{"id":52960,"date":"2026-04-17T12:43:50","date_gmt":"2026-04-17T12:43:50","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=52960"},"modified":"2026-04-17T12:44:39","modified_gmt":"2026-04-17T12:44:39","slug":"educar-para-a-espiritualidade-do-cotidiano-com-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/educar-para-a-espiritualidade-do-cotidiano-com-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"Educar para a espiritualidade do cotidiano com S\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"<p><em><i>A espiritualidade crist\u00e3 \u00e9 frequentemente percebida como um patrim\u00f4nio exclusivo de almas privilegiadas, distante da vida concreta de quem habita o mundo. S\u00e3o Francisco de Sales inverte essa vis\u00e3o com uma proposta radical: Deus n\u00e3o se encontra em um al\u00e9m ideal, mas no cora\u00e7\u00e3o pulsante da exist\u00eancia ordin\u00e1ria. Bispo, diretor espiritual e escritor do s\u00e9culo XVII, Francisco de Sales elaborou um caminho de santidade acess\u00edvel a todos \u2013 ao comerciante, \u00e0 esposa, ao soldado, ao campon\u00eas \u2013 sem exigir o abandono do pr\u00f3prio estado de vida. O texto a seguir explora os pilares dessa espiritualidade do cotidiano: a aceita\u00e7\u00e3o amorosa da pr\u00f3pria condi\u00e7\u00e3o, o exerc\u00edcio concreto das virtudes, o encontro com Deus nos acontecimentos de cada dia e a transfigura\u00e7\u00e3o do ordin\u00e1rio atrav\u00e9s da caridade.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Deus me manifesta sua vontade e seu amor na e atrav\u00e9s da vida de cada dia, a qual constitui, portanto, o lugar providencial onde posso encontr\u00e1-lo. O homem \u00e9 continuamente tentado a procur\u00e1-lo em outro lugar, em outra \u00e9poca ou em uma condi\u00e7\u00e3o de vida diferente da sua, enquanto Deus est\u00e1 presente na vida de cada um. Pensa-se talvez espontaneamente que a vida espiritual seja reservada a uma elite e esteja contida em livros obviamente incompreens\u00edveis para os mortais comuns.<\/p>\n<p>Francisco de Sales prop\u00f5e uma espiritualidade da \u201cvida ordin\u00e1ria\u201d, do cotidiano. Ele afirma isso explicitamente no pref\u00e1cio da <em><i>Filoteia<\/i><\/em>: minha inten\u00e7\u00e3o \u2013 escrevia \u2013 \u00e9 instruir aqueles que \u201cpela sua condi\u00e7\u00e3o s\u00e3o obrigados a viver exteriormente uma vida ordin\u00e1ria\u201d. Externamente, nada parece distingui-los dos outros; interiormente, o fogo do amor os inflama. Se Francisco de Sales escolheu como padroeira de sua congrega\u00e7\u00e3o Nossa Senhora da Visita\u00e7\u00e3o, \u00e9 porque \u201ca mui gloriosa Virgem fez este solene ato de caridade para com o pr\u00f3ximo ao visitar e servir Santa Isabel no per\u00edodo laborioso de sua gravidez e, apesar disso, comp\u00f4s o c\u00e2ntico do <em><i>Magnificat<\/i><\/em>, o mais doce, o mais elevado, o mais espiritual e mais contemplativo que j\u00e1 foi escrito\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>\u00c9 preciso florescer onde Deus nos plantou<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Esta senten\u00e7a, atribu\u00edda a Francisco de Sales, define sem d\u00favida um dos tra\u00e7os fundamentais desta espiritualidade. Ela consiste, em primeiro lugar, em amar francamente o pr\u00f3prio estado de vida. O motivo \u00e9 claro:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Se somos santos segundo a nossa vontade, nunca seremos santos como se deve; devemos s\u00ea-lo segundo a vontade de Deus. Ora, a vontade de Deus \u00e9 que, por amor a Ele, ameis francamente os deveres do vosso estado de vida.