{"id":49974,"date":"2026-03-21T16:17:25","date_gmt":"2026-03-21T16:17:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=49974"},"modified":"2026-03-31T12:43:53","modified_gmt":"2026-03-31T12:43:53","slug":"educar-para-a-devocao-civil-com-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/educar-para-a-devocao-civil-com-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"Educar para a devo\u00e7\u00e3o civil com S\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"<p><em><i>Francisco de Sales, bispo de Genebra no s\u00e9culo XVII, revolucionou a espiritualidade crist\u00e3 ao propor uma \u201cdevo\u00e7\u00e3o civil\u201d acess\u00edvel a todos, n\u00e3o reservada apenas a monges e contemplativos. Sua obra mais c\u00e9lebre, a \u201cIntrodu\u00e7\u00e3o \u00e0 Vida Devota\u201d (Filoteia), ensina que a verdadeira devo\u00e7\u00e3o n\u00e3o consiste em pr\u00e1ticas exteriores ou atitudes afetadas, mas em um amor aut\u00eantico a Deus e ao pr\u00f3ximo, vivido com alegria nas ocupa\u00e7\u00f5es cotidianas. Opondo-se \u00e0 concep\u00e7\u00e3o que relegava a santidade aos mosteiros, Francisco de Sales demonstra que militares, artes\u00e3os, c\u00f4njuges e pr\u00edncipes podem todos aspirar \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o crist\u00e3. Sua devo\u00e7\u00e3o \u00e9 inteligente, discreta e alegre, perfeitamente integrada \u00e0 vida social, transformando a religi\u00e3o em uma presen\u00e7a viva no mundo, em vez de uma fuga dele.<br \/>\n<\/i><\/em><\/p>\n<p>Dirigindo-se a Filoteia a prop\u00f3sito da vida de relacionamento no mundo, Francisco de Sales lhe d\u00e1 o seguinte conselho: \u00abIr \u00e0 ca\u00e7a de conversas, fazer de tudo para evit\u00e1-las s\u00e3o dois extremos igualmente reprov\u00e1veis, do ponto de vista daquela devo\u00e7\u00e3o civil da qual estou falando\u00bb. Essa insist\u00eancia na \u00abdevo\u00e7\u00e3o civil\u00bb foi o que mais impressionou, ao que parece, os leitores antigos e modernos da \u201cFiloteia\u201d, porque revela a inten\u00e7\u00e3o profunda do autor de formar n\u00e3o apenas crist\u00e3os fervorosos, mas tamb\u00e9m bons cidad\u00e3os da cidade terrena.<\/p>\n<p><strong><b>Verdadeira e falsa devo\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/b><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No in\u00edcio do s\u00e9culo XVII, o substantivo <em><i>devo\u00e7\u00e3o<\/i><\/em> ainda n\u00e3o tinha o significado fraco e depreciativo que assumiria com frequ\u00eancia. Um devoto ainda n\u00e3o era um beato ou um hip\u00f3crita. Isso n\u00e3o impede que Francisco de Sales tenha se sentido obrigado a descartar v\u00e1rias falsas interpreta\u00e7\u00f5es da devo\u00e7\u00e3o que j\u00e1 eram comuns em seu tempo:<\/p>\n<p><em><i>Quem \u00e9 inclinado ao jejum se julgar\u00e1 um bom devoto porque jejua, mesmo que talvez seu cora\u00e7\u00e3o esteja cheio de rancor; e embora por raz\u00f5es de sobriedade n\u00e3o ouse tocar com a l\u00edngua um pouco de vinho e nem mesmo um pouco de \u00e1gua, n\u00e3o hesita, contudo, em mergulh\u00e1-la no sangue do pr\u00f3ximo com a maledic\u00eancia e a cal\u00fania. Outro se julgar\u00e1 devoto porque recita uma grande quantidade de ora\u00e7\u00f5es todos os dias, mesmo que depois sua l\u00edngua transborde de palavras inconvenientes, arrogantes e injuriosas entre servos e vizinhos.