{"id":45033,"date":"2025-08-25T16:39:41","date_gmt":"2025-08-25T16:39:41","guid":{"rendered":"https:\/\/www.donbosco.press\/?p=45033"},"modified":"2025-09-10T15:05:18","modified_gmt":"2025-09-10T15:05:18","slug":"a-educacao-da-consciencia-com-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/a-educacao-da-consciencia-com-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"A educa\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia com S\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"<p>            Provavelmente foi o advento da Reforma protestante que colocou na ordem do dia o problema da consci\u00eancia e, mais precisamente, da \u00abliberdade de consci\u00eancia\u00bb. Em uma carta de 1597 a Clemente VIII, o decano de Sales deplorava a \u00abtirania\u00bb que o \u00abestado de Genebra\u00bb impunha \u00absobre as consci\u00eancias dos cat\u00f3licos\u00bb. Pedia \u00e0 Santa S\u00e9 que interviesse junto ao rei da Fran\u00e7a para obter que os genebrinos concedessem \u00abo que chamam liberdade de consci\u00eancia\u00bb. Contr\u00e1rio a solu\u00e7\u00f5es militares para a crise protestante, ele vislumbrava na libertas conscientiae uma poss\u00edvel sa\u00edda para o confronto violento, desde que a reciprocidade fosse respeitada. Reivindicada por Genebra em favor da Reforma, e por Francisco de Sales em benef\u00edcio do catolicismo, a liberdade de consci\u00eancia estava prestes a se tornar um dos pilares da mentalidade moderna.<\/p>\n<p>Dignidade da pessoa humana<br \/>\n            A dignidade do indiv\u00edduo reside na consci\u00eancia, e a consci\u00eancia \u00e9, antes de tudo, sin\u00f4nimo de sinceridade, honestidade, franqueza, convic\u00e7\u00e3o. O decano de Sales reconhecia, por exemplo, \u00abpara aliviar sua consci\u00eancia\u00bb, que o projeto das Controv\u00e9rsias lhe fora de certa forma imposto por outros. Quando apresentava suas raz\u00f5es a favor da doutrina e da pr\u00e1tica cat\u00f3lica, preocupava-se em precisar que o fazia \u00abde consci\u00eancia\u00bb. \u00abDigam-me de consci\u00eancia\u00bb, perguntava aos seus contraditores. A \u00abboa consci\u00eancia\u00bb, de fato, faz com que algu\u00e9m evite certos atos que o colocam em contradi\u00e7\u00e3o consigo mesmo.<br \/>\n            No entanto, a consci\u00eancia subjetiva individual n\u00e3o pode ser sempre tomada como garantia da verdade objetiva. N\u00e3o se est\u00e1 sempre obrigado a acreditar no que algu\u00e9m diz de consci\u00eancia. \u00abMostrem-me claramente \u2013 diz o decano aos senhores de Thonon \u2013 que n\u00e3o mentem de forma alguma, que realmente n\u00e3o me enganam, quando me dizem que de consci\u00eancia tiveram esta ou aquela inspira\u00e7\u00e3o\u00bb. A consci\u00eancia pode ser v\u00edtima da ilus\u00e3o, de forma volunt\u00e1ria ou mesmo involunt\u00e1ria. \u00abOs avarentos inveterados n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o confessam s\u00ea-lo, como tamb\u00e9m n\u00e3o pensam de consci\u00eancia que o sejam\u00bb.<br \/>\n            A forma\u00e7\u00e3o da consci\u00eancia \u00e9 uma tarefa essencial, porque a liberdade de consci\u00eancia implica o risco de \u00abfazer o bem e o mal\u00bb, mas \u00abescolher o mal n\u00e3o \u00e9 usar, mas abusar da nossa liberdade\u00bb. \u00c9 uma tarefa dif\u00edcil, porque a consci\u00eancia \u00e0s vezes nos aparece como um advers\u00e1rio que \u00abcombate sempre contra n\u00f3s e por n\u00f3s\u00bb: ela \u00abop\u00f5e resist\u00eancia constante \u00e0s nossas m\u00e1s inclina\u00e7\u00f5es\u00bb, mas o faz \u00abpara nossa salva\u00e7\u00e3o\u00bb. Quando algu\u00e9m peca, \u00abo remorso interior se move contra sua consci\u00eancia com a espada em punho\u00bb, mas o faz para \u00abtranspass\u00e1-la com um santo temor\u00bb.