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Aqui se toca com o dedo o realismo espiritual de Francisco de Sales, que n\u00e3o teme nada tanto quanto a multiplica\u00e7\u00e3o de desejos infrut\u00edferos. \u00c9 preciso servir a Deus \u2013 dizia a uma jovem novi\u00e7a sedenta de perfei\u00e7\u00e3o imediata \u2013 \u201csegundo o estilo humano, pr\u00f3prio do tempo, esperando poder faz\u00ea-lo um dia de modo divino ou ang\u00e9lico, segundo o estilo pr\u00f3prio da eternidade\u201d.<\/p>\n<p>\u201c\u00c9 bom desejar muito, mas \u00e9 preciso tamb\u00e9m p\u00f4r ordem nos desejos e transform\u00e1-los em obras \u00e0 medida que se apresenta o momento certo e a possibilidade. [\u2026] A obra executada, mesmo que muito limitada, \u00e9 sempre mais \u00fatil que os grandes desejos de coisas fora de nossas possibilidades. Deus nos pede mais a fidelidade \u00e0s pequenas coisas do que o ardor pelas grandes que n\u00e3o dependem de n\u00f3s\u201d.<\/p>\n<p>Ele dizia tamb\u00e9m: \u201cN\u00f3s perdemos frequentemente tanto tempo tentando ser bons anjos, enquanto negligenciamos ser bons homens ou boas mulheres\u201d.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio, portanto, aprender a nos comprazer em estar onde estamos. Francisco de Sales, totalmente relutante em se tornar bispo, aprendia a cada dia a amar o que Deus havia querido dele. Joana de Chantal teve que aprender a amar sua condi\u00e7\u00e3o de vi\u00fava, porque Deus permitiu que isso acontecesse.<\/p>\n<p>Uma de suas senten\u00e7as habituais soa assim: \u201cN\u00e3o se deve desejar chegar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o de uma s\u00f3 vez; \u00e9 preciso percorrer o caminho comum e ordin\u00e1rio, que \u00e9 o mais seguro\u201d. N\u00e3o somente todos s\u00e3o chamados \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o da caridade, na qual consiste a santidade, mas a perfei\u00e7\u00e3o \u00e9 acess\u00edvel a todos. A conclus\u00e3o de Francisco de Sales \u00e9 perempt\u00f3ria: \u201cOnde quer que vivamos, podemos e devemos aspirar \u00e0 vida perfeita\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>O exerc\u00edcio das virtudes<\/b><\/strong><\/p>\n<p>At\u00e9 aqui, esta espiritualidade parece bastante passiva: deve-se aceitar a vida como ela se apresenta, porque \u00e9 a nossa realidade, e esfor\u00e7ar-se para am\u00e1-la como uma manifesta\u00e7\u00e3o da vontade de Deus e de seu amor por n\u00f3s. Mas este \u00e9 apenas o ponto de partida. Trata-se de manter uma atitude positiva de interven\u00e7\u00e3o, que Francisco de Sales chama de \u201co exerc\u00edcio das virtudes\u201d.<\/p>\n<p>Depois de reconhecer e aceitar o momento presente e o lugar providencial onde Deus \u201cnos plantou\u201d, deve-se \u201cflorescer\u201d e produzir frutos; sempre, por\u00e9m, levando em conta a situa\u00e7\u00e3o concreta e a voca\u00e7\u00e3o de cada um. O texto cl\u00e1ssico que define o tipo de santidade ao qual todos s\u00e3o chamados merece ser citado:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Na cria\u00e7\u00e3o, Deus ordenou \u00e0s plantas que dessem fruto, cada uma segundo o seu g\u00eanero: do mesmo modo, ordena aos crist\u00e3os, que s\u00e3o as plantas vivas de sua Igreja, que deem frutos de devo\u00e7\u00e3o, cada um segundo sua qualidade e sua profiss\u00e3o.