{"id":53191,"date":"2026-05-05T06:13:41","date_gmt":"2026-05-05T06:13:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=53191"},"modified":"2026-05-05T06:14:15","modified_gmt":"2026-05-05T06:14:15","slug":"visao-de-sao-domenico-savio-1876","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/sonhos-de-dom-bosco\/visao-de-sao-domenico-savio-1876\/","title":{"rendered":"Vis\u00e3o de S\u00e3o Domenico Savio (1876)"},"content":{"rendered":"<p><em>O texto a seguir apresenta a \u201cVis\u00e3o de S\u00e3o Domingos S\u00e1vio\u201d, narrada por Dom Jo\u00e3o Bosco na noite de 22 de dezembro de 1876 diante dos estudantes e aprendizes do Orat\u00f3rio de Valdocco. Em forma de sonho, Dom Bosco descreve a apari\u00e7\u00e3o de seu jovem aluno Domingos S\u00e1vio, falecido com fama de santidade, que o guia por uma paisagem paradis\u00edaca, rica em s\u00edmbolos espirituais e musicais. O relato, denso de imagens luminosas, mensagens de esperan\u00e7a e apelos \u00e0 pureza, \u00e0 caridade e \u00e0 obedi\u00eancia, conclui com profecias sobre o futuro da Congrega\u00e7\u00e3o Salesiana e o destino de alguns de seus membros. \u00c9 um documento precioso da pedagogia preventiva e do universo m\u00edstico-simb\u00f3lico de Dom Bosco, capaz de falar ainda hoje ao cora\u00e7\u00e3o dos leitores.<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Finalmente, a noite de 22 de dezembro foi memor\u00e1vel no Orat\u00f3rio. Foi antecipada um pouco a hora das ora\u00e7\u00f5es da noite. Reuniram-se na sala dos estudantes tamb\u00e9m os aprendizes e todas as pessoas da casa. Dom Bosco havia prometido para o dia anterior, mas outras ocupa\u00e7\u00f5es o impediram. Imagine a expectativa geral! Ele subiu \u00e0 c\u00e1tedra, sendo saudado com uma entusi\u00e1stica salva de palmas, como acontecia todas as vezes que dava a \u201cboa noite\u201d a toda a comunidade. Assim que come\u00e7ou a falar, se fez um profundo sil\u00eancio.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Na noite em que passei em Lanzo, ao chegar a hora do repouso, aconteceu-me estar absorvido pelo seguinte sonho. Trata-se de um sonho que n\u00e3o tem rela\u00e7\u00e3o com outros sonhos. J\u00e1 contei um quase parecido a este durante os exerc\u00edcios espirituais, mas como n\u00e3o estavam presentes todos voc\u00eas, e por ser muito diferente, resolvi lhes contar este. H\u00e1 nele coisas muito estranhas. Mas voc\u00eas sabem que com meus filhos eu abro todo o meu cora\u00e7\u00e3o; para eles n\u00e3o tenho segredos. Deem a este a aten\u00e7\u00e3o que quiserem: mas, como diz S\u00e3o Paulo, <em>quod bonum est tenete<\/em>, ent\u00e3o se encontrarem neste sonho algo que fa\u00e7a bem \u00e0 sua alma, aproveitem. Quem n\u00e3o quer acreditar, n\u00e3o me acredite, isto n\u00e3o importa; mas ningu\u00e9m jamais ridicularize as coisas que estou prestes a dizer. Pe\u00e7o-lhes novamente que n\u00e3o o contem a outras pessoas que n\u00e3o sejam de casa e nem mesmo escrevam para os de fora. Aos sonhos se pode dar a import\u00e2ncia que merecem, e aqueles que n\u00e3o conhecem a nossa intimidade poderiam fazer um julgamento err\u00f4neo e dar nome \u00e0s coisas que n\u00e3o lhes correspondem. N\u00e3o sabem que s\u00e3o meus filhos e que eu a voc\u00eas digo tudo o que sei e \u00e0s vezes at\u00e9 o que n\u00e3o sei (<em>risadas gerais<\/em>). Mas o que um pai manifesta a seus filhos amados para o bem deles deve ficar entre pai e filhos, e nada mais. E tamb\u00e9m por um outro motivo. Na maior parte, contando o sonho aos de fora, ou se distorce o fato, ou apenas se conta uma parte n\u00e3o entendida; e disto se origina algum mal, e o mundo desprezaria o que n\u00e3o deve ser desprezado.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>\u00c9 necess\u00e1rio que saibam que os sonhos se t\u00eam dormindo. Portanto, na noite do dia 6 de dezembro, enquanto estava no meu quarto, sem saber bem, se lia ou andava pra c\u00e1 e pra l\u00e1, ou j\u00e1 estava na cama, comecei a sonhar.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Em um momento, pareceu-me que estava em uma pequena eleva\u00e7\u00e3o de terra ou colina, \u00e0s margens de uma plan\u00edcie imensa, cujos limites a vista n\u00e3o podia alcan\u00e7ar. Perdia-se na imensid\u00e3o. Era toda azul-celeste, como um mar em plena calma, mas o que via n\u00e3o era \u00e1gua. Parecia um cristal l\u00edmpido e brilhante. Sob meus p\u00e9s, atr\u00e1s de mim e dos lados, via uma regi\u00e3o configurada como aquelas de um litoral \u00e0 beira do oceano.