<br \/>\n            Um meio para exercer uma liberdade respons\u00e1vel \u00e9 a pr\u00e1tica do \u00abexame de consci\u00eancia\u00bb. Fazer o exame de consci\u00eancia \u00e9 como seguir o exemplo das pombas que se olham \u00abcom olhos l\u00edmpidos e puros\u00bb, \u00abse limpam com cuidado e se adornam o melhor que podem\u00bb. Filoteia \u00e9 convidada a fazer esse exame todas as noites, antes de ir dormir, perguntando-se \u00abcomo se comportou nas v\u00e1rias horas do dia; para facilitar, pensar\u00e1 onde, com quem e em quais ocupa\u00e7\u00f5es se dedicou\u00bb.<br \/>\n            Uma vez por ano devemos fazer um exame aprofundado do \u00abestado da nossa alma\u00bb diante de Deus, do pr\u00f3ximo e de n\u00f3s mesmos, sem esquecer um \u00abexame dos afetos da nossa alma\u00bb. O exame \u2013 diz Francisco de Sales \u00e0s visitandinas \u2013 levar\u00e1 voc\u00eas a sondar \u00aba fundo a sua consci\u00eancia\u00bb.<br \/>\n            Como aliviar a consci\u00eancia quando algu\u00e9m a sente carregada de um erro ou de uma falha? Alguns o fazem de forma errada, julgando e acusando os outros \u00abde v\u00edcios dos quais s\u00e3o v\u00edtimas\u00bb, pensando assim em \u00abado\u00e7ar os remorsos da sua consci\u00eancia\u00bb. Dessa forma, multiplica-se o risco de fazer julgamentos temer\u00e1rios. Pelo contr\u00e1rio, \u00abaqueles que cuidam corretamente da sua consci\u00eancia n\u00e3o est\u00e3o sujeitos a julgamentos temer\u00e1rios\u00bb. Conv\u00e9m considerar \u00e0 parte o caso dos pais, educadores e respons\u00e1veis pelo bem p\u00fablico, porque \u00abuma boa parte da sua consci\u00eancia consiste em vigiar atentamente a consci\u00eancia dos outros\u00bb.<\/p>\n<p>O respeito por si mesmo<br \/>\n            Da afirma\u00e7\u00e3o da dignidade e da responsabilidade de cada um deve nascer o respeito por si mesmo. J\u00e1 S\u00f3crates e toda a antiguidade pag\u00e3 e crist\u00e3 haviam mostrado o caminho:<\/p>\n<p>\u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o dos fil\u00f3sofos, que por\u00e9m foi considerada v\u00e1lida pelos doutores crist\u00e3os: \u00abConhece-te a ti mesmo\u00bb, ou seja, conhece a excel\u00eancia da tua alma para n\u00e3o a rebaixar e desprezar.<\/p>\n<p>            Alguns de nossos atos constituem n\u00e3o apenas uma ofensa a Deus, mas tamb\u00e9m uma ofensa \u00e0 dignidade da pessoa humana e \u00e0 raz\u00e3o. Suas consequ\u00eancias s\u00e3o deplor\u00e1veis:<\/p>\n<p>A semelhan\u00e7a e imagem de Deus, que carregamos em n\u00f3s, \u00e9 manchada e desfigurada, a dignidade do nosso esp\u00edrito desonrada, e somos tornados semelhantes aos animais irracionais [\u2026], tornando-nos escravos das nossas paix\u00f5es e invertendo a ordem da raz\u00e3o.<\/p>\n<p>            H\u00e1 \u00eaxtases e arrebatamentos que nos elevam acima da nossa condi\u00e7\u00e3o natural e outros que nos rebaixam: \u00ab\u00d3 homens, at\u00e9 quando sereis t\u00e3o insensatos \u2013 escreve o autor do Te\u00f3timo \u2013 a ponto de querer pisotear a vossa dignidade natural, descendo voluntariamente e precipitando-vos na condi\u00e7\u00e3o dos animais?\u00bb.