{"id":48300,"date":"2026-01-24T09:36:21","date_gmt":"2026-01-24T09:36:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=48300"},"modified":"2026-01-24T09:38:17","modified_gmt":"2026-01-24T09:38:17","slug":"educar-para-a-cidadania-com-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/educar-para-a-cidadania-com-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"Educar para a cidadania com S\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"<p>\u00abCorajoso, obediente, bom cidad\u00e3o e magn\u00e2nimo\u00bb, tais eram, segundo Francisco de Sales, algumas das qualidades do homem preocupado com o bem p\u00fablico. A coragem, explicava ele, me faz \u00abempreender pela raz\u00e3o as coisas perigosas\u00bb; a obedi\u00eancia \u00e9 devida \u00abao pr\u00edncipe a quem sirvo\u00bb; a magnanimidade consiste \u00abna grandeza desta a\u00e7\u00e3o\u00bb que se empreende em vista do bem comum. Enfim, para ser \u00abbom cidad\u00e3o\u00bb, \u00e9 preciso ter \u00abo amor pelo p\u00fablico\u00bb e \u00aba afei\u00e7\u00e3o por sua p\u00e1tria\u00bb. Mesmo que a palavra <em>cidad\u00e3o<\/em> ainda designasse, sob o antigo regime, apenas o habitante de uma cidade, v\u00ea-se que a express\u00e3o \u00abbom cidad\u00e3o\u00bb estava ligada ao \u00abamor pelo p\u00fablico\u00bb.<\/p>\n<p><strong>Amar e servir o seu pa\u00eds<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O bom cidad\u00e3o ama seu pa\u00eds, o que significa que ele o prefere a qualquer outro \u00abem afei\u00e7\u00e3o\u00bb, mas n\u00e3o necessariamente \u00abem estima\u00bb, pois nada impede que se possa reconhecer o valor, ou at\u00e9 a superioridade dos outros, um pouco como acontece no casamento:<\/p>\n<p><em>As mulheres devem preferir seus maridos a qualquer outro, n\u00e3o em honra, mas em afei\u00e7\u00e3o; assim, cada um prefere seu pa\u00eds em amor e n\u00e3o em estima, e cada timoneiro ama mais o navio em que navega do que os outros, ainda que mais ricos e mais bem equipados.<br \/>\n<\/em><br \/>\nO apego aos seus, \u00e0 sua fam\u00edlia, ao seu pa\u00eds, aos seus amigos, \u00e0s suas \u00abovelhas\u00bb, transformava-se em nostalgia quando ele estava longe. Foi assim que, em 1618, no in\u00edcio de sua \u00faltima estadia em Paris, ele escreveu a uma de suas correspondentes: \u00abEstou aqui at\u00e9 a P\u00e1scoa; e acredite, minha car\u00edssima filha, j\u00e1 que \u00e9 preciso, estou aqui de bom grado, mas com um cora\u00e7\u00e3o que se alegraria imensamente em estar entre nossas pequenezas e em meu pa\u00eds\u00bb.<br \/>\nO amor ao pa\u00eds se confundia, ent\u00e3o, com a obedi\u00eancia ao pr\u00edncipe e com o servi\u00e7o que lhe era devido. O aprendizado da fidelidade ao soberano e do servi\u00e7o ao Estado fazia parte da educa\u00e7\u00e3o. Tendo conseguido que um de seus sobrinhos fosse admitido como pajem na corte de Turim, ele considerava que esse favor permitiria ao rapaz \u00abaprender em sua inf\u00e2ncia os primeiros elementos deste servi\u00e7o ao qual seu nascimento o obriga a dedicar toda a sua vida\u00bb.<br \/>\nMesmo como bispo, Francisco de Sales se comportava como um s\u00fadito fiel, leal e devotado \u00e0 casa de Saboia. Quando entrevia perigos, alertava o duque; aconselhava-lhe uma alian\u00e7a quando a julgava \u00abextremamente \u00fatil aos neg\u00f3cios\u00bb de seu mestre. Quando soube que o duque de Nemours conspirava contra o duque de Saboia, absteve-se prudentemente de frequent\u00e1-lo, citando o \u00abvelho ensinamento\u00bb: \u00abO lugar de um bispo \u00e9 em seu redil e n\u00e3o na corte\u00bb, e terminando com esta brilhante compara\u00e7\u00e3o: \u00abN\u00e3o queimo minhas asas nesta chama\u00bb. Quando a Saboia estava em perigo, ele lhe suplicava insistentemente que trouxesse sua coragem \u00ab\u00e0 defesa deste sangue, desta casa, desta coroa, deste Estado\u00bb.