{"id":54952,"date":"2026-09-23T12:04:24","date_gmt":"2026-09-23T12:04:24","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=54952"},"modified":"2026-09-23T12:05:19","modified_gmt":"2026-09-23T12:05:19","slug":"sao-francisco-de-sales-descobre-o-cantico-dos-canticos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/sem-categorizacao\/sao-francisco-de-sales-descobre-o-cantico-dos-canticos\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Francisco de Sales descobre o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos"},"content":{"rendered":"<p><em><i>Aos dezessete anos, no cora\u00e7\u00e3o do carnaval parisiense, Francisco de Sales buscava muito mais do que divers\u00f5es e espet\u00e1culos. O jovem estudante, j\u00e1 fascinado pelos autores cl\u00e1ssicos, mas interiormente insatisfeito, descobriu o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos nas aulas b\u00edblicas de Gilbert Genebrard. Aquelas p\u00e1ginas lhe revelaram a vida espiritual como uma hist\u00f3ria de amor entre Deus e a alma, destinada a marcar para sempre a sua ora\u00e7\u00e3o, as suas escolhas e o seu apostolado. Desde ent\u00e3o, a linguagem esponsal do C\u00e2ntico acompanhou as crises da juventude, a miss\u00e3o no Chablais, a prega\u00e7\u00e3o, a dire\u00e7\u00e3o espiritual e as suas obras maiores. Na Igreja, na alma devota e em Maria, Francisco reconheceu a esposa amada por Cristo e chamada a responder fielmente ao seu amor.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Era durante o carnaval em Paris. Francisco de Sales tinha 17 anos e era estudante com os jesu\u00edtas. Enquanto todos pensavam em se divertir e se distrair, Francisco parecia preocupado, at\u00e9 mesmo triste. N\u00e3o sabendo se estava doente ou simplesmente melanc\u00f3lico, o seu preceptor prop\u00f4s-lhe assistir aos espet\u00e1culos da festa.<\/p>\n<p>Diante dessa proposta, o jovem formulou subitamente esta ora\u00e7\u00e3o tirada da Escritura: \u00abDesvia os meus olhos de verem a vaidade\u00bb. E acrescentou: \u00abSenhor, faze com que eu veja\u00bb. Ver o qu\u00ea? \u00abA santa teologia \u2013 respondeu \u2013; \u00e9 ela que me ensinar\u00e1 o que Deus quer que a minha alma aprenda\u00bb. At\u00e9 ent\u00e3o, ele havia estudado com grande proveito os autores pag\u00e3os da antiguidade de que gostava; mas o seu cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o estava satisfeito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Uma descoberta<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Com a permiss\u00e3o do seu preceptor, Francisco come\u00e7ou a frequentar as aulas de exegese b\u00edblica do famoso Gilbert Genebrard, um beneditino de Cluny, que comentava o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. Genebrard transmitiu aos seus ouvintes uma interpreta\u00e7\u00e3o aleg\u00f3rica e totalmente espiritual que encantou o jovem estudante, a ponto de ele poder exclamar com a Sulamita: \u00abEncontrei Aquele que o meu cora\u00e7\u00e3o ama\u00bb.<\/p>\n<p>Para Francisco, afirma o P. Andr\u00e9 Ravier, foi uma esp\u00e9cie de revela\u00e7\u00e3o, e a partir daquele momento \u00abn\u00e3o p\u00f4de mais conceber a vida espiritual sen\u00e3o como uma hist\u00f3ria de amor, a mais bela das hist\u00f3rias de amor\u00bb.<\/p>\n<p>Os efeitos dessa descoberta n\u00e3o se fizeram esperar. O jovem estudante viveu um per\u00edodo de excepcional fervor. Inscreveu-se na Congrega\u00e7\u00e3o de Maria, uma associa\u00e7\u00e3o promovida pelos jesu\u00edtas que reunia a elite espiritual dos estudantes dos seus col\u00e9gios. O seu cora\u00e7\u00e3o inflamou-se por esse Deus que lhe fazia \u00absaborear t\u00e3o docemente as suas del\u00edcias\u00bb, que se mostrava a ele \u00abt\u00e3o am\u00e1vel\u00bb, a ponto de, pouco depois, repensando naquela experi\u00eancia, exclamar: \u00ab\u00d3 amor, \u00f3 caridade, \u00f3 beleza a quem dediquei todos os meus afetos!