{"id":46098,"date":"2025-10-24T15:23:49","date_gmt":"2025-10-24T15:23:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=46098"},"modified":"2025-10-24T15:28:22","modified_gmt":"2025-10-24T15:28:22","slug":"discurso-do-reitor-mor-em-catania-chamados-a-ser-sinais-de-esperanca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/comunicacoes-do-reitor-mor\/discurso-do-reitor-mor-em-catania-chamados-a-ser-sinais-de-esperanca\/","title":{"rendered":"Discurso do Reitor-Mor em Cat\u00e2nia. Chamados a ser sinais de esperan\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 27 de setembro de 2025, dom Fabio Attard, Reitor-Mor dos Salesianos, recebeu a cidadania honor\u00e1ria de Cat\u00e2nia por parte do prefeito de Cat\u00e2nia, avv. Enrico Trantino, proferindo um discurso sobre a emerg\u00eancia educativa contempor\u00e2nea. Partindo da an\u00e1lise da &#8220;sociedade l\u00edquida&#8221; de Bauman, dom Attard denuncia uma cultura que transforma os jovens de educandos em clientes a serem seduzidos, deixando-os sem pontos de refer\u00eancia num deserto existencial. Remetendo-se \u00e0 heran\u00e7a de dom Bosco, ele ressalta como os jovens buscam desesperadamente adultos aut\u00eanticos e propostas valorativas integrais. O discurso faz um apelo urgente para construir alian\u00e7as educativas entre institui\u00e7\u00f5es civis e religiosas, investindo na forma\u00e7\u00e3o de educadores qualificados. Conclui invocando a coragem da esperan\u00e7a para oferecer \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es caminhos dignos rumo ao futuro, definindo essa miss\u00e3o como uma responsabilidade coletiva imprescind\u00edvel.<br \/>\n<\/em><\/p>\n<p><strong>1. A urg\u00eancia educativa como boa not\u00edcia<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Estou convencido de que aqueles de n\u00f3s que atuamos na fronteira da educa\u00e7\u00e3o, em diversos ambientes e itiner\u00e1rios, percebemos que os tempos mudaram. Faz bem enfrentar essa mudan\u00e7a e coment\u00e1-la, porque ela traz repercuss\u00f5es no cotidiano educativo que s\u00e3o bastante significativas. Um dos observadores mais atentos da sociedade atual, o fil\u00f3sofo Zygmunt Bauman, comentando a transi\u00e7\u00e3o cultural e social de que somos testemunhas, escreve assim:<\/p>\n<p><em>A cultura l\u00edquida moderna, ao contr\u00e1rio daquela da \u00e9poca da constru\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es, n\u00e3o tem pessoas a educar, mas clientes a seduzir. E, diferentemente daquela &#8220;s\u00f3lido-moderna&#8221; que a precedeu, n\u00e3o deseja mais afastar-se gradualmente do jogo, mas o quanto antes poss\u00edvel. Seu objetivo agora \u00e9 tornar a pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia permanente, temporalizando todos os aspectos da vida de seus ex-pupilos, agora transformados em clientes.<br \/>\n<\/em><br \/>\nGostaria de come\u00e7ar por essa reflex\u00e3o como ponto de partida porque, na necessidade e na urg\u00eancia de comentar as atuais situa\u00e7\u00f5es sociais em sua totalidade, precisamos sobretudo daquelas luzes que nos ajudem a reconhecer com mais clareza o estado atual da realidade. Quando se trata de nos aproximar da vida dos nossos jovens, a op\u00e7\u00e3o de conhecer a sua hist\u00f3ria e o seu habitat torna-se um imperativo categ\u00f3rico.<br \/>\nN\u00f3s, Salesianos de Dom Bosco, temos em nosso DNA essa inclina\u00e7\u00e3o natural, ou seja, sair ao encontro dos jovens onde quer que estejam. Pela sua natureza, o nosso modo de encontrar os jovens n\u00e3o pressup\u00f5e condi\u00e7\u00f5es pr\u00e9vias. Procuramos simplesmente estar pr\u00f3ximos, viver um encontro sem preconceitos, sem pr\u00e9-julgamentos. Tudo isso, por\u00e9m, n\u00e3o significa que n\u00e3o devamos equipar-nos com uma vis\u00e3o bem clara e uma forma\u00e7\u00e3o adequada. Ao contr\u00e1rio, n\u00e3o podemos encontrar hoje os jovens de uma forma saud\u00e1vel e curativa se n\u00e3o estivermos preparados com um conhecimento s\u00f3lido e amplo dos v\u00e1rios elementos que condicionam a viv\u00eancia social, familiar e cultural dos nossos jovens. Somente a boa vontade de encontr\u00e1-los n\u00e3o basta.