e9stia de suas roupas e em sua humilde condi\u00e7\u00e3o, aparecia limpo, bem-educado e cort\u00eas, de modo que seus companheiros de condi\u00e7\u00e3o civil e at\u00e9 nobre, que em bom n\u00famero frequentavam aquela escola, sentiam grande prazer em conviver com Domingos, n\u00e3o s\u00f3 por seu saber e piedade, mas tamb\u00e9m por seus modos educados e agrad\u00e1veis no trato. Se o professor percebia algum aluno um pouco tagarela, colocava Domingos ao lado dele, e este, com habilidade, procurava lev\u00e1-lo ao sil\u00eancio, ao estudo e ao cumprimento de seus deveres.<\/p>\n<p>Foi no decorrer desse ano que a vida de Domingos nos oferece um fato que tem algo de heroico e \u00e9 quase inacredit\u00e1vel para sua pouca idade. Refere-se a dois colegas de escola que chegaram a uma briga perigosa. A discuss\u00e3o come\u00e7ou por algumas palavras que disseram um ao outro em desprezo de suas fam\u00edlias. Depois de alguns insultos, trocaram ofensas e desafiaram-se a resolver a quest\u00e3o a pedradas. Domingos veio a saber daquela disc\u00f3rdia; mas como impedi-la, sendo os dois rivais maiores do que ele em for\u00e7a e idade? Tentou persuadi-los a desistir daquele prop\u00f3sito, fazendo observar a ambos que a vingan\u00e7a \u00e9 contr\u00e1ria \u00e0 raz\u00e3o e \u00e0 santa lei de Deus; escreveu cartas a um e a outro; amea\u00e7ou contar tudo ao professor e tamb\u00e9m aos pais deles; mas tudo foi in\u00fatil: os \u00e2nimos estavam t\u00e3o exaltados que qualquer palavra era in\u00fatil. Al\u00e9m do perigo de se ferirem gravemente, cometia-se grande ofensa contra Deus. Domingos estava profundamente aflito, queria opor-se \u00e0quilo e n\u00e3o sabia como. Deus lhe inspirou o seguinte. Esperou-os depois da aula e, conseguindo falar com os dois em particular, disse: \u00abJ\u00e1 que persistem nesse prop\u00f3sito brutal, pe\u00e7o ao menos que aceitem uma condi\u00e7\u00e3o.\u00bb \u00abAceitamos\u00bb, responderam, \u00abdesde que n\u00e3o impe\u00e7a o nosso desafio.\u00bb \u00abEle \u00e9 um canalha\u00bb, replicou logo um deles; \u00abe eu n\u00e3o farei as pazes com ele\u00bb, acrescentou o outro, \u00abenquanto um de n\u00f3s n\u00e3o tiver a cabe\u00e7a quebrada.\u00bb S\u00e1vio tremia diante daquela conversa brutal; contudo, desejando impedir um mal maior, manteve-se firme e disse: \u00abA condi\u00e7\u00e3o que vou propor n\u00e3o impede o desafio.\u00bb<\/p>\n<p><em>Comp.<\/em> Qual \u00e9 essa condi\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p><em>S\u00e1v. <\/em>Gostaria apenas de diz\u00ea-la no lugar onde voc\u00eas querem medir for\u00e7as a pedradas.<\/p>\n<p><em>Comp.<\/em> Voc\u00ea est\u00e1 zombando de n\u00f3s ou vai tentar criar algum obst\u00e1culo.<\/p>\n<p><em>S\u00e1v. <\/em>Estarei com voc\u00eas e n\u00e3o zombarei; fiquem tranquilos.<\/p>\n<p><em>Comp.<\/em> Talvez voc\u00ea queira ir chamar algu\u00e9m.<\/p>\n<p><em>S\u00e1v. <\/em>Eu deveria faz\u00ea-lo, mas n\u00e3o farei; vamos, estarei com voc\u00eas. Apenas cumpram a palavra que me deram. Eles prometeram e foram para os <em>chamados prados da Cidadela,<\/em> fora de Porta Susa<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a>.<\/p>\n<p>Tamanho era o \u00f3dio entre os dois contendores que S\u00e1vio mal conseguiu impedir que chegassem \u00e0s vias de fato no curto trecho de caminho que precisavam percorrer.<\/p>\n<p>Chegados ao lugar estabelecido, S\u00e1vio fez uma coisa que certamente ningu\u00e9m teria imaginado. Deixou que se colocassem a certa dist\u00e2ncia; j\u00e1 tinham as pedras nas m\u00e3os, cinco cada um, quando Domingos falou assim: \u00abAntes de realizarem o desafio, quero que cumpram a condi\u00e7\u00e3o aceita.\u00bb Dizendo isso, tirou o pequeno Crucifixo que trazia ao pesco\u00e7o e, segurando-o numa das m\u00e3os, disse: \u00abQuero que cada um fixe o olhar neste Crucifixo e depois, lan\u00e7ando uma pedra contra mim, pronuncie em voz alta estas palavras: Jesus Cristo inocente morreu perdoando aos que o crucificaram; eu, pecador, quero ofend\u00ea-lo e fazer uma vingan\u00e7a solene.\u00bb<\/p>\n<p>Dito isso, foi ajoelhar-se diante daquele que parecia mais enfurecido e disse: \u00abD\u00ea em mim o primeiro golpe; atire com for\u00e7a uma pedra na minha cabe\u00e7a.\u00bb O outro, que n\u00e3o esperava semelhante proposta, come\u00e7ou a tremer. \u00abN\u00e3o\u00bb, disse, \u00abnunca! N\u00e3o tenho nada contra voc\u00ea e, se algu\u00e9m quisesse ofend\u00ea-lo, eu mesmo o defenderia.\u00bb<\/p>\n<p>Ouvindo isso, Domingos correu para o outro e repetiu as mesmas palavras. Este tamb\u00e9m ficou desconcertado e, tremendo, dizia que, sendo seu amigo, jamais lhe faria mal algum.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o Domingos levantou-se e, assumindo um semblante s\u00e9rio e comovido, disse-lhes: \u00abComo? Voc\u00eas dois est\u00e3o dispostos at\u00e9 a enfrentar um grave perigo para defender a mim, que sou uma pobre criatura, e n\u00e3o s\u00e3o capazes de perdoar um insulto e uma zombaria feitos na escola para salvar a pr\u00f3pria alma, que custou o sangue do Salvador e que voc\u00eas v\u00e3o perder com este pecado?\u00bb Dito isso, calou-se, mantendo sempre o Crucifixo erguido na m\u00e3o.<\/p>\n<p>Diante de tal espet\u00e1culo de caridade e coragem, os companheiros se deram por vencidos. \u00abNaquele momento\u00bb, afirma um deles, \u00abfiquei comovido; um frio percorreu meus membros e senti-me cheio de vergonha por ter obrigado um amigo t\u00e3o bom como S\u00e1vio a recorrer a medidas extremas para impedir nosso \u00edmpio prop\u00f3sito. Querendo ao menos dar-lhe um sinal de satisfa\u00e7\u00e3o, perdoei de cora\u00e7\u00e3o quem me havia ofendido e pedi a Domingos que me indicasse algum sacerdote paciente e caridoso para eu ir me confessar. Assim, depois de voltar a ser seu amigo, reconciliei-me com o Senhor, a quem certamente tinha ofendido gravemente com o \u00f3dio e o desejo de vingan\u00e7a.\u00bb<\/p>\n<p>Este \u00e9 um exemplo muito digno de ser imitado por todo jovem crist\u00e3o sempre que lhe acontecer ver algu\u00e9m disposto a se vingar ou sendo de alguma maneira ofendido ou injuriado por outro.<\/p>\n<p>O que neste fato honra de modo singular a conduta e a caridade de S\u00e1vio \u00e9 o sil\u00eancio com que soube guardar o que havia acontecido. Tudo teria ficado completamente ignorado se os pr\u00f3prios participantes n\u00e3o o tivessem contado repetidas vezes.<\/p>\n<p>O caminho de ida e volta da escola, t\u00e3o perigoso para os jovens que v\u00eam dos povoados \u00e0s grandes cidades, foi para o nosso Domingos um verdadeiro exerc\u00edcio de virtude. Constante em executar as ordens de seus superiores, ia \u00e0 escola e voltava para casa sem sequer lan\u00e7ar um olhar ou prestar aten\u00e7\u00e3o a coisa que n\u00e3o conviesse a um jovem crist\u00e3o. Se via algu\u00e9m parar, correr, saltitar, atirar pedras ou passar por lugares proibidos, logo se afastava dele. Certo dia, chegou a ser convidado a ir passear sem permiss\u00e3o; outra vez aconselharam-no a faltar \u00e0 escola para ir se divertir, mas sempre soube responder com uma recusa. \u00abMeu divertimento mais bonito\u00bb, respondia, \u00ab\u00e9 cumprir os meus deveres; e, se voc\u00eas s\u00e3o verdadeiros amigos, devem aconselhar-me a cumpri-los com exatid\u00e3o, nunca a transgredi-los.\u00bb Apesar disso, teve a desventura de encontrar alguns companheiros que o importunaram a tal ponto que S\u00e1vio esteve perto de cair em suas armadilhas. J\u00e1 se decidia a ir com eles e, naquele dia, faltar \u00e0 escola. Mas, depois de percorrer um curto trecho, percebeu que seguia um mau conselho, sentiu grande remorso, chamou os maus conselheiros e disse-lhes: \u00abMeus caros, o dever me obriga a ir \u00e0 escola e eu quero ir. Estamos fazendo algo que desagrada a Deus e aos nossos superiores. Estou arrependido do que fiz; se outra vez me derem conselhos semelhantes, deixar\u00e3o de ser meus amigos.\u00bb<\/p>\n<p>Aqueles jovens acolheram a advert\u00eancia do amigo, foram com ele \u00e0 escola e, dali em diante, n\u00e3o procuraram mais desvi\u00e1-lo dos deveres. No fim do ano, gra\u00e7as \u00e0 boa conduta e \u00e0 constante aplica\u00e7\u00e3o ao estudo, mereceu ser promovido entre os melhores para a classe superior. Mas, no in\u00edcio do terceiro ano de gram\u00e1tica, como a sa\u00fade de Domingos parecia um pouco deteriorada, julgou-se conveniente que fizesse o curso particular aqui na casa do Orat\u00f3rio, a fim de poder receber os devidos cuidados no descanso, no estudo e na recrea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>No ano de humanidades, ou primeiro de ret\u00f3rica, parecendo estar melhor de sa\u00fade, foi enviado ao benem\u00e9rito professor padre Matteo Picco. Este j\u00e1 ouvira falar v\u00e1rias vezes das belas qualidades que adornavam S\u00e1vio e, por isso, de bom grado o recebeu gratuitamente em sua escola, considerada entre as melhores reconhecidas desta nossa cidade.<\/p>\n<p>Muitas s\u00e3o as coisas edificantes ditas ou feitas por S\u00e1vio no ano de terceira gram\u00e1tica e de primeira ret\u00f3rica; iremos exp\u00f4-las aos poucos, \u00e0 medida que narrarmos os fatos com que est\u00e3o relacionadas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838020\"><\/a>CAP\u00cdTULO X. Sua decis\u00e3o de tornar-se santo<a name=\"_Toc504540961\"><\/a><a name=\"_Toc504541396\"><\/a><a name=\"_Toc504541958\"><\/a><a name=\"_Toc530304055\"><\/a><a name=\"_Toc24283668\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Depois desta breve refer\u00eancia aos estudos feitos nas classes de latim, falaremos agora de sua grande decis\u00e3o de tornar-se santo.<\/p>\n<p>Fazia seis meses que S\u00e1vio morava no Orat\u00f3rio quando ali foi feita uma prega\u00e7\u00e3o sobre a maneira f\u00e1cil de tornar-se santo. O pregador deteve-se especialmente em desenvolver tr\u00eas pensamentos que causaram profunda impress\u00e3o no esp\u00edrito de Domingos, a saber: \u00e9 vontade de Deus que todos nos tornemos santos; \u00e9 muito f\u00e1cil consegui-lo; h\u00e1 uma grande recompensa preparada no c\u00e9u para quem se torna santo. Aquela prega\u00e7\u00e3o foi para Domingos como uma centelha que lhe incendiou o cora\u00e7\u00e3o de amor a Deus. Durante alguns dias n\u00e3o disse nada, mas estava menos alegre que de costume, de modo que os companheiros perceberam e eu tamb\u00e9m. Julgando que isso viesse de algum novo mal-estar, perguntei-lhe se sentia algum mal. \u00abAo contr\u00e1rio\u00bb, respondeu, \u00absinto algum bem.\u00bb \u2013 \u00abO que quer dizer?\u00bb \u2013 \u00abQuero dizer que sinto um desejo e uma necessidade de me tornar santo. Eu n\u00e3o pensava que pudesse tornar-me santo com tanta facilidade; mas agora que compreendi que isso pode ser conseguido tamb\u00e9m permanecendo alegre, eu quero absolutamente e tenho absoluta necessidade de tornar-me santo. Diga-me, ent\u00e3o, como devo proceder para come\u00e7ar essa empresa.\u00bb<\/p>\n<p>Eu louvei o prop\u00f3sito, mas o exortei a n\u00e3o se inquietar, porque nas agita\u00e7\u00f5es do esp\u00edrito n\u00e3o se reconhece a voz do Senhor; antes de tudo eu queria uma alegria constante e moderada. E, aconselhando-o a perseverar no cumprimento dos deveres de piedade e de estudo, recomendei-lhe que n\u00e3o deixasse nunca de participar da recrea\u00e7\u00e3o com os companheiros.<\/p>\n<p>Um dia disse-lhe que queria dar-lhe um presente de seu gosto, mas desejava que ele pr\u00f3prio escolhesse. \u00abO presente que pe\u00e7o\u00bb, acrescentou prontamente, \u00ab\u00e9 que o senhor me fa\u00e7a santo. Quero dar-me todo ao Senhor, para sempre ao Senhor; sinto necessidade de tornar-me santo, e se eu n\u00e3o me tornar santo, n\u00e3o fa\u00e7o nada. Deus me quer santo, e eu devo tornar-me santo.\u00bb<\/p>\n<p>Em certa ocasi\u00e3o, o diretor quis dar um sinal de especial afeto aos jovens da casa e permitiu que lhe pedissem, por escrito, qualquer coisa que estivesse ao seu alcance, prometendo conced\u00ea-la. \u00c9 f\u00e1cil imaginar os pedidos engra\u00e7ados e extravagantes que uns e outros fizeram. S\u00e1vio pegou um peda\u00e7o de papel e escreveu apenas estas palavras: \u00abPe\u00e7o que salve minha alma e me fa\u00e7a santo.\u00bb<\/p>\n<p>Certo dia explicavam-se algumas palavras segundo a etimologia. \u00abE Domingos\u00bb, perguntou-se, \u00abo que quer dizer?\u00bb Responderam: <em>\u00abDomingos <\/em>quer dizer do<em> Senhor.\u00bb <\/em>\u00abVeja\u00bb, acrescentou imediatamente, \u00abse eu n\u00e3o tenho raz\u00e3o de pedir que me fa\u00e7a santo: at\u00e9 o meu nome diz que eu sou do Senhor. Portanto, devo e quero ser todo do Senhor, quero tornar-me santo e serei infeliz enquanto n\u00e3o for santo.\u00bb<\/p>\n<p>A ansiedade que demonstrava em querer tornar-se santo n\u00e3o vinha de n\u00e3o levar j\u00e1 uma vida verdadeiramente santa; dizia isso porque queria fazer rigorosas penit\u00eancias e passar longas horas em ora\u00e7\u00e3o. O diretor, por\u00e9m, proibia-lhe essas coisas, por n\u00e3o serem compat\u00edveis com sua idade, sua sa\u00fade e suas ocupa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838021\"><\/a>CAP\u00cdTULO XI. Seu zelo pela salva\u00e7\u00e3o das almas<a name=\"_Toc504540962\"><\/a><a name=\"_Toc504541397\"><\/a><a name=\"_Toc504541959\"><\/a><a name=\"_Toc530304056\"><\/a><a name=\"_Toc24283669\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A primeira coisa que lhe foi aconselhada para tornar-se santo foi empenhar-se em ganhar almas para Deus, porque n\u00e3o h\u00e1 no mundo coisa mais santa do que cooperar para o bem das almas, por cuja salva\u00e7\u00e3o Jesus Cristo derramou at\u00e9 a \u00faltima gota de seu precioso sangue. Domingos compreendeu a import\u00e2ncia dessa pr\u00e1tica e foi ouvido v\u00e1rias vezes dizer: \u00abSe eu pudesse ganhar para Deus todos os meus companheiros, como seria feliz!\u00bb Entretanto, n\u00e3o deixava escapar nenhuma ocasi\u00e3o de dar bons conselhos e advertir quem tivesse dito ou feito alguma coisa contr\u00e1ria \u00e0 santa lei de Deus.<\/p>\n<p>A coisa que lhe causava grande horror e que n\u00e3o fazia pouco mal \u00e0 sua sa\u00fade era a blasf\u00eamia, ou ouvir pronunciar em v\u00e3o o santo nome de Deus. Se nas ruas da cidade ou em outro lugar acontecia-lhe ouvir alguma palavra semelhante, logo baixava a cabe\u00e7a, entristecido, e dizia com cora\u00e7\u00e3o devoto: \u00abLouvado seja Jesus Cristo.\u00bb<\/p>\n<p>Passando certo dia por uma pra\u00e7a da cidade, um companheiro o viu tirar o bon\u00e9 e pronunciar em voz baixa algumas palavras. \u00abO que voc\u00ea est\u00e1 fazendo?\u00bb, perguntou-lhe. \u00abO que est\u00e1 dizendo?\u00bb \u2013 \u00abVoc\u00ea n\u00e3o ouviu?\u00bb, respondeu Domingos. \u00abAquele carroceiro pronunciou em v\u00e3o o santo nome de Deus. Se eu tivesse achado \u00fatil, teria corrido para adverti-lo a n\u00e3o fazer mais isso; mas, temendo lev\u00e1-lo a dizer coisas piores, limito-me a tirar o bon\u00e9 e dizer: Louvado seja Jesus Cristo. Fa\u00e7o isso com a inten\u00e7\u00e3o de reparar um pouco a inj\u00faria feita ao santo nome do Senhor.\u00bb<\/p>\n<p>O companheiro admirou a conduta e a coragem de Domingos e ainda hoje gosta de contar esse epis\u00f3dio em honra do amigo e para edifica\u00e7\u00e3o dos companheiros.<\/p>\n<p>Certa vez, voltando da escola, ouviu um homem j\u00e1 de certa idade proferir uma horr\u00edvel blasf\u00eamia. O nosso Domingos tremeu ao ouvi-la; louvou a Deus no cora\u00e7\u00e3o e depois fez uma coisa certamente admir\u00e1vel. Com o maior respeito, correu at\u00e9 o imprudente blasfemador e perguntou-lhe se sabia indicar a casa do Orat\u00f3rio de S\u00e3o Francisco de Sales. Diante daquele rosto de para\u00edso, o outro deixou de lado aquela esp\u00e9cie de ferocidade e respondeu: \u00abN\u00e3o sei, meu caro menino; sinto muito.\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Oh! Se o senhor n\u00e3o sabe isso, poderia fazer-me outro favor.<\/p>\n<p>\u2013 Diga, farei com prazer.<\/p>\n<p>Domingos aproximou-se o quanto p\u00f4de de seu ouvido e, falando baixo para que ningu\u00e9m mais entendesse, acrescentou: \u00abO senhor me far\u00e1 um grande favor se, quando estiver com raiva, disser outras palavras sem blasfemar o santo nome de Deus.\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem! \u2013 disse o outro, cheio de surpresa e admira\u00e7\u00e3o. \u2013 Voc\u00ea tem raz\u00e3o; este \u00e9 um v\u00edcio maldito que quero vencer a qualquer custo.<\/p>\n<p>Certo dia aconteceu que um menino de talvez nove anos come\u00e7ou a discutir com um companheiro perto da porta da casa e, durante a briga, pronunciou o ador\u00e1vel nome de Jesus Cristo. Domingos, ao ouvir aquela palavra, embora sentisse justa indigna\u00e7\u00e3o no cora\u00e7\u00e3o, com esp\u00edrito sereno colocou-se entre os dois contendores e os acalmou; depois disse ao que havia pronunciado o nome de Deus em v\u00e3o: \u00abVenha comigo e ficar\u00e1 contente.\u00bb Seus bons modos levaram o menino a concordar. Tomou-o pela m\u00e3o, conduziu-o \u00e0 igreja, diante do altar, e depois o fez ajoelhar-se ao seu lado, dizendo-lhe: \u00abPe\u00e7a ao Senhor perd\u00e3o pela ofensa que lhe fez pronunciando seu nome em v\u00e3o.\u00bb E como o menino n\u00e3o sabia o ato de contri\u00e7\u00e3o, recitou-o com ele. Depois acrescentou:<\/p>\n<p>\u2013 Diga comigo estas palavras para reparar a inj\u00faria feita a Jesus Cristo: \u00abLouvado seja Jesus Cristo, e seu santo e ador\u00e1vel nome seja sempre louvado.\u00bb<\/p>\n<p>Lia de prefer\u00eancia a vida daqueles santos que haviam trabalhado de modo especial pela salva\u00e7\u00e3o das almas. Falava com prazer dos mission\u00e1rios, que se fatigam tanto em pa\u00edses distantes pelo bem das almas, e, n\u00e3o podendo enviar-lhes ajuda material, oferecia todos os dias ao Senhor alguma ora\u00e7\u00e3o e, pelo menos uma vez por semana, fazia por eles a santa Comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Muitas vezes o ouvi exclamar: \u00abQuantas almas esperam nosso aux\u00edlio na Inglaterra! Ah, se eu tivesse for\u00e7a e virtude, gostaria de ir para l\u00e1 imediatamente e, com as prega\u00e7\u00f5es e o bom exemplo, queria ganh\u00e1-las todas para o Senhor.\u00bb Queixava-se muitas vezes consigo mesmo, e frequentemente falava aos companheiros, do pouco zelo que muitos t\u00eam por instruir as crian\u00e7as nas verdades da f\u00e9. \u00abAssim que eu for cl\u00e9rigo\u00bb, dizia, \u00abquero ir a Mondonio, reunir todas as crian\u00e7as debaixo de um telheiro e ensinar-lhes o catecismo, contar muitos exemplos e torn\u00e1-las todas santas. Quantas pobres crian\u00e7as talvez se percam por falta de quem as instrua na f\u00e9!\u00bb O que dizia em palavras confirmava com os fatos, pois, na medida permitida por sua idade e instru\u00e7\u00e3o, fazia com prazer o catecismo na igreja do Orat\u00f3rio; e, se algu\u00e9m precisava, dava-lhe aula e o instru\u00eda no catecismo a qualquer hora do dia e em qualquer dia da semana, com o \u00fanico objetivo de poder falar de coisas espirituais e faz\u00ea-lo compreender a import\u00e2ncia de salvar a alma.<\/p>\n<p>Certo dia, um companheiro indiscreto quis interromp\u00ea-lo enquanto contava um exemplo durante a recrea\u00e7\u00e3o. \u00abO que voc\u00ea ganha com essas coisas?\u00bb, perguntou-lhe. \u00abO que eu ganho?\u00bb, respondeu. \u00abGanho porque a alma de meus companheiros foi redimida pelo sangue de Jesus Cristo; ganho porque somos todos irm\u00e3os e, como tais, devemos amar reciprocamente nossas almas; ganho porque Deus recomenda que nos ajudemos uns aos outros a nos salvar; ganho porque, se eu conseguir salvar uma alma, colocarei tamb\u00e9m em seguran\u00e7a a salva\u00e7\u00e3o da minha.