{"id":45887,"date":"2025-10-13T16:13:20","date_gmt":"2025-10-13T16:13:20","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=45887"},"modified":"2025-10-13T16:16:35","modified_gmt":"2025-10-13T16:16:35","slug":"ficar-no-limite-cruzar-o-limite-o-bem-aventurado-tito-zeman-martir-e-a-relevancia-de-sua-mensagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/ficar-no-limite-cruzar-o-limite-o-bem-aventurado-tito-zeman-martir-e-a-relevancia-de-sua-mensagem\/","title":{"rendered":"Ficar no limite, cruzar o limite. O bem-aventurado Tito Zeman, m\u00e1rtir, e a relev\u00e2ncia de sua mensagem"},"content":{"rendered":"<p><em><i>O padre Tito Zeman (1915-1969), salesiano eslovaco, viveu sua voca\u00e7\u00e3o sacerdotal com radicalidade evang\u00e9lica at\u00e9 o mart\u00edrio. Quando crian\u00e7a enfrentou a prova\u00e7\u00e3o da doen\u00e7a e, curado pela intercess\u00e3o de Maria, amadureceu a decis\u00e3o de se consagrar a Deus entre os Salesianos. Obstaculizado pela fam\u00edlia e pelas circunst\u00e2ncias, entrou mesmo assim na congrega\u00e7\u00e3o e foi ordenado sacerdote em 1940. Durante a persegui\u00e7\u00e3o comunista na Tchecoslov\u00e1quia, arriscou a vida para acompanhar clandestinamente al\u00e9m da fronteira numerosos cl\u00e9rigos e sacerdotes, para que pudessem continuar a forma\u00e7\u00e3o e receber a ordena\u00e7\u00e3o. Tra\u00eddo e preso em 1951, sofreu torturas e 13 anos de dura pris\u00e3o, vivendo a dor como oferta de amor. Sua f\u00e9 fez renascer muitos companheiros de cela e at\u00e9 alguns perseguidores que, arrependidos, pediram perd\u00e3o. Beatificado em 2017, padre Tito deixa uma mensagem extremamente atual: a liberdade se preserva na fidelidade \u00e0 consci\u00eancia, a verdade se defende com amor e a voca\u00e7\u00e3o se realiza dando a vida pelos outros.<\/i><\/em><\/p>\n<p><strong><b>1.<\/b><\/strong> <strong><b>Breve perfil biogr\u00e1fico do P. Tito Zeman<\/b><\/strong><br \/>\n<strong><b><br \/>\n1.1.<\/b><\/strong> <strong><b>O limite confiado: Tito da doen\u00e7a \u00e0 cura<\/b><\/strong><br \/>\nQuem \u00e9 o P. Tito Zeman?<br \/>\nEle nasceu em Vajnory, um pequeno sub\u00farbio agr\u00edcola nos arredores de Bratislava, em 4 de janeiro de 1915, o primeiro de dez irm\u00e3os e irm\u00e3s. Frequentemente doente, foi subitamente curado na primavera de 1925 pela intercess\u00e3o da Virgem Maria, depois de confiar-se a ela e pedir aos peregrinos que rezassem no Santu\u00e1rio de Nossa Senhora das Dores em \u0160a\u0161tin. Tito havia prometido a Maria que, se ela o curasse, \u201cele se tornaria seu filho para sempre\u201d, incluindo nessa f\u00f3rmula simples uma firme inten\u00e7\u00e3o de consagra\u00e7\u00e3o. Os filhos de Dom Bosco haviam chegado a \u0160a\u0161tin no ano anterior, e o racioc\u00ednio do menino Tito \u00e9: \u201cFui curado por Nossa Senhora venerada em \u0160a\u0161tin. Os salesianos moram l\u00e1. Portanto, a casa de Maria \u00e9 a casa dos salesianos. Ent\u00e3o eu tamb\u00e9m serei salesiano\u201d.<br \/>\nO P. Tito tinha experimentado o limite (da sa\u00fade) e o tinha superado confiando-o (a Maria).<\/p>\n<p><strong><b>1.2.<\/b><\/strong> <strong><b>O limite rompido \u00e0s pressas: Tito e a conquista da voca\u00e7\u00e3o<\/b><\/strong><br \/>\nTito nunca havia insinuado uma poss\u00edvel voca\u00e7\u00e3o.<br \/>\nOs pais e o p\u00e1roco se opuseram firmemente a ela e o testaram por dois anos. Quando uma tia finalmente o acompanha a \u0160a\u0161tin, ela at\u00e9 tenta fazer um acordo com o ent\u00e3o diretor da obra, P. Jos\u00e9 Bokor, para pressionar o jovem a ceder. Os Zemans eram muito pobres e tinham medo do enorme compromisso financeiro necess\u00e1rio para estudar para o sacerd\u00f3cio.<br \/>\nO P. Bokor desafia Tito. Ele o lembra de que ele seria o mais jovem. Que o lugar ficava perto de um p\u00e2ntano e que era preciso se lavar com \u00e1gua fria. Que quando ele tivesse vontade de chorar, n\u00e3o haveria uma m\u00e3e para consol\u00e1-lo. Naquela \u00e9poca, o pequeno Tito era muito magro, ainda um pouco franzino. Talvez ele parecesse mais jovem do que seus 12 anos. Ele n\u00e3o vinha de obras salesianas, n\u00e3o conhecia Dom Bosco. Para o P. Bokor, ele era um menino que tinha aparecido do nada.<br \/>\nTito, por\u00e9m, foi inflex\u00edvel. A um P. Bokor at\u00f4nito, ele respondeu: \u201cO que o senhor est\u00e1 dizendo? \u00c9 verdade que n\u00e3o terei minha m\u00e3e terrena aqui, mas existe a Virgem Maria, a M\u00e3e das M\u00e3es\u201d: ela exerceria a fun\u00e7\u00e3o de m\u00e3e. Finalmente, ele conclui: \u201cPodem fazer o que quiserem comigo, mas me deixem aqui!\u201d. Para seus pais, ele chega a dizer: \u201cSe eu tivesse morrido, certamente voc\u00eas teriam encontrado o dinheiro para o meu funeral. Por favor, usem esse dinheiro para meus estudos\u201d. Tito lutou, surpreendeu a todos e venceu: ele ser\u00e1 padre salesiano.<br \/>\nAs etapas de sua forma\u00e7\u00e3o o levaram a emitir os votos perp\u00e9tuos em 7 de mar\u00e7o de 1938, em Roma, na Bas\u00edlica do Sagrado Cora\u00e7\u00e3o, e a ser ordenado sacerdote em 23 de junho de 1940, em Turim, na Bas\u00edlica de Maria Auxiliadora.<br \/>\nPouco antes de sua profiss\u00e3o perp\u00e9tua, Tito ofereceu alguns anos de sua vida a Deus por sua m\u00e3e, que estava muito doente na \u00e9poca e que continuaria a viver ap\u00f3s a oferta de seu filho, dando-lhe tamb\u00e9m sua \u00faltima irm\u00e3zinha (Franti\u0161ka, nascida em 1939).