{"id":35655,"date":"2025-03-27T20:16:43","date_gmt":"2025-03-27T20:16:43","guid":{"rendered":"https:\/\/exciting-knuth.178-32-140-152.plesk.page\/?p=35655"},"modified":"2025-03-27T20:19:22","modified_gmt":"2025-03-27T20:19:22","slug":"educar-o-corpo-e-seus-5-sentidos-com-sao-francisco-de-sales","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/educar-o-corpo-e-seus-5-sentidos-com-sao-francisco-de-sales\/","title":{"rendered":"Educar o corpo e seus 5 sentidos com S\u00e3o Francisco de Sales"},"content":{"rendered":"\n<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um bom n\u00famero de antigos ascetas crist\u00e3os frequentemente considerou o corpo como um inimigo, cuja corrup\u00e7\u00e3o deveria ser combatida, na verdade, como um objeto de desprezo e a ser ignorado. Numerosos homens espirituais da Idade M\u00e9dia n\u00e3o se preocupavam com o corpo, exceto para infligir-lhe penit\u00eancias. Na maioria das escolas da \u00e9poca, nada era previsto para fazer descansar o \u201cirm\u00e3o jumento\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para Calvino, a natureza humana totalmente corrompida pelo pecado original n\u00e3o poderia ser outra coisa sen\u00e3o um \u201clix\u00e3o\u201d. No lado oposto, numerosos escritores e artistas renascentistas exaltavam o corpo a ponto de prestar-lhe um culto, no qual a sensualidade tinha grande relev\u00e2ncia. Rabelais, por sua vez, magnificava o corpo de seus gigantes e se deleitava em expor suas fun\u00e7\u00f5es org\u00e2nicas, mesmo as menos nobres.<br><br><strong>O realismo salesiano<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entre a diviniza\u00e7\u00e3o do corpo e seu desprezo, Francisco de Sales oferece uma vis\u00e3o realista da natureza humana. Ao final da primeira medita\u00e7\u00e3o sobre o tema da cria\u00e7\u00e3o do homem, \u201co primeiro ser do mundo vis\u00edvel\u201d, o autor da <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 vida devota<\/em> coloca nos l\u00e1bios de Filoteia este prop\u00f3sito que parece resumir seu pensamento: \u201cQuero sentir-me honrada pelo ser que ele me deu\u201d. Certamente, o corpo est\u00e1 destinado \u00e0 morte. Com brutal realismo, o autor descreve a despedida da alma ao corpo, que abandonar\u00e1 \u201cp\u00e1lido, l\u00edvido, desfeito, horrendo e fedorento\u201d, mas isso n\u00e3o constitui uma raz\u00e3o para negligenci\u00e1-lo e denegri-lo injustamente enquanto est\u00e1 vivo. S\u00e3o Bernardo estava equivocado ao anunciar \u00e0queles que queriam segui-lo \u201cque deveriam abandonar seu corpo e ir at\u00e9 ele apenas em esp\u00edrito\u201d. Os males f\u00edsicos n\u00e3o devem levar a odiar o corpo: o mal moral \u00e9 muito pior.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o encontramos de forma alguma em Francisco de Sales o esquecimento ou a sombra dos fen\u00f4menos corporais, como quando fala de diferentes formas de doen\u00e7as ou quando evoca as manifesta\u00e7\u00f5es do amor humano. Em um cap\u00edtulo do <em>Tratado do amor de Deus<\/em> intitulado: \u201cO amor tende \u00e0 uni\u00e3o\u201d, ele escreve, por exemplo, que \u201cuma boca se aplica sobre a outra quando nos beijamos, para testemunhar que se gostaria de derramar uma alma na outra, para uni-las com uma uni\u00e3o perfeita\u201d. Essa atitude de Francisco de Sales em rela\u00e7\u00e3o ao corpo j\u00e1 suscitou, em seu tempo, rea\u00e7\u00f5es escandalizadas. Quando apareceu a Filoteia, um religioso avinhonense criticou publicamente este \u201clivreto\u201d, despeda\u00e7ou-o acusando seu autor de \u201cdoutor corrompido e corruptor\u201d. Inimigo da pudic\u00edcia exagerada, Francisco de Sales ainda n\u00e3o conhecia a reserva e os medos que emergiriam em tempos posteriores. Sobrevivem nele costumes medievais ou \u00e9 simplesmente uma manifesta\u00e7\u00e3o de seu gosto \u201cb\u00edblico\u201d? De qualquer forma, nele n\u00e3o se encontra nada compar\u00e1vel \u00e0s trivialidades do \u201cinfame\u201d Rabelais.