{"id":53418,"date":"2026-05-26T07:32:04","date_gmt":"2026-05-26T07:32:04","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=53418"},"modified":"2026-05-26T07:32:42","modified_gmt":"2026-05-26T07:32:42","slug":"amar-o-proximo-com-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/amar-o-proximo-com-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"Amar o pr\u00f3ximo com S\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"<p>\u201cAs Filoteias s\u00e3o filantr\u00f3picas\u201d, escrevia Francisco de Sales, querendo com isso demonstrar que n\u00e3o havia nenhuma contradi\u00e7\u00e3o entre os dois termos. O amor de Deus \u00e9 insepar\u00e1vel do amor do homem e existe uma estreita correspond\u00eancia entre os dois amores; de fato, \u201conde quer que flores\u00e7a o amor de Deus, tamb\u00e9m o amor ao pr\u00f3ximo floresce\u201d. Al\u00e9m disso, o crescimento de um n\u00e3o pode ocorrer sem o crescimento do outro: \u201cS\u00e3o dois amores que n\u00e3o podem andar um sem o outro, e quanto mais amamos a Deus, mais amaremos tamb\u00e9m o pr\u00f3ximo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Por que amar o pr\u00f3ximo?<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Os dois mandamentos do amor a Deus e do amor ao pr\u00f3ximo s\u00e3o semelhantes, apesar da dist\u00e2ncia que separa o infinito do finito, o imortal do mortal, o c\u00e9u da terra; isso em virtude do fato de que o homem \u00e9 feito \u00e0 imagem e semelhan\u00e7a de Deus. Todos podemos constatar que somos \u201ca imagem uns dos outros\u201d, porque todos trazemos em n\u00f3s a imagem do Criador.<\/p>\n<p>Outra raz\u00e3o \u00e9 extra\u00edda do mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o, isto \u00e9, da vida e da paix\u00e3o de Cristo. Em um valioso cap\u00edtulo do <em><i>Te\u00f3timo<\/i><\/em>, o autor exp\u00f5e em forma de \u201clista\u201d ou \u201cresumo\u201d as doze propriedades do amor mediante o qual Jesus manifestou \u201ca benignidade e o amor de Deus pelos homens\u201d: a complac\u00eancia, a benevol\u00eancia, a uni\u00e3o, a efus\u00e3o, o \u00eaxtase, a admira\u00e7\u00e3o, a contempla\u00e7\u00e3o, a tranquilidade, a ternura, o zelo, o langor e a morte.<\/p>\n<p>O monte Calv\u00e1rio torna-se para o autor do <em><i>Te\u00f3timo<\/i><\/em> o \u201cmonte dos amantes\u201d, chamado assim porque foi a montanha daquele que se apaixonou pela humanidade. Ora, o amor pelo homem, vivido por Jesus, torna-se o nosso amor, e o seu sangue derramado constitui como o \u201ccimento\u201d que nos une estreitamente uns aos outros:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Queiramo-nos, pois, muito bem uns aos outros, e para tal fim utilizemos aquele motivo que tem tanta for\u00e7a para incitar \u00e0 santa dile\u00e7\u00e3o, ou seja, que Nosso Senhor da cruz derramou sobre a terra o seu sangue at\u00e9 a \u00faltima gota, como para fazer um cimento sagrado, com o qual murar, unir, conjugar e ligar todas as pedras da sua Igreja.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Por fim, \u00e9 preciso amar o pr\u00f3ximo e cada pessoa, porque Deus criou os seres humanos \u201cpara fazer companhia ao seu pr\u00f3prio Filho, participar de suas gra\u00e7as e de sua gl\u00f3ria e ador\u00e1-lo e louv\u00e1-lo por toda a eternidade\u201d. Ningu\u00e9m \u00e9 predestinado ao inferno e \u00e0 condena\u00e7\u00e3o. Deus quer que todos os homens sejam salvos, e cada um, por sua vez, \u00e9 chamado a cooperar livremente na obra da salva\u00e7\u00e3o. Deus deixa a cada pessoa