{"id":35241,"date":"2025-02-22T22:30:36","date_gmt":"2025-02-22T22:30:36","guid":{"rendered":"https:\/\/exciting-knuth.178-32-140-152.plesk.page\/?p=35241"},"modified":"2025-02-22T22:34:25","modified_gmt":"2025-02-22T22:34:25","slug":"vida-de-sao-pedro-principe-dos-apostolos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/boa-imprensa\/vida-de-sao-pedro-principe-dos-apostolos\/","title":{"rendered":"Vida de S\u00e3o Pedro, pr\u00edncipe dos ap\u00f3stolos"},"content":{"rendered":"\n<p><em>O momento culminante do Ano Jubilar para cada crente \u00e9 a passagem pela Porta Santa, um gesto altamente simb\u00f3lico que deve ser vivido com profunda medita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de uma simples visita para admirar a beleza arquitet\u00f4nica, escultural ou pict\u00f3rica de uma bas\u00edlica: os primeiros crist\u00e3os n\u00e3o iam aos locais de culto por esse motivo, tamb\u00e9m porque na \u00e9poca n\u00e3o havia muito para admirar. Eles chegavam, na verdade, para rezar diante das rel\u00edquias dos santos ap\u00f3stolos e m\u00e1rtires, e para obter a indulg\u00eancia gra\u00e7as \u00e0 sua poderosa intercess\u00e3o.<br>Visitar os t\u00famulos dos ap\u00f3stolos Pedro e Paulo sem conhecer suas vidas n\u00e3o \u00e9 um sinal de apre\u00e7o. Por isso, neste Ano Jubilar, desejamos apresentar os caminhos de f\u00e9 desses dois gloriosos ap\u00f3stolos, assim como foram narrados por S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco.<\/em><br><br><br><strong>Vida de S\u00e3o Pedro, pr\u00edncipe dos ap\u00f3stolos contada ao povo pelo P. Jo\u00e3o Bosco<\/strong><br><br><em>Homem de pouca f\u00e9, por que duvidaste? (Mateus 14,31).<br><\/em><br><a href=\"#_Toc191158550\">PREF\u00c1CIO<\/a><br><a href=\"#_Toc191158551\">CAP\u00cdTULO I. P\u00e1tria e profiss\u00e3o de S\u00e3o Pedro. \u2014 Seu irm\u00e3o Andr\u00e9 o conduz a Jesus Cristo. <em>Ano 29 de Jesus Cristo<\/em><\/a><br><a href=\"#_Toc191158552\">CAP\u00cdTULO II. Pedro conduz o Salvador em seu barco \u2014 Pesca milagrosa. \u2014 Acolhe Jesus em sua casa. \u2014 Milagres realizados. <em>Ano 30 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158553\">CAP\u00cdTULO III. S\u00e3o Pedro, chefe dos Ap\u00f3stolos, \u00e9 enviado a pregar. \u2014 Caminha sobre as ondas. \u2014 Bela resposta dada ao Salvador. <em>Ano 31 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158554\">CAP\u00cdTULO IV. Pedro confessa pela segunda vez Jesus Cristo como Filho de Deus. \u2014 \u00c9 constitu\u00eddo chefe da Igreja, e lhe s\u00e3o prometidas as chaves do reino dos C\u00e9us. <em>Ano 32 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158555\">CAP\u00cdTULO V. S\u00e3o Pedro tenta dissuadir o divino Mestre da paix\u00e3o. \u2014 Vai com ele ao monte Tabor. <em>Ano 32 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158556\">CAP\u00cdTULO VI. Jesus, na presen\u00e7a de Pedro, ressuscita a filha de Jairo. \u2014 Paga o tributo por Pedro. \u2014 Ensina seus disc\u00edpulos na humildade. <em>Ano 32 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158557\">CAP\u00cdTULO VII. Pedro fala com Jesus sobre o perd\u00e3o das inj\u00farias e o desapego das coisas terrenas. \u2014 Recusa deixar-se lavar os p\u00e9s. \u2014 Sua amizade com S\u00e3o Jo\u00e3o. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158558\">CAP\u00cdTULO VIII. Jesus prediz a nega\u00e7\u00e3o de Pedro e lhe assegura que sua f\u00e9 n\u00e3o falhar\u00e1. \u2014 Pedro o segue no jardim de Gets\u00eamani. \u2014 Corta a orelha de Malco. \u2014 Sua queda, seu arrependimento. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158559\">CAP\u00cdTULO IX. Pedro no sepulcro do Salvador. \u2014 Jesus lhe aparece. \u2014 \u00c0 beira do lago de Tiber\u00edades d\u00e1 tr\u00eas distintos sinais de amor para com Jesus que o constitui efetivamente chefe e pastor supremo da Igreja.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158560\">CAP\u00cdTULO X. Infalibilidade de S\u00e3o Pedro e de seus sucessores<\/a><br><a href=\"#_Toc191158561\">CAP\u00cdTULO XI. Jesus prediz a S\u00e3o Pedro a morte de cruz. \u2014 Promete assist\u00eancia \u00e0 Igreja at\u00e9 o fim do mundo. \u2014 Retorno dos Ap\u00f3stolos ao cen\u00e1culo. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158562\">CAP\u00cdTULO XII. S\u00e3o Pedro substitui Judas. \u2014 Vinda do Esp\u00edrito Santo. \u2014 Milagre das l\u00ednguas. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158563\">CAP\u00cdTULO XIII. Primeira prega\u00e7\u00e3o de Pedro. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158564\">CAP\u00cdTULO XIV. S\u00e3o Pedro cura um coxo. \u2014 Sua segunda prega\u00e7\u00e3o. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158565\">CAP\u00cdTULO XV. Pedro \u00e9 preso com Jo\u00e3o e, depois, libertado.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158566\">CAP\u00cdTULO XVI. Vida dos primeiros Crist\u00e3os. \u2014 O caso de Ananias e Safira. \u2014 Milagres de S\u00e3o Pedro. <em>Ano 34 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158567\">CAP\u00cdTULO XVII. S\u00e3o Pedro novamente preso. \u2014 \u00c9 libertado por um anjo. <em>Ano 34 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158568\">CAP\u00cdTULO XVIII. Elei\u00e7\u00e3o dos sete di\u00e1conos. \u2014 S\u00e3o Pedro resiste \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m. \u2014 Vai \u00e0 Samaria. \u2014 Seu primeiro confronto com Sim\u00e3o Mago. <em>Ano 35 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158569\">CAP\u00cdTULO XIX. S\u00e3o Pedro funda a c\u00e1tedra de Antioquia; retorna a Jerusal\u00e9m. \u2014 \u00c9 visitado por S\u00e3o Paulo. <em>Ano 36 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158570\">CAP\u00cdTULO XX. S\u00e3o Pedro visita v\u00e1rias Igrejas. \u2014 Cura Eneias, o paral\u00edtico. \u2014 Ressuscita a defunta Tabita. <em>Ano 38 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158571\">CAP\u00cdTULO XXI. Deus revela a S\u00e3o Pedro a voca\u00e7\u00e3o dos Gentios. \u2014 Vai a Cesareia e batiza a fam\u00edlia do Centuri\u00e3o Corn\u00e9lio. <em>Ano 39 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158572\">CAP\u00cdTULO XXII. Herodes manda decapitar S\u00e3o Tiago Maior, e colocar S\u00e3o Pedro na pris\u00e3o. \u2014 Mas \u00e9 libertado por um Anjo. \u2014 Morte de Herodes. <em>Ano 41 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158573\">CAP\u00cdTULO XXIII. Pedro em Roma. \u2014 Ele transfere a c\u00e1tedra apost\u00f3lica. \u2014 Sua primeira carta. \u2014 Progresso do Evangelho. <em>Ano 42 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158574\">CAP\u00cdTULO XXIV. S\u00e3o Pedro no conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m define uma quest\u00e3o. \u2014 S\u00e3o Tiago confirma seu julgamento. <em>Ano 50 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158575\">CAP\u00cdTULO XXV. S\u00e3o Pedro confere a S\u00e3o Paulo e a S\u00e3o Barnab\u00e9 a plenitude do Apostolado. \u2014 \u00c9 advertido por S\u00e3o Paulo. \u2014 Retorna a Roma. <em>Ano 54 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158576\">CAP\u00cdTULO XXVI. S\u00e3o Pedro ressuscita um morto. <em>Ano 66 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158577\">CAP\u00cdTULO XXVII. Voo. \u2014 Queda. \u2014 Morte desesperada de Sim\u00e3o Mago. <em>Ano 67 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158578\">CAP\u00cdTULO XXVIII. Pedro \u00e9 procurado para morrer. \u2014 Jesus lhe aparece e lhe prediz iminente o mart\u00edrio. \u2014 Testamento do santo Ap\u00f3stolo.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158579\">CAP\u00cdTULO XXIX. S\u00e3o Pedro na pris\u00e3o converte Processo e Martiniano. \u2014 Seu mart\u00edrio. <em>Ano 69-70 de Jesus Cristo; 67 da era vulgar<\/em>.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158580\">CAP\u00cdTULO XXX. Sepulcro de S\u00e3o Pedro. \u2014 Atentado contra seu corpo.<\/a><br><a href=\"#_Toc191158581\">AP\u00caNDICE SOBRE A VINDA DE S\u00c3O PEDRO A ROMA<\/a><br><br><br><a id=\"_Toc191158550\">PREF\u00c1CIO<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem deve entrar em um pal\u00e1cio fechado e tomar posse dele, \u00e9 necess\u00e1rio que goze do favor daquele que tem as chaves.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Infeliz daquele que, encontrando-se numa pequena embarca\u00e7\u00e3o em alto-mar, n\u00e3o est\u00e1 nas gra\u00e7as do piloto. A ovelha perdida, que est\u00e1 longe de seu pastor, n\u00e3o conhece sua voz ou n\u00e3o a escuta.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Caro leitor; sua morada \u00e9 o c\u00e9u, e voc\u00ea deve aspirar a alcan\u00e7\u00e1-la. Enquanto voc\u00ea vive aqui embaixo, est\u00e1 navegando no tempestuoso mar do mundo, em perigo de colidir com os rochedos, naufragar e se perder nos abismos do erro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como uma ovelhinha, voc\u00ea est\u00e1 a cada dia prestes a ser conduzido a pastagens nocivas, a se perder por penhascos e desfiladeiros, e a cair tamb\u00e9m nas garras dos lobos vorazes, ou seja, nas armadilhas dos inimigos de sua alma. Ah! Sim, voc\u00ea precisa tornar favor\u00e1vel aquele a quem foram entregues as chaves do c\u00e9u; \u00e9 necess\u00e1rio que voc\u00ea confie sua vida ao grande Piloto da Nave de Cristo, ao No\u00e9 do novo Testamento; voc\u00ea deve se unir ao Supremo Pastor da Igreja, o \u00fanico que pode gui\u00e1-lo a pastagens saud\u00e1veis e conduzi-lo \u00e0 vida.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, o Porteiro do reino dos C\u00e9us, grande Timoneiro e Pastor dos homens \u00e9 precisamente S\u00e3o Pedro, pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, que exerce seu poder na pessoa do Sumo Pont\u00edfice, seu Sucessor. Ele ainda hoje abre e fecha, governa a Igreja, guia as almas \u00e0 salva\u00e7\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o lhe desagrade, portanto, piedoso leitor, ao percorrer a breve vida que aqui lhe apresento; aprenda a conhecer quem ele \u00e9, a respeitar sua suprema autoridade de honra e jurisdi\u00e7\u00e3o; aprenda a reconhecer a voz amorosa do Pastor e a ouvi-la. Porque quem est\u00e1 com Pedro, est\u00e1 com Deus, caminha na luz e corre em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida; quem n\u00e3o est\u00e1 com Pedro, est\u00e1 contra Deus, vai cambaleando nas trevas e precipita-se na perdi\u00e7\u00e3o. Onde est\u00e1 Pedro, ali est\u00e1 a vida; onde Pedro n\u00e3o est\u00e1, ali est\u00e1 a morte.<br><br><a id=\"_Toc191158551\">CAP\u00cdTULO I. P\u00e1tria e profiss\u00e3o de S\u00e3o Pedro<\/a><a href=\"#_ftn1\" id=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>. \u2014 Seu irm\u00e3o Andr\u00e9 o conduz a Jesus Cristo. <em>Ano 29 de Jesus Cristo<\/em><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro era judeu de nascimento e filho de um pobre pescador chamado Jonas ou Jo\u00e3o, que habitava em uma cidade da Galileia chamada Betsaida. Esta cidade est\u00e1 situada na margem ocidental do lago de Genesar\u00e9, comumente chamado mar da Galileia ou de Tiber\u00edades, que na verdade \u00e9 um vasto lago de doze milhas de comprimento (\u00b1 19km) e seis de largura (\u00b1 13km).<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Antes que o Salvador lhe mudasse o nome, Pedro chamava-se Sim\u00e3o. Ele exercia a profiss\u00e3o de pescador, como seu pai; tinha um temperamento forte, intelig\u00eancia viva e espirituosa; era r\u00e1pido em responder, mas de cora\u00e7\u00e3o bom e cheio de gratid\u00e3o para com quem o beneficiava.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa \u00edndole viva o levava frequentemente aos mais calorosos transportes de afeto para com o Salvador, do qual igualmente recebeu inequ\u00edvocos sinais de predile\u00e7\u00e3o. Naquela \u00e9poca, n\u00e3o sendo ainda muito conhecido o valor da virgindade, Pedro casou-se na cidade de Cafarnaum, capital da Galileia, na margem ocidental do Jord\u00e3o, que \u00e9 um grande rio, o qual divide a Palestina de norte a sul.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como Tiber\u00edades estava situada onde o Jord\u00e3o des\u00e1gua no mar da Galileia, e por isso muito adequada \u00e0 pesca, assim S\u00e3o Pedro estabeleceu nesta cidade sua moradia habitual e continuou a exercer seu of\u00edcio habitual. A bondade de seu cora\u00e7\u00e3o muito inclinado \u00e0 verdade, o emprego inocente de pescador e a assiduidade ao trabalho contribu\u00edram bastante para que ele se conservasse no santo temor de Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Naquela \u00e9poca, era difundido o pensamento na mente de todos de que a vinda do Messias era iminente; ali\u00e1s, alguns diziam que j\u00e1 havia nascido entre os judeus. O que motivou S\u00e3o Pedro a usar a m\u00e1xima dilig\u00eancia para vir a conhec\u00ea-lo. Ele tinha um irm\u00e3o mais velho chamado Andr\u00e9, que, cativado pelas maravilhas que se contavam sobre S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, Precursor do Salvador, quis se tornar seu disc\u00edpulo, passando a maior parte do tempo com ele em um \u00e1spero deserto.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A not\u00edcia, que se confirmava a cada dia mais, de que o Messias j\u00e1 havia nascido, fazia com que muitos recorressem a S\u00e3o Jo\u00e3o, acreditando que ele mesmo era o Redentor. Entre esses estava Santo Andr\u00e9, irm\u00e3o de Sim\u00e3o Pedro. Mas n\u00e3o demorou muito para que, instru\u00eddo por Jo\u00e3o, ele viesse a conhecer Jesus Cristo e, na primeira vez que ouviu falar dele, ficou t\u00e3o cativado que correu imediatamente para dar a not\u00edcia ao irm\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim que o viu: \u201cSim\u00e3o,\u201d disse-lhe, \u201cencontramos o Messias; venha comigo para v\u00ea-lo.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sim\u00e3o, que j\u00e1 havia ouvido algo de outros, mas vagamente, partiu imediatamente com seu irm\u00e3o e foi at\u00e9 onde Andr\u00e9 havia deixado Jesus Cristo. Pedro, ao dar uma olhada no Salvador, ficou como arrebatado de amor. O divino Mestre, que havia concebido altos des\u00edgnios sobre ele, olhou-o com um ar de bondade e, antes que ele falasse, mostrou-lhe que estava plenamente informado sobre seu nome, seu nascimento, sua p\u00e1tria, dizendo: \u201cTu \u00e9s Sim\u00e3o, filho de Jo\u00e3o, mas doravante te chamar\u00e1s Cefas.\u201d Esta palavra significa pedra, da qual derivou o nome de Pedro. Jesus comunica a Sim\u00e3o que seria chamado Pedro, porque ele deveria ser aquela pedra sobre a qual Jesus Cristo fundaria sua Igreja, como veremos ao longo desta vida.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Neste primeiro di\u00e1logo, Pedro reconheceu imediatamente ser de muito longe inferior \u00e0 realidade o que seu irm\u00e3o lhe havia contado e, desde aquele momento, tornou-se muito afei\u00e7oado a Jesus Cristo, nem sabia mais viver longe dele. O divino Salvador, por outro lado, permitiu que este novo disc\u00edpulo retornasse ao seu of\u00edcio anterior porque queria prepar\u00e1-lo pouco a pouco para o total abandono das coisas terrenas, gui\u00e1-lo aos mais sublimes graus da virtude e assim torn\u00e1-lo capaz de compreender os outros mist\u00e9rios que lhe revelaria e faz\u00ea-lo digno do grande poder com o qual o queria investir.<br><br><a id=\"_Toc191158552\">CAP\u00cdTULO II. Pedro conduz o Salvador em seu barco \u2014 Pesca milagrosa. \u2014 Acolhe Jesus em sua casa. \u2014 Milagres realizados. <em>Ano 30 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro continuava, portanto, a exercer sua primeira profiss\u00e3o; mas sempre que o tempo e as ocupa\u00e7\u00f5es lhe permitiam, ia com alegria ao divino Salvador, para ouvi-lo falar sobre as verdades da f\u00e9 e do reino dos c\u00e9us.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um dia, caminhando Jesus \u00e0 beira do mar de Tiber\u00edades, viu os dois irm\u00e3os Pedro e Andr\u00e9 em ato de lan\u00e7ar suas redes na \u00e1gua. Chamando-os a si, disse-lhes: \u201cVenham comigo e, de pescadores de peixes como s\u00e3o, eu os tornarei pescadores de homens.\u201d Eles prontamente obedeceram aos sinais do Redentor e, abandonando suas redes, tornaram-se fi\u00e9is e constantes seguidores dele. N\u00e3o muito longe havia outra embarca\u00e7\u00e3o de pescadores, na qual estava um certo Zebedeu com dois filhos, Tiago e Jo\u00e3o, que consertavam suas redes. Jesus chamou tamb\u00e9m esses dois irm\u00e3os. Pedro, Tiago e Jo\u00e3o s\u00e3o os tr\u00eas disc\u00edpulos que tiveram sinais de especial benevol\u00eancia do Salvador e que, por sua vez, se mostraram em cada encontro fi\u00e9is e leais.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto isso, o povo, tendo sabido que o Salvador estava l\u00e1, se aglomerava ao seu redor para ouvir sua divina palavra. Desejando satisfazer o desejo da multid\u00e3o e ao mesmo tempo oferecer a todos a comodidade de poder ouvi-lo, n\u00e3o quis pregar da praia, mas de uma das duas embarca\u00e7\u00f5es que estavam pr\u00f3ximas \u00e0 costa; e para dar a Pedro um novo atestado de amor, escolheu a sua barca. Subindo a bordo e fazendo tamb\u00e9m Pedro subir, ordenou-lhe que se afastasse um pouco da margem e, sentando-se, come\u00e7ou a instruir aquela devota assembleia. Terminada a prega\u00e7\u00e3o, ordenou a Pedro que conduzisse a embarca\u00e7\u00e3o em alto-mar e lan\u00e7asse a rede para pegar peixes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro havia passado toda a noite anterior pescando naquele mesmo lugar e n\u00e3o havia apanhado nada; por isso, voltando-se para Jesus: \u201cMestre,\u201d disse-lhe, \u201cn\u00f3s nos fatigamos a noite toda pescando e n\u00e3o pegamos nenhum peixe; no entanto, por causa da tua palavra, lan\u00e7arei a rede ao mar.