\u00bb<\/p>\n<p>Nem essa solicitude pelo bem das almas diminu\u00eda em Domingos durante o breve per\u00edodo de f\u00e9rias que passava na casa paterna. Toda imagem, medalha, crucifixo, livrinho ou outro objeto que tivesse ganho na escola ou no catecismo, ele guardava para servir-se deles durante as f\u00e9rias. Antes mesmo de partir do Orat\u00f3rio, costumava pedir especialmente a seus superiores que lhe dessem objetos semelhantes para alegrar, como dizia, seus amigos de recrea\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Mal chegava \u00e0 sua terra, logo se via cercado por meninos de sua idade, menores e tamb\u00e9m maiores, que sentiam verdadeiro prazer em estar com ele. Domingos, distribuindo seus presentes no momento oportuno, estimulava-os a prestar aten\u00e7\u00e3o \u00e0s perguntas que lhes fazia, ora sobre o catecismo, ora sobre seus deveres.<\/p>\n<p>Com esses bons modos conseguia levar v\u00e1rios com ele ao catecismo, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, \u00e0 Missa e a outras pr\u00e1ticas de piedade.<\/p>\n<p>Tenho certeza de que empregou bastante tempo para instruir um companheiro. \u00abSe voc\u00ea conseguir\u00bb, dizia-lhe, \u00abfazer bem o sinal da santa cruz, darei de presente uma medalha e depois pedirei a um padre que lhe d\u00ea um belo livro. Mas quero que seja bem feito: enquanto pronuncia as palavras com a boca, a m\u00e3o direita deve partir da testa, ir ao peito, depois tocar bem o ombro esquerdo e em seguida o direito, terminando por juntar verdadeiramente as <em>m\u00e3os ao <\/em>dizer: Am\u00e9m.\u00bb Desejava ardentemente que este sinal de nossa reden\u00e7\u00e3o fosse bem feito e ele mesmo o fazia v\u00e1rias vezes diante deles, convidando os outros a fazer o mesmo.<\/p>\n<p>Al\u00e9m da exatid\u00e3o no cumprimento de cada um de seus menores deveres, cuidava tamb\u00e9m de dois irm\u00e3ozinhos, aos quais ensinava a ler, escrever e recitar o catecismo, assistindo-os nas ora\u00e7\u00f5es da manh\u00e3 e da noite. Levava-os \u00e0 igreja, dava-lhes \u00e1gua benta e mostrava-lhes o verdadeiro modo de fazer o sinal da santa cruz. O tempo que poderia ter passado de um lado para outro em divertimentos, empregava contando exemplos aos familiares ou a outros companheiros dispostos a ouvi-lo. Tamb\u00e9m em sua terra costumava fazer todos os dias uma visita ao Sant\u00edssimo Sacramento; e considerava verdadeiro ganho quando conseguia induzir algum companheiro a acompanh\u00e1-lo. Pode-se, portanto, dizer que n\u00e3o se apresentava a ele ocasi\u00e3o de fazer uma boa obra ou dar um bom conselho que tendesse ao bem da alma sem que a aproveitasse.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838022\"><\/a>CAP\u00cdTULO XII. Epis\u00f3dios e belos modos de conversar com os companheiros<a name=\"_Toc504540963\"><\/a><a name=\"_Toc504541398\"><\/a><a name=\"_Toc504541960\"><\/a><a name=\"_Toc530304057\"><\/a><a name=\"_Toc24283670\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O pensamento de ganhar almas para Deus o acompanhava por toda parte. No tempo livre era a alma da recrea\u00e7\u00e3o; mas tudo o que dizia ou fazia tendia sempre ao bem moral, pr\u00f3prio ou dos outros. Tinha sempre presentes aqueles belos princ\u00edpios de educa\u00e7\u00e3o, entre os quais o de n\u00e3o interromper os outros quando falavam. Se, por\u00e9m, os companheiros ficavam em sil\u00eancio, logo propunha quest\u00f5es de escola, de hist\u00f3ria, de aritm\u00e9tica, e tinha sempre \u00e0 m\u00e3o mil historietas que tornavam agrad\u00e1vel sua companhia. Se algu\u00e9m levava a conversa para murmura\u00e7\u00f5es ou coisas semelhantes, ele a interrompia e introduzia alguma brincadeira, uma f\u00e1bula ou outra coisa que fizesse rir; enquanto isso desviava a conversa da murmura\u00e7\u00e3o e impedia que entre seus companheiros se ofendesse a Deus.<\/p>\n<p>Seu aspecto alegre e sua \u00edndole viva faziam-no querido at\u00e9 pelos companheiros menos inclinados \u00e0 piedade, de modo que todos gostavam de estar com ele e recebiam de bom grado as advert\u00eancias que de vez em quando lhes fazia.<\/p>\n<p>Certo dia, um companheiro desejava ir fantasiado, e ele n\u00e3o queria. \u00abVoc\u00ea ficaria contente\u00bb, dizia-lhe, \u00abse realmente se tornasse aquilo de que quer se vestir, com dois chifres na testa, um nariz de um palmo e roupa de buf\u00e3o?\u00bb \u00abDe modo nenhum\u00bb, respondeu o outro. \u00abEnt\u00e3o\u00bb, acrescentou Domingos, \u00abse voc\u00ea n\u00e3o deseja ter essa apar\u00eancia, por que quer aparecer assim e desfigurar os belos tra\u00e7os que Deus lhe deu?\u00bb<\/p>\n<p>Certa vez, durante a recrea\u00e7\u00e3o, aconteceu que um homem avan\u00e7ou para o meio dos jovens que se divertiam e, dirigindo-se a um deles, come\u00e7ou a conversar em voz t\u00e3o alta que todos os presentes podiam ouvir. O astuto, para atra\u00ed-los para perto de si, come\u00e7ou contando coisas estranhas para faz\u00ea-los rir. Movidos pela curiosidade, em pouco tempo os jovens se amontoaram ao redor dele e, atentos, pendiam de seus l\u00e1bios para ouvir aquelas extravag\u00e2ncias. Assim que se viu cercado, fez a conversa cair sobre assuntos religiosos e, como costuma fazer esse tipo de gente, come\u00e7ou a soltar absurdos de fazer horror, ridicularizando as coisas mais santas e desacreditando todas as pessoas eclesi\u00e1sticas. Alguns dos presentes, n\u00e3o podendo suportar tais impiedades e n\u00e3o ousando opor-se, contentaram-se em retirar-se. Um bom n\u00famero, por\u00e9m, continuava imprudentemente a escut\u00e1-lo. Por acaso chegou ent\u00e3o S\u00e1vio. Assim que percebeu de que g\u00eanero era aquela conversa, vencendo todo respeito humano, voltou-se imediatamente aos companheiros: \u00abVamos embora\u00bb, disse, \u00abdeixemos sozinho este infeliz; ele quer roubar-nos a alma.\u00bb Os jovens, obedecendo \u00e0 voz de t\u00e3o am\u00e1vel e virtuoso companheiro, afastaram-se todos prontamente daquele enviado do dem\u00f4nio. Vendo-se abandonado por todos, ele foi embora e n\u00e3o voltou mais a aparecer.<\/p>\n<p>Outra vez, alguns queriam ir banhar-se; coisa que, se j\u00e1 \u00e9 perigosa em outros lugares, o \u00e9 muito mais nos arredores de Turim, onde, sem falar dos perigos para a moralidade, encontram-se \u00e1guas t\u00e3o profundas e impetuosas que frequentemente os jovens se tornam infelizes v\u00edtimas do banho. Domingos percebeu e procurava entret\u00ea-los, contando ora uma novidade, ora outra. Mas, quando os viu decididos a ir de qualquer maneira, come\u00e7ou a falar resolutamente: \u00abN\u00e3o\u00bb, disse, \u00abeu n\u00e3o quero que voc\u00eas v\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 N\u00f3s n\u00e3o estamos fazendo nada de mal.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00eas desobedecem aos superiores, exp\u00f5em-se ao perigo de dar ou receber esc\u00e2ndalo e de morrer afogados, e isso n\u00e3o \u00e9 mal?<\/p>\n<p>\u2013 Mas estamos com um calor que j\u00e1 n\u00e3o aguentamos.<\/p>\n<p>\u2013 Se voc\u00eas n\u00e3o conseguem mais suportar o calor deste mundo, conseguir\u00e3o suportar depois o terr\u00edvel calor do inferno, que est\u00e3o indo merecer?<\/p>\n<p>Movidos por essas palavras, mudaram de prop\u00f3sito, puseram-se a recrear-se com ele e, na hora devida, foram \u00e0 igreja assistir \u00e0s fun\u00e7\u00f5es sagradas.<\/p>\n<p>Alguns outros jovens do Orat\u00f3rio, desejosos do bem dos companheiros, uniram-se numa esp\u00e9cie de sociedade para trabalhar pela convers\u00e3o dos indisciplinados. S\u00e1vio fazia parte dela e era dos mais zelosos. Se tinha um doce, uma fruta, uma cruz, uma imagem ou coisa semelhante, reservava-a para esse fim. \u00abQuem quer? Quem quer?\u00bb, ia dizendo. \u00abEu! Eu!\u00bb, gritavam todos, correndo para ele. \u00abDevagar\u00bb, dizia, \u00abquero dar a quem responder melhor a uma pergunta de catecismo.\u00bb Ent\u00e3o interrogava justamente os mais indisciplinados e, assim que davam uma resposta um pouco satisfat\u00f3ria, fazia-lhes aquele pequeno presente.<\/p>\n<p>Outros eram conquistados de outras maneiras: ele os procurava, convidava-os a passear consigo, fazia-os conversar e, se fosse preciso, brincava com eles. \u00c0s vezes foi visto com um grande bast\u00e3o sobre os ombros, parecendo H\u00e9rcules com a <em>clava, <\/em>jogando \u00e0 rana,<em> vulgarmente<\/em> chamada cirimella, e mostrando-se perdidamente afei\u00e7oado ao jogo. Mas, de repente, suspendia a partida e dizia ao companheiro: \u00abQuer que no s\u00e1bado a gente v\u00e1 se confessar?\u00bb O outro, por causa da dist\u00e2ncia do dia, para retomar o jogo e tamb\u00e9m para agrad\u00e1-lo, respondia que sim. Domingos j\u00e1 tinha o bastante e continuava a brincadeira. Mas n\u00e3o o perdia mais de vista: todos os dias, por um motivo ou por outro, recordava-lhe aquele sim e ia insinuando o modo de se confessar bem. Chegado o s\u00e1bado, como ca\u00e7ador que apanhou boa presa, acompanhava-o \u00e0 igreja, precedia-o na confiss\u00e3o, geralmente avisava antes o confessor e ficava com ele depois para fazer a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as. Esses fatos, que eram frequentes, davam-lhe a maior consola\u00e7\u00e3o e traziam grande proveito aos companheiros; pois muitas vezes acontecia que algu\u00e9m n\u00e3o tirava fruto algum de uma prega\u00e7\u00e3o ouvida na igreja, mas se rendia \u00e0s piedosas insinua\u00e7\u00f5es de Domingos.<\/p>\n<p>Acontecia \u00e0s vezes que algu\u00e9m o iludia durante toda a semana e, no s\u00e1bado, na hora de se confessar, n\u00e3o se deixava mais ver. Quando o encontrava de novo, quase brincando dizia: \u00abEh, malandro! Voc\u00ea me enganou.\u00bb \u00abMas veja\u00bb, respondia o outro, \u00abeu n\u00e3o estava disposto, n\u00e3o me sentia&#8230;\u00bb \u00abPobrezinho\u00bb, acrescentava Domingos, \u00abvoc\u00ea cedeu ao dem\u00f4nio, que estava muito bem disposto a receb\u00ea-lo; mas agora voc\u00ea est\u00e1 ainda mais indisposto, e at\u00e9 o vejo de mau humor. Vamos, experimente ir se confessar, fa\u00e7a um esfor\u00e7o e procure confessar-se bem, e ver\u00e1 de quanta alegria ficar\u00e1 cheio o seu cora\u00e7\u00e3o.\u00bb Na maioria das vezes, depois que aquele se confessava, ia logo ao encontro de Domingos com o cora\u00e7\u00e3o cheio de contentamento: \u00ab\u00c9 verdade\u00bb, dizia, \u00abestou realmente contente; daqui em diante quero me confessar com mais frequ\u00eancia.\u00bb<\/p>\n<p>Nas comunidades de jovens costuma haver alguns que, por serem um pouco rudes, ignorantes, menos educados ou atormentados por alguma tristeza, s\u00e3o geralmente deixados de lado pelos companheiros. Esses sentem o peso do abandono justamente quando mais precisariam do conforto de um amigo.<\/p>\n<p>Esses eram os amigos de Domingos. Aproximava-se deles, alegrava-os com alguma boa conversa e dava-lhes bons conselhos; por isso aconteceu muitas vezes que jovens decididos a entregar-se \u00e0 desordem, animados pelas palavras caridosas de S\u00e1vio, voltavam a bons sentimentos.<\/p>\n<p>Por esse motivo, todos os que tinham algum problema de sa\u00fade pediam Domingos como enfermeiro, e os que tinham alguma afli\u00e7\u00e3o sentiam consolo ao exp\u00f4-la a ele. Assim tinha o caminho aberto para exercer continuamente a caridade para com o pr\u00f3ximo e aumentar seus m\u00e9ritos diante de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838023\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIII. Seu esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o &#8211; Devo\u00e7\u00e3o \u00e0 M\u00e3e de Deus &#8211; O m\u00eas de Maria<a name=\"_Toc504540964\"><\/a><a name=\"_Toc504541399\"><\/a><a name=\"_Toc504541961\"><\/a><a name=\"_Toc530304058\"><\/a><a name=\"_Toc24283671\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Entre os dons com que Deus o enriqueceu, destacava-se o fervor na ora\u00e7\u00e3o. Seu esp\u00edrito estava t\u00e3o habituado a conversar com Deus que, em qualquer lugar, mesmo em meio aos mais ruidosos tumultos, recolhia os pensamentos e, com piedosos afetos, elevava o cora\u00e7\u00e3o a Deus.<\/p>\n<p>Quando se punha a rezar em comum, parecia verdadeiramente um anjinho: im\u00f3vel e inteiramente composto em atitude devota, sem se apoiar em lugar algum al\u00e9m dos joelhos, com o rosto sereno, a cabe\u00e7a um pouco inclinada e os olhos baixos; dir-se-ia outro S\u00e3o Lu\u00eds.<\/p>\n<p>Bastava v\u00ea-lo para ficar edificado. No ano de 1854, o senhor conde Cays foi eleito prior da Companhia de S\u00e3o Lu\u00eds, erigida neste Orat\u00f3rio. Na primeira vez em que participou de nossas fun\u00e7\u00f5es, viu um jovem rezando com atitude t\u00e3o devota que ficou cheio de admira\u00e7\u00e3o. Terminadas as fun\u00e7\u00f5es sagradas, quis informar-se e saber quem era aquele menino que havia sido objeto de sua admira\u00e7\u00e3o: era Domingos S\u00e1vio.<\/p>\n<p>At\u00e9 sua recrea\u00e7\u00e3o era quase sempre dividida pela metade; uma parte era geralmente passada em alguma leitura piedosa ou em alguma ora\u00e7\u00e3o que ia fazer na igreja com alguns companheiros, em sufr\u00e1gio das almas do purgat\u00f3rio ou em honra de Maria Sant\u00edssima.<\/p>\n<p>A devo\u00e7\u00e3o de Domingos \u00e0 M\u00e3e de Deus era muito grande. Em honra dela fazia todos os dias alguma mortifica\u00e7\u00e3o. Nunca fitava no rosto pessoas do outro sexo; indo \u00e0 escola, nunca levantava os olhos. \u00c0s vezes passava perto de espet\u00e1culos p\u00fablicos, que os companheiros olhavam com tanta ansiedade que j\u00e1 n\u00e3o sabiam onde estavam. Perguntado se aqueles espet\u00e1culos lhe tinham agradado, S\u00e1vio respondia que nada havia visto. Certa vez, um companheiro, quase irritado, repreendeu-o dizendo: \u00abEnt\u00e3o, para que voc\u00ea quer os olhos, se n\u00e3o os usa para olhar essas coisas?\u00bb \u00abQuero us\u00e1-los\u00bb, respondeu, \u00abpara contemplar o rosto de nossa M\u00e3e celestial Maria quando, se com a ajuda de Deus eu for digno, for encontr\u00e1-la no para\u00edso.\u00bb<\/p>\n<p>Tinha especial devo\u00e7\u00e3o ao Imaculado Cora\u00e7\u00e3o de Maria. Todas as vezes que ia \u00e0 igreja, dirigia-se diante do altar dela para pedir-lhe a gra\u00e7a de conservar o cora\u00e7\u00e3o sempre longe de todo afeto impuro. \u00abMaria\u00bb, dizia, \u00abquero ser sempre vosso filho: obtende-me morrer antes que eu cometa um pecado contr\u00e1rio \u00e0 virtude da mod\u00e9stia.\u00bb<\/p>\n<p>Todas as sextas-feiras escolhia um per\u00edodo da recrea\u00e7\u00e3o e ia \u00e0 igreja com outros companheiros para recitar a coroa das sete dores de Maria, ou pelo menos as ladainhas de Nossa Senhora das Dores.<\/p>\n<p>N\u00e3o s\u00f3 ele era devoto de Maria Sant\u00edssima, mas sentia grande alegria quando podia levar algu\u00e9m a praticar atos de piedade em honra dela. Certo s\u00e1bado havia convidado um companheiro a ir com ele \u00e0 igreja recitar as v\u00e9speras da Bem-Aventurada Virgem. O outro cedia de m\u00e1 vontade, alegando que estava com frio nas m\u00e3os. Domingos tirou as luvas e lhas deu, e assim foram ambos \u00e0 igreja. Outra vez tirou a pequena capa dos pr\u00f3prios ombros para emprest\u00e1-la a outro, a fim de que fosse de boa vontade com ele \u00e0 igreja rezar. Quem n\u00e3o se sente tomado de admira\u00e7\u00e3o diante de tais atos de generosa piedade?<\/p>\n<p>Em nenhum per\u00edodo Domingos se mostrava mais fervoroso para com Maria, nossa celeste protetora, do que no m\u00eas de maio. Combinava com outros fazer todos os dias daquele m\u00eas alguma pr\u00e1tica particular, al\u00e9m do que se realizava publicamente na igreja. Preparava uma s\u00e9rie de exemplos edificantes que contava com grande prazer para animar os outros a serem devotos de Maria. Falava dela frequentemente durante a recrea\u00e7\u00e3o e animava todos a confessar-se e frequentar a santa Comunh\u00e3o, especialmente naquele m\u00eas. Dava ele pr\u00f3prio o exemplo, aproximando-se todos os dias da mesa eucar\u00edstica com um recolhimento que n\u00e3o poderia ser maior.<\/p>\n<p>Um curioso epis\u00f3dio mostra a ternura de seu cora\u00e7\u00e3o para com a devo\u00e7\u00e3o a Maria. Os alunos do dormit\u00f3rio onde ele dormia decidiram fazer, \u00e0s pr\u00f3prias custas, um pequeno altar elegante para solenizar o encerramento do m\u00eas de Maria. Domingos estava inteiramente ocupado com o assunto; mas, quando se chegou \u00e0 quota que cada um devia pagar, exclamou:<em> \u00abAi <\/em>de mim! <em>Agora estamos bem! Para essas coisas \u00e9 preciso dinheiro, e eu n\u00e3o tenho nenhum centavo no bolso. Mesmo assim quero fazer alguma coisa a qualquer<\/em> custo.\u00bb Foi, pegou um livro que recebera como pr\u00eamio e, depois de pedir licen\u00e7a ao superior, voltou cheio de alegria dizendo: \u00abCompanheiros, agora tamb\u00e9m posso contribuir para honrar Maria: peguem este livro e tirem dele a utilidade que puderem; esta \u00e9 a minha oferta.\u00bb<\/p>\n<p>\u00c0 vista daquele ato espont\u00e2neo e t\u00e3o generoso, os companheiros se comoveram e quiseram tamb\u00e9m oferecer livros e outros objetos. Com eles foi feita uma pequena rifa, cujo resultado foi suficiente para cobrir as despesas necess\u00e1rias.<\/p>\n<p>Terminado o altar, os jovens desejavam celebrar sua festa com a maior solenidade. Todos se empenhavam muito, mas, como n\u00e3o fora poss\u00edvel terminar completamente a ornamenta\u00e7\u00e3o, era necess\u00e1rio trabalhar durante a noite anterior \u00e0 festa. \u00abEu\u00bb, disse S\u00e1vio, \u00abpassarei de bom grado a noite trabalhando.\u00bb Mas seus companheiros, porque havia pouco tempo ele estivera doente, obrigaram-no a ir deitar-se. Ele n\u00e3o queria ceder e s\u00f3 foi para a cama por obedi\u00eancia. \u00abAo menos\u00bb, disse a um dos companheiros, \u00abassim que tudo estiver terminado, venha logo me acordar, para que eu possa ser dos primeiros a contemplar o altar preparado em honra de nossa querida M\u00e3e.\u00bb<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838024\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIV. Sua frequ\u00eancia aos santos Sacramentos da Confiss\u00e3o e da Comunh\u00e3o<a name=\"_Toc504540965\"><\/a><a name=\"_Toc504541400\"><\/a><a name=\"_Toc504541962\"><\/a><a name=\"_Toc530304059\"><\/a><a name=\"_Toc24283672\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A experi\u00eancia comprova que os mais s\u00f3lidos sustent\u00e1culos da juventude s\u00e3o os sacramentos da Confiss\u00e3o e da Comunh\u00e3o. Dai-me um jovem que frequente esses Sacramentos, e o vereis crescer na juventude, chegar \u00e0 idade adulta e alcan\u00e7ar, se assim agradar a Deus, a mais avan\u00e7ada velhice com uma conduta que serve de exemplo a todos os que o conhecem. Compreendam esta m\u00e1xima os jovens, para pratic\u00e1-la; compreendam-na todos os que se ocupam de sua educa\u00e7\u00e3o, para recomend\u00e1-la.<\/p>\n<p>Antes que S\u00e1vio viesse morar no Orat\u00f3rio, frequentava esses dois Sacramentos uma vez por m\u00eas, segundo o costume das escolas. Depois passou a frequent\u00e1-los com muito maior assiduidade. Certo dia ouviu do p\u00falpito esta m\u00e1xima: \u00abJovens, se quereis perseverar no caminho do c\u00e9u, recomendam-se tr\u00eas coisas: aproximai-vos frequentemente do sacramento da Confiss\u00e3o, frequentai a santa Comunh\u00e3o e escolhei um confessor a quem ouseis abrir o cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o o troqueis sem necessidade.\u00bb Domingos compreendeu a import\u00e2ncia desses conselhos.<\/p>\n<p>Come\u00e7ou ent\u00e3o a escolher para si um confessor, que conservou regularmente durante todo o tempo em que permaneceu entre n\u00f3s. Para que este pudesse formar um ju\u00edzo exato de sua consci\u00eancia, quis, como se disse, fazer a confiss\u00e3o geral. Come\u00e7ou confessando-se a cada quinze dias, depois a cada oito dias, comungando com a mesma frequ\u00eancia. O confessor, observando o grande progresso que fazia nas coisas espirituais, aconselhou-o a comungar tr\u00eas vezes por semana e, no espa\u00e7o de um ano, permitiu-lhe tamb\u00e9m a Comunh\u00e3o di\u00e1ria.