{"id":47590,"date":"2025-12-16T08:54:25","date_gmt":"2025-12-16T08:54:25","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=47590"},"modified":"2025-12-16T08:56:51","modified_gmt":"2025-12-16T08:56:51","slug":"vim-para-servir-e-dar-a-vida-rodolfo-lunkenbein-1939-1976","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/vim-para-servir-e-dar-a-vida-rodolfo-lunkenbein-1939-1976\/","title":{"rendered":"\u00abVim para servir e dar a vida\u00bb. Rodolfo Lunkenbein (1939-1976)"},"content":{"rendered":"<p><em>Em julho de 1976, no cora\u00e7\u00e3o do Mato Grosso brasileiro, um jovem mission\u00e1rio salesiano alem\u00e3o e um catequista ind\u00edgena bororo selaram com sangue sua fidelidade ao Evangelho e sua alian\u00e7a com os mais pobres. Padre Rodolfo Lunkenbein e Sim\u00e3o Bororo foram assassinados enquanto defendiam as terras e os direitos do povo bororo contra a viol\u00eancia dos fazendeiros. O sacrif\u00edcio deles representa um testemunho luminoso de como o an\u00fancio crist\u00e3o se encarna na promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a, no respeito \u00e0s culturas ind\u00edgenas e na defesa dos oprimidos. Este ensaio percorre o caminho espiritual e mission\u00e1rio do padre Rodolfo, desde sua voca\u00e7\u00e3o juvenil at\u00e9 o mart\u00edrio, destacando como sua vida encarnou plenamente o lema escolhido para sua primeira Missa: \u00abVim para servir e dar a vida\u00bb.<\/em><\/p>\n<p><strong>1. Uma peregrina\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Gostaria de come\u00e7ar esta minha interven\u00e7\u00e3o compartilhando o que vivi em maio de 2016, quando fui convidado pelo Inspetor de Campo Grande (Mato Grosso do Sul \u2013 Brasil), P. Gild\u00e1sio Mendes dos Santos, a visitar os lugares onde viveram e foram assassinados o P. Rodolfo Lunkenbein e Sim\u00e3o Bororo e acompanhar o caminho de discernimento sobre a abertura da Causa de beatifica\u00e7\u00e3o. Um discernimento j\u00e1 iniciado, preparado h\u00e1 tempo com pesquisas, testemunhos, documentos, mas que necessitava de um passo orientador e decisivo.<br \/>\nDepois de inaugurar o m\u00eas mariano em Cuiab\u00e1, cidade onde os Salesianos chegaram em 1894, visitei as terras ind\u00edgenas dos Bororo e Xavantes, onde os Salesianos est\u00e3o presentes desde 1904. Ao chegar a Meruri, fui acolhido pela comunidade bororo com rituais de acolhimento pr\u00f3prios daquela cultura (cantos, dan\u00e7as, investidura, pinturas&#8230;). Seguiu-se uma esp\u00e9cie de percurso que se concretizou cada vez mais como uma peregrina\u00e7\u00e3o com algumas etapas e esta\u00e7\u00f5es:<br \/>\n\u2013 Partida do p\u00e1tio da miss\u00e3o, local do assassinato do padre Rodolfo e Sim\u00e3o em 15 de julho de 1976, quase a significar como o p\u00e1tio salesiano \u00e9 realmente um lugar de mart\u00edrio, tanto no sentido da dedica\u00e7\u00e3o pastoral educativa \u00e0 miss\u00e3o recebida, quanto no sentido da disponibilidade de viver com fidelidade a voca\u00e7\u00e3o at\u00e9 a efus\u00e3o de sangue;<br \/>\n\u2013 Parada no cemit\u00e9rio da comunidade bororo, onde est\u00e3o sepultados o P. Rodolfo e Sim\u00e3o e onde dois ind\u00edgenas comemoraram a hist\u00f3ria e a figura das duas testemunhas (como se fazia nos primeiros tempos da Igreja), sublinhando seu amor pelos pequenos e pelos pobres. Falaram com uma vivacidade de lembran\u00e7as e com um envolvimento emocional como se os fatos tivessem