a sua liberdade, mas a liberdade traz consigo a responsabilidade: \u201cAquele que nos criou sem n\u00f3s, n\u00e3o vos salvar\u00e1 sem v\u00f3s; fez-nos sem que o soub\u00e9ssemos, n\u00e3o vos salvar\u00e1 sem que o queirais\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Caridade em pensamentos, em palavras, em obras e na toler\u00e2ncia<\/b><\/strong><\/p>\n<p>O amor ao pr\u00f3ximo pode ser praticado de diversas maneiras, a come\u00e7ar pela caridade nos pensamentos e nas palavras. Am\u00e1-lo nos pensamentos significa n\u00e3o julg\u00e1-lo. Significa tentar ver o aspecto positivo em todas as a\u00e7\u00f5es do nosso pr\u00f3ximo: \u201cSe uma a\u00e7\u00e3o pudesse ter cem faces, deveis olhar para a mais bela\u201d.<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas que sentem um prazer s\u00e1dico em encontrar o mal ou em converter em mal tudo o que se encontra no pr\u00f3ximo: \u201cN\u00e3o se assemelham \u00e0s abelhas, mas \u00e0s vespas, animais repulsivos, que voam efetivamente sobre as flores, mas n\u00e3o para extrair delas o mel, e sim o veneno; e se recolhem o mel \u00e9 para transform\u00e1-lo em fel\u201d.<\/p>\n<p>A caridade nos pensamentos impede de fazer ju\u00edzos temer\u00e1rios, tema importante ao qual a <em><i>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Vida Devota<\/i><\/em> consagra um cap\u00edtulo. Com surpreendente sutileza, o autor p\u00f5e a nu uma boa d\u00fazia de motivos que levam a fazer julgamentos sobre os outros: \u00e0s vezes ser\u00e1 por causa de um car\u00e1ter \u201cr\u00edgido e \u00e1spero\u201d, mas sobretudo por orgulho, pelo p\u00e9ssimo prazer que os erros do pr\u00f3ximo fazem \u201csaborear\u201d, para \u201cfavorecer e desculpar\u201d os pr\u00f3prios v\u00edcios, pelo gosto de \u201cfilosofar\u201d sobre \u201cusos, costumes e humores das pessoas\u201d, por amor ou por \u00f3dio em rela\u00e7\u00e3o aos outros, por ambi\u00e7\u00e3o, por ci\u00fame, por medo e, por fim, por \u201coutras fraquezas de esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p>Para curar-se desse mal, \u00e9 necess\u00e1rio corrigir a inclina\u00e7\u00e3o dos nossos \u201cafetos\u201d e cultivar o que \u00e9 <em><i>a priori<\/i><\/em> positivo. Sejamos prudentes em nossos julgamentos: \u201cQuem poderia nos garantir que aquele que, ontem, era pecador e mau, seja assim tamb\u00e9m hoje?\u201d. Ap\u00f3s a sua convers\u00e3o, n\u00e3o se poder\u00e1 mais dizer que Zaqueu era um ladr\u00e3o, e Maria Madalena, ap\u00f3s a sua mudan\u00e7a de vida, deve ser chamada de \u201carquivirgem\u201d.<\/p>\n<p>A caridade em palavras, por sua vez, \u00e9 t\u00e3o dif\u00edcil de observar que o autor dedicou a ela v\u00e1rios cap\u00edtulos da <em><i>Filoteia<\/i><\/em>. A recomenda\u00e7\u00e3o fundamental diz: \u201cQue o vosso discurso seja doce, franco, sincero, direto, cordial e verdadeiro. Guardai-vos das duplicidades, dos artif\u00edcios e dos fingimentos\u201d.<\/p>\n<p>Ele se det\u00e9m em particular sobre tr\u00eas grandes defeitos da conversa\u00e7\u00e3o: a maledic\u00eancia, a cal\u00fania e a zombaria. Os dois primeiros s\u00e3o graves porque \u201ccom a maledic\u00eancia e a cal\u00fania se enfia a l\u00edngua no sangue do pr\u00f3ximo\u201d. A maledic\u00eancia, \u201cverdadeira peste das conversa\u00e7\u00f5es\u201d, \u201cest\u00e1 entre os primeiros lugares\u201d entre os \u201cefeitos extremamente perniciosos\u201d do ju\u00edzo temer\u00e1rio. Quanto ao esc\u00e1rnio, \u00e9 \u201co tipo de ofensa mais malvado que se pode fazer ao pr\u00f3ximo com as palavras; porque as outras ofensas s\u00e3o feitas com alguma estima pelo ofendido, mas esta somente com desprezo\u201d.