\u201d Assim fez por obedi\u00eancia e, contra toda expectativa, a pesca foi t\u00e3o abundante e a rede t\u00e3o cheia de grandes peixes que, tentando pux\u00e1-la para fora das \u00e1guas, estava prestes a se rasgar. Pedro, n\u00e3o podendo sozinho suportar o grande peso da rede, pediu socorro a Tiago e Jo\u00e3o, que estavam na outra embarca\u00e7\u00e3o, e estes vieram ajud\u00e1-lo. De acordo e com dificuldade, puxaram a rede para fora, despejaram os peixes nas embarca\u00e7\u00f5es, as quais ficaram t\u00e3o cheias que amea\u00e7avam afundar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro, que come\u00e7ava a perceber algo de sobrenatural na pessoa do Salvador, reconheceu imediatamente que aquilo era um prod\u00edgio e, cheio de espanto, considerando-se indigno de estar com ele na mesma embarca\u00e7\u00e3o, humilhado e confuso, lan\u00e7ou-se a seus p\u00e9s dizendo: \u201cSenhor, eu sou um miser\u00e1vel pecador, por isso te pe\u00e7o que te afastes de mim.\u201d Quase a dizer: \u201cOh! Senhor, eu n\u00e3o sou digno de estar na tua presen\u00e7a.\u201d Diz Santo Ambr\u00f3sio: admirando os dons de Deus, tanto mais merecia quanto menos presumia de si mesmo<a href=\"#_ftn2\" id=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jesus agradou-se da simplicidade de Pedro e da humildade de seu cora\u00e7\u00e3o e, desejando que ele abrisse a alma a melhores esperan\u00e7as, para confort\u00e1-lo disse-lhe: \u201cAfasta todo temor; doravante n\u00e3o ser\u00e1s pescador de peixes, mas ser\u00e1s pescador de homens.\u201d A estas palavras Pedro tomou coragem e, quase transformado em outro homem, conduziu a embarca\u00e7\u00e3o \u00e0 praia, abandonou tudo e se fez insepar\u00e1vel companheiro do Redentor.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim como Jesus Cristo, ao falar, dirigiu o caminho para a cidade de Cafarnaum, assim Pedro foi com ele. L\u00e1 entraram ambos na Sinagoga e o Ap\u00f3stolo ouviu a prega\u00e7\u00e3o que ali fez o Senhor e foi testemunha da milagrosa cura de um endemoninhado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Da Sinagoga Jesus foi \u00e0 casa de Pedro onde sua sogra estava aflita por uma febre grav\u00edssima. Juntamente com Andr\u00e9, Tiago e Jo\u00e3o, ele pediu a Jesus que se compadecesse e libertasse aquela mulher do mal que a oprimia. O divino Salvador atendeu suas ora\u00e7\u00f5es e, aproximando-se da cama da enferma, tomou-a pela m\u00e3o, levantou-a e naquele instante a febre desapareceu. A mulher se encontrou t\u00e3o perfeitamente curada que p\u00f4de se levantar imediatamente e preparar o almo\u00e7o para Jesus e toda a sua comitiva. A fama de tais milagres atraiu \u00e0 casa de Pedro muitos enfermos juntamente com uma multid\u00e3o inumer\u00e1vel, de modo que toda a cidade parecia reunida l\u00e1. Jesus restituiu a sa\u00fade a quantos eram levados a ele; e todos, cheios de contentamento, partiam louvando e bendizendo o Senhor.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na barca de Pedro, os santos Padres reconhecem a Igreja, da qual \u00e9 chefe Jesus Cristo, no lugar de quem Pedro deveria ser o primeiro a fazer suas vezes, e depois dele todos os Papas, seus sucessores. As palavras ditas a Pedro: \u201cConduze a barca para o alto-mar,\u201d e as outras ditas a ele e aos seus Ap\u00f3stolos: \u201cLan\u00e7ai as vossas redes para pegar peixes,\u201d cont\u00eam tamb\u00e9m um nobre significado. A todos os Ap\u00f3stolos, diz Santo Ambr\u00f3sio, ordena que lancem as redes nas ondas; porque todos os Ap\u00f3stolos e todos os pastores s\u00e3o obrigados a pregar a divina palavra e a guardar na nave, ou seja, na Igreja, aquelas almas que ser\u00e3o ganhas com sua prega\u00e7\u00e3o. Somente a Pedro, ent\u00e3o, \u00e9 ordenado conduzir a nave em alto-mar, porque ele, em prefer\u00eancia a todos, \u00e9 feito participante da profundidade dos divinos mist\u00e9rios e s\u00f3 ele recebe de Cristo a autoridade de resolver as dificuldades que podem surgir em quest\u00f5es de f\u00e9 e de moral. Assim, na vinda dos outros ap\u00f3stolos \u00e0 sua barca, se reconhece a colabora\u00e7\u00e3o dos outros pastores, que, unindo-se a Pedro, devem ajud\u00e1-lo a propagar e conservar a f\u00e9 no mundo e ganhar almas para Cristo<a href=\"#_ftn3\" id=\"_ftnref3\">[3]<\/a>.<br><br><a id=\"_Toc191158553\">CAP\u00cdTULO III. S\u00e3o Pedro, chefe dos Ap\u00f3stolos, \u00e9 enviado a pregar. \u2014 Caminha sobre as ondas. \u2014 Bela resposta dada ao Salvador. <em>Ano 31 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Partindo da casa de Pedro, Jesus se dirigiu para a solid\u00e3o, sobre um monte, para orar. Pedro e os outros disc\u00edpulos, que naquele momento j\u00e1 eram numerosos, o seguiram; mas, ao chegarem ao local determinado, Jesus ordenou que parassem e, sozinho, retirou-se para um lugar afastado. Quando amanheceu, voltou para os disc\u00edpulos. Nessa ocasi\u00e3o, o divino Mestre escolheu doze disc\u00edpulos, a quem deu o nome de Ap\u00f3stolos, que significa enviados, pois os Ap\u00f3stolos foram realmente enviados para pregar o Evangelho, inicialmente apenas nas aldeias da Judeia; depois, para todo o mundo. Entre esses doze, destinou S\u00e3o Pedro para ocupar o primeiro lugar e ser o chefe, para que, como diz S\u00e3o Jer\u00f4nimo, estabelecido entre eles um superior, fosse eliminada toda ocasi\u00e3o de disc\u00f3rdia e cisma. <em>Ut capite constituto schismatis tolleretur occasio<a href=\"#_ftn4\" id=\"_ftnref4\"><strong>[4]<\/strong><\/a><\/em>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os novos pregadores iam com todo zelo anunciar o Evangelho, pregando em toda parte a vinda do Messias e confirmando suas palavras com milagres luminosos. Depois, voltavam ao divino Mestre, como que para prestar contas do que haviam feito. Ele os recebia com bondade e costumava ent\u00e3o ir ele mesmo \u00e0quele lugar onde os Ap\u00f3stolos haviam pregado. Certa vez, as multid\u00f5es, tomadas de admira\u00e7\u00e3o e entusiasmo, queriam faz\u00ea-lo rei; mas ele, ordenando aos Ap\u00f3stolos que fizessem a travessia para a margem oposta do lago, afastou-se daquela boa gente e foi se esconder no deserto. Os Ap\u00f3stolos, conforme as ordens do Mestre, subiram \u00e0 barca para atravessar o lago. J\u00e1 a noite avan\u00e7ava e eles haviam chegado \u00e0 costa, quando se levantou uma tempestade t\u00e3o terr\u00edvel que a embarca\u00e7\u00e3o, agitada pelas ondas e pelo vento, estava prestes a afundar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No meio daquela tempestade, certamente n\u00e3o imaginavam que poderiam ver Jesus Cristo, que haviam deixado na margem oposta do lago. Mas qual n\u00e3o foi a surpresa deles quando o viram a pouca dist\u00e2ncia caminhando sobre as \u00e1guas, com passo firme e veloz, e avan\u00e7ando em dire\u00e7\u00e3o a eles! Ao v\u00ea-lo, todos se assustaram, temendo que fosse algum espectro ou fantasma, e come\u00e7aram a gritar. Jesus ent\u00e3o fez ouvir sua voz e os encorajou, dizendo: \u201cSou eu, tende f\u00e9, n\u00e3o temais.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A essas palavras, nenhum dos Ap\u00f3stolos ousou falar; apenas Pedro, pelo \u00edmpeto de seu amor por Jesus e para se certificar de que n\u00e3o era uma ilus\u00e3o, disse: \u201cSenhor, se realmente \u00e9s tu, ordena que eu v\u00e1 a ti caminhando sobre as \u00e1guas.\u201d O Divino Salvador disse que sim; e Pedro, cheio de confian\u00e7a, saltou para fora da embarca\u00e7\u00e3o e come\u00e7ou a caminhar sobre as ondas, como se estivesse sobre um pavimento. Mas Jesus, que queria provar a f\u00e9 dele e torn\u00e1-la mais perfeita, permitiu que se levantasse novamente um vento impetuoso, que, agitando as ondas, amea\u00e7ava submergir Pedro. Ao ver seus p\u00e9s afundando na \u00e1gua, ele ficou apavorado e come\u00e7ou a gritar: \u201cMestre, Mestre, ajuda-me, sen\u00e3o estou perdido.\u201d Ent\u00e3o Jesus o repreendeu pela fraqueza de sua f\u00e9 com estas palavras: \u201cHomem de pouca f\u00e9, por que duvidaste?\u201d Assim dizendo, ambos caminharam juntos sobre as ondas at\u00e9 que, ao entrarem na barca, o vento cessou e a tempestade se acalmou. Neste fato, os santos Padres reconhecem os perigos em que \u00e0s vezes se encontra o Chefe da Igreja e o pronto socorro que lhe traz Jesus Cristo, seu Chefe invis\u00edvel, que permite sim as persegui\u00e7\u00f5es, mas sempre lhe d\u00e1 a vit\u00f3ria.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Algum tempo depois, o Divino Salvador retornou \u00e0 cidade de Cafarnaum com os Ap\u00f3stolos, seguido por uma grande multid\u00e3o. Enquanto se detinha nesta cidade, muitos se aglomeravam ao seu redor, pedindo-lhe que quisesse ensinar-lhes quais eram as obras absolutamente necess\u00e1rias para se salvar. Jesus come\u00e7ou a instru\u00ed-los sobre sua doutrina celeste, sobre o mist\u00e9rio de sua Encarna\u00e7\u00e3o, sobre o Sacramento da Eucaristia. Mas como aqueles ensinamentos visavam erradicar a soberba do cora\u00e7\u00e3o dos homens, a gerar neles a humildade ao obrig\u00e1-los a crer em alt\u00edssimos mist\u00e9rios e especialmente no mist\u00e9rio dos mist\u00e9rios, a divina Eucaristia, assim seus ouvintes, considerando aqueles discursos muito r\u00edgidos e severos, ficaram ofendidos e a maior parte o abandonou.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jesus, vendo-se abandonado por quase todos, voltou-se para os Ap\u00f3stolos e disse: \u201cVede como muitos se v\u00e3o? Tamb\u00e9m v\u00f3s quereis ir embora?\u201d A esta repentina interroga\u00e7\u00e3o, todos ficaram em sil\u00eancio. Somente Pedro, como chefe e em nome de todos, respondeu: \u201cSenhor, a quem iremos n\u00f3s? Tu tens palavras de vida eterna; n\u00f3s cremos e sabemos que tu \u00e9s o Cristo, o filho de Deus.\u201d S\u00e3o Cirilo reflete que esta interroga\u00e7\u00e3o foi feita por Jesus Cristo a fim de estimul\u00e1-los a confessar a verdadeira f\u00e9, como de fato aconteceu pela boca de Pedro. Quanta diferen\u00e7a entre a resposta do nosso Ap\u00f3stolo e as murmura\u00e7\u00f5es de certos crist\u00e3os que acham dura e severa a santa lei do Evangelho, porque n\u00e3o se acomoda \u00e0s suas paix\u00f5es (Ciril. in Ioann. lib. 4).<br><br><a id=\"_Toc191158554\">CAP\u00cdTULO IV. Pedro confessa pela segunda vez Jesus Cristo como Filho de Deus. \u2014 \u00c9 constitu\u00eddo chefe da Igreja, e lhe s\u00e3o prometidas as chaves do reino dos C\u00e9us. <em>Ano 32 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, o divino Salvador havia tornado evidentes os planos particulares que tinha para a pessoa de Pedro; mas ainda n\u00e3o havia se explicado t\u00e3o claramente, como veremos no fato seguinte, que pode ser considerado o mais memor\u00e1vel da vida deste grande Ap\u00f3stolo. Da cidade de Cafarnaum, Jesus foi para os arredores de Cesareia de Filipe, cidade n\u00e3o muito distante do rio Jord\u00e3o. L\u00e1, um dia, ap\u00f3s ter orado, Jesus se voltou de repente para seus disc\u00edpulos, que haviam retornado da prega\u00e7\u00e3o, e fazendo sinal para que se aproximassem dele, come\u00e7ou a interrog\u00e1-los assim: \u201cQuem dizem os homens que eu sou?\u201d \u201cH\u00e1 quem diga,\u201d respondeu um dos Ap\u00f3stolos, \u201cque tu \u00e9s o profeta Elias.\u201d \u201cA mim disseram,\u201d acrescentou outro, \u201cque tu \u00e9s o profeta Jeremias, ou Jo\u00e3o Batista, ou algum dos antigos profetas ressuscitados.\u201d Pedro n\u00e3o disse palavra. Jesus retomou: \u201cMas v\u00f3s, quem dizeis que eu sou?\u201d Pedro ent\u00e3o se adiantou e, em nome dos outros Ap\u00f3stolos, respondeu: \u201cTu \u00e9s o Cristo, filho do Deus vivo.\u201d Ent\u00e3o Jesus afirmou: \u201cBem-aventurado \u00e9s, Sim\u00e3o, filho de Jo\u00e3o, pois n\u00e3o foram os homens que te revelaram tais palavras, mas meu Pai celeste. A partir de agora, n\u00e3o te chamar\u00e1s mais Sim\u00e3o, mas Pedro, e sobre esta pedra edificarei minha Igreja, e as portas do inferno n\u00e3o poder\u00e3o venc\u00ea-la. Dar-te-ei as chaves do reino dos c\u00e9us; o que ligares na terra, ser\u00e1 ligado tamb\u00e9m no c\u00e9u, e o que desatares na terra, ser\u00e1 desatado tamb\u00e9m no c\u00e9u.<a href=\"#_ftn5\" id=\"_ftnref5\">[5]<\/a>\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este fato e estas palavras merecem ser uma pequena explica\u00e7\u00e3o, para que sejam bem compreendidas. Pedro ficou em sil\u00eancio enquanto Jesus apenas demonstrava querer saber o que os homens diziam sobre sua pessoa; quando ent\u00e3o o divino Salvador convidou os Ap\u00f3stolos a expressar seu sentimento, imediatamente Pedro, em nome de todos, falou, pois ele j\u00e1 gozava de uma primazia, ou seja, superioridade, sobre os outros companheiros.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro, divinamente inspirado, diz: \u201cTu \u00e9s o Cristo,\u201d e era o mesmo que dizer: \u201cTu \u00e9s o Messias prometido por Deus que veio salvar os homens; \u00e9s filho do Deus vivo,\u201d para significar que Jesus Cristo n\u00e3o era filho de Deus como as divindades dos id\u00f3latras, feitas pelas m\u00e3os e pelo capricho dos homens, mas filho do Deus vivo e verdadeiro, ou seja, filho do Pai eterno; portanto, com Ele criador e supremo senhor de todas as coisas; com isso, vinha a confess\u00e1-lo como a segunda pessoa da Sant\u00edssima Trindade. Jesus, quase para compens\u00e1-lo por sua f\u00e9, o chama de Bem-aventurado, e ao mesmo tempo muda seu nome de Sim\u00e3o para Pedro; claro sinal de que o queria elevar a uma grande dignidade. Assim Deus fez com Abra\u00e3o, quando o estabeleceu pai de todos os crentes; assim com Sara, quando lhe prometeu o prodigioso nascimento de um filho; assim com Jac\u00f3, quando o chamou de Israel e lhe assegurou que da sua descend\u00eancia nasceria o Messias.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jesus disse: \u201cSobre esta pedra edificarei minha Igreja;\u201d essas palavras significam: tu, Pedro, ser\u00e1s na Igreja o que \u00e9 o fundamento numa casa. O fundamento \u00e9 a parte principal da casa, totalmente indispens\u00e1vel; tu, Pedro, ser\u00e1s o fundamento, ou seja, a suprema autoridade na minha Igreja. Sobre o fundamento se edifica toda a casa, para que, sustentando-se, dure firme e inabal\u00e1vel. Sobre ti, que eu chamo de Pedro, como sobre uma rocha ou pedra firm\u00edssima, por minha virtude onipotente eu elevo o eterno edif\u00edcio da minha Igreja, a qual, apoiada em ti, permanecer\u00e1 forte e invicta contra todos os ataques de seus inimigos. N\u00e3o h\u00e1 casa sem fundamento, n\u00e3o h\u00e1 Igreja sem Pedro. Uma casa sem fundamento n\u00e3o \u00e9 obra de um arquiteto s\u00e1bio; uma Igreja separada de Pedro nunca poder\u00e1 ser a minha Igreja. Nas casas, as partes que n\u00e3o se apoiam no fundamento caem e v\u00e3o \u00e0 ru\u00edna; na minha Igreja, quem se separa de Pedro precipita-se no erro e se perde.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; &nbsp;\u201cAs portas do inferno nunca vencer\u00e3o minha Igreja.\u201d As portas do inferno, como explicam os Santos Padres, significam as heresias, os hereges, as persegui\u00e7\u00f5es, os esc\u00e2ndalos p\u00fablicos e as desordens que o dem\u00f4nio tenta suscitar contra a Igreja. Todas essas pot\u00eancias infernais poder\u00e3o, sim, separadamente ou reunidas, mover uma guerra feroz contra a Igreja e perturbar seu esp\u00edrito pac\u00edfico, mas nunca poder\u00e3o venc\u00ea-la.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Finalmente, Cristo diz: \u201cEu te darei as chaves do reino dos c\u00e9us.\u201d As chaves s\u00e3o o s\u00edmbolo do poder. Quando o vendedor de uma casa entrega as chaves ao comprador, entende-se que lhe d\u00e1 plena e absoluta posse. Da mesma forma, quando se apresentam as chaves de uma cidade a um Rei, se quer significar que aquela cidade o reconhece como seu senhor. Assim, as chaves do reino dos c\u00e9us, ou seja, da Igreja, dadas a Pedro, demonstram que ele \u00e9 feito senhor, pr\u00edncipe e governante da Igreja. Portanto, Jesus Cristo acrescenta a Pedro: \u201cTudo o que ligares na terra ser\u00e1 tamb\u00e9m ligado nos c\u00e9us, e tudo o que desatares na terra ser\u00e1 tamb\u00e9m desatado nos c\u00e9us.\u201d Essas palavras indicam claramente a suprema autoridade dada a Pedro; autoridade de ligar a consci\u00eancia dos homens com decretos e leis em ordem ao seu bem espiritual e eterno, e a autoridade de desat\u00e1-los dos pecados e das penas que impedem o mesmo bem espiritual e eterno.