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Aquela plan\u00edcie era dividida por grandes e gigantescas avenidas em vastos jardins, de indescrit\u00edvel beleza, todos divididos em bosques, prados e canteiros de diferentes formas e cores. Nenhuma de nossas plantas pode nos dar uma ideia daquelas, embora de alguma forma se visse alguma semelhan\u00e7a. As ervas, as flores, as \u00e1rvores, as frutas eram muito vistosas e de bel\u00edssimo aspecto. As folhas eram de ouro, troncos e caules de diamantes e o resto correspondia a esta riqueza. Imposs\u00edvel contar as diferentes esp\u00e9cies: cada esp\u00e9cie e cada indiv\u00edduo resplendiam com sua pr\u00f3pria luz. Eu via no meio daqueles jardins e em toda a extens\u00e3o da plan\u00edcie in\u00fameros edif\u00edcios de uma ordem, beleza, harmonia, magnific\u00eancia, de t\u00e3o extraordin\u00e1rias propor\u00e7\u00f5es, que para a constru\u00e7\u00e3o de um s\u00f3 desses parecia que n\u00e3o seria suficiente todos os tesouros da terra. Eu dizia a mim mesmo: \u2013 Se os meus jovens tivessem apenas uma s\u00f3 dessas casas, ai como ficariam satisfeitos, como seriam felizes e nelas ficariam de boa vontade! \u2013 E assim eu pensava, podendo ver aqueles pal\u00e1cios apenas por fora. Qu\u00e3o maior n\u00e3o devia ser a magnific\u00eancia por dentro!<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Enquanto contemplava extasiado tantas coisas estupendas que ornavam aqueles jardins, chegou aos meus ouvidos uma m\u00fasica muito doce e de uma harmonia t\u00e3o agrad\u00e1vel, que n\u00e3o consigo dar-lhes uma ideia adequada. As de P. Cagliero e Dogliani n\u00e3o t\u00eam nada de musical comparadas \u00e0quelas. Havia cem mil instrumentos e todos emitiam um som diferente um do outro e todos os sons poss\u00edveis difundiam pelo ar suas ondas sonoras. A estes se uniam os coros dos cantores.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Vi ent\u00e3o uma multid\u00e3o de gente que estava naqueles jardins e se divertia alegre e contente. Quem tocava e quem cantava. Cada voz, cada nota produzia o efeito de um encontro de mil instrumentos, todos diferentes uns dos outros. Ao mesmo tempo, se ouviam os v\u00e1rios graus da escala harm\u00f4nica, do mais baixo ao mais alto, que se possam imaginar, mas todos em perfeita harmonia. Ah! Para descrever esta harmonia n\u00e3o s\u00e3o suficientes compara\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>No rosto daqueles felizes habitantes se via que os cantores n\u00e3o s\u00f3 experimentavam um extraordin\u00e1rio prazer em cantar, mas, ao mesmo tempo, sentiam uma alegria imensa em ouvir os outros cantar. E quanto mais um cantava, mais sentia vontade de cantar; e quanto mais ouvia, mais desejava ouvir: Aqui est\u00e1 a can\u00e7\u00e3o deles: <em>Salus, honor, gloria Deo Patri Omnipotenti\u2026 Auctor saeculi, qui erat, qui est, qui venturus est iudicare vivos et mortuos in saecula saeculorum<\/em> (Salva\u00e7\u00e3o, honra, gl\u00f3ria a Deus Pai Onipotente&#8230; O criador do mundo, que era, que \u00e9, que vir\u00e1 para julgar os vivos e os mortos para sempre \u2013 cf. Ap 19,1).<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Enquanto escutava em \u00eaxtase esta celestial harmonia, vi aparecer um grande n\u00famero de jovens, muitos dos quais eu conhecia e tinham estado no Orat\u00f3rio e em outros nossos col\u00e9gios; mas a maioria deles eram completamente desconhecida para mim. Aquela imensa multid\u00e3o vinha em minha dire\u00e7\u00e3o. Domingos S\u00e1vio avan\u00e7ava \u00e0 sua frente e logo a seguir vinham o P. Alasonatti, o P. Chiala, o P. Giulitto e muitos, e muitos outros cl\u00e9rigos e sacerdotes, cada um conduzindo um grupo de jovens.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Ent\u00e3o perguntava a mim mesmo: \u2013 Durmo ou estou acordado? Batia as m\u00e3os uma contra a outra e tocava meu peito, para ter certeza de que era uma realidade quanto via. Ao chegar toda aquela multid\u00e3o diante de mim, parou a uma dist\u00e2ncia de oito ou dez passos. Ent\u00e3o um clar\u00e3o de luz mais forte brilhou, a m\u00fasica cessou e houve um profundo sil\u00eancio. Todos aqueles jovens estavam cheios de uma alegria imensa, que transparecia em seus olhos, e em seus rostos se via a paz de uma felicidade perfeita. Eles me olhavam com um doce sorriso nos l\u00e1bios e parecia que quisessem falar; mas permaneceram em sil\u00eancio.