<br \/>\n<\/i><\/em><br \/>\nTodos esses indiv\u00edduos, continuava o autor da <em><i>Filoteia<\/i><\/em>, s\u00e3o comumente considerados devotos, mas n\u00e3o o s\u00e3o de modo algum; s\u00e3o apenas \u00abest\u00e1tuas e fantasmas de devo\u00e7\u00e3o\u00bb. \u00c9 preciso acrescentar que n\u00e3o s\u00e3o os rostos quaresmais que fazem os santos. Atribui-se a Francisco de Sales, e n\u00e3o sem raz\u00e3o, a resposta que teria dado um dia a respeito de um homem santo que tinha sempre um ar triste: \u00abSe um santo \u00e9 triste, \u00e9 um triste santo\u00bb.<br \/>\nQuando a devo\u00e7\u00e3o \u00e9 afetada e bizarra, \u00e9 falsa. O pr\u00f3prio Francisco de Sales se repreendia por ter ca\u00eddo nisso uma vez, no per\u00edodo da adolesc\u00eancia:<\/p>\n<p><em><i>Quando eu era jovem estudante nesta cidade, tomou-me um grande fervor e um grande desejo de ser santo e perfeito; pensava que para tal fim era necess\u00e1rio que eu inclinasse a cabe\u00e7a sobre o ombro ao rezar as Horas, porque assim fazia outro estudante que era verdadeiramente santo, e o fiz por um tempo com esmero, sem por isso me tornar mais santo.<br \/>\n<\/i><\/em><br \/>\nEm que consiste, ent\u00e3o, a verdadeira devo\u00e7\u00e3o? Ela n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o \u00abuma agilidade e vivacidade espiritual em for\u00e7a da qual a caridade realiza suas a\u00e7\u00f5es em n\u00f3s, ou n\u00f3s atrav\u00e9s dela, com prontid\u00e3o e afei\u00e7\u00e3o\u00bb; ou ainda, ela \u00e9 \u00abuma inclina\u00e7\u00e3o geral e uma prontid\u00e3o do esp\u00edrito para fazer aquilo que julgamos agrad\u00e1vel a Deus\u00bb. \u00c9 um amor a Deus que aspira \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o. A devo\u00e7\u00e3o \u00e9 um fogo interior.<\/p>\n<p><strong><b>A religi\u00e3o ao alcance de todos<br \/>\n<\/b><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O sucesso de Francisco de Sales consistiu em colocar a vida espiritual ao alcance de todos, com uma linguagem clara, adequada \u00e0 sensibilidade da \u00e9poca. De fato, se a devo\u00e7\u00e3o \u00e9 amor, amor a Deus em primeiro lugar, mas tamb\u00e9m e com um mesmo movimento, amor ao pr\u00f3ximo, ela \u00e9 acess\u00edvel a todos, em todas as situa\u00e7\u00f5es.<br \/>\nA \u00abdevo\u00e7\u00e3o civil\u00bb, que ele ensina e propaga, leva em conta todos os aspectos da realidade humana, sobre a qual exercer\u00e1 uma ben\u00e9fica influ\u00eancia. O autor da <em><i>Filoteia<\/i><\/em> chega a lan\u00e7ar a palavra <em><i>heresia<\/i><\/em> para denunciar uma atitude que lhe parece incompat\u00edvel com uma vis\u00e3o equilibrada das realidades sociais e com a vida crist\u00e3: \u00ab\u00c9 um erro, ou melhor, uma heresia querer banir a vida devota da companhia dos militares, da oficina do artes\u00e3o, da corte do pr\u00edncipe, da vida cotidiana dos casais\u00bb.<br \/>\nPara levar uma vida crist\u00e3 aut\u00eantica, n\u00e3o \u00e9 indispens\u00e1vel retirar-se do mundo, ir para o deserto ou entrar em um mosteiro. Dirigindo-se a Filoteia, ou seja, a toda pessoa que quer amar a Deus, o autor se prop\u00f4s a tra\u00e7ar-lhe um caminho de fervorosa vida crist\u00e3 em meio ao mundo, ensinando-lhe como \u00e9 necess\u00e1rio usar as pr\u00f3prias \u00abasas para voar\u00bb nas alturas da ora\u00e7\u00e3o e, conjuntamente, os pr\u00f3prios \u00abp\u00e9s para caminhar junto com os homens em santa e amig\u00e1vel conversa\u00e7\u00e3o\u00bb.