{"id":47634,"date":"2025-12-18T08:17:44","date_gmt":"2025-12-18T08:17:44","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=47634"},"modified":"2025-12-18T08:19:53","modified_gmt":"2025-12-18T08:19:53","slug":"educar-para-o-repouso-e-o-lazer-com-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/educar-para-o-repouso-e-o-lazer-com-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"Educar para o repouso e o lazer com s\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"<p><em>A vida n\u00e3o \u00e9 feita apenas de trabalho e de ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e9rias; ela tamb\u00e9m \u00e9 marcada por momentos de descanso, descontra\u00e7\u00e3o e \u201crecrea\u00e7\u00f5es\u201d. Para um homem interessado na forma\u00e7\u00e3o e na educa\u00e7\u00e3o como Francisco de Sales, essa dimens\u00e3o da vida humana n\u00e3o podia deixar de chamar aten\u00e7\u00e3o. Certamente, sua abordagem \u00e9 sobretudo de car\u00e1ter \u00e9tico: ele n\u00e3o se ocupa da descontra\u00e7\u00e3o ou do jogo em si; n\u00e3o h\u00e1 nele uma reflex\u00e3o sobre o valor educativo de tal ou qual jogo ou divertimento. Preocupa-se, antes, em definir as condi\u00e7\u00f5es que tornam os divertimentos necess\u00e1rios, \u00fateis, bons, indiferentes ou nocivos, conforme os casos. No entanto, manifesta seu humanismo tamb\u00e9m neste tema, gra\u00e7as \u00e0 sua abertura de esp\u00edrito e de cora\u00e7\u00e3o a tudo o que \u00e9 humano e, em particular, ao que interessa \u00e0 juventude.<\/em><\/p>\n<p><strong>Necessidade de repouso e descontra\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cDe vez em quando \u00e9 necess\u00e1rio fazer descansar o corpo e o esp\u00edrito com alguma forma de recrea\u00e7\u00e3o\u201d, afirma o autor da <em>Filoteia<\/em>. Mesmo nos mosteiros das visitandinas, a recrea\u00e7\u00e3o \u00e9 um momento indispens\u00e1vel:<\/p>\n<p><em>\u201cAs religiosas precisam de descontra\u00e7\u00e3o\u201d \u2013 afirma \u2013, e sobretudo \u00e9 preciso promover uma boa recrea\u00e7\u00e3o para as novi\u00e7as. N\u00e3o se deve manter o esp\u00edrito continuamente tenso, sob pena de se tornar melanc\u00f3lico. Eu n\u00e3o gostaria que algu\u00e9m ficasse inquieto por ter passado toda uma recrea\u00e7\u00e3o falando de coisas indiferentes; em outra ocasi\u00e3o falar\u00e1 de coisas boas.<br \/>\n<\/em><br \/>\nO cap\u00edtulo da <em>Filoteia<\/em> dedicado aos \u201cpassatempos e recrea\u00e7\u00f5es\u201d enumera v\u00e1rias atividades comuns na \u00e9poca, consideradas \u201cpermitidas e louv\u00e1veis\u201d:<\/p>\n<p><em>Tomar ar, passear, entreter-se com algu\u00e9m em alegre e am\u00e1vel conversa\u00e7\u00e3o, tocar ala\u00fade ou outro instrumento, cantar, ca\u00e7ar s\u00e3o recrea\u00e7\u00f5es t\u00e3o honestas que, para delas se servir bem, basta um pouco de prud\u00eancia comum, a qual atribui a tudo o lugar, o tempo e\u00a0 medida convenientes.<br \/>\n<\/em><br \/>\nA lista come\u00e7a com dois tipos de descontra\u00e7\u00e3o insepar\u00e1veis: tomar ar e passear, dois aspectos da mesma atividade relaxante. \u201cTomar ar\u201d \u00e9 como o p\u00e1ssaro que \u201ctoma o ar e foge\u201d, eleva-se e voa com as asas abertas, enquanto o viajante se serve dos seus p\u00e9s. Ao passear pode-se atribuir, \u00e0 primeira vista, o que o autor diz sobre a necessidade de recrea\u00e7\u00f5es bem feitas, pois elas t\u00eam a dupla vantagem de aliviar o esp\u00edrito e tamb\u00e9m o corpo.<br \/>\nDar ao passeio \u201co lugar, o tempo, o local e a medida convenientes\u201d significa que tal atividade vem depois das ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e9rias, que fazem parte dos deveres de cada um. O tempo a dedicar depende evidentemente do que \u00e9 necess\u00e1rio e aconselh\u00e1vel para cada pessoa.