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os dons naturais mais estimados s\u00e3o a beleza, a for\u00e7a e a sa\u00fade. Em refer\u00eancia \u00e0 beleza, Francisco de Sales assim se expressava ao falar de santa Br\u00edgida: \u201cNasceu na Esc\u00f3cia; era uma mo\u00e7a muito bonita, dado que os escoceses s\u00e3o belos por natureza, e naquele Pa\u00eds encontram-se as mais belas criaturas existentes\u201d. Pensemos, por outro lado, no repert\u00f3rio de imagens referentes \u00e0s perfei\u00e7\u00f5es f\u00edsicas do noivo e da noiva, tiradas do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos. Embora as representa\u00e7\u00f5es sejam sublimadas e transferidas para um registro espiritual, permanecem, no entanto, significativas de uma atmosfera onde se exalta a beleza natural do homem e da mulher. Tentaram faz\u00ea-lo suprimir o cap\u00edtulo do Te\u00f3timo sobre o beijo, no qual demonstra que \u201co amor tende \u00e0 uni\u00e3o\u201d, mas ele sempre se recusou a faz\u00ea-lo. De qualquer forma, a beleza exterior n\u00e3o \u00e9 a mais importante: a beleza da filha de Si\u00e3o \u00e9 interior.<br><br><strong>Estreita liga\u00e7\u00e3o entre o corpo e a alma<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Antes de tudo, Francisco de Sales afirma que o corpo \u00e9 \u201cuma parte da nossa pessoa\u201d. A alma personificada pode at\u00e9 dizer com um tom de ternura: \u201cEsta carne \u00e9 minha querida metade, \u00e9 minha irm\u00e3, \u00e9 minha companheira, nascida comigo, alimentada comigo\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O bispo foi muito atento \u00e0 liga\u00e7\u00e3o existente entre o corpo e a alma, entre a sa\u00fade do corpo e a da alma. Assim, escreve sobre uma pessoa sob sua dire\u00e7\u00e3o, doente, que a sa\u00fade de seu corpo \u201cdepende muito da sa\u00fade da alma, e a da alma depende das consola\u00e7\u00f5es espirituais\u201d. \u201cN\u00e3o \u00e9 o seu cora\u00e7\u00e3o que se debilitou \u2013 escrevia a uma doente \u2013, mas sim o seu corpo, e, dados os la\u00e7os estreit\u00edssimos que os unem, seu cora\u00e7\u00e3o tem a impress\u00e3o de sentir o mal de seu corpo\u201d. Cada um pode constatar que as enfermidades corporais \u201cacabam por criar desconforto tamb\u00e9m ao esp\u00edrito, devido aos estreitos v\u00ednculos entre um e outro\u201d. Inversamente, o esp\u00edrito age sobre o corpo at\u00e9 o ponto em que \u201co corpo percebe os afetos que se agitam no cora\u00e7\u00e3o\u201d, como aconteceu em Jesus, que se sentou ao po\u00e7o de Jac\u00f3, cansado de seu pesado compromisso ao servi\u00e7o do reino de Deus.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No entanto, como \u201co corpo e o esp\u00edrito frequentemente seguem dire\u00e7\u00f5es contr\u00e1rias, e, \u00e0 medida que um se enfraquece, o outro se fortalece\u201d, e como \u201co esp\u00edrito deve reinar\u201d, \u201cdevemos sustent\u00e1-lo e consolid\u00e1-lo de tal forma que permane\u00e7a sempre o mais forte\u201d. Se ent\u00e3o cuido do corpo \u00e9 \u201cpara que esteja a servi\u00e7o do esp\u00edrito\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Entretanto, somos justos em rela\u00e7\u00e3o ao corpo. Em caso de mal-estar ou de erros, muitas vezes acontece que a alma acusa o corpo e o maltrata, como fez Bala\u00e3o com sua jumenta: \u201c\u00d3 pobre alma! se sua carne pudesse falar, diria a voc\u00ea, como a jumenta de Bala\u00e3o: por que me espancas, miser\u00e1vel? \u00c9 contra voc\u00ea, minha alma, que Deus arma sua vingan\u00e7a, voc\u00ea \u00e9 a criminosa\u201d. Quando uma pessoa reforma seu \u00edntimo, a convers\u00e3o se manifestar\u00e1 tamb\u00e9m externamente: em todas as atitudes, na boca, nas m\u00e3os e \u201cat\u00e9 mesmo nos cabelos\u201d. A pr\u00e1tica da virtude torna o homem bonito interiormente e tamb\u00e9m exteriormente. Inversamente, uma mudan\u00e7a exterior, um comportamento do corpo pode favorecer uma mudan\u00e7a interior. Um ato de devo\u00e7\u00e3o exterior durante a medita\u00e7\u00e3o pode despertar a devo\u00e7\u00e3o interior. O que aqui \u00e9 dito sobre a vida espiritual pode ser facilmente aplicado \u00e0 educa\u00e7\u00e3o em geral.<br><br><strong>Amor e dom\u00ednio do corpo<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Falando da atitude a ter em rela\u00e7\u00e3o ao corpo e \u00e0s realidades corporais, n\u00e3o surpreende ver Francisco de Sales recomendar a Filoteia, como primeira coisa, a gratid\u00e3o pelas gra\u00e7as corporais que Deus lhe deu.<br><br><em>Devemos amar nosso corpo por diferentes motivos: porque \u00e9 necess\u00e1rio para realizar as boas obras, porque \u00e9 uma parte da nossa pessoa, e porque est\u00e1 destinado a participar da felicidade eterna. O crist\u00e3o deve amar seu pr\u00f3prio corpo como uma imagem viva daquele do Salvador encarnado, como dele proveniente por parentesco e consanguinidade. Sobretudo depois que renovamos a alian\u00e7a, recebendo realmente o corpo do Redentor no ador\u00e1vel sacramento da eucaristia, e, com o batismo, a confirma\u00e7\u00e3o e os outros sacramentos, nos dedicamos e consagramos \u00e0 suma bondade.<br><\/em><br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O amor pelo pr\u00f3prio corpo faz parte do amor devido a si mesmo. Na verdade, a raz\u00e3o mais convincente para honrar e usar sabiamente o corpo est\u00e1 em uma vis\u00e3o de f\u00e9, que o bispo de Genebra assim explicava \u00e0 madre de Chantal, que sa\u00eda de uma doen\u00e7a: \u201cTenha ainda cuidado deste corpo, porque \u00e9 de Deus, minha car\u00edssima Madre\u201d. A Virgem Maria \u00e9 apresentada a este ponto como modelo: \u201cCom que devo\u00e7\u00e3o deveria amar seu corpo virginal! N\u00e3o apenas porque era um corpo doce, humilde, puro, obediente ao santo amor e totalmente impregnado de mil sagrados perfumes, mas tamb\u00e9m porque era a viva fonte daquele do Salvador e lhe pertencia muito estreitamente, com um la\u00e7o que n\u00e3o tem compara\u00e7\u00e3o\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O amor pelo corpo \u00e9, sim, recomendado, mas o corpo deve permanecer subordinado ao esp\u00edrito, como o servo ao seu mestre. Para controlar o apetite, devo \u201ccomandar as m\u00e3os a n\u00e3o fornecer \u00e0 boca alimentos e bebidas, se n\u00e3o na medida certa\u201d. Para governar a sexualidade \u201c\u00e9 preciso retirar ou dar \u00e0 faculdade da reprodu\u00e7\u00e3o os sujeitos, os objetos e os alimentos que a excitam, segundo os ditames da raz\u00e3o\u201d. Ao jovem que se prepara para \u201cnavegar no vasto mar\u201d, o bispo recomenda: \u201cDesejo tamb\u00e9m um cora\u00e7\u00e3o vigoroso que o impe\u00e7a de mimar seu corpo com excessivas requintarias na comida, no sono ou em outras coisas. Sabe-se, de fato, que um cora\u00e7\u00e3o generoso sente sempre um pouco de desprezo pelas delicadezas e del\u00edcias corporais\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para que o corpo permane\u00e7a subordinado \u00e0 lei do esp\u00edrito, conv\u00e9m evitar os excessos: nem maltrat\u00e1-lo nem mim\u00e1-lo. Em tudo \u00e9 necess\u00e1rio medida. O motivo da