<br \/>\nEm seu livro encontramos, de fato, uma quantidade de conselhos e ensinamentos sobre assuntos que, antes dele, a literatura espiritual havia abordado pouco, como a vida de todos os dias com seus problemas, suas tarefas e quest\u00f5es relativas ao casamento, \u00e0s rela\u00e7\u00f5es sociais, \u00e0s roupas, ao lazer, ao jogo, \u00e0 dan\u00e7a ou \u00e0s amizades. De modo mais geral, reconheceu-se que o bispo de Genebra teve o m\u00e9rito de fazer a religi\u00e3o entrar na vida e a vida na religi\u00e3o.<br \/>\nA devo\u00e7\u00e3o \u00e9 boa \u00abtanto para os homens quanto para as mulheres\u00bb, l\u00ea-se no pref\u00e1cio do <em><i>Te\u00f3timo<\/i><\/em>. Filoteia \u00e9 um nome feminino escolhido para designar toda alma que aspira \u00e0 devo\u00e7\u00e3o \u2013 escreve ele \u2013, acrescentando com uma ponta de ironia que \u00abos homens tamb\u00e9m t\u00eam uma alma como as mulheres\u00bb.<br \/>\nPor outro lado, a devo\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende do \u00abtemperamento natural\u00bb. H\u00e1 pessoas que t\u00eam \u00abo cora\u00e7\u00e3o inclinado ao amor\u00bb, para as quais \u00ab\u00e9 f\u00e1cil querer amar a Deus\u00bb, mas elas correm \u00abo perigo de amar mal [porque seu amor] est\u00e1 ligado \u00e0 facilidade de amar\u00bb. Outras t\u00eam \u00aba alma \u00e1cida, \u00e1spera, melanc\u00f3lica e carrancuda\u00bb: seu amor ser\u00e1 \u00abmais v\u00e1lido e louv\u00e1vel, assim como o outro ser\u00e1 tamb\u00e9m mais gracioso e delicioso\u00bb. Todas essas pessoas dotadas de um temperamento diferente \u00absem d\u00favida amar\u00e3o a Deus na mesma medida, mas n\u00e3o da mesma maneira\u00bb.<\/p>\n<p><strong><b>Uma devo\u00e7\u00e3o inteligente e discreta<br \/>\n<\/b><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A devo\u00e7\u00e3o do crist\u00e3o deve ser \u00abinteligente\u00bb e \u00e9 preciso entender as ora\u00e7\u00f5es que se reza: \u00abDesejo que tenhais uma tradu\u00e7\u00e3o francesa de todas as ora\u00e7\u00f5es que recitardes \u2013 escrevia Francisco de Sales \u00e0 baronesa de Chantal \u2013. N\u00e3o quero que as digais em franc\u00eas, mas sim em latim, o que favorece a devo\u00e7\u00e3o, mas quero que conhe\u00e7ais de alguma forma o sentido das ora\u00e7\u00f5es que recitais\u00bb. Ele dar\u00e1 o mesmo conselho a Filoteia na <em><i>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Vida Devota<\/i><\/em>, acrescentando uma advert\u00eancia contra os excessos da devo\u00e7\u00e3o verbal, \u201cporque um s\u00f3 <em><i>Pai-Nosso<\/i><\/em> recitado com sentimento vale mais do que muitos recitados \u00e0s pressas\u201d.<br \/>\nPara compreender a pr\u00f3pria religi\u00e3o, o crist\u00e3o que vive no mundo deve se formar. Como diretor espiritual, Francisco de Sales recomendava a escuta da palavra de Deus durante a prega\u00e7\u00e3o e a leitura de obras \u00fateis \u00e0 forma\u00e7\u00e3o espiritual, como a vida e as obras de Santa Teresa d\u2019\u00c1vila, bem como as de grandes autores espirituais de seu tempo. Se a leitura pessoal da B\u00edblia ainda n\u00e3o estava na ordem do dia para os cat\u00f3licos, contudo, um alimento abundante estava \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o de pessoas desejosas de alcan\u00e7ar a perfei\u00e7\u00e3o crist\u00e3. O bispo de Genebra contribuiria para isso de maneira relevante, particularmente com a publica\u00e7\u00e3o da <em><i>Filoteia<\/i><\/em> e do <em><i>Te\u00f3timo<\/i><\/em>.