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Domingos S\u00e1vio deu apenas mais alguns passos e parou t\u00e3o perto de mim que, se eu tivesse estendido a m\u00e3o, certamente o teria tocado. Calava, olhando-me tamb\u00e9m ele sorridente. Como estava bonito! As suas vestes eram bastante singulares. A t\u00fanica muito branca, que descia at\u00e9 seus p\u00e9s, era revestida de diamantes e toda tecida com ouro. Uma larga faixa vermelha cingia sua cinta, bordada de tal modo com pedras preciosas que uma quase tocava a outra; e entrela\u00e7ando-se em um maravilhoso desenho, que apresentavam tamanha beleza de cores que eu, ao contempl\u00e1-la, me sentia cheio de admira\u00e7\u00e3o. De seu pesco\u00e7o pendia um colar de flores peregrinas, mas n\u00e3o naturais: parecia que as folhas fossem de diamantes unidos entre si sobre talos de ouro e assim todo o resto. Essas flores brilhavam com uma luz sobre-humana, mais viva que a do sol, que naquele instante brilhou com todo o esplendor de uma manh\u00e3 de primavera; e refletiam seus raios sobre aquele rosto c\u00e2ndido e corado de uma forma indescrit\u00edvel; e iluminando-o de tal forma que n\u00e3o era poss\u00edvel distinguir nem mesmo nas v\u00e1rias esp\u00e9cies. A cabe\u00e7a estava cingida com uma coroa de rosas. Ca<strong>\u00ed<\/strong>a-lhe sobre os ombros os cabelos ondulados e lhe dava um aspecto t\u00e3o belo, t\u00e3o am\u00e1vel, t\u00e3o encantador que parecia&#8230; parecia&#8230; um anjo!<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Ao pronunciar estas \u00faltimas palavras, Dom Bosco parecia esfor\u00e7ar-se por encontrar express\u00f5es adequadas; e as concluiu com um gesto indescrit\u00edvel e um tom de voz que estremeceu a todos; ele era como algu\u00e9m exausto pelo esfor\u00e7o de encontrar os termos para revelar plenamente sua ideia. Ap\u00f3s uma breve pausa, continuou:<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Tamb\u00e9m as demais pessoas resplandeciam de luz. Estavam vestidas de v\u00e1rias maneiras, e sempre estupendas; quem mais, quem menos ricas; quem de uma forma, quem de outra; quem de uma cor dominante, quem de outra; e essas diferentes vestimentas tinham um significado que ningu\u00e9m conseguia compreender. Mas todos tinham as cintas cingidas por uma faixa vermelha igual a que levava Domingos.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Eu continuava a observar e pensava: \u2013 O que significa isso?&#8230; Como vim parar neste lugar? \u2013 Eu n\u00e3o sabia onde me encontrava. Fora de mim, todo tr\u00eamulo por respeito, n\u00e3o ousava continuar. Todos os outros tamb\u00e9m continuavam em sil\u00eancio. Finalmente Domingos S\u00e1vio abriu a boca:<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>\u2013 Por que voc\u00ea est\u00e1 a\u00ed mudo e quase aniquilado? N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea aquele homem que em outro tempo nada o amedrontava, mas enfrentava intr\u00e9pido as cal\u00fanias, as persegui\u00e7\u00f5es, os inimigos e as ang\u00fastias e os perigos de todos os tipos? Onde est\u00e1 sua coragem? Por que n\u00e3o fala?<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Eu mal respondi, quase gaguejando: \u2013 Eu n\u00e3o sei o que dizer. E voc\u00ea, ent\u00e3o, Domingos S\u00e1vio?<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>\u2013\u00a0 Sou eu! \u2013 n\u00e3o me reconhece mais?<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>\u2013\u00a0 E como se encontra aqui? \u2013 \u00a0eu respondi sempre confuso.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>E S\u00e1vio, ent\u00e3o, afetuosamente me disse: \u2013 Eu vim falar-lhe! Tantas vezes temos conversado na terra! N\u00e3o se lembra quanto me amava ent\u00e3o? Quantas vezes voc\u00ea me deu in\u00fameros sinais de amizade e tantas provas de benevol\u00eancia! E este seu amor vivo n\u00e3o foi correspondido por mim? Era t\u00e3o grande a minha confian\u00e7a em voc\u00ea! Ent\u00e3o, por que est\u00e1 t\u00e3o assustado? Por que, ent\u00e3o, voc\u00ea treme? Vamos, me pergunte alguma coisa!<\/p>\n<p>Ent\u00e3o me animei e disse-lhe: \u2013 Tremo, porque n\u00e3o sei onde estou.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 Est\u00e1 no lugar da felicidade, respondeu-me S\u00e1vio, onde poder\u00e1 desfrutar de todas as alegrias, de todas as del\u00edcias.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 Ent\u00e3o este \u00e9 o pr\u00eamio dos justos?<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 N\u00e3o, n\u00e3o! Aqui estamos em um lugar onde os bens eternos n\u00e3o se desfrutam, mas apenas, embora em grandes medidas, existem somente bens temporais.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 S\u00e3o, ent\u00e3o, todas naturais estas coisas?<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 Sim; por\u00e9m, embelezadas pelo poder de Deus.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 E me parecia que isto era o para\u00edso, exclamei!<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 N\u00e3o, n\u00e3o! \u2013 respondeu S\u00e1vio. Nenhum olho mortal pode ver as belezas eternas.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 E estas m\u00fasicas, eu continuava, s\u00e3o as harmonias que gozam no Para\u00edso?<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 N\u00e3o, n\u00e3o, e sempre n\u00e3o!<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 S\u00e3o sons naturais?