{"id":45482,"date":"2025-09-26T06:37:12","date_gmt":"2025-09-26T06:37:12","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=45482"},"modified":"2025-09-26T06:39:01","modified_gmt":"2025-09-26T06:39:01","slug":"a-educacao-familiar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/a-educacao-familiar\/","title":{"rendered":"A educa\u00e7\u00e3o familiar"},"content":{"rendered":"<p>Ao lado do \u201csentimento pela crian\u00e7a\u201d, o s\u00e9culo XV viu o desenvolvimento de um sentimento pela fam\u00edlia, que era pouco evidente na Idade M\u00e9dia, quando se dava prioridade \u00e0s rela\u00e7\u00f5es com a massa do povo, deixando pouco espa\u00e7o para a intimidade e a vida privada. Por outro lado, assiste-se a uma reavalia\u00e7\u00e3o do casamento e da fam\u00edlia em detrimento do celibato eclesi\u00e1stico e mon\u00e1stico. Para os humanistas e reformadores, essas realidades favoreciam muito a vida da sociedade e da Igreja. Lutero e Calvino, n\u00e3o satisfeitos em denunciar o celibato de monges e sacerdotes como causa de imoralidade e hipocrisia, incentivaram o casamento para todos.<br \/>\nS\u00e3o Francisco de Sales, embora mantivesse a tradi\u00e7\u00e3o do celibato religioso e sua superioridade evang\u00e9lica, n\u00e3o deixou de ir al\u00e9m das conven\u00e7\u00f5es sociais da \u00e9poca. A maior parte de suas cartas de dire\u00e7\u00e3o espiritual s\u00e3o dirigidas a homens e mulheres casados. Em sua <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 vida devota<\/em>, escreveu dois cap\u00edtulos de ineg\u00e1vel originalidade em rela\u00e7\u00e3o a toda a literatura espiritual do passado. Um cont\u00e9m \u201cconselhos para pessoas casadas\u201d, o outro trata da \u201chonestidade da cama conjugal\u201d.<\/p>\n<p><strong>O casamento \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O casamento \u00e9 um \u201cv\u00ednculo humano pelo qual cora\u00e7\u00e3o, corpo e bens se comunicam mutuamente\u201d. Depois de afirmar com firmeza que o casamento \u00e9 \u201chonr\u00e1vel por todos, em todos e para todos, ou seja, em todas as suas partes\u201d, o autor da <em>Filoteia<\/em> explica: \u201cPor todos, porque at\u00e9 os virgens devem honr\u00e1-lo com humildade; em todos, porque \u00e9 igualmente santo entre pobres e ricos; para todos, porque s\u00e3o santos sua origem, seu fim, seus usos, sua forma e sua mat\u00e9ria\u201d.<br \/>\nEle n\u00e3o s\u00f3 considerava o casamento um grande sacramento da Igreja e o \u201cber\u00e7o do cristianismo\u201d, mas tamb\u00e9m declarava que \u201ca conserva\u00e7\u00e3o do bem do casamento \u00e9 extremamente importante para a rep\u00fablica\u201d. Destinado ao casamento pelo pai, Franisco de Sales o havia recusado, segundo a m\u00e3e de Chaugy, \u201cn\u00e3o por desprezo ao casamento, que honrava perfeitamente como sacramento, mas por um certo ardor interior e espiritual que o impulsionava a dedicar-se totalmente ao servi\u00e7o da Igreja, e a ser tudo para Deus sem ter um cora\u00e7\u00e3o dividido\u201d.<br \/>\nA dignidade do casamento exigia que o jovem, e sobretudo a jovem, fossem livres para escolher seu pr\u00f3prio \u201cpartido\u201d? Na \u00e9poca, a quest\u00e3o n\u00e3o era t\u00e3o clara e as pr\u00e1ticas variavam. Persistiam antigas tradi\u00e7\u00f5es, especialmente entre os nobres, onde as filhas eram frequentemente prometidas em tenra idade e o marido, muito mais velho, exercia uma autoridade indiscut\u00edvel sobre o casal. Isso n\u00e3o significa que tudo fosse ruim, como podemos ver no caso dos pais de Francisco de Sales. Em outros lugares tamb\u00e9m se observava certa evolu\u00e7\u00e3o da moral: os jovens casavam-se mais cedo e, consequentemente, exerciam maior liberdade.