<br \/>\nO crist\u00e3o deve saber, de modo especial, que na vida espiritual o que conta antes de tudo \u00e9 o interior. A devo\u00e7\u00e3o \u2013 dir\u00e1 ele \u00e0s visitandinas \u2013 deve ser \u00ab\u00edntima, forte e generosa\u00bb (E I 1005). Se a pessoa devota se apaixona por pr\u00e1ticas e exerc\u00edcios a ponto de fazer disso o seu fim, se se veste deles como de um traje pr\u00f3prio da vaidade humana, \u00e9 preciso induzi-la a se desfazer deles, porque o amor verdadeiro a \u00abdespoja dos afetos mais prazerosos, como aqueles que sentia nas consola\u00e7\u00f5es espirituais, nos exerc\u00edcios de piedade e na perfei\u00e7\u00e3o das virtudes\u00bb.<br \/>\nEm tudo, mas sobretudo na devo\u00e7\u00e3o, \u00e9 necess\u00e1ria a discri\u00e7\u00e3o. Cuidado com os excessos que irritam familiares e conhecidos: \u00abOh! como sereis feliz \u2013 escreve a uma de suas correspondentes \u2013 se observardes com cuidado a modera\u00e7\u00e3o que vos indiquei em vossas pr\u00e1ticas religiosas, adaptando-as o m\u00e1ximo que puderdes \u00e0s vossas ocupa\u00e7\u00f5es dom\u00e9sticas!\u00bb. \u00abRegulai, antes de tudo, vossas pr\u00e1ticas de piedade \u2013 escreve a outra conhecida \u2013 de maneira que a dura\u00e7\u00e3o n\u00e3o fatigue vossa alma e n\u00e3o irrite as daqueles com quem Deus vos faz viver\u00bb.<br \/>\nEis aqui uma esp\u00e9cie de c\u00f3digo da devo\u00e7\u00e3o civil, destinado a uma jovem esposa cujos desejos de perfei\u00e7\u00e3o corriam o risco de torn\u00e1-la insuport\u00e1vel. Depois de lhe aconselhar a visitar alguns hospitais, a consolar e socorrer os doentes, ele lhe faz recomenda\u00e7\u00f5es precisas:<\/p>\n<p><em><i>Em tudo isso, tende o cuidado para que o senhor vosso marido, vossos criados ou os senhores vossos parentes n\u00e3o tenham motivo para se sentirem ofendidos porque passais tempo demais nas igrejas, viveis tempo demais retirada, negligenciais por tempo demais os cuidados da casa, ou, como \u00e0s vezes acontece, julgais com demasiado rigor a conduta alheia ou desdenhais abertamente demais as conversas nas quais n\u00e3o s\u00e3o observadas escrupulosamente as regras da devo\u00e7\u00e3o. Em tudo isso, devemos ser dominados e iluminados pela caridade, que nos leve a secundar a vontade do pr\u00f3ximo em tudo o que n\u00e3o \u00e9 contr\u00e1rio aos mandamentos de Deus.<br \/>\n<\/i><\/em><br \/>\nA devo\u00e7\u00e3o civil exige adaptar-se ao outro e n\u00e3o lhe fazer sentir qualquer superioridade espiritual. \u00c0 madre de Chantal, que queria se dedicar demais ao jejum, e ela sozinha em meio \u00e0s primeiras visitandinas, ele escreveu parafraseando S\u00e3o Paulo: \u00abDevereis ser judeu com os judeus e gentio com os gentios, comer com os que comem, rir com os que riem\u00bb.<\/p>\n<p><strong><b>Escolher os pr\u00f3prios modelos<br \/>\n<\/b><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aten\u00e7\u00e3o! H\u00e1 santos que levaram uma vida mais digna de admira\u00e7\u00e3o do que de imita\u00e7\u00e3o: \u00abN\u00e3o \u00e9 algo assustador \u2013 escrevia ele \u2013 ver um S\u00e3o Paulo eremita, em pleno deserto, confinado em uma gruta como um selvagem, e que come apenas p\u00e3o e bebe apenas \u00e1gua?