<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 Sim, s\u00e3o sons naturais, aperfei\u00e7oados pela onipot\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>\u2013\u00a0 E esta luz que ultrapassa a luz do sol, \u00e9 luz sobrenatural? \u00c9 a luz do<\/p>\n<p>Para\u00edso?<\/p>\n<p>\u2013 \u00c9 luz natural, reavivada, por\u00e9m, e aperfei\u00e7oada pela onipot\u00eancia de Deus.<\/p>\n<p>\u2013 E n\u00e3o se poderia ver um pouco de luz sobrenatural?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o se pode ver por ningu\u00e9m at\u00e9 que chegue a ver Deus <em>sicut est<\/em>. O menor raio dessa luz faria um homem morrer instantaneamente, porque n\u00e3o h\u00e1 for\u00e7as humanas que podem resistir.<\/p>\n<p>\u2013 E se poderia ter uma luz natural ainda mais bonita que esta?<\/p>\n<p>\u2013 Ah, se voc\u00ea soubesse! Se visse apenas um raio de luz natural levada a um grau superior a este, voc\u00ea ficaria fora de si.<\/p>\n<p>\u2013 E n\u00e3o se pode ver ao menos um raio desta luz que voc\u00ea diz?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, se pode ver; e ter\u00e1 a prova do que eu digo; abra os olhos.<\/p>\n<p>\u2013 Eu os tenho abertos, eu respondi.<\/p>\n<p>\u2013 Preste aten\u00e7\u00e3o e olhe ali no fundo do mar de cristal.<\/p>\n<p>Olhei para cima e ao mesmo tempo apareceu de repente no c\u00e9u, a uma dist\u00e2ncia imensa, um raio de luz instant\u00e2neo, sutil\u00edssimo como um fio, mas t\u00e3o brilhante, t\u00e3o penetrante que meus olhos n\u00e3o puderam resistir. Fechei meus olhos e soltei um grito que acordou P. Lemoyne (aqui presente) que dormia no quarto ao lado. Assustado, me perguntou de manh\u00e3 o que havia acontecido comigo durante a noite para ter ficado t\u00e3o agitado. Este fio de luz era cem milh\u00f5es de vezes mais claro que o sol, e com seu fulgor bastaria para iluminar o universo inteiro.<\/p>\n<p>Depois de alguns instantes, abri os olhos e perguntei a Domingos S\u00e1vio: \u2013 O que \u00e9 isso? N\u00e3o \u00e9 talvez um raio divino?<\/p>\n<p>S\u00e1vio respondeu: \u2013 N\u00e3o \u00e9 luz sobrenatural, se bem que comparada com a luz do mundo, \u00e9 superior em luminosidade. Nada mais \u00e9 do que a luz natural tornada mais viva em tal modo pelo poder de Deus. Se uma imensa \u00e1rea de luz, semelhante \u00e0quela faixa vista l\u00e1 ao fundo, envolvesse o mundo inteiro, ainda n\u00e3o daria uma ideia dos esplendores do Para\u00edso.<\/p>\n<p>\u2013 E voc\u00eas o que gozam, ent\u00e3o, no Para\u00edso?<\/p>\n<p>\u2013 Ah sim!&#8230; \u00e9 imposs\u00edvel lhe dizer. O que se goza no Para\u00edso, n\u00e3o tem nenhum homem mortal que possa sab\u00ea-lo, at\u00e9 que ele n\u00e3o abandone esta vida e se re\u00fana com seu Criador. Goza-se Deus! Isto \u00e9 tudo.<\/p>\n<p>Entretanto, recuperado totalmente do meu primeiro espanto, contemplava absorto a beleza de Domingos S\u00e1vio e perguntei-lhe com franqueza: \u2013 Por que est\u00e1 com uma roupa t\u00e3o branca e reluzente?<\/p>\n<p>S\u00e1vio calou-se sem dar qualquer sinal de querer responder. O coro retomou ent\u00e3o a sua harmonia, acompanhado pelo som de todos os instrumentos, e cantou: <em>Ipsi habuerunt lumbos praecinctos et dealbaverunt stolas suas in sanguine Agni<\/em> (Estes tiveram cingidos os flancos e lavaram suas vestes no sangue do Cordeiro \u2013 Ap 7,14).<\/p>\n<p>Quando cessou aquela m\u00fasica, perguntei ainda: \u2013 Por que esta faixa vermelha no seu flanco?<\/p>\n<p>S\u00e1vio nem mesmo esta vez respondeu, antes, fez sinal de n\u00e3o querer responder<strong>.<\/strong><\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>E ent\u00e3o P. Alasonatti come\u00e7ou a cantar sozinho: <em>Virgines enim sunt et sequuntur Agnum quocumque ierit<\/em> (S\u00e3o de fato virgens e seguem o Cordeiro aonde quer que v\u00e1 <strong>\u2013<\/strong> Ap 14,4).<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Ent\u00e3o entendi como aquela faixa vermelha, da cor de sangue, era s\u00edmbolo dos grandes sacrif\u00edcios feitos, dos esfor\u00e7os violentos e quase do mart\u00edrio sofrido para conservar a virtude da pureza: e como para manter-se casto na presen\u00e7a do Senhor, estaria pronto a dar a vida, se as circunst\u00e2ncias assim o tivessem exigido: era tamb\u00e9m s<strong>\u00ed<\/strong>mbolo das penit\u00eancias que purificam a alma dos pecados. Ent\u00e3o, a brancura e o esplendor do manto significam a inoc\u00eancia batismal preservada.<\/p>\n<p>Eu, no entanto, atra\u00eddo por aqueles cantos e contemplando todas aquelas falanges de jovens celestiais enfileiradas atr\u00e1s de Domingos S\u00e1vio, perguntei-lhe: \u2013 E quem s\u00e3o os que lhe est\u00e3o ao redor?