<br \/>\nO passeio pode ser um bom rem\u00e9dio em caso de sobrecarga de trabalho: \u201cQuando o trabalho excessivo lhe causava algum mal-estar \u2013 conta seu amigo Dom Camus \u2013, seu m\u00e9dico lhe aconselhava a tomar um pouco de ar, dedicar algum tempo a passear, durante alguns dias, com o objetivo de eliminar, com essas descontra\u00e7\u00f5es, os maus humores que havia acumulado e que o tornavam pesado\u201d. Muito obediente ao m\u00e9dico, o bispo ia passear \u201cem um vasto jardim\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os jogos de destreza<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na \u00e9poca de Francisco de Sales estavam em voga \u201ca \u00abpallacorda\u00bb, a pelota, o \u00abpallamaglio\u00bb, a corrida dos an\u00e9is\u201d. O jogo da <em>\u00abpallacorda\u00bb<\/em> \u00e9 o antecessor do t\u00eanis: algu\u00e9m rebatia a bola sobre uma corda, com a palma da m\u00e3o ou com uma raquete. A paix\u00e3o por esse jogo devia ser grande, se suscitou este alerta: \u201cJogar bola muito tempo n\u00e3o significa descansar o corpo, mas extenu\u00e1\u2011lo\u201d.<br \/>\nO jogo da <em>pelota<\/em> serviu-lhe um dia para descrever o desprezo pelas honras: \u201cQuem \u00e9 aquele que, no jogo da pelota, a recebe melhor? Aquele que a lan\u00e7a mais longe\u201d. O <em>\u00abpallamaglio\u00bb<\/em>, antecessor do <em>cr\u00edquete<\/em> e do <em>golfe<\/em>, consistia em lan\u00e7ar e repelir uma bola de madeira dura com uma esp\u00e9cie de malho, um bast\u00e3o com uma extremidade em formato de martelo. Sabe\u2011se que existia um jogo de \u00abpallamaglio\u00bb em Annecy, \u00e0s margens do lago. Quanto \u00e0 corrida dos <em>an\u00e9is<\/em>, consistia em correr fazendo passar por uma vara, que se segurava na m\u00e3o, uma s\u00e9rie de an\u00e9is. Exigia grande concentra\u00e7\u00e3o, o que o levou a dizer: \u201cOs que fazem a corrida dos an\u00e9is n\u00e3o pensam de modo algum no p\u00fablico que os observa, mas em fazer uma boa corrida para vencer\u201d.<br \/>\nTodos esses jogos, que demandam grande gasto de energia, s\u00e3o particularmente adequados aos jovens. Francisco de Sales os aconselha a um jovem, acrescentando a equita\u00e7\u00e3o: \u201cExercitai\u2011vos em passatempos que exigem for\u00e7a, como cavalgar, saltar e outros jogos semelhantes\u201d.<br \/>\nAquele que joga o faz evidentemente por prazer e para agradar aos outros. Mas \u00e9 preciso evitar que o jogo se transforme em depend\u00eancia, da qual n\u00e3o se pode mais libertar. Nossos afetos s\u00e3o t\u00e3o preciosos \u2013 dizia \u2013, \u201cque exigem n\u00e3o deix\u00e1\u2011los enredar em coisas in\u00fateis\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os jogos de sal\u00e3o<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O xadrez e os jogos \u201cde mesa\u201d fazem parte dos \u201cdivertimentos em si bons e honestos\u201d (I III 31). Os jogos de mesa designavam todos os jogos que exigiam uma mesa, em particular o jogo de damas e o de xadrez. Este \u00faltimo podia transformar\u2011se numa paix\u00e3o dif\u00edcil de moderar com o tempo, de modo que \u201cdepois de jogar xadrez por cinco ou seis horas, algu\u00e9m sai morto de cansa\u00e7o e vazio de esp\u00edrito\u201d.