<\/p>\n<p>Durante algum tempo foi dominado por escr\u00fapulos; por isso queria confessar-se a cada quatro dias e at\u00e9 com maior frequ\u00eancia; mas seu diretor espiritual n\u00e3o o permitiu e o manteve na obedi\u00eancia da confiss\u00e3o semanal.<\/p>\n<p>Tinha com ele confian\u00e7a ilimitada. Falava-lhe com toda simplicidade das coisas de consci\u00eancia at\u00e9 mesmo fora da confiss\u00e3o. Algu\u00e9m o aconselhara a mudar de confessor de vez em quando, mas ele nunca quis ceder. \u00abO confessor\u00bb, dizia, \u00ab\u00e9 o m\u00e9dico da alma, e n\u00e3o se costuma mudar de m\u00e9dico sen\u00e3o por falta de confian\u00e7a nele ou porque a doen\u00e7a est\u00e1 quase sem esperan\u00e7a. Eu n\u00e3o me encontro em nenhum desses casos. Tenho plena confian\u00e7a no confessor, que com bondade paterna e solicitude trabalha pelo bem de minha alma; e n\u00e3o vejo em mim mal algum que ele n\u00e3o possa curar.\u00bb Contudo, o diretor ordin\u00e1rio aconselhou-o a mudar de confessor algumas vezes, especialmente por ocasi\u00e3o dos exerc\u00edcios espirituais; e ele, sem apresentar dificuldade, obedecia prontamente.<\/p>\n<p>S\u00e1vio sentia-se feliz. \u00abSe tenho alguma pena no cora\u00e7\u00e3o\u00bb, dizia, \u00abvou ao confessor, que me aconselha segundo a vontade de Deus; pois Jesus Cristo disse que a voz do confessor para n\u00f3s \u00e9 como a voz de Deus. Se depois quero alguma coisa grande, vou receber a H\u00f3stia santa, na qual se encontra <em>corpus quod pro nobis traditum est, <\/em>isto \u00e9, aquele mesmo corpo, sangue, alma e divindade que Jesus Cristo ofereceu por n\u00f3s ao seu Eterno Pai na cruz. O que me falta para ser feliz? Nada neste mundo. Falta-me apenas poder contemplar face a face no c\u00e9u aquele que agora, com os olhos da f\u00e9, vejo e adoro no altar.\u00bb<\/p>\n<p>Com esses pensamentos Domingos passava dias verdadeiramente felizes. Da\u00ed nascia aquela jovialidade, aquela alegria celeste que transparecia em todas as suas a\u00e7\u00f5es. E n\u00e3o pensemos que ele n\u00e3o compreendesse a import\u00e2ncia do que fazia nem levasse um modo de vida crist\u00e3o adequado a quem deseja comungar com frequ\u00eancia. Sua conduta era irrepreens\u00edvel sob todos os aspectos. Convidei seus companheiros a dizer-me se, nos tr\u00eas anos em que morou entre n\u00f3s, haviam notado em S\u00e1vio algum defeito a corrigir ou alguma virtude a recomendar-lhe; mas todos afirmaram de comum acordo que nunca encontraram nele coisa que merecesse corre\u00e7\u00e3o, nem saberiam que virtude acrescentar-lhe.<\/p>\n<p>Sua prepara\u00e7\u00e3o para receber a santa Eucaristia era piedosa e edificante. Na noite anterior \u00e0 Comunh\u00e3o, antes de se deitar, fazia uma ora\u00e7\u00e3o com esse fim e conclu\u00eda sempre assim: \u00abSeja louvado e agradecido a todo momento o Sant\u00edssimo e Divin\u00edssimo Sacramento.\u00bb Pela manh\u00e3 fazia uma prepara\u00e7\u00e3o suficiente; mas sua a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as n\u00e3o tinha limite. Na maioria das vezes, se n\u00e3o fosse chamado, esquecia o caf\u00e9 da manh\u00e3, a recrea\u00e7\u00e3o e \u00e0s vezes at\u00e9 a aula, permanecendo em ora\u00e7\u00e3o; ou melhor, em contempla\u00e7\u00e3o da divina bondade que de modo inef\u00e1vel comunica aos homens os tesouros de sua infinita miseric\u00f3rdia.<\/p>\n<p>Era para ele verdadeira del\u00edcia poder passar algumas horas diante de Jesus sacramentado. Pelo menos uma vez ao dia ia invariavelmente visit\u00e1-lo, convidando outros a acompanh\u00e1-lo. Sua ora\u00e7\u00e3o predileta era uma pequena coroa<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> ao Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, para reparar as inj\u00farias que recebe dos hereges, dos infi\u00e9is e dos maus crist\u00e3os.<\/p>\n<p>Para que suas Comunh\u00f5es fossem mais frutuosas e, ao mesmo tempo, cada dia lhe dessem novo est\u00edmulo a faz\u00ea-las com fervor, havia estabelecido para cada dia uma inten\u00e7\u00e3o especial.<\/p>\n<p>Eis como distribu\u00eda as Comunh\u00f5es durante a semana.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Domingo. <\/em>Em honra da Sant\u00edssima Trindade.<\/p>\n<p><em>Segunda-feira.<\/em> Por meus benfeitores espirituais e temporais.<\/p>\n<p><em>Ter\u00e7a-feira.<\/em> Em honra de S\u00e3o Domingos e de meu Anjo da Guarda.<\/p>\n<p><em>Quarta-feira.<\/em> A Nossa Senhora das Dores, pela convers\u00e3o dos pecadores.<\/p>\n<p><em>Quinta-feira.<\/em> Em sufr\u00e1gio das almas do purgat\u00f3rio.<\/p>\n<p><em>Sexta-feira.<\/em> Em honra da Paix\u00e3o de Jesus Cristo.<\/p>\n<p><em>S\u00e1bado. <\/em>Em honra de Maria Sant\u00edssima, para obter sua prote\u00e7\u00e3o na vida e na morte.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Participava com transporte de alegria de todas as pr\u00e1ticas relacionadas ao Sant\u00edssimo Sacramento. Se acontecia encontrar o Vi\u00e1tico sendo levado a algum enfermo, ajoelhava-se imediatamente onde quer que estivesse; e, se o tempo lhe permitia, acompanhava-o at\u00e9 o t\u00e9rmino da fun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Certo dia o Vi\u00e1tico passou perto dele enquanto chovia e as ruas estavam enlameadas. N\u00e3o havendo lugar melhor, ajoelhou-se no meio da lama. Depois um companheiro o repreendeu, observando-lhe que n\u00e3o era necess\u00e1rio sujar assim as roupas, nem o Senhor mandava tal coisa. Ele respondeu simplesmente: \u00abJoelhos e cal\u00e7as, tudo \u00e9 do Senhor; por isso tudo deve servir para prestar-lhe honra e gl\u00f3ria. Quando Ele passa perto de mim, n\u00e3o s\u00f3 me lan\u00e7aria na lama para honr\u00e1-lo, mas me precipitaria numa fornalha, porque assim me tornaria participante daquele fogo de caridade infinita que o levou a instituir este grande Sacramento.\u00bb<\/p>\n<p>Em circunst\u00e2ncia semelhante, viu um dia um soldado que permanecia de p\u00e9 justamente no momento em que passava perto dele o Sant\u00edssimo Sacramento. N\u00e3o ousando convid\u00e1-lo a ajoelhar-se, tirou do bolso seu pequeno len\u00e7o, estendeu-o no ch\u00e3o sujo e fez sinal ao soldado para que o utilizasse. O soldado mostrou-se primeiro confuso; depois, deixando de lado o len\u00e7o, ajoelhou-se no meio da pr\u00f3pria rua.<\/p>\n<p>Na festa de Corpus Christi, juntamente com outros companheiros, foi vestido de cl\u00e9rigo e enviado \u00e0 prociss\u00e3o da par\u00f3quia. Foi com a maior alegria e considerou isso um presente precioso, maior do que qualquer outro que se lhe pudesse fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838025\"><\/a>CAP\u00cdTULO XV. Suas penit\u00eancias<a name=\"_Toc504540966\"><\/a><a name=\"_Toc504541401\"><\/a><a name=\"_Toc504541963\"><\/a><a name=\"_Toc530304060\"><\/a><a name=\"_Toc24283673\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua idade, a sa\u00fade delicada e a inoc\u00eancia de sua vida certamente o teriam dispensado de toda esp\u00e9cie de penit\u00eancia; mas ele sabia que dificilmente um jovem pode conservar a inoc\u00eancia sem penit\u00eancia, e esse pensamento fazia com que a vida de sofrimentos lhe parecesse coberta de rosas. Quando falo de penit\u00eancia, n\u00e3o me refiro a suportar pacientemente as inj\u00farias e os desgostos, nem \u00e0 cont\u00ednua mortifica\u00e7\u00e3o e compostura de todos os seus sentidos na ora\u00e7\u00e3o, na escola, no estudo e na recrea\u00e7\u00e3o. Essas penit\u00eancias eram nele cont\u00ednuas.<\/p>\n<p>Falo somente das penit\u00eancias que afligem o corpo. Em seu fervor havia decidido jejuar todos os s\u00e1bados a p\u00e3o e \u00e1gua em honra da Bem-Aventurada Virgem, mas o confessor o proibiu; quis jejuar durante a Quaresma, mas depois de uma semana a coisa chegou ao conhecimento do diretor da casa e foi imediatamente proibida. Queria pelo menos deixar de tomar o caf\u00e9 da manh\u00e3, mas tamb\u00e9m isso lhe foi proibido. A raz\u00e3o pela qual n\u00e3o se permitiam essas penit\u00eancias era impedir que sua sa\u00fade delicada se arruinasse inteiramente. O que fazer ent\u00e3o? Proibido de fazer abstin\u00eancia na comida, come\u00e7ou a afligir o corpo de outras maneiras. Passou a colocar lascas de madeira e peda\u00e7os de tijolo na cama para tornar inc\u00f4modo o pr\u00f3prio repouso; queria usar uma esp\u00e9cie de cil\u00edcio; mas todas essas coisas tamb\u00e9m lhe foram proibidas. Ent\u00e3o recorreu a um novo meio. No outono e no inverno deixou avan\u00e7ar a esta\u00e7\u00e3o sem aumentar as cobertas da cama, de modo que j\u00e1 est\u00e1vamos em janeiro e ele ainda se cobria como no ver\u00e3o. Uma manh\u00e3, tendo ficado na cama por algum mal-estar, o diretor foi visit\u00e1-lo. Vendo-o todo encolhido, aproximou-se e percebeu que n\u00e3o tinha sobre si sen\u00e3o uma coberta fina. \u00abPor que voc\u00ea fez isso?\u00bb, perguntou-lhe. \u00abQuer morrer de frio?\u00bb \u2013 \u00abN\u00e3o\u00bb, respondeu, \u00abn\u00e3o morrerei de frio. Jesus, na gruta de Bel\u00e9m e quando pendia na cruz, estava menos coberto do que eu.\u00bb<\/p>\n<p>Ent\u00e3o lhe foi absolutamente proibido empreender qualquer esp\u00e9cie de penit\u00eancia sem antes pedir licen\u00e7a expressa; a essa ordem, embora com pesar, submeteu-se. Certa vez encontrei-o muito aflito, exclamando: \u00abPobre de mim! Estou realmente embara\u00e7ado. O Salvador diz que, se eu n\u00e3o fizer penit\u00eancia, n\u00e3o irei ao para\u00edso; e a mim \u00e9 proibido faz\u00ea-la. Qual ser\u00e1, ent\u00e3o, o meu para\u00edso?\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 A penit\u00eancia que o Senhor quer de voc\u00ea \u2013 disse-lhe \u2013 \u00e9 a obedi\u00eancia. Obede\u00e7a, e isso basta.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o poderia permitir-me alguma outra penit\u00eancia?<\/p>\n<p>\u2013 Sim: s\u00e3o permitidas as penit\u00eancias de suportar pacientemente as inj\u00farias, se alguma lhe for feita; tolerar com resigna\u00e7\u00e3o o calor, o frio, o vento, a chuva, o cansa\u00e7o e todos os inc\u00f4modos de sa\u00fade que Deus quiser enviar-lhe.<\/p>\n<p>\u2013 Mas isso se sofre por necessidade.<\/p>\n<p>\u2013 Aquilo que voc\u00ea teria de sofrer por necessidade, ofere\u00e7a-o a Deus, e se tornar\u00e1 virtude e m\u00e9rito para sua alma.<\/p>\n<p>Contente e resignado com esses conselhos, foi embora tranquilo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838026\"><\/a>CAP\u00cdTULO XVI. Mortifica\u00e7\u00f5es de todos os sentidos externos<\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem observava S\u00e1vio em sua compostura exterior encontrava nela tanta naturalidade que facilmente teria dito que o Senhor o havia criado assim. Mas aqueles que o conheceram de perto ou tiveram cuidado de sua educa\u00e7\u00e3o podem assegurar que havia grande esfor\u00e7o humano auxiliado pela gra\u00e7a de Deus.<\/p>\n<p>Seus olhos eram viv\u00edssimos, e ele precisava fazer n\u00e3o pequena viol\u00eancia a si mesmo para mant\u00ea-los recolhidos. \u00abNo come\u00e7o\u00bb, repetiu v\u00e1rias vezes a um amigo, \u00abquando me impus a lei de querer absolutamente dominar meus olhos, encontrei bastante dificuldade e, \u00e0s vezes, cheguei a sofrer fortes dores de cabe\u00e7a.\u00bb A reserva de seus olhares foi tal que, entre todos os que o conheceram, ningu\u00e9m se recorda de t\u00ea-lo visto lan\u00e7ar um \u00fanico olhar que ultrapassasse os limites da mais rigorosa mod\u00e9stia. \u00abOs olhos\u00bb, costumava dizer, \u00abs\u00e3o duas janelas. Pelas janelas passa aquilo que deixamos passar. E por estas janelas podemos fazer entrar um anjo ou o dem\u00f4nio com seus chifres e levar um ou outro a tornar-se senhor de nosso cora\u00e7\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>Certo dia aconteceu que um jovem de fora, imprudentemente, trouxe consigo um jornal em que havia figuras indecentes e irreligiosas. Uma multid\u00e3o de meninos o cercou para ver as maravilhas daquelas figuras, que teriam causado repugn\u00e2ncia at\u00e9 aos turcos e aos pr\u00f3prios pag\u00e3os. S\u00e1vio tamb\u00e9m correu, pensando de longe que ali mostravam alguma imagem devota.<\/p>\n<p>Mas, quando chegou perto, fez um gesto de surpresa e depois, quase sorrindo, pegou o papel e o rasgou em pedacinhos. Seus companheiros ficaram cheios de espanto, de modo que uns olhavam para os outros sem falar.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o ele falou assim: \u00abPobres de n\u00f3s! O Senhor nos deu os olhos para contemplar a beleza das coisas criadas por Ele, e voc\u00eas os usam para olhar essas indec\u00eancias inventadas pela mal\u00edcia dos homens em preju\u00edzo de nossa alma? Talvez tenham esquecido o que tantas vezes foi pregado? O Salvador nos diz que, lan\u00e7ando um s\u00f3 olhar mau, manchamos nossa alma de culpa; e voc\u00eas alimentam os olhos com objetos desse g\u00eanero?\u00bb<\/p>\n<p>\u00abN\u00f3s\u00bb, respondeu um, \u00abest\u00e1vamos olhando essas figuras para rir.\u00bb \u00abSim, sim, para rir; e enquanto isso voc\u00eas se preparam para ir ao inferno rindo&#8230; Mas ainda rir\u00e3o se tiverem a desgra\u00e7a de cair l\u00e1?\u00bb<\/p>\n<p>\u00abMas n\u00f3s\u00bb, retomou outro, \u00abn\u00e3o vemos tanto mal naquelas figuras.\u00bb<\/p>\n<p>\u00abPior ainda; n\u00e3o enxergar grande mal em olhar semelhantes indec\u00eancias \u00e9 sinal de que os olhos de voc\u00eas j\u00e1 se acostumaram a contempl\u00e1-las; e esses h\u00e1bitos n\u00e3o os desculpam do mal, mas os tornam mais culpados.\u00bb<\/p>\n<p>\u00ab\u00d3 J\u00f3, \u00f3 J\u00f3! Voc\u00ea era velho, era santo, estava oprimido por uma doen\u00e7a que o fazia jazer estendido sobre um monte de esterco; e, apesar disso, fez um pacto com seus olhos para n\u00e3o lhes conceder a m\u00ednima liberdade diante de coisas indecorosas!\u00bb<\/p>\n<p>Diante dessas palavras todos se calaram, e ningu\u00e9m mais ousou fazer-lhe repreens\u00e3o alguma, nem sequer outra observa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c0 mod\u00e9stia dos olhos unia-se grande reserva no falar.<\/p>\n<p>Com raz\u00e3o ou sem ela, quando algu\u00e9m falava, ele se calava e muitas vezes interrompia a pr\u00f3pria palavra para dar lugar ao outro. Seus professores e demais superiores s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que nunca tiveram motivo sequer para adverti-lo por ter dito uma \u00fanica palavra fora de prop\u00f3sito no estudo, na escola, na igreja ou durante o cumprimento de algum dever de estudo ou de piedade. Mesmo nas ocasi\u00f5es em que recebia alguma afronta, sabia moderar a l\u00edngua e a c\u00f3lera.<\/p>\n<p>Certo dia advertira um companheiro sobre um mau h\u00e1bito. Este, em vez de acolher com gratid\u00e3o a advert\u00eancia recebida, deixou-se levar a excessos brutais. Cobriu-o de insultos e depois o golpeou com socos e pontap\u00e9s. S\u00e1vio poderia ter feito valer sua raz\u00e3o pela for\u00e7a, pois era maior em idade e em vigor. Contudo, n\u00e3o fez outra vingan\u00e7a sen\u00e3o a dos crist\u00e3os. Ficou, \u00e9 verdade, com o rosto todo vermelho, mas, contendo o \u00edmpeto da ira, limitou-se a dizer: \u00abEu perdoo voc\u00ea; voc\u00ea agiu mal; n\u00e3o trate os outros desse modo.\u00bb<\/p>\n<p>O que diremos, ent\u00e3o, da mortifica\u00e7\u00e3o dos outros sentidos do corpo? Limito-me a indicar apenas alguns fatos.<\/p>\n<p>No inverno sofria de frieiras nas m\u00e3os. Mas, por mais que sentisse dor, nunca foi ouvido dizer uma palavra nem dar sinal de queixa. Ao contr\u00e1rio, parecia at\u00e9 sentir prazer nisso. \u00abQuanto maiores forem as frieiras\u00bb, dizia, \u00abmais far\u00e3o bem \u00e0 sa\u00fade\u00bb, querendo indicar a sa\u00fade da alma. Muitos de seus companheiros afirmam que, nos rigorosos frios do inverno, costumava ir \u00e0 escola a passo lento, e isso pelo desejo de sofrer e fazer penit\u00eancia em tudo o que lhe oferecesse ocasi\u00e3o. \u00abV\u00e1rias vezes o vi\u00bb, dep\u00f5e um companheiro, \u00abno mais rigoroso inverno, rasgar a pele e at\u00e9 a carne com agulhas e pontas de pena, para que essas lacera\u00e7\u00f5es, transformando-se em feridas, o tornassem mais semelhante ao seu Divino Mestre.\u00bb<\/p>\n<p>Nas comunidades de jovens encontram-se alguns que nunca est\u00e3o satisfeitos com nada. Ora se queixam das fun\u00e7\u00f5es religiosas, ora da disciplina, ora do repouso ou da comida; em tudo encontram motivo para desaprovar.<\/p>\n<p>Esses s\u00e3o uma verdadeira cruz para os superiores, porque o descontentamento de um s\u00f3 se comunica aos outros companheiros, \u00e0s vezes com n\u00e3o pequeno preju\u00edzo para a comunidade. A conduta de S\u00e1vio era inteiramente oposta \u00e0 desses jovens.<\/p>\n<p>Jamais seus l\u00e1bios proferiam uma palavra de queixa, nem pelo calor do ver\u00e3o, nem pelo frio do inverno. Fizesse bom ou mau tempo, estava sempre igualmente alegre. Qualquer que fosse a comida servida \u00e0 mesa, mostrava-se satisfeito com tudo. Antes, com admir\u00e1vel habilidade, encontrava nisso um meio de mortificar-se. Quando alguma coisa era censurada pelos outros por estar cozida demais ou de menos, pouco ou muito salgada, ele, ao contr\u00e1rio, mostrava-se contente, dizendo que era justamente assim que gostava.<\/p>\n<p>Era seu costume permanecer no refeit\u00f3rio depois dos companheiros, recolher as migalhas de p\u00e3o deixadas sobre a mesa ou espalhadas pelo ch\u00e3o e com\u00ea-las como coisa saborosa. Aos que se admiravam disso, ocultava seu esp\u00edrito de penit\u00eancia dizendo: \u00abOs p\u00e3es n\u00e3o se comem inteiros; e, se j\u00e1 est\u00e3o reduzidos a migalhas, \u00e9 um trabalho que j\u00e1 foi feito para os dentes.\u00bb<\/p>\n<p>Toda sobra de sopa, prato ou qualquer outro alimento era recolhida e comida por ele. E n\u00e3o fazia isso por gula, pois muitas vezes dava aos outros companheiros a pr\u00f3pria por\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Perguntado por que se preocupava tanto em recolher aqueles restos que poderiam causar repugn\u00e2ncia a algu\u00e9m, respondia:<\/p>\n<p>\u00abTudo o que temos no mundo \u00e9 dom precioso que Deus nos fez; mas, de todos os dons, depois de sua santa gra\u00e7a, o maior \u00e9 o alimento com que conserva nossa vida. Por isso, a menor parte desse dom merece nossa gratid\u00e3o e \u00e9 verdadeiramente digna de ser guardada com a mais escrupulosa dilig\u00eancia.\u00bb<\/p>\n<p>Limpar os sapatos, escovar a roupa dos companheiros, prestar aos enfermos os servi\u00e7os mais humildes, varrer e fazer trabalhos semelhantes eram para ele agrad\u00e1vel passatempo. \u00abCada um fa\u00e7a o que pode\u00bb, costumava dizer. \u00abEu n\u00e3o sou capaz de fazer coisas grandes, mas aquilo que posso, quero faz\u00ea-lo para maior gl\u00f3ria de Deus; e espero que Deus, em sua infinita bondade, queira aceitar estas minhas pobres ofertas.\u00bb<\/p>\n<p>Comer coisas contr\u00e1rias ao seu gosto, evitar as que lhe agradariam; dominar o olhar at\u00e9 nas coisas indiferentes; permanecer onde sentia cheiro desagrad\u00e1vel; renunciar \u00e0 pr\u00f3pria vontade; suportar com perfeita resigna\u00e7\u00e3o tudo o que causasse afli\u00e7\u00e3o ao corpo ou ao esp\u00edrito: eram atos de virtude que Domingos praticava todos os dias e podemos dizer at\u00e9 a cada momento de sua vida.