<\/p>\n<p>Mas esses s\u00e3o apenas os aspectos negativos da caridade. Como servir o pr\u00f3ximo mediante a palavra? A resposta encontra-se nesta recomenda\u00e7\u00e3o a Filoteia: \u201cQuando a caridade o imp\u00f5e, devemos nos comunicar com clareza e do\u00e7ura com o pr\u00f3ximo, n\u00e3o apenas naquilo que \u00e9 necess\u00e1rio para a sua instru\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m naquilo que \u00e9 \u00fatil para consol\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>A caridade se exerce, al\u00e9m disso, em duas frentes: a ajuda ativa e a paciente toler\u00e2ncia para com o pr\u00f3ximo; em outros termos, com a a\u00e7\u00e3o e a paci\u00eancia. A primeira consiste em agir eficazmente em seu favor e \u00e9 o amor de benevol\u00eancia ou amor efetivo. Diz respeito ao bem tanto em n\u00edvel temporal quanto espiritual:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>O amor perfeito ao pr\u00f3ximo, que vem de Deus, comunica-se de v\u00e1rias maneiras: ajuda-o com as palavras, com as obras e com o exemplo; providencia, na medida do poss\u00edvel, todas as suas necessidades; alegra-se com a sua sorte e felicidade temporal, mas muito mais com o seu progresso espiritual; procura-lhe os bens temporais na medida em que lhe podem servir para obter a bem-aventuran\u00e7a eterna; deseja-lhe os bens principais da gra\u00e7a e das virtudes que o podem aperfei\u00e7oar segundo Deus; procura-lhes isso atrav\u00e9s de todas as vias l\u00edcitas e com grande afeto.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas existe outra forma de caridade: \u00e9 a caridade passiva da compaix\u00e3o, da toler\u00e2ncia m\u00fatua e da oferta dos sofrimentos. De fato, ocorrem situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o se pode fazer nada, mas sempre se pode amar. Segundo Francisco de Sales, a caridade n\u00e3o se manifesta somente em a\u00e7\u00f5es; ela provavelmente encontra mais ocasi\u00f5es e demonstra maior for\u00e7a quando algu\u00e9m sofre por amor aos outros. A toler\u00e2ncia m\u00fatua constitui, consequentemente, um elemento fundamental do programa crist\u00e3o: \u201cAh! Minha filha, uma parte not\u00e1vel da nossa perfei\u00e7\u00e3o consiste justamente nisto: que saibamos suportar-nos mutuamente em nossas imperfei\u00e7\u00f5es. Como poder\u00edamos, de fato, exercer o amor ao pr\u00f3ximo, se n\u00e3o tiv\u00e9ssemos que nos suportar?\u201d. O caso limite \u00e9 a atitude de Jesus na cruz, privado totalmente de qualquer poder, mas animado por uma caridade infinita que opera a salva\u00e7\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>Em certas situa\u00e7\u00f5es, quando se torna quase imposs\u00edvel, humanamente falando, suportar com do\u00e7ura o pr\u00f3ximo, a \u00fanica solu\u00e7\u00e3o \u00e9 olh\u00e1-lo com os olhos e suport\u00e1-lo com o cora\u00e7\u00e3o de Cristo:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Quando aprenderemos a ver as almas do nosso pr\u00f3ximo no sagrado peito do Salvador? Ai de mim! Quem v\u00ea o pr\u00f3ximo fora daquele peito, corre o risco de n\u00e3o am\u00e1-lo puramente, nem constantemente e justamente; mas l\u00e1 dentro, quem n\u00e3o o amaria? Quem n\u00e3o o suportaria? Quem n\u00e3o toleraria as suas imperfei\u00e7\u00f5es? Quem o acharia sem gra\u00e7a? Quem o acharia chato? Ora, minha car\u00edssima Filha, o nosso pr\u00f3ximo est\u00e1 bem ali, no seio e no peito do nosso divino Salvador; est\u00e1 l\u00e1 como objeto amad\u00edssimo e t\u00e3o am\u00e1vel, que o Amante morre de amor por ele.