\u00bb.<\/p>\n<p>Nas <em><i>Regras de vida crist\u00e3<\/i><\/em> que se imp\u00f4s naquele per\u00edodo, encontra-se o primeiro testemunho escrito da sua devo\u00e7\u00e3o ao C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos: para aplacar o seu desejo de comunh\u00e3o eucar\u00edstica, propunha-se a nunca deixar de \u00abcorrer ao odor dos perfumes do Senhor\u00bb. E num manuscrito de filosofia datado do mesmo per\u00edodo, a prop\u00f3sito da verdadeira felicidade do homem, l\u00ea-se esta cita\u00e7\u00e3o do C\u00e2ntico, testemunho da alegria da sua descoberta, que soa como um lema e um programa de vida: \u00ab<em><i>Tenui illum, neque dimittam<\/i><\/em>\u00bb, eu o agarrei e nunca mais o deixarei.<\/p>\n<p>Esta forte resolu\u00e7\u00e3o foi-lhe muito \u00fatil durante a terr\u00edvel crise que o assaltou no final de 1586 ou no in\u00edcio de 1587, dois ou tr\u00eas anos ap\u00f3s a sua maravilhosa descoberta. Meditando sobre a quest\u00e3o da predestina\u00e7\u00e3o e acreditando-se destinado ao inferno, desesperava-se:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Eu, miser\u00e1vel, ah! Serei talvez privado da gra\u00e7a Daquele que me fez saborear t\u00e3o docemente as suas del\u00edcias e que me mostrou tanta benevol\u00eancia?<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O que o afligia de modo particular era o pensamento de ser privado da vis\u00e3o da Virgem Maria, que o C\u00e2ntico lhe havia descrito \u00abbela como a lua e eleita como o sol\u00bb.<\/p>\n<p>Sabemos que a crise foi resolvida justamente ap\u00f3s uma ora\u00e7\u00e3o a Maria, venerada em Paris com o t\u00edtulo de Notre-Dame de Bonne D\u00e9livrance (Nossa Senhora do Bom Livramento).<\/p>\n<p>A sua resolu\u00e7\u00e3o de fidelidade, tomada de empr\u00e9stimo do texto sagrado, acompanhou-o a P\u00e1dua, onde estudou direito de 1588 a 1592, continuando ao mesmo tempo o estudo da teologia. Constatando com grande dor a divis\u00e3o religiosa e pol\u00edtica da Europa, proclamou a sua inabal\u00e1vel fidelidade \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica com outra refer\u00eancia ao C\u00e2ntico: \u00abN\u00e3o sou a raposa que devasta as vinhas\u00bb.<\/p>\n<p>Como se pode constatar, n\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos desempenhou um papel de primeiro plano na forma\u00e7\u00e3o do jovem Francisco, ao qual forneceu uma inspira\u00e7\u00e3o, um encorajamento e um programa de vida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>O C\u00e2ntico nas obras de Francisco de Sales<\/b><\/strong><\/p>\n<p>A partir da sua ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal em 1593, seguida da miss\u00e3o em Thonon junto aos protestantes calvinistas do Chablais, e sobretudo ap\u00f3s a sua consagra\u00e7\u00e3o episcopal em 1602, a vida de Francisco de Sales confunde-se praticamente com a sua obra.<\/p>\n<p>A medita\u00e7\u00e3o do seu livro preferido nunca o abandonou, nem mesmo durante a miss\u00e3o do Chablais nos anos 1594-1598. Num bilhete datado daquele per\u00edodo, foram encontradas estas palavras inflamadas, fruto dos seus col\u00f3quios apost\u00f3licos e m\u00edsticos com o Amado, que recordam \u00abo zelo de amor forte como o inferno\u00bb do C\u00e2ntico: \u00ab<em><i>Amor meus furor meus!<\/i><\/em> O meu amor \u00e9 todo o meu furor. Parece-me, de fato, que o meu zelo se transformou em furor pelo meu Amado\u00bb. Repetia frequentemente estes pequenos versos inflamados:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u00c9 o amor ou o furor<\/p>\n<p>que me estimula, \u00f3 divino Salvador?