{"id":53802,"date":"2026-06-26T15:29:46","date_gmt":"2026-06-26T15:29:46","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=53802"},"modified":"2026-06-26T15:30:21","modified_gmt":"2026-06-26T15:30:21","slug":"sao-francisco-de-sales-em-seu-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/sao-francisco-de-sales-em-seu-tempo\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Francisco de Sales em seu tempo"},"content":{"rendered":"<p><em><i>Compreender Francisco de Sales significa mergulhar no cora\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVII europeu: uma \u00e9poca marcada por guerras de religi\u00e3o, efervesc\u00eancia cultural e uma profunda renova\u00e7\u00e3o espiritual. Nascido em 1567 no ducado de Saboia \u2013 terra de fronteira entre a Fran\u00e7a, a It\u00e1lia e o mundo reformado de Genebra \u2013, Francisco cresce em um contexto politicamente inst\u00e1vel, atravessado pelas tens\u00f5es entre cat\u00f3licos e protestantes. Respira o humanismo crist\u00e3o nas salas de aula dos jesu\u00edtas em Paris e em P\u00e1dua, herda o fervor do conc\u00edlio de Trento e confronta-se com as grandes correntes m\u00edsticas de seu tempo. Sua figura n\u00e3o pode ser compreendida sem esse pano de fundo: \u00e9 justamente dentro da hist\u00f3ria, e n\u00e3o \u00e0 sua margem, que Francisco se torna o santo da bondade e da do\u00e7ura.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>A Saboia<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Francisco de Sales n\u00e3o era franc\u00eas nem italiano: era saboiano, ou seja, nascido no ducado de Saboia, do qual tamb\u00e9m fazia parte o Piemonte. \u201cSou, de qualquer forma, saboiano, tanto por nascimento quanto por obriga\u00e7\u00e3o\u201d, escrevia a um secret\u00e1rio do duque Carlos Emanuel em 1616. Dom Bosco, nascido em 1815, tamb\u00e9m fazia parte desse Estado alpino, que acabaria por se tornar o Reino da It\u00e1lia em 1861. Um ano antes, a Saboia havia sido cedida \u00e0 Fran\u00e7a.<\/p>\n<p>Francisco nasceu em 1567 no castelo de Sales, na comuna de Thorens, a 15 km ao norte de Annecy, no tempo do duque Emanuel Filiberto. Este, em 1562, havia transferido a capital de Chamb\u00e9ry para Turim. De 1580 a 1630, ou seja, durante quase toda a sua vida, reinou o duque Carlos Emanuel, homem decidido, mas envolvido em m\u00faltiplas intrigas com vizinhos poderosos sempre em guerra, sobretudo com a Fran\u00e7a e a Espanha. As guerras, as alian\u00e7as e os casamentos tinham como objetivo principal proteger e, possivelmente, ampliar seus pr\u00f3prios territ\u00f3rios.<\/p>\n<p>Para promover seus interesses, o duque de Saboia \u00e9 for\u00e7ado a um perigoso jogo de alian\u00e7as: ou com a Espanha contra a Fran\u00e7a, ou com a Fran\u00e7a contra a Espanha. Disso resulta que o ducado perde posses a oeste (Bresse, Bugey, Gex, Genebra) e as ganha no Piemonte, a leste (marquesado de Saluzzo e de Monferrato).<\/p>\n<p>Do ponto de vista religioso, o ducado n\u00e3o \u00e9 homog\u00eaneo. Em uma \u00e9poca em que religi\u00e3o e pol\u00edtica est\u00e3o intimamente entrela\u00e7adas e em que o princ\u00edpio <em><i>cujus regio, ejus religio<\/i><\/em> (de quem \u00e9 a regi\u00e3o, dele seja a religi\u00e3o) tende a impor uma \u00fanica confiss\u00e3o crist\u00e3 \u00e0s popula\u00e7\u00f5es de um territ\u00f3rio espec\u00edfico, pode-se entender a preocupa\u00e7\u00e3o de unifica\u00e7\u00e3o religiosa do cat\u00f3lico Carlos Emanuel.