<br \/>\n            O respeito por si mesmo permitir\u00e1 evitar dois perigos opostos: o orgulho e o desprezo pelos dons que se tem. Em um s\u00e9culo em que o senso de honra era exaltado ao m\u00e1ximo, Francisco de Sales teve que intervir para denunciar delitos, em particular no problema do duelo, que lhe fazia \u00abarrepiar os cabelos da cabe\u00e7a\u00bb, e ainda mais o orgulho insensato que era a causa. \u00abEstou escandalizado\u00bb \u2013 escrevia \u00e0 esposa de um marido duelista \u2013; \u00abna verdade, n\u00e3o consigo entender como se pode ter uma coragem t\u00e3o desregrada mesmo por bagatelas e coisas sem import\u00e2ncia\u00bb. Lutando em duelo \u00e9 como se \u00abse tornassem um o carrasco do outro\u00bb.<br \/>\n            Outros, ao contr\u00e1rio, n\u00e3o ousam reconhecer os dons recebidos e pecam assim contra o dever da gratid\u00e3o. Francisco de Sales denuncia \u00abcerta falsa e tola humildade que impede descobrir o bem que h\u00e1 neles\u00bb. Est\u00e3o errados, porque \u00abos bens que Deus colocou em n\u00f3s devem ser reconhecidos, estimados e honrados sinceramente\u00bb.<br \/>\n            O primeiro pr\u00f3ximo que devo respeitar e amar, parece querer dizer o bispo de Genebra, \u00e9 o pr\u00f3prio eu. O verdadeiro amor por mim mesmo e o respeito devido exigem que eu tenda \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o e que me corrija, se necess\u00e1rio, mas docemente, razoavelmente e \u00abseguindo o caminho da compaix\u00e3o\u00bb em vez do da ira e da f\u00faria.<br \/>\n            Existe, de fato, um amor por si mesmo n\u00e3o apenas leg\u00edtimo, mas tamb\u00e9m ben\u00e9fico e mandado: \u00abA caridade bem ordenada come\u00e7a por si mesmo\u00bb \u2013 diz o prov\u00e9rbio \u2013 e reflete bem o pensamento de Francisco de Sales, mas desde que n\u00e3o se confunda o amor por si mesmo com o amor-pr\u00f3prio. O amor por si mesmo \u00e9 bom, e Filoteia \u00e9 convidada a interrogar-se sobre a maneira como ama a si mesma:<\/p>\n<p>Mant\u00e9m uma boa ordem no amor por si mesma? Porque s\u00f3 o amor desordenado por n\u00f3s mesmos pode nos levar \u00e0 ru\u00edna. Ora, o amor ordenado quer que amemos a alma mais do que o corpo, que busquemos adquirir as virtudes mais do que qualquer outra coisa.<\/p>\n<p>            Ao contr\u00e1rio, o amor-pr\u00f3prio \u00e9 um amor ego\u00edsta, \u00abnarcisista\u00bb, cheio de si mesmo, ciumento da pr\u00f3pria beleza e unicamente preocupado com o pr\u00f3prio interesse: \u00abNarciso \u2013 dizem os profanos \u2013 era um jovem t\u00e3o arrogante que n\u00e3o queria oferecer seu amor a ningu\u00e9m; e, finalmente, contemplando-se em uma fonte l\u00edmpida, foi totalmente arrebatado por sua beleza\u00bb.<\/p>\n<p>O \u00abrespeito devido \u00e0s pessoas\u00bb<br \/>\n            Se se respeita a si mesmo, a gente estar\u00e1 mais preparado e disposto a respeitar os outros. O fato de ser \u00aba imagem e semelhan\u00e7a de Deus\u00bb tem como corol\u00e1rio a afirma\u00e7\u00e3o segundo a qual \u00abtodos os seres humanos gozam da mesma dignidade\u00bb. Francisco de Sales, embora vivendo em uma sociedade marcada pelo antigo regime, fortemente desigual, promoveu um pensamento e uma pr\u00e1tica caracterizados pelo \u00abrespeito devido \u00e0s pessoas\u00bb.