<\/p>\n<p>Omito, portanto, muitos outros fatos desse g\u00eanero, todos concorrendo para mostrar qu\u00e3o grande era em Domingos o esp\u00edrito de penit\u00eancia, de caridade e de mortifica\u00e7\u00e3o em todos os sentidos da pessoa e, ao mesmo tempo, qu\u00e3o engenhosa era sua virtude em saber aproveitar as grandes e pequenas ocasi\u00f5es, e at\u00e9 as pr\u00f3prias coisas indiferentes, para santificar-se e aumentar seus m\u00e9ritos diante do Senhor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838027\"><\/a>CAP\u00cdTULO XVII. A Companhia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o<a name=\"_Toc504540967\"><\/a><a name=\"_Toc504541402\"><\/a><a name=\"_Toc504541964\"><\/a><a name=\"_Toc530304061\"><\/a><a name=\"_Toc24283674\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Toda a vida de Domingos pode ser chamada um exerc\u00edcio de devo\u00e7\u00e3o a Maria Sant\u00edssima. N\u00e3o deixava escapar ocasi\u00e3o alguma de prestar-lhe alguma homenagem. No ano de 1854, o supremo Pastor da Igreja definia como dogma de f\u00e9 a Imaculada Concei\u00e7\u00e3o de Maria. S\u00e1vio desejava ardentemente tornar vivo e duradouro entre n\u00f3s o pensamento desse augusto t\u00edtulo dado pela Igreja \u00e0 Rainha do C\u00e9u. \u00abEu gostaria\u00bb, costumava dizer, \u00abde fazer alguma coisa em honra de Maria, mas faz\u00ea-la depressa, porque tenho medo de que me falte tempo.\u00bb<\/p>\n<p>Guiado, portanto, por sua habitual e engenhosa caridade, escolheu alguns de seus companheiros de confian\u00e7a e convidou-os a unir-se com ele para formar uma companhia <em>chamada da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>O objetivo era procurar para si a prote\u00e7\u00e3o da grande M\u00e3e de Deus durante a vida e especialmente no momento da morte. Para esse fim, S\u00e1vio propunha dois meios: praticar e promover atos de piedade em honra de Maria Imaculada e a Comunh\u00e3o frequente. De acordo com seus amigos, redigiu um regulamento e, depois de muitas dilig\u00eancias, no dia 8 de junho de 1856, nove meses antes de sua morte, leu-o com eles diante do altar de Maria Sant\u00edssima. Transcrevo-o de bom grado, pensando que possa servir de norma a outros para fazer o mesmo. Eis, portanto, seu teor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00abN\u00f3s, Domingos S\u00e1vio etc. (segue o nome dos outros companheiros), para assegurarmos, na vida e na morte, o patroc\u00ednio da Bem-Aventurada Virgem Imaculada e para nos dedicarmos inteiramente ao seu santo servi\u00e7o, no dia 8 de junho, todos fortalecidos pelos SS. Sacramentos da Confiss\u00e3o e da Comunh\u00e3o e resolvidos a professar para com nossa M\u00e3e uma devo\u00e7\u00e3o filial e constante, declaramos diante de seu altar, e com o consentimento de nosso diretor espiritual, querer imitar, na medida em que nossas for\u00e7as o permitirem, LU\u00cdS COMOLLO<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por isso nos obrigamos:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>1\u00ba A observar rigorosamente as regras da casa.<\/p>\n<p>2\u00ba A edificar os companheiros, advertindo-os caridosamente e estimulando-os ao bem com as palavras, mas muito mais com o bom exemplo.<\/p>\n<p>3\u00ba A empregar exatamente o tempo. Para assegurar-nos a perseveran\u00e7a no modo de vida a que pretendemos obrigar-nos, submetemos o seguinte regulamento ao nosso diretor.<\/p>\n<ol>\n<p>N. 1. Como regra principal adotaremos rigorosa obedi\u00eancia aos nossos superiores, aos quais nos submetemos com confian\u00e7a ilimitada.<\/p>\n<p>N. 2. O cumprimento dos pr\u00f3prios deveres ser\u00e1 nossa primeira e especial ocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N. 3. A caridade rec\u00edproca unir\u00e1 nossos cora\u00e7\u00f5es e nos far\u00e1 amar indistintamente nossos irm\u00e3os, os quais advertiremos com do\u00e7ura quando parecer \u00fatil uma corre\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N. 4. Escolher-se-\u00e1 meia hora por semana para nos reunirmos e, depois da invoca\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo e de uma breve leitura espiritual, ser\u00e3o tratados os progressos da Companhia na devo\u00e7\u00e3o e na virtude.<\/p>\n<p>N. 5. Separadamente, por\u00e9m, advertir-nos-emos daqueles defeitos dos quais devemos corrigir-nos.<\/p>\n<p>N. 6. Procuraremos evitar entre n\u00f3s qualquer m\u00ednimo desgosto, suportando com paci\u00eancia os companheiros e as demais pessoas inc\u00f4modas.<\/p>\n<p>N. 7. N\u00e3o se fixa nenhuma ora\u00e7\u00e3o determinada, pois o tempo que restar depois de cumprido nosso dever ser\u00e1 consagrado \u00e0quilo que parecer mais \u00fatil \u00e0 nossa alma.<\/p>\n<p>N. 8. Admitimos, contudo, estas poucas pr\u00e1ticas:<\/p>\n<p>\u00a7 1\u00ba A frequ\u00eancia aos SS. Sacramentos, t\u00e3o frequentemente quanto nos for permitido.<\/p>\n<p>\u00a7 2\u00ba Aproximar-nos-emos da Mesa Eucar\u00edstica todos os domingos, festas de preceito, em todas as novenas e solenidades de Maria Sant\u00edssima e dos santos Protetores do Orat\u00f3rio.<\/p>\n<p>\u00a7 3\u00ba Durante a semana procuraremos comungar na quinta-feira, a menos que alguma ocupa\u00e7\u00e3o grave nos impe\u00e7a.<\/p>\n<p>N. 9. Todos os dias, especialmente durante a recita\u00e7\u00e3o do Ros\u00e1rio, recomendaremos nossa sociedade a Maria, pedindo-lhe que nos obtenha a gra\u00e7a da perseveran\u00e7a.<\/p>\n<p>N. 10. Procuraremos consagrar todos os s\u00e1bados, em honra de Maria, alguma pr\u00e1tica especial ou ato de piedade crist\u00e3 em honra de sua Imaculada Concei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N. 11. Manteremos, portanto, comportamento ainda mais edificante na ora\u00e7\u00e3o, nas leituras devotas, durante os of\u00edcios divinos, no estudo e na escola.<\/p>\n<p>N. 12. Guardaremos com o m\u00e1ximo zelo a santa palavra de Deus e voltaremos a meditar as verdades que tivermos ouvido.<\/p>\n<p>N. 13. Evitaremos qualquer perda de tempo para proteger nosso esp\u00edrito das tenta\u00e7\u00f5es que costumam atacar-nos fortemente no \u00f3cio; por isso:<\/p>\n<p>N. 14. Depois de satisfazer \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias de cada um, consagraremos as horas que restarem livres a ocupa\u00e7\u00f5es \u00fateis, como leituras devotas e instrutivas ou a ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>N. 15. A recrea\u00e7\u00e3o \u00e9 recomendada ou pelo menos permitida depois das refei\u00e7\u00f5es, depois da escola e depois do estudo.<\/p>\n<p>N. 16. Procuraremos manifestar aos nossos superiores qualquer coisa que possa favorecer nossa conduta moral.<\/p>\n<p>N. 17. Procuraremos tamb\u00e9m economizar muito no uso das permiss\u00f5es que nos s\u00e3o concedidas pela bondade de nossos superiores, pois um de nossos objetivos especiais \u00e9 certamente a exata observ\u00e2ncia das regras da casa, tantas vezes prejudicada pelo abuso dessas permiss\u00f5es.<\/p>\n<p>N. 18. Aceitaremos de nossos superiores aquilo que for destinado ao nosso alimento, sem jamais nos queixarmos da comida servida \u00e0 mesa, e procuraremos impedir tamb\u00e9m os outros de faz\u00ea-lo.<\/p>\n<p>N. 19. Quem desejar fazer parte desta sociedade dever\u00e1 antes de tudo purificar a consci\u00eancia pelo Sacramento da Confiss\u00e3o e alimentar-se \u00e0 Mesa Eucar\u00edstica; depois dever\u00e1 dar prova de sua conduta durante uma semana de experi\u00eancia, ler atentamente estas regras e prometer sua exata observ\u00e2ncia a Deus e a Maria Sant\u00edssima Imaculada.<\/p>\n<p>N. 20. No dia de sua admiss\u00e3o, os irm\u00e3os aproximar-se-\u00e3o da santa Comunh\u00e3o, pedindo \u00e0 Divina Majestade que conceda ao companheiro as virtudes da perseveran\u00e7a, da obedi\u00eancia e o verdadeiro amor de Deus.<\/p>\n<p>N. 21. A sociedade \u00e9 colocada sob os ausp\u00edcios da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o, cujo t\u00edtulo teremos e de quem usaremos uma medalha devota. Uma confian\u00e7a sincera, filial e ilimitada em Maria, uma singular ternura para com ela e uma devo\u00e7\u00e3o constante nos tornar\u00e3o superiores a todo obst\u00e1culo, firmes nas resolu\u00e7\u00f5es, rigorosos conosco mesmos, amorosos com o pr\u00f3ximo e exatos em tudo.<\/p>\n<p>Aconselhamos ainda aos irm\u00e3os que escrevam os santos nomes de Jesus e de Maria primeiro no cora\u00e7\u00e3o e na mente, depois nos livros e sobre os objetos que possam cair sob os olhos.<\/p>\n<p>Pedimos ao nosso diretor que examine estas regras e nos manifeste seu ju\u00edzo a respeito delas, assegurando-lhe que todos n\u00f3s dependemos inteiramente de sua vontade. Ele poder\u00e1 introduzir neste regulamento as modifica\u00e7\u00f5es que lhe parecerem convenientes.<\/p>\n<p>E Maria? Que ela aben\u00e7oe nossos esfor\u00e7os, pois a inspira\u00e7\u00e3o de dar vida a esta piedosa sociedade foi inteiramente sua. Que ela sorria para nossas esperan\u00e7as e atenda a nossos votos; e n\u00f3s, cobertos por seu manto e fortalecidos por seu patroc\u00ednio, desafiaremos as tempestades deste mar trai\u00e7oeiro e superaremos os assaltos do inimigo infernal. Assim confortados por ela, esperamos ser edifica\u00e7\u00e3o para os companheiros, consola\u00e7\u00e3o para os superiores e filhos prediletos de Maria; e, se Deus nos conceder gra\u00e7a e vida para servi-lo no minist\u00e9rio sacerdotal, empenharemos todas as nossas for\u00e7as em faz\u00ea-lo com o m\u00e1ximo zelo e, desconfiando de nossas for\u00e7as mas confiando ilimitadamente no aux\u00edlio divino, poderemos esperar que, depois deste vale de l\u00e1grimas, consolados pela presen\u00e7a de Maria, alcancemos com seguran\u00e7a, naquela \u00faltima hora, a recompensa eterna que Deus reserva a quem o serve em esp\u00edrito e verdade.<\/p>\n<p>O diretor do Orat\u00f3rio leu, de fato, o regulamento de vida acima exposto e, depois de examin\u00e1-lo atentamente, aprovou-o com as seguintes condi\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<ol>\n<li>As promessas mencionadas n\u00e3o t\u00eam for\u00e7a de voto.<\/li>\n<li>Tamb\u00e9m n\u00e3o obrigam sob pena de culpa alguma.<\/li>\n<li>Nas confer\u00eancias estabele\u00e7a-se alguma obra externa de caridade, como a limpeza da igreja, a assist\u00eancia ou o catecismo de algum menino mais ignorante.<\/li>\n<li>Dividam-se os dias da semana de modo que em cada dia haja algumas Comunh\u00f5es.<\/li>\n<li>N\u00e3o se acrescente nenhuma pr\u00e1tica religiosa sem especial permiss\u00e3o dos superiores.<\/li>\n<li>Proponha-se como objetivo fundamental promover a devo\u00e7\u00e3o a Maria Sant\u00edssima Imaculada e ao Sant\u00edssimo Sacramento.<\/li>\n<li>Antes de admitir algu\u00e9m, fa\u00e7a-se que leia a vida de Lu\u00eds Comollo<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838028\"><\/a>CAP\u00cdTULO XVIII. Suas amizades particulares &#8211; Suas rela\u00e7\u00f5es com o jovem Camilo G\u00e1vio<a name=\"_Toc504540968\"><\/a><a name=\"_Toc504541403\"><\/a><a name=\"_Toc504541965\"><\/a><a name=\"_Toc530304062\"><\/a><a name=\"_Toc24283675\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Todos eram amigos de Domingos; quem n\u00e3o o amava respeitava-o por suas virtudes. Ele sabia conviver bem com todos. Estava t\u00e3o firme na virtude que foi aconselhado a aproximar-se de alguns jovens um tanto indisciplinados para tentar ganh\u00e1-los para o Senhor. Aproveitava a recrea\u00e7\u00e3o, os jogos e at\u00e9 as conversas indiferentes para tirar delas algum proveito espiritual. Entretanto, os inscritos na sociedade da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o eram seus amigos particulares, com os quais, como se disse, reunia-se ora em confer\u00eancias espirituais, ora para realizar exerc\u00edcios de piedade crist\u00e3. Essas confer\u00eancias eram feitas com licen\u00e7a dos superiores, mas eram assistidas e dirigidas pelos pr\u00f3prios jovens. Nelas tratavam do modo de celebrar as novenas das principais solenidades, distribu\u00edam entre si as Comunh\u00f5es que cada um se encarregaria de fazer nos dias determinados da semana, designavam reciprocamente os jovens que necessitavam de assist\u00eancia moral, e cada um tomava algum deles como <em>cliente e <\/em>protegido, empregando todos os meios sugeridos pela caridade crist\u00e3 para encaminh\u00e1-lo \u00e0 virtude.<\/p>\n<p>S\u00e1vio era um dos mais animados e pode-se dizer que nessas confer\u00eancias fazia o papel de mestre.<\/p>\n<p>Poder-se-iam mencionar v\u00e1rios companheiros de S\u00e1vio que participavam dessas confer\u00eancias e tinham grande conviv\u00eancia com ele; mas, estando ainda vivos, parece prudente n\u00e3o falar deles. Mencionarei apenas dois, que j\u00e1 foram chamados \u00e0 p\u00e1tria celeste. S\u00e3o Camilo G\u00e1vio, de Tortona, e Jo\u00e3o Massaglia, de Marmorito.<\/p>\n<p>G\u00e1vio permaneceu somente dois meses entre n\u00f3s, e esse tempo bastou para deixar santa lembran\u00e7a de si entre os companheiros.<\/p>\n<p>Sua luminosa piedade e seu grande talento para a pintura e a escultura haviam levado a municipalidade daquela cidade a ajud\u00e1-lo para que pudesse vir a Turim prosseguir os estudos de sua arte. Tinha sofrido uma grave doen\u00e7a em sua terra; e, quando chegou ao Orat\u00f3rio, seja por estar convalescente, seja por encontrar-se longe de sua terra e dos parentes, seja ainda por estar entre jovens todos desconhecidos, permanecia observando os outros brincarem, mas absorvido em graves pensamentos. S\u00e1vio o viu e logo se aproximou para confort\u00e1-lo, mantendo com ele exatamente este di\u00e1logo.<\/p>\n<p>S\u00e1vio come\u00e7ou: \u00abEnt\u00e3o, meu caro, voc\u00ea ainda n\u00e3o conhece ningu\u00e9m, n\u00e3o \u00e9 verdade?\u00bb<\/p>\n<p><em>G\u00e1vio. <\/em>\u2013 \u00c9 verdade, mas me distraio vendo os outros brincarem.<\/p>\n<p>\u2013 Como voc\u00ea se chama?<\/p>\n<p>\u2013 Camilo G\u00e1vio, de Tortona.<\/p>\n<p>\u2013 Quantos anos voc\u00ea tem?<\/p>\n<p>\u2013 Quinze completos.<\/p>\n<p>\u2013 De onde vem essa melancolia que aparece em seu rosto? Voc\u00ea esteve doente?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, estive realmente doente; tive uma doen\u00e7a de palpita\u00e7\u00f5es que me levou \u00e0 beira do t\u00famulo, e ainda n\u00e3o estou completamente curado.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea deseja sarar, n\u00e3o \u00e9 verdade?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tanto; desejo fazer a vontade de Deus.<\/p>\n<p>Estas \u00faltimas palavras revelaram G\u00e1vio como jovem de piedade nada comum e causaram verdadeira consola\u00e7\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o de S\u00e1vio; por isso, com toda confian\u00e7a, continuou: \u00abQuem deseja fazer a vontade de Deus deseja santificar a si mesmo; portanto, voc\u00ea tem vontade de tornar-se santo?\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Essa vontade \u00e9 grande em mim.<\/p>\n<p>\u2013 Muito bem; aumentaremos o n\u00famero de nossos amigos. Voc\u00ea ser\u00e1 um daqueles que participar\u00e3o do que fazemos para nos tornarmos santos.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 belo o que voc\u00ea me diz, mas eu n\u00e3o sei o que devo fazer!<\/p>\n<p>\u2013 Eu lhe direi em poucas palavras: saiba que aqui fazemos consistir a santidade em estar muito alegres. Procuraremos apenas evitar o pecado como um grande inimigo que nos rouba a gra\u00e7a de Deus e a paz do cora\u00e7\u00e3o; procuraremos cumprir exatamente nossos deveres e frequentar as pr\u00e1ticas de piedade. Comece desde hoje a escrever como lembran\u00e7a: <em>Servite Domino in laetitia,<\/em> servi ao Senhor com santa alegria.<\/p>\n<p>Essa conversa foi como um b\u00e1lsamo para as afli\u00e7\u00f5es de G\u00e1vio, que sentiu verdadeiro conforto. Desde aquele dia tornou-se fiel amigo de S\u00e1vio e constante seguidor de suas virtudes. Mas a doen\u00e7a que o levara \u00e0 beira do t\u00famulo e que n\u00e3o fora extirpada reapareceu ao cabo de dois meses e, apesar dos cuidados dos m\u00e9dicos e dos amigos, j\u00e1 n\u00e3o foi poss\u00edvel encontrar rem\u00e9dio. Depois de alguns dias de agravamento, tendo recebido com grande edifica\u00e7\u00e3o os \u00faltimos Sacramentos, entregou a alma ao Criador em 30 de dezembro de 1856<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a>.<\/p>\n<p>Domingos foi visit\u00e1-lo v\u00e1rias vezes durante a doen\u00e7a e oferecia-se para passar as noites vigiando junto dele, embora isso n\u00e3o lhe fosse permitido. Quando soube que havia expirado, quis v\u00ea-lo pela \u00faltima vez e, contemplando-o morto, comovido lhe dizia:<\/p>\n<p>\u00abAdeus, \u00f3 G\u00e1vio; estou intimamente convencido de que voc\u00ea voou para o c\u00e9u; por isso, prepare um lugar para mim. Serei sempre seu amigo, mas, enquanto o Senhor me deixar em vida, rezarei pelo repouso de sua alma.\u00bb<\/p>\n<p>Depois foi com os outros companheiros recitar o of\u00edcio dos mortos no quarto do falecido; fizeram-se outras ora\u00e7\u00f5es durante o dia; em seguida convidou alguns dos melhores colegas a fazer a santa Comunh\u00e3o, e ele pr\u00f3prio a fez v\u00e1rias vezes em sufr\u00e1gio do amigo falecido.<\/p>\n<p>Entre outras coisas, disse aos amigos: \u00abMeus caros, n\u00e3o esque\u00e7amos a alma de nosso amigo. Espero que a esta hora ele j\u00e1 goze a gl\u00f3ria do c\u00e9u; contudo, n\u00e3o deixemos de rezar pelo repouso de sua alma. Tudo o que agora fazemos por ele, Deus dispor\u00e1 que outros fa\u00e7am um dia por n\u00f3s.\u00bb<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838029\"><\/a>CAP\u00cdTULO XIX. Suas rela\u00e7\u00f5es com o jovem Jo\u00e3o Massaglia<a name=\"_Toc504540969\"><\/a><a name=\"_Toc504541404\"><\/a><a name=\"_Toc504541966\"><\/a><a name=\"_Toc530304063\"><\/a><a name=\"_Toc24283676\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mais longas e mais \u00edntimas foram as rela\u00e7\u00f5es de S\u00e1vio com Massaglia, de Marmorito, localidade pouco distante de Mondonio.<\/p>\n<p>Os dois chegaram ao mesmo tempo \u00e0 casa do Orat\u00f3rio; eram de localidades vizinhas; ambos tinham a mesma vontade de abra\u00e7ar o estado eclesi\u00e1stico e verdadeiro desejo de tornar-se santos.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o basta \u2013 dizia um dia Domingos ao amigo \u2013 n\u00e3o basta dizer que queremos tornar-nos eclesi\u00e1sticos; \u00e9 preciso empenhar-nos em adquirir as virtudes necess\u00e1rias a esse estado.<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 verdade \u2013 respondia o amigo \u2013, mas, se fizermos de nossa parte tudo o que pudermos, Deus n\u00e3o deixar\u00e1 de nos dar gra\u00e7a e for\u00e7a para merecermos favor t\u00e3o grande como o de nos tornarmos ministros de Jesus Cristo.<\/p>\n<p>Chegado o tempo pascal, fizeram com os outros jovens os exerc\u00edcios espirituais com grande exemplaridade. Terminados os exerc\u00edcios, Domingos disse ao companheiro: \u00abQuero que sejamos verdadeiros amigos, verdadeiros amigos nas coisas da alma; por isso desejo que, de agora em diante, sejamos um para o outro como monitores em tudo o que possa contribuir para o bem espiritual. Assim, se voc\u00ea perceber em mim algum defeito, diga-me logo para que eu possa corrigi-lo; ou, se perceber alguma coisa boa que eu possa fazer, n\u00e3o deixe de sugeri-la.\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Farei isso de boa vontade por voc\u00ea, embora voc\u00ea n\u00e3o precise; mas voc\u00ea deve faz\u00ea-lo muito mais por mim, que, como sabe, por causa da idade, dos estudos e da escola me encontro exposto a maiores perigos.<\/p>\n<p>\u2013 Deixemos os cumprimentos de lado e ajudemo-nos a fazer o bem \u00e0 alma.<\/p>\n<p>Desde ent\u00e3o S\u00e1vio e Massaglia tornaram-se verdadeiros amigos, e sua amizade foi duradoura porque fundada na virtude; pois competiam entre si, com o exemplo e os conselhos, para ajudar-se a fugir do mal e praticar o bem.<\/p>\n<p>No fim do ano letivo, realizados os exames, foi dada a cada jovem da casa licen\u00e7a para passar as f\u00e9rias com os pais ou com algum outro parente.<\/p>\n<p>Alguns, movidos pelo desejo de progredir nos estudos e dedicar-se melhor aos exerc\u00edcios de piedade, preferiram permanecer no Orat\u00f3rio; entre eles estavam S\u00e1vio e Massaglia. Sabendo quanto eram ansiosamente esperados pelos parentes e quanto eles pr\u00f3prios precisavam recuperar as for\u00e7as, disse aos dois: \u00abPor que n\u00e3o v\u00e3o passar alguns dias de f\u00e9rias?