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 bom notar aqui que o verdadeiro Chefe supremo da Igreja \u00e9 Jesus Cristo, seu fundador; S\u00e3o Pedro, ent\u00e3o, exerce sua suprema autoridade fazendo as fun\u00e7\u00f5es, ou seja, as vezes dele na terra. Jesus Cristo fez com Pedro, como fazem os Reis deste mundo, quando d\u00e3o plenos poderes a algum de seus ministros com a ordem de que tudo deva depender dele. Assim, o Rei Fara\u00f3 deu tal poder a Jos\u00e9 que ningu\u00e9m podia mover nem m\u00e3o nem p\u00e9 sem sua permiss\u00e3o<a href=\"#_ftn6\" id=\"_ftnref6\">[6]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Note-se tamb\u00e9m que os outros Ap\u00f3stolos receberam de Jesus Cristo a faculdade de desatar e ligar<a href=\"#_ftn7\" id=\"_ftnref7\">[7]<\/a>, mas essa faculdade foi-lhes dada depois que S\u00e3o Pedro a recebeu sozinho, para indicar que ele era o \u00fanico chefe destinado a conservar a unidade de f\u00e9 e de moral. Os outros Ap\u00f3stolos, ent\u00e3o, e todos os bispos seus sucessores, deveriam sempre depender de Pedro e dos Papas seus sucessores, a fim de permanecerem unidos a Jesus Cristo, que do c\u00e9u assiste seu Vig\u00e1rio e toda a Igreja at\u00e9 o fim dos s\u00e9culos. Pedro recebeu a faculdade de desatar e de ligar juntamente com os outros Ap\u00f3stolos, e assim ele e seus sucessores s\u00e3o iguais aos Ap\u00f3stolos e aos Bispos; depois a recebeu sozinho, e por isso Pedro e os Papas seus sucessores s\u00e3o os Chefes supremos de toda a Igreja; n\u00e3o apenas dos simples fi\u00e9is, mas dos Sacerdotes e de todos os Bispos. S\u00e3o bispos e pastores de Roma, e papas e pastores de toda a Igreja.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com o fato que expusemos, o divino Salvador promete constituir S\u00e3o Pedro chefe supremo de sua Igreja, e lhe explica a grandeza de sua autoridade. Veremos o cumprimento dessa promessa ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo.<br><br><a id=\"_Toc191158555\">CAP\u00cdTULO V. S\u00e3o Pedro tenta dissuadir o divino Mestre da paix\u00e3o. \u2014 Vai com ele ao monte Tabor. <em>Ano 32 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O divino Redentor, depois de ter feito conhecer aos seus disc\u00edpulos como ele edificava sua Igreja sobre bases est\u00e1veis, inabal\u00e1veis e eternas, quis dar-lhes um ensinamento para que compreendessem bem que ele n\u00e3o fundava este seu reino, ou seja, sua Igreja, com riquezas ou magnific\u00eancia mundana, mas sim com a humildade, com os sofrimentos. Com esse prop\u00f3sito, portanto, manifestou a S\u00e3o Pedro e a todos os seus disc\u00edpulos a longa s\u00e9rie de sofrimentos e a morte infamante que os judeus deveriam faz\u00ea-lo sofrer em Jerusal\u00e9m. Pedro, pelo grande amor que nutria por seu divino Mestre, horrorizou-se ao ouvir os males aos quais sua sagrada pessoa estava prestes a ser exposta, e, transportado pelo afeto que um filho terno tem por seu pai, o afastou e come\u00e7ou a persuadi-lo a ir para longe de Jerusal\u00e9m para evitar aqueles males e concluiu: \u201cLonge de ti, Senhor, esses males.\u201d Jesus o repreendeu por seu afeto excessivamente sens\u00edvel, dizendo-lhe: \u201cRetira-te de mim, advers\u00e1rio; este teu falar me d\u00e1 esc\u00e2ndalo: tu ainda n\u00e3o sabes saborear as coisas de Deus, mas apenas as coisas humanas.\u201d Diz Santo Agostinho: \u201cEis aquele mesmo Pedro que pouco antes o havia confessado como Filho de Deus, aqui teme que ele morra como filho do homem.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No ato em que o Redentor manifestou os maus-tratos que deveria sofrer pelas m\u00e3os dos judeus, prometeu que alguns dos Ap\u00f3stolos, antes que ele morresse, teriam um vislumbre de sua gl\u00f3ria, e isso para confirm\u00e1-los na f\u00e9 e para que n\u00e3o se deixassem abater quando o vissem exposto \u00e0s humilha\u00e7\u00f5es da paix\u00e3o. Portanto, alguns dias depois, Jesus escolheu tr\u00eas Ap\u00f3stolos: Pedro, Tiago e Jo\u00e3o, e os levou a um monte chamado comumente Tabor. Na presen\u00e7a desses tr\u00eas disc\u00edpulos, Ele se transfigurou, ou seja, deixou transparecer um raio de sua divindade ao redor de sua sacrossanta pessoa. No mesmo momento, uma luz resplandecente o cercou e seu rosto tornou-se semelhante ao brilho do sol, e suas vestes brancas como a neve. Pedro, ao chegar ao monte, talvez cansado da viagem, havia se colocado a dormir com os outros dois; mas todos naquele momento, despertando, viram a gl\u00f3ria de seu Divino Mestre. Ao mesmo tempo, tamb\u00e9m apareceram Mois\u00e9s e Elias. Ao ver o Salvador resplandecente, ao aparecimento daqueles dois personagens e daquele esplendor incomum, Pedro, at\u00f4nito, queria falar e n\u00e3o sabia o que dizer; e quase fora de si, considerando como nada toda grandeza humana em compara\u00e7\u00e3o com aquele vislumbre do para\u00edso, sentiu arder de desejo de permanecer sempre ali junto com seu Mestre. Ent\u00e3o, voltando-se para Jesus, disse: \u201c\u00d3 Senhor, como \u00e9 bom estarmos aqui: se assim te parece, fa\u00e7amos aqui tr\u00eas tendas, uma para ti, uma para Mois\u00e9s e outra para Elias.\u201d Pedro, como nos atesta o Evangelho, estava fora de si e falava sem saber o que dizia. Era um transporte de amor por seu Mestre e um vivo desejo de felicidade. Ele ainda falava quando, desaparecidos Mois\u00e9s e Elias, sobreveio uma nuvem maravilhosa que envolveu os tr\u00eas Ap\u00f3stolos. Naquele momento, do meio daquela nuvem, foi ouvida uma voz que dizia: \u201cEste \u00e9 o meu Filho amado, em quem tenho prazer, escutai-o.\u201d Ent\u00e3o os tr\u00eas Ap\u00f3stolos, cada vez mais aterrorizados, ca\u00edram por terra como mortos; mas o Redentor, aproximando-se, tocou-os com a m\u00e3o e, encorajando-os, levantou-os. Ao levantarem os olhos, n\u00e3o viram mais nem Mois\u00e9s nem Elias; havia apenas Jesus em seu estado natural. Jesus ordenou-lhes que n\u00e3o manifestassem a ningu\u00e9m aquela vis\u00e3o, sen\u00e3o ap\u00f3s sua morte e ressurrei\u00e7\u00e3o<a href=\"#_ftn8\" id=\"_ftnref8\">[8]<\/a>. Ap\u00f3s tal fato, aqueles tr\u00eas disc\u00edpulos cresceram desmesuradamente em amor por Jesus. S\u00e3o Jo\u00e3o Damasceno explica por que Jesus preferiu escolher esses tr\u00eas Ap\u00f3stolos, e diz que Pedro, tendo sido o primeiro a dar testemunho da divindade do Salvador, merecia ser tamb\u00e9m o primeiro a poder de forma sens\u00edvel contemplar sua humanidade glorificada; Tiago tamb\u00e9m teve tal privil\u00e9gio porque deveria ser o primeiro a seguir seu Mestre com o mart\u00edrio; S\u00e3o Jo\u00e3o tinha o m\u00e9rito virginal que o fez digno dessa honra<a href=\"#_ftn9\" id=\"_ftnref9\">[9]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Igreja cat\u00f3lica celebra o vener\u00e1vel acontecimento da transfigura\u00e7\u00e3o do Salvador no monte Tabor no dia seis de agosto.<br><br><a id=\"_Toc191158556\">CAP\u00cdTULO VI. Jesus, na presen\u00e7a de Pedro, ressuscita a filha de Jairo. \u2014 Paga o tributo por Pedro. \u2014 Ensina seus disc\u00edpulos na humildade. <em>Ano 32 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entretanto, aproximava-se o tempo em que a f\u00e9 de Pedro deveria ser posta \u00e0 prova. Por isso, o divino Mestre, para inflam\u00e1-lo cada vez mais de amor por ele, frequentemente lhe dava novos sinais de afeto e bondade. Tendo Jesus chegado a uma parte da Palestina chamada terra dos Gerasenos, apresentou-se a ele um chefe da sinagoga chamado Jairo, pedindo-lhe que quisesse devolver a vida \u00e0 sua filha \u00fanica de 12 anos, que havia morrido h\u00e1 pouco. Jesus quis atend\u00ea-lo; mas, ao chegar \u00e0 casa dele, proibiu a todos de entrar, e apenas levou consigo Pedro, Tiago e Jo\u00e3o, para que fossem testemunhas daquele milagre.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No dia seguinte, Jesus, afastando-se um pouco dos outros disc\u00edpulos, entrou com Pedro na cidade de Cafarnaum para ir \u00e0 casa dele. \u00c0 porta da cidade, os cobradores de impostos, ou seja, aqueles que eram designados pelo governo para a arrecada\u00e7\u00e3o de tributos e impostos, puxaram Pedro de lado e lhe disseram: \u201cO teu Mestre paga o tributo?\u201d \u201cCertamente que sim,\u201d respondeu Pedro. Tendo dito isso, entrou em casa, onde o Senhor o havia precedido. Ao v\u00ea-lo, o Salvador, a quem tudo era manifesto, chamou-o e disse: \u201cDize-me, Pedro, quem s\u00e3o aqueles que pagam o tributo? S\u00e3o os filhos do rei, ou os estranhos da fam\u00edlia real?\u201d Pedro respondeu: \u201cS\u00e3o os estranhos.\u201d \u201cPortanto,\u201d continuou Jesus, \u201cos filhos do rei est\u00e3o isentos de todo tributo.\u201d O que queria dizer: \u201cPortanto, eu que sou, como tu mesmo declaraste, o Filho de Deus vivo, n\u00e3o sou obrigado a pagar nada aos pr\u00edncipes da terra; no entanto, essa boa gente n\u00e3o me conhece como tu, e poderia se escandalizar; por isso, pretendo pagar o tributo. Vai ao mar, lan\u00e7a a rede, e na boca do primeiro peixe que pegares encontrar\u00e1s a moeda para pagar o tributo por mim e por ti.\u201d O Ap\u00f3stolo executou o que lhe foi ordenado, e ap\u00f3s algum intervalo de tempo voltou cheio de espanto com a moeda indicada pelo Salvador; e o tributo foi pago.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os Santos Padres admiraram duas coisas neste fato: a humildade e mansid\u00e3o de Jesus, que se submete \u00e0s leis dos homens, e a honra que se dignou fazer ao Ap\u00f3stolo Pedro, igualando-o a si mesmo e mostrando-o abertamente como seu Vig\u00e1rio.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os outros Ap\u00f3stolos, ao saberem da prefer\u00eancia dada a Pedro, sendo ainda muito imperfeitos na virtude, sentiram inveja; por isso, iam entre si discutindo quem entre eles era o maior. Jesus, que pouco a pouco queria corrigi-los de seus defeitos, quando chegaram \u00e0 sua presen\u00e7a, fez-lhes conhecer como as grandezas do c\u00e9u s\u00e3o bem diferentes daquelas da terra, e que aquele que quer ser o primeiro no C\u00e9u conv\u00e9m que se fa\u00e7a o \u00faltimo na terra. Disse-lhes ent\u00e3o: \u201cQuem \u00e9 o maior? Quem \u00e9 o primeiro em uma fam\u00edlia? Talvez aquele que est\u00e1 sentado, ou aquele que serve \u00e0 mesa? Certamente quem est\u00e1 \u00e0 mesa. Agora, o que vedes em mim? Que personagem eu figurava? Certamente de um pobre que serve \u00e0 mesa.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este aviso deveria principalmente valer para Pedro, que no mundo deveria receber grandes honras por sua dignidade, e, no entanto, conservar-se na humildade e se nomear servo dos servos do Senhor, como costumam se chamar os Papas seus sucessores.<br><br><a id=\"_Toc191158557\">CAP\u00cdTULO VII. Pedro fala com Jesus sobre o perd\u00e3o das inj\u00farias e o desapego das coisas terrenas. \u2014 Recusa deixar-se lavar os p\u00e9s. \u2014 Sua amizade com S\u00e3o Jo\u00e3o. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um dia, o divino Salvador come\u00e7ou a ensinar os Ap\u00f3stolos sobre o perd\u00e3o das ofensas, e tendo dito que se deveria suportar qualquer ultraje e perdoar qualquer inj\u00faria, Pedro ficou cheio de espanto; pois ele estava prevenido, como todos os judeus, em favor das tradi\u00e7\u00f5es judaicas, que permitiam \u00e0 pessoa ofendida infligir uma pena aos ofensores, chamada a pena do tali\u00e3o. Voltou-se, portanto, para Jesus e disse: \u201cMestre, se o inimigo nos ofender sete vezes e sete vezes vier me pedir perd\u00e3o, devo perdo\u00e1-lo sete vezes?\u201d Jesus, que veio para mitigar os rigores da antiga lei com a santidade e pureza do Evangelho, respondeu a Pedro que \u201cn\u00e3o somente deveria perdoar sete vezes, mas setenta vezes sete,\u201d express\u00e3o que significa que se deve perdoar sempre. Neste fato os Santos Padres reconhecem primeiramente a obriga\u00e7\u00e3o que cada crist\u00e3o tem de perdoar ao pr\u00f3ximo toda afronta, em todo tempo e em todo lugar. Em segundo lugar, reconhecem a faculdade dada por Jesus a S\u00e3o Pedro e a todos os sagrados ministros de perdoar os pecados dos homens, qualquer que seja a gravidade e o n\u00famero, desde que estejam arrependidos e prometam sincera emenda.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em outro dia, Jesus ensinava o povo, falando da grande recompensa que receberiam aqueles que desprezassem o mundo e fizessem bom uso das riquezas, desapegando seus cora\u00e7\u00f5es dos bens da terra. Pedro, que ainda n\u00e3o havia recebido as luzes do Esp\u00edrito Santo e que mais do que os outros precisava ser instru\u00eddo, com sua habitual franqueza se dirigiu a Jesus e lhe disse: \u201cMestre, n\u00f3s abandonamos tudo e te seguimos: fizemos o que ordenaste; qual ser\u00e1, portanto, o pr\u00eamio que nos dar\u00e1s?\u201d O Salvador agradou-se da pergunta de Pedro e, enquanto elogiou o desapego dos Ap\u00f3stolos de todo Bem terreno, assegurou que a eles estava reservado um pr\u00eamio particular, porque, deixando seus bens, o haviam seguido. Disse: \u201cV\u00f3s que me seguistes, sentareis em doze tronos majestosos e, companheiros na minha gl\u00f3ria, julgareis comigo as doze tribos de Israel e com elas toda a humanidade.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o muito depois, Jesus foi ao templo de Jerusal\u00e9m e come\u00e7ou a conversar com Pedro sobre a estrutura daquele grandioso edif\u00edcio e sobre a preciosidade das pedras que o adornavam. O divino Salvador ent\u00e3o aproveitou a ocasi\u00e3o para predizer sua total ru\u00edna, dizendo: \u201cDeste magn\u00edfico templo n\u00e3o ficar\u00e1 pedra sobre pedra.\u201d Ent\u00e3o Jesus, saindo da cidade e passando perto de uma figueira, que havia sido por ele amaldi\u00e7oada, Pedro, maravilhado, fez notar ao divino Mestre como aquela planta j\u00e1 havia ficado totalmente seca. Era uma prova da veracidade das promessas do Salvador. Assim, Jesus, para encorajar os Ap\u00f3stolos a terem f\u00e9, respondeu que em virtude da f\u00e9 obteriam tudo o que pedissem.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, a virtude que Cristo queria profundamente enraizada no cora\u00e7\u00e3o dos Ap\u00f3stolos e especialmente de Pedro, era a humildade, e disso em muitas ocasi\u00f5es deu-lhes luminosos exemplos, sobretudo na v\u00e9spera de sua paix\u00e3o. Era aquele o primeiro dia da P\u00e1scoa dos judeus, que deveria durar sete dias e que costumava ser chamada dos \u00e1zimos. Jesus enviou Pedro e Jo\u00e3o a Jerusal\u00e9m, dizendo: \u201cIde e preparai as coisas necess\u00e1rias para a P\u00e1scoa.\u201d Eles disseram: \u201cOnde quereis que as preparemos?\u201d Jesus respondeu: \u201cEntrando na cidade, encontrareis um homem que leva um c\u00e2ntaro de \u00e1gua; ide com ele, e ele vos mostrar\u00e1 um grande cen\u00e1culo arrumado, e ali preparai o que for necess\u00e1rio para esta necessidade.\u201d Assim fizeram. Chegada a noite, que era a \u00faltima da vida mortal do Salvador, querendo Ele instituir o Sacramento da Eucaristia, a precedeu com um ato que demonstra a pureza de alma com que cada crist\u00e3o deve se aproximar deste sacramento do divino amor, e ao mesmo tempo serve para conter a soberba dos homens at\u00e9 o fim do mundo. Enquanto estava \u00e0 mesa com seus disc\u00edpulos, perto do fim da ceia, o Senhor levantou-se da mesa, tomou uma toalha, cingiu-a \u00e0 cintura e derramou \u00e1gua em uma bacia, mostrando que queria lavar os p\u00e9s dos Ap\u00f3stolos, que sentados e maravilhados estavam olhando o que seu Mestre queria fazer.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jesus veio, portanto, com a \u00e1gua a Pedro e, ajoelhando-se diante dele, pede-lhe o p\u00e9 para lavar. O bom Pedro, horrorizado ao ver o Filho de Deus naquele ato de pobre servo, lembrando-se ainda que pouco antes o havia visto resplandecente de luz, cheio de vergonha e quase chorando, disse: \u201cQue fazes, Mestre, que fazes? Tu lavares-me os p\u00e9s? Nunca! Eu nunca poderei permitir.\u201d O Salvador lhe disse: \u201cO que eu fa\u00e7o n\u00e3o compreendes agora, mas compreender\u00e1s depois: por isso, cuida bem de n\u00e3o me contradizer; se eu n\u00e3o te lavar os p\u00e9s, n\u00e3o ter\u00e1s parte comigo,\u201d ou seja, tu estar\u00e1s privado de todo o meu bem e ser\u00e1s deserdado. A estas palavras, o bom Pedro ficou terrivelmente perturbado; de um lado, do\u00eda-lhe ter que ser separado de seu Mestre, n\u00e3o queria desobedecer-lhe nem entristec\u00ea-lo; por outro lado, parecia-lhe que n\u00e3o poderia permitir-lhe um servi\u00e7o t\u00e3o humilde. No entanto, quando compreendeu que o Salvador queria obedi\u00eancia, disse: \u201c\u00d3 Senhor, j\u00e1 que queres assim, n\u00e3o devo nem quero resistir \u00e0 tua vontade; faze de mim tudo o que melhor te parecer; se n\u00e3o basta lavar-me os p\u00e9s, lava-me tamb\u00e9m as m\u00e3os e a cabe\u00e7a.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Salvador, ap\u00f3s ter cumprido aquele ato de profunda humildade, voltou-se para seus Ap\u00f3stolos e disse-lhes: \u201cVistes o que fiz? Se eu, que sou vosso Mestre e Senhor, vos lavei os p\u00e9s, v\u00f3s deveis fazer o mesmo entre v\u00f3s.\u201d Estas palavras significam que um seguidor de Jesus Cristo nunca deve recusar-se a qualquer obra de caridade, mesmo que humilde, sempre que com ela se promova o bem do pr\u00f3ximo e a gl\u00f3ria de Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Durante esta ceia, ocorreu um fato que diz respeito de maneira particular a S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Jo\u00e3o. J\u00e1 se p\u00f4de observar como o divino Redentor tinha especial afeto por esses dois Ap\u00f3stolos; a um pela sublime dignidade a que estava destinado, ao outro pela singular candura dos costumes. Eles, por sua vez, amavam seu Salvador com o mais intenso amor, e estavam unidos entre si pelos la\u00e7os de uma amizade especial\u00edssima, da qual o mesmo Redentor mostrou agrado, porque fundada na virtude.