{"id":35425,"date":"2025-03-10T13:08:47","date_gmt":"2025-03-10T13:08:47","guid":{"rendered":"https:\/\/exciting-knuth.178-32-140-152.plesk.page\/?p=35425"},"modified":"2025-03-10T13:11:25","modified_gmt":"2025-03-10T13:11:25","slug":"uma-roda-misteriosa-e-profetica-1861","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/sonhos-de-dom-bosco\/uma-roda-misteriosa-e-profetica-1861\/","title":{"rendered":"Uma roda misteriosa e prof\u00e9tica (1861)"},"content":{"rendered":"\n<p><em>\u201cO cora\u00e7\u00e3o do s\u00e1bio conhece o tempo (de agir) e julgamento (para dar sentido a suas a\u00e7\u00f5es). De fato, para todas as coisas, h\u00e1 tempo e julgamento\u2026 Ele n\u00e3o sabe o que vai acontecer. Quem pode anunciar-lhe como h\u00e1 de ser\u201d? (cf. Ecl 8,5b-7). Desta percep\u00e7\u00e3o de Dom Bosco, o fato dele conhecer as coisas passadas e prever futuras que eram do seu interesse, nos d\u00e1 nova prova \u00e0 persuas\u00e3o, que inspirou as Cr\u00f4nicas dos padres Domingos Ruffino e Jo\u00e3o Bonetti e tamb\u00e9m as mem\u00f3rias do P. Jo\u00e3o Cagliero, do P. C\u00e9sar Chiala e de outros, todos eles testemunhas auriculares das palavras do servo de Deus.<br>Com singular concord\u00e2ncia nos exp\u00f5em um outro sonho, contado por Dom Bosco, no qual ele v\u00ea o Orat\u00f3rio de Valdocco, os frutos que produzia, a condi\u00e7\u00e3o dos alunos perante Deus; aqueles que eram chamados ao estado eclesi\u00e1stico ou ao estado religioso na Pia Sociedade, ou a viver no estado civil; e o futuro da nascente Pia Sociedade.<\/em><br><br><br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dom Bosco, portanto, sonhou, na noite anterior ao dia 2 de maio. Esse sonho durou seis horas, mais ou menos. Logo que o dia raiou, ele pulou da cama para tomar nota dos itens principais e dos nomes de alguns personagens que tinha visto passarem-lhe \u00e0 sua frente enquanto dormia. Para cont\u00e1-lo ele demorou tr\u00eas noites consecutivas, estando num estrado sob os p\u00f3rticos depois das ora\u00e7\u00f5es.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No dia 2 de maio, falou cerca de tr\u00eas quartos de hora. O ex\u00f3rdio, como de costume nestas narrativas, apareceu um tanto confuso e estranho por motivos que j\u00e1 expusemos em outras ocasi\u00f5es e devido \u00e0quelas que deixaremos ao ju\u00edzo dos leitores. Assim ele come\u00e7ou falando aos jovens depois de ter anunciado assunto:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Este sonho diz respeito somente aos estudantes. Muit\u00edssimas coisas vistas por mim n\u00e3o podem ser descritas por falta de mem\u00f3ria ou insufici\u00eancia de palavras. Parecia-me estar saindo de minha casa l\u00e1 dos Becchi. Estava andando por um caminho que conduzia a um lugarejo vizinho a Castelnuovo chamado Capriglio. Queria chegar a um campo arenoso, de nossa propriedade, numa valada atr\u00e1s do casario chamado Valcappone, cuja colheita dava apenas para pagar os impostos. Ali, na minha inf\u00e2ncia, eu tinha ido muitas vezes trabalhar. J\u00e1 tinha percorrido um bom trecho de caminho, quando encontrei perto do campo um homem de uns quarenta anos, de estatura normal, de barba comprida bem ajeitada e de tez morena. Vestia um traje que descia at\u00e9 os joelhos e cingido na cintura. Trazia na cabe\u00e7a uma esp\u00e9cie de bon\u00e9 branco. Estava numa postura de quem esperava algu\u00e9m. Cumprimentou-me familiarmente como se eu fosse velho conhecido e me perguntou:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Aonde vai?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Detendo o passo, respondi:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Eh! Vou ver um campo que temos por estas bandas. E o senhor, o que faz por aqui?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o seja curioso! N\u00e3o precisa saber!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Muito bem! Fa\u00e7a ao menos o favor de dizer-me seu nome, quem \u00e9, porque me parece que me conhece. De minha parte eu n\u00e3o o conhe\u00e7o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o \u00e9 preciso que eu lhe diga meu nome e minhas qualidades. Vem. Fa\u00e7amo-nos companhia.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0Pus-me a caminho com ele e depois de alguns passos me vi diante de um campo coberto de p\u00e9s de figo. A\u00ed o meu companheiro me disse:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Olhe que belos figos. Se quer, pode colher e comer.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu respondi maravilhado:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Nunca houve figos neste campo!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E ele:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas agora existem. Olhe l\u00e1.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas estes est\u00e3o verdes. Ainda n\u00e3o \u00e9 a esta\u00e7\u00e3o dos figos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas pode ver. H\u00e1 belos figos e bem maduros. Se quer&#8230; Vai logo porque j\u00e1 \u00e9 tarde.\u00a0<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu n\u00e3o me decidia, e o amigo continuava insistindo:\u00a0<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ande logo! N\u00e3o perca tempo! A noite vem caindo!\u00a0<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Por qual motivo me apura tanto? N\u00e3o vou comer! N\u00e3o quero! Agrada-me v\u00ea-los, d\u00e1-los de presente, mas n\u00e3o me agradam muito ao meu paladar.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Bem, se \u00e9 assim, vamos. Lembre-se, por\u00e9m, o que o Evangelho de S\u00e3o Mateus, onde ele fala dos grandes acontecimentos que estavam para cair sobre Jerusal\u00e9m. Jesus Cristo falava para seus disc\u00edpulos: <em>Ab arbore fici discite parabolam. Cum iam ramus ejus tener fuerit et folia nata, scitis quia prope est aestas<\/em> (Da par\u00e1bola da figueira, aprendei a li\u00e7\u00e3o: quando seus ramos vicejam e as folhas come\u00e7am a brotar, sabeis que o ver\u00e3o est\u00e1 perto \u2013 Mt 24,32). E agora j\u00e1 est\u00e1 mais pr\u00f3ximo o ver\u00e3o porque os frutos est\u00e3o a amadurecer.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pusemo-nos de novo a caminho e eis que apareceu um outro campo coberto de videiras. E o desconhecido:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Quer uvas? Se n\u00e3o lhe agradam os figos, olhe l\u00e1 aqueles cachos! Pegue e coma!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Oh! Pegaremos uvas a seu tempo l\u00e1 na vinha.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas aqui tamb\u00e9m h\u00e1!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 A seu tempo!