<\/p>\n<p>Em Genebra, a Reforma protestante havia se implantado em 1535. Calvino a consolidar\u00e1 e o bispo cat\u00f3lico de Genebra escolher\u00e1 o ex\u00edlio. Genebra tornou-se mission\u00e1ria e belicista. Sua influ\u00eancia religiosa e pol\u00edtica estendeu-se sobre o Chablais e sobre o pa\u00eds de Gex. A situa\u00e7\u00e3o preocupa os governantes: n\u00e3o faltam conflitos internacionais, lutas internas com opera\u00e7\u00f5es b\u00e9licas e, por vezes, negocia\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas, nas quais os interesses religiosos se combinam com as discuss\u00f5es pol\u00edticas. A \u00faltima tentativa (fracassada) do duque de Saboia para reconquistar Genebra com as armas \u00e9 de 1602 (a famosa <em><i>Escalade<\/i><\/em>).<\/p>\n<p>A sociedade \u00e9 estruturada segundo um ordenamento hier\u00e1rquico, no qual as fam\u00edlias se esfor\u00e7am para emergir a fim de adquirir poder. Assim tamb\u00e9m a fam\u00edlia de Sales conseguiu comprar o castelo (<em><i>castrum<\/i><\/em>) de Thorens. A estrutura feudal n\u00e3o \u00e9 mais a da Idade M\u00e9dia, mas n\u00e3o desapareceu. Essa sociedade tamb\u00e9m \u00e9 hierarquizada: h\u00e1 os nobres, depois os burgueses (cuja influ\u00eancia se fortalece com o calvinismo) e, por fim, o povo das cidades, dos campos e das montanhas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>O humanismo na Saboia e na Fran\u00e7a<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Nascido na It\u00e1lia no s\u00e9culo XV, esse movimento, que marca o in\u00edcio da \u00e9poca moderna, foi acolhido com entusiasmo pela elite na Saboia e na Fran\u00e7a. No entanto, o humanismo n\u00e3o possui um significado unit\u00e1rio. Seguindo Henrique Bremond, em sua vasta <em><i>Histoire litt\u00e9raire du sentiment religieux en France [Hist\u00f3ria liter\u00e1ria do sentimento religioso na Fran\u00e7a]<\/i><\/em>, podemos distinguir um <strong><b>humanismo naturalista<\/b><\/strong>, um <strong><b>humanismo crist\u00e3o<\/b><\/strong> e um <strong><b>humanismo devoto<\/b><\/strong>.<\/p>\n<p>O humanismo naturalista representa aquele esfor\u00e7o para glorificar a natureza humana. \u201cO humanista extremado \u2013 escreve Bremond \u2013 conhece apenas a nossa e a pr\u00f3pria grandeza. Ele faz o elogio da natureza humana com um entusiasmo exuberante&#8230; Tem uma confian\u00e7a inabal\u00e1vel no fato de que o homem \u00e9 fundamentalmente bom. Mesmo onde \u00e9 fraco, ele o desculpa, o defende e o exalta.\u201d A antiguidade greco-romana tornou-se a fonte e o modelo da literatura mais elegante e de uma forma\u00e7\u00e3o mais elevada, em contraposi\u00e7\u00e3o aos modelos escol\u00e1sticos e medievais. Mas, ao mesmo tempo, com os autores cl\u00e1ssicos, logo se acolheram tamb\u00e9m os conte\u00fados pag\u00e3os na cultura e na filosofia, enquanto a piedade era relegada aos conventos.<\/p>\n<p>O humanismo crist\u00e3o busca o equil\u00edbrio entre o humanismo e a vida crist\u00e3. Escreve-se em um estilo conforme aos modelos cl\u00e1ssicos e o homem vem cada vez mais para o primeiro plano. No entanto, n\u00e3o se podem esconder os perigos inerentes a essa corrente: a mistura do pensamento crist\u00e3o com o pag\u00e3o, a fratura entre f\u00e9 e forma\u00e7\u00e3o moral da personalidade, uma vida crist\u00e3 apenas exterior e tamb\u00e9m a fratura entre a elite e a massa.