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Na vida crist\u00e3, tudo \u00e9 fruto da gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, mas o dom da gra\u00e7a requer a colabora\u00e7\u00e3o ativa do homem. A aquisi\u00e7\u00e3o das virtudes exige, de qualquer modo, uma boa dose de esfor\u00e7o, de coragem, de const\u00e2ncia e de generosidade. Trata-se aqui de um verdadeiro exerc\u00edcio (\u00e9 o sentido da palavra ascese) que se realiza em um clima de serenidade e de confian\u00e7a em Deus. \u201cTemei mais os v\u00edcios do que amais as virtudes\u201d, escrevia a uma mulher casada, impaciente e escrupulosa.<\/p>\n<p>Mais uma vez, ele especifica que as virtudes devem ser praticadas segundo a voca\u00e7\u00e3o de cada um e que \u201c\u00e9 preciso observar os mandamentos particulares que cada um tem por causa de sua voca\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Os bispos t\u00eam como lei visitar o rebanho a eles confiado, instru\u00ed-lo, corrigi-lo e consol\u00e1-lo; e eu posso permanecer em ora\u00e7\u00e3o por toda a semana, jejuar por toda a vida, mas, se n\u00e3o fa\u00e7o isso, me perco. Uma pessoa casada pode fazer milagres, mas, se n\u00e3o cumpre as obriga\u00e7\u00f5es que tem para com o c\u00f4njuge e n\u00e3o cuida dos filhos, \u00e9 pior que um infiel, como diz S\u00e3o Paulo. E assim se diga de todos os outros.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Mas para n\u00e3o sair do caminho invertendo as prioridades, \u00e9 preciso saber que existe uma hierarquia nas virtudes. Para Francisco de Sales, e isso \u00e9 indubit\u00e1vel, o primeiro lugar pertence ao amor, enquanto as outras virtudes o acompanham ou o seguem:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>A abelha-rainha n\u00e3o parte para os campos sen\u00e3o quando \u00e9 acompanhada por todo o seu pequeno povo; do mesmo modo, a caridade nunca entra em um cora\u00e7\u00e3o sem trazer consigo todo o s\u00e9quito das outras virtudes, que ela alinha e treina como um capit\u00e3o faz com seus soldados.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>As outras virtudes, em particular a do\u00e7ura, dependem da caridade; elas s\u00e3o suas manifesta\u00e7\u00f5es e realiza\u00e7\u00f5es concretas, ou ainda meios para adquiri-la, tanto \u00e9 verdade que somente a caridade \u201cnos faz chegar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o\u201d. Existem, contudo, virtudes de uso t\u00e3o universal que exigem que se fa\u00e7a continuamente uma boa provis\u00e3o delas. N\u00e3o s\u00e3o as virtudes dos anjos, mas sim as de homens e mulheres de carne e osso:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Se a Deus aprouver nos elevar at\u00e9 as perfei\u00e7\u00f5es ang\u00e9licas, seremos tamb\u00e9m bons anjos, mas, enquanto isso, exercitemo-nos com simplicidade, humildade e devo\u00e7\u00e3o naquelas pequenas virtudes cuja conquista foi posta ao nosso alcance por Nosso Senhor, como a paci\u00eancia, a bondade, a mortifica\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o, a humildade, a obedi\u00eancia, a castidade, a ternura para com o pr\u00f3ximo, a suporta\u00e7\u00e3o de suas imperfei\u00e7\u00f5es, a dilig\u00eancia e o santo fervor.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>H\u00e1 ainda outras listas de virtudes, nas quais figuram, por exemplo, a temperan\u00e7a, a honestidade, a coragem, a simplicidade, a mod\u00e9stia, a cordialidade e a afabilidade. Al\u00e9m disso, s\u00e3o destacadas algumas atitudes espirituais, muito apreciadas por Francisco de Sales, que, por\u00e9m, deveriam ser consideradas mais como frutos das virtudes, ou melhor, do Esp\u00edrito Santo, como a alegria, a paz, a confian\u00e7a e o abandono em Deus.