{"id":54442,"date":"2026-08-24T14:42:15","date_gmt":"2026-08-24T14:42:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=54442"},"modified":"2026-08-24T14:42:49","modified_gmt":"2026-08-24T14:42:49","slug":"educacao-e-humanismo-na-epoca-de-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/educacao-e-humanismo-na-epoca-de-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"Educa\u00e7\u00e3o e humanismo na \u00e9poca de S\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"<p><em><i>Quando Francisco de Sales nasce, em 1567, o mundo est\u00e1 mudando de rosto. A imprensa de Gutenberg difunde livros e sede de instru\u00e7\u00e3o at\u00e9 nas \u00e1reas rurais mais remotas; os humanistas redescobrem os cl\u00e1ssicos gregos e latinos; Cop\u00e9rnico e Galileu revolucionam a ci\u00eancia; os navegadores abrem as rotas do Novo Mundo; e pela primeira vez a inf\u00e2ncia \u00e9 reconhecida como uma fase da vida com necessidades pr\u00f3prias, digna de uma pedagogia feita de do\u00e7ura e paci\u00eancia. O futuro bispo de Genebra respira plenamente esse clima: l\u00ea Erasmo e Montaigne, admira as descobertas geogr\u00e1ficas, escreve um latim elegante e um franc\u00eas cuidadoso. Mas o seu humanismo tem um cora\u00e7\u00e3o crist\u00e3o: \u00e9 o \u00abhumanismo devoto\u00bb que inspirar\u00e1 tamb\u00e9m Dom Bosco.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Uma inven\u00e7\u00e3o \u00abdivina\u00bb<\/b><\/strong><\/p>\n<p>No alvorecer dos tempos modernos, no momento em que a Idade M\u00e9dia chegava ao fim e come\u00e7ava um novo per\u00edodo que foi definido como Renascimento, a inven\u00e7\u00e3o da imprensa e da arte tipogr\u00e1fica em meados do s\u00e9culo XV devia parecer algo extraordin\u00e1rio. Na famosa carta de Garg\u00e2ntua ao filho Pantagruel, Rabelais extasiava-se diante daquelas \u00abimpress\u00f5es t\u00e3o elegantes e corretas no uso, que foram inventadas na minha \u00e9poca, por inspira\u00e7\u00e3o divina\u00bb. Francisco de Sales n\u00e3o estava longe de compartilhar esse entusiasmo quando comparava a obra da cria\u00e7\u00e3o \u00e0 arte de Gutenberg:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Deus, como o tip\u00f3grafo, deu exist\u00eancia a toda a diversidade das criaturas que foram, s\u00e3o e ser\u00e3o, com um \u00fanico tra\u00e7o da sua vontade onipotente.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>De fato, n\u00e3o se pode exagerar o alcance dessa inven\u00e7\u00e3o que, ao difundir o livro, abria uma nova era no campo da comunica\u00e7\u00e3o das ideias e da cultura. Ao lado das obras liter\u00e1rias dos humanistas e dos textos especializados destinados a juristas, eclesi\u00e1sticos, m\u00e9dicos ou mesmo artes\u00e3os, come\u00e7ava a sair das prensas uma imensa produ\u00e7\u00e3o de obras para todos os tipos de p\u00fablico: livros de horas, vidas de santos, \u201c<em><i>Ars moriendi<\/i><\/em>\u201d [A arte de morrer], \u201cImita\u00e7\u00e3o de Cristo\u201d, romances de cavalaria da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Os primeiros livros escolares impressos foram os textos cl\u00e1ssicos latinos e gregos, o famoso dicion\u00e1rio da l\u00edngua latina do lexic\u00f3grafo italiano Calepino, a gram\u00e1tica latina chamada de Donato, c\u00e9lebre gram\u00e1tico do s\u00e9culo IV, bem como as cartilhas nas quais a crian\u00e7a aprendia a ler diretamente em franc\u00eas em breves textos religiosos e moralizantes. A essa altura, a imprensa estava se consolidando nas cidades e os vendedores ambulantes a ofereciam at\u00e9 nas \u00e1reas rurais mais remotas. Em