<br \/>\nUma das contribui\u00e7\u00f5es mais significativas de Francisco de Sales foi ajudar os c\u00f4njuges a perceber que sua condi\u00e7\u00e3o de vida \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o. Ele mesmo escreveu \u00e0 Filoteia, que era casada, a respeito do casamento: \u201cSe todos devem honr\u00e1-lo, honre-o muito especialmente voc\u00ea que por voca\u00e7\u00e3o est\u00e1 nele\u201d. Como o casamento \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o, seu objetivo \u00e9 a santidade dos c\u00f4njuges. \u201cVoc\u00ea caminhar\u00e1 nessa voca\u00e7\u00e3o\u201d, escreveu a uma jovem que acabara de se casar, \u201cencontrar\u00e1 muita consola\u00e7\u00e3o nela e se tornar\u00e1 muito santa no final\u201d.<br \/>\nO casamento \u00e9 uma voca\u00e7\u00e3o porque envolve, antes de tudo, um dom e depois um chamado, uma responsabilidade. \u00c9 isso que o autor da <em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em> quer transmitir \u00e0s pessoas casadas quando lhes diz: \u201cFoi Deus, meus amigos, que com sua m\u00e3o invis\u00edvel apertou o n\u00f3 sagrado do seu casamento e os deu um ao outro; por que voc\u00eas n\u00e3o se amam com um amor todo santo, todo sagrado, todo divino?\u201d Ele tamb\u00e9m escreveu a uma jovem que acabara de se casar: \u201cAme ternamente seu marido, como se ele tivesse sido dado a voc\u00ea pela pr\u00f3pria m\u00e3o de Nosso Senhor\u201d.<\/p>\n<p><strong>O amor no casamento<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Francisco de Sales era um defensor do casamento por amor em sua \u00e9poca. Rabelais e Montaigne, que exaltavam os sentimentos paternos, prestavam pouca aten\u00e7\u00e3o ao amor entre c\u00f4njuges. O casamento era frequentemente considerado incompat\u00edvel com o amor, confundido com o amor-paix\u00e3o, e a conclus\u00e3o l\u00f3gica era que se tratava apenas de uma institui\u00e7\u00e3o necess\u00e1ria para a sociedade. Para Francisco de Sales, o amor m\u00fatuo deveria ser a caracter\u00edstica principal, com seus dois corol\u00e1rios de \u201cuni\u00e3o indissol\u00favel\u201d dos cora\u00e7\u00f5es e \u201cfidelidade inviol\u00e1vel de um ao outro\u201d.<br \/>\nNa <em>Introdu\u00e7\u00e3o<\/em>, o autor exorta os c\u00f4njuges a aumentarem cada vez mais seu \u201camor m\u00fatuo\u201d. Define logo o amor dos c\u00f4njuges como uma amizade rec\u00edproca na qual se pratica \u201ca comunica\u00e7\u00e3o da vida, dos bens, dos afetos e da fidelidade indissol\u00favel\u201d. N\u00e3o devem faltar gestos de afeto. O modelo \u00e9 o grande S\u00e3o Lu\u00eds, que \u201cera quase repreendido por ser abundante nessas car\u00edcias\u201d.<br \/>\nNo entanto, as qualidades do amor s\u00e3o diferentes para homens e mulheres. Os maridos devem amar suas esposas \u201cternamente, constantemente e cordialmente\u201d, enquanto as esposas devem amar seus maridos \u201cternamente, cordialmente, mas com um amor respeitoso e reverente\u201d. Francisco de Sales admirava as pessoas casadas que viviam \u201ct\u00e3o docemente juntas com respeito m\u00fatuo, que n\u00e3o pode existir sem uma grande caridade\u201d.<br \/>\nQuanto ao sacramento, \u00e9 uma ajuda poderosa contra a volubilidade de nossas resolu\u00e7\u00f5es. Quantos casamentos ver\u00edamos dissolver-se, exclamou, \u201cse n\u00e3o fossem fortalecidos pelo sacramento que impede a varia\u00e7\u00e3o desse tipo de vida! Com surpreendente realismo, dizia tamb\u00e9m: \u201cUm homem que viveu em paz com sua esposa por toda a vida, se pudesse troc\u00e1-la, o teria feito uma d\u00fazia de vezes\u201d. De fato, \u201cessa inconst\u00e2ncia do esp\u00edrito humano \u00e9 extravagante, mas deve ser contida com a for\u00e7a de nossas primeiras resolu\u00e7\u00f5es\u201d.