caridade deve ter o primado em todas as coisas; isso o faz escrever: \u201cSe o trabalho que voc\u00ea faz \u00e9 necess\u00e1rio ou \u00e9 muito \u00fatil para a gl\u00f3ria de Deus, preferiria que suportasse as penas do trabalho em vez das do jejum\u201d. Da\u00ed a conclus\u00e3o: \u201cEm geral, \u00e9 melhor ter no corpo mais for\u00e7as do que o necess\u00e1rio, do que arruin\u00e1-las al\u00e9m do necess\u00e1rio; porque arruin\u00e1-las se pode sempre, assim que se quer, mas para recuper\u00e1-las nem sempre basta querer\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que \u00e9 necess\u00e1rio evitar \u00e9 essa \u201cternura que se sente para consigo mesmo\u201d. Ele critica, com fina ironia, mas de forma impiedosa, uma imperfei\u00e7\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 apenas \u201cpr\u00f3pria das crian\u00e7as, e, se posso ousar dizer, das mulheres\u201d, mas tamb\u00e9m de homens pouco corajosos, dos quais nos d\u00e1 este interessante quadro caracter\u00edstico: \u201cOutros s\u00e3o aqueles que s\u00e3o ternos consigo mesmos, e que n\u00e3o fazem outra coisa sen\u00e3o se lamentar, se mimar, se acariciar e se olhar\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 De qualquer forma, o bispo de Genebra cuidava de seu corpo como era seu dever, obedecia ao seu m\u00e9dico e \u00e0s \u201cenfermeiras\u201d. Ele tamb\u00e9m se preocupava com a sa\u00fade alheia, aconselhando medidas apropriadas. Escrever\u00e1, por exemplo, \u00e0 m\u00e3e de um jovem aluno do col\u00e9gio de Annecy: \u201c\u00c9 necess\u00e1rio fazer Carlos ser examinado pelos m\u00e9dicos, para que seu incha\u00e7o na barriga n\u00e3o se agrave\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A servi\u00e7o da sa\u00fade est\u00e1 a higiene. Francisco de Sales desejava que tanto o cora\u00e7\u00e3o quanto o corpo estivessem limpos. Recomendava o decoro, muito diferente de afirma\u00e7\u00f5es como esta de Santo Hil\u00e1rio, segundo a qual \u201cn\u00e3o se deveria buscar a limpeza em nossos corpos que n\u00e3o s\u00e3o nada al\u00e9m de carca\u00e7as pestilenciais e carregadas apenas de infec\u00e7\u00e3o\u201d. Ele estava mais de acordo com Santo Agostinho e os antigos que tomavam banho \u201cpara manter limpos seus corpos tanto da sujeira produzida pelo calor e pelo suor, quanto para a sa\u00fade, que \u00e9 certamente sobremaneira ajudada pela limpeza\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para poder trabalhar e cumprir os deveres de sua fun\u00e7\u00e3o, cada um deve cuidar de seu corpo no que diz respeito \u00e0 alimenta\u00e7\u00e3o e ao descanso: \u201cComer pouco, trabalhar muito e com muita agita\u00e7\u00e3o e negar ao corpo o descanso necess\u00e1rio, \u00e9 como exigir muito de um cavalo que est\u00e1 exausto sem dar-lhe tempo para mastigar um pouco de aveia\u201d. O corpo precisa descansar, \u00e9 algo totalmente evidente. As longas vig\u00edlias noturnas s\u00e3o \u201cprejudiciais \u00e0 cabe\u00e7a e ao est\u00f4mago\u201d, enquanto, por outro lado, levantar-se cedo pela manh\u00e3 \u00e9 \u201c\u00fatil tanto para a sa\u00fade quanto para a santidade\u201d.<br><br><strong>Educar nossos sentidos, especialmente os olhos e os ouvidos<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nossos sentidos s\u00e3o dons maravilhosos do Criador. Eles nos colocam em contato com o mundo e nos abrem a todas as realidades sens\u00edveis, \u00e0 natureza, ao cosmos. Os sentidos s\u00e3o a porta do esp\u00edrito, que lhes fornece, por assim dizer, a mat\u00e9ria-prima; de fato, como diz a tradi\u00e7\u00e3o escol\u00e1stica, \u201cnada est\u00e1 no intelecto que n\u00e3o tenha passado antes pelos sentidos\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quando