toda parte, se desenvolvia o gosto e a necessidade da leitura e da instru\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>O humanismo dos tempos modernos<\/b><\/strong><\/p>\n<p>O termo Renascimento foi introduzido no s\u00e9culo XIX para designar o movimento cultural nascido na It\u00e1lia j\u00e1 em meados do s\u00e9culo XV. Estava ocorrendo uma profunda mudan\u00e7a nas mentes, cujas causas foram objeto de numerosas discuss\u00f5es. De qualquer forma, n\u00e3o se podem negligenciar as novas condi\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, em particular o desenvolvimento do com\u00e9rcio, da vida urbana e das trocas monet\u00e1rias, que colocavam em crise a velha cultura feudal e clerical da Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Em um sentido negativo, o Renascimento pode ser caracterizado por uma s\u00e9rie de rejei\u00e7\u00f5es: rejei\u00e7\u00e3o do latim b\u00e1rbaro do ensino medieval, rejei\u00e7\u00e3o da \u00abditadura\u00bb de Arist\u00f3teles, o fil\u00f3sofo por excel\u00eancia da Idade M\u00e9dia que o interpretava \u00e0 sua maneira, rejei\u00e7\u00e3o da est\u00e9ril l\u00f3gica escol\u00e1stica. Em um sentido positivo, professava um verdadeiro entusiasmo pela natureza humana e uma curiosidade universal por todas as suas manifesta\u00e7\u00f5es. Nesse sentido, o Renascimento abria caminho para o que seria chamado de humanismo, do qual \u00e9 insepar\u00e1vel.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s os <em><i>studia divinitatis [estudos da divindade]<\/i><\/em> da Idade M\u00e9dia, as pessoas apaixonaram-se pelos <em><i>studia humanitatis [estudos da humanidade]<\/i><\/em>. A curiosidade concentrava-se em particular na antiguidade greco-latina, em seus autores e em seus grandes personagens, que agora eram objeto de um verdadeiro culto. Em um serm\u00e3o de 1621, o pr\u00f3prio Francisco de Sales evocava \u00abos Filipes e os Alexandres de quem os humanistas tanto falam\u00bb. At\u00e9 mesmo a mitologia e os deuses pag\u00e3os voltavam \u00e0 moda, nem que fosse apenas para enriquecer a express\u00e3o liter\u00e1ria e art\u00edstica, mas talvez tamb\u00e9m para algo mais.<\/p>\n<p>O personagem da moda era Alexandre, o Grande, her\u00f3i da Gr\u00e9cia e fundador de um imenso imp\u00e9rio. O bispo de Genebra fala dele com frequ\u00eancia, mas tendo o cuidado de mostrar a superioridade do ap\u00f3stolo Paulo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Este \u00faltimo destr\u00f3i as cidades, derruba os castelos, subjuga o mundo com a for\u00e7a das armas e no final deixa-se derrotar por si mesmo. Pelo contr\u00e1rio, o nosso grande Ap\u00f3stolo parece querer subjugar e percorrer toda a terra para derrubar n\u00e3o as muralhas, mas os cora\u00e7\u00f5es dos homens, e submet\u00ea-los ao seu Mestre atrav\u00e9s da sua prega\u00e7\u00e3o.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O culto da perfei\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria impulsionava os humanistas n\u00e3o apenas a buscar seus pr\u00f3prios modelos entre os gregos e os latinos, mas tamb\u00e9m a escrever em latim, seguindo tais modelos. O latim da escol\u00e1stica dava lugar a um latim cl\u00e1ssico e elegante, cujo modelo insuper\u00e1vel era, para a maioria dos humanistas, o de C\u00edcero. A l\u00edngua francesa tamb\u00e9m adquiria prest\u00edgio; em 1539, Francisco I havia prescrito o seu uso em vez do latim para as ordenan\u00e7as e as senten\u00e7as dos tribunais. Em Saboia, o duque Emanuel Felisberto fez o mesmo em 1560 e Francisco de Sales, que nem sequer era s\u00fadito do rei da Fran\u00e7a, chamava-a afetuosamente de \u00aba nossa l\u00edngua francesa\u00bb.