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>O crist\u00e3o que quer bem ao pr\u00f3ximo n\u00e3o realiza todos os dias gestos extraordin\u00e1rios, mas lembra-se de colocar em pr\u00e1tica o programa tra\u00e7ado por S\u00e3o Paulo: \u201cA caridade \u00e9 paciente, ben\u00e9vola, liberal, prudente, condescendente\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>A do\u00e7ura, flor da caridade<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Poder-se-ia dizer que a caridade vivida \u00e0 maneira salesiana se chama do\u00e7ura, ou que a do\u00e7ura \u00e9 a forma concreta de viver a caridade, segundo o bispo de Genebra. \u00c9 o esp\u00edrito da Visita\u00e7\u00e3o: um esp\u00edrito n\u00e3o apenas de humildade para com Deus, mas tamb\u00e9m de \u201cdo\u00e7ura para com o pr\u00f3ximo\u201d. Para Francisco de Sales, al\u00e9m de ser uma virtude entre outras, a do\u00e7ura \u00e9 a \u201cflor da caridade\u201d. Muitos admiradores do bispo de Genebra consideraram que ela era a marca distintiva do esp\u00edrito salesiano. Assim como a humildade deve marcar a rela\u00e7\u00e3o com Deus, a do\u00e7ura \u00e9 chamada a resumir a atitude para com o pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Sob essa luz, o bin\u00f4mio \u201ccaridade e do\u00e7ura\u201d n\u00e3o \u00e9 mais considerado como uma justaposi\u00e7\u00e3o de duas virtudes separadas, mas sim como a s\u00edntese do ensinamento salesiano referente ao amor ao pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p>Francisco de Sales n\u00e3o gosta da \u201cdo\u00e7ura cerimoniosa\u201d ou das do\u00e7uras que n\u00e3o s\u00e3o \u201caut\u00eanticas e sinceras, mas sim artificiais e aparentes\u201d. Por isso, associa de bom grado \u00e0 do\u00e7ura outras virtudes, em particular a simplicidade, virtude evang\u00e9lica por ele muito apreciada:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>A virtude da simplicidade \u00e9 oposta e contr\u00e1ria ao v\u00edcio da ast\u00facia, v\u00edcio fonte de sutilezas, artif\u00edcios, duplicidades. A ast\u00facia \u00e9 um ac\u00famulo de artif\u00edcios, de enganos, de mal\u00edcias, e \u00e9 por meio da ast\u00facia que fazemos inven\u00e7\u00f5es para enganar o esp\u00edrito do pr\u00f3ximo e daqueles com quem lidamos, para conduzi-los ao ponto que queremos [&#8230;]; coisa infinitamente contr\u00e1ria \u00e0 simplicidade, que exige que o nosso interior corresponda exatamente ao nosso exterior.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>A do\u00e7ura n\u00e3o exclui totalmente a ira. A prop\u00f3sito da mansid\u00e3o, declara que ela \u201cmanipula e modera a ira e a c\u00f3lera para mant\u00ea-las nos limites da raz\u00e3o; a ira, de fato, bem guiada \u00e9 boa, e a mansid\u00e3o tem tal encargo; a ser usado, no entanto, apenas raramente e somente quando \u00e9 preciso mostrar grande coragem nas ocasi\u00f5es em que \u00e9 necess\u00e1rio vencer, superar as dificuldades e punir os erros\u201d.