Francisco de Sales fala dos sentidos, seu interesse se volta especialmente para o plano educativo e moral, e seu ensinamento a esse respeito se relaciona ao que exp\u00f4s sobre o corpo em geral: admira\u00e7\u00e3o e vigil\u00e2ncia. Por um lado, ele diz que Deus nos d\u00e1 \u201cos olhos para ver as maravilhas de suas obras, a l\u00edngua para louv\u00e1-lo, e assim por diante para todas as outras faculdades\u201d, sem nunca omitir, por outro lado, a recomenda\u00e7\u00e3o de \u201ccolocar sentinelas nos olhos, na boca, nos ouvidos, nas m\u00e3os e no olfato\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 necess\u00e1rio come\u00e7ar pela vis\u00e3o, porque \u201centre todas as partes externas do corpo humano, n\u00e3o h\u00e1 uma, por sua estrutura e atividade, mais nobre do que o olho\u201d. O olho \u00e9 feito para a luz: isso \u00e9 demonstrado pelo fato de que quanto mais as coisas s\u00e3o belas, agrad\u00e1veis \u00e0 vista e devidamente iluminadas, mais o olho as observa com avidez e vivacidade. \u201cPelos olhos e pelas palavras se conhece qual \u00e9 a alma e o esp\u00edrito do homem, pois os olhos servem \u00e0 alma como o mostrador ao rel\u00f3gio\u201d. \u00c9 sabido que entre os amantes, os olhos falam mais do que a l\u00edngua.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00c9 preciso vigiar os olhos, pois atrav\u00e9s deles podem entrar a tenta\u00e7\u00e3o e o pecado, como aconteceu com Eva, que ficou encantada ao ver a beleza do fruto proibido, ou com Davi, que fixou seu olhar na esposa de Urias. Em certos casos, \u00e9 preciso proceder como se faz com a ave de rapina: para faz\u00ea-la voltar, \u00e9 necess\u00e1rio mostrar-lhe o \u201cl\u00f3goro\u201d <em>[equipamento de ca\u00e7a que simula as asas de uma p\u00e1ssaro; \u00e9 agitado para chamar o falc\u00e3o]<\/em>; para acalm\u00e1-la, \u00e9 preciso cobri-la com um capuz; da mesma forma, para evitar olhares maldosos, \u201c\u00e9 preciso desviar os olhos, cobri-los com o capuz natural e fech\u00e1-los\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Embora as imagens visuais sejam amplamente dominantes nas obras de Francisco de Sales, \u00e9 preciso reconhecer que as imagens auditivas s\u00e3o bastante dignas de nota. Isso evidencia a import\u00e2ncia que ele atribu\u00eda \u00e0 audi\u00e7\u00e3o por raz\u00f5es tanto est\u00e9ticas quanto morais. \u201cUma melodia sublime ouvida com muita aten\u00e7\u00e3o\u201d produz um efeito t\u00e3o m\u00e1gico que \u201cencanta os ouvidos\u201d. Mas aten\u00e7\u00e3o para n\u00e3o ultrapassar as capacidades auditivas: uma m\u00fasica, por mais bela que seja, se for alta e muito pr\u00f3xima, nos incomoda e ofende o ouvido.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por outro lado, \u00e9 preciso saber que \u201co cora\u00e7\u00e3o e os ouvidos conversam entre si\u201d, pois \u00e9 atrav\u00e9s do ouvido que o cora\u00e7\u00e3o \u201couve os pensamentos dos outros\u201d. \u00c9 ainda atrav\u00e9s do ouvido que entram no mais profundo da alma palavras suspeitas, injuriosas, mentirosas ou mal\u00e9volas, das quais \u00e9 necess\u00e1rio cuidar bem; pois as almas se envenenam atrav\u00e9s do ouvido, como o corpo atrav\u00e9s da boca. A mulher honesta tapar\u00e1 os ouvidos para n\u00e3o ouvir a voz do encantador que quer conquist\u00e1-la de forma sutil. Permanecendo no \u00e2mbito simb\u00f3lico, Francisco de Sales declara que o ouvido direito \u00e9 o \u00f3rg\u00e3o atrav\u00e9s do qual ouvimos as mensagens espirituais, as boas inspira\u00e7\u00f5es e mo\u00e7\u00f5es, enquanto o esquerdo serve para ouvir discursos mundanos e v\u00e3os. Para guardar o cora\u00e7\u00e3o, portanto, protejamos