<br \/>\nNo entanto, se Francisco de Sales \u00e9 um servidor fiel, n\u00e3o \u00e9 um cortes\u00e3o adulador e interesseiro. H\u00e1, de fato, muitas maneiras de servir ao pr\u00edncipe:<\/p>\n<p><em>Aqueles que servem aos pr\u00edncipes por interesse geralmente prestam servi\u00e7os mais sol\u00edcitos, mais ardentes e sens\u00edveis; mas aqueles que servem por amor os prestam mais nobres, mais generosos e, consequentemente, mais estim\u00e1veis.<br \/>\n<\/em><br \/>\nSeja como for, Francisco de Sales defendia a obedi\u00eancia como a primeira virtude c\u00edvica, certamente porque a considerava \u00abuma virtude moral que depende da justi\u00e7a\u00bb. Ele a recomendava a Filoteia: \u00abVoc\u00ea deve obedecer a seus superiores pol\u00edticos, isto \u00e9, a seu pr\u00edncipe e aos magistrados que ele estabeleceu sobre seu pa\u00eds\u00bb. At\u00e9 o fim de sua vida, Francisco de Sales demonstrou senso c\u00edvico. Foi por obedi\u00eancia ao duque que ele empreendeu, apesar de seu estado de sa\u00fade, a \u00faltima viagem, que o levou a Avignon e a Li\u00e3o, onde morreu.<\/p>\n<p><strong>Superar certas barreiras sociais<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A sociedade em que vivia Francisco de Sales era composta por camadas muito diversificadas e, al\u00e9m disso, separadas por barreiras. Havia \u00abos eclesi\u00e1sticos, os nobres, os de toga longa e o populacho ou terceiro estado\u00bb.<br \/>\nQuando algo ia mal, cada um jogava a responsabilidade nos outros, dizia ele em um serm\u00e3o: o povo acusa a nobreza, a nobreza incrimina os \u00abministros da justi\u00e7a\u00bb, estes denunciam os soldados, os soldados jogam a culpa nos capit\u00e3es, os capit\u00e3es denigrem os pr\u00edncipes. Em conclus\u00e3o, \u00abn\u00e3o \u00e9 permitido falar malde ningu\u00e9m, sem perigo, neste tempo em que estamos, sen\u00e3o da Igreja, da qual cada um \u00e9 censor, cada um a critica\u00bb. A conclus\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: que cada um se examine e assuma suas responsabilidades.<br \/>\nSe a divis\u00e3o dos cidad\u00e3os \u00e9 um mal que pode produzir o pior, a uni\u00e3o faz a for\u00e7a, como diz o prov\u00e9rbio. \u00abAs sedi\u00e7\u00f5es e perturba\u00e7\u00f5es internas de uma rep\u00fablica a arru\u00ednam completamente e a impedem de resistir ao estrangeiro\u00bb. Quando havia \u00abdissens\u00f5es e variedades de concep\u00e7\u00f5es\u00bb, ele lembrava com firmeza que \u00aba uni\u00e3o e o la\u00e7o dos esp\u00edritos\u00bb \u00e9 \u00abnecess\u00e1ria a toda boa empreitada\u00bb. Em certos casos, o \u00abbem da cidade\u00bb exigia que alguns renunciassem \u00e0 \u00absua opini\u00e3o particular\u00bb e que se decidisse a \u00abretomar de novo o consentimento do geral, para op\u00f4-lo ao julgamento dos particulares\u00bb.<br \/>\nMesmo \u00e0s religiosas da Visita\u00e7\u00e3o era preciso lembrar o princ\u00edpio da igualdade das pessoas e denunciar, se necess\u00e1rio, esta grande mis\u00e9ria das honras: \u00abSuperestima-se acima dos outros e depois se chega a dizer: sou de tal casa e aquela de outra\u00bb. Um dia, ele lhes contou a hist\u00f3ria da filha de um marechal, que n\u00e3o conseguia se resolver a chamar de \u00abirm\u00e3\u00bb outra religiosa que era de origem humilde. Era preciso, segundo ele, despojar-se \u00abdo desejo de ser estimado por sua origem nobre ou se julgar melhor que os outros\u00bb. Ele at\u00e9 exclamou:<\/p>\n<p><em>Oh! somos todos iguais, pois somos todos filhos do mesmo pai e da mesma m\u00e3e, de Ad\u00e3o e Eva; \u00e9, portanto, uma grande loucura glorificar-se por causa da pr\u00f3pria linhagem.