\u00bb. Todas as formas de ascese que s\u00e3o praticadas na solid\u00e3o e no deserto n\u00e3o s\u00e3o aconselh\u00e1veis a todos indistintamente. N\u00e3o se pode, portanto, propor a pessoas do mundo modelos de devo\u00e7\u00e3o \u00abpuramente contemplativa, mon\u00e1stica ou religiosa\u00bb: \u00e9 preciso escolher modelos de santos que viveram \u00abno estado secular\u00bb.<br \/>\nFrancisco de Sales n\u00e3o hesitava em buscar \u00absantos\u00bb entre personagens do Antigo Testamento, como em particular, \u00abAbra\u00e3o, Isaac e Jac\u00f3, Davi, J\u00f3, Tobias, Sara, Rebeca e Judite\u00bb. Quem mais am\u00e1vel que o casal b\u00edblico ideal, formado por Isaac e Rebeca, \u00abo mais casto casal dos tempos antigos\u00bb? Eles \u00abforam observados atrav\u00e9s da janela a se acariciarem de tal maneira que Abimelec p\u00f4de facilmente entender, embora n\u00e3o houvesse nada de desonesto naquilo, que n\u00e3o podiam ser sen\u00e3o marido e mulher\u00bb.<br \/>\nEntre as figuras do Novo Testamento e os santos do cristianismo, ele escolhe em primeiro lugar \u00aba santa Virgem, com S\u00e3o Jos\u00e9, S\u00e3o Lu\u00eds, Santa M\u00f4nica e cem mil outros que est\u00e3o na falange daqueles que viveram no mundo\u00bb. Ele elogia a \u00abextraordin\u00e1ria Santa Madalena\u00bb, \u00aba rainha e a mestra de todas as perfumistas\u00bb, bem como Santa Marta, a \u00abcozinheira do nosso caro Mestre\u00bb, da qual se diz \u00abque preparava o p\u00e3o de Nosso Senhor, que o acolhia em sua casa e se preocupava muito para que nada lhe faltasse\u00bb.<br \/>\nO autor da <em><i>Filoteia<\/i><\/em> cataloga de bom grado os modelos crist\u00e3os segundo sua profiss\u00e3o: \u00abS\u00e3o Jos\u00e9, Santa L\u00eddia e S\u00e3o Crispim foram perfeitos devotos em suas oficinas; Santa Ana, Santa Marta, Santa M\u00f4nica, \u00c1quila e Priscila em seus casamentos; Corn\u00e9lio, S\u00e3o Sebasti\u00e3o, S\u00e3o Maur\u00edcio sob as armas; Constantino, Helena, S\u00e3o Lu\u00eds, o beato Amadeu, Santo Eduardo em seus tronos\u00bb. Quanto ao \u00abgrande S\u00e3o Maur\u00edcio\u00bb, ele destacar\u00e1 que este heroico soldado sofreu o mart\u00edrio do cora\u00e7\u00e3o antes daquele do corpo, porque \u00abviu matar sob seus olhos toda a sua querida legi\u00e3o; e pode-se dizer que sofreu o mart\u00edrio tantas vezes quantos foram os soldados que viu cair\u00bb.<br \/>\nSanta M\u00f4nica, m\u00e3e de Santo Agostinho, \u00e9 citada frequentemente como modelo de esposa, de vi\u00fava, de m\u00e3e e de educadora: \u00abCom quanta firmeza ela perseguiu o empreendimento de servir a Deus, em seu casamento, em sua viuvez!\u00bb. Como educadora foi admir\u00e1vel: \u00abEnquanto estava gr\u00e1vida do grande Santo Agostinho, ela o consagrou v\u00e1rias vezes \u00e0 religi\u00e3o crist\u00e3 e ao servi\u00e7o da gl\u00f3ria de Deus, como ele mesmo afirma quando diz ter provado o sal de Deus desde o ventre de sua m\u00e3e\u00bb. Quando o filho come\u00e7ou a seguir um mau caminho, ela \u00abcom grande fervor e grande perseveran\u00e7a lutou contra as m\u00e1s inclina\u00e7\u00f5es de Santo Agostinho, seguindo-o por mar e por terra, a ponto de faz\u00ea-lo beatamente mais filho de suas l\u00e1grimas, pela convers\u00e3o de sua alma, do que fora filho de seu sangue pela gera\u00e7\u00e3o de seu corpo\u00bb.