<br \/>\nEmbora defendesse a autoridade dos homens dentro da fam\u00edlia, o bispo de Genebra estava bem ciente de que eles podiam abusar dela. Com uma doce ironia sobre as pretens\u00f5es masculinas, recomenda \u00e0 mulher compreens\u00e3o e indulg\u00eancia: \u201cMeu Deus, que bom pai temos e que \u00f3timo marido voc\u00eas t\u00eam! Ai de mim, eles s\u00e3o um pouco ciumentos de seu imp\u00e9rio e dom\u00ednio, que lhes parece um pouco violado quando se faz algo sem sua autoridade e comando. O que voc\u00ea quer, devem permitir essa pequena humanidade\u201d.<br \/>\nDeve-se dizer que essa \u201cpequena humanidade\u201d era comum nas fam\u00edlias; da\u00ed essa observa\u00e7\u00e3o um pouco desencantada, mas boa para consolar uma vi\u00fava: \u201c\u00c9 verdade, sem d\u00favida, que \u00e9 de grande ajuda ter um bom marido; mas h\u00e1 poucos, e por mais que voc\u00ea tenha um bom, recebe mais submiss\u00e3o do que assist\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>O casamento \u00e9 uma escola<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201cEntre espinhos ou entre flores\u201d, escreveu a Joana de Chantal, que era uma mulher felizmente casada antes de sofrer a trag\u00e9dia e a solid\u00e3o, \u201cDeus nos faz ganhar na sua escola\u201d. Tudo come\u00e7a com uma \u201cmudan\u00e7a de condi\u00e7\u00e3o\u201d e um novo come\u00e7o que deve gerar gratid\u00e3o e confian\u00e7a. O casamento \u00e9 um dom, mas um dom a ser cultivado: \u201cDevemos, portanto, cultivar com muito cuidado esse cora\u00e7\u00e3o amado\u201d, escreveu a uma jovem esposa, \u201ce n\u00e3o poupar nada que possa ser \u00fatil para sua felicidade\u201d. Para proteger e promover \u201co progresso do casamento deles\u201d e \u201csantific\u00e1-lo cada vez mais com amizade e fidelidade rec\u00edproca\u201d, dava aos c\u00f4njuges conselhos adequados \u00e0 sua situa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEm primeiro lugar, Francisco de Sales ensinava que as pessoas casadas devem amar seu estado de vida: \u201cDevemos amar o que Deus ama: ele ama nossa voca\u00e7\u00e3o; amemo-la bem tamb\u00e9m e n\u00e3o nos divirtamos pensando na dos outros\u201d. Muitas vezes percebemos que todos gostariam de mudar sua condi\u00e7\u00e3o: \u201cquem \u00e9 casado gostaria de n\u00e3o ser, e quem n\u00e3o \u00e9 gostaria de ser\u201d. E o bispo de Genebra perguntava-se: \u201cDe onde vem essa inquieta\u00e7\u00e3o geral das almas, sen\u00e3o de certo descontentamento pelas restri\u00e7\u00f5es e de uma mal\u00edcia de esp\u00edrito que nos faz pensar que todos s\u00e3o melhores do que n\u00f3s? Como sempre, me vem \u00e0 mente uma compara\u00e7\u00e3o: \u201cQuem tem febre n\u00e3o consegue encontrar um bom lugar; n\u00e3o passou um quarto de hora numa cama quando gostaria de estar em outra: n\u00e3o \u00e9 a cama que pode fazer isso, \u00e9 a febre que o atormenta em qualquer lugar\u201d. A conclus\u00e3o \u00e9 evidente: \u201cQuem n\u00e3o tem a febre da pr\u00f3pria vontade se contenta com tudo; contanto que sirva a Deus, n\u00e3o importa em que veste Deus o empregue. Contanto que fa\u00e7a a vontade de Deus, para ele \u00e9 o mesmo.<br \/>\nComo poucos escritores espirituais antes dele, Francisco de Sales ousa falar de \u201ccom\u00e9rcio nupcial\u201d, \u201cprazeres carnais\u201d e \u201ccama nupcial\u201d. Para isso, usa uma compara\u00e7\u00e3o tradicional, delicada mas transparente. Senta-se \u00e0 mesa, explica, n\u00e3o apenas \u201cpara nutrir e conservar a pessoa\u201d, mas tamb\u00e9m \u201cpelo dever de conversa e condescend\u00eancia rec\u00edproca que devemos uns aos outros\u201d. As duas coisas a evitar s\u00e3o o excesso, que consiste em \u201ccomer demais\u201d, e o desequil\u00edbrio \u201cna maneira e no modo de comer\u201d.