<br \/>\nOs jogos de azar com dados ou cartas, nos quais se joga dinheiro e \u00e0s vezes se apostam grandes quantias, s\u00e3o francamente desaconselhados. No cap\u00edtulo sobre \u201cos jogos proibidos\u201d, o autor da Filoteia exp\u00f5e tr\u00eas motivos contra os jogos de azar. Em primeiro lugar, \u201cnestes jogos n\u00e3o se vence por raz\u00e3o, mas pela for\u00e7a da sorte, que muitas vezes recompensa quem por habilidade ou trabalho n\u00e3o merecia nada\u201d. Em segundo lugar, n\u00e3o s\u00e3o verdadeiramente jogos, mas sim \u201cocupa\u00e7\u00f5es violentas\u201d: nelas mant\u00e9m\u2011se \u201co esp\u00edrito todo concentrado e tenso numa aten\u00e7\u00e3o cont\u00ednua, e todo agitado por inquieta\u00e7\u00f5es, temores e ansiedades perp\u00e9tuas\u201d. Por fim, a alegria do vencedor \u00e9 a alegria de um s\u00f3, \u201cvisto que se obt\u00e9m somente \u00e0s custas e com o pesar do companheiro\u201d.<br \/>\nA paix\u00e3o pelo jogo pode conduzir o jogador \u00e0 ru\u00edna mais completa: \u201cAquele que se habitua a jogar pequenas quantias, depois jogar\u00e1 escudos, depois pistolas, depois cavalos e, depois dos cavalos, toda a sua fortuna\u201d. Por todas essas raz\u00f5es, Francisco de Sales adverte o jovem que est\u00e1 \u201cpara zarpar no vasto mar da corte\u201d contra os riscos do jogo. Mas como sempre em Francisco de Sales, h\u00e1 uma exce\u00e7\u00e3o: algu\u00e9m pode jogar um jogo de azar para agradar a outro, por \u201ccondescend\u00eancia\u201d: \u201cOs jogos de azar, que de outro modo seriam repreens\u00edveis, n\u00e3o o s\u00e3o se, uma ou outra vez, os fizermos por justa condescend\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p><strong>Divers\u00f5es culturais<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois do jogo da dan\u00e7a, o autor da <em>Filoteia<\/em> enumera como fonte de recrea\u00e7\u00e3o e divers\u00e3o certas atividades art\u00edsticas, tais como as \u201ccom\u00e9dias\u201d, termo que designava ent\u00e3o qualquer representa\u00e7\u00e3o teatral; ou como \u201ctocar\u201d o ala\u00fade ou qualquer outro instrumento e \u201ccantar m\u00fasicas\u201d. A m\u00fasica \u00e9 feita \u201cpara alegrar\u201d o ouvido. H\u00e1 grande diferen\u00e7a \u201centre uma m\u00fasica escrita e uma m\u00fasica cantada\u201d. A m\u00fasica \u00e9 fonte de prazer, mas o prazer \u00e9 mais ou menos grande \u201cconforme os ouvidos s\u00e3o mais ou menos delicados\u201d:<\/p>\n<p><em>Nem todos, neste mundo, s\u00e3o capazes de compreender da mesma maneira o som e a harmonia de uma m\u00fasica: quem tem o ouvido um pouco mais rude n\u00e3o pode captar todas as nuances que s\u00e3o utilizadas para tornar perfeita a melodia, embora entenda e conhe\u00e7a a m\u00fasica, coisa que \u00e9 poss\u00edvel para quem tem o ouvido mais fino; e embora o primeiro desfrute da do\u00e7ura que sente ao ouvir essa m\u00fasica, contudo n\u00e3o experimenta um prazer t\u00e3o grande quanto quem tem o ouvido mais fino, embora ambos estejam contentes.<\/em><\/p>\n<p>Cantar exige certo esfor\u00e7o, mas o canto eleva: \u201cO peregrino que segue alegre cantando em sua viagem soma concretamente o esfor\u00e7o do canto ao do caminhar, e n\u00e3o obstante com tal aumento de esfor\u00e7o anima\u2011se e alivia o esfor\u00e7o da marcha\u201d. Contudo, n\u00e3o se deveria fazer \u201ccomo os cantores que ficam roucos, por for\u00e7a de repetir um motete \u00e0 exaust\u00e3o\u201d.<br \/>\nExistem ainda outros meios de descontra\u00e7\u00e3o, como a leitura e tamb\u00e9m a escrita. L\u00ea\u2011se ou escreve\u2011se n\u00e3o apenas para instruir a si mesmo ou aos outros, mas tamb\u00e9m para recrear a si mesmo e aos outros. Sente\u2011se prazer tamb\u00e9m em escrever, e o autor do <em>Te\u00f3timo<\/em> confessava isso de bom grado ao seu leitor:<\/p>\n<p><em>Como os escultores de p\u00e9rolas preciosas, sentindo que a vista se cansa de mant\u00ea\u2011la fixa em tra\u00e7os delicados de sua obra, p\u00f5em com prazer diante de si alguma espl\u00eandida esmeralda, para que, admirando de vez em quando o verde, possam recrear\u2011se e fazer repousar seus olhos cansados. Do mesmo modo, nestas m\u00faltiplas ocupa\u00e7\u00f5es que minha condi\u00e7\u00e3o me acumula incessantemente, sempre tenho pequenos projetos sobre temas religiosos a tratar, nos quais penso quando posso, para elevar e fazer repousar meu esp\u00edrito.