<br \/>\nNo entanto, logo ap\u00f3s sua ordena\u00e7\u00e3o sacerdotal, ele teve que deixar a It\u00e1lia e voltar para casa por causa do drama da guerra.<br \/>\nEm 2 de agosto de 1940, por ocasi\u00e3o da primeira missa em sua terra natal, alguns p\u00e3es foram encontrados queimados por dentro, como se tivessem uma cor vermelho-sangue: o evento foi interpretado como um press\u00e1gio de mart\u00edrio.<br \/>\nPrimeiro como estudante e depois, laureado em Qu\u00edmica e Ci\u00eancias Naturais, o P. Tito lecionou ci\u00eancias na escola. Em 1946, o diretor comunista do instituto mandou retirar o s\u00edmbolo da cruz das salas de aula. O P. Tito, com outros dois, recolocou os crucifixos (se necess\u00e1rio, pedindo aos salesianos que lhe dessem os seus): foi um ato de amor ao Senhor, mas tamb\u00e9m de justi\u00e7a para com os crentes, aos quais a <em><i>Constitui\u00e7\u00e3o<\/i><\/em> daquela \u00e9poca ainda garantia formalmente a plena express\u00e3o da liberdade religiosa. Ele foi demitido, mas em toda a Eslov\u00e1quia come\u00e7ou a ser identificado como o \u201cpadre que defendeu a cruz de Cristo\u201d.<br \/>\nO P. Tito havia experimentado o limite da oposi\u00e7\u00e3o e a resolveu confrontando-a.<\/p>\n<p><strong><b>1.3.<\/b><\/strong> <strong><b>O limite previsto e contornado: Tito e as travessias do Morava<\/b><\/strong><br \/>\nTito teve a mesma prontid\u00e3o quando, em 1950, ap\u00f3s a Noite dos B\u00e1rbaros (13-14 de abril), todos os religiosos da ent\u00e3o Tchecoslov\u00e1quia foram internados em campos de concentra\u00e7\u00e3o; os superiores foram separados de suas comunidades; os mais jovens foram mandados para casa ou alistados nos batalh\u00f5es t\u00e9cnicos auxiliares; os que estavam pr\u00f3ximos do sacerd\u00f3cio foram impedidos de concluir seus estudos de teologia para serem ordenados. O P. Tito, ent\u00e3o, com o P. Ernesto Mac\u00e1k e o P. Francisco Reves, preparou um corajoso empreendimento para salvar as voca\u00e7\u00f5es. O P. Tito acompanharia os cl\u00e9rigos salesianos e alguns sacerdotes diocesanos at\u00e9 a parte n\u00e3o sovi\u00e9tica da \u00c1ustria e depois iria com os estudantes de teologia at\u00e9 Turim.<br \/>\nEle ent\u00e3o cruzou o Morava, que marca a fronteira entre a Eslov\u00e1quia e a \u00c1ustria:<br \/>\n&#8211; entre agosto e setembro de 1950 (passagem do primeiro grupo);<br \/>\n&#8211; outono de 1950 (quando ele retorna sozinho para sua terra natal);<br \/>\n&#8211; tamb\u00e9m no outono de 1950 (quando ele acompanha o segundo grupo);<br \/>\n&#8211; em mar\u00e7o\/abril de 1951 (quando retorna sozinho \u00e0 sua terra natal, em meio a grandes riscos e dificuldades);<br \/>\n&#8211; em abril de 1951 (quando \u00e9 capturado na fronteira).<br \/>\nEm setembro de 1950, Tito se encontra com o ent\u00e3o Reitor-Mor, P. Pedro Ricaldone, em Turim: ele recomenda cautela, mas aben\u00e7oa o empreendimento que Tito at\u00e9 ent\u00e3o \u2013 impossibilitado de pedir autoriza\u00e7\u00e3o aos seus superiores eslovacos, presos em campos de concentra\u00e7\u00e3o \u2013 havia entendido como <em><i>obedi\u00eancia presumida<\/i><\/em>.<br \/>\nEm janeiro de 1951, ele passou por um intenso momento de crise e convers\u00e3o, que viria a ser decisivo.<br \/>\nEm abril de 1951, ele foi capturado \u2013 quando j\u00e1 poderia ter se salvado \u2013 porque decidiu diminuir o ritmo para ajudar alguns padres cansados e ficou com os seus, <em><i>amando-os at\u00e9 o fim<\/i><\/em>, como o Bom Pastor que n\u00e3o foge quando o lobo se aproxima, mas d\u00e1 a vida.<br \/>\nO P. Tito havia pressentido o limite e o administrou antecipando-o e contornando-o.<\/p>\n<p><strong><b>1.4.<\/b><\/strong> <strong><b>O limite que se torna luz e caminho: a \u201cvoca\u00e7\u00e3o dentro da voca\u00e7\u00e3o\u201d<\/b><\/strong><br \/>\nDigna de especial relev\u00e2ncia, portanto, \u00e9 a passagem de janeiro de 1951, n\u00e3o \u201cexterior\u201d, mas \u201cinterior\u201d. Naquela \u00e9poca, Tito estava preso na \u00c1ustria e sabia que o regime estava em seu encal\u00e7o. Ele, um homem de a\u00e7\u00e3o e iniciativa, agora se via \u00e0 merc\u00ea de situa\u00e7\u00f5es fora de seu controle: um inverno rigoroso demais para tentar atravessar o Morava; uma situa\u00e7\u00e3o global de alerta; um guia de confian\u00e7a, injustamente acusado de roubo, ainda na pris\u00e3o; atrasos cont\u00ednuos e exasperantes.<br \/>\nEle ent\u00e3o escreveu uma carta intensa e dram\u00e1tica para seu amigo Miguel Lo\u0161onsk\u00fd-\u017deliar. \u00c9 21 de janeiro e, na carta, Tito expressa: desorienta\u00e7\u00e3o, medo, d\u00favida, cansa\u00e7o, o peso da tenta\u00e7\u00e3o. Ele at\u00e9 escreve: \u201ce se voc\u00ea acabasse nas m\u00e3os deles [Tito se pergunta], poderia pedir a ajuda de Deus, porque tr\u00eas vezes o plano foi alterado? N\u00e3o lhe bastou a tr\u00edplice advert\u00eancia, e voc\u00ea realmente quis fazer de si mesmo um her\u00f3i, como lhe foi dito por outros, e achou que Deus tinha seus pr\u00f3prios planos [&#8230;]?