ocorrido pouco tempo antes. Na tumba do padre Rodolfo est\u00e1 esculpido o lema que escolheu na ocasi\u00e3o da Primeira Missa: \u00abVim para servir e dar a vida\u00bb. Os Bororo o chamavam de \u201cPeixe Dourado\u201d, quase simbolicamente para lembrar como os primeiros crist\u00e3os expressavam no s\u00edmbolo do peixe o mist\u00e9rio de Cristo;<br \/>\n\u2013 Peregrina\u00e7\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 igreja paroquial da miss\u00e3o, Sagrado Cora\u00e7\u00e3o de Jesus, passando pela Porta Santa. De fato, sendo o Ano da miseric\u00f3rdia, o bispo diocesano havia estabelecido que a igreja de Meruri fosse igreja jubilar, em mem\u00f3ria do padre Rodolfo e Sim\u00e3o. Eles demonstraram com a vida e com a morte que a justi\u00e7a \u00e9 essencialmente um abandono confiante \u00e0 vontade de Deus e defenderam os pobres e os oprimidos, perdoando seus assassinos, como fez Sim\u00e3o antes de morrer, e como o P. Rodolfo havia expressado na ocasi\u00e3o de sua primeira homilia;<br \/>\n\u2013 Celebra\u00e7\u00e3o eucar\u00edstica, na qual se fez mem\u00f3ria do sacrif\u00edcio comum do P. Rodolfo e Sim\u00e3o em uni\u00e3o ao sacrif\u00edcio de Cristo. Meruri representa a alian\u00e7a no sangue: um salesiano, P. Rodolfo, que d\u00e1 a vida pelos Bororo; um Bororo, Sim\u00e3o, que d\u00e1 a vida pelo P. Rodolfo;<br \/>\n\u2013 Encontro com algumas testemunhas: duas mulheres contaram como, por intercess\u00e3o do P. Rodolfo, haviam recebido gra\u00e7as de cura: uma por uma filha muito doente e em perigo de vida; a outra por outra menina atingida por uma infec\u00e7\u00e3o em uma orelha e instantaneamente curada. O encontro com o P. Gonzalo Ochoa, testemunha direta do assassinato do mission\u00e1rio e do \u00edndio Sim\u00e3o, e com o P. Bartolomeu Giaccaria, que desde 1954 trabalha entre os Xavantes. Comovente o testemunho de um jovem aspirante salesiano pertencente aos Bororo que falou do P. Rodolfo com emo\u00e7\u00e3o, dizendo que em sua fam\u00edlia contaram que, gra\u00e7as ao sacrif\u00edcio do mission\u00e1rio salesiano, seu povo n\u00e3o havia se extinguido, mas, ao contr\u00e1rio, cresceu em n\u00famero e tamb\u00e9m em fecundidade vocacional;<br \/>\n\u2013 Visita ao cemit\u00e9rio de Araguaya, onde est\u00e3o conservados os restos mortais dos mission\u00e1rios P. Jo\u00e3o Fuchs e P. Pedro Sacilotti, assassinados pelos Xavantes em 1\u00b0 de novembro de 1934, semente de esperan\u00e7a para a miss\u00e3o salesiana entre os \u00edndios do Mato Grosso.<\/p>\n<p><strong>2. \u00abUma alian\u00e7a de cora\u00e7\u00f5es e de sonhos em terras mission\u00e1rias\u00bb<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Rodolfo Lunkenbein nasceu em 1\u00b0 de abril de 1939 em D\u00f6ringstadt, na Alemanha. Desde adolescente, a leitura das publica\u00e7\u00f5es salesianas despertou nele o desejo de ser mission\u00e1rio. Foi enviado ao Brasil como mission\u00e1rio e fez o est\u00e1gio pr\u00e1tico na miss\u00e3o de Meruri, onde permaneceu at\u00e9 1965. Foi ordenado sacerdote em 29 de junho de 1969 na Alemanha, escolhendo como lema: \u00abVim para servir e dar a vida\u00bb. Ent\u00e3o retornou a Meruri, acolhido com grande afeto pelos Bororo, que lhe deram o nome de Koge Ekureu (Peixe Dourado). Participou em 1972 da funda\u00e7\u00e3o do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (CIMI) e lutou pela defesa das reservas ind\u00edgenas. Em 15 de julho de 1976, foi assassinado no p\u00e1tio da miss\u00e3o salesiana. Em sua \u00faltima visita \u00e0 Alemanha, em 1974, sua m\u00e3e o implorava para ter cuidado, pois a haviam informado dos riscos que seu filho corria. Ele respondeu: \u00abM\u00e3e, por que voc\u00ea se preocupa? Se querem quebrar meu dedo, ofere\u00e7o-lhes minhas duas m\u00e3os. N\u00e3o h\u00e1 nada mais bonito do que morrer pela causa de Deus. Esse seria meu sonho\u00bb.