<\/p>\n<p>Por fim, h\u00e1 o humanismo devoto, no qual a devo\u00e7\u00e3o prevalece e se serve do humanismo para seus pr\u00f3prios fins. Bremond o explica assim: \u201cO humanismo devoto n\u00e3o faz outra coisa sen\u00e3o aplicar as melhores tradi\u00e7\u00f5es do Renascimento tanto na santifica\u00e7\u00e3o pessoal daqueles que o vivem, quanto na dire\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is.\u201d<\/p>\n<p>\u00c9 claro que o humanismo de Francisco de Sales deve ser colocado nesta \u00faltima corrente, como atesta toda a sua educa\u00e7\u00e3o na Saboia, em Paris e em P\u00e1dua. Aos seis anos, aprende com o pai um ditado que se torna sua palavra de ordem: \u201cPenso em Deus e em me comportar como um homem honesto.\u201d<\/p>\n<p>Em La Roche e no col\u00e9gio de Annecy, seus primeiros mestres o introduzem na cultura cl\u00e1ssica. Elogia-se em Francisco sua capacidade de aprender, sua etiqueta e tamb\u00e9m sua sede de saber a respeito dos mist\u00e9rios da f\u00e9. Enviado pelo pai para estudar em Paris, escolheu o col\u00e9gio de Clermont, onde os jesu\u00edtas cultivam a piedade junto com os estudos human\u00edsticos, esfor\u00e7ando-se para cristianizar o humanismo renascentista. Em P\u00e1dua, depois, estudou direito e teologia e escolheu como diretor espiritual o famoso jesu\u00edta Ant\u00f4nio Possevino. Deduz-se de toda essa forma\u00e7\u00e3o que o humanismo de Francisco de Sales \u00e9 um humanismo cr\u00edtico, que escolhe e seleciona o que \u00e9 v\u00e1lido e tamb\u00e9m belo, arrancando do humanismo a sua alma pag\u00e3.<\/p>\n<p>Do estudo de Franz K\u00f6nigbauer sobre o humanismo na vida e na doutrina de S\u00e3o Francisco de Sales, podemos extrair alguns elementos interessantes que demonstram a influ\u00eancia do humanismo sobre o salesiano:<\/p>\n<p>&#8211; a busca da perfei\u00e7\u00e3o liter\u00e1ria;<\/p>\n<p>&#8211; os tra\u00e7os de sua personalidade;<\/p>\n<p>&#8211; a imagem de Deus marcada pela perfei\u00e7\u00e3o e pela bondade infinita;<\/p>\n<p>&#8211; a imagem do homem destinado \u00e0 uni\u00e3o com Deus;<\/p>\n<p>&#8211; a valoriza\u00e7\u00e3o do corpo;<\/p>\n<p>&#8211; a reavalia\u00e7\u00e3o do sentimento e do afeto;<\/p>\n<p>&#8211; o livre-arb\u00edtrio (e os limites da liberdade);<\/p>\n<p>&#8211; a for\u00e7a e o efeito do amor.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Uma Igreja necessitada de reforma<\/b><\/strong><\/p>\n<p>A vida de S\u00e3o Francisco de Sales insere-se em uma \u00e9poca muito importante na hist\u00f3ria da Igreja. Ele nasceu em 1567, ou seja, cinquenta anos ap\u00f3s a revolta de Lutero em Wittenberg em 1517 e quatro anos ap\u00f3s o encerramento do Conc\u00edlio de Trento (1545-1563). Toda a sua vida e o seu minist\u00e9rio ser\u00e3o marcados pela quest\u00e3o protestante e pela necessidade da reforma cat\u00f3lica.<\/p>\n<p>Quais foram as causas da reforma protestante? Os historiadores modernos, escreve Giacomo Martina, est\u00e3o bastante divididos ao identificar as causas da revolu\u00e7\u00e3o protestante. O P. Martina considera sobretudo a decad\u00eancia da autoridade pontif\u00edcia nos s\u00e9culos XIV e XV. Nesta chave de leitura, podem-se interpretar os seguintes acontecimentos:<\/p>\n<p>&#8211; o atentado contra o papa Bonif\u00e1cio VIII em Anagni (1303);<\/p>\n<p>&#8211; o ex\u00edlio de Avinh\u00e3o (1309-1376);<\/p>\n<p>&#8211; o cisma do Ocidente a partir de 1378;<\/p>\n<p>&#8211; a teoria da superioridade do conc\u00edlio sobre o papa;<\/p>\n<p>&#8211; a tend\u00eancia \u00e0 forma\u00e7\u00e3o de igrejas nacionais;<\/p>\n<p>&#8211; a acentua\u00e7\u00e3o de preocupa\u00e7\u00f5es