\u201d Aqui, Tito esqueceu at\u00e9 mesmo a for\u00e7a e a gra\u00e7a da obedi\u00eancia ao Reitor-Mor; nenhuma luz brilha dentro dele&#8230;<br \/>\nAlguns dias depois, no entanto, Tito escreve uma segunda carta a Miguel. Ela \u00e9 completamente diferente. Ele cita e comenta algumas passagens da Liturgia da Palavra do dia, que ele proclamou durante a Santa Missa e que havia se tornado uma intensa experi\u00eancia de convers\u00e3o: acima de tudo, as frases do Evangelho (\u201cn\u00e3o tenha medo&#8230; voc\u00ea vale mais do que muitos pardais\u201d) e da Primeira Carta de Jo\u00e3o sobre a obriga\u00e7\u00e3o de entregar a pr\u00f3pria vida pelos irm\u00e3os.<br \/>\nPor meio dessa passagem particularmente dolorosa, Tito confronta sua pr\u00f3pria limita\u00e7\u00e3o (medo, ang\u00fastia, d\u00favida): ele a supera na medida em que a confia a Outro e permite que Sua Palavra leia sua vida e a converta. As leituras desse dia se tornam a resposta a todas as perguntas de Tito; a dissolu\u00e7\u00e3o de suas d\u00favidas; a \u201cvoz predominante\u201d que se imp\u00f5e a tantas outras vozes (at\u00e9 mesmo de irm\u00e3os) segundo as quais Tito estava cometendo um erro. Assim, durante a novena a Dom Bosco, em 1951, Tito \u2013 sempre forte \u2013 por uma vez se sentiu fraco: havia compreendido que os \u201climites\u201d e as \u201cfronteiras\u201d nunca s\u00e3o ultrapassados na solid\u00e3o. Logo depois, 13 anos nas duras pris\u00f5es o aguardavam; a possibilidade concreta da senten\u00e7a de morte e, em seguida, a defini\u00e7\u00e3o como <em><i>m.u.k.l.<\/i><\/em> ou \u201chomem destinado \u00e0 elimina\u00e7\u00e3o\u201d; quase cinco anos finais em liberdade condicional, sempre fortemente controlado, humilhado e, finalmente, tratado como cobaia para experimentos.<br \/>\nO P. Tito havia cruzado o limite ao prov\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong><b>1.5.<\/b><\/strong> <strong><b>O limite derrotado por dentro: 18 anos de tortura e humilha\u00e7\u00f5es<\/b><\/strong><br \/>\nDurante toda a parte central de sua vida adulta (ou seja, dos 36 anos at\u00e9 os 54 rec\u00e9m-completados), o P. Tito foi privado da liberdade de movimento e iniciativa. Ele foi preso no Castelo de Bratislava, em Leopoldov, J\u00e1chymov, M\u00edrov, Valdice&#8230;<br \/>\nNa terr\u00edvel \u201cTorre da Morte\u201d em J\u00e1chymov, ele tritura manualmente uranita, que \u00e9 altamente radioativa e cujo p\u00f3 o impregna totalmente. Ele experimenta a terr\u00edvel realidade do confinamento solit\u00e1rio. Ele \u00e9 humilhado e espancado s\u00f3 porque \u201c\u00e9 Zeman\u201d. A desnutri\u00e7\u00e3o e a tortura tamb\u00e9m foram ferozes e, para ele, foram renovadas quando foi chamado para testemunhar no julgamento do \u201cP. Bokor e seus companheiros\u201d: o pr\u00f3prio P. Bokor, o diretor que finalmente teve de aceit\u00e1-lo quando, aos 12 anos, Tito o fez entender, em \u0160a\u0161t\u00edn, que sua voca\u00e7\u00e3o era verdadeira&#8230;<br \/>\nNa pris\u00e3o, Tito fez um ros\u00e1rio muito pessoal, no qual um simples fio ligava pequenas contas feitas de migalhas de p\u00e3o. Ele fez uma conta para cada per\u00edodo de tortura: elas se tornariam 58&#8230; Na pris\u00e3o, ele experimentou uma profunda identifica\u00e7\u00e3o com o <em><i>Ecce homo<\/i><\/em>: sem Ele, Tito admite, nada teria sido suport\u00e1vel para ele. Nesse meio tempo, ele experimentou graves problemas card\u00edacos, neurol\u00f3gicos e pulmonares, diretamente relacionados \u00e0 redu\u00e7\u00e3o de sua vida.<br \/>\nS\u00e3o 18 anos em que Tito, unido ao seu Senhor, aprende a derrotar a limita\u00e7\u00e3o a partir de dentro: ele vence porque um Outro vence <em><i>nele<\/i><\/em>, <em><i>com<\/i><\/em> ele e <em><i>por<\/i><\/em> ele. Santo Agostinho diz sobre os m\u00e1rtires: \u201cAquele que viveu neles venceu neles\u201d.<br \/>\nNesses anos, Tito entende que o mal pode atacar o f\u00edsico, mas n\u00e3o pode quebrar a alma, a ades\u00e3o a Cristo, a dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja. E assim, se sua resist\u00eancia moral e espiritual (que os perseguidores tentam em v\u00e3o derrotar, at\u00e9 mesmo por meio de algumas torturas particularmente humilhantes) leva o regime a se enfurecer ainda mais, ele experimenta que \u00e9 poss\u00edvel permanecer livre mesmo quando tudo quer escraviz\u00e1-lo; que nada est\u00e1 perdido, se no momento presente se ama. Assim, ele tem a morte dentro de si, mas consegue dar alegria aos outros.<br \/>\nEle vive com alguns (ortodoxos e protestantes) uma intensa experi\u00eancia de ecumenismo \u201cde sangue\u201d: \u201cnem mesmo um Conc\u00edlio\u201d, dizem essas pessoas, \u201cjamais teria conseguido nos unir dessa maneira\u201d. Assim, o mal do comunismo desenfreado reconstitui \u2013 em seus cora\u00e7\u00f5es reconciliados \u2013 uma unidade que outros males haviam dilacerado nos s\u00e9culos anteriores. A fidelidade dessas amizades sempre acompanhar\u00e1 Tito: ele morrer\u00e1 nos bra\u00e7os de um padre capuchinho que lutou como ele na pris\u00e3o; o pastor evang\u00e9lico Dr. Jos\u00e9 Jur\u00e1\u0161 estar\u00e1 presente em seu funeral.<br \/>\nO P. Tito havia cruzado o limite ao habit\u00e1-lo.<\/p>\n<p><strong><b>1.6.