<br \/>\n<\/em><br \/>\n<strong>Quando a justi\u00e7a \u00e9 lesada<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um bom cidad\u00e3o se caracteriza por seu senso de justi\u00e7a. Infelizmente, as ocasi\u00f5es para denunciar as injusti\u00e7as n\u00e3o faltam. Francisco de Sales se empenhava nisso frequentemente no p\u00falpito. Foi assim que, em seu \u00edmpeto de jovem pregador, ele atacou um dia, sucessivamente, diversas categorias de fraudadores: o artes\u00e3o, \u00abque vende sua mercadoria por um pre\u00e7o excessivo\u00bb; o r\u00e1bula, \u00abque por uma ninharia mant\u00e9m um processo que arru\u00edna a alma, o corpo e a casa de duas partes miser\u00e1veis\u00bb; o juiz, pouco apressado em fazer justi\u00e7a e \u00abque a faz t\u00e3o longa, se desculpa com dez mil raz\u00f5es de costume, de estilo, de teoria, de pr\u00e1tica e de cautela\u00bb; o usur\u00e1rio, que se engana a si mesmo fazendo a Escritura mentir; os padres, que se lisonjeiam com dispensas para servir a dois senhores; e as damas, que se comprazem em ser cortejadas \u00abdesculpando-se de que n\u00e3o fazem atos contr\u00e1rios \u00e0 sua honra\u00bb. As pr\u00e1ticas comerciais, pensava ele, raramente ocorrem sem engano, o que o fazia dizer que \u00abos compradores e os vendedores s\u00e3o geralmente ladr\u00f5es, se n\u00e3o forem tementes e n\u00e3o tiverem grande cuidado em vigiar seu cora\u00e7\u00e3o\u00bb.<br \/>\nEm certas circunst\u00e2ncias particulares, o bispo sabia muito bem que as boas palavras e as esmolas n\u00e3o bastavam; ele ent\u00e3o considerava seu dever intervir diretamente junto \u00e0s autoridades competentes para defender os direitos das pessoas amea\u00e7adas. Pois \u00abn\u00e3o se deve apenas dispor-se a n\u00e3o negligenciar o inocente\u00bb, escrevia ele, \u00abmas \u00e9 preciso unir-se a ele para a defesa de sua causa\u00bb.<br \/>\nEm per\u00edodo de fome, ele atacava as \u00abdamas que matam ovelhas para alimentar um c\u00e3ozinho covarde e manhoso\u00bb. Durante os conflitos armados, ele solicitava para seu \u00abpobre bom povo\u00bb a isen\u00e7\u00e3o dos encargos de guerra e pedia a prote\u00e7\u00e3o e as esmolas do rei sobre os cat\u00f3licos do pa\u00eds de Gex. A lei evang\u00e9lica exclui toda guerra, lembra Francisco de Sales, que acrescentava: \u00abcontudo, a guerra \u00e9 permitida por causa da mal\u00edcia dos homens: pode-se repelir a for\u00e7a com a for\u00e7a\u00bb. O pior s\u00e3o as pessoas que se aproveitam disso, \u00abque com isso se enriquecem e engordam\u00bb.<br \/>\nA justi\u00e7a parece muitas vezes um desafio neste mundo, sempre inst\u00e1vel, que oscila sem cessar entre o inferno e o para\u00edso. Se para os crist\u00e3os essas duas realidades fazem parte do al\u00e9m, encontram-se, contudo, imagens sugestivas delas aqui na terra.<br \/>\nQuando algu\u00e9m vive em \u00abuma rep\u00fablica calamitosa, tiranizada\u00bb por um \u00abrei maldito\u00bb, \u00e9 o inferno; os habitantes ali \u00absofrem tormentos indiz\u00edveis\u00bb; os olhos veem \u00aba horr\u00edvel vis\u00e3o dos dem\u00f4nios e do inferno\u00bb; os ouvidos nunca ouvem sen\u00e3o \u00abchoros, lamenta\u00e7\u00f5es e desesperos\u00bb.