mundanas no tempo do Renascimento;<\/p>\n<p>&#8211; a corrup\u00e7\u00e3o moral de alguns papas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O mesmo autor destaca, contudo, tamb\u00e9m outros elementos religiosos que influ\u00edram na g\u00eanese do protestantismo:<\/p>\n<p>&#8211; a decad\u00eancia da escol\u00e1stica;<\/p>\n<p>&#8211; as tend\u00eancias intelectuais da \u00e9poca (nominalismo de Ockham);<\/p>\n<p>&#8211; o falso misticismo;<\/p>\n<p>&#8211; o evangelismo (Erasmo de Roterd\u00e3 e os <em><i>alumbrados [iluminados]<\/i><\/em> na Espanha);<\/p>\n<p>&#8211; a corrup\u00e7\u00e3o de algumas c\u00fapulas da Igreja, especialmente na It\u00e1lia e na Alemanha;<\/p>\n<p>&#8211; a inquieta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica do s\u00e9culo XV.<\/p>\n<p>Ao lado dos fatores religiosos, \u00e9 importante tamb\u00e9m levar em conta as causas pol\u00edticas, sociais e econ\u00f4micas, sobretudo na Alemanha: a resist\u00eancia contra Roma, a resist\u00eancia contra a centraliza\u00e7\u00e3o e o absolutismo dos Habsburgos, a situa\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica e social e, por fim, a personalidade de Lutero.<\/p>\n<p>Nascido na Sax\u00f4nia em 1483, Lutero estudou filosofia em Erfurt, em um ambiente impregnado de ockhamismo. Em 1505, entrou no convento dos agostinianos naquela cidade. Ap\u00f3s sua ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, foi chamado em 1508 para ensinar em Wittenberg. Entre 1515 e 1517, come\u00e7ou a formular a nova doutrina sob a influ\u00eancia do ockhamismo, da interpreta\u00e7\u00e3o pessoal de S\u00e3o Paulo e de Santo Agostinho e de sua profunda inquieta\u00e7\u00e3o psicol\u00f3gica. Em 1517, lan\u00e7ou seu protesto contra a venda das indulg\u00eancias, o que marcou o in\u00edcio da Reforma. Os pontos essenciais do luteranismo s\u00e3o: o reconhecimento da B\u00edblia como \u00fanica autoridade em mat\u00e9ria de f\u00e9 (sem a Tradi\u00e7\u00e3o, a media\u00e7\u00e3o da Igreja com o seu magist\u00e9rio), a justifica\u00e7\u00e3o somente pela f\u00e9 (sem as boas obras), a salva\u00e7\u00e3o somente pela gra\u00e7a (sem a media\u00e7\u00e3o da Igreja, da hierarquia ou dos sacramentos).<\/p>\n<p>Em Genebra, que dependia teoricamente do duque de Saboia e do pr\u00edncipe bispo, as ideias da Reforma foram trazidas por mercadores alem\u00e3es a partir de 1525. Nos anos seguintes, a corrente protestante se desenvolveu, sobretudo pela obra do pregador Guilherme Farel e com a prote\u00e7\u00e3o dos berneses. Em 1534, por motivos religiosos, mas tamb\u00e9m pol\u00edticos e econ\u00f4micos, a maior parte da classe dirigente aderiu \u00e0 Reforma, e o bispo Pedro de la Baume, amedrontado, deixou a cidade. Em 10 de agosto de 1535, o Conselho da cidade suspendeu a missa. Em 21 de maio de 1536, o Conselho confirmou a ado\u00e7\u00e3o da Reforma. Dois meses depois, Calvino estabeleceu-se em Genebra, que se tornou a \u201cRoma protestante\u201d. Ao mesmo tempo, o culto cat\u00f3lico foi suprimido em Thonon, capital de Chablais, onde se p\u00f4s fim \u00e0s \u201ccerim\u00f4nias, sacrif\u00edcios, of\u00edcios, institui\u00e7\u00f5es e tradi\u00e7\u00f5es papistas\u201d. Os sucessores de Pedro de la Baume e o cap\u00edtulo da catedral escolheram a cidade de Annecy como sede \u201cprovis\u00f3ria\u201d (no ex\u00edlio) da diocese de Genebra.