<\/b><\/strong> <strong><b>O limite esvaziado e reconciliado: ap\u00f3s a morte do P. Tito<\/b><\/strong><br \/>\nEm 8 de janeiro de 1969, o dia do nascimento do P. Tito para o c\u00e9u, havia um \u00faltimo limite a ser rompido: o reconhecimento do erro por parte do perseguidor. H\u00e1 muito tempo, Tito havia perdoado seus perseguidores, mantendo um sil\u00eancio heroico em rela\u00e7\u00e3o a eles, mesmo durante o per\u00edodo de liberdade condicional. Mas eles? Com o fim da \u201cPrimavera de Praga\u201d e, no ano anterior, com o retorno dos ex\u00e9rcitos sovi\u00e9ticos, parecia que o P. Tito (e os outros) estavam condenados ao esquecimento: a \u00faltima palavra sobre sua vida foi escrita pelo pr\u00f3prio perseguidor.<br \/>\nO curso dos acontecimentos, no entanto, torna-se surpreendente nesse ponto.<br \/>\nAinda em meio ao comunismo, no mesmo ano de 1969, um julgamento reconhece uma primeira parte dos erros cometidos pelo tribunal na condena\u00e7\u00e3o de Tito como \u201cagente secreto\/espi\u00e3o do Vaticano\u201d e \u201ctraidor\u201d: fraude, distor\u00e7\u00f5es, instrumentaliza\u00e7\u00e3o s\u00e3o admitidas. O <em><i>odium fidei<\/i><\/em> [\u00f3dio da f\u00e9] se torna evidente. Em 1991, ap\u00f3s a queda do regime, a acusa\u00e7\u00e3o adicional de \u201ctravessia ilegal da fronteira\u201d foi finalmente retirada. O padre Tito era, portanto, inocente. Foi o mesmo regime que o condenou, condenando a si mesmo \u2013 apenas alguns meses ap\u00f3s a morte de Tito.<br \/>\nEntretanto, uma ferida permaneceu aberta entre Tito e seus perseguidores.<br \/>\nOs documentos do tribunal agora confirmavam a inoc\u00eancia do \u201cP. Tito e seus companheiros\u201d. Entretanto, a oposi\u00e7\u00e3o e o \u00f3dio de alguns em rela\u00e7\u00e3o a ele e \u00e0 realidade (ou seja, a Igreja e, especialmente, o sacerd\u00f3cio ministerial) pela qual ele havia dado a vida permaneceram.<br \/>\nDois fatos muito peculiares aconteceram ent\u00e3o.<br \/>\nO diretor da escola que havia causado a demiss\u00e3o do P. Tito em 1946 se converte antes de sua morte e morre assistido pelo conforto dos sacramentos.<br \/>\nO juiz que havia condenado Tito a \u201c25 anos de pris\u00e3o dura sem liberdade condicional com perda dos direitos civis\u201d (mas o promotor havia pedido a pena de morte para ele, mais tarde exclu\u00edda \u201cpara n\u00e3o criar um m\u00e1rtir\u201d) tamb\u00e9m se converteu e, mais tarde, de joelhos em Bratislava, pediu perd\u00e3o publicamente por ter condenado os inocentes: os cerca de vinte padres salesianos que Tito havia liderado com risco de vida.<br \/>\nAt\u00e9 mesmo o limite mais obstinado a ser superado, o da dureza de cora\u00e7\u00e3o, \u00e9 assim \u201cesvaziado por dentro\u201d \u2013 pelo poder de Deus e pelo sacrif\u00edcio de Tito: ele se abre para o perd\u00e3o, a reconcilia\u00e7\u00e3o e a paz. O P. Tito havia superado o limite ao venc\u00ea-lo.<\/p>\n<p><strong><b>2.<\/b><\/strong> <strong><b>Atualidade da mensagem do P. Tito Zeman, em di\u00e1logo com o P. In\u00e1cio Stuchl\u00fd.<\/b><\/strong><br \/>\nO P. Tito sacrificou sua vida em defesa do sacerd\u00f3cio. Ele queria, como dizem as fontes, garantir a pr\u00f3xima gera\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica da Igreja, mesmo em tempos de persegui\u00e7\u00e3o.<br \/>\nCom sua vida perseguida e ridicularizada, o P. Tito Zeman parece estar muito longe daquela encarna\u00e7\u00e3o alegre e exuberante do carisma salesiano, t\u00edpica do modo como \u00e9 normalmente apresentado. Isso une Tito ao P. In\u00e1cio Stuchl\u00fd, que muitas vezes enfrentou condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis e \u2013 em suas posi\u00e7\u00f5es de governo \u2013 sempre experimentou o cansa\u00e7o de servir, chegando literalmente ao ponto de tirar o p\u00e3o da boca para alimentar os filhos.<br \/>\nAmbos viveram a din\u00e2mica do <em><i>caetera tolle<\/i><\/em>, uma dimens\u00e3o oblativo-vitimal que os marcou na dimens\u00e3o pr\u00e1tica do fazer e do agir, que lhes era t\u00e3o adequada: o P. Stuchl\u00fd <em><i>viu-se<\/i><\/em> repetidamente <em><i>roubado das<\/i><\/em> obras a que havia dado a vida para construir; o P. Tito, por outro lado, <em><i>viu-se dolorosamente roubado da<\/i><\/em> Congrega\u00e7\u00e3o que amava, e por muitos anos (essencialmente: desde sua pris\u00e3o em 1951 at\u00e9 sua liberta\u00e7\u00e3o em liberdade condicional em 1964) experimentou o dilacerante sentimento de culpa por se sentir respons\u00e1vel por outros salesianos capturados com ele como parte da \u201cterceira passagem\u201d do rio Morava.<br \/>\nEssas caracter\u00edsticas de suas vidas \u2013 daqueles <em><i>mist\u00e9rios da dor<\/i><\/em> aos quais ambos rezavam com a pr\u00f3pria carne \u2013 tamb\u00e9m parecem torn\u00e1-los bastante distantes do contexto atual, que tende a remover as experi\u00eancias de dor e de morte e se ilude pensando que pode reescrever as exig\u00eancias de uma vida \u201cdigna\u201d quando ela \u00e9 eficaz e saud\u00e1vel; que sofre com novas formas de ideologia; que testemunha \u2013 n\u00e3o por requisi\u00e7\u00e3o, mas por decl\u00ednio \u2013 a contra\u00e7\u00e3o ou o fechamento de tantas obras at\u00e9 mesmo na esfera eclesial.<br \/>\nEnt\u00e3o \u2013 em di\u00e1logo com o P. Stuchl\u00fd \u2013 qual pode ser a mensagem do Beato P. Tito Zeman para os dias de hoje?<\/p>\n<p><strong><b>2.1.<\/b><\/strong> <strong><b>A fecundidade de um trabalho n\u00e3o \u00e9 medida em termos de efici\u00eancia, mas de efic\u00e1cia<\/b><\/strong><br \/>\nTanto o P. Stuchl\u00fd quanto o P. Tito viveram em circunst\u00e2ncias hist\u00f3ricas causadoras de sofrimento. A obedi\u00eancia os levou a realizar grandes coisas quando, pela l\u00f3gica humana, nada deveria ter sido feito.