<br \/>\nSim\u00e3o Bororo, amigo do P. Lunkenbein, nasceu em Meruri em 27 de outubro de 1937 e foi batizado em 7 de novembro do mesmo ano. Era membro do grupo de Bororo que acompanhou os mission\u00e1rios P. Pedro Sbardellotto e o Salesiano Coadjutor Jorge W\u00f6rz na primeira resid\u00eancia mission\u00e1ria entre os Xavantes, na miss\u00e3o de Santa Teresina, nos anos 1957-58. Entre 1962 e 1964, participou da constru\u00e7\u00e3o das primeiras casas de tijolos para as fam\u00edlias bororo de Meruri, tornando-se um pedreiro experiente e dedicando o resto de sua vida a esse of\u00edcio. Foi mortalmente ferido ao tentar defender a vida do P. Lunkenbein em 15 de julho de 1976. Antes de morrer, perdoou seus assassinos.<br \/>\nCom seu sacrif\u00edcio, P. Lunkenbein e Sim\u00e3o Bororo testemunharam que h\u00e1 entre n\u00f3s Algu\u00e9m que \u00e9 mais forte do que o mal, mais forte do que aqueles que lucram com a pele dos desesperados, de quem oprime os outros com prepot\u00eancia\u2026 Os m\u00e1rtires n\u00e3o vivem para si, n\u00e3o lutam para afirmar suas pr\u00f3prias ideias, e aceitam ter que morrer apenas por fidelidade ao Evangelho. Fica-se surpreso diante da fortaleza com que enfrentaram a prova. Essa fortaleza \u00e9 sinal da grande esperan\u00e7a que os animava: a esperan\u00e7a certa de que nada e ningu\u00e9m poderia separ\u00e1-los do amor de Deus que nos foi dado em Jesus Cristo.<br \/>\nO P. Lunkenbein anunciava um Deus fraterno, promovia a justi\u00e7a e buscava uma vida em plenitude para o povo bororo, que vivia em um contexto de marginaliza\u00e7\u00e3o, de desprezo, amea\u00e7ado por quem queria ocupar sem escr\u00fapulos sua terra. Ele testemunha como o an\u00fancio do Evangelho se manifesta no respeito e na promo\u00e7\u00e3o da cultura, das tradi\u00e7\u00f5es, dos estilos e ritmos de vida da popula\u00e7\u00e3o ind\u00edgena, sustentando seus processos de liberta\u00e7\u00e3o.<br \/>\nO P. Lunkenbein e Sim\u00e3o viveram um verdadeiro encontro com Jesus Cristo, selando no sangue uma alian\u00e7a profunda, atrav\u00e9s do dom de si: \u00abuma alian\u00e7a de cora\u00e7\u00f5es e de sonhos em terras mission\u00e1rias\u00bb.<\/p>\n<p><strong>3. Em 15 de julho de 1976<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A tempestade que se acumulava h\u00e1 tempo explodiu \u00e0s nove horas daquela manh\u00e3, quando os fazendeiros chegaram a Meruri. N\u00e3o atacaram imediatamente a miss\u00e3o. Pararam dois agrimensores a quatro quil\u00f4metros da aldeia. Desarmaram os quatro ind\u00edgenas que os acompanhavam, os amea\u00e7aram com suas pr\u00f3prias armas, fizeram-nos subir como prisioneiros nos carros e partiram. Chegaram a algumas casas coloniais onde pararam para comer um bocado e beber cacha\u00e7a e rum. Excitados, apontaram decididos para a miss\u00e3o. Estava em curso a antiga luta pela terra. Duas organiza\u00e7\u00f5es ligadas ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, a Funai e o Incra, protegem