<br \/>\n            \u00c9 preciso come\u00e7ar pelas crian\u00e7as. A m\u00e3e de S\u00e3o Bernardo \u2013 diz o autor da Filoteia \u2013 amava seus filhos rec\u00e9m-nascidos \u00abcom respeito como uma coisa sagrada que Deus lhe confiara\u00bb. Uma repreens\u00e3o muito grave dirigida pelo bispo de Genebra aos pag\u00e3os dizia respeito ao seu desprezo pela vida de seres indefesos. O respeito pela crian\u00e7a que est\u00e1 para nascer emerge neste trecho de uma carta, redigida segundo a ret\u00f3rica barroca da \u00e9poca, dirigida por Francisco de Sales a uma mulher gr\u00e1vida. Ele a encoraja explicando que a crian\u00e7a que est\u00e1 se formando em suas entranhas n\u00e3o \u00e9 apenas \u00abuma imagem viva da divina Majestade\u00bb, mas tamb\u00e9m a imagem de sua m\u00e3e. Recomenda a outra mulher:<\/p>\n<p>Ofere\u00e7a frequentemente \u00e0 gl\u00f3ria eterna do seu Criador a criaturinha cuja forma\u00e7\u00e3o Ele quis que voc\u00ea assumisse como sua cooperadora.<\/p>\n<p>            Outro aspecto do respeito devido aos outros diz respeito ao tema da liberdade. A descoberta de novas terras teve, como consequ\u00eancia nefasta, o ressurgimento da escravid\u00e3o, que remetia \u00e0s pr\u00e1ticas dos antigos romanos na \u00e9poca do paganismo. A venda de seres humanos os rebaixava ao n\u00edvel dos animais:<\/p>\n<p>Um dia, Marco Ant\u00f4nio comprou de um mercador dois jovens; ent\u00e3o, como ainda acontece hoje em algumas regi\u00f5es, vendiam-se crian\u00e7as; havia homens que as conseguiam e depois as traficavam como se faz com cavalos em nossos pa\u00edses.<\/p>\n<p>            O respeito pelos outros \u00e9 continuamente amea\u00e7ado de forma mais sutil pela maledic\u00eancia e pela cal\u00fania. Francisco de Sales insiste bastante nos \u00abpecados da l\u00edngua\u00bb. Um cap\u00edtulo da Filoteia que trata explicitamente desse assunto intitula-se A honestidade nas palavras e o respeito que se deve \u00e0s pessoas. Arruinar a reputa\u00e7\u00e3o de algu\u00e9m \u00e9 cometer um \u00abassassinato espiritual\u00bb; \u00e9 privar \u00aba vida civil\u00bb daquele de quem se fala mal. Assim tamb\u00e9m, \u00abao censurar o v\u00edcio\u00bb, esfor\u00e7ar-se-\u00e1 para poupar o m\u00e1ximo poss\u00edvel \u00aba pessoa implicada nele\u00bb.<br \/>\n            Certas categorias de pessoas s\u00e3o facilmente denegridas ou desprezadas. Francisco de Sales defende a dignidade do povo baseando-se no Evangelho: \u00abS\u00e3o Pedro \u2013 comenta \u2013 era um homem rude, grosseiro, um velho pescador, um trabalhador de baixa condi\u00e7\u00e3o; S\u00e3o Jo\u00e3o, ao contr\u00e1rio, era um cavalheiro, doce, am\u00e1vel, s\u00e1bio; S\u00e3o Pedro, por\u00e9m, ignorante\u00bb. Ora, foi S\u00e3o Pedro quem foi escolhido para guiar os outros e para ser o \u00absuperior universal\u00bb.<br \/>\n            Ele proclama a dignidade dos doentes, dizendo que \u00abas almas que est\u00e3o na cruz s\u00e3o declaradas rainhas\u00bb. Denunciando a \u00abcrueldade para com os pobres\u00bb e exaltando a \u00abdignidade dos pobres\u00bb, justifica e esclarece a atitude que se deve ter para com eles, explicando \u00abcomo devemos honr\u00e1-los e, portanto, visit\u00e1-los como representantes de Nosso Senhor\u00bb. Ningu\u00e9m \u00e9 in\u00fatil, ningu\u00e9m \u00e9 insignificante: \u00abN\u00e3o h\u00e1 no mundo objeto que n\u00e3o possa ser \u00fatil para alguma coisa; mas \u00e9 preciso saber encontrar seu uso e lugar\u00bb.