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto, portanto, Jesus estava \u00e0 mesa com seus Ap\u00f3stolos, no meio da ceia previu que um deles o trairia. Ao ouvir isso, todos se espantaram, e cada um temendo por si, come\u00e7aram a olhar uns para os outros, dizendo: \u201cSou eu, por acaso?\u201d Pedro, sendo mais fervoroso no amor por seu Mestre, desejava saber quem era aquele traidor; queria interrogar Jesus, mas faz\u00ea-lo em segredo, para que ningu\u00e9m dos presentes percebesse. Ent\u00e3o, sem proferir palavra, fez um sinal a Jo\u00e3o para que fosse ele a fazer aquela pergunta. Este dileto ap\u00f3stolo havia tomado lugar perto de Jesus, e sua posi\u00e7\u00e3o era tal que apoiava a cabe\u00e7a sobre o peito dele, enquanto a cabe\u00e7a de Pedro apoiava sobre a de Jo\u00e3o. Jo\u00e3o satisfez o desejo de seu amigo com tanta discri\u00e7\u00e3o que nenhum dos Ap\u00f3stolos p\u00f4de entender nem o sinal de Pedro, nem a interroga\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o, nem a resposta de Cristo; pois ningu\u00e9m, naquele momento, soube que o traidor era Judas Iscariotes, exceto os dois ap\u00f3stolos privilegiados.<br><br><a id=\"_Toc191158558\">CAP\u00cdTULO VIII. Jesus prediz a nega\u00e7\u00e3o de Pedro e lhe assegura que sua f\u00e9 n\u00e3o falhar\u00e1. \u2014 Pedro o segue no jardim de Gets\u00eamani. \u2014 Corta a orelha de Malco. \u2014 Sua queda, seu arrependimento. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Estava se aproximando o tempo da paix\u00e3o do Salvador, e a f\u00e9 dos Ap\u00f3stolos deveria ser posta \u00e0 prova. Ap\u00f3s a \u00faltima ceia, quando Jesus estava prestes a sair do cen\u00e1culo, dirigiu-se aos seus Ap\u00f3stolos e disse: \u201cEsta noite \u00e9 muito dolorosa para mim e de grande perigo para todos voc\u00eas: acontecer\u00e3o comigo tais coisas que voc\u00eas ficar\u00e3o escandalizados; e n\u00e3o parecer\u00e1 mais verdadeiro aquilo que voc\u00eas conheceram e que agora acreditam em mim. Portanto, eu lhes digo que nesta noite todos me voltar\u00e3o as costas.\u201d Pedro, seguindo seu habitual ardor, foi o primeiro a responder: \u201cComo? N\u00f3s todos ir\u00e3o voltar-lhe as costas? Mesmo que todos esses sejam t\u00e3o fracos a ponto de abandon\u00e1-lo, eu certamente nunca o farei; pelo contr\u00e1rio, estou pronto para morrer contigo.\u201d \u201cAh, Sim\u00e3o, Sim\u00e3o,\u201d respondeu Jesus Cristo. \u201cSatan\u00e1s armou contra v\u00f3s uma terr\u00edvel tenta\u00e7\u00e3o, e vos sacudir\u00e1 como se faz com o trigo na peneira; e tu mesmo nesta noite, antes que o galo cante duas vezes, me negar\u00e1s tr\u00eas vezes.\u201d Pedro falava guiado por um caloroso sentimento de afeto e n\u00e3o considerava que sem a ajuda divina o homem cai em deplor\u00e1veis excessos; por isso ele renovou as mesmas promessas dizendo: \u201cN\u00e3o, certamente; pode ser que todos te neguem, mas eu nunca!\u201d Jesus, que conhecia bem essa presun\u00e7\u00e3o de Pedro, vinda de um ardor inconsiderado e de uma grande ternura por ele, teve compaix\u00e3o e lhe disse: \u201cCertamente cair\u00e1s, Pedro, como te disse; no entanto, n\u00e3o percas a coragem. Eu orei por ti para que a tua f\u00e9 n\u00e3o falhe; ent\u00e3o, quando estiveres arrependido de tua queda, confirma teus irm\u00e3os: <em>Rogavi pro te, ut non deficiat fides tua, et tu aliquando conversus, confirma fratres tuos<\/em>.\u201d Com essas palavras, o divino Salvador prometeu uma assist\u00eancia particular ao Chefe de sua Igreja, para que sua f\u00e9 nunca falhasse, ou seja, que como Mestre universal e nas coisas que dizem respeito \u00e0 religi\u00e3o e \u00e0 moral, ensinou e sempre ensinar\u00e1 a verdade, embora na vida privada ele possa cair em culpa, como de fato aconteceu a S\u00e3o Pedro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto isso, Jesus Cristo, ap\u00f3s aquela memor\u00e1vel Ceia Eucar\u00edstica, j\u00e1 avan\u00e7ada a noite, saiu do cen\u00e1culo com os onze Ap\u00f3stolos e dirigiu-se ao monte das Oliveiras. Chegando l\u00e1, levou consigo Pedro, Tiago e Jo\u00e3o, e retirou-se para uma parte daquele monte chamada Gets\u00eamani, onde costumava ir para orar. Jesus afastou-se ainda dos tr\u00eas Ap\u00f3stolos \u00e0 dist\u00e2ncia de um tiro de pedra e come\u00e7ou a orar. Antes, por\u00e9m, no ato de se separar deles, avisou-os dizendo: \u201cVigiai e orai, porque a tenta\u00e7\u00e3o est\u00e1 pr\u00f3xima.\u201d Mas Pedro e seus companheiros, tanto pela hora tardia quanto pelo cansa\u00e7o, sentaram-se para descansar e adormeceram.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esse foi um novo erro de Pedro, que deveria seguir o preceito do Salvador, vigiando e orando. Nesse \u00ednterim, chegaram os guardas ao jardim para capturar Jesus e lev\u00e1-lo \u00e0 pris\u00e3o. Pedro, vendo-os de relance, correu ao seu encontro para afast\u00e1-los; e vendo que eles resistiam, p\u00f4s a m\u00e3o na espada que tinha consigo e, desferindo um golpe ao acaso, cortou a orelha de um servo do sumo sacerdote Caif\u00e1s, chamado Malco.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o eram essas as provas de fidelidade que Jesus esperava de Pedro, nem nunca lhe havia ensinado a opor for\u00e7a a for\u00e7a. Foi isso um efeito de seu vivo amor ao divino Salvador, mas fora de prop\u00f3sito; por isso Jesus disse a Pedro: \u201cGuarda tua espada na bainha, porque quem fere com a espada, pela espada perecer\u00e1.\u201d Ent\u00e3o, colocando em pr\u00e1tica aquilo que havia ensinado tantas vezes em suas prega\u00e7\u00f5es, ou seja, fazer o bem a quem nos faz mal, pegou a orelha cortada e, com suma bondade, a recolocou com suas santas m\u00e3os no lugar do corte, de modo que ficou instantaneamente curada.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro e os outros Ap\u00f3stolos, percebendo que toda resist\u00eancia era in\u00fatil e que, na verdade, correriam perigo para si mesmos, deixaram de lado as promessas feitas pouco antes ao Mestre, deram-se \u00e0 fuga e abandonaram Jesus, deixando-o sozinho nas m\u00e3os de seus algozes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro, por outro lado, envergonhando-se de sua covardia, confuso e irresoluto, n\u00e3o sabia para onde ir nem onde ficar; por isso, de longe, seguiu Jesus at\u00e9 o p\u00e1tio do pal\u00e1cio de Caif\u00e1s, chefe de todos os sacerdotes judeus; e, por recomenda\u00e7\u00e3o de um conhecido, conseguiu tamb\u00e9m entrar. Jesus estava l\u00e1 dentro sob o poder dos Escribas e dos Fariseus, que o haviam acusado naquele tribunal e procuravam faz\u00ea-lo condenar com alguma apar\u00eancia de justi\u00e7a.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entrando apenas naquele lugar, nosso Ap\u00f3stolo encontrou uma turba de guardas que estavam se aquecendo ao fogo ali aceso, e se p\u00f4s tamb\u00e9m com eles. \u00c0 luz das chamas, a serva que por gra\u00e7a o deixara entrar, vendo-o pensativo e melanc\u00f3lico, come\u00e7ou a suspeitar que ele era um seguidor de Jesus. \u201cEi,\u201d disse-lhe, \u201cpareces um companheiro do Nazareno, n\u00e3o \u00e9 verdade?\u201d O Ap\u00f3stolo, ao se ver descoberto diante de tanta gente, ficou at\u00f4nito; e temendo pela pris\u00e3o, talvez at\u00e9 pela morte, perdido todo o \u00e2nimo, respondeu: \u201cMulher, tu te enganas; eu n\u00e3o sou um deles; nem conhe\u00e7o esse Jesus de quem falas.\u201d Dito isso, o galo cantou pela primeira vez; e Pedro n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois de ter permanecido algum momento na companhia daqueles guardas, dirigiu-se ao vest\u00edbulo. Enquanto retornava perto do fogo, outra serva, apontando para Pedro, tamb\u00e9m come\u00e7ou a dizer aos que estavam ao redor: \u201cEste tamb\u00e9m estava com Jesus Nazareno.\u201d O pobre disc\u00edpulo, a essas palavras cada vez mais apavorado, quase fora de si, respondeu que n\u00e3o o conhecia nem o havia visto. Pedro falava assim, mas a consci\u00eancia o reprimia e experimentava os mais agudos remorsos; por isso, todo pensativo, com o olhar turvo e passo incerto, entrava e sa\u00eda sem saber o que fazer. Mas um abismo leva a outro abismo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s alguns instantes, um parente daquele Malco a quem Pedro havia cortado a orelha o viu e, fixando-o bem no rosto, disse: \u201cCertamente este \u00e9 um dos companheiros do Galileu! Tu \u00e9s certamente, teu sotaque te trai. E ent\u00e3o, n\u00e3o te vi eu no jardim com ele, quando cortaste a orelha de Malco?\u201d Pedro, vendo-se em t\u00e3o m\u00e1 situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o soube encontrar outro escape sen\u00e3o jurar e perjurar que n\u00e3o o conhecia. N\u00e3o havia ainda proferido bem a \u00faltima s\u00edlaba, quando o galo cantou pela segunda vez.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando o galo cantou pela primeira vez, Pedro n\u00e3o prestou aten\u00e7\u00e3o; mas nesta segunda vez, presta aten\u00e7\u00e3o ao n\u00famero de suas nega\u00e7\u00f5es, recorda a predi\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo e a v\u00ea precisamente cumprida. A essa lembran\u00e7a, ele se perturba, sente o cora\u00e7\u00e3o todo amargurado e, voltando o olhar para o bom Jesus, seu olhar se encontra com o dele. Este olhar de Cristo foi um ato mudo, mas ao mesmo tempo um golpe de gra\u00e7a, que, como uma flecha agud\u00edssima, foi feri-lo no cora\u00e7\u00e3o, n\u00e3o para lhe dar a morte, mas para restituir-lhe a vida<a href=\"#_ftn10\" id=\"_ftnref10\">[10]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aquele gesto de bondade e de miseric\u00f3rdia fez com que Pedro, sacudido como por um profundo sono, sentisse o cora\u00e7\u00e3o se encher e fosse levado \u00e0s l\u00e1grimas pelo dor. Para dar livre curso ao pranto, saiu daquele lugar maldito e foi chorar seu erro, invocando o perd\u00e3o da divina miseric\u00f3rdia. O Evangelho nos diz apenas que: <em>et egressus Petrus flevit amare<\/em>: Pedro saiu e chorou amargamente. Deste erro, o santo Ap\u00f3stolo carregou remorso toda a vida, e pode-se dizer que desde aquela hora at\u00e9 a morte n\u00e3o fez outra coisa sen\u00e3o chorar seu pecado, fazendo uma dura penit\u00eancia. Diz-se que ele sempre tinha ao lado um pano para enxugar as l\u00e1grimas; e que toda vez que ouvia o galo cantar, estremecia e tremia, relembrando o doloroso momento de sua queda. Ali\u00e1s, as l\u00e1grimas que derramava continuamente lhe fizeram dois sulcos nas faces. Bem-aventurado Pedro que t\u00e3o cedo abandonou a culpa e fez t\u00e3o longa e dura penit\u00eancia! Bem-aventurado tamb\u00e9m aquele crist\u00e3o que, ap\u00f3s ter a desgra\u00e7a de seguir Pedro na culpa, o segue tamb\u00e9m no arrependimento.<br><br><a id=\"_Toc191158559\">CAP\u00cdTULO IX. Pedro no sepulcro do Salvador. \u2014 Jesus lhe aparece. \u2014 \u00c0 beira do lago de Tiber\u00edades d\u00e1 tr\u00eas distintos sinais de amor para com Jesus que o constitui efetivamente chefe e pastor supremo da Igreja.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto o divino Salvador era arrastado nos v\u00e1rios Tribunais e depois conduzido ao Calv\u00e1rio para morrer na Cruz, Pedro n\u00e3o o perdeu de vista, porque desejava ver onde iria acabar aquele lutuoso espet\u00e1culo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E embora o Evangelho n\u00e3o o diga, h\u00e1 raz\u00f5es para crer que ele se encontrou na companhia de seu amigo Jo\u00e3o aos p\u00e9s da cruz. Mas ap\u00f3s a morte do Salvador, o bom Pedro, todo humilhado pela maneira indigna com que havia correspondido ao grande amor de Jesus, pensava continuamente nele, oprimido pela mais amarga dor e arrependimento.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contudo, essa sua humilha\u00e7\u00e3o era precisamente a que atra\u00eda sobre Pedro a benignidade de Jesus. Ap\u00f3s sua ressurrei\u00e7\u00e3o, Jesus apareceu primeiramente a Maria Madalena e a outras piedosas mulheres, porque elas sozinhas foram ao sepulcro para embalsam\u00e1-lo. Depois de se manifestar a elas, acrescentou: \u201cIde imediatamente, relatai a meus irm\u00e3os e particularmente a Pedro que me viram vivo.\u201d Pedro, que j\u00e1 se acreditava talvez esquecido pelo Mestre, ao ouvir de Jesus anunciar a ele nomeadamente a not\u00edcia da ressurrei\u00e7\u00e3o, desatou numa torrente de l\u00e1grimas e n\u00e3o p\u00f4de mais conter a alegria no cora\u00e7\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Transportado pela alegria e pelo desejo de ver o Mestre ressuscitado, ele, na companhia do amigo Jo\u00e3o, come\u00e7ou a correr rapidamente pela montanha do Calv\u00e1rio. O \u00e2nimo deles, por outro lado, estava ent\u00e3o agitado por dois sentimentos contr\u00e1rios: pela esperan\u00e7a de ver Jesus ressuscitado e pelo temor de que o relato feito a eles pelas piedosas mulheres n\u00e3o fosse sen\u00e3o efeito de sua fantasia, pois antes n\u00e3o compreendiam como ele deveria realmente ressuscitar. Corriam, entretanto, ambos juntos; mas Jo\u00e3o, sendo mais jovem e mais \u00e1gil, chegou ao sepulcro antes de Pedro. No entanto, n\u00e3o teve coragem de entrar e, inclinando-se um pouco \u00e0 entrada, viu as faixas em que o corpo de Jesus havia sido envolto. Pouco depois, tamb\u00e9m chegou Pedro, que, fosse pela maior autoridade que sabia ter, fosse porque era de um car\u00e1ter mais resoluto e pronto, sem parar do lado de fora, entrou imediatamente no sepulcro, examinou-o em todas as suas partes, pesquisando e apalpando por toda parte, e n\u00e3o viu outra coisa sen\u00e3o as faixas e o sud\u00e1rio enrolado \u00e0 parte. Seguindo o exemplo de Pedro, entrou tamb\u00e9m Jo\u00e3o, e ambos eram da opini\u00e3o de que o corpo de Jesus havia sido tirado do sepulcro e roubado. Pois, embora desejassem ardentemente que o divino Mestre tivesse ressuscitado, ainda assim n\u00e3o acreditavam nesta doce verdade. Os dois Ap\u00f3stolos, ap\u00f3s terem feito no sepulcro tais minuciosas observa\u00e7\u00f5es, sa\u00edram e retornaram de onde haviam partido. Mas naquele mesmo dia, Jesus quis visitar Pedro pessoalmente para consol\u00e1-lo com sua presen\u00e7a e, o que \u00e9 mais, apareceu precisamente a Pedro antes de todos os outros Ap\u00f3stolos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; V\u00e1rias vezes o divino Salvador se manifestou a seus Ap\u00f3stolos ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o para instru\u00ed-los e confirm\u00e1-los na f\u00e9.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um dia, Pedro, Tiago e Jo\u00e3o com alguns outros disc\u00edpulos, tanto para evitar o \u00f3cio, quanto para ganhar algo para comer, foram pescar no lago de Tiber\u00edades. Subiram todos em um barco, afastaram-no um pouco da costa e lan\u00e7aram suas redes. Trabalharam a noite toda lan\u00e7ando as redes ora para um lado, ora para o outro, mas tudo em v\u00e3o; j\u00e1 clareava o dia e nada haviam pescado. Ent\u00e3o apareceu o Senhor na praia, onde, sem se fazer reconhecer, como se quisesse comprar peixes, disse-lhes: \u201cMo\u00e7os, tendes algo para comer?\u201d \u201c<em>Pueri, numquid pulmentarium habetis?<\/em>\u201d \u201cN\u00e3o,\u201d responderam. \u201cTrabalhamos a noite toda e n\u00e3o pegamos nada.\u201d Jesus acrescentou: \u201cLan\u00e7ai a rede \u00e0 direita do barco e pegareis.\u201d Fossem movidos por um impulso interior, ou foi para seguir o conselho d\u2019Aquele que aos seus olhos parecia um experiente pescador, lan\u00e7aram a rede e pouco depois a encontraram cheia de tantos e t\u00e3o grandes peixes que mal puderam pux\u00e1-la para fora. A essa pesca inesperada, Jo\u00e3o se voltou para aquele que da praia havia dado aquele conselho e, reconhecendo que era Jesus, disse imediatamente a Pedro: \u201c\u00c9 o Senhor.\u201d Pedro, ouvindo essas palavras, transportado pelo habitual fervor, sem mais considera\u00e7\u00e3o se lan\u00e7ou na \u00e1gua e nadou at\u00e9 a margem para ser o primeiro a saudar o Divino Mestre. Enquanto Pedro se detinha familiarmente com Jesus, os outros Ap\u00f3stolos tamb\u00e9m se aproximaram arrastando a rede.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao chegarem, encontraram o fogo aceso pela pr\u00f3pria m\u00e3o do Divino Salvador e p\u00e3o preparado com peixe que estava assando. Os Ap\u00f3stolos, movidos pelo desejo de ver o Senhor, deixaram todos os peixes no barco, de modo que o Salvador lhes disse: \u201cTragam aqui aqueles peixes que voc\u00eas pegaram agora.\u201d Pedro, que em tudo era o mais pronto e obediente, ao ouvir aquela ordem, subiu imediatamente no barco e sozinho puxou para a terra a rede cheia de 153 grandes peixes. O texto sagrado nos avisa que foi um milagre o fato de a rede n\u00e3o se ter rasgado, embora houvesse tantos peixes e de tal tamanho. Os santos Padres reconhecem neste fato o poder divino do chefe da Igreja, que, assistido de modo particular pelo Esp\u00edrito Santo, guia a m\u00edstica nave cheia de almas a serem conduzidas aos p\u00e9s de Jesus Cristo, que as redimiu e as aguarda no c\u00e9u.