{"id":46073,"date":"2025-10-23T07:05:23","date_gmt":"2025-10-23T07:05:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=46073"},"modified":"2025-10-23T07:07:34","modified_gmt":"2025-10-23T07:07:34","slug":"educar-a-vontade-com-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/educar-a-vontade-com-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"Educar a vontade com S\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"<p>Com as faculdades do esp\u00edrito, como o intelecto e a mem\u00f3ria, permanecemos no \u00e2mbito do conhecer. Agora trata-se de adentrar no campo do agir. De fato, \u00abembora a \u00e1rvore da prud\u00eancia finque suas ra\u00edzes no intelecto, suas flores e frutos s\u00e3o produto da vontade\u00bb.<\/p>\n<p><strong>A faculdade principal<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Segundo a antropologia escol\u00e1stica, familiar ao bispo de Genebra, a principal faculdade do homem poderia ser o intelecto. N\u00e3o \u00e9 assim. Como j\u00e1 haviam feito Santo Agostinho e alguns fil\u00f3sofos como Duns Scotus, S\u00e3o Francisco de Sales atribui o primeiro lugar \u00e0 vontade.<br \/>\n\u00c9 a vontade, monarca da alma, \u00abvontade toda nobre\u00bb, que deve governar todas as \u00abpot\u00eancias\u00bb da alma. Entre todas as faculdades do esp\u00edrito humano, a vontade livre \u00e9 a \u00fanica verdadeiramente no poder da pessoa humana:<\/p>\n<p><em>N\u00e3o somos donos da nossa fantasia, pois n\u00e3o podemos nos defender de um n\u00famero quase infinito de ilus\u00f5es e imagina\u00e7\u00f5es. O mesmo se pode dizer da mem\u00f3ria, j\u00e1 que muitas vezes gostar\u00edamos de lembrar de muitas coisas e n\u00e3o conseguimos; ou, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o lembrar de outras tantas que gostar\u00edamos de esquecer. Por fim, percorrei tudo o que h\u00e1 em v\u00f3s, encontrareis apenas uma pequena parte da qual somos donos: \u00e9 a vontade.<br \/>\n<\/em><br \/>\nO autor do <em>Te\u00f3timo<\/em> quer demonstrar que a vontade \u00e9 o verdadeiro recurso da pessoa humana, pois, gra\u00e7as a ela e ao seu redor, convergem, em um conjunto harmonioso, todos os elementos ps\u00edquicos e espirituais que comp\u00f5em o homem.<\/p>\n<p><strong>Mas como funciona a vontade?<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A resposta \u00e9 relativamente f\u00e1cil se nos referirmos ao modelo salesiano da medita\u00e7\u00e3o, com as tr\u00eas partes que a comp\u00f5em: as considera\u00e7\u00f5es, os afetos e as resolu\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAs <strong><em>considera\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong> consistem em refletir e meditar sobre um bem, uma verdade, um valor. Essa reflex\u00e3o ou medita\u00e7\u00e3o normalmente produz afetos, ou seja, grandes desejos de adquirir e possuir esse bem ou valor, e esses afetos s\u00e3o capazes de \u00abmover a vontade\u00bb, que, uma vez \u00abmovida\u00bb, produz \u00abresolu\u00e7\u00f5es\u00bb. Enquanto as considera\u00e7\u00f5es derivam claramente das faculdades racionais do esp\u00edrito (intelecto, mem\u00f3ria, sem esquecer a imagina\u00e7\u00e3o), os afetos e as resolu\u00e7\u00f5es fazem parte do que Francisco de Sales chama de \u00abcora\u00e7\u00e3o\u00bb.<br \/>\nOs <strong><em>afetos<\/em><\/strong> que movem a vontade s\u00e3o doze, geralmente em pares: amor e \u00f3dio, desejo e fuga, esperan\u00e7a e desespero, alegria e tristeza, coragem e medo, ira e sentimento de triunfo. Para S\u00e3o Francisco de Sales, o amor aparece sempre em primeiro lugar. O amor governa os outros afetos e entra primeiro no cora\u00e7\u00e3o: \u00abA tristeza, o temor, a esperan\u00e7a, o \u00f3dio e os outros afetos da alma n\u00e3o entram no cora\u00e7\u00e3o se o amor n\u00e3o os arrasta consigo\u00bb.