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas n\u00e3o est\u00e1 vendo toda aquela uva madura?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas ser\u00e1 poss\u00edvel!? Nesta \u00e9poca!?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ande logo! V\u00e1! A noite vem chegando! N\u00e3o tem tempo a perder!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 E por que tanto af\u00e3 para fazer depressa? Contanto que ao anoitecer me encontre em casa. \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ande logo! Estou falando: ande logo. Logo chega a noite.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Bem, se cai a noite, voltar\u00e1 o dia.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o \u00e9 verdade! O dia n\u00e3o voltar\u00e1 mais.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas como!? O que quer dizer com isso?<strong><br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <\/strong>\u2013 Que a noite se aproxima.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas de que noite est\u00e1 a me falar? Quer ent\u00e3o dizer que devo preparar a mala e partir? Que eu devo partir j\u00e1 para minha eternidade?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 A noite se aproxima: tem bem pouco tempo.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Diga-me pelo menos se ser\u00e1 logo. Quando ser\u00e1?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o seja t\u00e3o curioso.\u00a0 <em>Non plus sapere quam oportet sapere<\/em> (N\u00e3o saber mais do que conv\u00e9m).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Assim dizia minha m\u00e3e a respeito dos enxeridos. \u2013 Pensei comigo e respondi em alta voz: \u2013 Por enquanto n\u00e3o tenho nenhum desejo de uvas!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enquanto isso \u00edamos caminhando lentamente por um curto trecho de estrada e chegamos ao campo que era de nossa propriedade. Encontramos meu irm\u00e3o Jos\u00e9 que carregava sua carro\u00e7a. Ele se aproximou e me cumprimentou. Depois saudou meu companheiro, mas vendo que o amigo n\u00e3o respondia ao cumprimento e n\u00e3o lhe dava bola, perguntou-me se, por acaso, ele n\u00e3o tivesse sido colega de escola e respondi:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o, nunca o vi.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o Jos\u00e9 voltou-se para o amigo e dirigiu-lhe a palavra:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Por gentileza, diga-me seu nome. Brinde-me com uma resposta para que eu saiba com quem estou a falar. \u2013 Mas o outro permaneceu mudo. Meu irm\u00e3o ficou admirado e voltou-se para mim e perguntou:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas quem \u00e9 essa pessoa?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o sei! Ele n\u00e3o quis dizer!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00f3s insistimos ainda um pouco para saber donde vinha, mas o outro respondia apenas:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 <em>Non plus sapere quam oportet sapere<\/em>.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Neste momento meu irm\u00e3o j\u00e1 se tinha afastado e n\u00e3o mais o vi. O desconhecido virou-se para mim e me disse:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Quer ver alguma coisa diferente?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 De bom grado!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Quer ver seus meninos, como eles est\u00e3o agora no presente? O que ser\u00e3o no futuro? Quer cont\u00e1-los?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Oh! Sim! Sim!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ent\u00e3o venha comigo.<br><br><strong>I<br><\/strong><br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o ele tirou, n\u00e3o se de onde, uma engenhoca enorme que eu n\u00e3o saberia descrever. Tinha dentro uma grande roda. Fincou-a no ch\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 O que quer dizer esta roda?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 A eternidade nas m\u00e3os de Deus. E pegou a manivela da roda e a fez rodar e falou:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Pegue a manivela e d\u00ea uma volta.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Assim o fiz. E me acrescentou:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Agora olhe l\u00e1 dentro.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Olhei. L\u00e1 dentro havia um vidro em forma de lente com a largura um metro, mais ou menos, que se encontrava fixa no meio da m\u00e1quina. Ao redor desta lente estava escrito: <em>Hic est oculus qui humilia respicit in coelo et in terra<\/em> (Este \u00e9 o olho que v\u00ea as coisas humildes tanto c\u00e9u quanto na terra). Logo coloquei os olhos sobre aquela lente. Olhei. Oh, que espet\u00e1culo! Vi l\u00e1 dentro todos os jovens do Orat\u00f3rio. Eu pensava comigo: \u2013 Mas como \u00e9 poss\u00edvel isso? At\u00e9 o momento eu n\u00e3o vi ningu\u00e9m nesta regi\u00e3o e agora vejo todos os meus filhos! Mas eles n\u00e3o est\u00e3o todos em Turim?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Olhei por cima e pelos lados da engenhoca, mas por fora da lente n\u00e3o via nada. Levantei a cabe\u00e7a para partilhar minha admira\u00e7\u00e3o com o amigo. Depois de alguns instantes ele me disse para dar mais um giro na manivela. Ent\u00e3o eu vi estranha e singular separa\u00e7\u00e3o dos jovens. Os bons separados dos maus. Os primeiros estavam radiantes de alegria; os outros, que por sinal n\u00e3o eram muitos, causavam compaix\u00e3o. Eu os reconheci a todos, mas como eram diferentes do conceito que os colegas faziam deles. Uns tinham a l\u00edngua furada, outros tinham os olhos piedosamente esbugalhados, outros oprimidos por dor de cabe\u00e7a, feridas repugnantes, e havia jovens com o cora\u00e7\u00e3o ro\u00eddo pelos vermes. Mais eu os olhava, mais me sentia oprimido e dizia: \u2013 Mas ser\u00e1 poss\u00edvel que estes sejam os meus filhos? N\u00e3o consigo compreender o que significam estas doen\u00e7as!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ouvindo minhas palavras, o amigo que me tinha levado para a roda, me disse:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ou\u00e7a-me! L\u00edngua furada significa as m\u00e1s conversas. Os olhos esbugalhados representam os que interpretam e valoram erradamente as gra\u00e7as de Deus, preferindo a terra ao c\u00e9u. A cabe\u00e7a do\u00edda \u00e9 a n\u00e3o preocupa\u00e7\u00e3o com os seus conselhos, a satisfa\u00e7\u00e3o com os caprichos pr\u00f3prios. Os vermes significam as paix\u00f5es maldosas que corroem os cora\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m h\u00e1 surdos que n\u00e3o querem ouvir suas palavras para n\u00e3o ter que coloc\u00e1-las em pr\u00e1tica.