\u00bb Em vez de responder, puseram-se a rir. \u2013 \u00abO que querem dizer com esse riso?\u00bb<\/p>\n<p>Domingos respondeu: \u00abSabemos que nossos parentes nos esperam com alegria; n\u00f3s tamb\u00e9m os amamos e ir\u00edamos de boa vontade. Mas sabemos que o p\u00e1ssaro, enquanto est\u00e1 na gaiola, n\u00e3o goza de liberdade, \u00e9 verdade; contudo est\u00e1 seguro do falc\u00e3o. Ao contr\u00e1rio, se est\u00e1 fora da gaiola, voa para onde quer, mas de um momento para outro pode cair nas garras do falc\u00e3o infernal.\u00bb<\/p>\n<p>Apesar disso, julguei conveniente mand\u00e1-los por algum tempo para casa, pelo bem de sua sa\u00fade, e eles se renderam \u00e0 minha vontade apenas por obedi\u00eancia, permanecendo l\u00e1 somente os dias que lhes haviam sido estritamente determinados.<\/p>\n<p>Se eu quisesse escrever os belos tra\u00e7os de virtude do jovem Massaglia, deveria repetir em grande parte as coisas ditas de S\u00e1vio, de quem foi fiel seguidor enquanto viveu. Gozava de boa sa\u00fade e dava \u00f3tima esperan\u00e7a de si na carreira dos estudos. Conclu\u00eddo o curso de ret\u00f3rica, prestou com bom resultado o exame para a vesti\u00e7\u00e3o clerical. Mas essa veste, t\u00e3o amada e respeitada por ele, p\u00f4de us\u00e1-la apenas por alguns meses. Atingido por uma constipa\u00e7\u00e3o que parecia simples resfriado, n\u00e3o queria sequer interromper os estudos. Desejando que fizesse um tratamento radical e afast\u00e1-lo da ocasi\u00e3o de estudar, os pais levaram-no para casa. Foi durante essa perman\u00eancia em sua terra que escreveu ao amigo uma carta do seguinte teor:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Caro amigo,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Eu pensava passar apenas alguns dias em casa e depois voltar ao Orat\u00f3rio; por isso deixei a\u00ed todos os meus materiais escolares. Agora, por\u00e9m, percebo que as coisas v\u00e3o se prolongar e o resultado de minha doen\u00e7a torna-se cada vez mais incerto. O m\u00e9dico diz que estou melhorando. A mim parece que estou piorando. Veremos quem tem raz\u00e3o. Caro Domingos, sinto grande afli\u00e7\u00e3o longe de voc\u00ea e do Orat\u00f3rio, porque aqui n\u00e3o tenho facilidade para dedicar-me aos exerc\u00edcios de devo\u00e7\u00e3o. S\u00f3 me consolo lembrando aqueles dias que t\u00ednhamos fixado para nos preparar e aproximar-nos juntos da santa Comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>Espero, contudo, que, embora separados no corpo, n\u00e3o o sejamos no esp\u00edrito.<\/p>\n<p>Entretanto, pe\u00e7o que v\u00e1 \u00e0 sala de estudo e fa\u00e7a uma visita de busca ao meu arm\u00e1rio. Ali encontrar\u00e1 alguns pap\u00e9is manuscritos; perto deles est\u00e1 o Kempis, isto <em>\u00e9, De imitatione Christi.<\/em> Fa\u00e7a de tudo um s\u00f3 pacote e envie-me. Preste bem aten\u00e7\u00e3o: esse livro \u00e9 em latim; pois, embora eu goste da tradu\u00e7\u00e3o, ela continua sendo tradu\u00e7\u00e3o e nela n\u00e3o encontro o gosto que sinto no original latino. Sinto-me cansado de n\u00e3o fazer nada; contudo o m\u00e9dico me pro\u00edbe de estudar. Dou muitas voltas pelo quarto e frequentemente fico dizendo: Vou me curar desta doen\u00e7a? Voltarei a ver meus companheiros? Ser\u00e1 esta a minha \u00faltima doen\u00e7a? O que ser\u00e1 de todas essas coisas, s\u00f3 Deus sabe. Parece-me estar pronto a fazer, em qualquer dos tr\u00eas casos, a santa e am\u00e1vel vontade de Deus.<\/p>\n<p>Se tiver algum bom conselho, procure escrev\u00ea-lo para mim. Diga-me como vai sua sa\u00fade; lembre-se de mim em suas ora\u00e7\u00f5es e especialmente quando fizer a santa Comunh\u00e3o. Coragem, ame-me de todo o cora\u00e7\u00e3o no Senhor; e, se n\u00e3o pudermos permanecer juntos por muito tempo na vida presente, espero que um dia possamos viver felizes em doce companhia na bem-aventurada eternidade.<\/p>\n<p>Sa\u00fade nossos amigos e especialmente os irm\u00e3os da Companhia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. O Senhor esteja com voc\u00ea e creia-me sempre seu afei\u00e7oad\u00edssimo<\/p>\n<p>JO\u00c3O MASSAGLIA.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Domingos cumpriu a incumb\u00eancia do amigo e, ao enviar-lhe o que pedira, juntou a seguinte carta:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Meu caro Massaglia,<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Sua carta me deu alegria, porque por ela tive certeza de que voc\u00ea ainda vive; pois, depois de sua partida, n\u00e3o t\u00ednhamos recebido mais not\u00edcias suas e eu n\u00e3o sabia se devia dizer-lhe <em>o Gloria Patri<\/em> ou <em>o De profundis.<\/em> Voc\u00ea receber\u00e1 os objetos que me pediu. S\u00f3 devo adverti-lo de que o Kempis \u00e9 um bom amigo, mas est\u00e1 morto e nunca se move do lugar. \u00c9 preciso, portanto, que voc\u00ea o procure, o sacuda, o leia e se esforce por p\u00f4r em pr\u00e1tica o que for lendo nele.<\/p>\n<p>Voc\u00ea suspira pela facilidade que temos aqui para os exerc\u00edcios de piedade, e tem raz\u00e3o. Quando estou em Mondonio, sinto a mesma dificuldade. Eu procurava compens\u00e1-la fazendo todos os dias uma visita ao Sant\u00edssimo Sacramento e procurando levar comigo tantos companheiros quantos pudesse.<em> Al\u00e9m do Kempis, lia O tesouro<\/em> escondido na santa Missa, do beato <em>Leonardo.<\/em> Se lhe parecer bem, fa\u00e7a tamb\u00e9m voc\u00ea o mesmo. Diz que n\u00e3o sabe se voltar\u00e1 ao Orat\u00f3rio para nos visitar; minha carca\u00e7a tamb\u00e9m parece bastante gasta, e tudo me faz pressentir que me aproximo a largos passos do fim de meus estudos e de minha vida. De qualquer modo, fa\u00e7amos assim: rezemos um pelo outro, para que ambos possamos ter uma boa morte. Aquele de n\u00f3s que for primeiro ao Para\u00edso prepare um lugar para o amigo e, quando este for encontr\u00e1-lo, estenda-lhe a m\u00e3o para introduzi-lo na morada do c\u00e9u.<\/p>\n<p>Deus nos conserve sempre em sua gra\u00e7a e nos ajude a tornar-nos santos, mas santos depressa, porque temo que nos falte tempo. Todos os nossos amigos desejam sua volta ao Orat\u00f3rio e o sa\u00fadam carinhosamente no Senhor.<\/p>\n<p>Eu, com amor e afeto fraterno, declaro-me sempre<\/p>\n<p><em>Afei\u00e7oado amigo<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>DOMINGOS S\u00c1VIO.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A doen\u00e7a do jovem Massaglia, a princ\u00edpio, parecia leve; v\u00e1rias vezes pareceu completamente vencida e v\u00e1rias vezes recaiu, at\u00e9 que, quase inesperadamente, chegou ao extremo da vida.<\/p>\n<p>\u00abEle teve tempo\u00bb, escrevia o te\u00f3logo Valfr\u00e9, seu diretor espiritual durante as f\u00e9rias, \u00abde receber com a m\u00e1xima exemplaridade todos os confortos de nossa santa religi\u00e3o cat\u00f3lica; morreu a morte do justo, que deixa o mundo para voar ao c\u00e9u<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a>.\u00bb<\/p>\n<p>Com a perda daquele amigo, S\u00e1vio ficou profundamente entristecido e, embora resignado \u00e0 vontade divina, chorou-o durante v\u00e1rios dias. Foi a primeira vez que vi aquele rosto ang\u00e9lico entristecer-se e chorar de dor. Seu \u00fanico conforto foi rezar e fazer rezar pelo amigo falecido. Algumas vezes foi ouvido exclamar: \u00abCaro Massaglia, voc\u00ea morreu e espero que j\u00e1 esteja em companhia de G\u00e1vio no para\u00edso; e eu, quando irei alcan\u00e7\u00e1-los na imensa felicidade do c\u00e9u?\u00bb<\/p>\n<p>Durante todo o tempo em que Domingos sobreviveu ao amigo, teve-o sempre presente nas pr\u00e1ticas de piedade e costumava dizer que n\u00e3o podia ir ouvir a santa Missa nem assistir a algum exerc\u00edcio devoto sem recomendar a Deus a alma daquele que, em vida, tanto se havia empenhado pelo seu bem. Essa perda foi muito dolorosa para o terno cora\u00e7\u00e3o de Domingos, e sua pr\u00f3pria sa\u00fade ficou sensivelmente alterada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838030\"><\/a>CAP\u00cdTULO XX. Gra\u00e7as especiais e fatos particulares<a name=\"_Toc504540970\"><\/a><a name=\"_Toc504541405\"><\/a><a name=\"_Toc504541967\"><\/a><a name=\"_Toc530304064\"><\/a><a name=\"_Toc24283677\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>At\u00e9 agora relatei coisas que nada apresentam de extraordin\u00e1rio, se n\u00e3o quisermos chamar extraordin\u00e1ria uma conduta constantemente boa, que sempre foi se aperfei\u00e7oando com a inoc\u00eancia da vida, as obras de penit\u00eancia e o exerc\u00edcio da piedade. Poder-se-ia tamb\u00e9m chamar extraordin\u00e1ria a vivacidade de sua f\u00e9, sua firme esperan\u00e7a, sua ardente caridade e a perseveran\u00e7a no bem at\u00e9 o \u00faltimo suspiro. Aqui, por\u00e9m, quero expor gra\u00e7as especiais e alguns fatos incomuns, que talvez fiquem sujeitos a alguma cr\u00edtica. Por isso julgo conveniente advertir o leitor de que quanto aqui relato tem plena semelhan\u00e7a com fatos registrados na B\u00edblia e na vida dos santos; relato coisas que vi com meus pr\u00f3prios olhos, asseguro que escrevo escrupulosamente a verdade, entregando-me depois inteiramente \u00e0s reflex\u00f5es do prudente leitor. Eis a narra\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>V\u00e1rias vezes, indo \u00e0 igreja, especialmente no dia em que Domingos fazia a santa Comunh\u00e3o ou quando estava exposto o Sant\u00edssimo Sacramento, ele ficava como que arrebatado dos sentidos; tanto que deixava passar um tempo excessivamente longo, se n\u00e3o fosse chamado para cumprir seus deveres habituais.<\/p>\n<p>Certo dia aconteceu que faltou ao caf\u00e9 da manh\u00e3, \u00e0 aula e at\u00e9 ao pr\u00f3prio almo\u00e7o, e ningu\u00e9m sabia onde estava; n\u00e3o estava na sala de estudo, nem na cama. Informado o diretor, suspeitou aquilo que de fato acontecera outras vezes: que estivesse na igreja. Entrou na igreja, foi ao coro e o encontrou ali im\u00f3vel como uma pedra. Tinha um p\u00e9 sobre o outro, uma m\u00e3o apoiada no atril do antifon\u00e1rio, a outra sobre o peito, o rosto fixo e voltado para o tabern\u00e1culo. N\u00e3o movia uma p\u00e1lpebra. Chamou-o, e ele n\u00e3o respondeu. Sacudiu-o, e ent\u00e3o Domingos voltou o olhar e disse: \u00abOh! A Missa j\u00e1 terminou?\u00bb \u00abVeja\u00bb, acrescentou o diretor, mostrando-lhe o rel\u00f3gio, \u00abs\u00e3o duas horas.\u00bb Ele pediu humildemente perd\u00e3o por ter transgredido as regras da casa, e o diretor o mandou almo\u00e7ar, dizendo: \u00abSe algu\u00e9m lhe perguntar: de onde vem? Responda que vem de executar uma ordem minha.\u00bb Isso foi dito para evitar perguntas inoportunas que talvez os companheiros lhe fizessem.<\/p>\n<p>Outro dia, terminado o costumeiro agradecimento depois da Missa, eu estava para sair da sacristia quando ouvi no coro uma voz como de algu\u00e9m que discutia. Fui ver e encontrei S\u00e1vio falando e depois parando, como quem d\u00e1 espa\u00e7o \u00e0 resposta. Entre outras coisas ouvi claramente estas palavras: \u00abSim, meu Deus, j\u00e1 vos disse e torno a dizer: eu vos amo e quero amar-vos at\u00e9 a morte. Se vedes que eu venha a ofender-vos, mandai-me a morte: sim, antes a morte, mas n\u00e3o pecar.\u00bb<\/p>\n<p>\u00c0s vezes perguntei-lhe o que fazia naqueles seus longos atrasos, e ele com toda simplicidade respondia: \u00abPobre de mim, vem-me uma distra\u00e7\u00e3o e, naquele momento, perco o fio de minhas ora\u00e7\u00f5es e parece-me ver coisas t\u00e3o belas que as horas fogem como um instante.\u00bb<\/p>\n<p>Certo dia entrou em meu quarto dizendo: \u00abDepressa, venha comigo, h\u00e1 uma bela obra a fazer.\u00bb \u00abAonde voc\u00ea quer me levar?\u00bb, perguntei. \u00abVenha depressa\u00bb, acrescentou, \u00abdepressa.\u00bb Eu ainda hesitava, mas, como insistisse e j\u00e1 tivesse experimentado outras vezes a import\u00e2ncia desses convites, consenti. Segui-o. Saiu de casa, passou por uma rua, depois por outra e ainda outra, sem parar nem dizer palavra; finalmente tomou outra rua, e eu o acompanhei de porta em porta at\u00e9 que parou. Subiu uma escada, chegou ao terceiro andar e tocou fortemente a campainha. \u00ab\u00c9 aqui que o senhor deve entrar\u00bb, disse, e imediatamente foi embora.<\/p>\n<p>Abriram-me a porta: \u00abOh, depressa\u00bb, disseram-me, \u00abdepressa, sen\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o haver\u00e1 tempo. Meu marido teve a desgra\u00e7a de se tornar protestante; agora est\u00e1 \u00e0 beira da morte e pede, por piedade, poder morrer como bom cat\u00f3lico.\u00bb<\/p>\n<p>Dirigi-me imediatamente ao leito daquele enfermo, que mostrava viva ansiedade de p\u00f4r em ordem as coisas de sua consci\u00eancia. Resolvidas com a maior rapidez as quest\u00f5es daquela alma, chegou o p\u00e1roco da par\u00f3quia de Santo Agostinho, que j\u00e1 havia sido chamado anteriormente. Ele mal p\u00f4de administrar-lhe o Sacramento da Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos com uma \u00fanica un\u00e7\u00e3o, pois o doente tornou-se cad\u00e1ver.<\/p>\n<p>Um dia quis perguntar a S\u00e1vio como ele pudera saber que ali havia um enfermo; ele me olhou com ar de dor e depois come\u00e7ou a chorar. N\u00e3o lhe fiz mais nenhuma pergunta.<\/p>\n<p>A inoc\u00eancia de vida, o amor a Deus e o desejo das coisas celestes haviam levado a mente de Domingos a tal estado que se podia dizer habitualmente absorto em Deus.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes interrompia a recrea\u00e7\u00e3o, voltava o olhar para outro lado e come\u00e7ava a passear sozinho. Perguntado por que deixava assim os companheiros, respondia: \u00abAssaltam-me as distra\u00e7\u00f5es de costume, e parece-me que o para\u00edso se abre sobre minha cabe\u00e7a; ent\u00e3o preciso afastar-me dos companheiros para n\u00e3o lhes dizer coisas que talvez eles ridicularizassem.\u00bb Certo dia, durante a recrea\u00e7\u00e3o, falava-se da grande recompensa preparada por Deus no c\u00e9u para os que conservam a veste da inoc\u00eancia. Entre outras coisas dizia-se: \u00abOs inocentes s\u00e3o no c\u00e9u os mais pr\u00f3ximos da pessoa de nosso Divino Salvador e cantar\u00e3o para Ele hinos especiais de gl\u00f3ria por toda a eternidade.\u00bb<\/p>\n<p>Isso bastou para elevar seu esp\u00edrito ao Senhor e, permanecendo im\u00f3vel, abandonou-se como morto nos bra\u00e7os de um dos presentes.<\/p>\n<p>Esses arrebatamentos de esp\u00edrito aconteciam-lhe durante o estudo, na ida e volta da escola e na pr\u00f3pria escola.<\/p>\n<p>Falava com grande prazer do Romano Pont\u00edfice e exprimia seu vivo desejo de poder v\u00ea-lo antes de morrer, afirmando repetidas vezes que tinha algo de grande import\u00e2ncia a dizer-lhe.<\/p>\n<p>Como repetisse frequentemente as mesmas coisas, quis perguntar-lhe qual era aquela grande coisa que gostaria de dizer ao Papa.<\/p>\n<p>\u2013 Se eu pudesse falar com o Papa, gostaria de dizer-lhe que, em meio \u00e0s tribula\u00e7\u00f5es que o esperam, n\u00e3o deixe de ocupar-se com especial solicitude da Inglaterra; Deus prepara um grande triunfo para o catolicismo naquele reino.<\/p>\n<p>\u2013 Em que voc\u00ea se baseia para dizer isso?<\/p>\n<p>\u2013 Eu lhe direi, mas n\u00e3o gostaria que falasse disso a outros, para n\u00e3o me expor talvez a zombarias. Se, por\u00e9m, for a Roma, conte-o a Pio IX. Eis o que aconteceu. Numa bela manh\u00e3, enquanto fazia a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as depois da Comunh\u00e3o, fui surpreendido por uma forte distra\u00e7\u00e3o e pareceu-me ver uma vast\u00edssima plan\u00edcie cheia de gente envolvida numa densa n\u00e9voa. Caminhavam, mas como homens que, tendo perdido o caminho, j\u00e1 n\u00e3o veem onde p\u00f5em os p\u00e9s. \u00abEste pa\u00eds\u00bb, disse-me algu\u00e9m que estava perto de mim, \u00ab\u00e9 a Inglaterra.\u00bb Enquanto eu queria perguntar outras coisas, vi o Sumo Pont\u00edfice Pio IX tal como o havia visto representado em alguns quadros. Majestosamente vestido, trazendo nas m\u00e3os uma tocha muito luminosa, avan\u00e7ava para aquela imensa multid\u00e3o. \u00c0 medida que se aproximava, \u00e0 luz daquela tocha a n\u00e9voa desaparecia e os homens ficavam na claridade como ao meio-dia. \u00abEsta tocha\u00bb, disse-me o amigo, \u00ab\u00e9 a religi\u00e3o cat\u00f3lica, que deve iluminar os ingleses.\u00bb<\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/em>No ano de 1858, tendo ido a Roma, quis contar isso ao Sumo Pont\u00edfice, que o ouviu com bondade e satisfa\u00e7\u00e3o. \u00abIsto\u00bb, disse o Papa, \u00abconfirma-me no prop\u00f3sito de trabalhar energicamente em favor da Inglaterra, para a qual j\u00e1 dirigi minhas mais vivas solicitudes. Este relato, ao menos, \u00e9 para mim como o conselho de uma alma boa.\u00bb<\/p>\n<p>Omito muitos outros fatos semelhantes, contentando-me em escrev\u00ea-los e deixando que outros os publiquem quando se julgar que possam resultar em maior gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838031\"><\/a>CAP\u00cdTULO XXI. Seus pensamentos sobre a morte e sua prepara\u00e7\u00e3o para morrer santamente<a name=\"_Toc504540971\"><\/a><a name=\"_Toc504541406\"><\/a><a name=\"_Toc504541968\"><\/a><a name=\"_Toc530304065\"><\/a><a name=\"_Toc24283678\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem leu o que at\u00e9 agora escrevemos sobre o jovem Domingos S\u00e1vio compreender\u00e1 facilmente que sua vida foi uma cont\u00ednua prepara\u00e7\u00e3o para a morte. Ele considerava, por\u00e9m, a Companhia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o como meio eficaz para assegurar a prote\u00e7\u00e3o de Maria Sant\u00edssima no momento da morte, que todos pressentiam n\u00e3o estar distante. N\u00e3o sei se ele recebeu de Deus alguma revela\u00e7\u00e3o do dia e das circunst\u00e2ncias de sua morte ou se teve apenas um piedoso pressentimento. \u00c9 certo, por\u00e9m, que falou dela muito tempo antes que acontecesse, e o fazia com tal clareza que n\u00e3o o teria feito melhor quem dela falasse depois de sua morte.<\/p>\n<p>Em vista de seu estado de sa\u00fade, tomaram-se todos os cuidados para moder\u00e1-lo nas coisas de estudo e de piedade; contudo, tanto por sua natural fragilidade como por alguns inc\u00f4modos pessoais e tamb\u00e9m pela cont\u00ednua tens\u00e3o do esp\u00edrito, suas for\u00e7as diminu\u00edam dia ap\u00f3s dia. Ele mesmo percebia e \u00e0s vezes dizia: \u00abPreciso correr, sen\u00e3o a noite me surpreende pelo caminho.\u00bb Queria dizer que lhe restava pouco tempo de vida e que devia apressar-se em fazer boas obras antes que chegasse a morte.<\/p>\n<p>H\u00e1 nesta casa o costume de nossos jovens fazerem uma vez por m\u00eas o exerc\u00edcio da boa morte. Esse exerc\u00edcio consiste em preparar-nos para fazer uma Confiss\u00e3o e uma Comunh\u00e3o como se fossem as \u00faltimas da vida. O reinante Pio IX, em sua grande bondade, enriqueceu esse exerc\u00edcio com v\u00e1rias indulg\u00eancias. Domingos o fazia com um recolhimento que n\u00e3o poderia ser maior. No fim da fun\u00e7\u00e3o sagrada costuma-se recitar um Pai-Nosso e uma Ave-Maria por <em>aquele que,<\/em> <em>entre<\/em> os presentes, ser\u00e1 o primeiro a morrer. Certo dia, brincando, ele disse: \u00abEm vez de dizer \u2018por aquele que ser\u00e1 o primeiro a morrer\u2019, diga assim: \u2018um Pai-Nosso e uma<em> Ave-Maria por<\/em> Domingos S\u00e1vio, que ser\u00e1 o primeiro de n\u00f3s a morrer\u2019.\u00bb Disse isso v\u00e1rias vezes.<\/p>\n<p>No fim de abril de 1856 apresentou-se ao diretor e perguntou-lhe como deveria proceder para celebrar santamente o m\u00eas de Maria.<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea o celebrar\u00e1 \u2013 respondeu \u2013 com o exato cumprimento de seus deveres, contando todos os dias um exemplo em honra de Maria e procurando comportar-se de modo a poder fazer diariamente a santa Comunh\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Procurarei fazer isso pontualmente; mas que gra\u00e7a devo pedir?