<br \/>\nO para\u00edso, ao contr\u00e1rio, \u00e9 uma \u00abcidade feliz\u00bb, onde todos vivem \u00abna consola\u00e7\u00e3o de uma sociedade feliz e indissol\u00favel\u00bb. Como \u00e9 bom considerar \u00aba nobreza, a beleza e a multid\u00e3o dos cidad\u00e3os e habitantes deste feliz pa\u00eds\u00bb! E Francisco de Sales exclamava: \u00abOh! que lugar desej\u00e1vel e am\u00e1vel, que cidade preciosa!\u00bb ou ainda: \u00abOh! que companhia feliz!\u00bb<br \/>\nNaturalmente, a cidade ideal n\u00e3o existe na terra, mas isso n\u00e3o \u00e9 raz\u00e3o para n\u00e3o trabalhar para torn\u00e1-la um pouco menos indigna de tal modelo. Justi\u00e7a e paz s\u00e3o os bens que a sociedade civil e a \u00abrep\u00fablica crist\u00e3\u00bb reclamam. Ora, \u00ab\u00e9 preciso ceder \u00e0 necessidade do pr\u00f3ximo\u00bb, quando este os reclama com toda raz\u00e3o.<\/p>\n<p><strong>\u00abA rep\u00fablica depende da religi\u00e3o\u00bb e \u00aba religi\u00e3o depende da rep\u00fablica\u00bb<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Homem da Igreja acima de tudo, Francisco de Sales queria ser alheio aos assuntos diretamente pol\u00edticos. Em um tempo de controv\u00e9rsias com os protestantes, onde os cat\u00f3licos e at\u00e9 mesmo muitos religiosos eram inclinados \u00e0 pol\u00edtica e \u00e0s solu\u00e7\u00f5es pol\u00edticas, ele distinguia claramente os dom\u00ednios, admitindo uma certa forma de autonomia do temporal. Ele escrevia ao governador da Saboia:<\/p>\n<p><em>Quanto a mim, protesto que ignoro os assuntos de Estado, e quero ignor\u00e1-los a tal ponto que n\u00e3o estejam nem em meu pensamento, nem em meu cuidado, nem em minha boca, a n\u00e3o ser que se apresente alguma ocasi\u00e3o de testemunhar a Sua Alteza que sou seu apaixonado e fiel s\u00fadito.<br \/>\n<\/em><br \/>\nO bispo queria, antes de tudo, formar bons ministros de Deus. Para ele, o padre n\u00e3o devia se meter em quest\u00f5es temporais e pol\u00edticas. Ele far\u00e1 a mesma recomenda\u00e7\u00e3o ao futuro cardeal Richelieu, que encontrou em Tours em 1619, quando ainda era apenas bispo de Lu\u00e7on, mas j\u00e1 secret\u00e1rio de Estado. Ele escrever\u00e1 \u00e0 madre de Chantal:<\/p>\n<p><em>Aprendi a conhecer muitos prelados, e particularmente o Sr. bispo de Lu\u00e7on, que me jurou toda amizade e me disse que enfim se juntaria ao meu partido, para n\u00e3o pensar mais sen\u00e3o em Deus e na salva\u00e7\u00e3o das almas.<br \/>\n<\/em><br \/>\nO futuro mostrar\u00e1 que essas boas inten\u00e7\u00f5es n\u00e3o durar\u00e3o, ou pelo menos que o cardeal as interpretar\u00e1 \u00e0 sua maneira.<br \/>\nSeria preciso, por isso, desinteressar-se da felicidade temporal de seus compatriotas? \u00abQuem n\u00e3o ama muito a coisa p\u00fablica, n\u00e3o se preocupa muito se ela se arru\u00edna\u00bb, escreve ele no Tratado do Amor de Deus. A pol\u00edtica, ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 estranha \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0 consci\u00eancia. Contrariamente ao ministro protestante que queria separar os dois dom\u00ednios, sob o pretexto de que a honra \u00e9 devida apenas a Deus, o autor da <em>Defesa do Estandarte da Santa Cruz<\/em> replicava \u00abque \u00e9 cortar demais da honra devida a Deus tirar dela o civil e o pol\u00edtico\u00bb.