os interesses, respectivamente, dos ind\u00edgenas e dos colonos; mas no desempenho de suas fun\u00e7\u00f5es encontram n\u00e3o poucas dificuldades. Centenas de pequenos propriet\u00e1rios desalojados das grandes fazendas dos ricos latifundi\u00e1rios invadiam os territ\u00f3rios dos ind\u00edgenas e ali se fixavam, em situa\u00e7\u00f5es \u00e0s vezes de extrema indig\u00eancia. Era o caso de Meruri. A presen\u00e7a dos agrimensores da Funai que vieram repartir as terras havia de repente reacendido a f\u00faria. Quando os fazendeiros chegaram (no total eram 62, armados de pistolas e facas), desejosos de desabafar sua raiva, encontraram apenas um pequeno mission\u00e1rio, o P. Ochoa. Come\u00e7aram a espanc\u00e1-lo, gritando que os mission\u00e1rios eram todos ladr\u00f5es, que queriam para si as terras dos ind\u00edgenas. Os guerreiros bororo haviam partido uma semana antes para a ca\u00e7a \u00e0 arara (o grande papagaio iridescente) e ao pecari (uma esp\u00e9cie de javali). O pequeno mission\u00e1rio, empurrado e insultado, n\u00e3o sabia como se defender, quando chegou o P. Rodolfo.<br \/>\nEstava suado pela fadiga, e sorridente. Tinha as m\u00e3os sujas de graxa, porque teve que consertar mais uma vez o jipe. Os invasores eram homens conhecidos na aldeia. O chefe Eug\u00eanio, que havia terminado o caf\u00e9 da manh\u00e3 e estava se aproximando, reconheceu imediatamente Jo\u00e3o, Preto, e muitos outros. Jo\u00e3o e o P. Rodolfo falavam sobre terras e medi\u00e7\u00f5es, e o mission\u00e1rio tentava dar explica\u00e7\u00f5es. \u00abN\u00e3o \u00e9 assim, essas medi\u00e7\u00f5es s\u00e3o coisas oficiais, ordenadas pela Funai&#8230;\u00bb. Os colonos, por sua vez, se sentiam lesados. Ent\u00e3o, o P. Rodolfo prop\u00f4s fazer a lista de todos que pretendiam protestar: ele mesmo coletaria o protesto e o enviaria \u00e0 Funai, a organiza\u00e7\u00e3o governamental que protege os ind\u00edgenas. Assim, entraram na casa, e o padre Rodolfo se sentou. Escreveu em uma grande folha, um ap\u00f3s o outro, 42 nomes. Aquela folha com a caligrafia evidentemente nervosa ficou sobre a mesa.<br \/>\nO padre Rodolfo n\u00e3o imaginava que estava escrevendo pela \u00faltima vez, e que estava registrando os nomes de seus algozes. Parecia tudo acomodado. O cacique, os nove ind\u00edgenas, os agrimensores, os fazendeiros voltaram para o lado de fora e o padre Rodolfo apertou a m\u00e3o de cada um. Os agrimensores descarregaram de um carro seus equipamentos, para recuper\u00e1-los. Foram retiradas tamb\u00e9m as armas apreendidas dos \u00edndios bororo. Ao ver aquela estranha opera\u00e7\u00e3o, o P. Rodolfo lan\u00e7ou uma exclama\u00e7\u00e3o de espanto e reprova\u00e7\u00e3o. Isso lhe foi fatal. Jo\u00e3o Mineiro imediatamente o atingiu com um tapa. Os ind\u00edgenas correram ao seu lado. Jo\u00e3o tirou do bolso uma pistola Beretta. Estava mirando quando Gabriel, um dos Bororo, agarrou seu pulso. No mesmo instante, Preto sacou sua pistola e disparou contra o mission\u00e1rio. Da varanda, irm\u00e3 Rita viu o P. Rodolfo levar as m\u00e3os ao peito, e sua figura alta e robusta vacilar. Preto disparou mais quatro tiros contra o mission\u00e1rio, que caiu ao ch\u00e3o. O \u00edndio Sim\u00e3o, que havia tentado defender o mission\u00e1rio, foi atingido em cheio. A m\u00e3e do jovem \u00edndio, Tereza, correu at\u00e9 o filho para socorr\u00ea-lo, e recebeu uma bala no peito. E finalmente os agressores fugiram. Saltaram nos carros. Irm\u00e3 Rita correu at\u00e9 onde o P. Rodolfo jazia no sangue. Ele estava vivo, mas em estado cr\u00edtico. P\u00f4de oferecer-lhe apenas uma palavra de conforto: \u00abPadre direttore, torni alla casa del Padre\u00bb (Padre diretor, volte para a casa do Pai). O mission\u00e1rio esbo\u00e7ou um sorriso, ent\u00e3o seu cora\u00e7\u00e3o parou. O sacrif\u00edcio estava consumado. A Missa de Rodolfo Lunkenbein havia terminado.