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o fez-me um gesto para eu dar mais uma manivelada na roda. Aproximei o olho \u00e0 lente do aparelho. Vi quatro jovens amarrados com pesadas correntes. Olhei bem e reconheci os quatro. Pedi explica\u00e7\u00f5es ao desconhecido, e ele respondeu:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Pode descobrir facilmente. S\u00e3o os que n\u00e3o ouvem os seus conselhos e n\u00e3o trocam de atitudes, est\u00e3o na imin\u00eancia de serem postos na pris\u00e3o e a\u00ed apodrecerem por causa de seus delitos ou desobedi\u00eancias graves.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Quero tomar nota dos nomes deles para n\u00e3o esquecer. Mas o amigo respondeu:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o \u00e9 preciso. Est\u00e3o todos anotados! Ei-los todos escritos neste caderno.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o lembrei-me de um livrinho que ele tinha na m\u00e3o. Deu-me ordem para eu dar mais um giro na roda. Obedeci e enfiei os olhos naquela tela. Vi outros sete jovens que estavam bem altivos, em atitude desconfiada, com um cadeado na boa, que lhes trancava os l\u00e1bios. Tr\u00eas deles tamb\u00e9m tapavam os ouvidos com as m\u00e3os. Afastei-me da imagem, quis pegar um caderno e l\u00e1pis para anotar seus nomes. A\u00ed o homem me disse:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o \u00e9 preciso. Est\u00e3o anotados aqui no caderno que trago sempre comigo.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o quis de jeito nenhum que eu escrevesse. Eu estava espantado e condo\u00eddo com aquela cena estranha. Perguntei o porqu\u00ea de o cadeado trancar a boca daqueles tais, e ele explicou:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas n\u00e3o entende? S\u00e3o os que calam!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas calam o qu\u00ea?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Calam!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o entendi que calavam na confiss\u00e3o. S\u00e3o os que, mesmo perguntados pelo confessor, n\u00e3o respondem ou respondem evasivamente ou contra a verdade. Respondem \u201cn\u00e3o\u201d quando \u00e9 \u201csim\u201d. E o amigo continuou:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Est\u00e1 vendo aqueles tr\u00eas outros que, al\u00e9m do cadeado na boca, tapam as orelhas com as m\u00e3os? A condi\u00e7\u00e3o deles \u00e9 deplor\u00e1vel. S\u00e3o os que n\u00e3o apenas omitem na confiss\u00e3o e de maneira alguma querem ouvir os avisos, os conselhos, as ordens do confessor. S\u00e3o os que ouviram suas palavras, mas n\u00e3o as colocaram em pr\u00e1tica, n\u00e3o deram aten\u00e7\u00e3o. Poderiam baixar as m\u00e3os, mas n\u00e3o querem. Os outros quatro ouviram as exorta\u00e7\u00f5es, as recomenda\u00e7\u00f5es, mas n\u00e3o aproveitaram.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 E como fazer para tirar o cadeado?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 <em>Ejiciatur superbia e cordibus<\/em> eorum (Tire-se a soberba dos seus cora\u00e7\u00f5es).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Eu darei o aviso a todos, mas para os que conservam as m\u00e3os nas orelhas existe pouca esperan\u00e7a.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aquele homem deu-me um conselho:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ao dizer duas palavras no p\u00falpito, uma seja sobre fazer bem a confiss\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Prometi obedecer. N\u00e3o quero dizer que vou me orientar exatamente assim, porque tornar-me-ia enjoado, mas vou fazer o poss\u00edvel para repetir muitas vezes esta m\u00e1xima necess\u00e1ria. De fato, \u00e9 bem maior o n\u00famero dos que se condenam confessando-se, do que os que se condenam por n\u00e3o se confessarem, porque os depravados se confessam alguma vez, mas muit\u00edssimas vezes n\u00e3o se confessam bem.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Da\u00ed o personagem me mandou dar mais uma manivelada.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dito e feito. Olhei e vi tr\u00eas outros jovens com atitudes apavorantes. Cada um deles tinha um imenso gorila nas costas. Olhei atentamente. Vi que os animais tinham chifres. Cada um daqueles horrendos monstros com as patas dianteiras apertava o pesco\u00e7o do infeliz com tal veem\u00eancia que o fazia ficar vermelho e de rosto inflamado, e com os olhos amea\u00e7ando explodir das \u00f3rbitas afora e cheios de sangue. Com as patas traseiras apertava as coxas que a custo conseguiam mover-se e com o rabo, chegava at\u00e9 o ch\u00e3o, enrodilhava-lhes as pernas de modo que era dif\u00edcil e quase imposs\u00edvel caminhar.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Isto significava que aqueles jovens, depois dos exerc\u00edcios (espirituais), estavam em pecado mortal, especialmente da impureza e da imod\u00e9stia, r\u00e9us de mat\u00e9ria grave contra o sexto mandamento. O dem\u00f4nio lhes apertava o pesco\u00e7o, n\u00e3o lhes permitindo falar quando deviam. Fazia-os ficar de rosto vermelho e perdiam a intelec\u00e7\u00e3o, n\u00e3o sabendo mais o que fazer. Ficavam atados pela vergonha fatal que, em vez de lev\u00e1-los \u00e0 salva\u00e7\u00e3o, os leva \u00e0 perdi\u00e7\u00e3o. Com seus apertos fazia-lhes empurrar os olhos para fora das \u00f3rbitas e a\u00ed n\u00e3o conseguiam divisar as pr\u00f3prias mis\u00e9rias e os meios para sair desta horr\u00edvel situa\u00e7\u00e3o, porque, dominados por uma amedrontadora preocupa\u00e7\u00e3o, sentiam repugn\u00e2ncia pelos sacramentos. Mant\u00eam-nos presos pelas pernas para que n\u00e3o possam caminhar e nem dar passo para se colocarem no caminho do bem: \u00e9 o predom\u00ednio da paix\u00e3o por causa do h\u00e1bito que lhes tira a possibilidade de emendarem-se.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Asseguro-lhes, meus caros jovens, que, ao presenciar tal espet\u00e1culo, eu chorei. Teria querido pular para frente para libertar aqueles desgra\u00e7ados, mas logo que me afastava da tela a imagem sumia. Quis ent\u00e3o anotar os nomes daqueles tr\u00eas, mas o amigo disse:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Coisa in\u00fatil, porque eu j\u00e1 os tenho escrito no livro que tenho em m\u00e3os.