<\/p>\n<p>Embora a do\u00e7ura n\u00e3o deva ser confundida com a sensibilidade exagerada e a afeta\u00e7\u00e3o, ela n\u00e3o exclui de forma alguma o mundo dos sentimentos e da afetividade. \u00c9 objeto de frequentes e insistentes recomenda\u00e7\u00f5es, dirigidas em particular \u00e0 senhora Brulart:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Fazei tudo o que puderdes para adquirir uma do\u00e7ura particular para com os vossos, quero dizer, para com a vossa fam\u00edlia. N\u00e3o digo que seja necess\u00e1rio ser mole ou excessivamente submisso, mas doces e suaves. Nisso \u00e9 preciso pensar quando se entra em casa, quando se sai, quando se est\u00e1 dentro de manh\u00e3, ao meio-dia e em qualquer outra hora; \u00e9 necess\u00e1rio dedicar algum tempo para cuidar de modo particular da pr\u00e1tica desta virtude, deixando quase de lado todo o resto.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Com pessoas irritadas n\u00e3o h\u00e1 outro meio para acalm\u00e1-las: \u201cNada amansa mais o elefante enfurecido do que a vis\u00e3o de um cordeirinho, e nada absorve a viol\u00eancia dos tiros de canh\u00e3o melhor do que a l\u00e3\u201d. Tal m\u00e9todo vale tamb\u00e9m em grandes controv\u00e9rsias pol\u00edticas e religiosas, como na prejudicial <em><i>querela<\/i><\/em> sobre o poder dos papas sobre os pr\u00edncipes, onde \u201ca prud\u00eancia e a do\u00e7ura s\u00e3o muito mais \u00fateis do que a inflamada doutrina e o ardor de esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p>A do\u00e7ura n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a caridade manifestada com humildade, sutileza, afabilidade e cordialidade. O termo <em><i>cordialidade<\/i><\/em> era t\u00e3o caro a Francisco de Sales, a ponto de lev\u00e1-lo a torn\u00e1-lo objeto de um de seus <em><i>Entretenimentos<\/i><\/em> com as visitandinas. Ele tamb\u00e9m oferece uma defini\u00e7\u00e3o: \u201cA cordialidade n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o a ess\u00eancia da verdadeira e sincera amizade, a qual n\u00e3o pode existir apenas entre pessoas razo\u00e1veis, que suscitam e nutrem as suas amizades por meio da raz\u00e3o\u201d. E mais adiante: \u201cTalvez me perguntareis: mas o que significa amizade cordial? Equivale a indicar uma amizade que tem o seu fundamento no cora\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O amor cordial manifesta-se tamb\u00e9m com a afabilidade e com a \u201cboa conversa\u00e7\u00e3o\u201d: a afabilidade \u201ccoloca uma certa do\u00e7ura nos neg\u00f3cios e nas comunica\u00e7\u00f5es s\u00e9rias que temos entre n\u00f3s\u201d, enquanto a boa conversa\u00e7\u00e3o \u201cnos torna agrad\u00e1veis e aceitos nas comunica\u00e7\u00f5es menos s\u00e9rias que temos com o pr\u00f3ximo\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Mostrar que se ama<\/b><\/strong><\/p>\n<p>\u00c9 preciso amar o pr\u00f3ximo, mas isso n\u00e3o basta; \u00e9 preciso mostrar que se o ama e \u00e9 necess\u00e1rio que o outro saiba que \u00e9 amado. Na <em><i>Filoteia<\/i><\/em>, ele comentar\u00e1: \u201cDevemos amar o pr\u00f3ximo como a n\u00f3s mesmos: para mostrar que amamos o pr\u00f3ximo, n\u00e3o devemos evitar estar com ele\u201d; a fuga das conversa\u00e7\u00f5es nos impede de mostrar que o amamos e isso \u201ctem sabor de presun\u00e7\u00e3o e de desprezo pelo pr\u00f3ximo\u201d.<\/p>\n<p>Em seus <em><i>Entretenimentos<\/i><\/em> com as primeiras visitandinas, ele insiste neste ponto: \u201cDevemos manifestar o amor por nossas queridas irm\u00e3s e demonstrar que nos agrada o seu conv\u00edvio\u201d. Imitemos o grande Ap\u00f3stolo: \u201cO pr\u00f3prio S\u00e3o Paulo, que nos ensina a agir de modo que os nossos afetos sejam manifestados santamente, quer e nos ensina a faz\u00ea-lo com gentileza, dando-nos o exemplo: Saudai, diz ele, fulano, que sabe com certeza que lhe quero bem de cora\u00e7\u00e3o, e sicrano, que deve saber que lhe quero bem como a um irm\u00e3o, e em particular a sua m\u00e3e, que sabe com certeza ser tamb\u00e9m a minha\u201d. Desse modo poder\u00e1 nascer a reciprocidade, que n\u00e3o \u00e9 apenas o fundamento da amizade, mas tamb\u00e9m a condi\u00e7\u00e3o para uma aut\u00eantica rela\u00e7\u00e3o educativa ou de outro tipo.