<\/p>\n<p>Nascido em Noyon (Fran\u00e7a) em 1509, Calvino (Jo\u00e3o Cauvin ou Calvin) estudou teologia em Paris e direito em Orl\u00e9ans e depois em Bourges, onde conheceu a doutrina de Lutero. Por medida de seguran\u00e7a, dirigiu-se a Estrasburgo e a Basileia, onde publicou em 1536 a primeira reda\u00e7\u00e3o de sua obra fundamental, a <em><i>Institutio christianae religionis [Institui\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o crist\u00e3]<\/i><\/em>. De passagem por Genebra, foi solicitado por Guilherme Farel a permanecer na cidade, da qual se tornou o chefe religioso e tamb\u00e9m pol\u00edtico. A doutrina de Calvino retoma os temas essenciais de Lutero e de Zwinglio, o reformador de Zurique. O cerne de seu sistema \u00e9 a doutrina da predestina\u00e7\u00e3o: Deus, desde a eternidade e independentemente da previs\u00e3o do pecado original, elege alguns para a eterna bem-aventuran\u00e7a e outros para a condena\u00e7\u00e3o eterna. Quanto \u00e0 eucaristia, Calvino nega a transubstancia\u00e7\u00e3o, afirmando que o p\u00e3o e o vinho s\u00e3o instrumentos atrav\u00e9s dos quais entramos em comunh\u00e3o com a subst\u00e2ncia de Cristo. O culto \u00e9 reduzido \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, \u00e0 prega\u00e7\u00e3o e ao canto dos salmos; n\u00e3o h\u00e1 mais ornamentos, \u00f3rg\u00e3o ou hierarquia. O disc\u00edpulo mais fiel de Calvino e seu sucessor foi Th\u00e9odore de B\u00e8ze (Teodoro Beza), a quem Francisco de Sales encontrou tr\u00eas vezes.<\/p>\n<p>As lutas e a contesta\u00e7\u00e3o protestante despertaram as energias da Igreja. Suspenso duas vezes por causa da peste ou da guerra, o Conc\u00edlio de Trento (1545-1563) deu o sinal da reforma cat\u00f3lica com suas decis\u00f5es dogm\u00e1ticas e seus decretos disciplinares. No plano doutrinal, os Padres do conc\u00edlio intervieram sobre as fontes da Revela\u00e7\u00e3o, sobre a justifica\u00e7\u00e3o e sobre os sacramentos. Sobre as fontes da Revela\u00e7\u00e3o, o conc\u00edlio fixou a lista dos escritos inspirados do Antigo e do Novo Testamento, adotou a Vulgata como a vers\u00e3o oficial da Igreja e declarou que a Tradi\u00e7\u00e3o era uma fonte da f\u00e9 junto com a Escritura, e que esta deveria ser interpretada n\u00e3o segundo o sentido individual, mas segundo o ensinamento da Igreja. Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 justifica\u00e7\u00e3o, definiu-se que a f\u00e9 sozinha n\u00e3o basta para justificar o crente, mas que tamb\u00e9m s\u00e3o necess\u00e1rias as obras realizadas sob a influ\u00eancia da gra\u00e7a. Sobre os sacramentos, o conc\u00edlio definiu a institui\u00e7\u00e3o divina, a natureza, o ministro, as disposi\u00e7\u00f5es exigidas e os efeitos dos sete sacramentos. Proclamou tamb\u00e9m a exist\u00eancia do purgat\u00f3rio, a legitimidade das indulg\u00eancias, a invoca\u00e7\u00e3o dos santos, o culto das rel\u00edquias e das imagens.<\/p>\n<p>No plano disciplinar, o conc\u00edlio tomou algumas medidas que tiveram grande influ\u00eancia: dever de resid\u00eancia para os bispos e os p\u00e1rocos; proibi\u00e7\u00e3o aos pregadores de indulg\u00eancias de receber dinheiro; cria\u00e7\u00e3o dos semin\u00e1rios; proibi\u00e7\u00e3o aos monges de possuir bens; clausura absoluta para os conventos de mulheres; reafirma\u00e7\u00e3o da indissolubilidade do matrim\u00f4nio e proibi\u00e7\u00e3o dos casamentos clandestinos; proibi\u00e7\u00e3o do duelo.