<\/p>\n<p>Sim, meu Deus, s\u00e3o ambas as coisas,<\/p>\n<p>Porque eu ardo quando eu quero.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>No livro das <em><i>Controv\u00e9rsias<\/i><\/em>, redigido durante a sua miss\u00e3o no Chablais e publicado inicialmente sob a forma de folhas soltas em 1595-1596, para mostrar aos seus leitores e contraditores que a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 a Igreja querida por Cristo, cita mais de vinte vezes \u00abestes admir\u00e1veis cantos e representa\u00e7\u00f5es pastorais dos amores do Esposo celeste com a Igreja\u00bb.<\/p>\n<p>Outra obra pol\u00eamica, a <em><i>Defesa do Estandarte da Santa Cruz<\/i><\/em>, publicada em 1600, n\u00e3o cont\u00e9m nenhuma cita\u00e7\u00e3o expl\u00edcita, mas \u00e9 poss\u00edvel que o autor tenha tomado de empr\u00e9stimo a imagem militar do estandarte do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, onde se l\u00ea, segundo o hebraico: \u00abO estandarte sobre mim \u00e9 o amor\u00bb.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da <em><i>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 vida devota<\/i><\/em>, publicada em 1609, que cont\u00e9m cerca de trinta cita\u00e7\u00f5es, o editor beneditino Dom Mackey afirmou com raz\u00e3o que \u00aba esposa do C\u00e2ntico, modelo de docilidade \u00e0 guia do Esp\u00edrito Santo, reaparece a cada momento para ensinar \u00e0 alma devota as delicadezas do amor sagrado, a fidelidade aos convites da gra\u00e7a\u00bb.<\/p>\n<p>N\u00e3o surpreende constatar que o <em><i>Tratado do Amor de Deus<\/i><\/em>, publicado em 1616 e endere\u00e7ado a um personagem de nome Te\u00f3timo, seja a obra de Francisco de Sales mais rica em refer\u00eancias ao C\u00e2ntico, a ponto de se poder dizer que esta obra, nos seus doze livros, \u00ab\u00e9 ela mesma, num certo sentido, um coment\u00e1rio ao C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos\u00bb. As cita\u00e7\u00f5es e as alus\u00f5es, em n\u00famero de cerca de 170, abundam sobretudo no livro V, onde o autor trata \u00abdos dois exerc\u00edcios do amor sagrado que se realizam por complac\u00eancia e benevol\u00eancia\u00bb, bem como nos livros VI e VII dedicados \u00e0 ora\u00e7\u00e3o. S\u00e3o mais raras nos livros VIII e IX, onde trata do amor de conformidade \u00e0 vontade de Deus e do amor de submiss\u00e3o ao seu benepl\u00e1cito. Tornam-se novamente mais frequentes nos \u00faltimos tr\u00eas livros dedicados ao primado do amor na vida espiritual.<\/p>\n<p>A funda\u00e7\u00e3o em 1610 do Instituto da Visita\u00e7\u00e3o deu um novo impulso ao uso do livro sagrado. O C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos era frequentemente o tema das instru\u00e7\u00f5es que o fundador fazia \u00e0s suas filhas espirituais. N\u00e3o se deve esquecer tamb\u00e9m que o lan\u00e7amento do novo Instituto coincidiu mais ou menos com a reda\u00e7\u00e3o do <em><i>Tratado do Amor de Deus<\/i><\/em>. Nos <em><i>Entretenimentos espirituais<\/i><\/em>, que re\u00fanem as suas instru\u00e7\u00f5es \u00e0s primeiras visitandinas, encontram-se cerca de trinta alus\u00f5es sobre v\u00e1rios assuntos relativos \u00e0 vida espiritual das religiosas.<\/p>\n<p>Al\u00e9m de todas as outras cita\u00e7\u00f5es b\u00edblicas, as refer\u00eancias ao C\u00e2ntico e as simples refer\u00eancias a este livro s\u00e3o muito numerosas nos seus <em><i>Serm\u00f5es<\/i><\/em>, onde se contam at\u00e9 130 nos serm\u00f5es redigidos pelo seu pr\u00f3prio punho ou simplesmente esbo\u00e7ados sob a forma de esquema ou roteiro, e quase 80 nos serm\u00f5es destinados \u00e0s religiosas da Visita\u00e7\u00e3o e recolhidos por elas.