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto isso, Jesus havia preparado a refei\u00e7\u00e3o; e convidando os Ap\u00f3stolos a se sentarem na areia, distribuiu a cada um o p\u00e3o e o peixe que havia assado. Terminada a refei\u00e7\u00e3o, Jesus Cristo come\u00e7ou novamente a conversar com S\u00e3o Pedro e a interrog\u00e1-lo na frente dos companheiros da seguinte maneira: \u201cSim\u00e3o, filho de Jo\u00e3o, tu me amas mais do que estes?\u201d \u201cSim,\u201d respondeu Pedro, \u201ctu sabes que eu te amo.\u201d Jesus lhe disse: \u201cApascenta os meus cordeiros.\u201d Ent\u00e3o lhe perguntou mais uma vez: \u201cSim\u00e3o, filho de Jo\u00e3o, tu me amas?\u201d \u201cSenhor,\u201d replicou Pedro, \u201ctu bem sabes que eu te amo.\u201d Jesus repetiu: \u201cApascenta os meus cordeiros.\u201d O Senhor acrescentou: \u201cSim\u00e3o, filho de Jo\u00e3o, tu me amas?\u201d Pedro, ao ver-se interrogado tr\u00eas vezes sobre o mesmo assunto, ficou profundamente perturbado. Naquele momento, recordou-se das promessas j\u00e1 feitas anteriormente, e que havia violado; e por isso temia que Jesus Cristo visse em seu cora\u00e7\u00e3o um amor muito mais escasso do que aquele que achava ter, e quisesse prever outras nega\u00e7\u00f5es. Portanto, desconfiando de suas pr\u00f3prias for\u00e7as, Pedro com grande humildade respondeu: \u201cSenhor, tu sabes tudo, e por isso sabes que eu te amo.\u201d Essas palavras significavam que Pedro estava seguro naquele momento da sinceridade de seus afetos, mas n\u00e3o tanto em rela\u00e7\u00e3o ao futuro. Jesus, que conhecia seu desejo de am\u00e1-lo e a sinceridade de seus afetos, o confortou dizendo: \u201cApascenta as minhas ovelhas.\u201d Com essas palavras, o Filho de Deus cumpria a promessa feita a S\u00e3o Pedro de constitu\u00ed-lo pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos e pedra fundamental da Igreja. De fato, os cordeiros aqui significam todos os fi\u00e9is crist\u00e3os, espalhados nas v\u00e1rias partes do mundo, que devem estar submetidos ao Chefe da Igreja, assim como fazem os cordeiros ao seu pastor. As ovelhas, por sua vez, significam os bispos e outros ministros sagrados, que d\u00e3o sim \u00e0 pastagem da doutrina de Jesus Cristo aos fi\u00e9is crist\u00e3os, mas sempre de acordo, sempre unidos e submetidos ao supremo pastor da Igreja, que \u00e9 o Papa Romano, o Vig\u00e1rio de Jesus Cristo na terra.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Apoiado nessas palavras de Jesus Cristo, os cat\u00f3licos de todos os tempos sempre acreditaram como verdade de f\u00e9 que S\u00e3o Pedro foi constitu\u00eddo por Jesus Cristo seu Vig\u00e1rio na terra e chefe vis\u00edvel de toda a Igreja, e que recebeu dele a plenitude de autoridade sobre os outros ap\u00f3stolos e sobre todos os fi\u00e9is. Essa autoridade passou aos Papas Romanos, seus sucessores. Isso foi definido como dogma de f\u00e9 no conc\u00edlio de Floren\u00e7a no ano de 1439, com as seguintes palavras: \u201cN\u00f3s definimos que a santa sede Apost\u00f3lica e o Papa Romano \u00e9 o sucessor do pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, o verdadeiro Vig\u00e1rio de Cristo e o chefe de toda a Igreja, o mestre e pai de todos os crist\u00e3os, e que a ele, na pessoa do bem-aventurado Pedro, foi dado por nosso Senhor Jesus Cristo pleno poder de apascentar, reger e governar a Igreja Universal.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Notam ainda os santos Padres que o divino Redentor quis que Pedro dissesse tr\u00eas vezes publicamente que o amava, quase para reparar o esc\u00e2ndalo que havia dado negando-o tr\u00eas vezes.<br><br><a id=\"_Toc191158560\">CAP\u00cdTULO X. Infalibilidade de S\u00e3o Pedro e de seus sucessores<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O divino Salvador deu ao Ap\u00f3stolo Pedro o supremo poder na Igreja, ou seja, o primado de honra e de jurisdi\u00e7\u00e3o, que veremos em breve sendo exercido por ele. Mas, para que, como chefe da Igreja, ele pudesse exercer convenientemente essa suprema autoridade, Jesus Cristo ainda o dotou de uma prerrogativa singular, ou seja, da infalibilidade. Sendo esta uma das verdades mais importantes, creio ser bom acrescentar algo em confirma\u00e7\u00e3o e declara\u00e7\u00e3o da doutrina que em todos os tempos a Igreja cat\u00f3lica professou sobre este dogma.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Antes de tudo, \u00e9 necess\u00e1rio entender o que se entende por infalibilidade. Por ela se entende que o Papa, quando fala <em>ex cathedra<\/em>, ou seja, cumprindo o of\u00edcio de Pastor ou de Mestre de todos os crist\u00e3os, e julga as coisas referentes \u00e0 f\u00e9 ou aos costumes, n\u00e3o pode, pela assist\u00eancia divina, cair em erro; portanto, nem se enganar nem enganar os outros. Note-se, portanto, que a infalibilidade n\u00e3o se estende a todas as a\u00e7\u00f5es, a todas as palavras do Papa; n\u00e3o lhe compete como homem privado, mas apenas como Chefe, Pastor, Mestre da Igreja, e quando define alguma doutrina referente \u00e0 f\u00e9 ou \u00e0 moral e pretende obrigar todos os fi\u00e9is. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se deve confundir a infalibilidade com a impecabilidade; de fato, Jesus Cristo prometeu a Pedro e a seus sucessores a primeira ao instruir os homens, mas n\u00e3o a segunda, na qual n\u00e3o quis privilegi\u00e1-los.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dito isso, afirmamos que uma das verdades mais bem provadas \u00e9 precisamente a da infalibilidade doutrinal, concedida por Deus ao Chefe da Igreja. As palavras de Jesus Cristo n\u00e3o podem falhar, porque s\u00e3o palavras de Deus. Agora, Jesus Cristo disse a Pedro: \u201cTu \u00e9s Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja, e as portas do inferno n\u00e3o poder\u00e3o venc\u00ea-la. Eu te darei as chaves do reino dos C\u00e9us, e tudo o que tiveres ligado na terra ser\u00e1 ligado tamb\u00e9m nos c\u00e9us, e tudo o que tiveres solto na terra ser\u00e1 solto tamb\u00e9m nos c\u00e9us.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Segundo essas palavras, as portas<a href=\"#_ftn11\" id=\"_ftnref11\">[11]<\/a>, ou seja, as pot\u00eancias infernais, entre as quais ocupa o primeiro lugar o erro e a mentira, nunca poder\u00e3o prevalecer nem contra a Pedra, nem contra a Igreja que sobre ela est\u00e1 fundada. Mas se Pedro, como Chefe da Igreja, errasse em coisas de f\u00e9 e de costume, seria como se faltasse o fundamento. Faltando este, cairia o edif\u00edcio, ou seja, a pr\u00f3pria Igreja, e assim o fundamento e a constru\u00e7\u00e3o deveriam ser considerados vencidos e derrubados pelas portas infernais. Agora, ap\u00f3s as palavras acima mencionadas, isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, exceto se se queira blasfemar, afirmando que foram falaciosas as promessas do divino Fundador: coisa horr\u00edvel n\u00e3o s\u00f3 para os cat\u00f3licos, mas para os pr\u00f3prios cism\u00e1ticos e hereges.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, Jesus Cristo assegurou que tudo o que Pedro, como Chefe da Igreja, ligasse ou deligasse, seria sancionado no c\u00e9u. Portanto, assim como no c\u00e9u n\u00e3o pode ser aprovado o erro, deve-se necessariamente admitir que o Chefe da Igreja seja infal\u00edvel em seus julgamentos, em suas decis\u00f5es emanadas na qualidade de Vig\u00e1rio de Jesus Cristo, de modo que ele, como mestre e juiz de todos os fi\u00e9is, n\u00e3o aprove e n\u00e3o condene sen\u00e3o aquilo que pode ser igualmente aprovado ou condenado no c\u00e9u; e isso leva \u00e0 infalibilidade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isto se torna ainda mais manifesto nas palavras que Jesus Cristo dirigiu a Pedro quando lhe ordenou que confirmasse na f\u00e9 os outros Ap\u00f3stolos: \u201cSim\u00e3o, Sim\u00e3o,\u201d disse-lhe, \u201ceis que Satan\u00e1s pediu para vos peneirar como se faz com o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua f\u00e9 n\u00e3o falhe; e tu, quando tiveres voltado, confirma os teus irm\u00e3os.\u201d Jesus Cristo, portanto, ora para que a f\u00e9 do Papa n\u00e3o falhe; agora, \u00e9 imposs\u00edvel que a ora\u00e7\u00e3o do Filho de Deus n\u00e3o seja atendida. Al\u00e9m disso: Jesus ordenou a Pedro que confirmasse na f\u00e9 os outros pastores e a estes que o escutassem; mas se n\u00e3o lhe tivesse comunicado tamb\u00e9m a infalibilidade doutrinal, teria colocado em perigo a possibilidade de engan\u00e1-los e arrast\u00e1-los ao abismo do erro. Pode-se acreditar que Jesus Cristo quisesse deixar a Igreja e seu Chefe em t\u00e3o grande perigo?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Finalmente, o divino Redentor, ap\u00f3s sua Ressurrei\u00e7\u00e3o, estabeleceu Pedro como Pastor supremo de seu rebanho, ou seja, de sua Igreja, confiando-lhe o cuidado dos cordeiros e das ovelhas: \u201cApascenta os meus cordeiros,\u201d disse-lhe, \u201capascenta as minhas ovelhas.\u201d Instrui, ensina uns e outros guiando-os \u00e0s pastagens de vida eterna. Mas se Pedro errasse em mat\u00e9ria de doutrina, ou por ignor\u00e2ncia ou por mal\u00edcia, ent\u00e3o ele seria como um pastor que conduz os cordeiros e as ovelhas a pastagens envenenadas, que em vez de vida lhes daria a morte. Agora, pode-se supor que Jesus Cristo, que para salvar suas ovelhinhas deu tudo de si, n\u00e3o quisesse estabelecer-lhes um pastor semelhante?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, segundo o Evangelho, o Ap\u00f3stolo Pedro teve o dom da infalibilidade:<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; I. Porque \u00e9 Pedra fundamental da Igreja de Jesus Cristo;<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; II. Porque seus julgamentos devem ser confirmados tamb\u00e9m no c\u00e9u;<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; III. Porque Jesus Cristo orou por sua infalibilidade, e sua ora\u00e7\u00e3o n\u00e3o pode falhar;<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; IV. Porque deve confirmar na f\u00e9, apascentar e governar n\u00e3o s\u00f3 os simples fi\u00e9is, mas os pr\u00f3prios pastores.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 \u00fatil agora acrescentar que, juntamente com a autoridade suprema sobre toda a Igreja, o dom da infalibilidade passou de Pedro a seus sucessores, ou seja, aos Pont\u00edfices Romanos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta tamb\u00e9m \u00e9 uma verdade de f\u00e9.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jesus Cristo, como vimos, deu mais amplo poder e dotou do dom da infalibilidade S\u00e3o Pedro, a fim de prover \u00e0 unidade e \u00e0 integridade da f\u00e9 em seus seguidores. \u201cEntre doze, um \u00e9 eleito,\u201d reflete o ex\u00edmio doutor S\u00e3o Jer\u00f4nimo, \u201cpara que, estabelecido um Chefe, seja retirada toda a ocasi\u00e3o de cisma: <em>Inter duodecim unus eligitur, ut, capite constituto, schismatis tolleretur occasio<\/em>.<a href=\"#_ftn12\" id=\"_ftnref12\">[12]<\/a>\u201d \u201cO primado \u00e9 conferido a Pedro,\u201d escreveu S\u00e3o Cipriano, \u201cpara que uma se demonstre a Igreja, e uma a c\u00e1tedra da verdade.<a href=\"#_ftn13\" id=\"_ftnref13\">[13]<\/a>\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dito isso, afirmamos: a necessidade de unidade e de verdade n\u00e3o existia apenas na \u00e9poca dos Ap\u00f3stolos, mas tamb\u00e9m nos s\u00e9culos seguintes; na verdade, essa necessidade aumentou ainda mais com a expans\u00e3o da pr\u00f3pria Igreja e com a aus\u00eancia dos Ap\u00f3stolos, privilegiados por Jesus Cristo com dons extraordin\u00e1rios para a promulga\u00e7\u00e3o do Evangelho. Portanto, segundo a inten\u00e7\u00e3o do divino Salvador, a autoridade e a infalibilidade do primeiro Papa n\u00e3o deveriam cessar com sua morte, mas se transmitir a outro, perpetuando-se assim na Igreja.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Essa transmiss\u00e3o aparece clar\u00edssima, sobretudo nas palavras de Jesus Cristo a Pedro, com as quais o estabelecia como base, fundamento da Igreja. \u00c9 manifesto que o fundamento deve durar tanto quanto o edif\u00edcio; sendo imposs\u00edvel esse sem aquele. Mas o edif\u00edcio, que \u00e9 a Igreja, deve durar at\u00e9 o fim do mundo, tendo prometido o mesmo Jesus estar com sua Igreja at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos: \u201cEis que estou convosco todos os dias, at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o do mundo.\u201d Portanto, at\u00e9 a consuma\u00e7\u00e3o dos s\u00e9culos deve durar o fundamento que \u00e9 Pedro; mas como Pedro morreu, a autoridade e a infalibilidade devem ainda subsistir em algu\u00e9m. Elas, de fato, subsistem em seus sucessores na S\u00e9 de Roma, ou seja, subsistem nos Pont\u00edfices Romanos. Portanto, pode-se dizer que Pedro vive ainda e julga em seus sucessores. Assim, de fato, se expressaram os legados da S\u00e9 Apost\u00f3lica, com o aplauso do Conc\u00edlio Geral de \u00c9feso no ano 431: \u201cQuem at\u00e9 este tempo, e sempre em seus sucessores, vive e exerce o julgamento.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por essa raz\u00e3o, desde os primeiros s\u00e9culos da Igreja, surgindo quest\u00f5es religiosas, recorria-se \u00e0 Igreja de Roma, e suas decis\u00f5es e seus julgamentos eram considerados como regra de f\u00e9. Basta para toda prova as palavras de Santo Irineu, Bispo de Lion, martirizado no ano 202. \u201cPara confundir,\u201d ele escreveu, \u201ctodos aqueles que de qualquer modo, por vaidade, por cegueira ou por mal\u00edcia se re\u00fanem em concili\u00e1bulos, nos bastar\u00e1 indicar a tradi\u00e7\u00e3o e a f\u00e9 que a maior e mais antiga de todas as igrejas, a Igreja conhecida em todo o mundo, a Igreja Romana, fundada e constitu\u00edda pelos glorios\u00edssimos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo, anunciou aos homens e transmitiu at\u00e9 n\u00f3s por meio da sucess\u00e3o de seus bispos. De fato, a esta Igreja, devido ao seu preeminente principado, deve recorrer toda Igreja, ou seja, todos os fi\u00e9is de qualquer parte que sejam.<a href=\"#_ftn14\" id=\"_ftnref14\">[14]<\/a>\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto \u00e0 infalibilidade do Papa, alguns hereges, entre os quais os protestantes e os chamados velhos cat\u00f3licos, a negam dizendo que somente Deus \u00e9 infal\u00edvel.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00f3s n\u00e3o negamos que s\u00f3 Deus \u00e9 infal\u00edvel por natureza; mas dizemos que ele pode conceder o dom da infalibilidade tamb\u00e9m a um homem, assistindo-o de modo que n\u00e3o se deixe enganar. S\u00f3 Deus pode fazer verdadeiros milagres; e, no entanto, sabemos pela pr\u00f3pria Sagrada Escritura que muitos homens os fizeram, e de forma impressionante. Eles os realizaram n\u00e3o por virtude pr\u00f3pria, mas por virtude divina a eles comunicada. Assim, o Papa n\u00e3o \u00e9 infal\u00edvel por sua natureza, mas por virtude de Jesus Cristo que assim quis para o bem da Igreja.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, os protestantes e seus seguidores, que ainda acreditam no Evangelho, n\u00e3o devem fazer tanto alarde porque n\u00f3s cat\u00f3licos consideramos infal\u00edvel um homem, quando ele age como nosso supremo e universal mestre; de fato, eles ainda conosco, sem acreditar que est\u00e3o fazendo injusti\u00e7a a Deus, consideram infal\u00edveis pelo menos quatro, que s\u00e3o os Evangelistas Mateus, Marcos, Lucas e Jo\u00e3o; na verdade, consideram infal\u00edveis todos os escritores sagrados tanto do Novo quanto do Velho Testamento. Agora, se se pode, na verdade se deve, crer na infalibilidade daqueles homens que nos transmitiram por escrito a palavra de Deus, o que pode nos impedir de crer na infalibilidade de outro homem destinado a conserv\u00e1-la intacta e explic\u00e1-la em nome do pr\u00f3prio Deus?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pr\u00f3pria raz\u00e3o nos sugere que era coisa conveniente que Jesus Cristo concedesse o dom da infalibilidade ao seu Vig\u00e1rio, ao Mestre de todos os fi\u00e9is. E mais! Se um pai s\u00e1bio e amoroso tem filhos a serem instru\u00eddos, n\u00e3o \u00e9 verdade que escolhe o mestre mais erudito e mais s\u00e1bio que puder encontrar? N\u00e3o \u00e9 verdade ainda que, se esse pai pudesse dar a esse mestre o dom de nunca enganar o filho, nem por ignor\u00e2ncia nem por mal\u00edcia, ele lhe comunicaria de bom cora\u00e7\u00e3o? Portanto, todos os homens, especialmente os crist\u00e3os, s\u00e3o filhos de Deus; o Papa \u00e9 o grande Mestre que ele estabeleceu. Ora, Deus poderia conferir-lhe o dom de nunca cair em erro ao instru\u00ed-los. Quem, portanto, pode razoavelmente admitir que este \u00f3timo Pai n\u00e3o tenha feito o que far\u00edamos n\u00f3s miser\u00e1veis?