com grande cuidado os ouvidos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O melhor servi\u00e7o que podemos pedir aos ouvidos \u00e9 o de poder ouvir a palavra de Deus, objeto da prega\u00e7\u00e3o, que exige ouvintes atentos e dispostos a faz\u00ea-la penetrar em seus cora\u00e7\u00f5es para que produza frutos. Filoteia \u00e9 convidada a \u201cfaz\u00ea-la gotejar\u201d ora no ouvido de um, ora no de outro, e a orar a Deus no \u00edntimo de sua alma, para que lhe agrade fazer penetrar esse santo orvalho no cora\u00e7\u00e3o de quem a escuta.<br><br><strong>Os outros sentidos<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tamb\u00e9m em rela\u00e7\u00e3o ao olfato, foi notada a abund\u00e2ncia de imagens olfativas. Os perfumes s\u00e3o t\u00e3o diversos quanto as subst\u00e2ncias odor\u00edferas, como o leite, o vinho, o b\u00e1lsamo, o \u00f3leo, a mirra, o incenso, a madeira arom\u00e1tica, o nardo, o unguento, a rosa, a cebola, o l\u00edrio, a violeta, o amor-perfeito, a mandr\u00e1gora, a canela&#8230; \u00c9 ainda mais surpreendente constatar os resultados produzidos com a fabrica\u00e7\u00e3o da \u00e1gua perfumada:<br><br><em>O manjeric\u00e3o, o alecrim, o or\u00e9gano, o hissopo, os cravos-da-\u00edndia, a canela, a noz-moscada, os lim\u00f5es e o alm\u00edscar, misturados e triturados, realmente produzem um perfume muito agrad\u00e1vel pela mistura de seus odores; mas n\u00e3o \u00e9 nem de longe compar\u00e1vel ao da \u00e1gua que \u00e9 destilada, na qual os aromas de todos esses ingredientes, isolados de seus corpos, se fundem mais perfeitamente, dando origem a um perfume requintado que penetra muito mais o olfato do que ocorreria se, junto com a \u00e1gua, estivessem as partes materiais.<br><\/em><br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Numerosas s\u00e3o as imagens olfativas extra\u00eddas do C\u00e2ntico dos C\u00e2nticos, poema oriental onde os perfumes ocupam um lugar relevante e onde um dos vers\u00edculos b\u00edblicos mais comentados por Francisco de Sales \u00e9 o grito angustiado da esposa: \u201cAtrai-me a ti, caminharemos e correremos juntos na trilha de teus perfumes\u201d. E qu\u00e3o refinada \u00e9 esta anota\u00e7\u00e3o: \u201cO suave perfume da rosa \u00e9 tornado mais sutil pela proximidade do alho plantado perto dos roseirais!\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o confundamos, por\u00e9m, o sagrado b\u00e1lsamo com os perfumes deste mundo. Existe, de fato, um olfato espiritual, que devemos cultivar em nosso interesse. Ele nos permite perceber a presen\u00e7a espiritual do sujeito amado e, al\u00e9m disso, nos faz n\u00e3o nos deixarmos distrair pelos maus odores do pr\u00f3ximo. O modelo \u00e9 o pai que acolhe de bra\u00e7os abertos o filho pr\u00f3digo que retorna a ele \u201cseminu, sujo, imundo e fedendo a imund\u00edcies pela longa conviv\u00eancia com os porcos\u201d. Outra imagem realista aparece em refer\u00eancia a certas cr\u00edticas mundanas: n\u00e3o nos surpreendamos, recomenda Francisco de Sales a Joana de Chantal, \u00e9 necess\u00e1rio \u201cque o pouco unguento de que dispomos pare\u00e7a fedorento \u00e0s narinas do mundo\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A respeito do gosto, certas observa\u00e7\u00f5es do bispo de Genebra poderiam nos fazer pensar que ele era um guloso nato, na verdade um educador do gosto: \u201cQuem n\u00e3o sabe que a do\u00e7ura do mel se une cada vez mais ao nosso sentido do gosto com um progresso cont\u00ednuo de sabor, quando, mantendo-o por muito tempo na boca, em vez de engoli-lo imediatamente, seu sabor penetra mais profundamente no nosso sentido do gosto?