<br \/>\nO P. Tito Zeman tentou at\u00e9 mesmo desvendar o plano do regime comunista para destruir a Igreja.<br \/>\nIn\u00e1cio Stuchl\u00fd vive e trabalha em condi\u00e7\u00f5es cronicamente prec\u00e1rias, onde o r\u00e1pido florescimento das obras salesianas (devido em grande parte \u00e0 sua dedica\u00e7\u00e3o incondicional) se alterna com o iminente colapso dessas obras sob a press\u00e3o de eventos externos. Ele tamb\u00e9m, como evidenciado pelos Atos processuais, sabia com bastante anteced\u00eancia \u2013 por causa \u201cdaquela luz\u201d, como argumenta uma testemunha, \u201cque \u00e0s vezes se acende nas almas dos santos\u201d e que \u00e9 um puro dom do Esp\u00edrito \u2013 que a obra salesiana tcheca seria dispersa e que ele morreria na solid\u00e3o. Portanto, ele n\u00e3o s\u00f3 trabalhou em condi\u00e7\u00f5es extremas, mas trabalhou com dedica\u00e7\u00e3o e alegria inabal\u00e1veis, mesmo sabendo que um fim dram\u00e1tico estava se aproximando.<br \/>\nTito e In\u00e1cio ensinam que as exig\u00eancias mais elevadas de obedi\u00eancia a Deus e \u00e0 Igreja nos impelem a agir <em><i>mesmo quando prevemos que os frutos externos de tais obras ser\u00e3o de curta dura\u00e7\u00e3o, ou podem parecer limitados e prec\u00e1rios<\/i><\/em>.<br \/>\nTito se comprometeu com as travessias sabendo que seria imposs\u00edvel salvar <em><i>todos<\/i><\/em> ou <em><i>muitos<\/i><\/em> cl\u00e9rigos salesianos, mas apenas <em><i>alguns<\/i><\/em> (que ele escolheu com base na resist\u00eancia f\u00edsica [necess\u00e1ria para uma viagem a p\u00e9, atravessando o Morava a nado e nos Alpes austr\u00edacos e do Alto Tirol em meio a temperaturas congelantes] e na aptid\u00e3o para o estudo).<br \/>\nO P. Stuchl\u00fd previu que faltaria perseveran\u00e7a a alguns jovens; e observou como o n\u00famero da nascente Congrega\u00e7\u00e3o Salesiana na Rep\u00fablica Tcheca permaneceu, embora promissor em alguns anos, ainda assim baixo em compara\u00e7\u00e3o com as muitas necessidades da Igreja local.<br \/>\nNem Tito nem o P. Stuchl\u00fd, por\u00e9m, se deixaram desencorajar.<br \/>\nPara eles, a bondade de um empreendimento n\u00e3o coincide com seu impacto externo qualificado. Assim como Abra\u00e3o deixa seu pa\u00eds confiando, ou os disc\u00edpulos seguem Jesus sem ainda conhec\u00ea-lo bem, e <em><i>s\u00f3 depois e em retrospecto entendem a raz\u00e3o desses gestos aparentemente irracionais<\/i><\/em>, assim tamb\u00e9m Tito e Stuchl\u00fd agem em um momento de cansa\u00e7o, de obscuridade, de n\u00e3o total clareza: \u00e9 falso que a verdade de uma busca s\u00f3 aparece em momentos de luz meridiana e ilumina\u00e7\u00f5es interiores. At\u00e9 mesmo Tito, como j\u00e1 lemos, recebe a luz decisiva em janeiro de 1952 (mas ele estava se dedicando \u00e0s travessias desde o ver\u00e3o de 1951).<br \/>\nTito e Stuchl\u00fd, como a noiva no C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos (que significa a Igreja), \u201clevantam-se\u201d e \u201csaem\u201d para buscar \u201co amado de seus cora\u00e7\u00f5es\u201d quando ainda est\u00e1 escuro, sem esperar que a luz total chegue, porque ent\u00e3o <em><i>seria tarde demais<\/i><\/em>. E isso n\u00e3o \u00e9 um m\u00e9todo \u201cpreventivo\u201d \u00e0 maneira de Dom Bosco? Um \u201cm\u00e9todo\u201d preventivo que tem um sabor prof\u00e9tico, como uma profunda capacidade de captar os sinais dos tempos?<br \/>\n<em><i>Hoje<\/i><\/em> sabemos que muitos dos jovens acompanhados por Tito se tornaram aut\u00eanticos sacerdotes salesianos: mas naquela \u00e9poca eram meninos, at\u00e9 um pouco indisciplinados, que \u00e0s vezes ele tinha de repreender.<br \/>\n<em><i>Hoje<\/i><\/em> sabemos que entre os jovens acompanhados por In\u00e1cio em Perosa Argentina havia um futuro cardeal (Trochta) e outras figuras importantes para a Igreja: mas na \u00e9poca eram jovens com futuro imprevis\u00edvel em um grupo que n\u00e3o brilhava pela exemplaridade, entre os quais alguns fugiam da casa salesiana sem avisar, e entre os quais alguns at\u00e9 roubavam ofertas na igreja.<br \/>\nA efic\u00e1cia de uma obra, portanto, n\u00e3o est\u00e1 necessariamente relacionada \u00e0 sua efici\u00eancia ou \u00e0 sua \u201csustentabilidade\u201d imediata.<br \/>\nTito pronuncia uma frase que, na apar\u00eancia, \u00e9 bela, mas que, na realidade, \u00e9 chocante e terr\u00edvel: \u201cMinha vida n\u00e3o ser\u00e1 desperdi\u00e7ada, <em><i>se apenas um (se pelo menos um)<\/i><\/em> dos meninos que acompanho se tornar padre\u201d. Apenas um: ou seja, uma vida, um padre, vale 18 anos de terr\u00edvel tortura f\u00edsica, ps\u00edquica, moral e espiritual. E vale muito mais do que isso.<br \/>\nSer\u00e1 que n\u00f3s \u2013 consagrados ou leigos de v\u00e1rias formas ligados \u00e0 Fam\u00edlia Salesiana \u2013 somos capazes disso, mesmo em meio aos inevit\u00e1veis condicionamentos externos, \u00e0s expectativas e ao cansa\u00e7o?<\/p>\n<p><strong><b>2.2.<\/b><\/strong> <strong><b>Tornar-se acompanhante dos jovens sem substitu\u00ed-los na dificuldade da escolha<\/b><\/strong><br \/>\nO P. Tito passou a maior parte de sua vida adulta longe dos jovens: nas pris\u00f5es, lutou e sofreu com os colegas. No entanto, seus poucos anos de acompanhamento de jovens proporcionam preciosos elementos de discernimento sobre como acompanh\u00e1-los. Vou relembrar brevemente alguns deles.