<br \/>\nQuando o casal estava em crise, ele apelava n\u00e3o apenas para a vontade de Deus, mas tamb\u00e9m para o dever e a raz\u00e3o. A uma mulher desgostosa com as a\u00e7\u00f5es de um marido \u201cdissipador e despreocupado\u201d, deu conselhos de sabedoria e prud\u00eancia: \u201cDisse-lhe que podia falar com for\u00e7a e resolu\u00e7\u00e3o, nas ocasi\u00f5es em que fosse necess\u00e1rio, para manter a pessoa que conhecia no dever, mas que a for\u00e7a era mais forte quando era calma e quando nascia da raz\u00e3o, sem mistura de paix\u00e3o\u201d.<br \/>\nEle aconselhava maridos e esposas a ajudarem-se mutuamente na vida espiritual, caso contr\u00e1rio o homem se torna \u201cum animal severo, \u00e1spero e duro\u201d, e a mulher sem devo\u00e7\u00e3o \u201c\u00e9 muito fr\u00e1gil e propensa a decair ou a enfraquecer na virtude\u201d. Pelo contr\u00e1rio, que b\u00ean\u00e7\u00e3o \u00e9 quando o homem e a mulher \u201cse santificam mutuamente no verdadeiro temor do Senhor!<\/p>\n<p><strong>Os pais s\u00e3o os \u201ccooperadores\u201d de Deus<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A concep\u00e7\u00e3o e o nascimento de um filho s\u00e3o dons maravilhosos que tornam os c\u00f4njuges \u201ccooperadores numa tarefa t\u00e3o digna\u201d. Francisco de Sales chegou a compor uma ora\u00e7\u00e3o especial \u2013 que se dizia repetir frequentemente \u2013 para aqueles que estavam impossibilitados de \u201cconsumar\u201d o casamento. Tratava-se, na verdade, de um exorcismo, porque se pensava que a impot\u00eancia e a esterilidade eram causadas pelo diabo e por feiti\u00e7os malignos.<br \/>\nO amor dos pais deveria servir de modelo para todos aqueles que s\u00e3o respons\u00e1veis pelos outros, aos quais dever\u00edamos desejar \u201co cora\u00e7\u00e3o dos pais, s\u00f3lido, firme e constante, sem esquecer a ternura das m\u00e3es que fazem os filhos desejarem os doces, segundo a ordem divina que governa tudo com uma for\u00e7a toda doce e uma suavidade toda forte\u201d.<br \/>\nExiste uma esp\u00e9cie de amor imitativo entre pais e filhos: \u201cOs pais amam bem seus filhos, mas sobretudo quando estes se parecem com eles ou com algum antecessor deles; olham-nos como num espelho e divertem-se ao v\u00ea-los retratar seus modos, seus rostos e suas fei\u00e7\u00f5es\u201d. O amor das m\u00e3es pelos filhos \u00e9 surpreendente, especialmente nos momentos de perigo. O instinto certamente desempenha um papel importante. A galinha \u00e9 um animal sem coragem e generosidade at\u00e9 se tornar m\u00e3e, mas quando o \u00e9 \u201ctem um cora\u00e7\u00e3o de le\u00e3o, sempre com a cabe\u00e7a erguida, sempre com os olhos esgazeados, sempre girando o olhar para todos os lados, enquanto houver apar\u00eancia de perigo para seus filhotes\u201d.<br \/>\nTamb\u00e9m Francisco de Sales sentia em si \u201cos impulsos do amor paterno\u201d quando cuidava de seu \u201cfilho\u201d, o duque de Bellegarde. Para demonstrar sua constante preocupa\u00e7\u00e3o pelo filho, uma vez lhe escreveu que \u201cos bons filhos pensam frequentemente em seus pais; mas n\u00e3o \u00e9 frequentemente, \u00e9 sempre, que os pais t\u00eam seu esp\u00edrito nos filhos\u201d. Se um pai se comporta de maneira diferente com o filho mais velho, \u201cum homem adulto, um soldado corajoso e generoso\u201d, e com o mais novo, \u201cum pequeno querido que ainda \u00e9 uma crian\u00e7a, com boa gra\u00e7a\u201d, isso n\u00e3o significa que ame menos o primeiro do que o segundo. Seu amor se expressa de uma forma que se adapta a cada pessoa.