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu estava com o cora\u00e7\u00e3o perturbado, l\u00e1grimas nos olhos e disse ao amigo:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas como \u00e9 que estes pobres jovens est\u00e3o neste estado! Eu lhes disse tantas palavras, servi-me de todos os cuidados na confiss\u00e3o e fora da confiss\u00e3o! \u2013 Perguntei-lhe o que deviam fazer para tirar das costas aquele monstro horr\u00edvel. Ele respondeu ligeiro e entredentes:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 <em>Labor; sudor; fervor<\/em> (trabalho, suor, fervor).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o entendo. Fale mais claro. \u2013 De novo ele repetiu, mas sempre entredentes:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 <em>Labor; sudor; fervor<\/em>.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 \u00c9 in\u00fatil. Se fala assim eu n\u00e3o o compreendo!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Oh! Quer debochar de mim.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ora! Seja l\u00e1 como quiser! Mas repito: n\u00e3o entendo!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Pois \u00e9! Est\u00e1 acostumado ao uso da gram\u00e1tica e \u00e0s sintaxes das salas de aula. Pois ent\u00e3o, observe: <em>Labor<\/em>, ponto e v\u00edrgula; <em>Sudor<\/em>, ponto e v\u00edrgula. <em>Fervor<\/em>, ponto. Entendeu?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Materialmente entendi as palavras. Por\u00e9m, conv\u00e9m que me d\u00ea a explica\u00e7\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 <em>Labor in singulis operibus. Sudor in paenitentiis continuis. Fervor in orationibus ferventibus e perseverantibus<\/em> (Trabalho nas obras ass\u00edduas, suor nas penit\u00eancias cont\u00ednuas, fervor nas ora\u00e7\u00f5es fervorosas e perseverantes). Com eles muito se sacrificar\u00e1. N\u00e3o conseguir\u00e1 conquist\u00e1-los, porque n\u00e3o querem sacudir o jugo de satan\u00e1s, de quem s\u00e3o escravos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eu continuava olhando e me atormentava pensando:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013\u00a0 Mas como!? Ent\u00e3o todos estes est\u00e3o perdidos? Poss\u00edvel!? Mesmo depois dos exerc\u00edcios espirituais&#8230; aqueles tais&#8230; depois que eu fiz tanto por eles&#8230; depois de ter trabalhado tanto&#8230; depois de tantas prega\u00e7\u00f5es&#8230; depois de lhes ter dado tantos conselhos&#8230; feito tantas promessas&#8230; dado tantos avisos. Eu nunca teria imaginado tamanho desengano. \u2013 Eu n\u00e3o conseguia sossegar.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o meu int\u00e9rprete come\u00e7ou a recriminar-me: \u2013 Oh, o soberbo! Vejam o soberbo! E quem \u00e9 voc\u00ea para pretender converter porque trabalha? Porque ama os seus jovens, pretende v\u00ea-los todos corresponderem aos seus desejos? Pretende ser melhor do que nosso Divino Salvador em amar as almas, em trabalhar e sofrer por elas? Pensa que sua palavra seja mais eficaz do que a palavra de Jesus Cristo? Por acaso prega melhor do que Ele? Acha que usou mais caridade, maior cuidado com os seus jovens do que usou o Salvador para com seus Ap\u00f3stolos? Voc\u00ea sabe que eles viviam continuamente com Ele, a todos os momentos, a cada instante ficavam repletos de todo tipo de benef\u00edcios, ouviam dia e noite Suas advert\u00eancias e os preceitos de Sua doutrina, viam Suas obras que deviam ser um est\u00edmulo para a santifica\u00e7\u00e3o de seus costumes. Quanto n\u00e3o ter\u00e1 feito e dito a respeito de Judas! Contudo Judas o traiu e morreu impenitente. Por acaso \u00e9 melhor do que os Ap\u00f3stolos? Pois bem! Os Ap\u00f3stolos escolheram sete Di\u00e1conos. Eram apenas sete, escolhidos com todo cuidado e, todavia, um prevaricou! E voc\u00ea, entre quinhentos, se assusta com esse pequeno n\u00famero que n\u00e3o corresponde aos seus cuidados? Pretende conseguir que n\u00e3o haja um desviado, que n\u00e3o haja um perverso sequer? Oh, o soberbo! \u2013 Quando ouvi isso, fiquei quieto. Mas sentia a alma deprimida pela dor. O homem continuou e percebeu que eu estava abatido. Fez-me dar mais um giro na roda, retomando:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Sossegue! Veja como o Senhor \u00e9 generoso. Olhe quantas almas Deus quer lhe dar. V\u00ea l\u00e1 no fundo aquele grande n\u00famero de jovens?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Continuei a observar naquela tela imensa massa de jovens que nunca tinha conhecido em vida.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Sim! Estou vendo! Mas n\u00e3o conhe\u00e7o ningu\u00e9m.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Pois bem! Estes s\u00e3o os que o Senhor lhe dar\u00e1 em compensa\u00e7\u00e3o dos quatorze que n\u00e3o correspondem aos seus cuidados. Saiba que para compensar cada um dos quatorze o Senhor lhe dar\u00e1 cem.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ah! Pobre e mim! J\u00e1 estou com a casa cheia. Onde vou aloj\u00e1-los?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o se apoquente. Por enquanto lugar h\u00e1 suficiente. Mais tarde Aquele que os manda para voc\u00ea, Ele sabe onde voc\u00ea poder\u00e1 coloc\u00e1-los. Ele mesmo achar\u00e1 lugar.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas n\u00e3o \u00e9 tanto o lugar que causa preocupa\u00e7\u00e3o. O que mais me preocupa \u00e9 o refeit\u00f3rio.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Por ora deixe de lado estas preocupa\u00e7\u00f5es. O Senhor providenciar\u00e1.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Bem, se \u00e9 assim, fico muito contente. At\u00e9 que me consolei. Olhei para todos aqueles jovens por muito tempo e ainda conservo na mente algumas fisionomias e poderei reconhec\u00ea-los se um dia os encontrar.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Neste ponto Dom Bosco encerrou a Boa-noite. Era o dia 2 de maio.<br><br><strong>II<br><\/strong><br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na noite do dia 3, ele retomava a narrativa. Naquela tela ele tinha visto tamb\u00e9m o espet\u00e1culo das voca\u00e7\u00f5es, que dizia respeito a cada de seus alunos. Foi conciso e categ\u00f3rico em sua fala. N\u00e3o proferiu nome algum e passou para outra ocasi\u00e3o a explica\u00e7\u00e3o das respostas ouvidas do guia a respeito de certos s\u00edmbolos ou \u00e0s alegorias que lhe passaram perante os olhos. Por\u00e9m, o cl\u00e9rigo Ruffino tomou nota de diversos nomes recolhidos das suas confid\u00eancias com os mesmos jovens, para quem Dom Bosco tinha segredado em particular o que ele tinha visto. Ruffino os escreveu em 1861 e no-los repassou.