<br \/>\nCuriosamente, a vontade tem antes de tudo uma dimens\u00e3o passiva, enquanto o amor \u00e9 a pot\u00eancia ativa que move e comove. A vontade n\u00e3o decide se n\u00e3o \u00e9 movida por esse est\u00edmulo predominante: o amor. E o amor se imp\u00f5e \u00e0 pr\u00f3pria vontade. Tal \u00e9 a for\u00e7a do amor que, para quem ama, nada \u00e9 dif\u00edcil, \u00ab<em>amanti nihil difficile<\/em>\u00bb; melhor ainda, \u00abpara o amor nada \u00e9 imposs\u00edvel\u00bb.<br \/>\nO fruto da vontade s\u00e3o as <strong><em>resolu\u00e7\u00f5es<\/em><\/strong>. Querer \u00e9 escolher. Enquanto se \u00e9 crian\u00e7a, ainda se \u00e9 inteiramente dependente e incapaz de escolher, mas ao crescer as coisas mudam rapidamente e as escolhas se imp\u00f5em. Normalmente as escolhas s\u00e3o dif\u00edceis porque exigem que se renuncie a um bem em favor de outro. Na maioria das vezes o cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 dividido entre os afetos da parte inferior da alma e as resolu\u00e7\u00f5es da parte superior.<\/p>\n<p><strong>A for\u00e7a do amor<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00abO amor \u00e9 forte como a morte\u00bb, repete Francisco de Sales com o <em>C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos<\/em>; ou melhor, \u00abo amor, mais forte que a morte, amolece, enternece e faz derreter os cora\u00e7\u00f5es muito mais rapidamente do que todas as outras paix\u00f5es\u00bb. Considerando bem, o homem vale apenas pelo amor, e todas as pot\u00eancias e faculdades humanas, especialmente a vontade, tendem a ele: \u00abDeus quer o homem somente pela alma, e a alma somente pela vontade e a vontade somente pelo amor\u00bb.<br \/>\nO amor se serve da for\u00e7a de vontade para governar todas as faculdades e todas as paix\u00f5es. Ser\u00e1 um \u00abamor armado\u00bb e tal \u00abamor armado, chegando ao zelo, submeter\u00e1 nossas paix\u00f5es\u00bb. Essa vontade livre \u00abreside na parte suprema e mais espiritual da alma\u00bb e \u00abn\u00e3o depende de outro sen\u00e3o de Deus e de si mesma; e quando todas as outras faculdades da alma est\u00e3o perdidas e submetidas ao inimigo, s\u00f3 ela permanece dona de si para n\u00e3o consentir de modo algum\u00bb.<br \/>\nA escolha, por\u00e9m, n\u00e3o est\u00e1 apenas no objetivo a ser alcan\u00e7ado, mas tamb\u00e9m na inten\u00e7\u00e3o que preside a a\u00e7\u00e3o. \u00c9 um aspecto ao qual Francisco de Sales \u00e9 particularmente sens\u00edvel, porque toca a qualidade do agir. De fato, o fim perseguido imprime um sentido \u00e0 a\u00e7\u00e3o. Pode-se decidir realizar um ato por muitos motivos. Diferentemente dos animais, \u00abo homem \u00e9 t\u00e3o dono de suas a\u00e7\u00f5es humanas e racionais que as realiza todas por um fim\u00bb; pode at\u00e9 mudar o fim natural de uma a\u00e7\u00e3o, acrescentando-lhe um fim secund\u00e1rio, \u00abcomo quando, al\u00e9m da inten\u00e7\u00e3o de socorrer o pobre a quem se destina a esmola, acrescenta a inten\u00e7\u00e3o de obrigar o indigente a fazer o mesmo\u00bb.<br \/>\nEntre os pag\u00e3os, as inten\u00e7\u00f5es raramente eram desinteressadas: \u00abfaziam quase tudo por honra ou por algum outro prop\u00f3sito ef\u00eamero, como lembra Santo Agostinho\u00bb. As inten\u00e7\u00f5es podem estar contaminadas \u00abpor orgulho, vaidade, interesse temporal ou algum outro motivo ruim\u00bb. Existem conversas que s\u00e3o ruins simplesmente porque \u00abs\u00e3o feitas com m\u00e1 inten\u00e7\u00e3o\u00bb. \u00c0s vezes \u00abfingimos querer ser os \u00faltimos e nos sentamos no fim da mesa, mas para passar com mais honra para a cabeceira\u00bb.