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em todos os s\u00e9culos, todos os verdadeiros cat\u00f3licos constantemente acreditaram na infalibilidade do sucessor de Pedro. Mas, nestes \u00faltimos tempos, surgiram alguns hereges para contest\u00e1-la; na verdade, pela falta de uma defini\u00e7\u00e3o expressa, alguns cat\u00f3licos mal informados tamb\u00e9m aproveitaram a oportunidade para coloc\u00e1-la em d\u00favida. Portanto, em 18 de julho de 1870, o Conc\u00edlio Vaticano, composto por mais de 700 Bispos presididos pelo imortal Pio IX, para prevenir os fi\u00e9is de todo erro, definiu solenemente a infalibilidade pontif\u00edcia como dogma de f\u00e9 com estas palavras: \u201cN\u00f3s definimos que o Pont\u00edfice Romano, quando fala ex cathedra, ou seja, cumprindo o of\u00edcio de Pastor e Mestre de todos os crist\u00e3os, e por sua suprema autoridade apost\u00f3lica define alguma doutrina da f\u00e9 e dos costumes a ser mantida por toda a Igreja, devido \u00e0 assist\u00eancia divina a ele prometida na pessoa do Bem-aventurado Pedro, goza da mesma infalibilidade da qual o divino Redentor quis dotar sua Igreja ao definir as doutrinas da f\u00e9 e dos costumes. Portanto, essas defini\u00e7\u00f5es do Pont\u00edfice Romano s\u00e3o por si mesmas, e n\u00e3o pelo consenso da Igreja, irrefut\u00e1veis. Se algu\u00e9m ousar contradizer a esta nossa defini\u00e7\u00e3o, seja excomungado.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s esta defini\u00e7\u00e3o, quem negasse a infalibilidade pontif\u00edcia cometeria grave desobedi\u00eancia \u00e0 Igreja, e se fosse obstinado em seu erro, ele n\u00e3o pertenceria mais \u00e0 Igreja de Jesus Cristo, e n\u00f3s dever\u00edamos evit\u00e1-lo como herege. \u201cQuem n\u00e3o escuta a Igreja,\u201d diz o Evangelho, \u201cseja para ti como um pag\u00e3o e um publicano,\u201d isto \u00e9, seja excomungado.<br><br><a id=\"_Toc191158561\">CAP\u00cdTULO XI. Jesus prediz a S\u00e3o Pedro a morte de cruz. \u2014 Promete assist\u00eancia \u00e0 Igreja at\u00e9 o fim do mundo. \u2014 Retorno dos Ap\u00f3stolos ao cen\u00e1culo. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois que S\u00e3o Pedro compreendeu que as repetidas perguntas do Salvador n\u00e3o eram um press\u00e1gio de queda, mas eram a confirma\u00e7\u00e3o da alta autoridade que lhe havia sido prometida, ele se consolou. E como Jesus sabia que Pedro queria muito glorificar seu divino Mestre, quis predizer-lhe o tipo de supl\u00edcio com o qual terminaria sua vida.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, imediatamente ap\u00f3s as tr\u00eas declara\u00e7\u00f5es de amor que lhe fizera, come\u00e7ou a falar-lhe assim: \u201cEm verdade, em verdade, te digo, quando eras mais jovem, te vestias por ti mesmo e ias aonde querias; mas quando fores velho, outro, isto \u00e9, o carrasco, te cingir\u00e1, ou seja, te amarrar\u00e1, e estender\u00e1s as m\u00e3os, e ele te levar\u00e1 para onde n\u00e3o queres.\u201d Com essas palavras, diz o Evangelho, vinha a significar com qual morte Pedro glorificaria a Deus, isto \u00e9, sendo amarrado a uma cruz e coroado de mart\u00edrio. Pedro, vendo que Jesus lhe dava uma autoridade suprema e a ele somente previa o mart\u00edrio, mostrou-se ansioso para perguntar o que seria de seu amigo Jo\u00e3o e disse: \u201cE deste, o que ser\u00e1?\u201d Ao que Jesus respondeu: \u201cQue te importa a ti este? Se eu quiser que ele permane\u00e7a at\u00e9 a minha vinda, a ti que importa? Tu faze o que te digo e segue-me.\u201d Ent\u00e3o Pedro adorou os decretos do Salvador e n\u00e3o ousou fazer mais perguntas a esse respeito.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jesus Cristo apareceu muitas vezes a S\u00e3o Pedro e aos outros Ap\u00f3stolos; e um dia se manifestou sobre um monte onde estavam presentes mais de 500 disc\u00edpulos. Em outra ocasi\u00e3o, depois de lhes dar a conhecer o supremo e absoluto poder que ele tinha no c\u00e9u e na terra, conferiu a S\u00e3o Pedro e a todos os Ap\u00f3stolos a faculdade de perdoar os pecados, dizendo: \u201cComo o meu Pai me enviou, assim eu vos envio. Recebei o Esp\u00edrito Santo: ser\u00e3o perdoados os pecados a quem os perdoardes, e ser\u00e3o retidos a quem os retiverdes. <em>Quorum remiseritis peccata, remittuntur eis; quorum retinueritis, retenta sunt<\/em>. Ide, pregai o Evangelho a todas as criaturas; ensinai-as e batizai-as em nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo. Quem crer e receber o batismo ser\u00e1 salvo, quem n\u00e3o crer ser\u00e1 condenado. Tenho ainda muitas coisas a vos dizer, que no presente n\u00e3o podeis compreender. Mas o Esp\u00edrito Santo, que enviarei sobre v\u00f3s dentro de poucos dias, vos ensinar\u00e1 todas as coisas. N\u00e3o vos deixeis abater. V\u00f3s sereis levados diante dos tribunais, diante dos magistrados e dos mesmos reis. N\u00e3o vos preocupeis com o que deveis responder; o Esp\u00edrito da verdade, que o Pai celeste vos enviar\u00e1 em meu nome, vos por\u00e1 as palavras na boca e vos sugerir\u00e1 todas as coisas. Tu, por\u00e9m, Pedro, e todos v\u00f3s, meus Ap\u00f3stolos, n\u00e3o penseis que vos deixo \u00f3rf\u00e3os; n\u00e3o, eu estarei convosco todos os dias at\u00e9 o fim dos s\u00e9culos: <em>Et ecce ego vobiscum sum omnibus diebus usque ad consummationem saeculi.<\/em>\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Disse ainda muitas coisas aos seus Ap\u00f3stolos; depois, no quadrag\u00e9simo dia ap\u00f3s sua ressurrei\u00e7\u00e3o, recomendando-lhes que n\u00e3o partissem de Jerusal\u00e9m at\u00e9 a vinda do Esp\u00edrito Santo, os conduziu ao monte das Oliveiras. L\u00e1 os aben\u00e7oou e come\u00e7ou a se elevar. Nesse momento apareceu uma nuvem resplandecente que o cercou e o retirou aos seus olhares.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os Ap\u00f3stolos ainda estavam com os olhos voltados para o c\u00e9u, como quem \u00e9 arrebatado em doce \u00eaxtase, quando dois Anjos em formas humanas, magnificamente vestidos, se aproximaram e disseram: \u201cHomens da Galileia, por que estais aqui olhando para o c\u00e9u? Esse Jesus, que agora se afastou de v\u00f3s e subiu ao c\u00e9u, voltar\u00e1 da mesma maneira como o vistes subir.\u201d Dito isso, desapareceram; e aquela devota comitiva partiu do monte das Oliveiras e retornou a Jerusal\u00e9m para esperar a vinda do Esp\u00edrito Santo, conforme a ordem do divino Salvador.<br><br><a id=\"_Toc191158562\">CAP\u00cdTULO XII. S\u00e3o Pedro substitui Judas. \u2014 Vinda do Esp\u00edrito Santo. \u2014 Milagre das l\u00ednguas. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; At\u00e9 agora consideramos Pedro apenas em sua vida privada; mas em breve o veremos percorrer uma carreira muito mais gloriosa, depois que receber os dons do Esp\u00edrito Santo. Agora observemos como ele come\u00e7ou a exercer a autoridade de Sumo Pont\u00edfice, da qual havia sido investido por Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s a ascens\u00e3o do divino Mestre, S\u00e3o Pedro, os Ap\u00f3stolos e muitos outros disc\u00edpulos se retiraram ao cen\u00e1culo, que era uma habita\u00e7\u00e3o situada na parte mais elevada de Jerusal\u00e9m, chamada monte Si\u00e3o. Aqui, em n\u00famero de cerca de 120 pessoas, com Maria M\u00e3e de Jesus, passavam os dias em ora\u00e7\u00e3o, aguardando a vinda do Esp\u00edrito Santo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Um dia, enquanto estavam envolvidos nas fun\u00e7\u00f5es sagradas, Pedro levantou-se no meio deles e, pedindo sil\u00eancio com a m\u00e3o, disse: \u201cIrm\u00e3os, \u00e9 necess\u00e1rio que se cumpra o que o Esp\u00edrito Santo predisse pela boca do profeta Davi sobre Judas, que foi guia daqueles que prenderam o Divino Mestre. Ele, assim como v\u00f3s, foi eleito para o mesmo minist\u00e9rio; mas prevaricou, e com o pre\u00e7o de suas iniquidades comprou um campo; e ele se enforcou, e se rasgando pelo meio, derramou as v\u00edsceras sobre a terra. O fato se tornou p\u00fablico a todos os habitantes de Jerusal\u00e9m, e aquele campo recebeu o nome de Ac\u00e9ldama, isto \u00e9, campo de sangue. Ora, dele foi escrito no livro dos Salmos: \u2018Que sua morada se torne deserta, e que n\u00e3o haja quem habite nela; e, em lugar dele, outro lhe suceda no episcopado<a href=\"#_ftn15\" id=\"_ftnref15\">[15]<\/a>.\u2019 Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio que entre aqueles que estiveram conosco durante todo o tempo em que Jesus Cristo habitou conosco, come\u00e7ando pelo batismo de Jo\u00e3o at\u00e9 aquele dia em que, partindo de n\u00f3s, subiu ao c\u00e9u, \u00e9 necess\u00e1rio que entre estes se escolha um, que seja conosco testemunha de sua ressurrei\u00e7\u00e3o para a obra a que somos enviados.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c0s palavras de Pedro todos silenciaram, pois todos o consideravam como chefe da Igreja e eleito por Jesus Cristo para fazer suas vezes na terra. Portanto, foram apresentados dois, a saber, Jos\u00e9, chamado tamb\u00e9m Barsab\u00e1s (que tinha por sobrenome Justo), e Matias. Reconhecendo em ambos igual m\u00e9rito e igual virtude, os sagrados eleitores entregaram a escolha a Deus. Prostrados, ent\u00e3o, come\u00e7aram a orar assim: \u201cSenhor, tu que conheces o cora\u00e7\u00e3o de todos, mostra-nos qual dos dois escolheste para ocupar o lugar de Judas, o prevaricador.\u201d Nesse caso, foi julgado bem usar com a ora\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a sorte para conhecer a vontade de Deus. Atualmente a Igreja n\u00e3o mais utiliza esse meio, tendo muitas outras maneiras de reconhecer aqueles que s\u00e3o chamados ao minist\u00e9rio do altar. Lan\u00e7aram, portanto, a sorte e esta caiu sobre Matias, que foi contado com os outros onze Ap\u00f3stolos, e assim preencheu o d\u00e9cimo segundo lugar que havia permanecido vago.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este \u00e9 o primeiro ato de autoridade Pontif\u00edcia que S\u00e3o Pedro exerceu; autoridade n\u00e3o apenas de honra, mas de jurisdi\u00e7\u00e3o, como exerceram em todo tempo os Papas, seus sucessores.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Consideramos em Pedro uma f\u00e9 viva, humildade profunda, obedi\u00eancia pronta, caridade fervente e generosa; mas essas belas qualidades ainda estavam bem longe de coloc\u00e1-lo em condi\u00e7\u00f5es de exercer o alto minist\u00e9rio a que estava destinado. Ele deveria vencer a obstina\u00e7\u00e3o dos Judeus, destruir a idolatria, converter homens entregues a todos os v\u00edcios, e estabelecer em toda a terra a f\u00e9 num Deus Crucificado. O conferimento dessa for\u00e7a, da qual Pedro necessitava para uma t\u00e3o grande empreitada, estava reservado a uma gra\u00e7a especial a ser infundida por meio dos dons do Esp\u00edrito Santo, que deveria descer sobre ele, para iluminar-lhe a mente e inflamar-lhe o cora\u00e7\u00e3o com um prod\u00edgio inaudito.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esse acontecimento miraculoso \u00e9 relatado nos Livros Sagrados da seguinte forma: era o dia de Pentecostes, isto \u00e9, o quinquag\u00e9simo ap\u00f3s a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo, o d\u00e9cimo desde que Pedro estava no cen\u00e1culo em ora\u00e7\u00e3o com os outros disc\u00edpulos, quando de repente, \u00e0 terceira hora, cerca das nove da manh\u00e3, ouviu-se no monte Si\u00e3o um grande estrondo semelhante ao barulho do trov\u00e3o acompanhado de um vento forte. Esse vento investiu na casa onde estavam os disc\u00edpulos, que ficou cheia por todos os lados. Enquanto cada um refletia sobre a causa daquele estrondo, apareceram chamas que, a modo de l\u00ednguas de fogo, iam pousar sobre a cabe\u00e7a de cada um dos presentes. Eram aquelas chamas s\u00edmbolo da coragem e da caridade inflamada com que os Ap\u00f3stolos dariam in\u00edcio \u00e0 prega\u00e7\u00e3o do Evangelho.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse momento, Pedro tornou-se um homem novo; encontrou-se iluminado a tal ponto que conhecia os mais altos mist\u00e9rios, e experimentou em si mesmo uma coragem e uma for\u00e7a tais que as maiores empreitadas lhe pareciam nada.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Naquele dia os Judeus celebravam uma grande festa em Jerusal\u00e9m, e muitos haviam acorrido de v\u00e1rias partes do mundo. Alguns deles falavam latim, outros grego, outros eg\u00edpcio, \u00e1rabe, s\u00edrio, outros ainda persa e assim por diante.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ora, ao ru\u00eddo do vento forte, acorreu ao redor do cen\u00e1culo uma grande multid\u00e3o daquela gente de tantas l\u00ednguas e na\u00e7\u00f5es, para saber o que havia acontecido. Ao ver isso, os Ap\u00f3stolos saem e se aproximam deles para falar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E aqui come\u00e7ou a operar-se um milagre nunca ouvido; de fato, os Ap\u00f3stolos, humanamente rudes, de modo que mal sabiam a l\u00edngua do pa\u00eds, come\u00e7aram a falar das grandezas de Deus nas l\u00ednguas de todos aqueles que haviam acorrido. Um tal fato encheu de grande espanto os ouvintes, que, n\u00e3o sabendo como se explicar, iam dizendo uns aos outros: \u201cO que ser\u00e1 isso?\u201d<br><br><a id=\"_Toc191158563\">CAP\u00cdTULO XIII. Primeira prega\u00e7\u00e3o de Pedro. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto a maior parte admirava a interven\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia divina, n\u00e3o faltaram alguns malignos que, acostumados a desprezar tudo que \u00e9 santo, n\u00e3o sabendo mais o que dizer, iam chamando os Ap\u00f3stolos de b\u00eabados. Realmente uma tolice rid\u00edcula; pois a embriaguez n\u00e3o faz falar a l\u00edngua desconhecida, mas faz esquecer ou maltratar a pr\u00f3pria l\u00edngua. Foi ent\u00e3o que S\u00e3o Pedro, cheio de santo ardor, come\u00e7ou a pregar pela primeira vez Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em nome de todos os outros Ap\u00f3stolos, ele se adianta perante a multid\u00e3o, levanta a m\u00e3o, pede sil\u00eancio e come\u00e7a a falar assim: \u201cHomens Judeus e v\u00f3s todos que habitais em Jerusal\u00e9m, abri os ouvidos \u00e0s minhas palavras e sereis iluminados sobre este fato. Estes homens n\u00e3o est\u00e3o de modo algum embriagados como pensais, porque estamos apenas \u00e0 terceira hora da manh\u00e3, em que costumamos estar em jejum. Bem outra \u00e9 a causa do que vedes. Hoje se cumpriu em n\u00f3s a profecia do profeta Joel, que disse assim: \u2018Acontecer\u00e1 nos \u00faltimos dias, diz o Senhor, que eu derramarei o meu Esp\u00edrito sobre os homens; e os vossos filhos e as vossas filhas profetizar\u00e3o; os vossos jovens ter\u00e3o vis\u00f5es e os vossos velhos ter\u00e3o sonhos. Ali\u00e1s, naqueles dias derramarei o meu esp\u00edrito sobre os meus servos e sobre as minhas servas, e se tornar\u00e3o profetas, e farei prod\u00edgios no c\u00e9u e na terra. E acontecer\u00e1 que todo aquele que invocar o nome do Senhor ser\u00e1 salvo.\u2019<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro continuou: \u201cAgora, ouvi, \u00f3 filhos de Jac\u00f3: aquele Senhor, em cujo nome quem crer ser\u00e1 salvo, \u00e9 o mesmo Jesus Nazareno, aquele grande homem a quem Deus dava testemunho com uma multid\u00e3o de milagres que operou, como v\u00f3s mesmos haveis visto. V\u00f3s fizestes morrer aquele homem pela m\u00e3o dos \u00edmpios e assim, sem saber, servistes aos decretos de Deus, que queria salvar o mundo com sua morte. Deus, por outro lado, o ressuscitou da morte, como havia predito o profeta Davi com estas palavras: \u2018Tu n\u00e3o me deixar\u00e1s no sepulcro, nem permitir\u00e1s que o teu santo prove a corrup\u00e7\u00e3o.\u2019<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E Pedro acrescentou: \u201cNotai, \u00f3 Judeus, que Davi n\u00e3o pretendia falar de si, porque v\u00f3s bem sabeis que ele morreu e seu sepulcro permanece entre n\u00f3s at\u00e9 o dia de hoje; mas sendo profeta e sabendo que Deus lhe havia prometido com juramento que da sua descend\u00eancia nasceria o Messias, profetizou tamb\u00e9m sua ressurrei\u00e7\u00e3o, dizendo que ele n\u00e3o seria deixado no sepulcro e que seu corpo n\u00e3o provaria a corrup\u00e7\u00e3o. Este, portanto, \u00e9 Jesus Nazareno, que Deus ressuscitou da morte, do qual somos testemunhas. Sim, n\u00f3s o vimos voltar \u00e0 vida, o tocamos e comemos com ele.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cEle, portanto, tendo sido elevado ao c\u00e9u pela virtude do Pai e tendo recebido dele a autoridade de enviar o Esp\u00edrito Santo, segundo sua promessa, pouco antes enviou sobre n\u00f3s este divino Esp\u00edrito, de cuja virtude vedes em n\u00f3s uma prova t\u00e3o manifesta. Que, por sua vez, Jesus subiu ao c\u00e9u, diz o pr\u00f3prio Davi com estas palavras: \u2018O Senhor disse ao meu Senhor: Senta-te \u00e0 minha direita, at\u00e9 que eu ponha os teus inimigos por escabelo dos teus p\u00e9s.\u2019 Agora v\u00f3s bem sabeis que Davi n\u00e3o subiu ao c\u00e9u para reinar. \u00c9 Jesus Cristo que subiu ao c\u00e9u: a ele, portanto, e n\u00e3o a Davi, foram apropriadas aquelas palavras. Saiba, portanto, todo o povo de Israel que aquele Jesus que v\u00f3s crucificastes foi por Deus constitu\u00eddo Senhor de todas as coisas, rei e Salvador do seu povo, e ningu\u00e9m pode salvar-se sem ter f\u00e9 nele.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta prega\u00e7\u00e3o de Pedro deveria ter acirrado os \u00e2nimos de seus ouvintes, a quem recriminava o enorme delito cometido contra a pessoa do divino Salvador. Mas era Deus que falava pela boca de seu ministro, e por isso a prega\u00e7\u00e3o dele produziu efeitos maravilhosos. Portanto, agitados como por um fogo interno, efeito da gra\u00e7a de Deus, de todas as partes iam exclamando com cora\u00e7\u00e3o verdadeiramente contrito: \u201cO que devemos fazer?