<\/p>\n<p>\u2013<em><i> Os \u201cjovens\u201d encontrados por Tito.<\/i><\/em><br \/>\nO P. Tito est\u00e1 com os jovens h\u00e1 alguns anos, mas em uma variedade de contextos:<\/p>\n<p>\u2013 como assistente;<br \/>\n\u2013 como professor de mat\u00e9rias cient\u00edficas;<br \/>\n\u2013 como um bom esportista que os envolvia em jogos (especialmente v\u00f4lei ou t\u00eanis de mesa, em que ele era muito bom);<br \/>\n\u2013 como figura de apoio quando os jovens salesianos foram obrigados a trabalhos for\u00e7ados na barragem de P\u00fachov-Nosice;<br \/>\n\u2013 na travessia do Morava para salvar o sacerd\u00f3cio deles;<br \/>\n\u2013 como irm\u00e3o, embora estivesse no lado oposto da hist\u00f3ria: ele, um sacerdote salesiano, <em><i>foi torturado<\/i><\/em> na pris\u00e3o <em><i>principalmente por agentes jovens ou muito jovens<\/i><\/em>;<br \/>\n\u2013 como testemunha sofredora da f\u00e9, em seus \u00faltimos anos, quando, em Vajnory, morava na casa do irm\u00e3o e era obrigado a trabalhar na f\u00e1brica, tornando-se, entretanto, um \u201csegundo pai\u201d para seus sobrinhos.<\/p>\n<p>Ele tamb\u00e9m conheceu pessoas que eram menos jovens em termos de idade, mas que \u201cse tornaram jovens de novo\u201d porque foram ajudadas a come\u00e7ar a viver novamente. Por exemplo:<\/p>\n<p>\u2013 os prisioneiros, geralmente criminosos acusados de crimes graves ou at\u00e9 mesmo assassinos, que ele conheceu na pris\u00e3o: a eles ele levou o primeiro an\u00fancio da f\u00e9 crist\u00e3. Eles s\u00e3o <em><i>jovens crentes<\/i><\/em> porque ningu\u00e9m nunca lhes havia falado sobre Jesus, mas Tito e outros sacerdotes t\u00eam a coragem de faz\u00ea-lo, desafiando as repres\u00e1lias dos carcereiros;<br \/>\n\u2013 seus pr\u00f3prios perseguidores, alguns dos quais experimentam uma convers\u00e3o intensa e, portanto, \u201cnascem de novo do alto\u201d, de acordo com a palavra do Evangelho;<br \/>\n\u2013 finalmente, todos os prisioneiros a quem ele ajuda a se aproximar dos sacramentos (nas pris\u00f5es, por exemplo, a comunh\u00e3o era distribu\u00edda clandestinamente enquanto se aguardava o exame m\u00e9dico e, para marcar as confiss\u00f5es, recorria-se a estratagemas como mudar a posi\u00e7\u00e3o do bon\u00e9 ou parar para amarrar os sapatos); e todos os outros prisioneiros a quem ele o que ganha por seu trabalho para que possam obter b\u00f4nus em alimentos, t\u00e3o preciosos para a sobreviv\u00eancia e, assim, capazes de retardar o decl\u00ednio de suas for\u00e7as.<br \/>\nCom rela\u00e7\u00e3o a cada uma dessas categorias de pessoas, Tito exerce uma intensa pastoral de estilo salesiano, tanto como professor quanto como sacerdote, e, mesmo na pris\u00e3o, quando se encontra como o \u00faltimo entre os \u00faltimos, como Dom Bosco enviado entre os prisioneiros de Turim. Tito \u00e9, portanto, um pai que protege, guarda e nutre.<\/p>\n<p>\u2013<em><i> \u201cCom\u201d os jovens, nunca \u201cno lugar\u201d dos jovens.<\/i><\/em><br \/>\nNa grande diversidade de interlocutores jovens, um fato recorrente distingue a atitude de Tito: ele <em><i>arriscou<\/i><\/em> a pr\u00f3pria vida para permanecer ao lado deles.<br \/>\nNo entanto, nunca, nem mesmo nas situa\u00e7\u00f5es mais dram\u00e1ticas, Tito tomou o lugar deles. Seu apoio como educador despertou a consci\u00eancia deles e treinou sua liberdade. No entanto, Tito nunca induziu um comportamento facilitador, nem iludiu os jovens com uma boa atitude. Tito sabia que uma pessoa \u00e9 educada, antes de tudo, confrontando-a com as consequ\u00eancias \u2013 \u00e0s vezes dram\u00e1ticas \u2013 de suas a\u00e7\u00f5es.<br \/>\nAssim, como professor de ci\u00eancias, ele orienta os jovens no racioc\u00ednio, mas deixa que eles encontrem a solu\u00e7\u00e3o.<br \/>\nComo esportista, ele n\u00e3o permite que eles \u201cven\u00e7am facilmente\u201d, mas, por meio da din\u00e2mica s\u00e9ria do jogo, desafia-os a aprender a ser homens, a desenvolver o car\u00e1ter.<br \/>\nComo apoio deles quando se junta a eles na represa de P\u00fachov-Nosice, Tito apareceu \u00e0 paisana, evitando a vigil\u00e2ncia dos guardas ao passarem pelos postos de controle, mas nunca usou sua pr\u00f3pria bravura para faz\u00ea-los fugir.<br \/>\nComo respons\u00e1vel pelas travessias secretas atrav\u00e9s do Morava, Tito n\u00e3o aceitava <em><i>todos <\/i><\/em>os jovens, mas apenas aqueles considerados aptos, mesmo que recusar uma pessoa significasse exp\u00f4-la \u00e0 vida mais dura do regime. Al\u00e9m disso, Tito informou os cl\u00e9rigos sobre os riscos que corriam \u2013 incluindo a execu\u00e7\u00e3o imediata \u2013 e imp\u00f4s a eles, individualmente, que reservassem meia hora para reflex\u00e3o em ora\u00e7\u00e3o antes de confirmar sua participa\u00e7\u00e3o na expedi\u00e7\u00e3o (como seria bom se \u2013 assim como ao recitar o ros\u00e1rio nos lembr\u00e1ssemos daqueles \u201c58 gr\u00e3os\u201d \u2013 durante a meia hora de medita\u00e7\u00e3o pela manh\u00e3 todos pensassem que naquele per\u00edodo alguns jovens haviam decidido expor suas vidas por amor ao sacerd\u00f3cio e \u00e0 Igreja!).