<\/p>\n<p><strong>4. Hist\u00f3ria da Causa<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No dia 7 de setembro de 2016, a Congrega\u00e7\u00e3o das Causas dos Santos comunicou a Dom Prot\u00f3genes Jos\u00e9 Luft, S.d.C., bispo de Barra do Gar\u00e7as (Brasil), a autoriza\u00e7\u00e3o por parte da Santa S\u00e9 para a Causa de mart\u00edrio dos Servos de Deus, Rodolfo Lunkenbein, sacerdote salesiano, e Sim\u00e3o Bororo, leigo, assassinados em \u00f3dio \u00e0 f\u00e9 no dia 15 de julho de 1976 na miss\u00e3o salesiana de Meruri (Mato Grosso \u2013 Brasil).<br \/>\n\u00abMeruri Rodolfo! Meruri Sim\u00e3o! Meruri, mart\u00edrio, miss\u00e3o!\u00bb. Esta frase do poema de Dom Casald\u00e1liga, bispo em\u00e9rito da Prelazia de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, n\u00e3o poderia ser mais acertada para descrever o que aconteceu em Meruri, no dia 31 de janeiro de 2018, quando Dom Prot\u00f3genes Jos\u00e9 Luft, bispo de Barra do Gar\u00e7as, abriu oficialmente o Inqu\u00e9rito diocesano sobre a vida, o mart\u00edrio, bem como a fama de santidade e de sinais dos servos de Deus Rodolfo Lunkenbein, sacerdote professo da Sociedade de S\u00e3o Francisco de Sales, e do ind\u00edgena Sim\u00e3o Cristiano Koge Kudugodu, conhecido como Sim\u00e3o Bororo, leigo.<br \/>\nN\u00e3o poderia haver melhor apresenta\u00e7\u00e3o a Dom Bosco no dia de sua festa: um filho mission\u00e1rio de Dom Bosco e um ind\u00edgena destinat\u00e1rio de sua miss\u00e3o, caminhando juntos na estrada em dire\u00e7\u00e3o aos altares. Assim continua o poema de Dom Pedro Casald\u00e1liga: \u201cNa Missa e na dan\u00e7a, no sangue e na terra, tecem a alian\u00e7a Rodolfo e Sim\u00e3o! Meruri na vida, Meruri na morte, e o amor mais forte, \u00e9 a miss\u00e3o cumprida\u201d.<br \/>\nA Causa avan\u00e7a rapidamente: j\u00e1 foram ouvidas mais de 40 testemunhas, tanto salesianos, irm\u00e3s, \u00edndios bororo, parentes do padre Rodolfo. Incr\u00edvel como esta Causa tocou o cora\u00e7\u00e3o de tantas pessoas na Inspetoria de Mato Grosso, no Brasil salesiano e na Igreja. O exemplo de f\u00e9 e amor pelo Reino de Deus de Rodolfo e Sim\u00e3o \u00e9 verdadeiramente um sinal e um chamado ao renovamento e ao ardor mission\u00e1rio. O P. Rodolfo e Sim\u00e3o fazem parte de uma longa fila de mission\u00e1rios cat\u00f3licos e ind\u00edgenas assassinados que acompanharam, evangelizaram os <em>\u00edndios<\/em> e lutaram por seus direitos. A luta pela defesa da terra, dos povos que a habitam e de suas imensas riquezas naturais, culturais e espirituais foi e ainda \u00e9 fecundada pelo sangue de m\u00e1rtires.