<br \/>\nFrancisco de Sales n\u00e3o era, portanto, tentado a eliminar a religi\u00e3o da vida p\u00fablica. Embora admitindo uma certa laicidade do Estado, ou pelo menos uma diversifica\u00e7\u00e3o das tarefas civil e religiosa, ele pensava que os pr\u00edncipes tinham interesse em refletir sobre as vantagens da religi\u00e3o. Por sua vez, a Igreja n\u00e3o hesitava em \u00abimplorar\u00bb o socorro do \u00abbra\u00e7o secular\u00bb, especialmente quando o catolicismo estava amea\u00e7ado ou a moralidade estava em perigo.<br \/>\nSegundo S\u00e3o Francisco de Sales, \u00aba rep\u00fablica depende da religi\u00e3o como o corpo da alma; e a religi\u00e3o depende da rep\u00fablica como a alma do corpo\u00bb. Uni\u00e3o e distin\u00e7\u00e3o eram os dois princ\u00edpios que governavam, segundo ele, as rela\u00e7\u00f5es entre a Igreja e o Estado. A ideia de separa\u00e7\u00e3o n\u00e3o entrava nesse esquema, cujo modelo estava nas rela\u00e7\u00f5es do corpo e da alma. A desgra\u00e7a era que a pol\u00edtica se servia da religi\u00e3o e que o poder espiritual estava como que submetido ao poder temporal do pr\u00edncipe. O bispo de Genebra se queixava disso a seu amigo, o bispo de Belley:<\/p>\n<p><em>Que abje\u00e7\u00e3o que tenhamos a espada espiritual na m\u00e3o e que, como simples executores das vontades do magistrado temporal, tenhamos que golpear quando ele ordena e cessar quando ele comanda, e que sejamos privados da principal chave daquelas que Nosso Senhor nos deu, que \u00e9 a do julgamento, do discernimento e da ci\u00eancia no uso de nossa espada!<br \/>\n<\/em><br \/>\nSua atitude de s\u00fadito obediente do duque de Saboia era acompanhada de um senso esclarecido de seus pr\u00f3prios direitos. Ele sempre se considerou pr\u00edncipe de Genebra, ou seja, soberano temporal leg\u00edtimo da cidade da qual Calvino e o partido huguenote haviam tomado o controle. Em dezembro de 1601, a pedido de Dom de Granier, ele havia redigido um memorial destinado a fornecer as provas hist\u00f3ricas disso. O in\u00edcio, mais claro imposs\u00edvel, declarava que o bispo de Genebra \u00e9 \u00abo \u00fanico pr\u00edncipe soberano leg\u00edtimo de Genebra e de suas depend\u00eancias, n\u00e3o obstante os senhores duques de Saboia, como sucessores dos condes de Genebra por um lado, e os cidad\u00e3os de Genebra por outro, pretendam o contr\u00e1rio\u00bb.<br \/>\nEnfim, para garantir a paz dos Estados e da Igreja, era melhor n\u00e3o agitar demais certas quest\u00f5es relativas \u00e0 autoridade da Santa S\u00e9 nos assuntos temporais, especialmente no que dizia respeito ao poder do papa de depor os reis. Quando Roberto Belarmino, \u00abesse grande e c\u00e9lebre cardeal\u00bb, \u00abesse excelent\u00edssimo te\u00f3logo\u00bb, escreveu por ordem do papa que o poder deste se estendia tamb\u00e9m ao temporal dos reis, Francisco de Sales n\u00e3o ficou contente e escreveu a um de seus amigos de tend\u00eancias galicanas:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o, nem mesmo gostei de certos escritos de um santo e excelent\u00edssimo prelado, nos quais ele tocou no poder indireto do papa sobre os pr\u00edncipes; n\u00e3o que eu tenha julgado se isso \u00e9 ou n\u00e3o \u00e9, mas porque nesta era em que temos tantos inimigos externos, creio que n\u00e3o devemos mover nada dentro do corpo da Igreja.<br \/>\n<\/em><br \/>\n<strong>Cidad\u00e3o do mundo<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A educa\u00e7\u00e3o do bom cidad\u00e3o em uma vis\u00e3o humanista n\u00e3o pode se limitar \u00e0 pequena p\u00e1tria e uma de suas tarefas consiste em cultivar o senso do universal. O conhecimento dos outros povos do mundo era facilitado pelo estabelecimento dos primeiros mapas geogr\u00e1ficos:<\/p>\n<p><em>Aqueles que em quatro ou cinco folhas de papel mostram Roma, Paris, Viena e as maiores cidades da Fran\u00e7a, marcam com pequenos pontos qual \u00e9 a grandeza e a situa\u00e7\u00e3o dos lugares, embora isso n\u00e3o seja nada em compara\u00e7\u00e3o com o que \u00e9; mas aqueles que entendem e conhecem a geografia entendem por a\u00ed o que \u00e9 Paris, Roma, Viena e outras.