<\/em><\/p>\n<p><strong>As festas, os banquetes e as \u201cpompas\u201d<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enquanto os protestantes haviam suprimido a maior parte das festas, os cat\u00f3licos continuavam a celebrar numerosas festividades, em particular as de Nossa Senhora e dos santos. Para Francisco de Sales, \u201cos domingos e as festas sagradas\u201d s\u00e3o dias diferentes dos outros, por isso \u201cem geral veste\u2011se melhor\u201d.<br \/>\nAl\u00e9m das festas religiosas \u201cmandadas pela Igreja\u201d e \u201cpor ela recomendadas\u201d, existem as \u201cfestas civis\u201d, como a celebrada em Li\u00e3o por ocasi\u00e3o da entrada de Lu\u00eds XIII naquela cidade. Tamb\u00e9m o bispo de Genebra era festejado durante suas visitas pastorais, como em sua solene entrada em Bonneville:<\/p>\n<p><em>\u201cMinha querida Filha, que bom povo eu encontrei no meio de t\u00e3o altas montanhas! Que honra, que acolhimento, que venera\u00e7\u00e3o por seu bispo! Outro dia cheguei a tal cidade no meio da noite; mas os habitantes haviam preparado tantas luzes e tanta festa que tudo estava iluminado\u201d.<br \/>\n<\/em><br \/>\nPor ocasi\u00e3o das festas organizam\u2011se banquetes e veste\u2011se \u201ccom grande pompa\u201d. Ora, \u201cos banquetes, as pompas\u201d fazem parte das coisas que Francisco de Sales colocava entre aquelas que \u201cem ess\u00eancia n\u00e3o s\u00e3o de modo algum m\u00e1s, mas sim indiferentes\u201d. Tudo depende do uso que se faz delas.<br \/>\nPreparar um bom almo\u00e7o \u00e9 demonstra\u00e7\u00e3o de amizade: de fato, \u201ccomo se pode mais genuinamente expressar o desejo de que um amigo desfrute de uma boa refei\u00e7\u00e3o sen\u00e3o preparando\u2011lhe um banquete saboroso e requintado?\u201d.<br \/>\nMas n\u00e3o se deve cair em excessos: \u201cAqueles que, encontrando\u2011se num festim, provam cada prato e comem um pouco de tudo, arru\u00ednam seriamente o est\u00f4mago, ao qual provocam uma indigest\u00e3o t\u00e3o grave que n\u00e3o dormem a noite inteira, n\u00e3o conseguindo fazer outra coisa sen\u00e3o vomitar\u201d. Os casamentos s\u00e3o grandes ocasi\u00f5es para festejar e alegrar\u2011se; mas n\u00e3o \u00e9 raro, constatava o bispo, que \u201cse deem milhares de desregramentos em passatempos, em banquetes e em conversas\u201d.<\/p>\n<p><strong>Os \u201ccol\u00f3quios alegres e am\u00e1veis\u201d<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entre os passatempos mais comuns e agrad\u00e1veis da sociedade humana, h\u00e1 enfim as conversas familiares, os \u201ccol\u00f3quios alegres e am\u00e1veis\u201d. Os temas tratados podem ser muito diversos. Segundo Camus, o bispo de Genebra n\u00e3o desprezava falar com os amigos \u201cde constru\u00e7\u00f5es, de pintura, de m\u00fasica, de ca\u00e7a, de aves, de plantas, de jardins, de flores\u201d. Sabia extrair, ao seu modo, \u201cdessas coisas tantas eleva\u00e7\u00f5es espirituais\u201d.<br \/>\nNa <em>Filoteia<\/em>, Francisco de Sales consagra cinco cap\u00edtulos ao tema <em>Do falar<\/em>. Entre os dois excessos \u2013 tagarelice e taciturnidade \u2013 h\u00e1 espa\u00e7o para a conversa, cujas qualidades principais devem ser a amabilidade e o bom humor. Tr\u00eas defeitos a destroem: as palavras grosseiras, a mentira e o esc\u00e1rnio.