\u201d S\u00e3o Pedro, observando que a gra\u00e7a do Senhor operava em seus cora\u00e7\u00f5es e que j\u00e1 eles criam em Jesus Cristo, disse-lhes: \u201cFazei penit\u00eancia e cada um, em nome de Jesus Cristo, receba o batismo; assim obter\u00e3o a remiss\u00e3o dos pecados e receber\u00e3o o Esp\u00edrito Santo.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Ap\u00f3stolo continuou a instruir aquela multid\u00e3o, animando todos a confiar na miseric\u00f3rdia e bondade de Deus, que deseja a salva\u00e7\u00e3o dos homens. O fruto dessa primeira prega\u00e7\u00e3o correspondeu \u00e0 ardente caridade do pregador. Cerca de 3.000 pessoas se converteram \u00e0 f\u00e9 em Jesus Cristo e foram batizadas pelos Ap\u00f3stolos. Assim come\u00e7avam a se cumprir as palavras do Salvador quando disse a Pedro que, doravante, n\u00e3o seria mais pescador de peixes, mas pescador de homens. Santo Agostinho assegura que Santo Est\u00eav\u00e3o, protom\u00e1rtir, foi convertido nesta prega\u00e7\u00e3o.<br><br><a id=\"_Toc191158564\">CAP\u00cdTULO XIV. S\u00e3o Pedro cura um coxo. \u2014 Sua segunda prega\u00e7\u00e3o. <em>Ano 33 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pouco depois dessa prega\u00e7\u00e3o, \u00e0 nona hora, ou seja, \u00e0s tr\u00eas da tarde, Pedro e seu amigo Jo\u00e3o, como forma de agradecer a Deus pelos benef\u00edcios recebidos, iam juntos ao templo para orar. Ao chegarem a uma porta do templo chamada \u201cFormosa\u201d ou \u201cBela\u201d, encontraram um homem coxo de ambos os p\u00e9s desde o nascimento. N\u00e3o conseguindo se sustentar, ele estava ali sendo carregado para viver pedindo esmolas \u00e0queles que iam ao lugar santo. Aquele infeliz, ao ver os dois Ap\u00f3stolos pr\u00f3ximos a ele, pediu-lhes caridade, como fazia com todos. Pedro, assim inspirado por Deus, olhando-o fixamente, disse-lhe: \u201cOlha para n\u00f3s.\u201d Ele olhava, e, na esperan\u00e7a de receber algo, n\u00e3o piscava os olhos. Ent\u00e3o Pedro falou: \u201cEscute, bom homem, eu n\u00e3o tenho nem ouro nem prata para te dar; mas o que tenho te dou. Em nome de Jesus Nazareno, levanta-te e anda.\u201d Ent\u00e3o o pegou pela m\u00e3o a fim de levant\u00e1-lo, como em casos semelhantes tinha visto o divino Mestre fazer. Naquele momento, o coxo sentiu suas pernas se fortalecerem, seus nervos se robusteceram e adquiriu for\u00e7as como qualquer outro homem mais saud\u00e1vel. Sentindo-se curado, deu um salto, come\u00e7ou a andar e, pulando de alegria e louvando a Deus, entrou com os dois Ap\u00f3stolos no templo. Todo o povo, que tinha sido testemunha do fato e via o coxo andar por si mesmo, n\u00e3o p\u00f4de deixar de reconhecer naquela cura um verdadeiro milagre. A linguagem dos fatos \u00e9 mais eficaz do que a das palavras. Portanto, a multid\u00e3o, tendo sabido que foi S\u00e3o Pedro quem devolveu a sa\u00fade \u00e0quele infeliz, em grande n\u00famero se apertou ao redor dele e de Jo\u00e3o, desejando todos admirar com seus pr\u00f3prios olhos quem sabia fazer obras t\u00e3o maravilhosas.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este \u00e9 o primeiro milagre que, ap\u00f3s a Ascens\u00e3o de Jesus Cristo, foi realizado pelos Ap\u00f3stolos, e era conveniente que o fizesse Pedro, pois ele tinha entre todos a primeira dignidade na Igreja. Mas Pedro, ao ver-se cercado por tanta gente, considerou uma bela oportunidade de dar a Deus a gl\u00f3ria devida e glorificar ao mesmo tempo Jesus Cristo, em cujo nome tinha sido realizado o prod\u00edgio.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cFilhos de Israel,\u201d disse-lhes, \u201cpor que vos maravilhais tanto com este fato? Por que fixais tanto os olhos em n\u00f3s, como se por nossa virtude tiv\u00e9ssemos feito andar este homem? O Deus de Abra\u00e3o, de Isaque e de Jac\u00f3, o Deus de nossos pais, glorificou seu Filho Jesus, aquele Jesus que v\u00f3s tra\u00edstes e negastes diante de Pilatos, quando ele julgava libert\u00e1-lo como inocente. V\u00f3s, portanto, tivestes a ousadia de negar o Santo e o Justo, e pedistes que Barrab\u00e1s, ladr\u00e3o e assassino, fosse libertado da morte, e renegando o Justo, o Santo e o autor da vida, o fizestes morrer. Mas Deus o ressuscitou da morte, e n\u00f3s somos testemunhas, pois o vimos v\u00e1rias vezes, o tocamos e comemos com ele. Agora, em virtude de seu nome, pela f\u00e9 que vem dele, foi curado este coxo que vedes e conheceis; foi Jesus que lhe devolveu a perfeita sa\u00fade diante de todos v\u00f3s. Agora eu sei bem que vosso crime e o de vossos chefes, embora n\u00e3o tenhais desculpa suficiente, foi cometido por ignor\u00e2ncia. Mas Deus, que fez predizer por seus profetas que o Messias deveria sofrer tais coisas, permitiu que verific\u00e1sseis isso sem querer, de modo que o decreto da miseric\u00f3rdia de Deus teve seu cumprimento. Portanto, voltai-vos para v\u00f3s mesmos e fazei penit\u00eancia, para que vossos pecados sejam cancelados e assim possais vos apresentar com seguran\u00e7a da salva\u00e7\u00e3o diante do tribunal deste mesmo Jesus Cristo que eu vos preguei, e pelo qual todos devemos ser julgados.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro prosseguiu: \u201cEssas coisas foram preditas por Deus; portanto, crede em seus profetas e entre todos crede em Mois\u00e9s, que \u00e9 o maior deles. O que ele diz? \u00abO Senhor,\u00bb diz Mois\u00e9s, \u00abfar\u00e1 surgir um profeta como eu, e a ele v\u00f3s crereis em tudo o que ele vos disser. Quem n\u00e3o ouvir o que diz este profeta ser\u00e1 exterminado do seu povo.\u00bb\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cIsso dizia Mois\u00e9s e falava de Jesus. Depois de Mois\u00e9s, come\u00e7ando por Samuel, todos os profetas que vieram previram este dia e as coisas que aconteceram. Tais coisas e as grandes b\u00ean\u00e7\u00e3os que s\u00e3o preditas vos pertencem. V\u00f3s sois os filhos dos profetas, das promessas e das alian\u00e7as que Deus fez com nossos pais, dizendo a Abra\u00e3o, que \u00e9 o tronco da descend\u00eancia dos justos: \u2018Em ti e na tua descend\u00eancia ser\u00e3o aben\u00e7oadas todas as gera\u00e7\u00f5es do mundo.\u2019 Ele falava do Redentor, daquele Jesus, Filho de Deus, descendente de Abra\u00e3o; aquele Jesus que Deus ressuscitou da morte e que nos manda a pregar sua palavra a v\u00f3s antes de preg\u00e1-la a qualquer outro povo, trazendo-vos a b\u00ean\u00e7\u00e3o prometida, para que vos convertais de vossos pecados e tenhais a vida eterna.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A esta segunda prega\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Pedro seguiram-se in\u00fameras convers\u00f5es \u00e0 f\u00e9. Cinco mil homens pediram o batismo, de modo que o n\u00famero dos convertidos em apenas duas prega\u00e7\u00f5es j\u00e1 ascendia a oito mil pessoas, sem contar as mulheres e as crian\u00e7as.<br><br><a id=\"_Toc191158565\">CAP\u00cdTULO XV. Pedro \u00e9 preso com Jo\u00e3o e, depois, libertado.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O inimigo da humanidade, que via seu reino se destruindo, tentou suscitar uma persegui\u00e7\u00e3o contra a Igreja em seu in\u00edcio. Enquanto Pedro pregava, chegaram os sacerdotes, os magistrados do templo e os saduceus, que negavam a ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos. Eles se mostravam extremamente enfurecidos porque Pedro pregava ao povo a ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Impacientes e cheios de c\u00f3lera interromperam a prega\u00e7\u00e3o de Pedro, colocaram as m\u00e3os sobre ele e o conduziram junto com Jo\u00e3o para a pris\u00e3o, com a inten\u00e7\u00e3o de discutir com um e com outro no dia seguinte. Mas temendo os protestos do povo, n\u00e3o lhes fizeram nenhum mal.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Amanhecido o dia, reuniram-se todos os principais da cidade; ou seja, o sin\u00e9drio da na\u00e7\u00e3o se reuniu em conc\u00edlio para julgar os dois Ap\u00f3stolos, como se fossem os mais \u00edmpios e os mais tem\u00edveis homens do mundo. No meio daquela imponente assembleia foram introduzidos Pedro e Jo\u00e3o, e com eles o coxo que haviam curado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Foi, portanto, feita solenemente esta pergunta: \u201cCom qual poder e em nome de quem voc\u00eas curaram este coxo?\u201d Ent\u00e3o Pedro, cheio do Esp\u00edrito Santo, com uma coragem verdadeiramente digna do chefe da Igreja, come\u00e7ou a falar da seguinte maneira:<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cPr\u00edncipes do povo, e v\u00f3s doutores da lei, ouvi. Se neste dia somos acusados e se forma um processo por uma obra bem feita, que \u00e9 a cura deste enfermo, sabei todos, e que todo o povo de Israel saiba, que este homem, que vedes aqui diante de v\u00f3s s\u00e3o e salvo, obteve a sa\u00fade em nome do Senhor Jesus Nazareno; aquele mesmo que v\u00f3s crucificastes e que Deus fez ressuscitar da morte para a vida. Esta \u00e9 a pedra da constru\u00e7\u00e3o que foi rejeitada por v\u00f3s e que agora se tornou a Pedra angular. Ningu\u00e9m pode ter salva\u00e7\u00e3o sen\u00e3o nele, nem h\u00e1 outro nome sob o c\u00e9u dado aos homens fora deste, no qual se possa ter salva\u00e7\u00e3o.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta fala franca e resoluta do pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos produziu profunda impress\u00e3o na alma de todos aqueles que compunham a assembleia, de modo que, admirando a coragem e a inoc\u00eancia de Pedro, n\u00e3o sabiam a que partido se apegar. Queriam puni-los, mas o grande cr\u00e9dito que o milagre realizado pouco antes lhes havia dado em toda a cidade fazia temer tristes consequ\u00eancias.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, querendo tomar alguma resolu\u00e7\u00e3o, fizeram sair os dois Ap\u00f3stolos do lugar do conc\u00edlio e concordaram em proibir-lhes, sob penas sever\u00edssimas, de nunca mais falarem no futuro das coisas passadas, nem nunca mais nomearem Jesus Nazareno, para que at\u00e9 mesmo a mem\u00f3ria dele se perdesse. Mas est\u00e1 escrito que s\u00e3o in\u00fateis os esfor\u00e7os dos homens quando s\u00e3o contr\u00e1rios \u00e0 vontade de Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, reconduzidos os dois Ap\u00f3stolos ao meio do conc\u00edlio, ao ouvirem intimar aquela severa amea\u00e7a, longe de se espantarem, com firmeza e const\u00e2ncia maior do que antes, Pedro respondeu:<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cAgora, decidi v\u00f3s mesmos se a justi\u00e7a e a raz\u00e3o permitem obedecer mais a v\u00f3s do que a Deus. N\u00f3s n\u00e3o podemos deixar de manifestar o que temos ouvido e visto.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ent\u00e3o aqueles ju\u00edzes, cada vez mais confusos, n\u00e3o sabendo nem o que responder nem o que fazer, tomaram a resolu\u00e7\u00e3o de mand\u00e1-los por esta vez impunes, proibindo-lhes apenas de pregar mais a Jesus Nazareno.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim que foram deixados livres, Pedro e Jo\u00e3o foram imediatamente encontrar os outros disc\u00edpulos, que estavam em grande inquieta\u00e7\u00e3o por sua pris\u00e3o. Quando ent\u00e3o ouviram o relato do que havia acontecido, cada um agradeceu a Deus, pedindo-lhe que quisesse dar for\u00e7a e virtude para pregar a divina palavra diante de qualquer perigo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se os crist\u00e3os dos dias de hoje tivessem todos a coragem dos fi\u00e9is dos primeiros tempos e, superando todo respeito humano, professassem intr\u00e9pidos sua f\u00e9, certamente n\u00e3o se veria tanto desprezo pela nossa santa religi\u00e3o, e talvez muitos que tentam zombar da religi\u00e3o e dos sagrados ministros seriam for\u00e7ados a vener\u00e1-la junto com seus ministros.<br><br><a id=\"_Toc191158566\">CAP\u00cdTULO XVI. Vida dos primeiros Crist\u00e3os. \u2014 O caso de Ananias e Safira. \u2014 Milagres de S\u00e3o Pedro. <em>Ano 34 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pelas prega\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Pedro e pelo zelo dos outros Ap\u00f3stolos, o n\u00famero dos fi\u00e9is cresceu grandemente.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos dias estabelecidos, reuniam-se juntos para as fun\u00e7\u00f5es sagradas. E a Sagrada Escritura diz precisamente que aqueles fi\u00e9is eram perseverantes na ora\u00e7\u00e3o, em ouvir a palavra de Deus e em receber com frequ\u00eancia a santa comunh\u00e3o, de modo que entre todos formavam um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e uma s\u00f3 alma para amar e servir a Deus Criador.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Muitos, ent\u00e3o, pelo desejo de desligar inteiramente o cora\u00e7\u00e3o dos bens da terra e pensar unicamente no c\u00e9u, vendiam suas propriedades e as traziam aos p\u00e9s dos Ap\u00f3stolos, para que fizessem o uso que melhor acreditassem em favor dos pobres. A Sagrada Escritura faz um especial elogio de certo Jos\u00e9, apelidado Barnab\u00e9, que foi depois fiel companheiro de S\u00e3o Paulo Ap\u00f3stolo. Este vendeu um campo que possu\u00eda e trouxe generosamente o pre\u00e7o inteiro aos Ap\u00f3stolos. Muitos, seguindo seu exemplo, competiam para dar sinal de seu desapego das coisas terrenas, de modo que em breve aqueles fi\u00e9is formavam uma s\u00f3 fam\u00edlia, da qual Pedro era o chefe vis\u00edvel. Entre eles n\u00e3o havia pobres, porque os ricos compartilhavam suas propriedades com os necessitados.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, mesmo nesses tempos felizes houve fraudulentos, que, guiados por esp\u00edrito de hipocrisia, tentaram enganar S\u00e3o Pedro e mentir ao Esp\u00edrito Santo. O que teve as mais funestas consequ\u00eancias. Eis como o sagrado texto nos exp\u00f5e o terr\u00edvel acontecimento.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Certo Ananias com sua esposa Safira fizeram a Deus a promessa de vender uma propriedade sua e, assim como os outros fi\u00e9is, levar o pre\u00e7o aos Ap\u00f3stolos para que o distribu\u00edssem conforme as diversas necessidades. Eles cumpriram pontualmente a primeira parte da promessa, mas o amor ao ouro os levou a violar a segunda.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Eles podiam manter o campo ou o pre\u00e7o da venda. Mas feita a promessa, estavam obrigados a mant\u00ea-la, pois as coisas que se consagram a Deus ou \u00e0 Igreja tornam-se sagradas e inviol\u00e1veis.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De acordo, portanto, entre si, retiveram para si uma parte do pre\u00e7o e trouxeram a outra a S\u00e3o Pedro com a inten\u00e7\u00e3o de faz\u00ea-lo crer que esta era a soma total obtida pela venda. Pedro teve especial revela\u00e7\u00e3o do engano e, assim que Ananias apareceu diante dele, sem lhe dar tempo de proferir palavra, com tom autorit\u00e1rio e grave come\u00e7ou a reprov\u00e1-lo assim: \u201cPor que voc\u00ea se deixou seduzir pelo esp\u00edrito de Satan\u00e1s at\u00e9 mentir ao Esp\u00edrito Santo, retendo uma por\u00e7\u00e3o do pre\u00e7o daquele seu campo? N\u00e3o estava ele em seu poder antes de vend\u00ea-lo? E depois de t\u00ea-lo vendido, n\u00e3o estava \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o toda a soma obtida? Por que, portanto, voc\u00ea concebeu este malvado plano? Voc\u00ea deve, portanto, saber que n\u00e3o mentiu aos homens, mas a Deus.\u201d \u00c0quele tom de voz, \u00e0quelas palavras, Ananias, como atingido por um rel\u00e2mpago, caiu morto instantaneamente.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim que se passaram tr\u00eas horas, Safira tamb\u00e9m veio apresentar-se a Pedro, sem saber nada do lutuoso fim do marido. O Ap\u00f3stolo usou maior compaix\u00e3o para com ela e quis dar-lhe espa\u00e7o para penit\u00eancia interrogando-a se aquela soma era o inteiro produto da venda daquele campo. A mulher, com intrepidez e temeridade igual \u00e0 de Ananias, com outra mentira confirmou a mentira de seu marido. Portanto, sendo repreendida por S\u00e3o Pedro com o mesmo zelo e com a mesma for\u00e7a, caiu tamb\u00e9m ela instantaneamente e expirou. \u00c9 bom esperar que um castigo t\u00e3o terr\u00edvel tenha contribu\u00eddo para poup\u00e1-los do castigo eterno na outra vida. Uma pena t\u00e3o exemplar era necess\u00e1ria para insinuar venera\u00e7\u00e3o pelo cristianismo a todos aqueles que abra\u00e7avam a f\u00e9 e procurar respeito ao pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, assim como para dar um exemplo da maneira terr\u00edvel com que Deus pune o perj\u00fario e ao mesmo tempo nos ensinar a sermos fi\u00e9is \u00e0s promessas feitas a Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este fato, juntamente com os muitos milagres que Pedro operava, fez com que se dobrasse o fervor entre os fi\u00e9is e se expandisse a fama de suas virtudes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todos os Ap\u00f3stolos operavam milagres. Um doente que tivesse estado em contato com algum dos Ap\u00f3stolos era imediatamente curado. S\u00e3o Pedro, ent\u00e3o, se destacava acima de todos os outros. Era tal a confian\u00e7a que todos tinham nele e em suas virtudes, que de todas as partes, at\u00e9 de pa\u00edses distantes, vinham a Jerusal\u00e9m para serem espectadores de seus milagres. \u00c0s vezes acontecia que ele estava cercado por tal quantidade de coxos e por tantos doentes que n\u00e3o era mais poss\u00edvel se aproximar dele. Portanto, levavam os enfermos em macas para as pra\u00e7as p\u00fablicas e para as ruas, de modo que S\u00e3o Pedro, passando por ali, ao menos a sombra de seu corpo chegasse a toc\u00e1-los: o que era suficiente para curar todo tipo de enfermidade. Santo Agostinho assegura que um morto, sobre o qual passou a sombra de Pedro, imediatamente ressuscitou.