<\/p>\n<p>Uma extraordin\u00e1ria sede de conhecimento havia contagiado os humanistas do Renascimento. N\u00e3o apenas se redescobria o verdadeiro Arist\u00f3teles recorrendo aos textos originais, mas descobria-se quase inteiramente Plat\u00e3o, que inspiraria uma nova filosofia natural. Em Floren\u00e7a, o mestre da escola plat\u00f4nica, Mars\u00edlio Ficino, te\u00f3rico do amor e da beleza, via o universo como um organismo animado, sujeito \u00e0s influ\u00eancias celestes, formado pela uni\u00e3o entre o c\u00e9u e a terra.<\/p>\n<p>A matem\u00e1tica estava vivendo um novo florescimento desde que Pierre de La Ram\u00e9e \u2013 mais conhecido por seu nome latino de Ramus \u2013 ousara opor-se a Arist\u00f3teles, tornando-se o primeiro professor dessa disciplina no \u201cColl\u00e8ge Royal de Paris\u201d. Francisco de Sales menciona um de seus sucessores, \u00abo famoso Bressius\u00bb, que ocupou sua c\u00e1tedra a partir de 1576.<\/p>\n<p>O astr\u00f4nomo polon\u00eas Cop\u00e9rnico derrubou o sistema geoc\u00eantrico de Ptolomeu, afirmando que os planetas giram sobre si mesmos e ao redor do Sol ao longo de \u00f3rbitas circulares n\u00e3o situadas no mesmo plano. Sua teoria esteve na origem da revolu\u00e7\u00e3o cient\u00edfica do s\u00e9culo XVII. Seu disc\u00edpulo mais famoso foi Galileu, pioneiro do m\u00e9todo experimental, que observou o c\u00e9u por meio da luneta astron\u00f4mica, ancestral do telesc\u00f3pio.<\/p>\n<p>A medicina tamb\u00e9m estava se libertando de seus pr\u00f3prios preconceitos filos\u00f3ficos para dedicar-se \u00e0 experimenta\u00e7\u00e3o, como ocorreu em particular na Universidade de P\u00e1dua, frequentada pelo jovem Francisco de Sales. No mesmo ano de 1543 em que Cop\u00e9rnico publicou o seu <em><i>De revolutionibus orbium c\u0153lestium [Das revolu\u00e7\u00f5es das esferas celestes]<\/i><\/em>, o m\u00e9dico flamengo Ves\u00e1lio havia impresso o seu <em><i>De humani corporis fabrica [Da organiza\u00e7\u00e3o do corpo humano]<\/i><\/em>, um tratado inteiramente baseado no estudo anat\u00f4mico do corpo humano.<\/p>\n<p>A uma \u00e9poca \u2013 a da Idade M\u00e9dia \u2013 em que tudo era considerado em fun\u00e7\u00e3o de Deus, sucedia uma \u00e9poca de descoberta do homem em todas as suas dimens\u00f5es est\u00e9ticas, liter\u00e1rias, cient\u00edficas e morais. Os diversos ramos do saber emancipavam-se da tutela da teologia. A pol\u00edtica emancipava-se dos dogmas \u00e9ticos e religiosos com Maquiavel, cuja obra-prima \u201cO Pr\u00edncipe\u201d figurava na biblioteca de livros proibidos de Francisco de Sales.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>A descoberta do Novo Mundo<\/b><\/strong><\/p>\n<p>A descoberta de terras desconhecidas na Am\u00e9rica (as \u201c\u00cdndias\u201d Ocidentais), na \u00c1sia (as \u00cdndias Orientais) e na \u00c1frica alimentava uma sede de conhecimento que a partir de ent\u00e3o podia ser satisfeita \u00abem todos os cantos da terra, no Velho e no Novo Mundo\u00bb. Francisco de Sales interessou-se por essas grandes correntes de informa\u00e7\u00f5es e interc\u00e2mbios. Leu a Hist\u00f3ria das \u00cdndias Orientais do jesu\u00edta Jo\u00e3o Pedro Maffei, as \u201cCartas do Jap\u00e3o e da China\u201d do jesu\u00edta P. Lu\u00eds de Almeida, a \u201cHist\u00f3ria geral das \u00cdndias Ocidentais\u201d de Francisco L\u00f3pez de G\u00f3mara e os \u201c<em><i>Dies caniculares\u201d [Dias de c\u00e3o]<\/i><\/em> de Sim\u00e3o Majoli, uma colet\u00e2nea de fen\u00f4menos naturais e de coisas curiosas \u00abna Europa, na \u00c1sia e na \u00c1frica\u00bb.