<br \/>\nNo momento em que Filoteia se engaja na vida devota \u00absob a forma de uma elei\u00e7\u00e3o e de uma escolha\u00bb, o autor da <em><i>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Vida Devota<\/i><\/em> lhe p\u00f5e diante dos olhos n\u00e3o apenas \u00abo cortejo dos virgens, homens e mulheres, mais brancos que o l\u00edrio\u00bb, mas tamb\u00e9m \u00aba assembleia das vi\u00favas\u00bb adornadas de \u00absanta mortifica\u00e7\u00e3o e humildade\u00bb, e sobretudo \u00aba multid\u00e3o de numerosas pessoas casadas que vivem t\u00e3o docemente juntas e com respeito m\u00fatuo, o que n\u00e3o pode ser desvinculado de grande caridade\u00bb; e acrescenta: \u00abNotai como estas almas devotas casam o cuidado de sua casa externa com o de seu \u00edntimo\u00bb.<\/p>\n<p><strong><b>\u00ab\u00c9 preciso seguir as leis do mundo em que se est\u00e1\u00bb<br \/>\n<\/b><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um princ\u00edpio geral do ensinamento salesiano diz: \u00abJ\u00e1 que nos encontramos neste mundo, devemos seguir suas leis\u00bb, sem, contudo, esquecer o acr\u00e9scimo, \u00abem tudo o que n\u00e3o \u00e9 contr\u00e1rio \u00e0 lei de Deus\u00bb.<br \/>\nAs leis do mundo s\u00e3o, antes de tudo, as leis da civilidade, da cortesia, da boa educa\u00e7\u00e3o. O crist\u00e3o deve ser cort\u00eas. A devo\u00e7\u00e3o, quando \u00e9 verdadeira, \u00e9 tamb\u00e9m verdadeira humanidade, sabedoria, tato, modera\u00e7\u00e3o, const\u00e2ncia. Francisco de Sales declara com determina\u00e7\u00e3o: \u00abN\u00e3o quero de modo algum uma devo\u00e7\u00e3o fant\u00e1stica, turbulenta, melanc\u00f3lica, ranzinza e triste, mas uma devo\u00e7\u00e3o doce, suave, agrad\u00e1vel, pac\u00edfica e, em uma palavra, uma piedade extremamente franca, que se fa\u00e7a amar por Deus em primeiro lugar, mas tamb\u00e9m pelos homens\u00bb. O respeito \u00e0s regras sociais e \u00e0s conveni\u00eancias pode sofrer, por vezes, exce\u00e7\u00f5es, como no caso do rei Davi que \u00abdiante da arca da alian\u00e7a dan\u00e7ou e se agitou um pouco mais do que o decoro exigia\u00bb, mas era por causa da \u00abextraordin\u00e1ria e desmedida alegria que tinha no cora\u00e7\u00e3o\u00bb.<br \/>\nAl\u00e9m disso, civilidade n\u00e3o significa duplicidade. \u00c9 preciso ser sempre sincero e fazer com que o exterior corresponda ao sentimento \u00edntimo, sem, contudo, se mostrar desagrad\u00e1vel em sociedade sob o pretexto da \u00abverdade\u00bb e da \u00abfranqueza\u00bb.<br \/>\nO mundo, lembra Francisco de Sales quando usa este substantivo no significado ambivalente que tem na Escritura, \u00e9 regido pela lei da tr\u00edplice concupisc\u00eancia, ou seja, pelo desejo do prazer, dos bens e das honras. Ora, estas tr\u00eas realidades temporais n\u00e3o revestem fundamentalmente um valor negativo.<br \/>\nO prazer est\u00e1 ligado a certos atos e experi\u00eancias tanto no n\u00edvel dos sentidos quanto no n\u00edvel de nossas faculdades superiores. Se o prazer n\u00e3o \u00e9 desviado e \u00e9 mantido em uma justa medida, e sobretudo se o desejo \u00e9 leg\u00edtimo e n\u00e3o se transforma em depend\u00eancia e em escravid\u00e3o, que mal h\u00e1 nisso? At\u00e9 as irm\u00e3s da Visita\u00e7\u00e3o dever\u00e3o acolher \u00abcom paz e do\u00e7ura de esp\u00edrito\u00bb n\u00e3o apenas toda sorte de \u00abpenas e de mortifica\u00e7\u00e3o\u00bb, mas tamb\u00e9m as coisas que encontrarem \u00abtotalmente agrad\u00e1veis e plenamente conformes \u00e0 sua vontade e necessidade, como beber, comer, repousar, recrear-se e coisas semelhantes, a fim de que, seguindo o conselho do Ap\u00f3stolo, tudo o que fazemos, seja feito em nome de Deus e unicamente para agrad\u00e1-lo\u00bb.