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para maior clareza de exposi\u00e7\u00e3o e para n\u00e3o sermos obrigados a fazer muitas repeti\u00e7\u00f5es, colocaremos tudo num bloco s\u00f3, incluindo na narrativa os nomes omitidos e as explica\u00e7\u00f5es j\u00e1 dadas; estas, por\u00e9m, n\u00e3o em forma de di\u00e1logo. Contudo, seremos exatos em referir <em>ao p\u00e9 da letra<\/em> o que escreveu o cronista. Dom Bosco ent\u00e3o come\u00e7ou a falar:<br><br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O desconhecido estava perto da engenhoca da roda e da tela, e eu estava contente por ter visto tantos jovens que um dia viriam morar conosco. Ent\u00e3o ele me disse:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o quereria ver ainda uma cena espetacular?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas \u00e9 claro que quero!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Rode a roda!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Girei, olhei e vi. Todos os jovens estavam divididos em dois grupos, um grupo longe do outro, numa vasta regi\u00e3o bem espraiada. De um dos lados aparecia um terreno coberto de legumes, hortali\u00e7as, relva e campo, em cuja orla havia umas fileiras de vinhas selvagens. Ali os jovens de um dos grupos, com p\u00e1s, enxadas, as picaretas, os ancinhos, revolviam o terreno. Estavam distribu\u00eddos em quadras que tinham supervisores. Fiscal geral era o Cavaleiro Or\u00e9glia, de Santo Est\u00eav\u00e3o, que distribu\u00eda ferramentas agr\u00edcolas de todo tipo aos que cavavam e fazia trabalhar quem tinha pouca vontade. Ao longe divisei jovens que semeavam.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00a0O segundo grupo estava do outro lado, num extenso campo de trigo coberto de espigas douradas. Um valo comprido servia de limite entre este e outros campos cultivados que de ambas as partes se perdiam no horizonte. Os jovens trabalhavam recolhendo a messe, mas nem todos faziam o mesmo servi\u00e7o. Alguns colhiam e faziam enormes feixes, uns amontoavam, outros respigavam, algu\u00e9m dirigia a carro\u00e7a, outro esbagoava, uns afiavam as foices e as agu\u00e7avam, um as distribu\u00eda, outro mais longe tocava viol\u00e3o. Era uma cena fabulosa de variantes surpreendentes.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Naquele campo, \u00e0 sombra de vetustas \u00e1rvores, viam-se mesas cobertas de alimento necess\u00e1rio para toda aquela gente. Um pouco al\u00e9m um vasto e magn\u00edfico jardim cercado e sombreado, risonho de todas as esp\u00e9cies de canteiros de flores.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A separa\u00e7\u00e3o entre os trabalhadores da terra e os ceifeiros indicava os que abra\u00e7avam o estado eclesi\u00e1stico e os que n\u00e3o o abra\u00e7avam. Eu n\u00e3o entendia o mist\u00e9rio e dirigi-me ao guia:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 O que significa isto? Quem s\u00e3o aqueles que est\u00e3o a cavar a terra?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ainda n\u00e3o entende estas coisas? Os que cavam a terra s\u00e3o os que trabalham s\u00f3 para si mesmos, isto \u00e9, que n\u00e3o s\u00e3o chamados para o estado eclesi\u00e1stico, mas s\u00e3o chamados ao estado laico.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Logo entendi que os cavadores eram os aprendizes. Estes, em seu estado, basta que pensem em salvar a pr\u00f3pria alma sem que tenham a obriga\u00e7\u00e3o especial de ocupar-se com a salva\u00e7\u00e3o dos outros. Repliquei:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 E aqueles que est\u00e3o a fazer a colheita, que est\u00e3o do outro lado do campo?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Sem dificuldade reconheci serem os que s\u00e3o chamados ao estado eclesi\u00e1stico. Agora eu sei quem deve ser padre e quem deve seguir outro caminho. E eu contemplava com viva curiosidade o campo de trigo. Provera distribu\u00eda as foices aos ceifadores, e isto indicava que ele poderia tornar-se Reitor do Semin\u00e1rio ou diretor de comunidade religiosa ou de uma casa de estudos e, talvez algo mais importante. Deve-se notar que nem todos os que trabalhavam recebiam dele a foice, porque aqueles que a solicitavam eram os que fariam parte da nossa Congrega\u00e7\u00e3o. Os outros recebiam a foice de outros distribuidores que n\u00e3o pertenciam aos nossos e, com isso, queria-se significar que se tornariam padres, mas exerceriam o sagrado minist\u00e9rio fora do Orat\u00f3rio. A foice \u00e9 s\u00edmbolo da Palavra de Deus.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nem a todos que solicitavam a foice Provera a entregava logo. Ele mandava alguns se alimentarem. Um comia um bocado, outros dois, isto \u00e9, o bocado da piedade e do estudo. O Tiago Rossi foi mandado a comer um bocado. Outros iam at\u00e9 o arvoredo onde estava o cl\u00e9rigo Durando que fazia muitas coisas e, entre elas, preparava a mesa para os ceifadores e lhe distribu\u00eda a comida. Este servi\u00e7o mostrava os que s\u00e3o indicados de modo especial a promover a devo\u00e7\u00e3o para com o Sant\u00edssimo Sacramento. Ao mesmo tempo Mateus Galiano atarefava-se em levar \u00e1gua para os ceifadores.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Costamagna foi pegar uma foice, mas Provera o mandou ao jardim a fim de colher duas flores. O mesmo aconteceu com Quattrocollo. Ao Rebuffo foi ordenado que recolhesse tr\u00eas flores, com a promessa de que lhe seria posta nas m\u00e3os uma foice. Olivero tamb\u00e9m estava nessa.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os jovens continuavam esparsos c\u00e1 e acol\u00e1 em meio \u00e0s espigas. Muitos estavam dispostos em linha. Alguns tinham diante de si um canteiro grande, outros tinham um canteiro menor. O P. Ciattino, p\u00e1roco de Maretto, colhia com uma foice entregue por Provera. P. Franc\u00e9sia e Vibert cortavam o trigo. Tamb\u00e9m colhiam Jacinto Perucatti, Merlone, Momo, Giarino, Jarach, os quais salvariam almas com a evangeliza\u00e7\u00e3o, se correspondessem \u00e0 pr\u00f3pria voca\u00e7\u00e3o. Quem colhia mais, quem colhia menos. Bondioni ceifava como um desesperado, mas nada de violento dura muito. Alguns lan\u00e7avam a foice com muita for\u00e7a contra o trigo, mas ceifavam nada. Vaschetti pegou uma foice e se p\u00f4s a cortar, a cortar, e saiu do campo e foi trabalhar noutro lugar. A ouros aconteceu o mesmo. Entre aqueles que ceifavam, muitos n\u00e3o tinham uma foice bem afiada. De outras foices faltavam a pontas. Alguns a tinham muito gasta e quando queriam ceifar despeda\u00e7avam e estragavam tudo.