<\/p>\n<p>O \u00abum-diferente\u00bb salesiano<br \/>\n            O problema que sempre atormentou as sociedades humanas \u00e9 o de conciliar entre si a dignidade e a liberdade de cada indiv\u00edduo com as dos outros. Recebeu de Francisco de Sales um esclarecimento original, gra\u00e7as \u00e0 inven\u00e7\u00e3o de uma nova palavra. De fato, admitindo que o universo \u00e9 formado por \u00abtodas as coisas criadas, vis\u00edveis e invis\u00edveis\u00bb e que \u00aba sua diversidade \u00e9 reconduzida \u00e0 unidade\u00bb, o bispo de Genebra prop\u00f4s cham\u00e1-lo de \u00abum-diferente\u00bb, ou seja, \u00ab\u00fanico e diferente, \u00fanico com diversidade e diferente com unidade\u00bb.<br \/>\n            Para ele, todo ser \u00e9 \u00fanico. As pessoas s\u00e3o como as p\u00e9rolas de que fala Pl\u00ednio: \u00abs\u00e3o t\u00e3o \u00fanicas, cada uma em sua qualidade, que nunca se encontram duas perfeitamente iguais\u00bb. \u00c9 significativo que suas duas principais obras, Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 vida devota e Tratado do amor de Deus, sejam dirigidas a uma pessoa singular, Filoteia e Te\u00f3timo. Que variedade e diversidade entre os seres! \u00abSem d\u00favida, como vemos que nunca se encontram dois homens perfeitamente iguais quanto aos dons da natureza, assim nunca se encontram perfeitamente iguais quanto aos dons sobrenaturais\u00bb. A variedade o encantava tamb\u00e9m do ponto de vista puramente est\u00e9tico, mas temia uma curiosidade indiscreta sobre suas causas:<\/p>\n<p>Se algu\u00e9m se perguntasse por que Deus fez as melancias maiores que os morangos, ou os l\u00edrios maiores que as violetas; por que o alecrim n\u00e3o \u00e9 uma rosa ou por que o cravo n\u00e3o \u00e9 uma cal\u00eandula; por que o pav\u00e3o \u00e9 mais belo que um morcego, ou por que o figo \u00e9 doce e o lim\u00e3o azedo, ririam de suas perguntas e diriam: pobre homem, como a beleza do mundo exige variedade, \u00e9 necess\u00e1rio que nas coisas haja perfei\u00e7\u00f5es diferentes e diferenciadas e que uma n\u00e3o seja a outra; por isso umas s\u00e3o pequenas, outras grandes, umas \u00e1cidas, outras doces, umas mais belas, outras menos. [\u2026] Todas t\u00eam seu m\u00e9rito, sua gra\u00e7a, seu esplendor, e todas, vistas no conjunto de suas variedades, constituem um maravilhoso espet\u00e1culo de beleza.<\/p>\n<p>            A diversidade n\u00e3o impede a unidade; pelo contr\u00e1rio, a torna ainda mais rica e bela. Cada flor tem suas caracter\u00edsticas, que a distinguem de todas as outras: \u00abN\u00e3o \u00e9 pr\u00f3prio das rosas serem brancas, me parece, porque as vermelhas s\u00e3o mais belas e t\u00eam um perfume melhor, o qual, por\u00e9m, \u00e9 pr\u00f3prio do l\u00edrio\u00bb. Certamente, Francisco de Sales n\u00e3o suporta confus\u00e3o e desordem, mas \u00e9 igualmente inimigo da uniformidade. A diversidade dos seres pode levar \u00e0 dispers\u00e3o e \u00e0 ruptura da comunh\u00e3o, mas se h\u00e1 amor, \u00abv\u00ednculo da perfei\u00e7\u00e3o\u00bb, nada est\u00e1 perdido; pelo contr\u00e1rio, a diversidade \u00e9 exaltada pela uni\u00e3o.<br \/>\n            Em Francisco de Sales h\u00e1 certamente uma cultura real do indiv\u00edduo, mas esta nunca \u00e9 um fechamento ao grupo, \u00e0 comunidade ou \u00e0 sociedade. Ele v\u00ea espontaneamente o indiv\u00edduo inserido em um contexto ou \u00abestado\u00bb de vida, que marca fortemente a identidade e a perten\u00e7a de cada um. N\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel estabelecer um programa ou projeto igual para todos, pelo simples fato de que ser\u00e1 aplicado e realizado de maneira diferente \u00abpara o cavalheiro, para o artes\u00e3o, para o criado, para o pr\u00edncipe, para a vi\u00fava, para a jovem, para a casada\u00bb; \u00e9 preciso ainda adapt\u00e1-lo \u00ab\u00e0s for\u00e7as e aos deveres de cada um em particular\u00bb. O bispo de Genebra v\u00ea a sociedade dividida em espa\u00e7os vitais caracterizados pela perten\u00e7a social e solidariedade de grupo, como quando trata \u00abda companhia de soldados, da oficina dos artes\u00e3os, da corte dos pr\u00edncipes, da fam\u00edlia de pessoas casadas\u00bb.