<\/p>\n<p>N\u00e3o faltam alus\u00f5es ao C\u00e2ntico nem mesmo nos dez volumes das <em><i>Cartas<\/i><\/em>, que contam cerca de 110. Mas, como se podia esperar, s\u00e3o identific\u00e1veis quase exclusivamente nas cartas de dire\u00e7\u00e3o espiritual.<\/p>\n<p>Nos cinco volumes dos <em><i>Op\u00fasculos<\/i><\/em>, as cita\u00e7\u00f5es s\u00e3o distribu\u00eddas de modo desigual. Na primeira s\u00e9rie, intitulada \u00abEstudos e vida \u00edntima\u00bb, encontram-se apenas cinco, mas muito significativas porque remontam ao per\u00edodo da forma\u00e7\u00e3o de Francisco, e apenas uma na s\u00e9rie \u00abApostolado\u00bb. N\u00e3o surpreende encontrar poucas refer\u00eancias ao C\u00e2ntico na s\u00e9rie de escritos pol\u00eamicos e nos textos normativos do bispo de Genebra. No volume dedicado \u00e0 Visita\u00e7\u00e3o e \u00e0s normas que a regulam, contam-se 9 cita\u00e7\u00f5es importantes. As refer\u00eancias mais numerosas encontram-se no \u00faltimo volume intitulado \u00abAscetismo e m\u00edstica\u00bb.<\/p>\n<p>Para o nosso trabalho, a an\u00e1lise das cita\u00e7\u00f5es do C\u00e2ntico rastre\u00e1veis nas obras de S\u00e3o Francisco de Sales \u00e9 uma passagem obrigat\u00f3ria, porque nos introduz concretamente no seu universo mental e espiritual, mas n\u00e3o pode ser suficiente. Ser\u00e1 depois necess\u00e1rio chegar \u00e0 interpreta\u00e7\u00e3o salesiana do C\u00e2ntico, que consistir\u00e1 essencialmente em identificar e apresentar os personagens do C\u00e2ntico escolhidos pelo int\u00e9rprete.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Interpreta\u00e7\u00e3o do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Para a maioria dos comentadores modernos, o C\u00e2ntico era na origem uma s\u00e9rie de poesias que celebravam simplesmente o amor humano, \u00abo canto mais belo da cria\u00e7\u00e3o\u00bb, com toda a sua sensualidade. Segundo alguns, um editor os teria reunido conferindo-lhes um tom sapiencial e um poss\u00edvel significado aleg\u00f3rico, como o amor entre o Deus de Israel e o seu povo eleito de que falam os profetas, em particular Oseias e Ezequiel. Alguns exegetas contempor\u00e2neos consideram-no efetivamente um poema sobre o amor humano, n\u00e3o aleg\u00f3rico, mas dotado de significados simb\u00f3licos, possivelmente aberto \u00e0 dimens\u00e3o teol\u00f3gica.<\/p>\n<p>Fiel \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3, o bispo de Genebra atribui o livro a Salom\u00e3o. No seu <em><i>Tratado do Amor de Deus<\/i><\/em>, Salom\u00e3o representa \u00abo Salvador\u00bb, isto \u00e9, Jesus Cristo, que ele chama \u00abpac\u00edfico ou pacificador Salom\u00e3o\u00bb, enquanto a Sulamita \u00e9 a amada, \u00abtranquila e filha da paz\u00bb.<\/p>\n<p>A explica\u00e7\u00e3o espiritual que d\u00e1 \u00e9 aquela que estava em uso praticamente desde os tempos de Or\u00edgenes no s\u00e9culo III. Para ele, o C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos \u00e9 uma celebra\u00e7\u00e3o do amor de Deus, fonte e modelo de qualquer outro amor.<\/p>\n<p>Em linha com a interpreta\u00e7\u00e3o judaica tradicional, que lia no C\u00e2ntico a hist\u00f3ria das rela\u00e7\u00f5es de amor entre Deus e Israel, os Padres da Igreja viam nele as rela\u00e7\u00f5es de Deus ou de Cristo com a Igreja. O C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, afirmava Francisco de Sales depois de muitos outros, \u00e9 \u00abo epital\u00e2mio da Igreja e de Cristo\u00bb. Muito frequentemente, no entanto, s\u00e3o as rela\u00e7\u00f5es entre Deus Salvador e a alma individual que ocupam nele o primeiro plano. \u00c9 esta a interpreta\u00e7\u00e3o que