\u201d. Admitida a do\u00e7ura do mel, \u00e9 preciso, no entanto, valorizar mais o sal, pelo fato de ser de uso mais comum. Em nome da sobriedade e da temperan\u00e7a, Francisco de Sales recomendava saber renunciar ao gosto pessoal, comendo o que nos \u201c\u00e9 colocado \u00e0 frente\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por fim, tratando-se do tato, Francisco de Sales fala dele principalmente em um sentido espiritual e m\u00edstico. Assim, recomenda tocar Nosso Senhor crucificado: a cabe\u00e7a, as santas m\u00e3os, o precioso corpo, o cora\u00e7\u00e3o. Ao jovem que est\u00e1 prestes a se lan\u00e7ar no vasto mar do mundo, ele exige que se governe energicamente e despreze as molezas, as del\u00edcias corporais e as delicadezas: \u201cGostaria que \u00e0s vezes voc\u00ea tratasse seu corpo com dureza para faz\u00ea-lo experimentar alguma aspereza e dureza, desprezando delicadezas e coisas agrad\u00e1veis aos sentidos; pois \u00e9 necess\u00e1rio que \u00e0s vezes a raz\u00e3o exer\u00e7a sua superioridade e a autoridade que tem de regular os apetites sensuais\u201d.<br><br><strong>O corpo e a vida espiritual<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tamb\u00e9m o corpo \u00e9 chamado a participar da vida espiritual que se expressa em primeiro lugar na ora\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 verdade, a ess\u00eancia da ora\u00e7\u00e3o est\u00e1 na alma, mas a voz, os gestos e os outros sinais exteriores, por meio dos quais se revela o \u00edntimo dos cora\u00e7\u00f5es, s\u00e3o nobres ap\u00eandices e propriedades util\u00edssimas da ora\u00e7\u00e3o; s\u00e3o efeitos e opera\u00e7\u00f5es. A alma n\u00e3o se contenta em orar se o homem em sua totalidade n\u00e3o ora; ela ora junto com os olhos, as m\u00e3os, os joelhos\u201d.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ele acrescenta que \u201ca alma prostrada diante de Deus faz dobrar facilmente sobre si todo o corpo; levanta os olhos onde eleva o cora\u00e7\u00e3o, ergue as m\u00e3os l\u00e1, de onde espera um aux\u00edlio\u201d. Francisco de Sales explica tamb\u00e9m que \u201corar em esp\u00edrito e em verdade \u00e9 orar de bom grado e afetuosamente, sem fingimento nem hipocrisia, e comprometendo, al\u00e9m disso, o homem inteiro, alma e corpo, para que o que Deus uniu n\u00e3o seja separado\u201d. \u201c\u00c9 preciso que todo o homem ore\u201d, repete \u00e0s visitandinas. Mas a melhor ora\u00e7\u00e3o \u00e9 a de Filoteia, quando decide consagrar a Deus n\u00e3o apenas a alma, seu esp\u00edrito e seu cora\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m seu \u201ccorpo com todos os seus sentidos\u201d; \u00e9 assim que ela o amar\u00e1 e servir\u00e1 verdadeiramente com todo o seu ser.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um bom n\u00famero de antigos ascetas crist\u00e3os frequentemente considerou o corpo como um inimigo,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":35649,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":35,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[1737,1749,2557,2579,2224,2228,2031,2025],"class_list":["post-35655","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-catequese","tag-conselhos","tag-deus","tag-educacao","tag-formacao","tag-santos","tag-vida","tag-virtude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35655","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35655"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35655\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35649"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35655"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35655"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35655"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}