<br \/>\nNa pris\u00e3o, Tito \u00e9 o primeiro a se prontificar a ajudar. No entanto, <em><i>ele renuncia a<\/i><\/em> dar apoio, se isso significar entrar em acordo com o regime. Por exemplo: ele \u00e9 punido por ajudar um prisioneiro a conseguir um l\u00e1pis (escrever na pris\u00e3o era proibido); mas ele corajosamente reafirma sua dignidade como padre, mesmo que isso lhe cause transfer\u00eancia ou retalia\u00e7\u00e3o, resultando em seu distanciamento das pessoas para as quais ele havia se tornado um ponto de refer\u00eancia.<br \/>\nO P. Tito, fazendo sua a consci\u00eancia que havia sido de Edith Stein, ela mesma m\u00e1rtir de um regime totalit\u00e1rio, lembra que \u201cn\u00e3o se deve aceitar nenhuma verdade que seja desprovida de amor, nem nenhum amor que seja desprovido de verdade\u201d. Portanto, ele defendeu a verdade mesmo que isso significasse deixar de amar algumas pessoas <em><i>sensivelmente<\/i><\/em>, porque estava separado delas por puni\u00e7\u00e3o.<br \/>\nAgora, em liberdade condicional, ele se recusou a apertar a m\u00e3o de pessoas que estavam em conluio com o regime: ele n\u00e3o as condenava, mas evitava que gestos de aparente amizade fizessem esquecer sua discord\u00e2ncia com a ambiguidade arriscada em que elas viviam. Amar n\u00e3o \u00e9 ser doce ou condescendente a qualquer custo!<br \/>\nAssim, Tito, na medida do poss\u00edvel, sempre permaneceu com os jovens e entre os jovens. Entretanto, ele nunca teve a inten\u00e7\u00e3o de substitu\u00ed-los ou iludi-los de alguma forma. Para ele, dar a vida pelos jovens era, antes de tudo, ajud\u00e1-los a se tornarem protagonistas respons\u00e1veis por suas vidas. O fato de o pr\u00f3prio Tito t\u00ea-los educado para a normalidade da persegui\u00e7\u00e3o na hist\u00f3ria da Igreja mostra como ele os amava sem disfar\u00e7ar qualquer risco ou dificuldade.<br \/>\nHoje, muitos pais, professores e educadores acreditam que incomodam os jovens se os exp\u00f5em demais, se questionam sua consci\u00eancia com perguntas radicais. O P. Tito, com seu radicalismo, sempre soube como desafiar os jovens, mas tamb\u00e9m os apoiou para que n\u00e3o ficassem desanimados. E os jovens \u2013 ao contr\u00e1rio do que muitos educadores de hoje acreditam \u2013 entendiam Tito e eram gratos a ele.<br \/>\nLembram-se da medita\u00e7\u00e3o de meia hora em que cada um, antes de partir para Morava, tinha de decidir com total liberdade? Bem, ningu\u00e9m jamais desistiu. Todos sempre escolheram ficar com Tito&#8230;<\/p>\n<p><strong><b>2.3.<\/b><\/strong> <strong><b>Ter a coragem de dizer n\u00e3o.<\/b><\/strong> <strong><b>Uma pastoral vocacional consciente<\/b><\/strong><br \/>\nTanto o P. Tito, m\u00e1rtir pela salva\u00e7\u00e3o das voca\u00e7\u00f5es, quanto o P. Stuchl\u00fd, formador da primeira gera\u00e7\u00e3o de salesianos tchecos e parcialmente eslovacos, estiveram envolvidos nos desafios, na beleza e nas urg\u00eancias da pastoral vocacional.<br \/>\nH\u00e1 uma coisa que eles t\u00eam em comum. Eles sempre implementaram o discernimento e o acompanharam no discernimento, privilegiando:<\/p>\n<p>\u2013 os fatos em vez das palavras,<br \/>\n\u2013 as a\u00e7\u00f5es em vez das inten\u00e7\u00f5es,<br \/>\n\u2013 os efeitos sobre as causas<\/p>\n<p>embora tamb\u00e9m tenham sabido como:<\/p>\n<p>\u2013 valorizar o sentimento interior do jovem,<br \/>\n\u2013 ser paciente com algu\u00e9m impaciente,<br \/>\n\u2013 receb\u00ea-lo de volta de bra\u00e7os abertos quando, tendo cometido um erro, ele reconheceu seu erro.<\/p>\n<p>Tito conheceu o P. Bokor, um mestre que o ajudou imediatamente a reconhecer os problemas, as dificuldades e os riscos do \u201csim\u201d. In\u00e1cio foi posto \u00e0 prova pelo P. \u00c2ngelo Lubojack\u00fd.<br \/>\nAs cartas do P. In\u00e1cio Stuchl\u00fd aos jovens \u2013 retiradas das <em><i>Fontes Documentais<\/i><\/em> e j\u00e1 comentadas \u2013 tamb\u00e9m demonstram a grande firmeza do servo de Deus nesse aspecto: at\u00e9 mesmo um detalhe que pode parecer irrelevante para muitos hoje em dia \u2013 a falta de progresso no desempenho em latim de um garoto intelectualmente talentoso \u2013 pode se tornar importante. Boas habilidades interpessoais, o desejo de fazer pr\u00f3pria a din\u00e2mica oratoriana e o \u201camor\u201d a Dom Bosco tornavam-se palavras vazias se algu\u00e9m negligenciasse um pequeno dever e deixasse de ser um exemplo para seus companheiros.<br \/>\nPelo contr\u00e1rio, aqueles que tinham dificuldades e precisavam de mais tempo eram sempre acompanhados com especial benevol\u00eancia e amor. Os testemunhos relatam o comovente caso de Jos\u00e9 Vand\u00edk, mais tarde sacerdote salesiano, que era t\u00e3o fraco em latim que chegou a se desesperar com seu futuro. O P. Stuchl\u00fd ent\u00e3o o levou a s\u00e9rio e lhe deu aulas particulares em seu quarto, at\u00e9 que ele se tornou um dos melhores de sua classe. Encontramos escrito:<\/p>\n<p>Lembro-me de que eu tinha muita dificuldade para entender a voz passiva do verbo latino. Quando ele percebeu meu des\u00e2nimo, levou-me consigo para seu quartinho; explicou-me tudo e incentivou-me a n\u00e3o perder a f\u00e9, mas a invocar o Esp\u00edrito Santo. E eu, consolado, depois de um m\u00eas, estava sempre algumas li\u00e7\u00f5es \u00e0 frente de meus colegas.<\/p>\n<p>Stuchl\u00fd n\u00e3o estava interessado no desempenho em \u201ctermos absolutos\u201d (uma avalia\u00e7\u00e3o com base puramente no desempenho era, de fato, completamente estranha para ele!), mas na retid\u00e3o da mente, na sinceridade do cora\u00e7\u00e3o e na const\u00e2ncia do compromisso.