<\/p>\n<p>Conhecia os grandes navegadores portugueses: Bartolomeu Dias, que deu o nome ao Cabo da Boa Esperan\u00e7a; o \u00abvaloroso e cat\u00f3lico capit\u00e3o Albuquerque\u00bb, que mandou \u00abfortificar Goa, cidade principal das \u00cdndias Orientais\u00bb; o descobridor do Brasil, Pedro \u00c1lvares Cabral, que \u00abali ergueu uma cruz alt\u00edssima, raz\u00e3o pela qual todo aquele pa\u00eds foi chamado por muitos anos de regi\u00e3o da Santa Cruz, at\u00e9 que o povo, abandonando aquele nome sagrado, o chamou de Brasil, devido ao nome do pau-brasil que de l\u00e1 se extrai para tinturaria\u00bb.<\/p>\n<p>Em sua \u201cDefesa do Estandarte da Santa Cruz\u201d, Francisco de Sales relata os fatos surpreendentes que acompanharam a chegada do cristianismo al\u00e9m-mar: a apari\u00e7\u00e3o de uma cruz na \u00e9poca de Albuquerque \u00abem uma das regi\u00f5es das \u00cdndias\u00bb, a hist\u00f3ria da cruz miraculosa de Meliapor, a devo\u00e7\u00e3o pela cruz entre os habitantes de Socotor\u00e1, \u00abuma ilha do Mar da Eritreia\u00bb, as apari\u00e7\u00f5es da cruz \u00abnas proximidades do reino dos Abiss\u00ednios\u00bb e \u00abem dire\u00e7\u00e3o ao Jap\u00e3o\u00bb, a apari\u00e7\u00e3o no antigo reino do Congo de homens marcados com o sinal da cruz a servi\u00e7o do rei Afonso e a constru\u00e7\u00e3o do templo da Santa Cruz na cidade de Ambasse.<\/p>\n<p>Mas a descoberta de novas terras trouxe consigo o renascimento da escravid\u00e3o, que lembrava muito a praticada pelos romanos nos tempos do paganismo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Marco Ant\u00f4nio um dia comprou dois jovens meninos que lhe foram apresentados por um certo mercador de cavalos; pois naquela \u00e9poca, como ainda acontece em algumas regi\u00f5es, vendiam-se crian\u00e7as: havia homens que faziam estoque delas e praticavam esse tr\u00e1fico como se faz com os cavalos em nossas terras.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por outro lado, ele tamb\u00e9m descreve o espanto dos ind\u00edgenas diante de certas inven\u00e7\u00f5es:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Diz-se que os bons \u00edndios se divertem por dias inteiros diante de um rel\u00f3gio para ouvi-lo bater as horas no momento exato, e n\u00e3o podendo adivinhar como isso acontece, n\u00e3o dizem, no entanto, que seja desprovido de arte e raz\u00e3o, mas ficam encantados pelo amor e pela honra para com aqueles que governam os rel\u00f3gios, admirando-os como pessoas mais que humanas.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Nas cartas dos mission\u00e1rios jesu\u00edtas, Francisco de Sales recolhe curiosidades, como a daquele animal das \u00cdndias, \u00abo qual, embora sendo por natureza terrestre, pouco a pouco e peda\u00e7o por peda\u00e7o perde totalmente a sua natureza e torna-se inteiramente peixe\u00bb. Na \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Vida Devota\u201d, conta que \u00abaqueles que v\u00eam do Peru, al\u00e9m do ouro e da prata que de l\u00e1 extraem, trazem tamb\u00e9m macacos e papagaios\u00bb. Em outra passagem, menciona aqueles \u00abpovos do Novo Mundo [que] enviam os seus delegados ao rei com a comitiva mais modesta poss\u00edvel, para tornar ainda mais evidente a sua baixeza e humildade em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 gl\u00f3ria e \u00e0 majestade do seu rei\u00bb. Ele se compara aos ge\u00f3grafos \u2013 que na \u00e9poca eram chamados de cosm\u00f3grafos \u2013 quando tenta tra\u00e7ar em linhas gerais o retrato de um grande personagem:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Imitando, portanto, os cosm\u00f3grafos, que em seus mapas-m\u00fandi marcam apenas pontos para indicar as cidades, linhas para as montanhas, e deixam \u00e0 imagina\u00e7\u00e3o a tarefa de representar o resto.