adotou no seu <em><i>Tratado do Amor de Deus<\/i><\/em>, onde declara:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>O grande Salom\u00e3o descreve de modo deliciosamente admir\u00e1vel o amor do Salvador e da alma devota, naquela obra divina que pela sua excelente do\u00e7ura \u00e9 chamada C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. E para nos elevar mais docemente \u00e0 considera\u00e7\u00e3o deste amor espiritual que se exerce entre Deus e n\u00f3s, atrav\u00e9s da correspond\u00eancia dos movimentos dos nossos cora\u00e7\u00f5es com as inspira\u00e7\u00f5es da sua divina Majestade, ele recorre a uma representa\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua dos amores de um casto pastor e de uma pudica pastora.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Frequentemente, como poderemos constatar, encontraremos tamb\u00e9m a interpreta\u00e7\u00e3o mariana, que havia ganhado espa\u00e7o no Ocidente durante a Idade M\u00e9dia, em particular com Ruperto de Deutz. Mesmo sendo a m\u00e3e de Jesus, Maria foi frequentemente considerada no plano espiritual como a nova Eva ao lado do novo Ad\u00e3o, e portanto como a amada pelo seu amor sem par por Cristo.<\/p>\n<p>Todas estas diversas interpreta\u00e7\u00f5es \u2013 coletiva, individual e mariana \u2013 est\u00e3o presentes no pensamento e nos escritos de S\u00e3o Francisco de Sales. Caber\u00e1 a n\u00f3s mostrar o uso que ele fez delas e colocar em evid\u00eancia, tanto quanto poss\u00edvel, a originalidade da sua leitura e da sua interpreta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>O C\u00e2ntico na vida de S\u00e3o Francisco de Sales<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Gra\u00e7as \u00e0s suas cita\u00e7\u00f5es do C\u00e2ntico, talvez sejamos capazes de penetrar um pouco mais fundo na alma de S\u00e3o Francisco de Sales. Estudando as cerca de setecentas cita\u00e7\u00f5es, alus\u00f5es e refer\u00eancias ao C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, podemos intuir algo da sua vida \u00edntima com Deus.<\/p>\n<p>A alma de Francisco de Sales, poder-se-ia dizer, era a alma da esposa do C\u00e2ntico. N\u00e3o \u00e9 certamente arbitr\u00e1rio afirmar que a espiritualidade que ele extraiu deste livro b\u00edblico e que prop\u00f4s por toda a vida aos seus fi\u00e9is, aos seus correspondentes e \u00e0s suas filhas da Visita\u00e7\u00e3o, foi primeiro vivida e praticada por ele mesmo.<\/p>\n<p>Trata-se de uma espiritualidade que podemos definir como \u00abesponsal\u00bb, no sentido de que \u00e9 inteiramente centrada no amor do Esposo pela esposa e da esposa pelo Esposo. O pr\u00f3prio S\u00e3o Francisco de Sales experimentou o que ensinava aos outros, ou seja, que a alma humana \u00e9 chamada a entrar cada vez mais na alian\u00e7a com o seu Deus e com Jesus Cristo, seu Salvador.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s uma prociss\u00e3o de <em><i>Corpus Christi<\/i><\/em>, durante a qual havia levado o Sant\u00edssimo Sacramento atrav\u00e9s da cidade de Annecy, confessava a Santa Joana Francisca de Chantal ter sido \u00abtocado\u00bb por estas palavras da esposa: \u00abO meu Amado \u00e9 todo meu, e eu sou toda sua; ele repousa entre os meus seios\u00bb, e por estas outras do Esposo: \u00abP\u00f5e-me como um selo sobre o teu cora\u00e7\u00e3o\u00bb, antes de concluir com esta exclama\u00e7\u00e3o: \u00abExiste uma do\u00e7ura compar\u00e1vel a esta?\u00bb.<\/p>\n<p>Nada vale de fato a do\u00e7ura e a for\u00e7a deste Nome que Francisco de Sales n\u00e3o cessa de saborear repetindo uma exclama\u00e7\u00e3o a ele cara: \u00abViva Jesus!