<br \/>\nNo que concerne aos bens do mundo, os crist\u00e3os devem cuidar deles mais ainda do que as pessoas \u00abdo mundo\u00bb, porque \u00abos possu\u00edmos, mas n\u00e3o como nossos\u00bb: \u00abDeus no-los deu para cultivar e quer que os fa\u00e7amos frutificar e ser \u00fateis\u00bb. Nem mesmo \u00e9 proibido aument\u00e1-los: \u00abTenhamos, pois, este cuidado cheio de gra\u00e7a pela conserva\u00e7\u00e3o, e at\u00e9 mesmo pelo aumento de nossos bens temporais, quando uma justa ocasi\u00e3o se apresentar e na medida em que o nosso estado o requer, porque Deus quer que o fa\u00e7amos assim, por amor a ele\u00bb. O crist\u00e3o pode ter riquezas, mas n\u00e3o dever\u00e1 se deixar \u00abenvenenar\u00bb por elas, ou seja, n\u00e3o dever\u00e1 apegar-lhes o cora\u00e7\u00e3o.<br \/>\nQuanto \u00e0 busca de honras e de uma boa reputa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o est\u00e1 por si s\u00f3 em contradi\u00e7\u00e3o com a humildade crist\u00e3 bem compreendida. Cada um deve se esfor\u00e7ar para conservar seu bom nome, que \u00e9 \u00abum dos fundamentos da sociedade humana; sem ele n\u00e3o apenas somos in\u00fateis, mas at\u00e9 mesmo prejudiciais ao p\u00fablico, por causa do esc\u00e2ndalo que receberia\u00bb. Consequentemente, \u00aba caridade exige e a humildade aprecia que o desejemos e que o conservemos preciosamente\u00bb. Ele nos servir\u00e1 para n\u00e3o \u00abofender o olho dos bons\u00bb nem para \u00abdar satisfa\u00e7\u00e3o ao dos maus\u00bb.<\/p>\n<p><strong><b>Testemunhas da alegria crist\u00e3<br \/>\n<\/b><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A cr\u00edtica mais frequentemente dirigida \u00e0 devo\u00e7\u00e3o \u00e9 bem conhecida: \u00abO mundo, minha cara Filoteia, difama o quanto pode a santa devo\u00e7\u00e3o, retratando as pessoas devotas com um semblante sombrio, triste e aflito, e espalhando por a\u00ed que a devo\u00e7\u00e3o as torna melanc\u00f3licas e insuport\u00e1veis\u00bb. Ao propor a um jovem o exemplo de S\u00e3o Lu\u00eds <em><i>(rei da Fran\u00e7a, 1214-1270)<\/i><\/em>, Francisco de Sales lhe mostra que este santo era \u00abde bom humor\u00bb e que este rei sabia \u00abrir amavelmente quando surgia a ocasi\u00e3o\u00bb.<br \/>\nS\u00e3o numerosos os convites \u00e0 alegria espalhados pelas cartas e escritos de Francisco de Sales. N\u00e3o se acabar\u00e1 t\u00e3o cedo de colher express\u00f5es como as seguintes: \u00abViva alegremente o m\u00e1ximo que puder\u00bb; \u00abesteja sempre alegre\u00bb; \u00abn\u00e3o se entregue de modo algum \u00e0 tristeza\u00bb; \u00abviva em paz e na alegria, ou ao menos esteja contente\u00bb; \u00abdesperte com frequ\u00eancia em si o esp\u00edrito de jovialidade e de suavidade\u00bb; \u00abnesta nossa breve peregrina\u00e7\u00e3o, vivamos alegremente, adaptando-nos aos gostos dos nossos anfitri\u00f5es em tudo o que n\u00e3o for pecado\u00bb; \u00abconserve a santa e cordial alegria, que alimenta as for\u00e7as do esp\u00edrito e edifica o pr\u00f3ximo\u00bb; \u00abconserve uma santa alegria de esp\u00edrito, a qual, difundida com mod\u00e9stia em suas a\u00e7\u00f5es e palavras, ser\u00e1 de consolo para as pessoas que a virem\u00bb; \u00abseja constante, corajosa e alegre, porque [a Bondade divina] lhe d\u00e1 o dom de querer ser toda sua\u00bb; \u00abviva plenamente contente diante de Deus\u00bb; \u00abviva generosa, nobre e alegremente Naquele que \u00e9 a nossa \u00fanica alegria\u00bb.