<br \/>\nQuanto \u00e0 responsabilidade dos pais na educa\u00e7\u00e3o, para Francisco de Sales era claro que seu fundamento era a religi\u00e3o, em termos b\u00edblicos o temor de Deus. Da\u00ed esta recomenda\u00e7\u00e3o urgente: \u201cQuando as crian\u00e7as v\u00eam ao mundo e come\u00e7am a usar a raz\u00e3o, os pais e as m\u00e3es devem ter muito cuidado em incutir em seus cora\u00e7\u00f5es o temor de Deus\u201d.<br \/>\nOs pais t\u00eam uma grande responsabilidade na educa\u00e7\u00e3o, a ponto de sua falta poder ser sua pr\u00f3pria ru\u00edna. Em um serm\u00e3o severo, ele os adverte: \u201cPecam se riem ao ver seus filhos se entregarem \u00e0 linguagem ruim, aos piores come\u00e7os da vaidade\u201d. H\u00e1 pais que, por um amor mal compreendido pelos filhos, est\u00e3o dispostos a gastar todo tipo de dinheiro para eles, mas n\u00e3o t\u00eam \u201cnada para educ\u00e1-los nas letras e nos bons costumes\u201d. Por fim, o amor dos pais tamb\u00e9m pode se tornar \u201camor desordenado\u201d quando impedem os filhos de se tornarem sacerdotes ou de entrar na vida religiosa.<\/p>\n<p><strong>A crian\u00e7a \u00e9 a \u201cimagem viva\u201d dos pais<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A crian\u00e7a \u00e9 o \u201cpenhor precioso\u201d do casamento e a \u201cimagem viva\u201d do pai e da m\u00e3e. Embora sejam herdeiros dos pais, n\u00e3o s\u00e3o antes de tudo herdeiros em sentido material. Falando \u00e0 vi\u00fava do falecido duque de Merc\u0153ur, Francisco de Sales disse de sua filha que ela era \u201ca leg\u00edtima herdeira de suas virtudes, que ele deixou aos seus cuidados, senhora, para que as cultivasse atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o nobre e crist\u00e3 que lhe reservou\u201d.<br \/>\nA primeira virtude das crian\u00e7as \u00e9 a obedi\u00eancia. Sua obedi\u00eancia \u00e9 fonte de alegria para os pais, porque \u201ctodos conhecem a satisfa\u00e7\u00e3o que os pais recebem da obedi\u00eancia que os filhos lhes demonstram, e quanto mais os filhos se mostram submissos e obedientes aos seus desejos, mais eles sentem prazer em am\u00e1-los\u201d. Mas \u201cum filho bem nascido n\u00e3o obedece ao pai pelo poder que ele tem de punir sua desobedi\u00eancia, nem porque pode deserd\u00e1-lo, mas simplesmente porque ele \u00e9 seu pai\u201d.<br \/>\nO contraponto da obedi\u00eancia \u00e9 a confian\u00e7a filial que os filhos t\u00eam em rela\u00e7\u00e3o aos pais. Isso \u00e9 ilustrado pela alegoria da filha do cirurgi\u00e3o. Quando estava doente, n\u00e3o pensava no tratamento doloroso que lhe estava sendo aplicado, mas confiava completamente nos cuidados do pai, dizendo simplesmente: \u201cMeu pai me ama, e eu sou toda dele\u201d.<br \/>\n\u00c0 medida que as crian\u00e7as se tornavam adolescentes e jovens, as recomenda\u00e7\u00f5es do bispo de Genebra tornavam-se mais insistentes e exigentes. Aos jovens, disse em um serm\u00e3o sobre o tema da cruz que cada um de n\u00f3s deve carregar, \u201cconfio a cruz da obedi\u00eancia, da castidade e da modera\u00e7\u00e3o em seu comportamento, uma cruz salutar que crucifica os impulsos ardentes de um sangue jovem que come\u00e7a a ferver e de uma coragem que ainda n\u00e3o tem a prud\u00eancia como guia\u201d. A essas virtudes deve-se acrescentar a piedade filial, da qual as cegonhas s\u00e3o um maravilhoso modelo, porque \u201ccarregam consigo seus velhos pais e suas velhas m\u00e3es, como quando ainda eram jovens seus pais e suas m\u00e3es os carregavam na mesma ocasi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p><strong>A uni\u00e3o da fam\u00edlia<br \/>\n<\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em seu livro sobre <em>Saint Fran\u00e7ois de Sales et notre c\u0153ur de chair [S\u00e3o Francisco de Sales e nosso cora\u00e7\u00e3o de carne]<\/em>, Henry Bordeaux escreveu com raz\u00e3o: \u201c\u00c9 dif\u00edcil imaginar um S\u00e3o Francisco de Sales que n\u00e3o venha de uma fam\u00edlia numerosa e unida, que n\u00e3o tenha experimentado a ternura leg\u00edtima do cora\u00e7\u00e3o. Seria um santo diferente, n\u00e3o seria o consolador inteligente, o pai docemente autorit\u00e1rio, o restaurador do esp\u00edrito familiar, o m\u00e9dico das feridas ocultas\u201d.