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Domingos Ruffino colhia e tinha recebido um canteiro muito grande. Sua foice cortava bem. S\u00f3 tinha um defeito: a foice dele n\u00e3o tinha ponta, s\u00edmbolo da humildade. Era o desejo de atingir um grau mais elevado entre os iguais. Ele foi at\u00e9 Francisco Cerruti para martel\u00e1-la. De fato, eu vi que Cerruti martelava as foices para afi\u00e1-las, ind\u00edcio de que devia colocar nos cora\u00e7\u00f5es ci\u00eancia e piedade, dando a ideia de que devia tornar-se um professor. O fato de martelar era o servi\u00e7o de quem se entrega \u00e0 forma\u00e7\u00e3o do clero. Provera entregava a ele as foices desgastadas. Ao P. Rocchietti e a outros ele entregava as que precisavam ser afiadas. Essa era a ocupa\u00e7\u00e3o deles.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O servi\u00e7o de afiar era pr\u00f3prio de quem dirige o clero na piedade. Viale se apresentou e foi pegar uma foice que n\u00e3o estava afiada, mas Provera quis dar-lhe uma cortante que tinha sido passada no esmeril. Vi tamb\u00e9m um serralheiro que devia preparar ferramentas agr\u00edcolas e este era o Const\u00e2ncio.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enquanto fervilhava todo este complicado trabalho, Fusero preparava os feixes e isto significava o fato de conservar as consci\u00eancias na gra\u00e7a de Deus. Mas descendo mais para os detalhes e tomando os feixes n\u00e3o como imagens dos meros fi\u00e9is, mas como dos que est\u00e3o destinados ao estado eclesi\u00e1stico, dava para entender que ele teria ocupado um lugar de formador dos cl\u00e9rigos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Havia quem o ajudava a amarrar os feixes. Lembro de ter visto entre outros o P. Turchi e Guivarello. Isto significa os que s\u00e3o destinados a harmonizar as consci\u00eancias, como, por exemplo, confessando, especialmente os volunt\u00e1rios ou aspirantes ao estado eclesi\u00e1stico. Outros transportavam os feixes sobre uma carro\u00e7a, que representa a gra\u00e7a de Deus. Os pecadores convertidos devem embarcar nesta carro\u00e7a para se encaminharem pela senda da salva\u00e7\u00e3o, que tem como ponto final o c\u00e9u. A carro\u00e7a se movimentou quando esteve cheia de feixes. Era puxada n\u00e3o por jovens, mas por bois, s\u00edmbolo da for\u00e7a perseverante. Havia quem os conduzia. P. Rua estava na frende do carro e o guiava e isto significa que a ele caberia guiar as almas para o c\u00e9u. P. \u00c2ngelo S\u00e1vio vinha andando atr\u00e1s com a vassoura recolhendo as espigas e os feixes que ca\u00edam.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Espalhados pelo campo, viam-se os que respigavam, entre eles Jo\u00e3o Bonetti e Jos\u00e9 Bongiovanni, isto \u00e9, os que recolhem os pecadores obstinados. Bonetti \u00e9 especialmente chamado pelo Senhor para procurar de modo particular os infelizes afastados da foice dos ceifeiros. Fusero e Anfossi amontoavam no campo os feixes de trigo cortado para que fosse debulhado em tempo h\u00e1bil: isso talvez fosse s\u00edmbolo de alguma c\u00e1tedra. Outros como o P. Alasonatti formavam os montes e os que administram o dinheiro, zelam pelo cumprimento das normas, ensinam as ora\u00e7\u00f5es e o canto dos louvores sagrado e, afinal de contas, colaboram material e moralmente para repor as almas no caminho do para\u00edso.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aparecia um espa\u00e7o plano de terra apropriado para bater as espigas. O P. Jo\u00e3o Cagliero, que antes tinha ido ao jardim colher flores e as tinha distribu\u00eddo aos companheiros com um ramilhete nas m\u00e3os, foi at\u00e9 aquela \u00e1rea para debulhar o trigo. Debulhar o trigo refere-se aos destinados por Deus a se ocuparem da instru\u00e7\u00e3o do povo simples. \u00c0 dist\u00e2ncia viam-se diversos focos de fuma\u00e7a negra que subiam \u00e0s nuvens. Era o trabalho dos que recolhiam o joio e, tendo sa\u00eddo fora dos limites da seara, o amontoavam e queimavam. Significava de modo especial os que s\u00e3o destinados a separar os maus dos bons. Indica os diretores das nossas futuras casas. Entre estes estava o P. Francisco Cerutti, Jo\u00e3o Tomietti, Domingos Belmonte, Paulo \u00c1lbera e outros que ainda est\u00e3o estudando nas classes ginasiais e inferiores.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Todas as cenas descritas acima desenvolviam-se ao mesmo tempo. Vi no meio daquela multid\u00e3o de jovens alguns que carregavam uma lamparina para iluminar mesmo em pleno meio-dia. Seriam os que teriam sido de bom exemplo para outros oper\u00e1rios do Evangelho e com isso devem iluminar o clero. Entre eles est\u00e1 Paulo \u00c1lbera que, al\u00e9m de carregar a lamparina, tamb\u00e9m tocava viol\u00e3o. Isto significa que mostrar\u00e1 o caminho para os sacerdotes e lhes incutir\u00e1 coragem para seguirem adiante na pr\u00f3pria miss\u00e3o: alude-se a um outro alto cargo que desempenhar\u00e1 na Igreja.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em meio a tanta movimenta\u00e7\u00e3o, nem todos os jovens que eu via estavam ocupados em algum servi\u00e7o. Um deles segurava uma pistola, isto \u00e9, tinha voca\u00e7\u00e3o para militar, mas ainda n\u00e3o se tinha decidido. Havia quem estava com a m\u00e3o na cintura olhando para os que ceifavam e ao mesmo tempo n\u00e3o estavam nem um pouco decididos a imitar seu exemplo. Algu\u00e9m estava indeciso, mas pesava-lhe o cansa\u00e7o e n\u00e3o sabia se devia tamb\u00e9m meter-se a ceifar. Outro apressava-se em pegar a foice. Um grupinho, por\u00e9m, reunido, permanecia sem fazer nada. Outros manejavam a foice segurando-a voltada de costas entre eles estava o Molino, e s\u00e3o os que fazem o contr\u00e1rio do que devem fazer. Existiam aqueles, e eram muitos, que se afastavam para ir recolher uvas silvestres e representam os que perdem tempo em coisas alheias ao minist\u00e9rio.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Enquanto eu ia observando o que se passava no campo de trigo, vi um outro grupo de jovens que capinava, e tamb\u00e9m este grupo apresentava um espet\u00e1culo interessante: a maior parte deles era forte e trabalhava com afinco, mas tamb\u00e9m entre eles n\u00e3o faltavam os acomodados; havia quem manuseasse a enxada do lado errado, outros davam a enxadada sobre a terra, mas ela n\u00e3o rasgava o solo. Para alguns, a cada enxadada, a l\u00e2mina se soltava do cabo. O dito cabo significa a reta inten\u00e7\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Percebi que alguns, que atualmente s\u00e3o aprendizes, antes estavam no campo a ceifar, e outros, que agora est\u00e3o a estudar, anteriormente estavam capinando. Novamente tentei tomar nota de todas as situa\u00e7\u00f5es, mas meu int\u00e9rprete sempre me mostrava seu caderno e me impedia de escrever. Ao mesmo tempo percebi que havia muit\u00edssimos jovens que l\u00e1 estavam sem nada fazer, que n\u00e3o se decidiam se deviam ceifar ou carpir. Os dois Dalmazzo, o Primo Gariglio e Monasterolo com muitos outros olhavam, mas estavam resolvidos a assumir uma posi\u00e7\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E continuei a olhar. Notei que alguns dos que sa\u00edam do meio dos capinadores queriam meter-se a ceifar. Um deles correu distraidamente para o campo de trigo, mas sem antes pegar uma foice. Envergonhou-se daquela estulta precipita\u00e7\u00e3o, voltou atr\u00e1s para pedi-la. Quem distribu\u00eda foices n\u00e3o queria ceder, mas ele queria. E o distribuidor lhe disse:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ainda n\u00e3o \u00e9 tempo.