<br \/>\n\u00abPurifiquemos, portanto, <em>Te\u00f3timo<\/em>, enquanto pudermos, todas as nossas inten\u00e7\u00f5es\u00bb, pede o autor do <em>Tratado do amor de Deus<\/em>. A boa inten\u00e7\u00e3o \u201canima\u201d as menores a\u00e7\u00f5es e os gestos simples do dia a dia. De fato, \u00abatingimos a perfei\u00e7\u00e3o n\u00e3o fazendo muitas coisas, mas fazendo-as com uma inten\u00e7\u00e3o pura e perfeita\u00bb. N\u00e3o se deve perder a coragem, porque \u00absempre se pode corrigir a pr\u00f3pria inten\u00e7\u00e3o, purific\u00e1-la e melhor\u00e1-la\u00bb.<\/p>\n<p><strong>As resolu\u00e7\u00f5es<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A vontade, portanto, deve produzir \u00abresolu\u00e7\u00f5es\u00bb ou prop\u00f3sitos; caso contr\u00e1rio, corre o risco de ser vazia e ineficaz. Chega o momento em que n\u00e3o se deve mais \u00abespecular com o racioc\u00ednio\u00bb, mas \u00abendurecer a vontade\u00bb. \u00abNossa alma esteja triste ou alegre, submersa na do\u00e7ura ou na amargura, em paz ou perturbada, luminosa ou sombria, tentada ou tranquila, cheia de prazer ou de desgosto, imersa na aridez ou na ternura, queimada pelo sol ou refrescada pelo orvalho\u00bb, n\u00e3o importa; uma vontade forte n\u00e3o se deixa facilmente desviar de seus prop\u00f3sitos. \u00abPermane\u00e7amos firmes em nossos prop\u00f3sitos, inflex\u00edveis em nossas resolu\u00e7\u00f5es\u00bb, pede o autor da <em>Filoteia<\/em>. \u00c9 a faculdade principal da qual depende o valor da pessoa: \u00abO mundo inteiro vale menos que uma alma e uma alma n\u00e3o vale nada sem nossos bons prop\u00f3sitos\u00bb.<br \/>\nO substantivo \u00abresolu\u00e7\u00e3o\u00bb indica uma decis\u00e3o que chega ao fim de um processo, que envolveu o racioc\u00ednio com sua capacidade de discernir e o cora\u00e7\u00e3o, entendido como uma afetividade que se deixa mover por um bem atraente. Na \u00abdeclara\u00e7\u00e3o aut\u00eantica\u00bb que o autor da <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 vida devota<\/em> convida Filoteia a pronunciar, l\u00ea-se: \u00abEsta \u00e9 a minha vontade, minha inten\u00e7\u00e3o e minha decis\u00e3o, inviol\u00e1vel e irrevog\u00e1vel, vontade que confesso e confirmo sem reservas ou exce\u00e7\u00f5es\u00bb.<br \/>\nUma medita\u00e7\u00e3o que n\u00e3o resulte em atos concretos n\u00e3o serviria para nada. Nas dez medita\u00e7\u00f5es propostas como modelo na primeira parte da <em>Filoteia<\/em>, encontramos express\u00f5es frequentes como estas: \u00abquero\u00bb, \u00abn\u00e3o quero mais\u00bb, \u00absim, seguirei as inspira\u00e7\u00f5es e os conselhos\u00bb, \u00abfarei tudo o que for poss\u00edvel\u00bb, \u00abquero fazer isto ou aquilo\u00bb, \u00abfarei este ou aquele esfor\u00e7o\u00bb, \u00abfarei esta ou aquela coisa\u00bb, \u00abescolho\u00bb, \u00abquero participar\u00bb, ou ainda \u00abquero assumir o cuidado necess\u00e1rio\u00bb.<br \/>\nUma confus\u00e3o frequente \u00e9 a que identifica vontade e capricho: \u00ab\u00c9 assim que agem os libertinos que n\u00e3o querem ter outra lei sen\u00e3o aquela que dita a vontade pessoal\u00bb. Um grande inimigo da vontade \u00e9 a rotina, o deixar-se levar passivamente, o costume. O fundador das visitandinas recomendava que elas estivessem conscientes dos gestos que faziam e evitassem realiz\u00e1-los mecanicamente:<\/p>\n<p><em>Que a vontade esteja conforme \u00e0s boas a\u00e7\u00f5es exteriores que realizar\u00e3o, sejam pequenas ou grandes. Nada seja feito por h\u00e1bito, mas por escolha e exerc\u00edcio da vontade; e se alguma vez a a\u00e7\u00e3o exterior antecipar o afeto interior, por causa do h\u00e1bito, que o afeto ao menos a siga de perto.