<br \/>\nAssim, tanto Tito quanto In\u00e1cio, paradoxalmente, acompanharam voca\u00e7\u00f5es qualificadas porque souberam dizer \u201cn\u00e3o\u201d a muitos: Tito recusando-os para as travessias; In\u00e1cio, por exemplo, mandando muitos de volta para casa nos delicados anos de 1925-1927 em Perosa Argentina.<br \/>\nIsso tamb\u00e9m \u00e9 algo para se refletir, \u00e0 luz do <em><i>S\u00ednodo sobre Juventude, F\u00e9 e Discernimento Vocacional<\/i><\/em>. Ouvir os jovens \u00e9 fundamental: no entanto, essa escuta n\u00e3o deve degenerar em passividade. O pr\u00f3prio jovem pede para ser orientado, se necess\u00e1rio com palavras firmes e decis\u00f5es fortes. S\u00f3 ent\u00e3o ele, t\u00e3o desafiador, compreende que os adultos s\u00e3o s\u00e9rios, que aquilo em que acreditam e com o qual comprometem a pr\u00f3pria vida \u00e9 digno de f\u00e9&#8230;: n\u00e3o \u00e9 por acaso que alguns jovens, afastados dos salesianos, foram readmitidos de bom grado pelo padre Stuchl\u00fd<em><i>, porque compreenderam os erros do passado<\/i><\/em>. Mas foi necess\u00e1rio mostrar-lhes esses erros com certa firmeza.<\/p>\n<p><strong><b>2.4.<\/b><\/strong> <strong><b>Uma aplica\u00e7\u00e3o \u201cextrema\u201d do Sistema Preventivo<\/b><\/strong><br \/>\nTanto Tito quanto In\u00e1cio aplicaram o Sistema Preventivo de Dom Bosco de modo \u201cextremo\u201d, por assim dizer. Esse sistema consiste em \u201ccolocar \u2013 se fosse poss\u00edvel \u2013 o jovem na pr\u00f3pria impossibilidade de pecar\u201d. Quando, no auge do s\u00e9culo XX, as ideologias eram, elas pr\u00f3prias, uma estrutura de pecado, Stuchl\u00fd sacrificou sua vida para afastar <em><i>fisicamente<\/i><\/em> os jovens do mal que se aproximava. O P. Stuchl\u00fd incentivou a fidelidade ao carisma mesmo quando ele era ridicularizado e combatido.<br \/>\nAmbos entenderam que os jovens \u2013 sedentos por respostas \u2013 n\u00e3o podem viver sem bons modelos. \u201cAfast\u00e1-los do mal\u201d significava, ent\u00e3o, \u201cpropor a eles um bem, na verdade todo Bem, o Bem supremo\u201d (para usar as palavras de S\u00e3o Francisco): por isso, ambos deram suas vidas. Tito foi mais r\u00e1pido, morrendo com apenas 54 anos de idade. O P. Stuchl\u00fd, expondo-se ao desgaste de uma longa e laboriosa exist\u00eancia, na qual lhe foi pedido que mantivesse, para o bem dos jovens, o ritmo de um jovem quando j\u00e1 era idoso.<br \/>\nAs palavras com as quais ambos s\u00e3o lembrados no momento de sua morte n\u00e3o devem, portanto, ser uma grande surpresa.<br \/>\nO P. In\u00e1cio Stuchl\u00fd \u00e9 comparado a outro S\u00e3o Jo\u00e3o Maria Vianney e ao profeta Elias, cujo esp\u00edrito \u00e9 agora invocado sobre os salesianos. No funeral do P. Tito, o P. Andr\u00e9 Dermek disse:<\/p>\n<p><em><i>\u00c9 poss\u00edvel dizer que tudo entre a sua primeira missa e o seu funeral foi cheio de vida sacerdotal, religiosa e salesiana! [&#8230;] Acho que posso proclamar em seu nome, querido Tito, que voc\u00ea n\u00e3o rejeitou esse seu destino, n\u00e3o teve medo dele, n\u00e3o ficou descontente com ele! Voc\u00ea o aceitou com submiss\u00e3o, em paz e alegria. Quem sabe com sua morte prematura voc\u00ea nos redime! H\u00e1 mais uma coisa que devo dizer neste lugar e neste momento: o que voc\u00ea empreendeu n\u00e3o foi uma aventura, n\u00e3o foi imprud\u00eancia nem foi um desejo de se destacar. Foi apenas amor pelas almas. Voc\u00ea nunca traiu seu povo, nem mesmo quando foi julgado e condenado. N\u00e3o tenha medo, querido Tito. Seu sacerd\u00f3cio n\u00e3o termina hoje, mas continua no sacerd\u00f3cio daqueles a quem voc\u00ea possibilitou que se tornassem sacerdotes. Algumas dezenas de sacerdotes salesianos lhe agradecem pelo sacerd\u00f3cio deles. Eles est\u00e3o espalhados por todo o mundo. E a \u00e1rvore deve morrer para que os brotos possam florescer [&#8230;] e essa \u00e1rvore foi voc\u00ea, Tito.<\/i><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O padre Tito Zeman (1915-1969), salesiano eslovaco, viveu sua voca\u00e7\u00e3o sacerdotal com radicalidade evang\u00e9lica at\u00e9&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":14,"featured_media":45880,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":4,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[2561,2557,1821,2189,1881,1845,2226,2228,2619],"class_list":["post-45887","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-carisma-salesiano","tag-deus","tag-graca","tag-jesus","tag-martires","tag-nossos-herois","tag-salesianos","tag-santos","tag-testemunhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45887","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/14"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45887"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45887\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45894,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45887\/revisions\/45894"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45880"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45887"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45887"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45887"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}