<br \/>\nA todos n\u00f3s, adultos e peregrinos dos jovens, pergunta-se se somos pessoas equipadas com uma forma\u00e7\u00e3o integral. Quem quiser ser verdadeiramente servo dos jovens precisa, antes de tudo, interrogar-se sobre as pr\u00f3prias motiva\u00e7\u00f5es, as mais profundas, aquelas que habitam o cora\u00e7\u00e3o e o impelem a estar presente entre eles, a agir em seu favor. Em termos claros, devem ser fortalecidas as raz\u00f5es do nosso ser educadores.<br \/>\nEste primeiro passo exige um segundo: interrogar-se sobre quais s\u00e3o as fontes e as ra\u00edzes que alimentam tais motiva\u00e7\u00f5es.<br \/>\nInterroguemo-nos se \u00e9 realmente amar os jovens permitir-lhes todas as possibilidades sem limites e sem uma vis\u00e3o sobre onde queremos que eles cheguem. Interroguemo-nos se o objetivo \u00fanico \u00e9 realmente buscar o verdadeiro bem dos jovens, ou que eles apenas desfrutem do tempo e se sintam emocionalmente gratificados. Interroguemo-nos se \u00e9 o caminho certo oferecer aos jovens ocasi\u00f5es e espa\u00e7os onde o desejo superficial do imediato possa ser satisfeito sem &#8216;se&#8217; e sem &#8216;mas&#8217;. Uma sociedade em que os adultos veem os jovens como clientes \u00e9 uma sociedade que perdeu a b\u00fassola para o futuro, encontrando o atalho da utilidade e do lucro imediato. Um lucro pago com a moeda do fracasso educativo.<br \/>\nEscolhas educativas e pol\u00edticas que, consciente ou inconscientemente, seguem esse caminho acabam por oferecer aos jovens apenas a oportunidade de consumir o tempo da juventude. Mas sabemos, todos, que a juventude, enquanto tempo, certamente n\u00e3o \u00e9 eterna. A beleza da juventude, ao contr\u00e1rio, reside justamente em ser uma fase da vida que, precedida pela inf\u00e2ncia e pela adolesc\u00eancia, se torna um ventre que gera a idade adulta.<br \/>\nUma sociedade que se limita a oferecer aos jovens espa\u00e7os e experi\u00eancias em que o desejo \u00e9 simplesmente saciado, sem a capacidade de ser educado e amadurecido, \u00e9 uma sociedade que acaba por consumir a juventude, fazendo-a perder a capacidade de gerar um futuro promissor e digno. Todos n\u00f3s, respons\u00e1veis de diferentes maneiras, protagonistas da vida social, direta ou indiretamente ligados ao campo educativo, temos a responsabilidade de cuidar dessa fase, vendo nela precisamente um ventre que hoje det\u00e9m a chave do porvir. Em todo itiner\u00e1rio educativo, o futuro est\u00e1 presente; o futuro est\u00e1 no presente.<br \/>\nCom raz\u00e3o, o mesmo fil\u00f3sofo Bauman pergunta-se como denominar a cultura atual. E responde pedindo para escutarmos o alerta, caso tamb\u00e9m n\u00f3s sejamos c\u00famplices em tornar esta fase atual da hist\u00f3ria \u201cL\u00edquida como uma grande loja de departamentos\u201d.<\/p>\n<p><strong>2. Reconhecer a busca de significado<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Como um primeiro apelo, urge que n\u00f3s, educadores e educadoras, protagonistas da vida social em todos os n\u00edveis, reconhe\u00e7amos que esta \u00e9 uma gera\u00e7\u00e3o que est\u00e1 em busca. A mudan\u00e7a de paradigma nas \u00faltimas d\u00e9cadas foi t\u00e3o intensa que causou um verdadeiro e profundo terremoto na mem\u00f3ria coletivo-social. De uma sociedade monol\u00edtica, com o mesmo vocabul\u00e1rio, com institui\u00e7\u00f5es tradicionais bem firmes, como a Igreja, a fam\u00edlia e a escola, passamos a uma sociedade marcada pela fragmenta\u00e7\u00e3o e pelo individualismo. A imagem que muitas vezes caracteriza a juventude \u00e9 a de uma gera\u00e7\u00e3o de jovens bons e sinceros, mas que, em nome de uma falsa concep\u00e7\u00e3o de liberdade e sob a desculpa de que n\u00e3o devemos condicion\u00e1-los, deixamos sem mapas, sem alimento e sem \u00e1gua, no meio do deserto das nossas cidades.