<br \/>\nSeguindo Arist\u00f3teles e Santo Tom\u00e1s, Francisco de Sales elogia a \u201ceutrapelia\u201d, palavra grega que designa a conversa\u00e7\u00e3o agrad\u00e1vel, e por isso a Filoteia deve evitar as \u201crisadas e alegrias est\u00fapidas e insolentes\u201d, como \u201ccortar a fala a fulano, difamar beltrano, provocar terceiro, fazer mal a um tolo\u201d.<br \/>\nA alegria n\u00e3o deve ser reduzida a mero sentimento privado; \u00e9 tamb\u00e9m, em certo sentido, um dever social. As cartas de Francisco de Sales a seus correspondentes est\u00e3o cheias de conselhos desse tipo: \u201cConservai a santa e cordial alegria que nutre as for\u00e7as do esp\u00edrito e edifica o pr\u00f3ximo\u201d. Para \u201ccontentar\u201d os outros, a alegria \u00e9 indispens\u00e1vel: \u201cSinto\u2011me muito consolado pela alegria que permeia o vosso viver; Deus de fato \u00e9 o Deus da alegria\u201d.<br \/>\nPode\u2011se, portanto, brincar e contar gracejos, com a boa consci\u00eancia do religioso avinhonense que havia \u201czombado publicamente\u201d dele, porque havia escrito na Filoteia \u201cque durante a recrea\u00e7\u00e3o se podem contar piadas\u201d. O exemplo vinha de cima:<\/p>\n<p><em>S\u00e3o Lu\u00eds, quando os religiosos queriam falar com ele de assuntos importantes depois do almo\u00e7o: N\u00e3o \u00e9 tempo para falar disso \u2013 dizia \u2013, mas para se recrear com algo alegre e com gracejos: cada um diga honestamente o que quiser.<\/em><\/p>\n<p>Se as palavras s\u00e3o \u201climpas, civis e honestas\u201d, qual o mal nisso? Francisco de Sales recomendava frequentemente a alegria, mesmo \u00e0s visitandinas que podiam ser tentadas a negligenciar a recrea\u00e7\u00e3o. O dever, as responsabilidades, as ocupa\u00e7\u00f5es imp\u00f5em obriga\u00e7\u00f5es que facilmente nos fazem esquecer o \u201cdever da alegria\u201d. Francisco de Sales falava por experi\u00eancia ao escrever:<\/p>\n<p><em>\u201c\u00c9 preciso n\u00e3o apenas fazer a vontade de Deus, mas, para ser uma pessoa devota, \u00e9 preciso faz\u00ea\u2011la de maneira alegre. Se eu n\u00e3o fosse bispo, talvez \u2013 sabendo o que isso quer dizer \u2013 eu n\u00e3o gostaria de s\u00ea\u2011lo. Mas sendo bispo, n\u00e3o apenas sou obrigado a cumprir o que esta pesada voca\u00e7\u00e3o exige; devo tamb\u00e9m cumpri\u2011lo com alegria, devo comprazer\u2011me e consider\u00e1\u2011lo agrad\u00e1vel\u201d.<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 que entender que a alegria nem sempre residia em todos os \u201cplanos\u201d da alma humana, mas \u00e0s vezes apenas no seu \u201c\u00e1pice\u201d.<\/p>\n<p><strong>O humor salesiano<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ficando sem not\u00edcias, a um amigo curioso que as pedia, respondia: \u201cTodas as nossas not\u00edcias reduzem\u2011se a isto: n\u00e3o temos nenhuma\u201d. Observar pequenas estranhezas de uns e outros presta\u2011se bem a alguma observa\u00e7\u00e3o espirituosa. A uma de suas filhas espirituais, um tanto presun\u00e7osa e autossuficiente, lan\u00e7a esta alfinetada gentilmente zombeteira: \u201cSinto\u2011me \u00e0 vontade pelo fato de os meus livros terem encontrado passagem no vosso esp\u00edrito, que \u00e9 t\u00e3o bom que julga bastar\u2011se a si mesmo\u201d. Podem\u2011se autorizar certas damas de Chamb\u00e9ry a entrar no mosteiro para ver a nascente congrega\u00e7\u00e3o? \u201cDisse\u2011lhes que sim, contanto que n\u00e3o tragam a longa cauda [\u2026] S\u00e3o damas muito boas, salvo a vaidade\u201d.<br \/>\nA ironia \u00e9 muito fina nesta passagem de uma prega\u00e7\u00e3o em que zomba da falsa cortesia que se ostenta ao ouvir o pregador: \u201cQuando se \u00e9 convidado para jantar, algu\u00e9m toma para si; aqui, por\u00e9m, \u00e9 extremamente cort\u00eas, porque nunca se deixa de servir aos outros\u201d. As in\u00fameras imagens e compara\u00e7\u00f5es, tomadas em particular dos animais, fazem frequentemente sorrir, porque o bispo evoca n\u00e3o apenas animais \u201cnobres\u201d como o le\u00e3o ou \u201cgraciosos\u201d como as pombas, mas tamb\u00e9m macacos, galinhas, r\u00e3s, camale\u00f5es e crocodilos.