<\/p>\n<p>O que se tornam, neste quadro de virtudes, os tradicionais exerc\u00edcios asc\u00e9ticos? N\u00e3o s\u00e3o abolidos, mas a \u00eanfase \u00e9 deslocada. Assim, o autor da <em><i>Filoteia<\/i><\/em> recomenda o trabalho em vez do jejum, a modera\u00e7\u00e3o nos prazeres em vez da absten\u00e7\u00e3o. Em vez de escolher sempre o pior a t\u00edtulo de penit\u00eancia, \u00e9 melhor abster-se de escolher:<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em><i>Creio que \u00e9 uma virtude maior comer sem escolher o que vos p\u00f5em \u00e0 frente, e na ordem em que vo-lo p\u00f5em, seja ou n\u00e3o do vosso gosto, do que escolher sempre o pior. Porque, embora este segundo modo de viver pare\u00e7a mais austero, o outro comporta, contudo, uma maior resigna\u00e7\u00e3o, porque neste caso n\u00e3o se renuncia apenas ao pr\u00f3prio gosto, mas tamb\u00e9m \u00e0 pr\u00f3pria escolha; e depois, n\u00e3o \u00e9 austeridade pequena subverter os pr\u00f3prios gostos e faz\u00ea-los depender do acaso; al\u00e9m disso, este tipo de mortifica\u00e7\u00e3o n\u00e3o aparece, n\u00e3o incomoda ningu\u00e9m e \u00e9 feito sob medida para a vida em sociedade.<\/i><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Encontrar Deus nos acontecimentos de cada dia<\/b><\/strong><\/p>\n<p>A vida espiritual delineada por Francisco de Sales n\u00e3o \u00e9 feita \u201capenas para enfrentar eventos extraordin\u00e1rios, mas principalmente para viver em meio \u00e0s coisas insignificantes de todos os dias\u201d. \u00c9 no meio do mais banal cotidiano que pode ocorrer o encontro com Deus. A pastorinha Raquel dava de beber ao seu rebanho no po\u00e7o, levava suas ovelhas para pastar todos os dias, tirava \u00e1gua do po\u00e7o todos os dias, e foi no meio dessas suas a\u00e7\u00f5es cotidianas que encontrou seu esposo.<\/p>\n<p>Se h\u00e1 um ponto importante na espiritualidade salesiana, este \u00e9 a \u201csanta indiferen\u00e7a\u201d, sintetizada na f\u00f3rmula: \u201cNada pedir, nada recusar\u201d. O autor parte do princ\u00edpio segundo o qual tudo o que acontece na vida (exceto o pecado) \u00e9 querido por Deus ou, pelo menos, por ele permitido. Consequentemente, aquele que ama verdadeiramente a Deus se prepara para acolher todo acontecimento, qualquer que seja, com uma \u201csimples disposi\u00e7\u00e3o\u201d, como se viesse do \u201cbenepl\u00e1cito divino\u201d.<\/p>\n<p>Deus se faz conhecer no acontecimento, seja enviando-o, seja simplesmente permitindo-o. Uma vez ocorrido, a pessoa permanece serena e o aceita. Esta \u00e9 uma atitude passiva de resigna\u00e7\u00e3o que parece um pouco inquietante, tanto mais que o vocabul\u00e1rio do \u201cbenepl\u00e1cito\u201d remete demais ao absolutismo do pr\u00edncipe terreno. No entanto, \u00e9 preciso ter em mente que a vontade de se dispor, de esperar, de se preparar comporta tamb\u00e9m um aspecto ativo a n\u00e3o ser negligenciado. \u00c9 uma disposi\u00e7\u00e3o da vontade entre as mais recomendadas por Francisco de Sales. \u00c9 fundada, como se disse, na confian\u00e7a na Provid\u00eancia, sem a qual nada acontece neste mundo. Mas pode ser considerada tamb\u00e9m uma virtude humana que contribui grandemente para manter um humor constante, sobretudo nos momentos dif\u00edceis da vida. A indiferen\u00e7a, ensinava Francisco de Sales \u00e0s visitandinas, \u00e9 uma virtude que n\u00e3o se adquire em cinco anos, \u201cs\u00e3o necess\u00e1rios dez\u201d.