<br \/>\n\u00c9 uma trag\u00e9dia verdadeira e real ver como, das palavras dos chamados profetas da seculariza\u00e7\u00e3o, que anunciavam uma nova era de liberdade do pesado fardo da religi\u00e3o, chegamos a uma situa\u00e7\u00e3o de vazio e sem sentido. Proclamando que agora estamos livres das supersti\u00e7\u00f5es e dos modelos culturais tradicionais antiquados, de uma vis\u00e3o institucionalizada que n\u00e3o nos permitiu crescer como quer\u00edamos, percebemos que o que est\u00e1 emergindo \u00e9 um cen\u00e1rio marcado pela desorienta\u00e7\u00e3o e a perda de pontos de refer\u00eancia que os pr\u00f3prios jovens hoje est\u00e3o buscando desesperadamente.<br \/>\nChamava imediatamente a aten\u00e7\u00e3o, talvez at\u00e9 mesmo com entusiasmo, o imagin\u00e1rio de uma liberdade sem freios e sem limites. Mas todos n\u00f3s conhecemos a realidade que essa ilus\u00e3o nos trouxe. Quando nossos jovens olham para n\u00f3s hoje, n\u00e3o ficam nada impressionados. Sentem falta de uma gera\u00e7\u00e3o de adultos significativos que despertem a energia do sonho, a pot\u00eancia e o entusiasmo de se dedicar a causas v\u00e1lidas, justas e humanamente enriquecedoras.<br \/>\n\u00c9 preciso partir desse apelo urgente, ou melhor, desse grito forte e ao mesmo tempo silencioso. Primeiro, o Papa Francisco e agora, o Papa Le\u00e3o colocam-se em um espa\u00e7o sincronizado com a voz oculta e profunda dos jovens. A essa voz que busca, estes pastores respondem com uma linguagem que os jovens realmente sentem como pr\u00f3pria. N\u00e3o prometem ilus\u00f5es, n\u00e3o oferecem solu\u00e7\u00f5es emocionalmente gratificantes, mas um apelo sadio e curativo, uma proximidade que comunica um testemunho coerente e uma mensagem cr\u00edvel. A sua voz fala ao cora\u00e7\u00e3o inquieto dos jovens, cansado das falsas promessas e de um vazio eloquente.<\/p>\n<p><strong>3. Dom Bosco \u2013 projeto integral<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nesse sentido, num contexto hist\u00f3rico cronologicamente distante de n\u00f3s, Dom Bosco transmite-nos uma experi\u00eancia que nos \u00e9 verdadeiramente pr\u00f3xima no plano afetivo. Ele entendeu esse movimento do cora\u00e7\u00e3o. \u00c9 um movimento do cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o conhece barreiras temporais, culturais ou continentais. Dom Bosco ensina-nos que o cora\u00e7\u00e3o dos jovens tem, em sua base, um substrato divino; alimenta-se de ra\u00edzes m\u00edsticas. \u00c9 o cora\u00e7\u00e3o de cada jovem e de cada tempo. Um cora\u00e7\u00e3o que habita de maneira singular todos os contextos e todas as culturas e, ao mesmo tempo, eleva-se acima deles. O cora\u00e7\u00e3o dos jovens, tanto os de ontem quanto os de hoje, \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o que no presente sempre sonha o futuro. Hoje, a diferen\u00e7a \u00e9 que esse cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 clamando com um olhar questionador e uma busca marcada por uma resili\u00eancia silenciosa. Hoje, num contexto descuidado e sem conte\u00fado, \u00e9 mais palp\u00e1vel do que nunca que os jovens, nascidos para olhar adiante e para o alto, quando olham ao redor, quando pedem ajuda, apoio, amor, sentem que o seu \u00e9 um grito no deserto. Ao seu clamor, respondem de maneira forte o vazio e o sil\u00eancio.