<br \/>\n<\/em><br \/>\nPor motivos bem compreens\u00edveis, conv\u00e9m fazer frequentemente uma revis\u00e3o de nossas resolu\u00e7\u00f5es: \u201cEssa pr\u00e1tica reparar\u00e1 as vossas for\u00e7as enfraquecidas pelo tempo, aquecer\u00e1 o vosso cora\u00e7\u00e3o, far\u00e1 reviver os vossos bons prop\u00f3sitos e far\u00e1 florescer as virtudes do vosso esp\u00edrito\u201d.<\/p>\n<p><strong>Um admir\u00e1vel educador do cora\u00e7\u00e3o humano<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o Francisco de Sales foi considerado um \u00abadmir\u00e1vel educador da vontade\u00bb. Poder-se-ia dizer tamb\u00e9m: um admir\u00e1vel educador do cora\u00e7\u00e3o humano, se se quiser destacar a dimens\u00e3o afetiva caracter\u00edstica da no\u00e7\u00e3o salesiana do cora\u00e7\u00e3o. Como se viu, ele n\u00e3o negligenciou nenhum componente do ser humano: o corpo com seus sentidos, a alma com suas paix\u00f5es, o esp\u00edrito com suas faculdades, em particular intelectuais. Mas o que mais lhe importa \u00e9 o cora\u00e7\u00e3o humano, sobre o qual escrevia a uma de suas correspondentes: \u00ab\u00c9 necess\u00e1rio, portanto, cultivar com grande cuidado esse cora\u00e7\u00e3o amado e n\u00e3o poupar nada do que possa ser \u00fatil \u00e0 sua felicidade\u00bb.<br \/>\nAgora, o cora\u00e7\u00e3o do homem \u00e9 \u00abinquieto\u00bb, segundo a afirma\u00e7\u00e3o de Santo Agostinho, porque est\u00e1 cheio de desejos insaciados. Parece que nunca tem nem \u00abrepouso nem tranquilidade\u00bb. Francisco de Sales prop\u00f5e ent\u00e3o uma educa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m dos desejos. De fato, o principal inimigo da vontade \u00ab\u00e9 a quantidade de desejos que temos desta ou daquela coisa. Em resumo, nossa vontade est\u00e1 t\u00e3o cheia de pretens\u00f5es e projetos que muitas vezes n\u00e3o faz outra coisa sen\u00e3o perder tempo considerando-os um a um ou todos juntos, em vez de se empenhar para realizar um mais \u00fatil\u00bb. Que atitude \u00e9 necess\u00e1rio assumir diante da multid\u00e3o de desejos e da dispers\u00e3o dos projetos?<\/p>\n<p><em>Se n\u00e3o come\u00e7ardes a seguir alguns dos vossos desejos, eles se multiplicar\u00e3o continuamente e lotar\u00e3o de tal modo o vosso esp\u00edrito que n\u00e3o sabereis mais como vos desenredardes.<br \/>\n<\/em><br \/>\n\u00abNossa vontade fica enfraquecida quando ama muitas coisas ao mesmo tempo; seus desejos e vontades s\u00e3o menos violentos e ardentes quando s\u00e3o muitos\u00bb. A solu\u00e7\u00e3o \u00e9 \u00f3bvia: evitar \u00aba multid\u00e3o de desejos que atrapalha o esp\u00edrito\u00bb. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, regular os desejos e deixar de lado os desejos in\u00fateis: temo \u2013 escreve o bispo de Genebra \u00e0 baronesa de Chantal \u2013 \u00abque nos entretenhamos com esses desejos que n\u00e3o nos s\u00e3o necess\u00e1rios e que n\u00e3o deixemos espa\u00e7o suficiente para nosso esp\u00edrito, para os desejos que nos s\u00e3o mais \u00fateis e imprescind\u00edveis\u00bb.<br \/>\nOs sujeitos mais expostos a serem tomados por m\u00faltiplos desejos s\u00e3o os jovens. Tudo depende da maneira como eles pretendem gerir esse recurso. \u00abSe um jovem sente um desejo vivo por certa posi\u00e7\u00e3o antes do tempo certo, para que serve, digam-me, esse desejo?