\u00bb. Outra vez contou \u00e0 sua confidente habitual: \u00abEsta manh\u00e3, ao acordar, gritei aos nossos ouvidos: Viva Jesus! e teria querido <em><i>espalhar este \u00f3leo sagrado<\/i><\/em> sobre toda a face da terra\u00bb.<\/p>\n<p>A beleza do Amado, sinal e testemunho do seu amor, a sua voz que encanta a sua esposa e toda a sua pessoa o atraem ao m\u00e1ximo, tanto que a sua felicidade \u00e9 a de \u00abcorrer\u00bb atr\u00e1s dele, mesmo quando lhe prop\u00f5e penas, cruzes e espinhos.<\/p>\n<p>A beleza da alma \u2013 e disto Francisco de Sales est\u00e1 bem convencido \u2013 n\u00e3o se deve a si mesma, mas ao amor recebido do Amado que fez tudo por ela. O que h\u00e1 de surpreendente ent\u00e3o se este amor a deixa doente daquela doen\u00e7a de amor de que Francisco parece falar por experi\u00eancia, vendo-se tamb\u00e9m ele incapaz de am\u00e1-la como quereria e impossibilitado de louv\u00e1-la como quereria e deveria?<\/p>\n<p>Ao amor esponsal da alma de Francisco pelo seu Esposo deve ser acrescentado outro elemento da sua vida espiritual: o seu amor pela Igreja. O C\u00e2ntico, segundo uma interpreta\u00e7\u00e3o que ele herda, lembrou-lhe que a Igreja \u00e9 a verdadeira esposa de Jesus Cristo, \u00fanica pomba, santa e fecunda; da\u00ed a sua espiritualidade eclesial, fundada na sua f\u00e9 cat\u00f3lica e na sua responsabilidade episcopal.<\/p>\n<p>Se a Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 verdadeiramente a Igreja querida por Cristo, apesar dos pecados dos seus membros, merece um amor ardente e ciumento como o do Esposo pela sua esposa. O ap\u00f3stolo do Chablais, tornado bispo de Genebra, defende-a com todas as suas for\u00e7as e com a m\u00e1xima do\u00e7ura poss\u00edvel, mas sobretudo mostra-a cheia de amor pelo Esposo que a escolheu e que continua a santific\u00e1-la. O C\u00e2ntico lembrou-lhe tamb\u00e9m que esta esposa precisava de uma companhia de valorosos guardi\u00f5es e ele sabe que faz parte dela na qualidade de pastor da Igreja.<\/p>\n<p>Quanto ao seu afeto pela M\u00e3e do Salvador, ele transparece nos seus v\u00e1rios coment\u00e1rios ao C\u00e2ntico. \u00c9 o \u00faltimo aspecto, e n\u00e3o menos importante, da vida espiritual de Francisco. Maria \u00e9 para ele a esposa perfeita, o trono real do novo Salom\u00e3o, a obra-prima da Reden\u00e7\u00e3o, toda unida ao Filho e apoiada nele. Ela \u00e9 o pr\u00f3prio amor e este amor n\u00e3o fez sen\u00e3o crescer no curso da sua exist\u00eancia como a aurora que avan\u00e7a at\u00e9 o pleno dia, a ponto de no fim ter morrido dele. Do c\u00e9u, para onde subiu com o corpo e a alma, obt\u00e9m-nos tantas gra\u00e7as com a sua ora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aos dezessete anos, no cora\u00e7\u00e3o do carnaval parisiense, Francisco de Sales buscava muito mais do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":54936,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":5,"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[2565,2557,1827,2228],"class_list":["post-54952","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sem-categorizacao","tag-caridade","tag-deus","tag-gracas-obtidas","tag-santos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54952","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=54952"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54952\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":54953,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/54952\/revisions\/54953"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/54936"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=54952"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=54952"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=54952"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}