&#8230; \u2013 E repeti aos outros: \u2013 E como \u00e9 que voc\u00eas est\u00e3o t\u00e3o brilhantes? \u2013 S\u00e1vio continuou calado e todos aqueles jovens come\u00e7aram a cantar: <em>Hi sunt sicut Angeli Dei in caelo<\/em> (Estes s\u00e3o como os anjos de Deus no c\u00e9u \u2013 cf. Mt 22,30). Eu, entretanto, notei como S\u00e1vio parecia ter a preemin\u00eancia sobre aquela multid\u00e3o, que estava dez passos atr\u00e1s dele, quase em respeitosa dist\u00e2ncia e:<\/p>\n<p>\u2013 Diga-me, \u00f3 S\u00e1vio: voc\u00ea \u00e9 o mais jovem entre os muitos que o seguem e entre aqueles que morreram em nossas casas: por que ent\u00e3o vai na frente deles e os precede? Por que fala e os outros calam?<\/p>\n<p>\u2013 Eu sou o mais velho de todos estes.<\/p>\n<p>\u2013 Mas n\u00e3o, eu respondi; muitos outros s\u00e3o mais velhos que voc\u00ea.<\/p>\n<p>\u2013 Eu sou o mais velho do Orat\u00f3rio, repetiu Domingos S\u00e1vio, porque fui o primeiro a deixar o mundo e ir para a outra vida. E, ent\u00e3o, <em>legatione Dei fungor<\/em> (Eu fa\u00e7o as fun\u00e7\u00f5es de embaixador de Deus \u2013 2Cor 5,20)!<\/p>\n<p>Essa resposta me indicou o motivo daquela apari\u00e7\u00e3o. Ele era o embaixador de Deus. \u2013 Ent\u00e3o, eu disse, falemos agora das coisas que neste instante mais nos importam.<\/p>\n<p>\u2013 Sim, e pergunte-me logo o que ainda quer saber. As horas passam e poder\u00e1 terminar o tempo que me \u00e9 concedido para falar-lhe e n\u00e3o poder\u00e1 mais ver-me.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>\u2013 Acredito que tens algo de suma import\u00e2ncia para me comunicar.<\/p>\n<p>\u2013 O que devo dizer-lhe eu, m\u00edsera criatura? \u2014 disse S\u00e1vio num ato de profunda humildade; do alto recebi a miss\u00e3o de falar-lhe. \u00c9 por isso que vim.<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, exclamei, fale-me do passado, do presente, do futuro do nosso Orat\u00f3rio. Diga-me algo sobre meus queridos filhos, fale-me sobre minha Congrega\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 A respeito desta teria muitas coisas para dizer-lhe.<\/p>\n<p>\u2013 Conte-me, ent\u00e3o, o que sabe: conte-me sobre o passado.<\/p>\n<p>S\u00e1vio: \u2013 O passado recai todo sobre voc\u00ea.<\/p>\n<p>E eu: \u2013 Cometi alguma falta?<\/p>\n<p>S\u00e1vio: \u2013 Quanto ao passado, digo-lhe que a sua Congrega\u00e7\u00e3o j\u00e1 fez muito bem. V\u00ea l\u00e1 embaixo aquele n\u00famero incont\u00e1vel de jovens?<\/p>\n<p>\u2013 Eu os vejo, respondi. Oh quantos! \u2013 e como s\u00e3o felizes!<\/p>\n<p>E ele: \u2013 Olhe; o que est\u00e1 escrito na entrada daquele jardim?<\/p>\n<p>\u2013 Vejo: est\u00e1 escrito <em>Jardim Salesiano<\/em>.<\/p>\n<p>\u2013 Pois bem, continuou S\u00e1vio; foram todos Salesianos, ou foram educados por voc\u00ea, ou tiveram alguma rela\u00e7\u00e3o consigo, salvos por voc\u00ea ou por seus sacerdotes, ou cl\u00e9rigos, ou outros que por voc\u00ea foram colocados no caminho de sua voca\u00e7\u00e3o. Enumere-os, se pode! Mas seriam cem milh\u00f5es de vezes mais, se voc\u00ea tivesse tido mais f\u00e9 e confian\u00e7a no Senhor.<\/p>\n<p>Eu suspirei com um gemido. N\u00e3o sabia o que responder a esta censura e propus para mim mesmo: Procurarei ter esta f\u00e9 e esta confian\u00e7a no Senhor para o futuro. Depois disse: \u2013 E o presente?<\/p>\n<p>S\u00e1vio me mostrou o magn\u00edfico buqu\u00ea de flores que segurava nas m\u00e3os.<\/p>\n<p>Havia rosas, violetas, girass\u00f3is, gencianas, l\u00edrios, eternos ou perp\u00e9tuos e no meio das flores espigas de trigo. Ele me entregou e disse: \u2013 Observe!<\/p>\n<p>\u2013 Vejo&#8230; mas n\u00e3o entendo nada, respondi.<\/p>\n<p>\u2013 Este buqu\u00ea entregue-o aos seus filhos, para que possam oferec\u00ea-lo ao Senhor quando chegar a hora; fa\u00e7a com que todos o tenham, que n\u00e3o haja ningu\u00e9m sem ele e que ningu\u00e9m o tire deles. Com isso tenha certeza de que eles ter\u00e3o o suficiente para ser felizes.<\/p>\n<p>\u2013 Mas o que significa esse ramalhete de flores?<\/p>\n<p>\u2013 Pegue a Teologia, respondeu-me: essa o dir\u00e1 e dar\u00e1 a explica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>E eu: \u2013 Mas eu estudei Teologia e n\u00e3o saberia tirar dela o que me apresenta.<\/p>\n<p>S\u00e1vio: \u2013 Est\u00e1 estritamente obrigado a saber estas coisas.<\/p>\n<p>\u2013 Vamos, acalme minha ansiedade, explique-me.<\/p>\n<p>S\u00e1vio: \u2013 V\u00ea estas flores? Representam as virtudes que mais agradam ao Senhor:<\/p>\n<p>\u2013 E quais s\u00e3o?<\/p>\n<p>S\u00e1vio: \u2013 A rosa \u00e9 s\u00edmbolo da caridade, a violeta da humildade, o girassol da obedi\u00eancia, a genciana da penit\u00eancia e da mortifica\u00e7\u00e3o, as espigas, da comunh\u00e3o frequente; o l\u00edrio indica aquela bela virtude da qual est\u00e1 escrito: <em>Erunt sicut Angeli Dei in caelo<\/em>: a castidade. E a sempre-viva ou <em>perp\u00e9tua<\/em> significa que todas estas virtudes devem ser perenes: simbolizam a perseveran\u00e7a.