<\/p>\n<p>\u2013 Pedir\u00e1 \u00e0 santa Virgem que lhe obtenha de Deus sa\u00fade e gra\u00e7a para tornar-se santo.<\/p>\n<p>\u2013 Que me ajude a tornar-me santo, que me ajude a ter uma santa morte e que, nos \u00faltimos momentos da vida, me assista e me conduza ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>De fato, durante aquele m\u00eas demonstrou tal fervor que parecia um anjo revestido de forma humana. Se escrevia, falava de Maria; se estudava, cantava ou ia \u00e0 escola, tudo era em honra dela. Durante a recrea\u00e7\u00e3o procurava ter todos os dias pronto um exemplo para cont\u00e1-lo ora a estes, ora \u00e0queles companheiros reunidos.<\/p>\n<p>Certo dia um companheiro lhe disse: \u00abSe voc\u00ea fizer tudo neste ano, o que vai querer fazer no pr\u00f3ximo?\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Deixe comigo \u2013 respondeu. \u2013 Neste ano quero fazer o que posso; no pr\u00f3ximo, se ainda estiver aqui, direi o que farei.<\/p>\n<p>Para empregar todos os meios capazes de faz\u00ea-lo recuperar a sa\u00fade, mandei realizar uma consulta m\u00e9dica. Todos admiravam a jovialidade, a prontid\u00e3o de esp\u00edrito e a sensatez das respostas de Domingos. O doutor Francesco Vallauri, de feliz mem\u00f3ria, que era um dos benem\u00e9ritos consultores, cheio de admira\u00e7\u00e3o disse: \u00abQue p\u00e9rola preciosa \u00e9 este jovem!\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Qual \u00e9 a origem do mal que faz sua sa\u00fade diminuir cada dia mais? \u2013 perguntei-lhe.<\/p>\n<p>\u2013 Sua constitui\u00e7\u00e3o delicada, o desenvolvimento precoce da intelig\u00eancia e a cont\u00ednua tens\u00e3o do esp\u00edrito s\u00e3o como limas que v\u00e3o consumindo insensivelmente as for\u00e7as vitais.<\/p>\n<p>\u2013 Que rem\u00e9dio poderia ser-lhe mais \u00fatil?<\/p>\n<p>\u2013 O rem\u00e9dio mais \u00fatil seria deix\u00e1-lo ir para o para\u00edso, para o qual me parece muito bem preparado. A \u00fanica coisa que poderia prolongar-lhe a vida seria afast\u00e1-lo inteiramente, por algum tempo, dos estudos e mant\u00ea-lo em ocupa\u00e7\u00f5es manuais adequadas \u00e0s suas for\u00e7as.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838032\"><\/a>CAP\u00cdTULO XXII. Sua solicitude pelos enfermos &#8211; Deixa o Orat\u00f3rio &#8211; Suas palavras nessa ocasi\u00e3o<a name=\"_Toc504540972\"><\/a><a name=\"_Toc504541407\"><\/a><a name=\"_Toc504541969\"><\/a><a name=\"_Toc530304066\"><\/a><a name=\"_Toc24283679\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O esgotamento de for\u00e7as em que se encontrava n\u00e3o era tal que o mantivesse continuamente na cama; por isso \u00e0s vezes ia \u00e0 escola, ao estudo ou se ocupava de tarefas dom\u00e9sticas. Entre as coisas de que se ocupava com grande prazer estava servir os companheiros enfermos, quando havia algum na casa.<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o tenho m\u00e9rito algum diante de Deus \u2013 dizia \u2013 em assistir ou visitar os enfermos, porque fa\u00e7o isso com demasiado prazer; antes, \u00e9 para mim um querido divertimento.<\/p>\n<p>Enquanto lhes prestava servi\u00e7os materiais, era muito h\u00e1bil em sugerir sempre alguma coisa espiritual. \u00abEsta carca\u00e7a\u00bb<em>, dizia<\/em> a um companheiro doente, \u00abn\u00e3o pode durar eternamente, n\u00e3o \u00e9 verdade? \u00c9 preciso deixar que se desgaste pouco a pouco at\u00e9 ir para o t\u00famulo; mas ent\u00e3o, meu caro, nossa alma, livre dos impedimentos do corpo, voar\u00e1 gloriosa ao c\u00e9u e gozar\u00e1 uma sa\u00fade e uma felicidade sem fim.\u00bb<\/p>\n<p>Aconteceu que um companheiro se recusava a beber um rem\u00e9dio porque era amargo. \u00abMeu caro\u00bb, dizia-lhe Domingos, \u00abdevemos tomar qualquer rem\u00e9dio, porque fazendo assim obedecemos a Deus, que estabeleceu m\u00e9dicos e medicamentos por serem necess\u00e1rios para recuperar a sa\u00fade perdida; e, se sentimos alguma repugn\u00e2ncia por causa do gosto, teremos maior m\u00e9rito para a alma. Al\u00e9m disso, voc\u00ea acha que este seu rem\u00e9dio \u00e9 t\u00e3o amargo e \u00e1spero quanto o fel misturado com vinagre que deram a Jesus na cruz?\u00bb Essas palavras, ditas com sua admir\u00e1vel franqueza, faziam com que ningu\u00e9m ousasse mais levantar dificuldade.<\/p>\n<p>Embora a sa\u00fade de S\u00e1vio tivesse se tornado muito delicada, ir para casa era para ele a coisa mais desagrad\u00e1vel, porque lhe pesava interromper os estudos e suas pr\u00e1ticas habituais de piedade. Alguns meses antes eu j\u00e1 o havia enviado para casa, e ele permaneceu ali apenas poucos dias, aparecendo logo de novo no Orat\u00f3rio. Devo diz\u00ea-lo: o pesar era rec\u00edproco; eu o teria conservado nesta casa a qualquer custo, e meu afeto por ele era o de um pai para com um filho dos mais dignos de afei\u00e7\u00e3o. Contudo, o conselho dos m\u00e9dicos era aquele e eu queria segui-lo, tanto mais que havia alguns dias se manifestara uma tosse persistente.<\/p>\n<p>Avisou-se, portanto, o pai, e estabeleceu-se a partida para o dia 1\u00ba de mar\u00e7o de 1857.<\/p>\n<p>Domingos submeteu-se a essa decis\u00e3o, mas apenas para fazer dela um sacrif\u00edcio a Deus. \u00abPor que\u00bb, perguntaram-lhe, \u00abvoc\u00ea vai para casa com t\u00e3o pouca vontade, quando deveria ir com alegria para desfrutar a companhia de seus queridos pais?\u00bb \u00abPorque\u00bb, respondeu, \u00abdesejo terminar meus dias no Orat\u00f3rio.\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Voc\u00ea ir\u00e1 para casa e, depois de recuperar um pouco a sa\u00fade, voltar\u00e1.<\/p>\n<p>\u2013 Oh! Isso n\u00e3o, n\u00e3o; eu vou embora e n\u00e3o voltarei mais.<\/p>\n<p>Na noite anterior \u00e0 partida, n\u00e3o conseguia afast\u00e1-lo de perto de mim: tinha sempre coisas a perguntar. Entre outras, dizia: \u00abQual \u00e9 a melhor coisa que um doente pode fazer para adquirir m\u00e9rito diante de Deus?\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Oferecer frequentemente a Deus tudo o que sofre.<\/p>\n<p>\u2013 Que outra coisa ainda poderia fazer?<\/p>\n<p>\u2013 Oferecer sua vida ao Senhor.<\/p>\n<p>\u2013 Posso ter certeza de que meus pecados me foram perdoados?<\/p>\n<p>\u2013 Asseguro-lhe, em nome de Deus, que seus pecados lhe foram perdoados.<\/p>\n<p>\u2013 Posso ter certeza de que serei salvo?<\/p>\n<p>\u2013 Sim; pela divina miseric\u00f3rdia, que n\u00e3o lhe faltar\u00e1, voc\u00ea pode estar certo de salvar-se.<\/p>\n<p>\u2013 Se o dem\u00f4nio vier tentar-me, o que devo responder-lhe?<\/p>\n<p>\u2013 Responder\u00e1 que vendeu sua alma a Jesus Cristo e que Ele a comprou pelo pre\u00e7o de seu sangue; se o dem\u00f4nio ainda lhe apresentar alguma dificuldade, pergunte-lhe o que ele fez por sua alma. Ao contr\u00e1rio, Jesus Cristo derramou todo o seu Sangue para libert\u00e1-la do inferno e conduzi-la consigo ao para\u00edso.<\/p>\n<p>\u2013 Do para\u00edso poderei ver meus companheiros do Orat\u00f3rio e meus pais?<\/p>\n<p>\u2013 Sim; do para\u00edso ver\u00e1 tudo o que acontece no Orat\u00f3rio, ver\u00e1 seus pais, as coisas que lhes dizem respeito e outras coisas mil vezes mais belas.<\/p>\n<p>\u2013 Poderei vir visit\u00e1-los alguma vez?<\/p>\n<p>\u2013 Poder\u00e1 vir, contanto que isso resulte em maior gl\u00f3ria de Deus.<\/p>\n<p>Fazia essas e muitas outras perguntas e parecia uma pessoa que j\u00e1 tivesse um p\u00e9 \u00e0s portas do para\u00edso e, antes de entrar, quisesse informar-se bem sobre as coisas que havia dentro.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838033\"><\/a>CAP\u00cdTULO XXIII. Despede-se de seus companheiros<a name=\"_Toc504540973\"><\/a><a name=\"_Toc504541408\"><\/a><a name=\"_Toc504541970\"><\/a><a name=\"_Toc530304067\"><\/a><a name=\"_Toc24283680\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na manh\u00e3 de sua partida fez com os companheiros o exerc\u00edcio da boa morte com tal transporte de devo\u00e7\u00e3o na Confiss\u00e3o e na Comunh\u00e3o que eu, que fui testemunha, n\u00e3o sei como exprimi-lo. \u00ab\u00c9 preciso\u00bb, dizia, \u00abque eu fa\u00e7a bem este exerc\u00edcio, porque espero que ser\u00e1 realmente para mim o exerc\u00edcio de minha boa morte. E, se me acontecesse morrer pelo caminho, j\u00e1 teria comungado.\u00bb Empregou todo o restante da manh\u00e3 em p\u00f4r suas coisas em ordem. Arrumou o ba\u00fa, colocando cada objeto como se nunca mais fosse toc\u00e1-lo. Depois foi visitar um por um os companheiros: a um dava um conselho, advertia outro a corrigir-se de um defeito, animava outro ainda a perseverar no bem. A um de quem devia receber dois soldos, chamou e disse: \u00abVenha c\u00e1, acertemos nossas contas; caso contr\u00e1rio, isso me causar\u00e1 dificuldade quando eu for acertar as contas com o Senhor.\u00bb Falou aos irm\u00e3os da Sociedade da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o e, com as express\u00f5es mais animadas, encorajou-os a serem constantes na observ\u00e2ncia das promessas feitas a Maria Sant\u00edssima e a depositarem nela a mais viva confian\u00e7a. No momento de partir, chamou-me e disse exatamente estas palavras: \u00abEnt\u00e3o o senhor n\u00e3o quer esta minha carca\u00e7a (carcame ou esqueleto), e sou obrigado a lev\u00e1-la para Mondonio. O inc\u00f4modo seria de poucos dias&#8230; depois tudo estaria acabado; contudo, seja feita a vontade de Deus. Se for a Roma, lembre-se da miss\u00e3o da Inglaterra junto ao Papa; reze para que eu possa ter uma boa morte e at\u00e9 nos revermos no para\u00edso.\u00bb J\u00e1 t\u00ednhamos chegado \u00e0 porta que d\u00e1 para fora do Orat\u00f3rio, e ele ainda me apertava a m\u00e3o, quando se voltou para os companheiros que o rodeavam e disse: \u00abAdeus, queridos companheiros, adeus a todos; rezem por mim e at\u00e9 nos revermos l\u00e1 onde estaremos sempre com o Senhor.\u00bb J\u00e1 estava \u00e0 porta do p\u00e1tio quando o vi voltar e dizer-me:<\/p>\n<p>\u2013 D\u00ea-me um presente para guardar como lembran\u00e7a sua.<\/p>\n<p>\u2013 Diga-me que presente lhe agrada e darei imediatamente. Quer um livro?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o; alguma coisa melhor.<\/p>\n<p>\u2013 Quer dinheiro para a viagem?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, justamente: dinheiro para a viagem da eternidade. O senhor disse que obteve do Papa algumas indulg\u00eancias plen\u00e1rias para a hora da morte; coloque tamb\u00e9m a mim entre aqueles que podem participar delas.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, meu filho, voc\u00ea tamb\u00e9m pode ser inclu\u00eddo nesse n\u00famero e vou imediatamente escrever seu nome naquele documento.<\/p>\n<p>Depois disso deixou o Orat\u00f3rio, onde havia permanecido cerca de tr\u00eas anos com tanto prazer para si, tanta edifica\u00e7\u00e3o para seus companheiros e para seus pr\u00f3prios superiores; e o deixou para nunca mais voltar.<\/p>\n<p>Todos n\u00f3s ficamos admirados com aquelas despedidas ins\u00f3litas. Sab\u00edamos que sofria de muitos problemas de sa\u00fade, mas, como quase sempre se mantinha fora da cama, n\u00e3o d\u00e1vamos grande import\u00e2ncia \u00e0 doen\u00e7a. Al\u00e9m disso, tendo constantemente uma apar\u00eancia alegre, ningu\u00e9m podia perceber pelo rosto que sofresse males do corpo ou do esp\u00edrito. E, embora aquelas despedidas incomuns nos tivessem entristecido, esper\u00e1vamos v\u00ea-lo em breve voltar para junto de n\u00f3s. Mas n\u00e3o seria assim: estava maduro para o c\u00e9u; no breve curso de sua vida j\u00e1 havia conquistado a recompensa dos justos como se tivesse vivido at\u00e9 idade muito avan\u00e7ada, e o Senhor queria cham\u00e1-lo a si na flor dos anos para libert\u00e1-lo dos perigos em que frequentemente naufragam at\u00e9 as melhores almas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838034\"><\/a>CAP\u00cdTULO XXIV. Curso de sua doen\u00e7a &#8211; \u00daltima Confiss\u00e3o, recebe o Vi\u00e1tico &#8211; Fatos edificantes<a name=\"_Toc504540974\"><\/a><a name=\"_Toc504541409\"><\/a><a name=\"_Toc504541971\"><\/a><a name=\"_Toc530304068\"><\/a><a name=\"_Toc24283681\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nosso Domingos partiu de Turim no dia 1\u00ba de mar\u00e7o, \u00e0s duas da tarde, em companhia de seu pai, e a viagem foi boa; antes, parecia que a carruagem, a variedade das localidades e a companhia dos parentes lhe haviam feito bem. Por isso, chegando em casa, durante quatro dias n\u00e3o se deitou. Mas, vendo que lhe diminu\u00edam as for\u00e7as e o apetite e que a tosse se tornava cada vez mais forte, julgou-se conveniente mandar examin\u00e1-lo pelo m\u00e9dico. Este encontrou a doen\u00e7a muito mais grave do que parecia. Ordenou que voltasse para casa e se deitasse imediatamente e, julgando tratar-se de doen\u00e7a inflamat\u00f3ria, recorreu \u00e0s sangrias.<\/p>\n<p>\u00c9 pr\u00f3prio da idade jovem sentir grande apreens\u00e3o diante das sangrias. Por isso, o cirurgi\u00e3o, ao come\u00e7ar a opera\u00e7\u00e3o, exortava Domingos a virar o rosto para outro lado, ter paci\u00eancia e criar coragem. Ele come\u00e7ou a rir e disse: \u00abO que \u00e9 uma pequena picada em compara\u00e7\u00e3o com os cravos fincados nas m\u00e3os e nos p\u00e9s de nosso inocent\u00edssimo Salvador?\u00bb Depois, com toda serenidade de esp\u00edrito, brincando e sem dar sinal do menor transtorno, observava o sangue sair das veias durante todo o tempo da opera\u00e7\u00e3o. Feitas algumas sangrias, a doen\u00e7a parecia melhorar; assim assegurava o m\u00e9dico e assim acreditavam os parentes. Domingos, por\u00e9m, julgava de outro modo. Guiado pelo pensamento de que \u00e9 melhor receber os Sacramentos antecipadamente do que perd\u00ea-los, chamou o pai: \u00abPapai\u00bb, disse-lhe, \u00ab\u00e9 bom que fa\u00e7amos uma consulta com o m\u00e9dico celestial. Desejo confessar-me e receber a santa Comunh\u00e3o.\u00bb<\/p>\n<p>Os pais, que tamb\u00e9m julgavam a doen\u00e7a em melhora, ouviram com pesar essa proposta e, somente para agrad\u00e1-lo, mandaram chamar o p\u00e1roco para que viesse confess\u00e1-lo. Este veio prontamente para a Confiss\u00e3o e depois, ainda para satisfaz\u00ea-lo, trouxe-lhe o Santo Vi\u00e1tico. Cada um pode imaginar com que devo\u00e7\u00e3o e recolhimento ele comungou. Todas as vezes que se aproximava dos santos Sacramentos parecia sempre um S\u00e3o Lu\u00eds. Agora que julgava ser aquela realmente a \u00faltima Comunh\u00e3o de sua vida, quem poderia exprimir o fervor, os transportes de ternos afetos que daquele cora\u00e7\u00e3o inocente sa\u00edram para seu amado Jesus?<\/p>\n<p>Recordou ent\u00e3o as promessas feitas na primeira Comunh\u00e3o. Disse v\u00e1rias vezes: \u00abSim, sim, \u00f3 Jesus, \u00f3 Maria, v\u00f3s sereis agora e sempre os amigos de minha alma. Repito e digo mil vezes: antes morrer, mas n\u00e3o pecar.\u00bb Terminada a a\u00e7\u00e3o de gra\u00e7as, disse com toda tranquilidade: \u00abAgora estou contente; \u00e9 verdade que devo fazer a longa viagem da eternidade, mas com Jesus em minha companhia nada tenho a temer. Oh! Dizei sempre, dizei a todos: quem tem Jesus por amigo e companheiro j\u00e1 n\u00e3o teme mal algum, nem mesmo a morte.\u00bb<\/p>\n<p>Sua paci\u00eancia foi exemplar em todos os inc\u00f4modos sofridos durante a vida; mas nesta \u00faltima doen\u00e7a mostrou-se verdadeiro modelo de santidade.<\/p>\n<p>N\u00e3o queria que ningu\u00e9m o ajudasse nas necessidades ordin\u00e1rias. \u00abEnquanto eu puder\u00bb, dizia, \u00abquero diminuir o inc\u00f4modo de meus queridos pais; eles j\u00e1 suportaram tantos inc\u00f4modos e tantas fadigas por mim; pudesse eu ao menos recompens\u00e1-los de algum modo!\u00bb Tomava indiferentemente os rem\u00e9dios, at\u00e9 os mais desagrad\u00e1veis; submeteu-se a dez sangrias sem demonstrar o menor ressentimento.<\/p>\n<p>Depois de quatro dias de doen\u00e7a, o m\u00e9dico se alegrou com o enfermo e disse aos parentes: \u00abAgrade\u00e7amos \u00e0 Divina Provid\u00eancia, estamos em bom ponto; a doen\u00e7a foi vencida, precisamos apenas fazer uma convalescen\u00e7a prudente.\u00bb Os bons pais se alegravam com essas palavras. Domingos, por\u00e9m, come\u00e7ou a rir e acrescentou: \u00abO mundo foi vencido; agora s\u00f3 preciso fazer uma prudente apresenta\u00e7\u00e3o diante de Deus.\u00bb Tendo partido o m\u00e9dico, sem se deixar iludir pelo que fora dito, pediu que lhe fosse administrado o Sacramento da Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos. Tamb\u00e9m aqui os parentes consentiram apenas para agrad\u00e1-lo, porque nem eles nem o p\u00e1roco percebiam nele perigo pr\u00f3ximo de morte; ao contr\u00e1rio, a serenidade do rosto e a jovialidade das palavras faziam realmente julg\u00e1-lo em estado de melhora. Mas ele, fosse movido por sentimentos de devo\u00e7\u00e3o, fosse inspirado por uma voz divina que lhe falasse ao cora\u00e7\u00e3o, de fato contava os dias e as horas de vida como se calculam as opera\u00e7\u00f5es de aritm\u00e9tica, e empregava cada momento em preparar-se para comparecer diante de Deus. Antes de receber a Un\u00e7\u00e3o dos Enfermos, fez esta ora\u00e7\u00e3o: \u00ab\u00d3 Senhor, perdoai meus pecados; eu vos amo e quero amar-vos eternamente! Este Sacramento, que em vossa infinita miseric\u00f3rdia permitis que eu receba, apague de minha alma todos os pecados cometidos pelo ouvido, pela vista, pela boca, pelas m\u00e3os e pelos p\u00e9s; sejam meu corpo e minha alma santificados pelos m\u00e9ritos de vossa Paix\u00e3o. Am\u00e9m.\u00bb<\/p>\n<p>Respondia a cada pergunta com tal clareza de voz e exatid\u00e3o de conceitos que o ter\u00edamos considerado em perfeito estado de sa\u00fade.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos no dia 9 de mar\u00e7o, quarto dia de sua doen\u00e7a e \u00faltimo de sua vida. J\u00e1 lhe haviam sido feitas dez sangrias, al\u00e9m de outros rem\u00e9dios, e suas for\u00e7as estavam inteiramente prostradas; por isso recebeu a b\u00ean\u00e7\u00e3o papal. Ele <em>mesmo recitou<\/em> o Confiteor e respondia ao que dizia o sacerdote. Quando ouviu dizer que, com aquele ato religioso, o Papa lhe concedia a b\u00ean\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica com indulg\u00eancia plen\u00e1ria, sentiu a maior consola\u00e7\u00e3o. <em>\u00abDeo gratias\u00bb,<\/em> ia dizendo, \u00abet<em> semper Deo gratias.\u00bb <\/em>Depois voltou-se para o crucifixo e recitou estes versos que lhe eram muito familiares durante a vida:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Senhor, toda a liberdade vos dou,<\/p>\n<p>Eis minhas pot\u00eancias, meu corpo tamb\u00e9m,<\/p>\n<p>Tudo vos dou, pois tudo \u00e9 vosso, \u00f3 Deus,<\/p>\n<p>E em vossa vontade eu me abandono.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838035\"><\/a>CAP\u00cdTULO XXV. Seus \u00faltimos momentos e sua preciosa morte<a name=\"_Toc504540975\"><\/a><a name=\"_Toc504541410\"><\/a><a name=\"_Toc504541972\"><\/a><a name=\"_Toc530304069\"><\/a><a name=\"_Toc24283682\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 verdade de f\u00e9 que o homem recolhe na hora da morte o fruto de suas obras. Quae<em> seminaverit homo, haec et metet. Se<\/em> durante a vida semeou boas obras, recolher\u00e1 naqueles \u00faltimos momentos frutos de consola\u00e7\u00e3o; se semeou obras m\u00e1s, ent\u00e3o recolher\u00e1 desola\u00e7\u00e3o sobre desola\u00e7\u00e3o. Contudo, acontece \u00e0s vezes que almas boas, depois de uma vida santa, experimentem terror e espanto quando se aproxima a hora da morte. Isso acontece segundo os ador\u00e1veis decretos de Deus, que quer purificar aquelas almas das pequenas manchas que talvez tenham contra\u00eddo durante a vida e assim assegurar-lhes e tornar-lhes mais bela a coroa de gl\u00f3ria no c\u00e9u. Com o nosso S\u00e1vio n\u00e3o foi assim. Creio que Deus quis dar-lhe aquele c\u00eantuplo que concede \u00e0s almas dos justos j\u00e1 antes da gl\u00f3ria do para\u00edso. De fato, a inoc\u00eancia conservada at\u00e9 o \u00faltimo momento da vida, sua f\u00e9 viva, suas cont\u00ednuas ora\u00e7\u00f5es, suas longas penit\u00eancias e toda uma vida semeada de tribula\u00e7\u00f5es certamente lhe mereceram aquele conforto na hora da morte.