<br \/>\nA uni\u00e3o familiar \u00e9 muito facilitada pelos la\u00e7os naturais de sangue e parentesco, mas isso n\u00e3o basta. De fato, \u201cquando a uni\u00e3o \u00e9 natural, produz amor, e o amor que produz nos leva a uma nova uni\u00e3o volunt\u00e1ria que aperfei\u00e7oa a natural\u201d.<br \/>\nDurante uma de suas estadias em Sales, Francisco ficou t\u00e3o impressionado com a harmonia que reinava naquele lugar que sentiu o desejo de falar sobre isso \u00e0 sua filha espiritual. Em uma carta a Joana de Chantal, escreveu: \u201cVoc\u00ea ficaria feliz em ver uma harmonia t\u00e3o estreita entre coisas que geralmente s\u00e3o t\u00e3o discordantes: sogra, nora, cunhada, irm\u00e3os e cunhados. Entre todos esses, minha verdadeira filha, posso assegurar-lhe, para a gl\u00f3ria de Deus, que aqui h\u00e1 um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma\u201d.<br \/>\nOs desentendimentos na fam\u00edlia frequentemente surgiam por quest\u00f5es de heran\u00e7a. Quando, em 1608, a propriedade do Senhor de Boisy foi dividida entre seus filhos, havia o risco concreto de que o pai deixasse a primeira escolha ao mais jovem Bernard e que os filhos mais velhos se sentissem prejudicados. Francisco ficou muito aliviado ao ver que tudo ocorreu de forma amig\u00e1vel e harmoniosa.<br \/>\nEm caso de conflito entre marido e mulher, \u201co apoio m\u00fatuo deve ser t\u00e3o grande que os dois nunca se amarguem juntos\u201d. Com tenacidade, Francisco de Sales ensinava a superar as repugn\u00e2ncias, a permanecer \u201cno barco em que estamos\u201d e a ficar a\u00ed \u201cdoce e voluntariamente\u201d. Suas recomenda\u00e7\u00f5es mais insistentes dizem respeito ao apoio m\u00fatuo, \u00e0 amizade fiel n\u00e3o interrompida por \u201camores estranhos\u201d, \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o com a educa\u00e7\u00e3o dos filhos, sem esquecer o bom exemplo a ser dado a toda a fam\u00edlia.<br \/>\nEm \u00faltima an\u00e1lise, \u00e9 o amor que melhor resume tudo o que Francisco de Sales disse sobre o casamento e a fam\u00edlia, mas um amor que \u00e9 ao mesmo tempo realista e ideal. A educa\u00e7\u00e3o nesse \u00e2mbito consistir\u00e1, portanto, em ajudar os jovens a captar todas as dimens\u00f5es do que torna a fam\u00edlia o cora\u00e7\u00e3o da exist\u00eancia humana.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao lado do \u201csentimento pela crian\u00e7a\u201d, o s\u00e9culo XV viu o desenvolvimento de um sentimento&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":45475,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":6,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[1749,2557,2579,2215,2570,2228,2031,2025],"class_list":["post-45482","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-conselhos","tag-deus","tag-educacao","tag-familia","tag-igreja","tag-santos","tag-vida","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45482","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45482"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45482\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45489,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45482\/revisions\/45489"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45475"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45482"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45482"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45482"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}