<\/p>\n<p>\u2013 Pois bem, meu caro S\u00e1vio, eu lhe perguntei, diga-me: voc\u00ea que durante a vida praticou estas virtudes, o que mais o consolou na hora da morte?<\/p>\n<p>\u2013 O que acha que poderia ser? \u2013 respondeu S\u00e1vio.<\/p>\n<p>\u2013 Talvez o ter preservado a bela virtude da pureza?<\/p>\n<p>\u2013 Eh n\u00e3o; n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 isso.<\/p>\n<p>\u2013 Talvez se alegrou por ter a consci\u00eancia tranquila?<\/p>\n<p>\u2013 J\u00e1 \u00e9 uma coisa boa, mas n\u00e3o \u00e9 ainda a melhor.<\/p>\n<p>\u2013 Seria, ent\u00e3o, seu conforto a esperan\u00e7a do Para\u00edso?<\/p>\n<p>\u2013 Nem mesmo!<\/p>\n<p>\u2013 Ent\u00e3o, ser\u00e1 por ter realizado muitas boas obras?<\/p>\n<p>\u2013 N\u00e3o, n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u2013 Qual foi, ent\u00e3o, o seu conforto naquela \u00faltima hora? \u2013 Assim lhe disse com ar suplicante, constrangido por n\u00e3o conseguir adivinhar o seu pensamento.<\/p>\n<p>E S\u00e1vio: \u2013 O que mais me confortou na hora da morte foi a assist\u00eancia da poderosa e am\u00e1vel M\u00e3e do Salvador! E diga isto aos seus filhos! Que n\u00e3o se esque\u00e7am de invoc\u00e1-la enquanto estiverem vivos. Mas se apresse se quer que eu ainda lhe responda.<\/p>\n<p>\u2013 E sobre o futuro o que me diz?<\/p>\n<p>\u2013 No futuro, no pr\u00f3ximo ano de 1877, sofrer\u00e1 uma grande dor. Seis filhos dos que lhe s\u00e3o mais queridos ser\u00e3o chamados por Deus para a eternidade. Mas console-se: ser\u00e3o transplantados do deserto deste mundo nos jardins do Para\u00edso. Ser\u00e3o coroados. N\u00e3o se preocupe; o Senhor o ajudar\u00e1 e lhe dar\u00e1 outros filhos igualmente bons.<\/p>\n<p>\u2013 Paci\u00eancia! E pelo que se refere \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o?<\/p>\n<p>\u2013 Quanto \u00e0 Congrega\u00e7\u00e3o, saiba que Deus lhe prepara grandes coisas.<\/p>\n<p>Para ela o pr\u00f3ximo ano uma aurora de gl\u00f3ria se erguer\u00e1 t\u00e3o espl\u00eandida, que iluminar\u00e1 os quatro cantos do mundo como um raio, do leste a oeste, do sul ao norte. Grande gl\u00f3ria est\u00e1 reservada para ela. Voc\u00ea cuide para que o carro em que o Senhor est\u00e1 n\u00e3o seja arrastado pelos seus fora dos trilhos. Se os seus sacerdotes souberem conduzi-lo e forem dignos da sua alta miss\u00e3o, o futuro ser\u00e1 espl\u00eandido e levar\u00e1 salva\u00e7\u00e3o a um n\u00famero infinito de pessoas. Com uma condi\u00e7\u00e3o, por\u00e9m: que os seus filhos sejam devotos da Sant\u00edssima Virgem e saibam preservar a virtude da castidade, que \u00e9 t\u00e3o agrad\u00e1vel aos olhos de Deus, para quantos vivem na sua Casa.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>\u2013 Agora gostaria, acrescentei, que me dissesse algo sobre a Igreja em geral.<\/p>\n<p>\u2013 Os destinos da Igreja est\u00e3o nas m\u00e3os do Deus Criador. O que est\u00e1 estabelecido, em seus decretos infinitos, n\u00e3o o posso revelar. Ele reserva unicamente para si esses arcanos e nenhum dos esp\u00edritos criados pode deles participar.<\/p>\n<p>\u2013 E de Pio IX?<\/p>\n<p>Existem poucas batalhas que ele ainda precisa vencer. Em breve ser\u00e1 arrebatado de seu trono e o Senhor lhe dar\u00e1 sua merecida recompensa. O resto j\u00e1 se sabe. A Igreja n\u00e3o perece. Tem mais alguma coisa para perguntar-me?<\/p>\n<p>\u2013 E quanto a mim? \u2013 eu lhe perguntei.<\/p>\n<p>Ah se soubesse por quantas vicissitudes ter\u00e1 ainda que passar!&#8230; Mas se apresse, \u00e9 pouco o tempo que tenho para falar consigo.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, com entusiasmo, estendi minhas m\u00e3os para pegar aquele querido filho, mas suas m\u00e3os pareciam inconsistentes e nada pude segurar.<\/p>\n<p>\u2013 Louco! Que faz agora? S\u00e1vio me disse sorrindo.<\/p>\n<p>\u2013 Tenho medo que voc\u00ea fuja de mim, exclamei, mas n\u00e3o est\u00e1 aqui com o corpo?<\/p>\n<p>\u2013 Com o corpo, n\u00e3o. Eu o retomarei um dia.<\/p>\n<p>\u2013 Mas o que s\u00e3o estas suas semelhan\u00e7as? Eu vejo em voc\u00ea a fisionomia de Domingos S\u00e1vio!<\/p>\n<p>\u2013 Veja, ele dizia, quando uma alma \u00e9 separada do corpo e por permiss\u00e3o de Deus se faz ver a qualquer mortal, conserva a sua forma e apar\u00eancia externa, com todas as caracter\u00edsticas do pr\u00f3prio corpo, como quando vivia sobre a terra, e assim, embora muito embelezadas, as mant\u00e9m at\u00e9 que n\u00e3o se re\u00fanam com ele no dia do ju\u00edzo final. Ent\u00e3o o levar\u00e1 consigo para o Para\u00edso. Por isso, agora lhe parece que eu tenho m\u00e3os, p\u00e9s, cabe\u00e7a, mas voc\u00ea n\u00e3o poder\u00e1 tocar-me porque sou puro esp\u00edrito. Esta \u00e9 apenas uma forma externa de me conhecer (em outras palavras, significa: \u201cQuando lhes aparece por divina vontade uma alma separada do corpo, ela apresenta aos seus olhos a forma externa do corpo que j\u00e1 foi informada por ela e, por isso, a voc\u00ea parece que eu tenha m\u00e3os e p\u00e9s e cabe\u00e7a etc.