<\/p>\n<p>O seu ensinamento se tornar\u00e1 mais expl\u00edcito ao falar com as visitandinas, em particular a prop\u00f3sito das inclina\u00e7\u00f5es e avers\u00f5es naturais. A quest\u00e3o reveste-se de certa import\u00e2ncia: mostrar afeto a uma pessoa pela qual se sente avers\u00e3o n\u00e3o \u00e9 hipocrisia? O fundador responde baseando-se na distin\u00e7\u00e3o entre a parte inferior do ser, a das paix\u00f5es e das antipatias e simpatias naturais, e a parte superior, que \u00e9 o nosso verdadeiro eu. Um esclarecimento se impunha: \u201cH\u00e1 um engano no esp\u00edrito de muitas pessoas, as quais pensam que tratar com cortesia e dar testemunho de amizade \u00e0queles pelos quais sentem avers\u00e3o sejam atos de duplicidade e de artif\u00edcio, o que n\u00e3o \u00e9 verdade; de fato, as avers\u00f5es s\u00e3o involunt\u00e1rias e residem na parte inferior da alma, a vontade as rejeita, mesmo que n\u00e3o desapare\u00e7am.<\/p>\n<p>Uma das maneiras mais habituais de manifestar que se ama \u00e9 a \u201ccondescend\u00eancia\u201d, uma atitude espiritual \u00e0 qual \u00e9 consagrado um <em><i>Entretenimento<\/i><\/em> inteiro. Ela n\u00e3o designa somente um comportamento social, a priori muito suspeito, mas sim, como emerge de sua etimologia, a atitude daquele que desce para colocar-se exatamente no mesmo plano do outro. O termo remete \u00e0 condescend\u00eancia de Deus que se faz um de n\u00f3s. Santo Anselmo, um santo \u201ccujo nascimento honrou muito as nossas montanhas\u201d, porque \u2013 assim dizia o bispo de Genebra \u2013 havia nascido em Aosta, nas fronteiras da Saboia com o Piemonte, era c\u00e9lebre por sua \u201cgrande docilidade e condescend\u00eancia\u201d. A \u201carte maior\u201d de S\u00e3o Paulo, por sua vez, era aquela, a seu modo de dizer, \u201cde fazer-me tudo para todos, rir com quem ri, chorar com quem chora, beber com quem bebe, para tornar-me uma s\u00f3 coisa com cada um\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Amar at\u00e9 que ponto?<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Da semelhan\u00e7a entre o amor ao pr\u00f3ximo e o amor a Deus, Francisco de Sales extrai uma importante consequ\u00eancia: devemos amar o pr\u00f3ximo sem medida. Ele prega esta verdade \u00e0s visitandinas, citando uma conhecida senten\u00e7a de S\u00e3o Bernardo, segundo a qual, \u201ca medida de amar a Deus \u00e9 am\u00e1-lo sem medida\u201d:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Devemos amar as nossas irm\u00e3s com toda a capacidade do nosso cora\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o nos contentarmos em am\u00e1-las como a n\u00f3s mesmas, segundo a obriga\u00e7\u00e3o do mandamento de Deus; mas devemos am\u00e1-las mais do que a n\u00f3s mesmas, para observar as normas da perfei\u00e7\u00e3o evang\u00e9lica, que nos pede isso. Nosso Senhor o disse: Amai-vos uns aos outros, como eu vos amei. Isso deve ser considerado com muita aten\u00e7\u00e3o: Amai-vos como eu vos amei, isso quer dizer mais do que a n\u00f3s mesmos.