<\/p>\n<p>Ap\u00f3s o conc\u00edlio, S\u00e3o Pio V (1566-1572) publicou o Catecismo Romano (1566), o Missal e o Brevi\u00e1rio; Greg\u00f3rio XIII (1572-1585) fundou col\u00e9gios eclesi\u00e1sticos em Roma; e Sisto V (1585-1590) organizou a C\u00faria Romana em 15 Congrega\u00e7\u00f5es. Os grandes art\u00edfices da reforma cat\u00f3lica foram bispos, como S\u00e3o Carlos Borromeu de Mil\u00e3o (1538-1584), novos religiosos (antes de tudo os jesu\u00edtas de Santo In\u00e1cio de Loyola), bem como os te\u00f3logos e os santos daquela \u00e9poca.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Uma renova\u00e7\u00e3o espiritual em curso<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Na \u00e9poca em quest\u00e3o, a espiritualidade foi cultivada segundo formas, tradi\u00e7\u00f5es e pa\u00edses diversos, mas tamb\u00e9m com interc\u00e2mbios e influ\u00eancias rec\u00edprocas.<\/p>\n<p>Nos pa\u00edses do Norte (Pa\u00edses Baixos, Ren\u00e2nia, Flandres, Als\u00e1cia), vigorava uma tradi\u00e7\u00e3o de m\u00edstica \u201cabstrata\u201d, que remontava \u00e0 Baixa Idade M\u00e9dia [s\u00e9culos XI ao XV] e que continuava a exercer grande influ\u00eancia, inclusive sobre o pr\u00f3prio Lutero. O primeiro de todos foi Mestre Eckhart (1260-1327), um dominicano, provincial da Sax\u00f4nia e professor de teologia em Estrasburgo. Segundo o pensamento do \u201cmestre\u201d, o homem verdadeiramente espiritual deve buscar a uni\u00e3o da alma com a ess\u00eancia divina, inclusive para al\u00e9m da humanidade de Cristo. Entre seus disc\u00edpulos devem ser mencionados o beato Henrique Suso, tamb\u00e9m dominicano e professor de teologia em Constan\u00e7a (1295-1366), Jo\u00e3o Tauler, te\u00f3logo, m\u00edstico e pregador de Estrasburgo (c.1300-1361), e o flamengo Jan Ruysbroek (1293-1381), propagador da <em><i>devotio moderna<\/i><\/em>, cujo texto mais representativo \u00e9 a <em><i>Imita\u00e7\u00e3o de Cristo<\/i><\/em>, atribu\u00edda a Tom\u00e1s de Kempis (1380-1471).<\/p>\n<p>A It\u00e1lia contribuiu em grande parte para a renova\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica. S\u00e3o Pio V e S\u00e3o Carlos Borromeu (1538-1584) eram italianos. Na It\u00e1lia haviam nascido in\u00fameras ordens e congrega\u00e7\u00f5es: Teatinos, Orat\u00f3rio de S\u00e3o Filipe N\u00e9ri (1515-1594), Capuchinhos, Ursulinas de Santa \u00c2ngela Merici etc. A It\u00e1lia m\u00edstica permaneceu sob a influ\u00eancia de Santa Catarina de Sena (1347-1380), uma m\u00edstica muito preocupada com a reforma da Igreja, e dos santos do s\u00e9culo XV, especialmente Santa Catarina de G\u00eanova (1447-1510). O s\u00e9culo XVI \u00e9 caracterizado por duas m\u00edsticas: Santa Maria Madalena de Pazzi (1566-1607), carmelita, e Catarina de Ricci (1522-1590), dominicana, tamb\u00e9m elas preocupadas com a reforma da Igreja.<\/p>\n<p>A Espanha conheceu no s\u00e9culo XVI o seu \u201c<em><i>siglo de oro<\/i><\/em>\u201d [s\u00e9culo de ouro] tamb\u00e9m no campo religioso e espiritual. Produziu grandes nomes na m\u00edstica, sobretudo Teresa d\u2019\u00c1vila (1515-1582), santa e reformadora do Carmelo, Jo\u00e3o da Cruz (1542-1591) e In\u00e1cio de Loyola (1491-1556). Francisco de Sales apreciava muito tamb\u00e9m o dominicano Lu\u00eds de Granada (+1588), que propunha um caminho de perfei\u00e7\u00e3o para todos por meio da ora\u00e7\u00e3o, da palavra de Deus, da interioridade e da uni\u00e3o com Deus. Por outro lado, a corrente dos <em><i>Alumbrados<\/i><\/em> (\u201ciluminados\u201d diretamente pelo Esp\u00edrito) parecia \u00e0s autoridades suspeita de heterodoxia.