\u201d).<\/p>\n<p>\u2013 Entendi, eu continuei. Escute-me. Mais uma palavra. Meus jovens est\u00e3o todos no caminho certo para se salvar? Diga-me alguma coisa, para que eu possa direcion\u00e1-los bem.<\/p>\n<p>\u2013 Quanto aos filhos que a Divina Provid\u00eancia lhes confiou, podem ser divididos em tr\u00eas classes. V\u00ea essas tr\u00eas listas? (e me entregou uma). Observe-as.<\/p>\n<p>Eu olhei para a primeira lista. Acima dela estava escrito <em>Invulnerati<\/em>: isto \u00e9, aqueles a quem o dem\u00f4nio n\u00e3o foi capaz de ferir; que n\u00e3o mancharam sua inoc\u00eancia com alguma culpa. Havia um grande n\u00famero desses saud\u00e1veis, e os vi todos. Muitos deles eu j\u00e1 os conhecia; muitos era a primeira vez que os via, e talvez vir\u00e3o para o Orat\u00f3rio nos pr\u00f3ximos anos. Caminharam retamente por um caminho estreito, apesar de serem continuamente alvos de flechas e golpes de espadas e de lan\u00e7as que partiam de todos os lados. Estas armas se formaram como uma cerca viva ao longo dos dois lados da rua e os combatiam e os molestavam sem feri-los.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o S\u00e1vio me deu a segunda lista. Estava escrito nela: <em>Vulnerati<\/em>: isto \u00e9, aqueles que haviam estado na desgra\u00e7a de Deus, mas agora colocados em p\u00e9, tinham curado suas feridas, arrependendo-se e confessando-se. Eram mais numerosos do que os primeiros, e tinham sido feridos no caminho de suas vidas pelos inimigos que os perseguiram durante a viagem. Li a lista de seus nomes e vi todos eles. Muitos andavam curvos e desanimados.<\/p>\n<p>S\u00e1vio ainda tinha em m\u00e3os a terceira lista. Acima dela estava a ep\u00edgrafe: <em>Lassati in via iniquitatis<\/em>. Estavam escritos os nomes de todos aqueles que se encontravam na desgra\u00e7a de Deus. Estava eu impaciente para conhecer aquele segredo: ent\u00e3o estendi minha m\u00e3o. S\u00e1vio, por\u00e9m, disse-me com vivacidade: \u2013 N\u00e3o; espere um momento e ou\u00e7a. Se abrir esta folha, sair\u00e1 um fedor que nem voc\u00ea nem eu poder\u00edamos suportar. Os anjos devem se retirar enojados e horrorizados com isso, e o pr\u00f3prio Esp\u00edrito Santo sente nojo do fedor horr\u00edvel do pecado.<\/p>\n<p>\u2013 Mas como, observei, pode ser isso, se Deus e os anjos est\u00e3o impass\u00edveis? Como podem sentir o fedor da mat\u00e9ria?<\/p>\n<p>\u2013 Sim, porque quanto mais puras e melhores s\u00e3o as criaturas, mais se aproximam dos esp\u00edritos celestes: e pelo contr\u00e1rio, quanto pior, desonesto e vil \u00e9 algu\u00e9m, mais se distancia de Deus e dos anjos, os quais se afastam dele, transformado para eles em objeto de n\u00e1usea e de repulsa. \u2013 Ent\u00e3o ele me deu a lista, e: \u2013 Pegue-a, ele me disse, abra-a e aproveite-a para o bem de seus jovens: mas lembre-se sempre do ramalhete que eu lhe dei: fa\u00e7a com que todos a tenham e a conservem. Dito isto, depois de me entregar a lista, retirou-se em meio aos seus companheiros, afastando-se rapidamente.<\/p>\n<p>Eu abri a lista. N\u00e3o vi nenhum nome, mas instantaneamente todos os indiv\u00edduos escritos nela foram apresentados a mim de relance, como se eu estivesse realmente vendo estas pessoas. Com amargura vi todos ali. Conhecia a maior parte deles e pertenciam a este Orat\u00f3rio e a outros col\u00e9gios. Tamb\u00e9m vi muitos que entre os companheiros pareciam bons, inclusive alguns que pareciam excelentes e n\u00e3o o s\u00e3o. Mas, apenas abri aquela lista, espalhou-se ao redor um fedor que era insuport\u00e1vel. Fui imediatamente assaltado por terr\u00edveis dores de cabe\u00e7a e \u00e2nsias de v\u00f4mito, de tal forma que temia morrer por isso. Enquanto isso, o tempo escureceu, a vis\u00e3o desapareceu e n\u00e3o vi mais nada daquele maravilhoso espet\u00e1culo. Ao mesmo tempo, um rel\u00e2mpago brilhou e um trov\u00e3o soou t\u00e3o forte e terr\u00edvel, que despertei sobressaltado.<\/p>\n<p>Aquele odor penetrou em todas as paredes, infiltrou-se nas roupas, de tal modo que muitos dias depois ainda me parecia sentir aquela pestil\u00eancia. T\u00e3o fedorento aos olhos de Deus \u00e9 at\u00e9 mesmo o nome do viciado! Ainda hoje, assim que aquele fedor volta \u00e0 minha mem\u00f3ria, fico arrepiado, sinto-me sufocado e meu est\u00f4mago se revira.