<\/p>\n<p>Via, portanto, aproximar-se a morte com a tranquilidade de uma alma inocente; antes, parecia que nem mesmo seu corpo sentisse as ang\u00fastias e opress\u00f5es insepar\u00e1veis dos esfor\u00e7os que naturalmente a alma deve fazer ao romper os v\u00ednculos do corpo. Em suma, a morte de S\u00e1vio pode ser chamada repouso mais do que morte.<\/p>\n<p>Era a noite de 9 de mar\u00e7o de 1857; ele havia recebido todos os confortos de nossa santa religi\u00e3o cat\u00f3lica. Quem apenas o ouvisse falar e contemplasse a serenidade de seu rosto teria julgado ver algu\u00e9m deitado para descansar. O aspecto alegre, os olhos ainda vivos e a plena consci\u00eancia de si eram coisas que faziam todos se admirarem, e ningu\u00e9m, exceto ele, conseguia convencer-se de que estivesse \u00e0 beira da morte.<\/p>\n<p>Uma hora e meia antes de dar o \u00faltimo suspiro, o p\u00e1roco foi visit\u00e1-lo e, vendo sua tranquilidade, escutava admirado as recomenda\u00e7\u00f5es da alma que Domingos fazia. Ele pronunciava frequentes e prolongadas jaculat\u00f3rias, todas destinadas a manifestar seu vivo desejo de ir depressa para o c\u00e9u. \u00abQue se pode sugerir para recomendar a alma a um agonizante desta esp\u00e9cie?\u00bb, disse o p\u00e1roco. Depois de recitar com ele algumas ora\u00e7\u00f5es, o sacerdote estava para sair quando S\u00e1vio o chamou, dizendo: \u00abSenhor p\u00e1roco, antes de partir, deixe-me alguma lembran\u00e7a.\u00bb \u2013 \u00abEu\u00bb, respondeu, \u00abn\u00e3o saberia que lembran\u00e7a deixar-lhe.\u00bb \u2013 \u00abAlguma lembran\u00e7a que me conforte.\u00bb \u2013 \u00abN\u00e3o sei dizer-lhe outra coisa sen\u00e3o que se lembre da Paix\u00e3o do Senhor.\u00bb \u2013 \u00abDeo gratias\u00bb<em>, respondeu,<\/em> \u00aba Paix\u00e3o de nosso Senhor Jesus Cristo esteja sempre em minha mente, em minha boca, em meu cora\u00e7\u00e3o. Jesus, Jos\u00e9 e Maria, assisti-me nesta \u00faltima agonia; Jesus, Jos\u00e9 e Maria, expire em paz convosco a minha alma.\u00bb Depois dessas palavras adormeceu e descansou por meia hora. Em seguida, despertando, lan\u00e7ou um olhar para os parentes: \u00abPapai\u00bb, disse, \u00abchegamos.\u00bb<\/p>\n<p>\u2013 Aqui estou, meu filho; do que voc\u00ea precisa?<\/p>\n<p>\u2013 Meu caro papai, chegou a hora; pegue meu<em> Jovem Instru\u00eddo<\/em><a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> e leia para mim as ora\u00e7\u00f5es da boa morte.<\/p>\n<p>A essas palavras, a m\u00e3e desatou a chorar e se afastou do quarto do enfermo. O cora\u00e7\u00e3o do pai se partia de dor e as l\u00e1grimas lhe sufocavam a voz; contudo, criou coragem e come\u00e7ou a ler aquela ora\u00e7\u00e3o. Domingos repetia atentamente e distintamente cada palavra; mas, no fim de cada parte, queria dizer sozinho: \u00abJesus misericordioso, tende piedade de mim.\u00bb Chegando \u00e0s palavras: \u00abQuando finalmente minha alma comparecer diante de v\u00f3s e contemplar pela primeira vez o esplendor imortal de vossa majestade, n\u00e3o a rejeiteis de vossa presen\u00e7a, mas dignai-vos receber-me no seio amoroso de vossa miseric\u00f3rdia, para que eu cante eternamente os vossos louvores\u00bb, acrescentou: \u00ab\u00c9 justamente isso que eu desejo. Oh, caro papai, cantar eternamente os louvores do Senhor!\u00bb Depois pareceu adormecer novamente, como quem reflete seriamente sobre coisa de grande import\u00e2ncia. Pouco depois despertou e, com voz clara e sorridente, disse: \u00abAdeus, caro papai, adeus. O p\u00e1roco queria ainda dizer-me outra coisa e eu n\u00e3o consigo mais lembrar&#8230; Oh! Que coisa t\u00e3o bela estou vendo&#8230;\u00bb Dizendo isso e sorrindo com express\u00e3o de para\u00edso, expirou com as m\u00e3os juntas diante do peito em forma de cruz, sem fazer o menor movimento.<\/p>\n<p>Vai, alma fiel, para junto de teu Criador; o c\u00e9u est\u00e1 aberto para ti, os anjos e os santos prepararam-te uma grande festa. Aquele Jesus que tanto amaste convida-te e chama-te, dizendo: \u00abVem, servo bom e fiel, vem; combateste, alcan\u00e7aste a vit\u00f3ria, agora vem tomar posse de uma alegria que nunca mais te faltar\u00e1: <em>Intra in gaudium Domini tui.\u00bb<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838036\"><\/a>CAP\u00cdTULO XXVI. An\u00fancio de sua morte &#8211; Palavras do professor padre Picco a seus alunos<a name=\"_Toc504540976\"><\/a><a name=\"_Toc504541411\"><\/a><a name=\"_Toc504541973\"><\/a><a name=\"_Toc530304070\"><\/a><a name=\"_Toc24283683\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quando o pai de Domingos o viu pronunciar as palavras do modo que relatamos e depois inclinar a cabe\u00e7a como para repousar, pensou realmente que ele tivesse adormecido de novo. Deixou-o alguns instantes naquela posi\u00e7\u00e3o; mas logo quis cham\u00e1-lo e percebeu que j\u00e1 estava morto. Deixo a cada um imaginar a desola\u00e7\u00e3o dos pais pela perda de um filho que \u00e0 inoc\u00eancia e \u00e0 piedade unia os modos mais am\u00e1veis e mais aptos a fazer-se querer!<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m n\u00f3s, aqui na casa do Orat\u00f3rio, est\u00e1vamos ansiosos por receber not\u00edcias desse venerado amigo e companheiro, quando recebi de seu pai uma carta que come\u00e7ava assim: \u00abCom l\u00e1grimas nos olhos, anuncio-lhe a mais triste not\u00edcia: meu querido filho Domingos, seu disc\u00edpulo, como c\u00e2ndido l\u00edrio, como Lu\u00eds Gonzaga, entregou sua alma ao Senhor ontem \u00e0 noite, dia 9 deste m\u00eas de mar\u00e7o, depois de ter recebido do modo mais consolador os santos Sacramentos e a b\u00ean\u00e7\u00e3o papal.\u00bb<\/p>\n<p>Essa not\u00edcia lan\u00e7ou seus companheiros em consterna\u00e7\u00e3o. Uns choravam nele a perda de um amigo e de um conselheiro fiel; outros suspiravam por ter perdido um modelo de verdadeira piedade. Alguns se reuniram para rezar pelo repouso de sua alma. Mas a maioria dizia:<\/p>\n<p>\u00abEle era santo; agora j\u00e1 est\u00e1 no para\u00edso.\u00bb Outros come\u00e7aram a recomendar-se a ele como a um protetor junto de Deus. Todos, depois, competiam para possuir algum objeto que lhe tivesse pertencido.<\/p>\n<p>Levando-se aquela not\u00edcia ao professor padre Picco, ele ficou profundamente consternado. Reunidos os alunos, todo comovido comunicou-lhes o triste an\u00fancio com estas palavras: \u00abN\u00e3o faz muito tempo, car\u00edssimos jovens, falando-vos por acaso da fragilidade da vida humana, eu vos fazia observar como a morte \u00e0s vezes n\u00e3o poupa nem mesmo a vossa florescente idade, e dava-vos como exemplo que, h\u00e1 dois anos, nestes mesmos dias, frequentava esta mesma escola, sentava-se aqui presente para me ouvir, um jovem cheio de vida e vigor, o qual, depois de poucos dias de aus\u00eancia, passava desta vida, chorado pelos parentes e pelos amigos. Quando vos recordava aquele caso doloroso, estava bem longe de pensar que o presente ano haveria de ser entristecido por semelhante luto e que tal exemplo se renovaria t\u00e3o depressa em um daqueles mesmos que me escutavam. Sim, meus caros, devo amargurar-vos com uma dolorosa not\u00edcia. A foice da morte ceifou anteontem a vida de um dos mais virtuosos entre vossos companheiros, o bom jovem Domingos S\u00e1vio. Talvez vos recordeis de como, nos \u00faltimos dias em que frequentou a escola, se mostrava atormentado por uma tosse maligna; por isso nenhum de n\u00f3s se admirou quando soubemos que fora obrigado por ela a afastar-se das aulas. Para tratar melhor sua doen\u00e7a e j\u00e1 prevendo, como repetidamente disse a alguns, seu pr\u00f3ximo fim, seguiu o conselho dos m\u00e9dicos e de seus superiores e foi para junto da fam\u00edlia. Ali a viol\u00eancia do mal desenvolveu-se sobremaneira e, depois de apenas quatro dias de doen\u00e7a, entregou ao Criador seu esp\u00edrito inocente.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p>\u00abLi ontem a carta com que o desolado pai comunicava a dolorosa not\u00edcia, e ela, em sua simplicidade, fazia tal descri\u00e7\u00e3o da santa morte daquele anjo que me comoveu at\u00e9 \u00e0s l\u00e1grimas. Ele n\u00e3o encontra express\u00e3o mais adequada para louvar o amado filho do que cham\u00e1-lo outro S\u00e3o Lu\u00eds Gonzaga, tanto na santidade da vida como na bem-aventurada resigna\u00e7\u00e3o diante da morte. Asseguro-vos que muito me d\u00f3i que ele tenha frequentado por t\u00e3o pouco tempo minha escola e que, nesse breve per\u00edodo, sua fraca sa\u00fade n\u00e3o me tenha permitido conhec\u00ea-lo e conviver com ele mais do que \u00e9 poss\u00edvel numa escola bastante numerosa. Deixo, portanto, a seus superiores dizer-vos qual era a santidade de seus sentimentos e qual seu fervor na piedade; deixo a seus companheiros e amigos, que diariamente o tinham consigo e conviviam familiarmente com ele, dizer-vos a mod\u00e9stia de seus costumes e de toda sua conduta, a seriedade de suas palavras; deixo a seus parentes dizer-vos qual era sua obedi\u00eancia, seu respeito, sua docilidade. E o que poderei eu recordar-vos que j\u00e1 n\u00e3o seja conhecido de todos v\u00f3s? Direi apenas que sempre se tornou louv\u00e1vel por seu comportamento e por sua tranquilidade na escola, por sua dilig\u00eancia e exatid\u00e3o no cumprimento de cada dever e por sua cont\u00ednua aten\u00e7\u00e3o aos meus ensinamentos; e que eu seria feliz se cada um de v\u00f3s se propusesse a seguir seu santo exemplo.<\/p>\n<p>\u00abAntes ainda que a idade e os estudos lhe permitissem frequentar nossa escola, j\u00e1 estando havia tr\u00eas anos entre aqueles que recebem acolhida e instru\u00e7\u00e3o no Orat\u00f3rio de S\u00e3o Francisco de Sales, eu tinha ouvido v\u00e1rias vezes o diretor daquele Orat\u00f3rio falar dele e elogi\u00e1-lo como um dos jovens mais estudiosos e virtuosos da casa. Tamanho era seu ardor pelo estudo, t\u00e3o r\u00e1pido o progresso que fizera nas primeiras classes de latim, que enorme era meu desejo de inclu\u00ed-lo entre meus alunos e grande a expectativa que eu tinha sobre a felicidade de seu talento. E, antes de t\u00ea-lo na escola, j\u00e1 o havia anunciado a alguns de meus alunos como um rival com quem seria belo competir n\u00e3o menos no estudo que na virtude. Nas minhas frequentes visitas ao Orat\u00f3rio, vendo nele uma fisionomia t\u00e3o doce como v\u00f3s sabeis que era a sua, e vendo aquele olhar t\u00e3o inocente, nunca o encontrava sem sentir-me levado a am\u00e1-lo e admir\u00e1-lo. Certamente ele n\u00e3o desmentiu as belas esperan\u00e7as que eu havia concebido quando, no presente ano letivo, come\u00e7ou a frequentar minha escola. A v\u00f3s me dirijo, jovens amad\u00edssimos, que fostes testemunhas de seu recolhimento e de sua aplica\u00e7\u00e3o n\u00e3o somente durante o tempo em que o dever o chamava a escutar-me, mas tamb\u00e9m naquele tempo que muitos jovens, embora n\u00e3o privados de docilidade e dilig\u00eancia, geralmente n\u00e3o t\u00eam escr\u00fapulo em perder. A v\u00f3s pergunto, que fostes seus companheiros n\u00e3o s\u00f3 na escola, mas tamb\u00e9m nos h\u00e1bitos dom\u00e9sticos da vida, se alguma vez o vistes fazer algo que o mostrasse esquecido de qualquer de seus deveres.<\/p>\n<p>\u00abParece-me ainda v\u00ea-lo quando, com aquela mod\u00e9stia que lhe era inteiramente pr\u00f3pria, entrava na escola, tomava seu lugar e, durante todo o tempo da entrada, longe do v\u00e3o palavreado habitual dos jovens de sua idade, repetia a li\u00e7\u00e3o, escrevia anota\u00e7\u00f5es ou se entretinha em alguma leitura \u00fatil; e depois, come\u00e7ada a aula, com que aplica\u00e7\u00e3o eu via aquele seu rosto ang\u00e9lico suspenso de minhas palavras! N\u00e3o \u00e9, portanto, de admirar que, apesar da pouca idade e da sa\u00fade fraca, fosse grand\u00edssimo o proveito que sua intelig\u00eancia tirava dos estudos. Prova disso \u00e9 que, num n\u00famero consider\u00e1vel de jovens, a maioria de intelig\u00eancia mais que mediana, embora j\u00e1 trouxesse dentro de si a doen\u00e7a que afinal o levou ao t\u00famulo e fosse por isso obrigado a aus\u00eancias frequentes, ele conservou quase sempre os primeiros lugares de sua classe. Mas uma coisa atra\u00eda de modo muito particular minha aten\u00e7\u00e3o e minha admira\u00e7\u00e3o: ver como sua jovem mente se mostrava unida a Deus, afetuosa e fervorosa nas ora\u00e7\u00f5es. \u00c9 coisa comum, mesmo entre os jovens menos dissipados, que, arrastados pela natural vivacidade e pelas distra\u00e7\u00f5es a que est\u00e1 sujeita esta fervorosa idade, fa\u00e7am pouqu\u00edssima reflex\u00e3o sobre o sentido das ora\u00e7\u00f5es que s\u00e3o convidados a recitar e quase n\u00e3o as acompanhem com afeto algum do cora\u00e7\u00e3o. Assim acontece que, em grande parte deles, nada mais haja sen\u00e3o os l\u00e1bios e a voz. Ora, se t\u00e3o habitual \u00e9 a distra\u00e7\u00e3o da juventude at\u00e9 nas ora\u00e7\u00f5es dirigidas ao Senhor no sil\u00eancio e na tranquilidade das igrejas ou na solid\u00e3o de seus pr\u00f3prios aposentos, nas ora\u00e7\u00f5es quotidianas, v\u00f3s, \u00f3 jovens, sabeis quanto isso acontece ainda mais facilmente naquelas brev\u00edssimas ora\u00e7\u00f5es que costumam ser ditas antes e depois das li\u00e7\u00f5es escolares. E foi justamente nessas que me foi dado admirar o fervor de nosso Domingos na piedade e a uni\u00e3o de sua alma com Deus. Quantas vezes o observei, com aquele olhar voltado para o c\u00e9u \u2014 o c\u00e9u que t\u00e3o cedo haveria de ser sua morada \u2014, recolher todos os seus sentimentos e, com aquele gesto, oferec\u00ea-los ao Senhor e \u00e0 sua Bem-Aventurada M\u00e3e, com aquela plenitude de afetos que justamente exigem as ora\u00e7\u00f5es recitadas! E esses sentimentos, \u00f3 jovens amad\u00edssimos, eram depois aqueles que animavam seus pensamentos no cumprimento de cada dever; eram aqueles que santificavam cada ato e cada palavra sua, e que dirigiam inteiramente toda a sua vida \u00e0 gl\u00f3ria de Deus. Oh, felizes os jovens que se inspiram em tais sentimentos! Far\u00e3o sua pr\u00f3pria felicidade nesta vida e na outra, e felizes tornar\u00e3o os pais que os educam, os mestres que os instruem e todas as pessoas que se ocupam de seu bem.<\/p>\n<p>\u00abJovens amad\u00edssimos, a vida \u00e9 um dom precios\u00edssimo que Deus nos deu para nos oferecer o meio de adquirir m\u00e9ritos para o c\u00e9u; e assim ser\u00e1 se tudo o que fizermos for de tal natureza que possa ser oferecido \u00e0quele supremo Doador, como justamente fazia nosso Domingos. Mas o que diremos daquele jovem que passa toda a vida completamente esquecido do fim para o qual Deus o destinou, que nunca encontra um momento em que pense dedicar seus afetos ao Criador, que em seu cora\u00e7\u00e3o jamais d\u00e1 lugar a alguma aspira\u00e7\u00e3o que o eleve para seu Deus? E que diremos ainda daquele jovem que faz tudo o que est\u00e1 ao seu alcance para manter longe de si tais sentimentos, ou para combat\u00ea-los e sufoc\u00e1-los quando os sente pr\u00f3ximos de penetrar em seu cora\u00e7\u00e3o? Ah! Refleti um pouco sobre a santa vida e o santo fim de vosso car\u00edssimo companheiro, sobre a invej\u00e1vel sorte da qual podemos confiar que ele goze; e depois, voltando o pensamento para v\u00f3s mesmos, examinai o que ainda vos falta para vos assemelharem a ele e como desejar\u00edeis ser se, como ele, vos encontr\u00e1sseis prestes a apresentar-vos diante daquele tribunal onde Deus pedir\u00e1 de todos conta rigorosa at\u00e9 da menor falta. Se, nessa compara\u00e7\u00e3o, descobrirdes que \u00e9 grande a diferen\u00e7a, tomai-o por exemplo, imitai suas virtudes crist\u00e3s, preparai vossa alma para ser como a dele, pura e limpa aos olhos de Deus, para que, ao chamado repentino que inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, todos n\u00f3s teremos de ouvir, possamos responder com alegria no rosto e sorriso nos l\u00e1bios, como fez vosso ang\u00e9lico condisc\u00edpulo. Escutai ainda um desejo meu, com o qual concluo estas palavras. Se eu perceber que meus alunos introduzem em sua conduta uma melhora not\u00e1vel, se os vir de agora em diante mais exatos em seus deveres e mais penetrados da import\u00e2ncia de uma verdadeira piedade, acreditarei que isso seja efeito do santo exemplo de nosso Domingos e o considerarei uma gra\u00e7a obtida do alto por suas ora\u00e7\u00f5es, como recompensa por terdes sido por breve tempo seus companheiros e eu seu professor.\u00bb<\/p>\n<p>Assim o professor padre Picco expunha a seus alunos a profunda e dolorosa impress\u00e3o que sentira ao receber a not\u00edcia da morte de seu querido aluno Domingos S\u00e1vio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h1><a name=\"_Toc241838037\"><\/a>CAP\u00cdTULO XXVII. Emula\u00e7\u00e3o pela virtude de S\u00e1vio &#8211; Muitos se recomendam a ele para obter favores celestes e s\u00e3o atendidos &#8211; Uma lembran\u00e7a para todos<a name=\"_Toc504540977\"><\/a><a name=\"_Toc504541412\"><\/a><a name=\"_Toc504541974\"><\/a><a name=\"_Toc530304071\"><\/a><a name=\"_Toc24283684\"><\/a><\/h1>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Quem leu as coisas que escrevemos sobre o jovem Domingos S\u00e1vio n\u00e3o se admirar\u00e1 de que Deus se tenha dignado favorec\u00ea-lo com dons especiais, fazendo resplandecer suas virtudes de muitas maneiras. Enquanto ainda vivia, muitos se empenhavam em seguir seus conselhos e exemplos e imitar suas virtudes; muitos tamb\u00e9m, movidos por sua conduta exemplar, pela santidade da vida e pela inoc\u00eancia dos costumes, recomendavam-se a suas ora\u00e7\u00f5es. Contam-se n\u00e3o poucas gra\u00e7as obtidas pelas ora\u00e7\u00f5es que o jovem S\u00e1vio dirigiu a Deus enquanto ainda estava nesta vida mortal. Mas, depois de sua morte, cresceu muito a confian\u00e7a e a venera\u00e7\u00e3o para com ele.<\/p>\n<p>Mal chegou entre n\u00f3s a not\u00edcia de sua morte, v\u00e1rios companheiros come\u00e7aram a proclam\u00e1-lo santo. Reuniram-se para recitar as Ladainhas por um defunto; mas, em vez de responder ora<em> pro eo, <\/em>isto \u00e9:<em> \u00abSanta Maria, rogai pelo repouso de sua alma\u00bb, <\/em>n\u00e3o poucos respondiam: <em>ora pro nobis: \u00abSanta Maria, rogai por n\u00f3s.<\/em>\u00bb \u00abPorque\u00bb, diziam, \u00aba esta hora S\u00e1vio j\u00e1 goza a gl\u00f3ria do Para\u00edso e n\u00e3o precisa mais de nossas ora\u00e7\u00f5es.\u00bb<\/p>\n<p>Outros acrescentavam: \u00abSe Domingos S\u00e1vio, que levou vida t\u00e3o pura e t\u00e3o santa, n\u00e3o foi diretamente para o Para\u00edso, quem poder\u00e1 dizer que consegue ir para l\u00e1?\u00bb Por isso, desde ent\u00e3o, v\u00e1rios amigos e companheiros que admiraram suas virtudes em vida procuravam tom\u00e1-lo como modelo no bem agir e come\u00e7aram a recomendar-se a ele como a um protetor celeste.<\/p>\n<p>Quase todos os dias se contavam gra\u00e7as recebidas, ora para o corpo, ora para a alma. Vi um jovem que sofria de dor de dentes t\u00e3o forte que o fazia desesperar. Tendo-se recomendado a seu companheiro S\u00e1vio com breve ora\u00e7\u00e3o, ficou imediatamente aliviado e at\u00e9 agora n\u00e3o voltou a sofrer desse doloroso mal. Muitos se recomendaram a ele para serem libertados das febres e foram atendidos. Fui testemunha de um que obteve instantaneamente a gra\u00e7a de ser libertado de forte febre.