<\/p>\n<p>A prop\u00f3sito da passividade e da santa indiferen\u00e7a, que se torna uma extrema indiferen\u00e7a da vontade em rela\u00e7\u00e3o ao que acontecer\u00e1, o bispo de Genebra esclarece as coisas, tomando o exemplo da doen\u00e7a. \u201cQuando estiverdes doente\u201d \u2013 recomenda a Filoteia \u2013, \u201cobedecei ao m\u00e9dico, tomai os rem\u00e9dios, os alimentos ou outros tratamentos por amor a Deus\u201d. Depois acrescenta: \u201cDesejai curar-vos, para servi-lo; mas n\u00e3o recuseis sofrer, para obedecer-lhe, e preparai-vos at\u00e9 para morrer, se lhe apraz, para louv\u00e1-lo e gozar dele\u201d.<\/p>\n<p>Acolher o acontecimento ser\u00e1 tanto mais f\u00e1cil quanto mais se estiver persuadido, com S\u00e3o Paulo, de que \u201ctudo concorre para o bem daqueles que amam a Deus\u201d. Diz tudo, ou seja, n\u00e3o somente as alegrias e as consola\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m as prova\u00e7\u00f5es, as tribula\u00e7\u00f5es e os males desta vida, inclusive os pecados. \u201cSim, at\u00e9 mesmo os pecados, dos quais Deus nos preserve por sua bondade, s\u00e3o orientados pela Provid\u00eancia divina para o bem daqueles que lhe pertencem\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>Unir ora\u00e7\u00e3o e vida<\/b><\/strong><\/p>\n<p>Quando aborda o tema da ora\u00e7\u00e3o, o autor da <em><i>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Vida Devota<\/i><\/em> se empenha antes de tudo em convencer Filoteia de que se trata de uma necessidade vital. Seguindo a distin\u00e7\u00e3o cl\u00e1ssica, Francisco de Sales considera tr\u00eas tipos de ora\u00e7\u00e3o: vocal, mental e vital.<\/p>\n<p>Ele aprecia e recomenda a <em><i>ora\u00e7\u00e3o vocal<\/i><\/em> ou exterior, seja ela lit\u00fargica, comunit\u00e1ria ou pessoal. Mas a qualidade de tal ora\u00e7\u00e3o deriva do \u00edntimo, do cora\u00e7\u00e3o do orante: \u201cUm \u00fanico <em><i>Pai-Nosso<\/i><\/em>, dito com sentimento, vale mais do que muitos recitados \u00e0s pressas\u201d.<\/p>\n<p>O bispo de Genebra apreciava sobretudo a <em><i>ora\u00e7\u00e3o mental<\/i><\/em>, que recomendava a todos, inclusive aos fi\u00e9is leigos. Ela \u00e9 prefer\u00edvel porque efetivamente d\u00e1 prioridade ao interior sobre o exterior. Sua qualidade depende do amor, porque a ora\u00e7\u00e3o vale tanto quanto o amor com que \u00e9 feita. Esta ora\u00e7\u00e3o mental, que ele tamb\u00e9m chama de cordial, tem duas formas: a medita\u00e7\u00e3o e a contempla\u00e7\u00e3o. Ambas alimentam a vida espiritual, como o comer e o beber mant\u00eam a vida do corpo: \u201cmeditar quer dizer comer, e contemplar quer dizer beber\u201d.<\/p>\n<p>Se a ora\u00e7\u00e3o mental exige reservar um certo tempo do dia para este exerc\u00edcio particular, existe, contudo, uma terceira forma de ora\u00e7\u00e3o, muito mais pr\u00f3xima da vida e compat\u00edvel com todo tipo de ocupa\u00e7\u00e3o. \u00c9 a ora\u00e7\u00e3o vital, que se poderia tamb\u00e9m chamar de ora\u00e7\u00e3o vivida ou simplesmente uni\u00e3o com Deus. As ocupa\u00e7\u00f5es n\u00e3o deveriam de modo algum impedir a uni\u00e3o com Deus, e aqueles que praticam esta forma de ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o correm o perigo de se esquecerem de Deus, n\u00e3o mais do que os apaixonados correm o risco de se esquecerem um do outro:<\/p>\n<p>Os apaixonados por um amor humano e natural t\u00eam quase sempre todos os pensamentos fixos no objeto amado, o cora\u00e7\u00e3o cheio de arrebatamento por ele, a boca transbordante de seus louvores e n\u00e3o perdem ocasi\u00e3o, em sua aus\u00eancia, de testemunhar suas paix\u00f5es com cartas, nem deixam passar \u00e1rvore sem gravar em sua casca o nome de quem amam.