<br \/>\nPor que procurar continuamente o que est\u00e1 errado? \u00c9 um fato que, quando o esp\u00edrito de contradi\u00e7\u00e3o se torna sistem\u00e1tico, nada vai bem. Da\u00ed esta repreens\u00e3o aos \u00abirm\u00e3os rebeldes\u00bb: \u00abV\u00f3s me for\u00e7ais a dizer que procurais os esgotos e os lix\u00f5es, em vez dos jardins e dos pomares\u00bb. A realidade nos aflige? \u00ab\u00c9 preciso deixar as afli\u00e7\u00f5es passarem pelo cora\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o permitir que permane\u00e7am nele\u00bb. O mundo vai mal? Ser\u00e1 preciso imitar os israelitas \u00abque nunca puderam cantar na Babil\u00f4nia, porque pensavam em sua terra\u00bb? Eu, diz Francisco de Sales, \u00abeu gostaria que cant\u00e1ssemos em toda parte\u00bb.<br \/>\nO crist\u00e3o n\u00e3o se lamenta das imperfei\u00e7\u00f5es que descobre em si mesmo: \u00abTodos gostar\u00edamos de ser sem imperfei\u00e7\u00f5es; mas, minha car\u00edssima Filha, \u00e9 preciso ter paci\u00eancia; nossa natureza \u00e9 a humana, e n\u00e3o a ang\u00e9lica\u00bb. Ele n\u00e3o ignora nada da nossa condi\u00e7\u00e3o mortal, mas n\u00e3o quer assustar nosso esp\u00edrito. Seu comportamento no caminho di\u00e1rio da vida seguia na mesma dire\u00e7\u00e3o. Segundo Miguel Favre, seu secret\u00e1rio e confidente de todos os momentos, o bispo \u00abtinha um natural jovial e gracioso, inimigo da tristeza e da melancolia; no entanto, mantinha um comportamento humildemente grave e majestoso, o rosto doce e sereno, acompanhado de uma contida reserva e de grande mod\u00e9stia, nada desleixado ou desordenado em sua postura, nem expansivo demais nos momentos de alegria. Nunca manifestava uma fei\u00e7\u00e3o triste, muito menos carrancuda, por mais que tivesse sido importunado, mas recebia a todos com um semblante muito sereno e contente\u00bb. Era sua convic\u00e7\u00e3o que \u00abDeus \u00e9 o Deus da alegria\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Francisco de Sales, bispo de Genebra no s\u00e9culo XVII, revolucionou a espiritualidade crist\u00e3 ao propor&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":49967,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":8,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[2561,2579,1821,2228,2025],"class_list":["post-49974","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-carisma-salesiano","tag-educacao","tag-graca","tag-santos","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49974","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=49974"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49974\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":49981,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/49974\/revisions\/49981"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/49967"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=49974"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=49974"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=49974"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}