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Sim! \u00c9 tempo sim! Eu quero.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o! Vai ainda pegar duas flores naquele canteiro!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Exclamou, levantando os ombros, o presun\u00e7oso:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ah! Vou pegar quantas flores voc\u00ea quiser.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 N\u00e3o! S\u00f3 duas!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E aquele presun\u00e7oso correu logo. Mas lembrou-se de que n\u00e3o tinha perguntado que tipo de flores devia pegar. Voltou r\u00e1pido. E recebeu esta resposta:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Pegar\u00e1 a flor da caridade e a flor da humildade.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Eu j\u00e1 as tenho!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Voc\u00ea as tem na presun\u00e7\u00e3o. Na realidade n\u00e3o tem nada.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E o jovem discutiu, esperneou, enfureceu-se, agitou-se. E o distribuidor lhe disse:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Agora n\u00e3o \u00e9 mais tempo de ficar bravo. \u2013 E negou-lhe resolutamente a foice. O pretendente ro\u00eda os punhos de raiva.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tendo assistido a este \u00faltimo espet\u00e1culo, desgrudei os olhos da tela onde tinha visto coisas t\u00e3o impressionantes. Estava comovido com as aplica\u00e7\u00f5es morais que se me tinham sugerido por aquele amigo. Eu ainda quis pedir algumas explica\u00e7\u00f5es, e ele me repetiu:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 O campo de trigo significa a Igreja. A messe \u00e9 o fruto recolhido. A foice \u00e9 o s\u00edmbolo dos meios para colher fruto, especialmente a palavra de Deus, foice sem corte \u00e9 a falta de piedade, sem ponta \u00e9 a falta de humildade. Sair do campo ceifando quer dizer sair do Orat\u00f3rio e abandonar a Pia Sociedade.<br><br><strong>III<br><\/strong><br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Na noite do dia 4 de maio, Dom Bosco fez a conclus\u00e3o do sonho em que no primeiro quadro lhe tinha sido mostrado o Orat\u00f3rio, seus alunos e, de modo especial, os estudantes. No segundo quadro os que eram chamados ao estado eclesi\u00e1stico. Agora entramos no terceiro quadro do seriado, em que aparecem em cenas sucessivas os jovens do ano de 1861 inscritos na Pia Sociedade de S\u00e3o Francisco de Sales, com seu prodigioso crescimento e com o desaparecimento gradativo do mundo dos primeiros salesianos a quem iam se sucedendo os continuadores de sua obra. E a\u00ed Dom Bosco falou:<br><br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois que eu tinha agradavelmente assistido \u00e0 cena da colheita, rica de tanta variedade, o gentil desconhecido me ordenou:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Agora, d\u00ea dez rodadas com a manivela, conta e, depois, olha.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pus-me a girar a roda e, ap\u00f3s dez giros, enfiei os olhos na lente. Vi todos os meus jovens que, havia uns poucos dias, eu os tinha acariciado como meninos. Agora estavam adultos, de aspecto viril, alguns de barba comprida, outros de cabelos grisalhos. Ent\u00e3o eu perguntei:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Mas como \u00e9 isso? Faz poucos dias aquele a\u00ed era um menino, quase de podia carreg\u00e1-lo no colo! Como \u00e9 que est\u00e1 assim crescido?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 \u00c9 natural. Quantas maniveladas deu na roda?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Dez.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Pois \u00e9! 61 a 71. Neste ano todos somam dez anos a mais.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ah! Entendi. Olhei no fundo da lente. Panoramas desconhecidos. Novas casas que nos pertenciam. Muitos jovens alunos sob a dire\u00e7\u00e3o dos meus caros filhos do Orat\u00f3rio, agora j\u00e1 padres, professores e diretores, que os instru\u00edam e os divertiam. O personagem continuou a dizer:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 D\u00ea mais dez giros na manivela. Avan\u00e7amos at\u00e9 1881.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Peguei a manivela e a roda rodou por mais dez vezes. Parei. Encostei o olho, olhei e vi. S\u00f3 a metade dos jovens vistos antes, quase todos grisalhos e alguns j\u00e1 encurvados. Perguntei:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Onde est\u00e3o os outros?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 J\u00e1 passaram, foram para a outra vida.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A assombrosa diminui\u00e7\u00e3o dos meus jovens ocasionou-me viva preocupa\u00e7\u00e3o. Mas retomei f\u00f4lego ao poder visualizar tamb\u00e9m como, num quadro imenso, lugares novos, e regi\u00f5es desconhecidas, e uma multid\u00e3o de jovens sob o cuidado e a dire\u00e7\u00e3o de professores novos, ainda dependentes dos meus antigos jovens, alguns deles em idade bem madura. Depois dei mais dez giros na roda e a\u00ed s\u00f3 vi uma quarta parte dos meus jovens visualizados na rodada anterior, mais velhos, de barba e cabelos brancos&#8230;<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 E os outros todos?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 J\u00e1 foram para a outra vida. Estamos em 1891.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eis o que aconteceu debaixo de meus olhos: outra cena comovente. Meus filhos padres, cansados das fadigas, rodeados de jovens que eu nunca tinha visto. Muitos de pele de outra cor, bem diversos dos nossos lugares. E mais dez vezes rodei a roda. S\u00f3 vi um ter\u00e7o dos meus jovens, j\u00e1 decr\u00e9pitos, velhos, corcundas, desfigurados, macilentos, em seus \u00faltimos anos. Entre eles lembro de ter visto o P. Rua t\u00e3o velho, magro, quase n\u00e3o dava para reconhec\u00ea-lo mais, tanto tinha mudado. Perguntei:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 E os outros todos?