<\/p>\n<p>Em meio \u00e0s atividades di\u00e1rias de quem vive \u201cpressionado pelas coisas temporais\u201d, \u00e9 sempre poss\u00edvel encontrar um momento de solid\u00e3o para unir o cora\u00e7\u00e3o a Deus:<\/p>\n<p>Lembrai-vos de vos retirardes sempre, \u00f3 Filoteia, na solid\u00e3o do vosso cora\u00e7\u00e3o, enquanto com o corpo estais no meio das conversas e dos afazeres; esta solid\u00e3o da mente n\u00e3o pode ser minimamente impedida nem mesmo pela multid\u00e3o daqueles que vos cercam, porque n\u00e3o est\u00e3o ao redor do vosso cora\u00e7\u00e3o, mas somente do vosso corpo, de modo que o vosso cora\u00e7\u00e3o permanece totalmente s\u00f3 na presen\u00e7a de Deus s\u00f3.<\/p>\n<p>Assim, a verdadeira ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz negligenciar as obriga\u00e7\u00f5es da vida de cada dia, contanto que se imite a mulher forte da B\u00edblia, de quem se diz que \u201cusou suas m\u00e3os em grandes empreendimentos, e seus dedos manejaram o fuso\u201d. Da\u00ed suas recomenda\u00e7\u00f5es \u00e0 baronesa de Chantal, talvez mal aconselhada no in\u00edcio de sua vida espiritual: \u201cMeditai, elevai vosso esp\u00edrito, levai-o a Deus, ou melhor, atra\u00ed Deus ao vosso esp\u00edrito: eis as coisas vigorosas. Ao mesmo tempo, por\u00e9m, n\u00e3o vos esque\u00e7ais da roca e do fuso: fiai o fio das pequenas virtudes e rebaixai-vos na pr\u00e1tica dos exerc\u00edcios de caridade. Quem ensina o contr\u00e1rio, engana e se deixa enganar\u201d.<\/p>\n<p>De qualquer modo, isso n\u00e3o ser\u00e1 de todo f\u00e1cil. Unir a ora\u00e7\u00e3o \u00e0 vida, comportar-se no viver como se comporta no rezar, chegar a realizar a uni\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o e da vida, tudo isso n\u00e3o se adquire por encanto. Ser\u00e1 preciso ter muito cuidado para n\u00e3o perder o equil\u00edbrio interior, necess\u00e1rio para avan\u00e7ar sem trope\u00e7ar nos obst\u00e1culos. Fa\u00e7amos como os fun\u00e2mbulos e os equilibristas: \u201cAqueles que caminham na corda bamba seguram sempre na m\u00e3o o bast\u00e3o de contrapeso, para equilibrar com exatid\u00e3o o corpo, segundo os movimentos que devem fazer sobre uma base t\u00e3o perigosa\u201d. Comparando a cruz de Cristo ao bast\u00e3o de contrapeso que garante o equil\u00edbrio, Francisco de Sales lembra que a vida de cada dia \u00e9 cheia de ocasi\u00f5es perigosas e que necessita de uma salvaguarda.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><strong><b>O cotidiano transfigurado<\/b><\/strong><\/p>\n<p>A vida cotidiana \u00e9 marcada por momentos, mas \u201cnestes momentos de nossa vida est\u00e1 contido, como em um caro\u00e7o, o germe da eternidade\u201d. O rel\u00f3gio nos oferece a medida quantitativa do tempo, mas sua qualidade depende de n\u00f3s. Se quisermos, n\u00f3s \u201cpodemos passar todos os nossos anos, nossos meses, nossos dias e nossas horas, tornando-os santos mediante um uso bom e fiel\u201d.<\/p>\n<p>Ao lado de \u201cgrandes obras\u201d, o autor da <em><i>Filoteia<\/i><\/em> tenta nos persuadir de que \u00e9 importante levar em considera\u00e7\u00e3o as atividades \u201cmenores e mais humildes\u201d: \u201cas pequenas inj\u00farias, estes pequenos inc\u00f4modos, estas perdas pouco importantes que acontecem todos os dias\u201d, as \u201cpequenas ocasi\u00f5es\u201d, os \u201ccotidianos pequenos gestos de caridade\u201d, \u201cestes pequenos desconfortos\u201d, \u201cesta pequena humilha\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cestes pequenos sofrimentos\u201d. Ora, tudo isso, todas \u201cestas ocasi\u00f5es que se apresentam a cada passo, s\u00e3o uma \u00f3tima maneira, sabendo us\u00e1-las bem, de acumular muitas riquezas espirituais\u201d. O menor desses momentos pode adquirir um valor extraordin\u00e1rio, se for vivido com amor.