<\/p>\n<p>Na Fran\u00e7a, sob o reinado de Henrique III (1574-1589), durante e ap\u00f3s as guerras de religi\u00e3o, iniciou-se uma renova\u00e7\u00e3o espiritual brilhante. Nesse per\u00edodo, a vida de piedade ainda se nutria de modelos importados. Muitos autores italianos e espanh\u00f3is foram traduzidos para o franc\u00eas. Tamb\u00e9m foram traduzidas para o latim atualizado as obras da escola do Norte. Dominava, de fato, a m\u00edstica renana de tend\u00eancia abstrata; exercia uma forte atra\u00e7\u00e3o a \u201cvida sobreeminente\u201d de uni\u00e3o direta com o Ser supremo, para al\u00e9m da humanidade de Cristo. Os escritos do pseudo-Dion\u00edsio, um autor neoplat\u00f4nico do s\u00e9culo V-VI, eram a leitura preferida dos franceses.<\/p>\n<p>Francisco entrou em contato com esse movimento em Paris, onde permaneceu de janeiro a setembro de 1602, enquanto frequentava um ambiente desejoso de vida interior: a casa de Madame Acarie. Esta senhora n\u00e3o era apenas uma dona de casa e m\u00e3e de fam\u00edlia exemplar, elegante e alegre, sempre pronta a ajudar os pobres, mas entrava frequentemente em \u00eaxtase. Francisco foi escolhido por ela como confessor e apoiou seu projeto de introduzir na Fran\u00e7a o Carmelo reformado de Santa Teresa d\u2019\u00c1vila. No \u201c<em><i>Cercle de Madame Acarie<\/i><\/em>\u201d, conheceu Pedro de B\u00e9rulle, futuro cardeal, e encorajou tamb\u00e9m seu projeto de introduzir na Fran\u00e7a o Orat\u00f3rio de Filipe N\u00e9ri; B\u00e9rulle ser\u00e1 o fundador e primeiro superior, em 1611, do Orat\u00f3rio da Fran\u00e7a. Francisco tamb\u00e9m se encontrou com o capuchinho de origem inglesa Beno\u00eet de Canfeld, a maior autoridade m\u00edstica de seu tempo; com o P. Beaucousin, vig\u00e1rio da Cartuxa de Paris; com Andr\u00e9 Duval, grande evangelizador dos pobres; com o P. Cotton, o jesu\u00edta futuro confessor de Henrique IV; com o P. de Br\u00e9tigny, que havia encontrado na Espanha Jo\u00e3o da Cruz; e outros personagens da \u00e9poca. Naqueles anos nascia em torno de B\u00e9rulle a escola de espiritualidade conhecida pelo nome de \u201c<em><i>\u00c9cole fran\u00e7aise<\/i><\/em>\u201d [escola francesa] (H. Bremond), que ter\u00e1 como maiores representantes S\u00e3o Vicente de Paulo, Jean-Jacques Olier, S\u00e3o Jo\u00e3o Eudes, S\u00e3o Jo\u00e3o Batista de la Salle e S\u00e3o Lu\u00eds Maria Grignion de Montfort.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Compreender Francisco de Sales significa mergulhar no cora\u00e7\u00e3o do s\u00e9culo XVII europeu: uma \u00e9poca marcada&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":53789,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":4,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[2561,2557,2592,2570,2228,2025],"class_list":["post-53802","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-carisma-salesiano","tag-deus","tag-familia-salesiana","tag-igreja","tag-santos","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53802","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53802"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53802\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53803,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53802\/revisions\/53803"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53789"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53802"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53802"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53802"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}