<\/p>\n<p>L\u00e1 em Lanzo, onde eu me encontrava, comecei a interrogar um e outro, adverti v\u00e1rios jovens e descobri que aquele sonho n\u00e3o havia me enganado. Portanto, \u00e9 uma gra\u00e7a do Senhor que me fez conhecer o estado da alma de cada um; mas eu, entretanto, sobre isto n\u00e3o direi nada em p\u00fablico. Aqui haveria muitas explica\u00e7\u00f5es a serem feitas, mas eu as reservo para outra noite.<\/p>\n<p>Agora n\u00e3o me resta mais que lhes desejar uma boa noite.<\/p>\n<p>Ao ver no sonho que eram considerados como maus alguns jovens que se passavam pelos melhores da casa, havia posto Dom Bosco na suspeita de que se tratasse de uma ilus\u00e3o. \u00c9 por isso que ele havia chamado anteriormente v\u00e1rios <em>ad audiendum verbum<\/em>: queria ter certeza sobre a natureza do sonho. Pelo mesmo motivo, ele adiou por quinze dias o relato. Quando teve certeza de que a coisa procedia do alto, falou. O tempo teria trazido outras confirma\u00e7\u00f5es, gra\u00e7as ao cumprimento das previs\u00f5es ouvidas.<\/p>\n<p>A primeira predi\u00e7\u00e3o, e a mais importante, se referia ao n\u00famero de seus queridos filhos que morreriam em 1877, divididos em dois grupos: seis mais dois. J\u00e1 os registros da prefeitura externa do Orat\u00f3rio colocam a cruz, sinal tradicional da morte, junto aos nomes de <em>seis jovens e de dois cl\u00e9rigos<\/em>.<sup>1<\/sup> A segunda predi\u00e7\u00e3o anunciava para a Sociedade Salesiana, em 1877, uma aurora t\u00e3o espl\u00eandida que iluminaria os quatro cantos do mundo, com efeito, naquele ano surgiu a associa\u00e7\u00e3o dos Cooperadores Salesianos no horizonte da Igreja e surgiu o <em>Boletim Salesiano<\/em>, duas institui\u00e7\u00f5es que deviam levar de um extremo ao outro da terra o conhecimento e a pr\u00e1tica do esp\u00edrito de Dom Bosco. A terceira predi\u00e7\u00e3o se referia ao fim pr\u00f3ximo do Papa Pio IX, que, de fato, deixou de viver quatorze meses ap\u00f3s o sonho. A \u00faltima predi\u00e7\u00e3o foi amarga para o Beato: \u201cOh, se soubesse, quantas dificuldades ainda tem que vencer!\u201d. E realmente no resto de sua vida, que ainda durou onze anos e dois meses, lutas, sofrimentos e sacrif\u00edcios se alternaram para ele sem tr\u00e9gua at\u00e9 seu \u00faltimo suspiro.<\/p>\n<p>O encarregado da Delegacia de Seguran\u00e7a P\u00fablica de Borgo Dora era um senhor que tinha v\u00e1rios conhecidos no Orat\u00f3rio. Ele ouviu falar do sonho e ficou impressionado com a profecia dos oito mortos. Esteve atento durante todo o ano de 1877, para comprovar o quanto de verdade havia. Com a not\u00edcia do oitavo caso, ocorrido no \u00faltimo dia do ano, despediu-se do mundo, tornou-se salesiano e trabalhou muito n\u00e3o s\u00f3 na It\u00e1lia, mas tamb\u00e9m na Am\u00e9rica.<\/p>\n<p><strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>Foi P. Angelo Piccono, cujo nome ainda sobrevive na mem\u00f3ria de muitos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><sup>1 <\/sup>1. Jo\u00e3o Briatore, 1\u00ba ginasial, n. 93.<\/p>\n<ol start=\"2\">\n<li>Vit\u00f3rio Strolengo, encaderna\u00e7\u00e3o, n. 152.<\/li>\n<li>Est\u00eav\u00e3o Mazzoglio, 4\u00ba ginasial, n. 187.<\/li>\n<li>Natal Garola, 4\u00ba ginasial, n. 388.<\/li>\n<li>Ant\u00f4nio Bognati, 5\u00ba ginasial, n. 206.<\/li>\n<li>Lu\u00eds Boggiatto, varredor, n. 805.<\/li>\n<li>Miguel Giovannetti, cl\u00e9rigo salesiano, n. 553.<\/li>\n<li>Carlos Becchio, cl\u00e9rigo, n. 248 (falecido na fam\u00edlia em Murialdo aos 31 de dezembro de 1877, mas presente no Orat\u00f3rio durante o ano letivo de 1876-77).<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>(MB IT XII, 585-596 \/ MB PT XII, 598-611)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto a seguir apresenta a \u201cVis\u00e3o de S\u00e3o Domingos S\u00e1vio\u201d, narrada por Dom Jo\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":53177,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":26,"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[2561,2577,2600,1827,1815,2025],"class_list":["post-53191","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sonhos-de-dom-bosco","tag-carisma-salesiano","tag-dom-bosco","tag-fe","tag-gracas-obtidas","tag-juventude","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53191","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=53191"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53191\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":53192,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/53191\/revisions\/53192"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/53177"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=53191"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=53191"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=53191"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}