<br \/>\nDom Bosco compreendeu tudo isso no momento certo, e a primeira coisa que fez foi colocar-se ao lado deles nas ruas de Turim. Uma proximidade que testemunhava a sua op\u00e7\u00e3o de ser peregrino e servo. Fruto de uma escuta saud\u00e1vel e prof\u00e9tica, a partir de um movimento de sa\u00edda incorporando-se na sua hist\u00f3ria, seguiu-se uma proposta variada e m\u00faltipla: um espa\u00e7o humano para encontrar-se como amigos, uma casa onde se pode experimentar a beleza do esp\u00edrito de fam\u00edlia, propostas educativas que os preparavam para um futuro digno, experi\u00eancias de valores que n\u00e3o escondem e n\u00e3o se acanham de oferecer uma proposta espiritual, enraizada na vis\u00e3o de um Deus que ama gratuitamente e perdoa abundantemente. No pleno respeito pelos jovens, os seus ritmos e as suas hist\u00f3rias, Dom Bosco percebeu que o presente \u00e9 precisamente um ventre que gera vida e, como tal, deve ser levado a s\u00e9rio em todos os n\u00edveis, com respeito e amor, de forma integral.<br \/>\nOntem como hoje, os jovens buscam adultos de semblante l\u00edmpido e cora\u00e7\u00e3o puro. Procuram adultos que sejam peregrinos marcados por motiva\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis. N\u00e3o querem ser tratados como clientes, como consumidores explorados pela tabela do lucro. A comprovar tudo isso est\u00e1 o testemunho que vemos tamb\u00e9m hoje: experi\u00eancias v\u00e1lidas que nos mostram que, quando se encontram em ambientes saud\u00e1veis, com pessoas aut\u00eanticas e propostas de valores, os jovens aprendem gradualmente a confiar e a confiar-se.<\/p>\n<p><strong>4. Parcerias educativas<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 grande a responsabilidade de todos n\u00f3s nessa fase hist\u00f3rica. Trata-se de um tempo em que somos chamados a favorecer e promover as bases para verdadeiras parcerias educativas e pastorais. N\u00e3o podemos permitir-nos olhar para o outro lado, permanecer fechados e obstinados em escolhas que descartam esfor\u00e7os e investimentos, de recursos e de pessoas, no campo educativo. \u00c9 muito menos tempo de interpretar e condicionar os desafios educativos atrav\u00e9s de linhas ideol\u00f3gicas, j\u00e1 superadas por terem fracassado.<br \/>\nEm uma cultura geopol\u00edtica global, onde investir na economia de guerra est\u00e1 se tornando mais importante do que investir nos pobres e famintos e dar-lhes de comer, \u00e9 urgente e imperativo construir e apoiar processos educativos que preparem para o mundo do trabalho, formar jovens que assumam o bem da sociedade em n\u00edvel social, pol\u00edtico e religioso. \u00c9 grande a responsabilidade que temos diante de n\u00f3s.<br \/>\nSomos chamados a educar as novas gera\u00e7\u00f5es em uma \u00e9poca marcada por uma profunda busca de sentido. Isso representa um dos desafios mais complexos do nosso tempo. Somos chamados a reconhecer que vivemos num mundo assinalado pela indiferen\u00e7a e pelo &#8220;desencanto&#8221;, onde os sistemas tradicionais de significado foram postos em quest\u00e3o pela racionaliza\u00e7\u00e3o moderna, e onde o modelo econ\u00f4mico liberal vem deslocando a aten\u00e7\u00e3o da pessoa e do seu bem integral para uma corrida fren\u00e9tica em vista do lucro.<br \/>\nComo respons\u00e1veis pelo bem comum, o que deve alertar-nos imediatamente \u00e9 o fato de corrermos o risco n\u00e3o s\u00f3 de esquecer as respostas \u00e0s principais quest\u00f5es sobre a vida, mas, ainda pior, o risco de esquecer tamb\u00e9m as perguntas que nos impelem a agir corretamente. Se n\u00f3s, adultos e respons\u00e1veis pelo bem comum em suas v\u00e1rias dimens\u00f5es \u2013 educativa, espiritual, cultural e outras \u2013 perdermos tamb\u00e9m a capacidade de entender as perguntas, especialmente as dos jovens, corremos o risco de transmitir uma vis\u00e3o derrotista, um futuro desprovido de esperan\u00e7a.