<br \/>\nEsta Causa se desenrola no contexto do 125\u00b0 anivers\u00e1rio do in\u00edcio da presen\u00e7a mission\u00e1ria salesiana em Mato Grosso: cada marco pressup\u00f5e sempre uma contribui\u00e7\u00e3o anterior de santidade. Al\u00e9m disso, a Causa se desenrola no caminho de prepara\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o do S\u00ednodo especial para a regi\u00e3o Pan-Amaz\u00f4nica desejado pelo Papa Francisco. Um S\u00ednodo que tem como objetivo \u00abidentificar novas vias para a evangeliza\u00e7\u00e3o do povo de Deus nas \u00e1reas da grande Amaz\u00f4nia, especialmente das popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas\u00bb.<\/p>\n<p><strong>5. \u00c0 escuta do P. Rodolfo<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O P. Lunkenbein, em suas cartas, homilias e outras interven\u00e7\u00f5es, manifestava seu cora\u00e7\u00e3o mission\u00e1rio e a for\u00e7a prof\u00e9tica do Evangelho na promo\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a e da solidariedade. Na primeira homilia pronunciada no 15\u00ba Domingo depois de Pentecostes, na par\u00f3quia de Aschau (Alemanha), no dia 15 de setembro de 1968, o rec\u00e9m-ordenado sacerdote, ap\u00f3s lembrar como \u00abos textos da Missa dominical nos indicam de forma sempre nova o sentido e a finalidade da vida\u00bb, manifestando como a Palavra de Deus sempre foi a l\u00e2mpada que iluminou seu caminho, prossegue comentando o cap\u00edtulo 6\u00b0 da carta de S\u00e3o Paulo aos G\u00e1latas. Antes de tudo, contextualiza de forma realmente significativa a palavra proclamada, despertando a dignidade da pessoa humana como ser comunit\u00e1rio e filho amado de Deus: \u00abSomos seres racionais, n\u00e3o somos animais. Vivemos juntos em comunidade. Somos filhos de Deus, tanto crist\u00e3os quanto n\u00e3o crist\u00e3os, e somos todos amados por Aquele que nos criou e \u00e9 nosso Pai\u00bb. Exorta ent\u00e3o a viver com responsabilidade com uma express\u00e3o realmente sugestiva: \u00abPortanto, todo crist\u00e3o deve agir como uma pessoa humana com uma postura crist\u00e3\u00bb. O P. Rodolfo em todas as fotos aparece como uma pessoa alta, sempre sorridente, com um f\u00edsico forte e robusto, quase a significar tamb\u00e9m sua robustez interior.<br \/>\nQuem se aproximava dele pela primeira vez ficava impressionado com sua imponente altura de 1 metro e 92; no entanto, logo ap\u00f3s o impacto inicial, qualquer um se sentia acolhido pela bondade contagiante e pelo sorriso alegre e afetuoso daquele padre salesiano mission\u00e1rio.<br \/>\nE continuava na homilia: \u00abSejamos humildes, isto \u00e9, sejamos modestos, coloquemo-nos em nosso lugar como criaturas de Deus que \u00e9 nosso Pai, senhor da cria\u00e7\u00e3o, da vida e da morte; esse \u00e9 nosso direcionamento fundamental. Ser humilde n\u00e3o significa desprezar a pr\u00f3pria dignidade, mas ao contr\u00e1rio, ser humilde \u00e9 saber viver na presen\u00e7a de Deus que habita em n\u00f3s\u00bb. O crist\u00e3o, \u00e0 semelhan\u00e7a de Cristo e seguindo suas pegadas, \u00e9 chamado a renunciar a si mesmo e a viver segundo a voca\u00e7\u00e3o recebida: \u00abNossa miss\u00e3o \u00e9 como a dele: estar aqui para os homens, para os pecadores, para os doentes, para os idosos e am\u00e1-los. Assim somos como Cristo Jesus. Nossa tarefa como crist\u00e3os \u00e9 seguir suas pegadas. Seus passos, no entanto, s\u00e3o o caminho do amor e do bem. \u201cN\u00e3o nos cansemos de fazer o bem\u201d\u00bb (Gl 6,9).