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Pelo menos uma vez, de sua pena emerge o nome do novo continente que estava sendo explorado:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Conhecemos em parte a configura\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica e o que diz respeito a este pa\u00eds gra\u00e7as \u00e0s descri\u00e7\u00f5es feitas por aqueles que o visitaram.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Como se sabe, foi a inven\u00e7\u00e3o da b\u00fassola, com a sua agulha magn\u00e9tica sempre apontada para o norte, que tornou poss\u00edveis as extraordin\u00e1rias descobertas das quais os contempor\u00e2neos eram testemunhas. Maravilhosa inven\u00e7\u00e3o, de fato, que faz com que nunca nos percamos sem um ponto de refer\u00eancia:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Que o navio tome a rota que se queira, que navegue para o poente ou para o nascente, para o sul ou para o norte, e qualquer que seja o vento que o impulsione, a sua b\u00fassola nunca olhar\u00e1 para outra coisa sen\u00e3o para a sua estrela polar e para o polo.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>A \u00abdescoberta\u00bb da inf\u00e2ncia<\/b><\/strong><\/p>\n<p>O alvorecer dos tempos modernos corresponde tamb\u00e9m a uma descoberta de outro tipo, que Filipe Ari\u00e8s definiu como a descoberta da inf\u00e2ncia, agora considerada uma idade da vida distinta da dos adultos.<\/p>\n<p>Enquanto na sociedade medieval a crian\u00e7a contava muito pouco ou era tratada desde cedo como um pequeno homem, esta fase da vida passa a ser considerada cada vez mais como uma idade \u00e0 parte.<\/p>\n<p>Passa-se a ter interesse pela crian\u00e7a, d\u00e3o-lhe roupas particulares, ela brinca com jogos diferentes dos jogos dos adultos. A pr\u00f3pria fam\u00edlia come\u00e7a a tomar consci\u00eancia da sua identidade, cultiva a sua intimidade, os seus la\u00e7os afetivos e a sua aten\u00e7\u00e3o educativa. A tomada de consci\u00eancia do car\u00e1ter pr\u00f3prio da primeira inf\u00e2ncia manifesta-se em particular na cria\u00e7\u00e3o de escolas e col\u00e9gios que j\u00e1 n\u00e3o conhecem a mistura entre jovens e velhos como na Idade M\u00e9dia.<\/p>\n<p>Para renovar a sociedade e formar um novo tipo de homem \u2013 civilizado, cort\u00eas, am\u00e1vel, piedoso e culto \u2013 os humanistas difundem uma pedagogia renovada.<\/p>\n<p>Nascido em 1567, Francisco de Sales p\u00f4de se beneficiar dos ensinamentos das primeiras gera\u00e7\u00f5es de humanistas. Conhecia e apreciava Jo\u00e3o Gerson, por vezes considerado um precursor dos humanistas. Quando escreve que \u00abaquele homem era extremamente erudito, ajuizado e devoto\u00bb, referia-se sem d\u00favida ao livro A \u201cImita\u00e7\u00e3o de Cristo\u201d, do qual se acreditava ser o autor, mas talvez tamb\u00e9m \u00e0s obras pedag\u00f3gicas do Chanceler da Universidade de Paris, que desejava que as crian\u00e7as fossem tratadas com do\u00e7ura e paci\u00eancia. Entre os autores humanistas que puderam influenciar de alguma forma, positiva ou negativamente, o pensamento e a a\u00e7\u00e3o de Francisco de Sales, devem ser destacados em particular Erasmo, More, Vives, Sadoleto, Rabelais e Montaigne.