<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> Tenho diante dos olhos muitos relatos de pessoas que exp\u00f5em favores celestes obtidos de Deus por intercess\u00e3o de S\u00e1vio. Mas, embora o car\u00e1ter e a autoridade das pessoas que testemunham esses fatos sejam sob todos os aspectos dignos de f\u00e9, como ainda est\u00e3o vivas, julgo melhor omiti-los por enquanto e contentar-me em relatar aqui apenas uma gra\u00e7a especial obtida por um estudante de filosofia, colega de escola de Domingos.<\/p>\n<p>No ano de 1858, esse jovem sofreu graves problemas de sa\u00fade. Sua sa\u00fade ficou t\u00e3o alterada que teve de interromper o curso de filosofia, submeter-se a muitos tratamentos e, no fim do ano, n\u00e3o lhe foi poss\u00edvel prestar o exame. Tinha grande interesse em poder ao menos preparar-se para o<em> exame de Todos<\/em> os Santos, pois desse modo evitaria perder um ano de estudos. Mas, aumentando seus males, suas esperan\u00e7as iam diminuindo cada vez mais. Foi passar o outono ora com os parentes em sua terra, ora com amigos no campo, e pareceu-lhe j\u00e1 ter melhorado um pouco de sa\u00fade. Mas, chegando a Turim e pondo-se a estudar por pouco tempo, recaiu pior do que antes. \u00abEu estava perto dos exames\u00bb, dep\u00f5e ele, \u00abe minha sa\u00fade encontrava-se em estado deplor\u00e1vel. Os males do est\u00f4mago e da cabe\u00e7a tiravam-me toda esperan\u00e7a de poder prestar o desejado exame, que para mim era de m\u00e1xima import\u00e2ncia. Animado pelo que ouvia contar de meu amado companheiro Domingos, quis tamb\u00e9m recomendar-me a ele, fazendo a Deus uma novena em honra desse meu colega. Entre as ora\u00e7\u00f5es que me propus fazer estava esta: \u2018Caro companheiro, tu que, para minha grande consola\u00e7\u00e3o e felicidade, foste meu condisc\u00edpulo por mais de um ano, tu que santamente competias comigo para ocupar os primeiros lugares de nossa classe, sabes quanto preciso prestar meu exame. Obt\u00e9m-me, portanto, pe\u00e7o-te, do Senhor um pouco de sa\u00fade, para que eu possa preparar-me.\u2019\u00bb<\/p>\n<p>\u00abAinda n\u00e3o se havia completado o quinto dia da novena quando minha sa\u00fade come\u00e7ou a apresentar melhora t\u00e3o not\u00e1vel e r\u00e1pida que logo pude p\u00f4r-me a estudar e, com facilidade incomum, aprender as mat\u00e9rias prescritas e prestar muito bem o exame. A gra\u00e7a n\u00e3o foi apenas moment\u00e2nea, pois atualmente encontro-me em estado regular de sa\u00fade, que h\u00e1 mais de um ano n\u00e3o desfrutava. Reconhe\u00e7o esta gra\u00e7a como obtida de Deus por intercess\u00e3o desse meu companheiro, meu \u00edntimo em vida e agora meu aux\u00edlio e conforto, enquanto goza a gl\u00f3ria do c\u00e9u. J\u00e1 se passaram mais de dois meses desde que essa gra\u00e7a foi obtida, e minha sa\u00fade continua a mesma, para minha grande consola\u00e7\u00e3o e proveito.\u00bb<\/p>\n<p>Com este fato ponho fim \u00e0 vida do jovem S\u00e1vio, reservando-me a imprimir mais adiante alguns outros fatos em forma de ap\u00eandice, do modo que parecer resultar em maior gl\u00f3ria de Deus e proveito das almas. Agora, amigo leitor, j\u00e1 que tiveste a bondade de ler quanto foi escrito sobre este virtuoso jovem, gostaria que chegasses comigo a uma conclus\u00e3o que possa trazer verdadeira utilidade a mim, a ti e a todos aqueles a quem acontecer ler este livrinho; gostaria, isto \u00e9, que nos empenh\u00e1ssemos com esp\u00edrito resoluto em imitar o jovem S\u00e1vio naquelas virtudes que s\u00e3o compat\u00edveis com nosso estado. Em sua pobre condi\u00e7\u00e3o, ele viveu uma vida das mais alegres, virtuosas e inocentes, coroada por uma santa morte. Imitemo-lo no modo de viver e teremos uma dupla garantia de sermos semelhantes a ele na preciosa morte.<\/p>\n<p>Mas n\u00e3o deixemos de imitar S\u00e1vio na frequ\u00eancia ao Sacramento da Confiss\u00e3o, que foi seu sustent\u00e1culo na pr\u00e1tica constante da virtude e guia segura que o conduziu a um fim de vida t\u00e3o glorioso. Aproximemo-nos com frequ\u00eancia e com as devidas disposi\u00e7\u00f5es desse banho de salva\u00e7\u00e3o durante a vida; mas, todas as vezes que nos aproximarmos dele, n\u00e3o deixemos de voltar um pensamento \u00e0s confiss\u00f5es passadas para assegurar-nos de que foram bem feitas e, se percebermos necessidade, remediemos os defeitos que por acaso tenham ocorrido. Parece-me que este \u00e9 o meio mais seguro de viver dias felizes em meio \u00e0s afli\u00e7\u00f5es da vida, ao fim da qual veremos tamb\u00e9m n\u00f3s aproximar-se com calma o momento da morte. Ent\u00e3o, com alegria no rosto e paz no cora\u00e7\u00e3o, iremos ao encontro de nosso Senhor Jesus Cristo, que benignamente nos acolher\u00e1 para julgar-nos segundo sua grande miseric\u00f3rdia e conduzir-nos, como espero para mim e para ti, leitor, das tribula\u00e7\u00f5es da vida \u00e0 bem-aventurada eternidade, para louv\u00e1-lo e bendiz\u00ea-lo por todos os s\u00e9culos. Am\u00e9m.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Com ap\u00eandice sobre as gra\u00e7as obtidas por sua intercess\u00e3o, aos cuidados do sacerdote Jo\u00e3o Bosco<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quarta edi\u00e7\u00e3o aumentada, Turim, 1878, Tipografia e Livraria Salesiana, Sampierdarena &#8211; Nice Mar\u00edtima<\/em><\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Leia-se<em> camponeses.<\/em> Erro tipogr\u00e1fico introduzido pela IV edi\u00e7\u00e3o<em> (N. do E.).<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Antigamente chamava-se Castelnuovo di Rivalba, porque dependia dos condes Biandrate, senhores dessa localidade. Por volta do ano 1300, tendo sido conquistada pelos habitantes de Asti, passou depois a chamar-se Castelnuovo d\u2019Asti. \u2013 Naquele tempo era muito povoada por gente industriosa e muito dedicada ao com\u00e9rcio, que exercia em v\u00e1rias cidades da Europa. Foi terra natal de muitos homens c\u00e9lebres. O famoso Giovanni Argentero, <em>chamado o <\/em>grande m\u00e9dico daquele s\u00e9culo, nasceu em Castelnuovo d\u2019Asti em 1513 \u2013 escreveu muitas obras de vasta erudi\u00e7\u00e3o. Era muito piedoso e devot\u00edssimo da grande M\u00e3e de Deus, e erigiu em sua honra a capela de Nossa Senhora do Povo na igreja paroquial de Santo Agostinho, em Turim \u2013 seu corpo foi sepultado na igreja metropolitana com honrosa inscri\u00e7\u00e3o, que ainda hoje se conserva. \u2013 Muitos outros personagens ilustraram essa localidade. Mais recentemente, o sacerdote Jos\u00e9 Cafasso, homem muito digno de louvor por sua piedade, ci\u00eancia teol\u00f3gica e caridade para com os enfermos, presos, condenados ao pat\u00edbulo e infelizes de toda esp\u00e9cie. Nasceu em 1811 e morreu em 1860. (V. Casalis, dic.<em>) (a). \u2013 * <\/em>Recordamos, para comodidade dos leitores, que a milha piemontesa equivalia a 2,466 km <em>(N. do E.).<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a> Diz-se Riva di Chieri para distingui-la de outras localidades com o mesmo nome; fica a quatro quil\u00f4metros de Chieri. O imperador Frederico, por diploma de 1164, investiu o conde Biandrate do dom\u00ednio de Riva di Chieri. Depois foi cedida aos habitantes de Asti. No s\u00e9culo XVI passou ao dom\u00ednio da Casa de Savoia. \u2013 Monsenhor Agostino della Chiesa e Bonino,<em> na biografia <\/em>m\u00e9dica, falam longamente de muitos personagens c\u00e9lebres que ali nasceram <em>(a)<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> O capel\u00e3o desse povoado era ent\u00e3o o sacerdote Giovanni Zucca, de Moriondo, atualmente residente em sua terra natal <em>(a)<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Mondonio, Mondomio ou Mondone \u00e9 uma pequena localidade de cerca de 400 habitantes, distante duas milhas de Castelnuovo d\u2019Asti, com a qual tem f\u00e1cil comunica\u00e7\u00e3o por meio de uma estrada aberta recentemente mediante a perfura\u00e7\u00e3o de uma colina. \u2013 H\u00e1 mem\u00f3rias desse lugar que remontam a 1034. Passou ao dom\u00ednio da Casa de Savoia pelo tratado de Cherasco, de 1631. (V. Casalis, dic.) <em>(a). \u2013 <\/em>Esta nota hist\u00f3rica foi acrescentada pelo Autor na IV edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> O sacerdote Giuseppe Cugliero, depois de passar alguns anos como capel\u00e3o beneficiado em Pino di Chieri, ap\u00f3s uma vida exemplar, repousou no Senhor naquela mesma localidade <em>(a)<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Aqueles prados est\u00e3o hoje inteiramente cobertos de edif\u00edcios, e o local daquela alterca\u00e7\u00e3o corresponde \u00e0 \u00e1rea sobre a qual se encontra a igreja paroquial de Santa B\u00e1rbara<em> (a). (Nota acrescentada<\/em> na <em>5\u00aa ed.).<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> Esta pequena coroa encontra-se impressa em muitos livros, entre os quais o<em> Giovane Provveduto (a).<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> LU\u00cdS COMOLLO nasceu em Cinzano no ano de 1818 e morreu em 1839, com fama de singular virtude, no Semin\u00e1rio de Chieri, aos 22 anos de idade. A vida desse modelo da juventude foi impressa pela segunda vez no primeiro ano das <em>Letture Cattoliche (a).<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Um dos que mais eficazmente ajudaram Domingos S\u00e1vio a instituir a Companhia da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o e a redigir seu regulamento foi Giuseppe Bongioanni. Tendo ficado \u00f3rf\u00e3o de pai e m\u00e3e, fora recomendado por uma tia ao diretor do Orat\u00f3rio, que caridosamente o acolheu em novembro de 1854. Tinha ent\u00e3o 17 anos e, for\u00e7ado contra a vontade pelas circunst\u00e2ncias, veio ainda com a mente cheia das vaidades do mundo e de preconceitos v\u00e3os em mat\u00e9ria de religi\u00e3o. V\u00ea-se, por\u00e9m, claramente nele a a\u00e7\u00e3o da gra\u00e7a divina, pois em pouco tempo afei\u00e7oou-se grandemente \u00e0 casa, \u00e0s regras e aos superiores; corrigiu insensivelmente suas ideias e entregou-se com todo ardor \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o das virtudes e \u00e0s pr\u00e1ticas de piedade. Dotado de intelig\u00eancia muito perspicaz e de grande facilidade para aprender, foi aplicado aos estudos. Com admir\u00e1vel rapidez concluiu os estudos cl\u00e1ssicos, obtendo excelente resultado. Dotado de imagina\u00e7\u00e3o viva, mostrou grande habilidade na poesia, tanto em l\u00edngua italiana como em dialeto; e, enquanto nas conversas familiares divertia os amigos improvisando sobre temas jocosos, escrevia \u00e0 mesa bel\u00edssimas poesias, muitas das quais foram publicadas, como aquela em honra de Maria Auxiliadora que come\u00e7a: Salve, <em>Salve, pietosa Maria etc., que se<\/em> encontra no <em>Giovane provveduto.<\/em><\/p>\n<p>Tendo iniciado a carreira eclesi\u00e1stica, distinguiu-se sempre durante o clericato por sua piedade, fiel observ\u00e2ncia das regras e zelo pelo bem de seus companheiros. Ordenado sacerdote em 1863, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel dizer com que fervor se entregou ao exerc\u00edcio do sagrado minist\u00e9rio. Embora pouco favorecido pela voz, agradava tanto na prega\u00e7\u00e3o pela beleza da mat\u00e9ria e pela un\u00e7\u00e3o da exposi\u00e7\u00e3o que era ouvido com muito prazer e obtinha abundantes frutos.<\/p>\n<p>Depois de ter ajudado Domingos S\u00e1vio, com quem estava unido em santa amizade, a instituir a Companhia da Imaculada, quando ainda era apenas cl\u00e9rigo, fundou com permiss\u00e3o do superior outra companhia em honra do Sant\u00edssimo Sacramento, que tinha por finalidade promover o culto entre os jovens e exercitar os alunos mais destacados em virtude no servi\u00e7o das fun\u00e7\u00f5es sagradas, formando assim um pequeno clero para aumentar-lhes a majestade e a gra\u00e7a. Continuou a cultivar essa companhia com maior atividade e \u00f3timos resultados quando se tornou sacerdote. E bem se pode dizer que, se a Congrega\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Francisco de Sales j\u00e1 p\u00f4de dar \u00e0 Igreja um belo n\u00famero de ministros dos altares, isso se deve em grande parte aos santos cuidados do padre Bongioanni em torno do Pequeno Clero.<\/p>\n<p>Em 1868, aproximando-se a \u00e9poca da consagra\u00e7\u00e3o da igreja erguida em Valdocco em honra de Maria Auxiliadora, padre Bongioanni empenhou-se com toda dedica\u00e7\u00e3o para preparar as coisas necess\u00e1rias a essa fun\u00e7\u00e3o e especialmente para preparar o Pequeno Clero a desempenhar com edifica\u00e7\u00e3o sua parte no dia da festa e na oitava seguinte, que tamb\u00e9m devia ser solenizada de modo extraordin\u00e1rio. Impelido por ardente amor a Maria Sant\u00edssima, nada poupou de cuidados, fadigas e suores, particularmente na v\u00e9spera, que foi o dia 8 de junho daquele ano. A Virgem Auxiliadora, acolhendo sua fervorosa devo\u00e7\u00e3o e homenagem, obteve-lhe bem depressa a recompensa. Antes, por\u00e9m, quis submet\u00ea-lo a uma prova que, suportada com resigna\u00e7\u00e3o, certamente resultou de grande m\u00e9rito para o bom sacerdote. Ele, que tanto se empenhara pelo bom \u00eaxito das festas, no dia 9 de junho, dia da consagra\u00e7\u00e3o, encontrou-se enfermo, de modo que n\u00e3o podia levantar-se da cama. Nos dias seguintes a doen\u00e7a continuava. Desejoso de poder ao menos uma vez celebrar os divinos mist\u00e9rios na nova igreja, suplicou \u00e0 Sant\u00edssima Virgem com calorosas inst\u00e2ncias que lhe obtivesse essa gra\u00e7a. No domingo dentro da oitava, sentiu tal melhora de for\u00e7as que p\u00f4de, com a devida prepara\u00e7\u00e3o, aproximar-se do altar e celebrar a santa Missa com imensa consola\u00e7\u00e3o de seu cora\u00e7\u00e3o. Depois da Missa disse a alguns de seus amigos que estava t\u00e3o contente que bem podia entoar o <em>Nunc dimittis. <\/em>E assim foi: sentindo as for\u00e7as diminu\u00edrem, voltou para a cama e nunca mais se levantou. Na quarta-feira seguinte, terminada a oitava, fez-se um servi\u00e7o f\u00fanebre pelos benfeitores falecidos; e \u00e0 tarde, conclu\u00eddas todas as fun\u00e7\u00f5es e solenidades, os jovens alunos dos diversos col\u00e9gios que tinham vindo participar da festa partiram para seus destinos.<\/p>\n<p>Uma hora depois, o padre Giuseppe Bongioanni, munido dos confortos da religi\u00e3o, assistido por seu amado diretor e cercado por uma coroa de seus mais caros amigos e confrades, entregou sua bela alma ao Senhor, indo, como firmemente se espera, ver como \u00e9 festejada no C\u00e9u Aquela que constitu\u00eda o objeto de sua mais terna devo\u00e7\u00e3o <em>(a)<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a> Leia-se: 29 de dezembro de 1855.<em> (N. do E.).<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a> O sacerdote e te\u00f3logo Carlo Valfr\u00e8 nasceu em Villafranca di Piemonte em 23 de julho de 1813. Com conduta verdadeiramente exemplar e feliz \u00eaxito percorreu a carreira dos estudos; seguindo sua voca\u00e7\u00e3o, abra\u00e7ou o estado eclesi\u00e1stico. Com zelo apost\u00f3lico trabalhou v\u00e1rios anos no sagrado minist\u00e9rio, at\u00e9 que, em concurso, foi julgado digno da par\u00f3quia de Marmorito.<\/p>\n<p>Era incans\u00e1vel no cumprimento de seus deveres. A instru\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as pobres, a assist\u00eancia aos enfermos e o al\u00edvio dos necessitados eram os tra\u00e7os caracter\u00edsticos de seu zelo. Por bondade, caridade e desinteresse, podia ser proposto como modelo a qualquer sacerdote encarregado de almas.<\/p>\n<p>Quando os cuidados paroquiais o permitiam, ia a outros lugares pregar exerc\u00edcios espirituais, tr\u00edduos, novenas e semelhantes. O Senhor aben\u00e7oava suas fadigas, que eram sempre coroadas de abundantes frutos.<\/p>\n<p>Mas, justamente no tempo em que mais necessit\u00e1vamos dele, Deus o encontrou maduro para o c\u00e9u. Depois de breve doen\u00e7a, com a morte do justo, passou \u00e0 vida bem-aventurada na bela idade de 47 anos, em 12 de fevereiro de 1861.<\/p>\n<p>Essa perda privou a Igreja de um digno ministro e tirou de Marmorito um pastor que, com raz\u00e3o, era chamado pai do povo; mas todos n\u00f3s ficamos n\u00e3o pouco consolados na esperan\u00e7a de ter adquirido um benfeitor junto de Deus no c\u00e9u <em>(a)<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Com esse nome indicava o livro inteiramente destinado \u00e0 juventude, que tem por t\u00edtulo: O <em>Jovem Instru\u00eddo para<\/em> a pr\u00e1tica de seus deveres, dos exerc\u00edcios de piedade crist\u00e3, para a recita\u00e7\u00e3o do of\u00edcio da Bem-Aventurada Virgem, das v\u00e9speras de todo o ano e do of\u00edcio dos mortos etc. <em>(a).<\/em><\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Leone Cocchis, estudante do 2\u00ba ano de Ret\u00f3rica, jovem de belas esperan\u00e7as, falecido em 25 de mar\u00e7o de 1855, aos 15 anos de idade<em> (a)<\/em>.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Essa venera\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a no jovem S\u00e1vio cresceram grandemente depois que ali foi feito um curioso relato pelo pai de Domingos, que est\u00e1 pronto a confirmar sua afirma\u00e7\u00e3o em qualquer lugar e na presen\u00e7a de qualquer pessoa. Ele exp\u00f4s o fato assim:<\/p>\n<p>\u00abA perda daquele meu filho\u00bb, diz ele, \u00abfoi para mim causa de profund\u00edssima afli\u00e7\u00e3o, alimentada pelo desejo de saber o que lhe havia acontecido na outra vida. Deus quis consolar-me. Cerca de um m\u00eas depois de sua morte, certa noite, depois de ficar muito tempo sem conseguir dormir, pareceu-me ver abrir-se o teto do quarto em que eu dormia e, em meio a uma grande luz, aparecer-me Domingos com rosto sorridente e alegre, mas de aspecto majestoso e imponente. Diante daquele espet\u00e1culo surpreendente, fiquei fora de mim. \u2018\u00d3 Domingos!\u2019, comecei a exclamar. \u2018Meu Domingos! Como vai? Onde est\u00e1? J\u00e1 est\u00e1 no para\u00edso?\u2019 \u2018Sim, pai\u2019, respondeu, \u2018estou realmente no Para\u00edso!\u2019 \u2018Ah!\u2019, repliquei, \u2018se Deus lhe concedeu t\u00e3o grande favor de poder gozar a felicidade do c\u00e9u, reze por seus irm\u00e3os e irm\u00e3s para que um dia possam ir para junto de voc\u00ea.\u2019 \u2013 \u2018Sim, sim, pai\u2019, respondeu, \u2018rezarei a Deus por eles, para que um dia possam vir comigo gozar a imensa felicidade do c\u00e9u.\u2019 \u2018Reze tamb\u00e9m por mim\u2019, repliquei, \u2018reze por sua m\u00e3e, para que todos possamos salvar-nos e encontrar-nos um dia juntos no Para\u00edso.\u2019 \u2018Sim, sim, rezarei.\u2019 Dito isso, desapareceu, e o quarto voltou \u00e0 escurid\u00e3o de antes.\u00bb<\/p>\n<p>O pai assegura que dep\u00f5e simplesmente a verdade e diz que, nem antes nem depois, nem acordado nem dormindo, teve de ser consolado por apari\u00e7\u00e3o semelhante <em>(a)<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abEnt\u00e3o eu sou o tecido; que ela seja a costureira.\u00bb Com essas palavras, em 2&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":55093,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":1,"footnotes":""},"categories":[173],"tags":[2561,1749,2577,1827,1815,2228],"class_list":["post-55112","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-dom-bosco","tag-carisma-salesiano","tag-conselhos","tag-dom-bosco","tag-gracas-obtidas","tag-juventude","tag-santos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55112","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=55112"}],"version-history":[{"count":3,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55112\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":55115,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/55112\/revisions\/55115"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/55093"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=55112"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=55112"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=55112"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}