\u00bb. O realismo imp\u00f5e n\u00e3o se distrair com desejos v\u00e3os, in\u00fateis ou, pior, prejudiciais.<br \/>\nExiste, de fato, uma esp\u00e9cie de \u00abdecoro da vontade\u00bb, assim como h\u00e1 um decoro no comportamento exterior, explicava o fundador das visitandinas a respeito da \u00absegunda mod\u00e9stia\u00bb. Quando o esp\u00edrito se deixa tomar por uma curiosidade desmedida, a vontade corre o risco de se inflamar com m\u00faltiplos desejos ineficazes, como acontece frequentemente no \u00e2mbito espiritual.<\/p>\n<p><strong>Motivar a vontade<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Francisco de Sales pode ser considerado um educador do cora\u00e7\u00e3o humano n\u00e3o apenas porque exaltou a for\u00e7a da vontade, mas tamb\u00e9m no sentido de que alimentou essa faculdade, propondo-lhe motiva\u00e7\u00f5es e ideais atraentes, capazes de p\u00f4r em movimento a liberdade humana. De fato, para ser eficaz, a educa\u00e7\u00e3o deve valer-se desse grande recurso da pessoa: \u00e9 preciso \u00abmover a vontade\u00bb, atraindo-a para o bem, para a verdade e para a beleza; enfim, propondo-lhe valores e fazendo-a desej\u00e1-los.<br \/>\nUm bom pedagogo sabe que, para conduzir seu aluno ao objetivo proposto, seja ele o saber ou a virtude, \u00e9 imprescind\u00edvel apresentar-lhe um projeto que mobilize suas energias. Francisco de Sales revela-se um mestre na arte de motivar, quando ensina a sua \u00abfilha\u00bb, Joana de Chantal, uma de suas m\u00e1ximas preferidas: \u00ab\u00c9 preciso fazer tudo por amor e nada por for\u00e7a\u00bb.<br \/>\nSempre que Francisco de Sales fala do cora\u00e7\u00e3o humano, e isso \u00e9 frequente, as duas dimens\u00f5es, respectivamente afetiva e efetiva, da vontade aparecem muitas vezes misturadas. Ele quer um cora\u00e7\u00e3o doce e pac\u00edfico, puro, indiferente, um \u00abcora\u00e7\u00e3o despido de afetos\u00bb incompat\u00edveis com a voca\u00e7\u00e3o, um cora\u00e7\u00e3o \u00abreto\u00bb, \u00abdistendido e sem qualquer constri\u00e7\u00e3o\u00bb. N\u00e3o gosta da \u00abternura de cora\u00e7\u00e3o\u00bb que se reduz \u00e0 busca de si mesmo, e exige, em vez disso, a \u00abfirmeza de cora\u00e7\u00e3o\u00bb no agir. \u00abA um cora\u00e7\u00e3o vigoroso nada \u00e9 imposs\u00edvel\u00bb \u2013 escreve a uma senhora \u2013, para encoraj\u00e1-la a n\u00e3o abandonar \u00abo curso das santas resolu\u00e7\u00f5es\u00bb. Quer um \u00abcora\u00e7\u00e3o viril\u00bb e ao mesmo tempo um cora\u00e7\u00e3o \u00abd\u00f3cil, male\u00e1vel e submisso, rendido a tudo que \u00e9 permitido e pronto para assumir todo compromisso por obedi\u00eancia e caridade\u00bb; um \u00abcora\u00e7\u00e3o doce para com o pr\u00f3ximo e humilde diante de Deus\u00bb, \u00abnobremente orgulhoso\u00bb e \u00abperenemente humilde\u00bb, \u00abdoce e pac\u00edfico\u00bb. Uma de suas \u00abbem-aventuran\u00e7as\u00bb diz: \u00abBem-aventurados os cora\u00e7\u00f5es flex\u00edveis, porque nunca se quebrar\u00e3o\u00bb.<br \/>\nEstejamos atentos, pois frequentemente nos assemelhamos \u00e0 perdiz da Paflag\u00f4nia que tem dois cora\u00e7\u00f5es: \u00abTemos um cora\u00e7\u00e3o doce e cort\u00eas para conosco mesmos, e um cora\u00e7\u00e3o duro, severo, rigoroso para com o pr\u00f3ximo\u00bb. \u00c9 necess\u00e1rio retificar o cora\u00e7\u00e3o sem cessar: \u00abSer\u00e1s imperfeita durante toda a tua vida, e sempre haver\u00e1 muito a corrigir\u00bb, escreve a uma pessoa sob sua dire\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso \u00abfortalecer o cora\u00e7\u00e3o contra as tenta\u00e7\u00f5es\u00bb.