<br \/>\n<\/em><br \/>\nAmar seu pa\u00eds n\u00e3o autoriza o desprezo pelos outros. O autor da <em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em> adverte contra um h\u00e1bito em que \u00abcada um se d\u00e1 a liberdade de julgar e censurar os pr\u00edncipes e de falar mal de na\u00e7\u00f5es inteiras, segundo a diversidade das afei\u00e7\u00f5es que se tem por elas\u00bb. Segundo um de seus \u00edntimos, o bispo de Genebra \u00abtinha horror a toda difama\u00e7\u00e3o e n\u00e3o aprovava nem mesmo que se fizesse alus\u00e3o a esses v\u00edcios que os autores costumam atribuir a certas na\u00e7\u00f5es\u00bb.<br \/>\nO crist\u00e3o, sobretudo, \u00e9 aberto por princ\u00edpio ao mundo inteiro: se eu quero apenas a vontade de Deus, exclamava ele, \u00abque me importa que me enviem \u00e0 Espanha ou \u00e0 Irlanda? E se eu busco apenas sua cruz, por que me aborrecer\u00e1 que me enviem \u00e0s \u00cdndias, \u00e0s terras novas ou \u00e0s velhas, j\u00e1 que tenho certeza de que a encontrarei em toda parte?\u00bb<br \/>\nUma maneira concreta de se abrir ao universal \u00e9 o aprendizado de l\u00ednguas. Ele admirava Mitr\u00eddates, rei do Ponto, que, segundo Pl\u00ednio, \u00absabia vinte e duas l\u00ednguas\u00bb. Em sua ora\u00e7\u00e3o f\u00fanebre do duque de Merc\u0153ur, ele louvava esse grande personagem porque ele \u00abtinha tamb\u00e9m o uso da eloqu\u00eancia e a gra\u00e7a de bem expressar suas belas concep\u00e7\u00f5es, n\u00e3o somente nesta nossa l\u00edngua francesa, mas tamb\u00e9m em alem\u00e3, italiana e espanhola\u00bb; \u00e0 frente de suas tropas, ele sabia \u00abfalar a cada um em sua pr\u00f3pria l\u00edngua, franc\u00eas, alem\u00e3o, italiano\u00bb.<br \/>\nSua abertura ao universal se far\u00e1 sentir cada vez mais \u00e0 medida que avan\u00e7ar em idade e experi\u00eancia. Perto do fim de sua vida, para mostrar sua perfeita indiferen\u00e7a diante das viagens e miss\u00f5es que o esperavam fora da Saboia, ele escrever\u00e1 esta declara\u00e7\u00e3o significativa: \u00abN\u00e3o sou mais deste pa\u00eds, mas do mundo\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abCorajoso, obediente, bom cidad\u00e3o e magn\u00e2nimo\u00bb, tais eram, segundo Francisco de Sales, algumas das qualidades&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":48293,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":7,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[2579,2570,1923,2228,2025],"class_list":["post-48300","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-educacao","tag-igreja","tag-paises","tag-santos","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48300","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=48300"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48300\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":48307,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/48300\/revisions\/48307"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/48293"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=48300"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=48300"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=48300"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}