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Se o fim a que tende o amor n\u00e3o pode ser outro sen\u00e3o a uni\u00e3o com a pessoa amada, ser\u00e1 preciso dizer que, assim como o amor a Deus tende \u00e0 uni\u00e3o com Deus, tamb\u00e9m o amor ao pr\u00f3ximo \u00e9 naturalmente orientado para a uni\u00e3o com ele. O crist\u00e3o buscar\u00e1 a uni\u00e3o com o pr\u00f3ximo com o objetivo de estabelecer com ele \u201cum s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma\u201d. A perfei\u00e7\u00e3o da caridade est\u00e1 na \u201cuni\u00e3o das nossas almas com Deus e com o pr\u00f3ximo\u201d.<\/p>\n<p>Francisco de Sales refere-se aqui \u00e0 uni\u00e3o espiritual, que consiste na uni\u00e3o das vontades ou dos cora\u00e7\u00f5es. Querer juntos a mesma coisa, querer o que o outro quer; esta \u00e9 a perfei\u00e7\u00e3o do amor ao pr\u00f3ximo, assim como a perfei\u00e7\u00e3o do amor a Deus est\u00e1 em querer o que ele quer. \u201cQuando a alma diz sinceramente: Eu n\u00e3o tenho mais nenhuma vontade sen\u00e3o a tua, Senhor, ent\u00e3o ela se encontra completamente unida a Deus; assim, renunciando \u00e0 nossa vontade para fazer sempre a do pr\u00f3ximo, realizamos a verdadeira uni\u00e3o com o pr\u00f3ximo: e tudo isso deve ser cumprido por amor a Deus\u201d.<\/p>\n<p>Tornar-se \u201cum s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma\u201d parece ser o ideal do bispo de Genebra, o qual se recorda da primeira comunidade crist\u00e3 de Jerusal\u00e9m, tal como \u00e9 descrita pelos <em><i>Atos dos Ap\u00f3stolos<\/i><\/em>. O voto por ele expresso no final de uma carta a Joana de Chantal corresponde a um desejo de unidade, que n\u00e3o poder\u00e1 realizar-se sen\u00e3o atrav\u00e9s de uma admir\u00e1vel transforma\u00e7\u00e3o de alquimia espiritual:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Que aquele fogo sagrado que transforma tudo em si mesmo, queira transformar o nosso cora\u00e7\u00e3o, de modo que n\u00e3o seja mais nada al\u00e9m de amor, e assim n\u00f3s mesmos n\u00e3o sejamos mais amantes, mas amor, e n\u00e3o mais dois, mas um s\u00f3, pois o amor une todas as coisas na suprema Unidade.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na verdade, \u201co amor unifica, une, recolhe, re\u00fane, estreita e leva tudo \u00e0 unidade\u201d. J\u00e1 o pag\u00e3o Arist\u00f3teles o havia compreendido: \u201cQuando \u2013 assim diz ele \u2013 queremos expressar o quanto amamos os nossos amigos, dizemos: a sua alma e a minha n\u00e3o s\u00e3o sen\u00e3o uma s\u00f3 alma\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAs Filoteias s\u00e3o filantr\u00f3picas\u201d, escrevia Francisco de Sales, querendo com isso demonstrar que n\u00e3o havia&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":53404,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":2,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[2565,2561,2557,2579,1821,2228,2025],"class_list":["post-53418","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-caridade","tag-carisma-salesiano","tag-deus","tag-educacao","tag-graca","tag-santos","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53418","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53418"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53418\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53419,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53418\/revisions\/53419"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53404"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53418"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53418"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53418"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}