<br \/>\nSobre isso, Dom Bosco deixa-nos uma li\u00e7\u00e3o que ainda hoje nos estimula e encoraja. Cada ponto de partida, sobretudo aquele marcado pela pobreza e a mis\u00e9ria, n\u00e3o pode ter a \u00faltima palavra. O rosto dos jovens, sobretudo daquele marcado por limites e pela mis\u00e9ria, \u00e9 um convite a criar parcerias. \u00c9 preciso que quem se importa com o bem da humanidade veja no rosto dos jovens um recurso humano que pede para ser ajudado a fim de poder ser protagonista.<br \/>\nSe n\u00e3o \u00e9 l\u00edcito ver os jovens como um problema, \u00e9 muito menos sensato v\u00ea\u2011los como pobres mendicantes. Eles vivem num espa\u00e7o definido por quest\u00f5es profundas. A partir dessas quest\u00f5es, constroem\u2011se juntos caminhos e trajet\u00f3rias para o seu bem. Interpela-nos hoje essa base de bondade que j\u00e1 chamava a aten\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Dom Bosco.<br \/>\nOs jovens t\u00eam uma tend\u00eancia fundamental para o bem. Os jovens mant\u00eam uma abertura natural aos valores mais profundos, ainda quando n\u00e3o conseguem articul\u00e1-los conceitualmente. \u00c9 aqui que surge a urg\u00eancia de educadores e formadores que, sabendo reconhecer o bem que habita o cora\u00e7\u00e3o dos jovens, consigam favorecer espa\u00e7os e experi\u00eancias em que possa emergir essa bondade. Que o bem possa encontrar, atrav\u00e9s de projetos, propostas, ambientes e experi\u00eancias sistem\u00e1ticas, um ambiente sist\u00eamico que favore\u00e7a o seu crescimento.<\/p>\n<p><strong>5. Forma\u00e7\u00e3o de protagonistas no campo educativo<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nessa perspectiva, um dos desafios que temos na educa\u00e7\u00e3o dos jovens \u00e9 oferecer itiner\u00e1rios que formem e preparem agentes no campo educativo e pastoral. O futuro das novas gera\u00e7\u00f5es passa por op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas e propostas formativas que, antes de tudo, preparem educadores e formadores em todos os campos de natureza educativa. Esse \u00e9 um desafio transversal. Formar docentes, agentes sociais, educadores e animadores para jovens, adolescentes e crian\u00e7as, tanto para o Estado quanto para a Igreja, \u00e9 um desafio que olha para os jovens com uma vis\u00e3o de longo alcance. Investir na forma\u00e7\u00e3o de protagonistas no campo educativo \u00e9 um gesto de vis\u00e3o de futuro que garante, no porvir, cidad\u00e3os honestos e pessoas marcadas por valores transcendentes e espirituais.<br \/>\nPromover parcerias no territ\u00f3rio, tentar trabalhar juntos pelo bem dos jovens, especialmente os mais vulner\u00e1veis, n\u00e3o \u00e9 um jogo partid\u00e1rio, mas um dever humano coletivo. Estudar juntos os desafios para poder tra\u00e7ar os passos a seguir \u00e9 um caminho iluminado pela dignidade e pela compaix\u00e3o. Nessa l\u00f3gica compartilhada por todos, uma l\u00f3gica que coloca o bem dos nossos jovens como prioridade, est\u00e1 definitivamente superada a leitura ideol\u00f3gica que marcou boa parte do \u00faltimo s\u00e9culo na Europa. O p\u00f3s-secular, assim como o p\u00f3s-moderno, \u00e9pocas sem nome nascidas da seculariza\u00e7\u00e3o e da modernidade, deixam-nos todos \u00f3rf\u00e3os, fazendo-nos crer que evolu\u00edmos. Eliminados os pontos de refer\u00eancia que serviam de b\u00fassola, procura-se recuperar agora, com grande esfor\u00e7o, em meio \u00e0 desertifica\u00e7\u00e3o existencial, aquilo que jogamos fora na lixeira da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Gostaria de concluir este discurso com uma reflex\u00e3o