<br \/>\nQuando o cora\u00e7\u00e3o est\u00e1 tomado pela inquieta\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante faz\u00ea-lo reencontrar a paz, pois \u00absendo perturbado e inquieto em si mesmo, nosso cora\u00e7\u00e3o perde a for\u00e7a necess\u00e1ria para conservar as virtudes conquistadas e, conjuntamente, os meios necess\u00e1rios para resistir \u00e0s tenta\u00e7\u00f5es e ao inimigo\u00bb. Uma recomenda\u00e7\u00e3o de vital import\u00e2ncia \u00e9 \u00abter uma igualdade cont\u00ednua e inviol\u00e1vel de cora\u00e7\u00e3o em tanta diversidade de acontecimentos\u00bb. Para conservar o equil\u00edbrio, \u00abmortifique-o em suas alegrias, fa\u00e7a-o alegrar-se em suas mortifica\u00e7\u00f5es\u00bb.<br \/>\nNo fim das contas, a educa\u00e7\u00e3o da vontade visa \u00e0 plena posse de si mesmo, que Francisco de Sales expressa por meio de uma imagem: tomar o cora\u00e7\u00e3o nas m\u00e3os, possuir o cora\u00e7\u00e3o ou a alma. \u00abA grande alegria do ser humano, Filoteia, \u00e9 possuir a pr\u00f3pria alma; e quanto mais a paci\u00eancia se torna perfeita, mais perfeitamente possu\u00edmos nossa alma\u00bb. Isso n\u00e3o significa insensibilidade, aus\u00eancia de paix\u00f5es ou afetos, mas uma tens\u00e3o para a posse de si mesmo. Trata-se de um caminho dirigido \u00e0 autonomia de si, garantida pela supremacia da vontade, livre e razo\u00e1vel.<\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Indiscutivelmente, em Francisco de Sales h\u00e1 uma valoriza\u00e7\u00e3o da afetividade, mas tamb\u00e9m da vontade entendida no sentido de firmeza e const\u00e2ncia na decis\u00e3o. Ele dizia de si mesmo:<\/p>\n<p><em>Na minha opini\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 alma no mundo que ame mais cordialmente, ternamente e, com toda a honestidade, com mais amor do que eu; na verdade, agradou a Deus dar-me um cora\u00e7\u00e3o assim.<br \/>\n<\/em><br \/>\nChega a dizer: \u00abSou o homem mais afetuoso do mundo\u00bb, mas logo acrescenta: \u00abAmo as almas independentes, vigorosas e que n\u00e3o s\u00e3o efeminadas\u00bb, sabendo bem que uma \u00abternura\u00bb exagerada \u00abembota o cora\u00e7\u00e3o, o inquieta e o distrai\u00bb. Sem jamais renunciar ao amor afetivo, Francisco de Sales defende um amor efetivo, fundado nas \u00abresolu\u00e7\u00f5es\u00bb da vontade efetiva.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com as faculdades do esp\u00edrito, como o intelecto e a mem\u00f3ria, permanecemos no \u00e2mbito do&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":46066,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":22,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[1749,2557,2579,1821,2228,2031,2025],"class_list":["post-46073","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-conselhos","tag-deus","tag-educacao","tag-graca","tag-santos","tag-vida","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46073","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=46073"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46073\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":46080,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/46073\/revisions\/46080"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/46066"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=46073"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=46073"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=46073"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}