<\/p>\n<p>Acontece frequentemente que uma pessoa fraca de corpo e de esp\u00edrito, que se exercita apenas em pequenas coisas, as fa\u00e7a com tanta caridade que supera em muito o m\u00e9rito das a\u00e7\u00f5es grandes e elevadas; de fato, habitualmente, as a\u00e7\u00f5es elevadas s\u00e3o realizadas com menos caridade, por causa da aten\u00e7\u00e3o e das v\u00e1rias considera\u00e7\u00f5es que se fazem sobre elas.<\/p>\n<p>Durante o \u00faltimo <em><i>Col\u00f3quio<\/i><\/em> com as irm\u00e3s da Visita\u00e7\u00e3o de Lyon, dois dias antes de morrer, ele repetir\u00e1 sua li\u00e7\u00e3o preferida: \u201cN\u00e3o \u00e9 o ac\u00famulo de obras que fazemos que nos torna agrad\u00e1veis a Deus, mas o amor com que as realizamos\u201d. N\u00e3o \u00e9 nem mesmo pela grandeza de nossas a\u00e7\u00f5es que agradamos a Deus: \u201cUma irm\u00e3 que em sua cela se ocupa de um pequeno trabalho, adquirir\u00e1 maior m\u00e9rito do que outra ocupada em assuntos importantes, realizados, por\u00e9m, com menor amor. A perfei\u00e7\u00e3o de nossas a\u00e7\u00f5es \u00e9 dada pelo amor\u201d.<\/p>\n<p>A vida contemplativa \u00e9 melhor, em si, do que a vida ativa, mas \u201cse na vida ativa se alcan\u00e7a uma uni\u00e3o mais \u00edntima [com Deus], ela \u00e9 melhor\u201d. Por isso, \u201cse uma irm\u00e3 que trabalha na cozinha e maneja a ca\u00e7arola perto do fogo, faz tudo isso com maior amor e caridade do que outra, o fogo material n\u00e3o a distrair\u00e1, pelo contr\u00e1rio, a ajudar\u00e1 a ser mais agrad\u00e1vel a Deus\u201d. A solid\u00e3o com Deus \u00e9 boa, mas acontece frequentemente \u201cque se esteja unido a Deus tanto na a\u00e7\u00e3o, quanto na solid\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p>O amor \u00e9 o segredo da alquimia salesiana a ponto de que aquilo que nos aflige pode revestir-se de um valor extraordin\u00e1rio gra\u00e7as \u00e0 uni\u00e3o de nossa vontade com o benepl\u00e1cito de Deus.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A espiritualidade crist\u00e3 \u00e9 frequentemente percebida como um patrim\u00f4nio exclusivo de almas privilegiadas, distante da&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":52946,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":1,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[2565,1749,2557,2579,2592,1821,2228,2025],"class_list":["post-52960","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-caridade","tag-conselhos","tag-deus","tag-educacao","tag-familia-salesiana","tag-graca","tag-santos","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52960","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=52960"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52960\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":52961,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/52960\/revisions\/52961"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/52946"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=52960"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=52960"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=52960"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}