<\/p>\n<p>Francisco de Sales reconheceu em Erasmo de Roterd\u00e3, antes de tudo, um \u00abgrande homem de letras\u00bb, aquele que afirmou que \u00aba melhor maneira de aprender e se tornar erudito \u00e9 ensinar\u00bb. Na sua biblioteca de livros proibidos, cuja leitura havia obtido autoriza\u00e7\u00e3o, figuravam duas obras do grande humanista europeu, entre as quais a primeira edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do Novo Testamento. Francisco de Sales n\u00e3o deixava de citar a sua tradu\u00e7\u00e3o latina do Novo Testamento quando esta ia nesse sentido, em particular em defesa da concep\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica da Missa.<\/p>\n<p>De resto, a sua obra apresenta muitos tra\u00e7os erasmianos: o humanismo extra\u00eddo da antiguidade cl\u00e1ssica, a busca por imagens e exemplos, e a abund\u00e2ncia verbal. Uma das \u00faltimas obras de Erasmo foi, em 1530, o seu \u201c<em><i>De civilitate morum puerilium<\/i><\/em>\u201d [Da civilidade das crian\u00e7as], que difundiu na sociedade europeia da \u00e9poca o conceito de \u00abcivilidade\u00bb. Amigo de Erasmo, o chanceler da Inglaterra Thomas More \u00e9 citado uma vez por Francisco de Sales, mas em refer\u00eancia \u00e0 autoridade da Igreja.<\/p>\n<p>N\u00e3o dispomos de provas expl\u00edcitas para afirmar com certeza que o bispo de Genebra tenha lido as obras de Jo\u00e3o Lu\u00eds Vives. No entanto, um estudo atento da sua concep\u00e7\u00e3o de homem permitiu identificar uma das suas fontes no De anima et vita [Sobre a alma e a vida] do grande humanista espanhol. No per\u00edodo em que era preceptor de Maria Tudor, escreveu um \u201c<em><i>De institutione feminae christianae<\/i><\/em>\u201d [A educa\u00e7\u00e3o de uma mulher crist\u00e3] e um \u201c<em><i>De ratione studii puerilis<\/i><\/em>\u201d [O plano de estudos para meninos], dois tratados de pedagogia human\u00edstica publicados em 1523.<\/p>\n<p>S\u00e3o Francisco de Sales deve ter se sentido muito pr\u00f3ximo das opini\u00f5es do Cardeal Sadoleto, bispo de Carpentras e grande humanista, cujo nome aparece no livro das Controv\u00e9rsias, na qualidade de membro de uma comiss\u00e3o para a reforma da Igreja. No seu \u201c<em><i>De liberis recte instituendis<\/i><\/em>\u201d [Sobre a correta educa\u00e7\u00e3o dos filhos], escrito sob a forma de carta ao sobrinho Paulo, Sadoleto havia fundamentado a educa\u00e7\u00e3o na exig\u00eancia religiosa unida a uma cultura explicitamente human\u00edstica, s\u00edntese da sabedoria antiga e da f\u00e9 crist\u00e3. O seu sistema educativo abrange todos os campos: forma\u00e7\u00e3o religiosa, moral e social, letras, filosofia e teologia, matem\u00e1tica e astronomia, gin\u00e1stica e m\u00fasica.<\/p>\n<p>Rabelais, autor de <em><i>Pantagruel<\/i><\/em> e de <em><i>Garg\u00e2ntua<\/i><\/em>, difundiu nos seus escritos o entusiasmo dos humanistas pela filosofia, pela moral e pelos conhecimentos da antiguidade. Os gigantes cujas incr\u00edveis aventuras ele conta eram o s\u00edmbolo do homem sem limites, verdadeiro rei do universo, que se tornou um \u00ababismo de ci\u00eancias\u00bb. Embora a religi\u00e3o esteja bem presente na sua obra, ela tende para um te\u00edsmo naturalista, n\u00e3o dogm\u00e1tico. A juventude, pensa Francisco, tem pouco a ganhar com este mestre pouco honroso e que despreza o passado.