<br \/>\n            O amor personaliza e, portanto, individualiza. O afeto que liga uma pessoa a outra \u00e9 \u00fanico, como demonstra Francisco de Sales em sua rela\u00e7\u00e3o com a senhora de Chantal: \u00abCada afeto tem sua peculiaridade que o diferencia dos outros; o que sinto por voc\u00ea possui certa particularidade que me consola infinitamente e, para dizer tudo, para mim \u00e9 sobremaneira frut\u00edfero\u00bb. O sol ilumina todos e cada um: \u00abiluminando um canto da terra, n\u00e3o o ilumina menos do que faria se n\u00e3o brilhasse em outro lugar, mas somente naquele canto\u00bb.<\/p>\n<p>O ser humano est\u00e1 em transforma\u00e7\u00e3o<br \/>\n            Humanista crist\u00e3o, Francisco de Sales acredita finalmente na possibilidade que a pessoa humana tem de se aperfei\u00e7oar. Erasmo havia forjado a f\u00f3rmula: Homines non nascuntur sed finguntur [Os homens n\u00e3o nascem prontos, mas precisam se fazer]. Enquanto o animal \u00e9 um ser predeterminado, guiado pelo instinto, o homem, ao contr\u00e1rio, est\u00e1 em perp\u00e9tua evolu\u00e7\u00e3o. N\u00e3o s\u00f3 muda, mas pode mudar a si mesmo, tanto para melhor quanto para pior.<br \/>\n            O que preocupava inteiramente o autor do Te\u00f3timo era aperfei\u00e7oar a si mesmo e ajudar os outros a se aperfei\u00e7oarem, e n\u00e3o apenas no \u00e2mbito religioso, mas em tudo. Do nascimento \u00e0 sepultura, o homem est\u00e1 em situa\u00e7\u00e3o de aprendiz. Imitemos o crocodilo que \u00abnunca deixa de crescer enquanto vive\u00bb. De fato, \u00abpermanecer no mesmo estado por muito tempo n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel: quem n\u00e3o avan\u00e7a, retrocede neste tr\u00e2nsito; quem n\u00e3o sobe, desce nesta escada; quem n\u00e3o vence \u00e9 vencido nesta luta\u00bb. Ele cita S\u00e3o Bernardo que dizia: \u00abEst\u00e1 escrito de modo particular para o homem que nunca estar\u00e1 no mesmo estado: \u00e9 preciso que avance ou retroceda\u00bb. Vamos em frente:<\/p>\n<p>N\u00e3o sabes que est\u00e1s em caminho e que o caminho n\u00e3o \u00e9 feito para sentar, mas para avan\u00e7ar? E \u00e9 t\u00e3o feito para avan\u00e7ar que mover-se para frente se chama caminhar.<\/p>\n<p>            Isso significa tamb\u00e9m que a pessoa humana \u00e9 educ\u00e1vel, capaz de aprender, de se corrigir e de melhorar. E isso \u00e9 verdade em todos os n\u00edveis. A idade \u00e0s vezes n\u00e3o tem nada a ver. Olhem para esses meninos cantores da catedral, que superam em muito as capacidades do seu bispo nesse campo: \u00abAdmiro essas crian\u00e7as \u2013 dizia \u2013 que mal sabem falar e que j\u00e1 cantam sua parte; compreendem todos os sinais e regras musicais, enquanto eu n\u00e3o saberia mesmo como me virar, eu que sou um homem feito e que gostaria de passar por uma grande personalidade\u00bb. Ningu\u00e9m neste mundo \u00e9 perfeito:<\/p>\n<p>H\u00e1 pessoas de natureza leve, outras grosseiras, outras ainda muito relutantes em ouvir as opini\u00f5es alheias, e outras finalmente propensas \u00e0 indigna\u00e7\u00e3o, outras \u00e0 c\u00f3lera e outras ao amor; para resumir, encontramos poucas pessoas em que n\u00e3o seja poss\u00edvel descobrir uma ou outra dessas imperfei\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>            Deve-se ent\u00e3o desesperar de poder melhorar o pr\u00f3prio temperamento, corrigindo alguma de nossas inclina\u00e7\u00f5es naturais? De jeito nenhum.