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 J\u00e1 foram para a outra vida. Estamos em 1901.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Em muitas casas eu n\u00e3o reconheci mais nenhum dos nossos antigos. Havia diretores e mestres nunca dantes vistos por mim, uma multid\u00e3o de jovens cada vez maior, casas aumentadas, pessoal dirigente admiravelmente acrescido. O gentil int\u00e9rprete continuou a falar:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Agora d\u00ea mais dez giros na roda neste controle e ver\u00e1 coisas que o consolam e outras que causar\u00e3o profunda preocupa\u00e7\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Girei dez vezes mais a manivela. Ele exclamou:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Eis o ano de 1911!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ah! Meus caros jovens! Vi casas novas, novos jovens; diretores e professores com trajes diferentes, novas atitudes.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E dos meus do Orat\u00f3rio de Turim? Procurei e busquei com insist\u00eancia no meio daquela multid\u00e3o de jovens. Achei um s\u00f3 dentre voc\u00eas, todo encanecido e decr\u00e9pito pelos muito anos, cercado de uma bela coroa de jovens. Contava o in\u00edcio do nosso Orat\u00f3rio. Recordava-lhes as coisas aprendidas de Dom Bosco e mostrava os retratos de Dom Bosco dependurados na parede da portaria, de outros velhos alunos, de superiores das casas que ele j\u00e1 tinha conhecido como anci\u00e3os&#8230;<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois de um novo comando na manivela, mais giros. N\u00e3o vi sen\u00e3o um imenso ermo povoado de solid\u00e3o, sem alma viva. Gritei estarrecido:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Oh! N\u00e3o vejo mais ningu\u00e9m! N\u00e3o vejo mais ningu\u00e9m dos meus! Onde est\u00e3o todos aqueles jovens acolhidos por mim, t\u00e3o alegres, espertos, vigorosos e que atualmente est\u00e3o junto comigo no Orat\u00f3rio?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Est\u00e3o na outra vida. Saiba que j\u00e1 se passaram dez anos a cada dezena da manivelada.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Ent\u00e3o contei quantas voltas de dez giros tinha dado com o man\u00edpulo e resultou que tinham transcorrido cinquenta anos e que l\u00e1 pelo ano de 1911 os atuais jovens do Orat\u00f3rio tinham falecido todos. E o ben\u00e9volo guia:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Quer ver algo surpreendente?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Sim! Sim! Quero sim.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Ent\u00e3o preste aten\u00e7\u00e3o, se \u00e9 que lhe agrada ver e saber mais. Gire a manivela em sentido contr\u00e1rio, contando outros tantos giros quantos deu antes.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E a roda girou. Ele me disse:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Olhe agora!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Olhei e vi. Apareceu diante de mim uma quantidade imensa de jovens, todos diferentes, de infinita variedade de trajes, pa\u00edses, fei\u00e7\u00f5es e l\u00ednguas. Embora eu me esfor\u00e7asse o mais que podia, n\u00e3o consegui distinguir a n\u00e3o ser uma m\u00ednima parte junto com seus superiores, diretores, mestres e assistentes. Eu falei em voz alta:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Todos estes realmente s\u00e3o desconhecidos. E obtive a seguinte resposta:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u2013 Todavia, todos eles s\u00e3o seus filhos. Ou\u00e7a-os, pois est\u00e3o falando de voc\u00ea, de seus antigos filhos e que foram superiores deles mesmos e que agora n\u00e3o mais est\u00e3o h\u00e1 tempo. Relembram os ensinamentos recebidos de voc\u00eas e deles.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Olhei ainda com muita aten\u00e7\u00e3o. Mas quando tirei os olhos da tela, a roda come\u00e7ou a girar sozinha com extrema velocidade e muito estr\u00e9pito. A\u00ed eu acordei, morto de cansa\u00e7o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Agora que lhes contei estas coisas, voc\u00eas poder\u00e3o pensar: Qui\u00e7\u00e1! Dom Bosco \u00e9 um homem fora do comum, algum grande personagem, seguramente um santo! Meus queridos jovens! Para dirimir falsos conceitos a meu respeito, deixo a todos a completa liberdade de acreditar ou n\u00e3o nestas coisas, dar ou n\u00e3o dar import\u00e2ncia. Recomendo-lhes, por\u00e9m, n\u00e3o levem isso em mofa, quer com companheiros, quer com pessoas estranhas. Acho por bem asseverar-lhes que o Senhor tem infinitos meios para manifestar aos homens sua vontade. \u00c0s vezes ele se serve de instrumentos ineptos e indignos, como se serviu da burra de Bala\u00e3o, fazendo-a falar. Serviu-se do mesmo Bala\u00e3o, falso profeta, que predisse muitas coisas relativas ao Messias. Isso pode acontecer tamb\u00e9m comigo. Pe\u00e7o, por\u00e9m, que n\u00e3o comparem suas obras com as minhas.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O que voc\u00eas devem fazer \u00e9 apenas ouvir o que eu digo porque isto, \u00e9 o que espero, mostrar\u00e1 sempre a vontade de Deus e redundar\u00e1 no bem das almas. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que eu fa\u00e7o, nunca digam: Dom Bosco fez assim, ent\u00e3o, est\u00e1 certo. N\u00e3o! Primeiro observem o que eu fa\u00e7o. Se virem que \u00e9 bom, imitem. Se, por acaso, perceberem que aquilo que eu fa\u00e7o n\u00e3o \u00e9 conveniente, guardem-se de imitar. Considerem-no mal feito.<br><em>(MB IT VI, 898-916 \/ MB PT VI, 839-949)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO cora\u00e7\u00e3o do s\u00e1bio conhece o tempo (de agir) e julgamento (para dar sentido a&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":35418,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":11,"footnotes":""},"categories":[172],"tags":[2565,2561,1749,2557,2577,2203,1821,1815,1701,2226,2227,2228,2619],"class_list":["post-35425","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-sonhos-de-dom-bosco","tag-caridade","tag-carisma-salesiano","tag-conselhos","tag-deus","tag-dom-bosco","tag-eventos","tag-graca","tag-juventude","tag-providencia","tag-salesianos","tag-salvacao","tag-santos","tag-testemunhos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35425","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35425"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35425\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35418"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35425"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35425"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35425"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}