<\/p>\n<p>Quanto a Miguel de Montaigne, certamente n\u00e3o era um desconhecido para Francisco de Sales, que o cita v\u00e1rias vezes nas suas <em><i>Controv\u00e9rsias<\/i><\/em>, n\u00e3o sobre quest\u00f5es de pedagogia, mas em apoio \u00e0s suas controv\u00e9rsias com os protestantes. A respeito da dificuldade de controlar as tradu\u00e7\u00f5es da B\u00edblia em l\u00edngua vulgar, Francisco de Sales baseia-se na opini\u00e3o expressa pelo \u00aberudito profano\u00bb. No plano liter\u00e1rio, Francisco de Sales \u00e9-lhe muito pr\u00f3ximo, inclusive no uso das imagens e das compara\u00e7\u00f5es. Podia sentir-se bastante em sintonia com as afirma\u00e7\u00f5es deste s\u00e1bio que prefere \u00abuma mente bem formada a uma mente bem cheia\u00bb, que quer que a li\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja apenas \u00fatil, mas tamb\u00e9m agrad\u00e1vel, e que recusa o uso da viol\u00eancia na educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Francisco de Sales, um homem de m\u00faltiplas fronteiras<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Na Saboia falava-se franc\u00eas, apesar de n\u00e3o serem franceses, e o culto da l\u00edngua francesa era at\u00e9 mesmo uma das caracter\u00edsticas da \u00e9poca. O pr\u00f3prio Francisco de Sales era muito sens\u00edvel a isso, a ponto de mandar revisar um dos seus textos por um amigo parisiense antes de public\u00e1-lo, pois, dizia ele, \u00abtemo que me escapem algumas particularidades do nosso modo de falar por estas bandas\u00bb.<\/p>\n<p>O humanismo era florescente nos meios cultos da Saboia. Cl\u00e1udio de Seyssel, morto em 1520, havia trazido de volta para l\u00e1 o culto das belas letras, do latim, do grego e do hebraico. O poeta Marcos Cl\u00e1udio de Buttet fora aluno em Paris de Jo\u00e3o Dorat, que contava entre os seus disc\u00edpulos tamb\u00e9m Ronsard, du Bellay e Ba\u00eff; foi secret\u00e1rio de Margarida de Valois e amigo dos poetas da Pl\u00e9iade. O pai de Francisco de Sales conheceu-o quando ele pr\u00f3prio frequentava a corte da Fran\u00e7a. Em Chamb\u00e9ry, capital hist\u00f3rica de Saboia, os jesu\u00edtas ensinavam as disciplinas cl\u00e1ssicas no seu col\u00e9gio desde 1565.<\/p>\n<p>Do ponto de vista geogr\u00e1fico, o olhar deste saboiano entre o final do s\u00e9culo XVI e o in\u00edcio do s\u00e9culo XVII voltava-se naturalmente para Turim, onde o duque residia desde 1563, e para Roma, onde mantinha correspond\u00eancia com o papa e com a C\u00faria.<\/p>\n<p>Tendo passado mais de tr\u00eas anos em P\u00e1dua, na Rep\u00fablica de Veneza, era relativamente bil\u00edngue e a sua correspond\u00eancia cont\u00e9m um n\u00famero n\u00e3o negligenci\u00e1vel de cartas em italiano. Formado no humanismo europeu, escreve al\u00e9m disso um latim de sabor cl\u00e1ssico.<\/p>\n<p>Do ponto de vista liter\u00e1rio, encontra-se num momento de transi\u00e7\u00e3o entre o Renascimento e a era cl\u00e1ssica. Os primeiros grandes humanistas italianos j\u00e1 estavam distantes. Na Fran\u00e7a, caminhava-se para a era cl\u00e1ssica. Por muitos aspectos da sua sensibilidade e da sua arte, h\u00e1 nele algo da riqueza e da luminosidade daquela arte barroca que desabrochou ap\u00f3s o Conc\u00edlio de Trento, sob a influ\u00eancia em particular dos jesu\u00edtas.<\/p>\n<p>Francisco de Sales \u00e9 certamente um humanista, mas o seu humanismo \u00e9 o de um humanista crist\u00e3o ou, para usar as palavras de Henrique Bremond, de um humanista devoto. \u00c0s vezes h\u00e1 dist\u00e2ncias a preencher entre o humanismo e a devo\u00e7\u00e3o, entre uma certa educa\u00e7\u00e3o puramente human\u00edstica e uma fervorosa educa\u00e7\u00e3o crist\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Quando Francisco de Sales nasce, em 1567, o mundo est\u00e1 mudando de rosto. 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