do Papa Bento XVI quando, em 2008, comentava o apelo da urg\u00eancia educativa. Ao final de seu discurso ele escreve \u201ccomo na educa\u00e7\u00e3o \u00e9 decisivo o sentido de responsabilidade\u201d. O Papa Bento comenta o chamado \u00e0 responsabilidade nos seguintes termos:<\/p>\n<p><em>A responsabilidade \u00e9 em primeiro lugar pessoal, mas existe tamb\u00e9m uma responsabilidade que partilhamos juntos, como cidad\u00e3os de uma mesma cidade e de uma na\u00e7\u00e3o, como membros da fam\u00edlia humana e, se somos crentes, como filhos de um \u00fanico Deus e membros da Igreja. De facto as ideias, os estilos de vida, as leis, as orienta\u00e7\u00f5es gerais da sociedade em que vivemos, e a imagem que ela d\u00e1 de si mesma atrav\u00e9s dos meios de comunica\u00e7\u00e3o, exercem uma grande influ\u00eancia sobre a forma\u00e7\u00e3o das novas gera\u00e7\u00f5es, para o bem, mas muitas vezes tamb\u00e9m para o mal. Contudo a sociedade n\u00e3o \u00e9 uma abstra\u00e7\u00e3o; no final somos n\u00f3s pr\u00f3prios, todos juntos, com as orienta\u00e7\u00f5es, as regras e os representantes que elegemos, mesmo sendo diversos os pap\u00e9is e as responsabilidades de cada um. Portanto, h\u00e1 necessidade da contribui\u00e7\u00e3o de cada um de n\u00f3s, de cada pessoa, fam\u00edlia ou grupo social, para que a sociedade, come\u00e7ando pela nossa cidade de Roma, se torne um ambiente mais favor\u00e1vel \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. (Carta do Santo Padre Bento XVI \u00e0 diocese e \u00e0 cidade de Roma sobre a urgente tarefa da educa\u00e7\u00e3o, 21 de janeiro de 2008)<br \/>\n<\/em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o podemos permitir-nos tomar levianamente este apelo que nos \u00e9 feito. Os jovens, de v\u00e1rias maneiras e com diferentes clamores, pedem-nos &#8220;hoje&#8221; para ajud\u00e1-los a construir o &#8220;amanh\u00e3&#8221;. Colocar-nos como peregrinos com eles e por eles \u00e9 a miss\u00e3o mais urgente, a escolha mais nobre que, como cidade, todos juntos podemos e devemos assumir, pelos jovens que Dom Bosco chamava de &#8220;a por\u00e7\u00e3o mais delicada e mais preciosa da sociedade humana.&#8221;<br \/>\nDesejo a esta cidade, \u00e0s suas institui\u00e7\u00f5es civis e religiosas, \u00e0s v\u00e1rias ONG, que tenham a coragem da esperan\u00e7a, para que juntas possam oferecer aos jovens propostas de futuro, caminhos que lhes deem sinais de um futuro digno.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 27 de setembro de 2025, dom Fabio Attard, Reitor-Mor dos Salesianos, recebeu a cidadania&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":20,"featured_media":46091,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":6,"footnotes":""},"categories":[170],"tags":[2561,1749,2557,2579,2232,2592,1815,2610,2226,2019],"class_list":["post-46098","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-comunicacoes-do-reitor-mor","tag-carisma-salesiano","tag-conselhos","tag-deus","tag-educacao","tag-esperanca","tag-familia-salesiana","tag-juventude","tag-nossos-guias","tag-salesianos","tag-viagens"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46098","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/20"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46098"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46098\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":46105,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46098\/revisions\/46105"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46091"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46098"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46098"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46098"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}