<\/p>\n<p>Por mais que, de fato, sejam em cada um de n\u00f3s como pr\u00f3prias e naturais, se com a aplica\u00e7\u00e3o a um apego contr\u00e1rio podem ser corrigidas e reguladas, e at\u00e9 mesmo algu\u00e9m pode se livrar delas e se purificar, ent\u00e3o, digo a voc\u00ea, Filoteia, que \u00e9 preciso faz\u00ea-lo. Encontrou-se at\u00e9 o modo de tornar doces as amendoeiras amargas: basta fur\u00e1-las na base e fazer sair o suco; por que n\u00e3o poder\u00edamos ent\u00e3o fazer sair nossas inclina\u00e7\u00f5es perversas, para assim nos tornarmos melhores?<\/p>\n<p>            Da\u00ed a conclus\u00e3o otimista, mas exigente: \u00abN\u00e3o h\u00e1 natureza boa que n\u00e3o possa se tornar m\u00e1, por meio de h\u00e1bitos viciosos; n\u00e3o h\u00e1 natureza t\u00e3o perversa que n\u00e3o possa, primeiramente com a gra\u00e7a de Deus e depois com empenho industrioso e dilig\u00eancia, ser domada e vencida\u00bb. Se o homem \u00e9 educ\u00e1vel, n\u00e3o se deve desesperar de ningu\u00e9m e deve-se evitar preconceitos contra as pessoas:<\/p>\n<p>N\u00e3o digam: fulano \u00e9 um b\u00eabado, mesmo que o tenham visto b\u00eabado; \u00e9 um ad\u00faltero, por t\u00ea-lo visto pecar; \u00e9 um incestuoso, por t\u00ea-lo apanhado naquela desgra\u00e7a; porque um \u00fanico ato n\u00e3o basta para dar nome \u00e0 coisa. [\u2026] E mesmo quando um homem tenha sido viciado por muito tempo, ainda assim correria o risco de mentir ao cham\u00e1-lo viciado.<\/p>\n<p>            A pessoa humana nunca termina de cultivar seu jardim. \u00c9 a li\u00e7\u00e3o que o fundador das visitandinas lhes incutia, quando as chamava \u00aba cultivar a terra e o jardim\u00bb de seus cora\u00e7\u00f5es e esp\u00edritos, porque n\u00e3o existe \u00abhomem t\u00e3o perfeito que n\u00e3o precise se empenhar tanto para crescer na perfei\u00e7\u00e3o quanto para mant\u00ea-la\u00bb.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Provavelmente foi o advento da Reforma protestante que colocou na ordem do dia o problema&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":45024,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":5,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[1737,1749,2557,2224,2227,2228,2025],"class_list":["post-45033","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-catequese","tag-conselhos","tag-deus","tag-formacao","tag-salvacao","tag-santos","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45033","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=45033"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45033\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":45034,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/45033\/revisions\/45034"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/45024"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=45033"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=45033"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=45033"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}