<br \/>\nUma grande quest\u00e3o debatida entre os autores espirituais era saber se era permitido rir. Na realidade, h\u00e1 duas maneiras de rir: \u201cO esc\u00e1rnio suscita riso com desprezo e nojo do pr\u00f3ximo; a conversa alegre, por\u00e9m, provoca riso numa simplicidade tranquila, por confian\u00e7a e franqueza \u00edntima, unidas \u00e0 gentileza das palavras\u201d. Quando o bispo de Genebra ensinava catecismo \u00e0s crian\u00e7as, gostava \u201cde fazer rir um pouco os presentes\u201d brincando com as m\u00e1scaras e as dan\u00e7as, tanto que seu audit\u00f3rio o \u201cincitava com palmas a continuar a agir como menino entre as crian\u00e7as\u201d.<br \/>\nO humor \u00e9 o sal da conversa e um dos meios mais seguros para se comunicar com o pr\u00f3ximo. O bispo de Genebra tinha certo gosto por \u201cjogos de palavras\u201d. Falando da brandura para consigo mesmo, zomba gentilmente daqueles que \u201ctendo-se enfurecido, se enfurecem porque se enfureceram, irritam\u2011se porque se irritaram e praguejam porque praguejaram\u201d. A respeito de algumas ilus\u00f5es que alguns fazem sobre segredos bem guardados nos mosteiros femininos, encontramos este agrad\u00e1vel coment\u00e1rio: \u201cN\u00e3o h\u00e1 segredo que n\u00e3o passe secretamente de uma \u00e0 outra\u201d.<br \/>\nQuando soube que o irm\u00e3o Jo\u00e3o Francisco seria seu coadjutor e que em breve o aliviaria do peso da diocese, exclamou: \u201cIsto vale mais do que um chap\u00e9u de cardeal\u201d. Esse irm\u00e3o de car\u00e1ter impetuoso e impaciente p\u00f4s \u00e0 prova sua paci\u00eancia v\u00e1rias vezes, at\u00e9 o ponto de lhe escrever um dia: \u201cPenso, meu irm\u00e3o, que h\u00e1 uma mulher muito afortunada. Adivinha quem \u00e9. [\u2026] Essa mulher muito afortunada \u00e9 aquela com quem n\u00e3o casaste\u201d. Outra vez comparou os tr\u00eas irm\u00e3os Sales a tr\u00eas ingredientes para fazer uma boa salada:<\/p>\n<p><em>\u201cCada um de n\u00f3s tr\u00eas prover\u00e1 o necess\u00e1rio para uma boa salada: Jo\u00e3o Francisco providenciar\u00e1 um bom vinagre, porque \u00e9 muito forte; Lu\u00eds providenciar\u00e1 o sal, porque \u00e9 sensato; e o pobre Francisco \u00e9 um bom mo\u00e7o que servir\u00e1 o azeite, tal \u00e9 sua estima pela do\u00e7ura\u201d.<\/em><\/p>\n<p>Feliz daquele que sabe rir de si mesmo!<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A vida n\u00e3o \u00e9 feita apenas de trabalho e de ocupa\u00e7\u00f5es s\u00e9rias; ela tamb\u00e9m \u00e9&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":47627,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":20,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[1749,2557,2579,2228,2031,2025],"class_list":["post-47634","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-conselhos","tag-deus","tag-educacao","tag-santos","tag-vida","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47634","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47634"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47634\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47641,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47634\/revisions\/47641"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47627"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47634"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47634"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47634"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}