<br \/>\nConclu\u00eda a homilia com uma ora\u00e7\u00e3o que, \u00e0 luz de sua vida terminada no sacrif\u00edcio da vida, assume um valor prof\u00e9tico extraordin\u00e1rio: \u00abSenhor, tu que nos disseste para amar todos os homens; Pai, tu que nos ensinaste a orar: perdoa-nos as nossas d\u00edvidas, assim como n\u00f3s perdoamos aos nossos devedores. Te pedimos: Que teu reino venha tamb\u00e9m aos nossos inimigos. D\u00e1-lhes o p\u00e3o cotidiano como o d\u00e1s a n\u00f3s. N\u00e3o posso excluir ningu\u00e9m da minha ora\u00e7\u00e3o e do meu amor. E ningu\u00e9m que faz o bem pode ser exclu\u00eddo de Deus. Amemos todos os homens como o Senhor nos amou. Am\u00e9m\u00bb. \u00c9 uma ora\u00e7\u00e3o de perd\u00e3o e reconcilia\u00e7\u00e3o, que pede o p\u00e3o tamb\u00e9m para os inimigos e manifesta um horizonte de amor que n\u00e3o exclui ningu\u00e9m. \u00c9 interessante notar que motivou essa ora\u00e7\u00e3o lembrando a reconcilia\u00e7\u00e3o ocorrida entre Bororo e Xavantes, sempre inimigos declarados, e selada no Natal de 1964, quando um Cacique xavante recebeu o batismo tendo como padrinho um Cacique bororo.<br \/>\nEm seus \u00faltimos escritos aparecem frequentemente alus\u00f5es \u00e0 morte: \u00abMesmo hoje, um mission\u00e1rio deve estar disposto a morrer para cumprir seu dever. A ajuda que nos dar\u00e3o mostra que voc\u00eas entenderam claramente o que significa hoje ser crist\u00e3o: sacrificar-se com Cristo, sofrer com Cristo, morrer com Cristo e vencer com Cristo pela salva\u00e7\u00e3o de todo o mundo, do nosso pr\u00f3ximo\u00bb.<br \/>\n(Carta aos seus compatriotas de 11.08.1975).<br \/>\nA figura do catequista ind\u00edgena Sim\u00e3o representa um modelo de crist\u00e3o \u00abque soube assumir a voca\u00e7\u00e3o com radicalidade evang\u00e9lica, fez a experi\u00eancia da incultura\u00e7\u00e3o do Evangelho em sua pr\u00f3pria vida, testemunhou a f\u00e9 pessoal em Jesus Cristo, compartilhando a alegria do Evangelho com seu povo e os mission\u00e1rios\u00bb. A santidade de P. Rodolfo e Sim\u00e3o \u00e9 testemunho de uma f\u00e9 no Ressuscitado vivida no servi\u00e7o cotidiano, no contato fraterno com as pessoas, no trabalho, na prega\u00e7\u00e3o da Palavra e na catequese, na ora\u00e7\u00e3o ordin\u00e1ria, no amor por Nossa Senhora, na alegria e no empenho evang\u00e9lico pela causa ind\u00edgena.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em julho de 1976, no cora\u00e7\u00e3o do Mato Grosso brasileiro, um jovem mission\u00e1rio salesiano alem\u00e3o&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":6,"featured_media":47583,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":26,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[2559,2561,2557,1881,1893,1845,2226,2228,2231,2619],"class_list":["post-47590","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-benfeitores","tag-carisma-salesiano","tag-deus","tag-martires","tag-missoes","tag-nossos-herois","tag-salesianos","tag-santos","tag-solidariedade","tag-testemunhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47590","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/6"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=47590"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47590\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":47597,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/47590\/revisions\/47597"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/47583"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=47590"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=47590"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=47590"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}