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os Santos Padres reconhecem neste fato o cumprimento da promessa do Redentor a seus Ap\u00f3stolos, dizendo que eles operariam milagres ainda maiores do que aqueles que ele mesmo considerou oportuno realizar durante sua vida mortal<a href=\"#_ftn16\" id=\"_ftnref16\">[16]<\/a>.<br><br><a id=\"_Toc191158567\">CAP\u00cdTULO XVII. S\u00e3o Pedro novamente preso. \u2014 \u00c9 libertado por um anjo. <em>Ano 34 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Igreja de Jesus Cristo adquiria novos fi\u00e9is a cada dia. A multid\u00e3o de milagres unida \u00e0 vida santa daqueles primeiros crist\u00e3os fazia com que pessoas de todas as classes, idades e condi\u00e7\u00f5es corressem em massa para pedir o Batismo e assim assegurar sua eterna salva\u00e7\u00e3o. Mas o pr\u00edncipe dos sacerdotes e os saduceus se consumiam de raiva e ci\u00fames; e n\u00e3o sabendo qual meio usar para impedir a propaga\u00e7\u00e3o do Evangelho, prenderam Pedro e os outros Ap\u00f3stolos e os fecharam na pris\u00e3o. Mas Deus, para demonstrar mais uma vez que s\u00e3o v\u00e3os os projetos dos homens quando contr\u00e1rios aos des\u00edgnios do C\u00e9u, e que Ele pode fazer o que quer e quando quer, enviou naquela mesma noite um anjo que, abrindo as portas da pris\u00e3o, os tirou de l\u00e1, dizendo-lhes: \u201cEm nome de Deus, v\u00e3o e preguem com seguran\u00e7a no templo, na presen\u00e7a do povo, as palavras de vida eterna. N\u00e3o temam nem as ordens nem as amea\u00e7as dos homens.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os Ap\u00f3stolos, vendo-se assim prodigiosamente favorecidos e defendidos por Deus, conforme a ordem recebida, de manh\u00e3 cedo foram ao templo pregar e ensinar o povo. O pr\u00edncipe dos sacerdotes, que desejava castigar severamente os Ap\u00f3stolos, para dar solenidade ao processo, convocou o Sin\u00e9drio, os anci\u00e3os, os escribas e todos aqueles que tinham alguma autoridade sobre o povo. Ent\u00e3o mandou buscar os Ap\u00f3stolos para que fossem trazidos da pris\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os ministros, ou seja, os capangas, obedeceram \u00e0s ordens dadas. Foram, abriram a pris\u00e3o, entraram e n\u00e3o encontraram alma viva. Retornaram imediatamente \u00e0 assembleia e, cheios de espanto, anunciaram a coisa assim: \u201cEncontramos a pris\u00e3o fechada e guardada com toda dilig\u00eancia; os guardas mantinham fielmente seus postos, mas, ao abrirmos, n\u00e3o encontramos ningu\u00e9m.\u201d Ao ouvir isso, n\u00e3o sabiam mais a que partido se apegar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto estavam consultando sobre o que deveriam deliberar, chegou algu\u00e9m dizendo: \u201cVoc\u00eas n\u00e3o sabem? Aqueles homens que voc\u00eas prenderam ontem est\u00e3o agora no templo pregando com mais fervor do que antes.\u201d Ent\u00e3o se sentiram mais do que nunca ardendo de raiva contra os Ap\u00f3stolos; mas o temor de se tornarem inimigos do povo os deteve, pois correriam o risco de serem apedrejados.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O prefeito do templo se ofereceu para resolver ele mesmo tal quest\u00e3o da melhor maneira poss\u00edvel. Foi at\u00e9 onde estavam os pregadores e, com boas maneiras, sem usar qualquer viol\u00eancia, os convidou a virem com ele e os conduziu ao meio da assembleia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O sumo sacerdote, dirigindo-se a eles, disse: \u201cFaz apenas alguns dias que n\u00f3s lhes proibimos estritamente de falar sobre esse Jesus Nazareno, e enquanto isso voc\u00eas encheram a cidade com essa nova doutrina. Parece que quereis acusar-nos da morte daquele homem e fazer com que todas as pessoas nos odeiem como culpados daquele sangue. Como ousastes agir assim?\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cAchamos que fizemos muito bem,\u201d respondeu Pedro tamb\u00e9m em nome dos outros Ap\u00f3stolos, \u201cporque \u00e9 necess\u00e1rio obedecer a Deus antes do que aos homens. O que pregamos \u00e9 uma verdade que nos foi colocada na boca por Deus, e n\u00e3o tememos diz\u00ea-la a v\u00f3s nesta veneranda assembleia.\u201d Aqui Pedro repetiu o que j\u00e1 havia dito outras vezes sobre a vida, paix\u00e3o e morte do Salvador; sempre concluindo que era imposs\u00edvel para eles calarem sobre aquelas coisas que, segundo as ordens recebidas de Deus, deveriam pregar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c0quelas palavras dos Ap\u00f3stolos, pronunciadas com tanta firmeza, n\u00e3o tendo o que opor, se consumiam de raiva e j\u00e1 pensavam em faz\u00ea-los morrer. Mas foram desencorajados por um certo Gamaliel, que era um dos doutores da lei ali reunidos. Este, considerando bem todas as coisas, fez os Ap\u00f3stolos sa\u00edrem por um breve tempo, depois, levantando-se, disse em plena assembleia: \u201c\u00d3 israelitas, prestai bem aten\u00e7\u00e3o ao que estais prestes a fazer em rela\u00e7\u00e3o a esses homens; porque se esta \u00e9 obra dos homens, cair\u00e1 por si mesma, como aconteceu com tantos outros; mas se a obra \u00e9 de Deus, podereis impedi-la e destru\u00ed-la, ou querer\u00e3o se opor a Deus?\u201d Toda a assembleia se aquietou e seguiu seu conselho.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Fazendo ent\u00e3o retornar os Ap\u00f3stolos, primeiro os fizeram a\u00e7oitar; depois ordenaram que absolutamente n\u00e3o falassem mais sobre Jesus Cristo. Mas eles partiram da assembleia cheios de alegria, porque foram considerados dignos de sofrer algo pelo nome de Jesus Cristo.<br><br><a id=\"_Toc191158568\">CAP\u00cdTULO XVIII. Elei\u00e7\u00e3o dos sete di\u00e1conos. \u2014 S\u00e3o Pedro resiste \u00e0 persegui\u00e7\u00e3o de Jerusal\u00e9m. \u2014 Vai \u00e0 Samaria. \u2014 Seu primeiro confronto com Sim\u00e3o Mago. <em>Ano 35 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A multid\u00e3o de fi\u00e9is que abra\u00e7ava a f\u00e9 ocupava tanto o zelo dos Ap\u00f3stolos, que eles, tendo que se dedicar \u00e0 prega\u00e7\u00e3o da palavra divina, ao ensino dos novos convertidos, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, \u00e0 administra\u00e7\u00e3o dos sacramentos, n\u00e3o podiam mais se ocupar dos assuntos temporais. Tal coisa causava descontentamento entre alguns crist\u00e3os, quase como se na distribui\u00e7\u00e3o das ajudas fossem considerados de pouca import\u00e2ncia ou desprezados. Informados disso, S\u00e3o Pedro e os outros Ap\u00f3stolos resolveram remediar a situa\u00e7\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Convocaram, portanto, uma numerosa assembleia de fi\u00e9is e, fazendo-lhes entender como n\u00e3o deveriam negligenciar as coisas de seu sagrado minist\u00e9rio para se ocuparem dos servi\u00e7os temporais, propuseram a elei\u00e7\u00e3o de sete di\u00e1conos, que, conhecidos por seu zelo e virtude, cuidassem da administra\u00e7\u00e3o de certas coisas sagradas, como a administra\u00e7\u00e3o do Batismo, da Eucaristia; e ao mesmo tempo cuidassem da distribui\u00e7\u00e3o das esmolas e das outras coisas materiais.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todos aprovaram aquela proposta; ent\u00e3o S\u00e3o Pedro e os outros Ap\u00f3stolos impuseram as m\u00e3os aos novos eleitos e os destinaram a seus respectivos of\u00edcios. Com a adi\u00e7\u00e3o desses sete di\u00e1conos, al\u00e9m de terem providenciado \u00e0s necessidades temporais, tamb\u00e9m se multiplicaram os oper\u00e1rios evang\u00e9licos, e, portanto, mais numerosas convers\u00f5es. Dentre os sete di\u00e1conos, foi c\u00e9lebre Santo Est\u00eav\u00e3o, que por sua intrepidez em sustentar a verdade do Evangelho, foi morto por apedrejamento fora da cidade. Ele \u00e9 comumente chamado Protom\u00e1rtir, ou seja, o primeiro m\u00e1rtir, que ap\u00f3s Jesus Cristo deu a vida pela f\u00e9. A morte de Santo Est\u00eav\u00e3o foi o in\u00edcio de uma grande persegui\u00e7\u00e3o suscitada pelos judeus contra todos os seguidores de Jesus Cristo, o que obrigou os fi\u00e9is a se dispersarem aqui e ali por v\u00e1rias cidades e em diferentes locais.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro com os outros Ap\u00f3stolos permaneceu em Jerusal\u00e9m tanto para confirmar os fi\u00e9is na f\u00e9, quanto para manter viva rela\u00e7\u00e3o com aqueles que estavam dispersos em outros lugares. A fim de evitar a f\u00faria dos judeus, ele se mantinha escondido, conhecido apenas pelos seguidores do Evangelho, saindo, no entanto, de sua moradia secreta sempre que visse necessidade. Enquanto isso, um edito do imperador Tib\u00e9rio Augusto em favor dos crist\u00e3os e a convers\u00e3o de S\u00e3o Paulo fizeram cessar a persegui\u00e7\u00e3o. E foi ent\u00e3o que se conheceu como a provid\u00eancia de Deus n\u00e3o permite nenhum mal sem extrair dele o bem; pois serviu-se da persegui\u00e7\u00e3o para difundir o Evangelho em outros lugares, e pode-se dizer que cada fiel era um pregador de Jesus Cristo em todos aqueles vilarejos aonde ia se refugiar. Entre aqueles que foram for\u00e7ados a fugir de Jerusal\u00e9m, havia um dos sete di\u00e1conos chamado Filipe.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele foi \u00e0 cidade de Samaria, onde com a prega\u00e7\u00e3o e com os milagres realizou muitas convers\u00f5es. Chegou a Jerusal\u00e9m a not\u00edcia de que um n\u00famero extraordin\u00e1rio de samaritanos havia abra\u00e7ado \u00e0 f\u00e9. Os Ap\u00f3stolos resolveram enviar para l\u00e1 alguns que administrassem o Sacramento da Confirma\u00e7\u00e3o e suprissem aqueles que os Di\u00e1conos n\u00e3o tinham autoridade para administrar. Foram ent\u00e3o designados para essa miss\u00e3o Pedro e Jo\u00e3o: Pedro para que, como chefe da Igreja, recebesse no seio dela aquela na\u00e7\u00e3o estrangeira e unisse os samaritanos aos judeus; Jo\u00e3o, ent\u00e3o, como amigo especial de S\u00e3o Pedro e ilustre entre os outros por milagres e santidade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Havia em Samaria um certo Sim\u00e3o de Giton, chamado Mago, ou seja, feiticeiro. Este, \u00e0 for\u00e7a de fal\u00e1cias e encantamentos, havia enganado muitos, se vangloriando de ser algu\u00e9m extraordin\u00e1rio. Blasfemando, dizia que ele tinha a grande virtude de Deus. O povo parecia enlouquecido por ele e corria atr\u00e1s dele aclamando-o como se fosse algo divino. Estando um dia presente \u00e0 prega\u00e7\u00e3o de Filipe, ficou comovido e pediu o Batismo para tamb\u00e9m operar as maravilhas que geralmente os fi\u00e9is operavam ap\u00f3s receber este Sacramento.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chegando l\u00e1, Pedro e Jo\u00e3o come\u00e7aram a administrar o Sacramento da Confirma\u00e7\u00e3o, impondo as m\u00e3os como fazem os Bispos de hoje. Sim\u00e3o, vendo que com a imposi\u00e7\u00e3o das m\u00e3os recebiam tamb\u00e9m o dom das l\u00ednguas e de fazer milagres, pensou que seria uma grande sorte para ele se pudesse operar as mesmas coisas. Aproximando-se, ent\u00e3o, de Pedro, tirou uma bolsa de dinheiro e a ofereceu, pedindo-lhe que tamb\u00e9m lhe concedesse o poder de fazer milagres e de dar o Esp\u00edrito Santo \u00e0queles a quem ele impusesse as m\u00e3os.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro, vivamente indignado com tal impiedade, e voltando-se para ele, disse-lhe: \u201cMalvado, fique contigo o teu dinheiro para perdi\u00e7\u00e3o, pois acreditaste que por dinheiro se podem comprar os dons do Esp\u00edrito Santo. Apressa-te em fazer penit\u00eancia por esta tua malvadeza e ora a Deus para que Ele te conceda o perd\u00e3o.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sim\u00e3o, temendo que lhe acontecesse o que havia acontecido a Ananias e Safira, todo apavorado respondeu: \u201c\u00c9 verdade: orai tamb\u00e9m v\u00f3s por mim para que em mim n\u00e3o se verifique tal amea\u00e7a.\u201d Essas palavras parecem demonstrar que ele estava arrependido, mas n\u00e3o estava: n\u00e3o pediu aos Ap\u00f3stolos que implorassem a Deus miseric\u00f3rdia, mas sim que mantivessem longe dele o flagelo. Passado o temor do castigo, ele voltou a ser o que era antes, ou seja, mago, sedutor, amigo do dem\u00f4nio. N\u00f3s o veremos em outros confrontos com Pedro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os dois Ap\u00f3stolos Pedro e Jo\u00e3o, assim que administraram o Sacramento da Confirma\u00e7\u00e3o aos novos fi\u00e9is da Samaria e os fortaleceram na f\u00e9 que pouco antes haviam recebido, dando-lhes a sauda\u00e7\u00e3o de paz, partiram daquela cidade. Passaram por muitos lugares pregando Jesus Cristo, considerando pouca toda fadiga desde que contribu\u00edsse para propagar o Evangelho e ganhar almas para o c\u00e9u.<br><br><a id=\"_Toc191158569\">CAP\u00cdTULO XIX. S\u00e3o Pedro funda a c\u00e1tedra de Antioquia; retorna a Jerusal\u00e9m. \u2014 \u00c9 visitado por S\u00e3o Paulo. <em>Ano 36 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro, retornando da Samaria, permaneceu algum tempo em Jerusal\u00e9m, depois foi pregar a gra\u00e7a do Senhor em v\u00e1rios locais. Enquanto com zelo digno do pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos visitava as igrejas que estavam sendo fundadas aqui e ali, soube que Sim\u00e3o Mago da Samaria havia ido a Antioquia para espalhar l\u00e1 suas imposturas. Ele ent\u00e3o resolveu ir a essa cidade para dissipar os erros daquele inimigo de Deus e dos homens. Chegando \u00e0quela capital, imediatamente come\u00e7ou a pregar o Evangelho com grande zelo, e conseguiu converter tal n\u00famero de pessoas \u00e0 f\u00e9, que os fi\u00e9is come\u00e7aram a ser chamados ali de crist\u00e3os, ou seja, seguidores de Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre as personalidades ilustres que se converteram pelas prega\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Pedro estava Santo Ev\u00f3dio. Na primeira chegada de Pedro, ele o convidou para sua casa, e o santo Ap\u00f3stolo se afei\u00e7oou a ele, lhe proporcionou a necess\u00e1ria instru\u00e7\u00e3o e, vendo-o adornado das necess\u00e1rias virtudes, o consagrou sacerdote, depois bispo, para que fizesse suas vezes em tempo de sua aus\u00eancia, e para que lhe sucedesse depois naquela sede episcopal.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando Pedro queria dar in\u00edcio \u00e0 prega\u00e7\u00e3o naquela cidade, encontrava grave obst\u00e1culo por parte do governador, que era um pr\u00edncipe de nome Te\u00f3filo. Este fez prender o santo Ap\u00f3stolo como inventor de uma religi\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 religi\u00e3o do estado. Quis, portanto, discutir sobre as coisas que pregava, e ao ouvi-lo dizer que Jesus Cristo, por amor dos homens, morreu na cruz, disse: \u201cEste \u00e9 louco, n\u00e3o se deve mais ouvi-lo.\u201d Para que ent\u00e3o fosse considerado como tal, por esc\u00e1rnio fez-lhe cortar o cabelo pela metade, deixando-lhe um c\u00edrculo ao redor da cabe\u00e7a como uma coroa. O que ent\u00e3o foi feito por desprezo, agora os eclesi\u00e1sticos usam por honra, e se chama tonsura, que lembra a coroa de espinhos colocada sobre a cabe\u00e7a do Divino Salvador.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando Pedro se viu tratado daquela maneira, pediu ao governador que se dignasse ouvi-lo mais uma vez. Sendo-lhe concedido isso, Pedro lhe disse: \u201cTu, \u00f3 Te\u00f3filo, te escandalizas por ter-me ouvido dizer que o Deus que eu adoro morreu na cruz. J\u00e1 te havia dito que Ele se fez homem, e sendo homem n\u00e3o deverias tanto te maravilhar que Ele tenha morrido, pois morrer \u00e9 pr\u00f3prio do homem. Fica sabendo, por outro lado, que Ele morreu na cruz por sua pr\u00f3pria vontade, porque com sua morte queria dar vida a todos os homens, fazendo paz entre seu Eterno Pai e a humanidade. Mas assim como te digo que Ele morreu, assim te asseguro que Ele ressuscitou por virtude pr\u00f3pria, tendo antes ressuscitado muitos outros mortos.\u201d Te\u00f3filo, ouvindo dizer que havia feito ressuscitar os mortos, se aquietou e, com ar de espanto, acrescentou: \u201cTu dizes que este teu Deus ressuscitou os mortos; agora, se tu em seu nome fizeres ressuscitar um meu filho, que morreu h\u00e1 alguns dias, eu acreditarei no que me pregas.\u201d O Ap\u00f3stolo aceitou o convite, foi ao t\u00famulo do jovem e, na presen\u00e7a de muito povo, fez uma ora\u00e7\u00e3o e em nome de Jesus Cristo o chamou \u00e0 vida<a href=\"#_ftn17\" id=\"_ftnref17\">[17]<\/a>. O que causou que o governador e toda a cidade acreditassem em Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Te\u00f3filo tornou-se em breve um fervoroso crist\u00e3o e, em sinal de estima e venera\u00e7\u00e3o por S\u00e3o Pedro, lhe ofereceu sua casa para que ele a usasse da maneira que melhor desejasse. Aquela edifica\u00e7\u00e3o foi transformada em igreja, onde o povo se reunia para assistir ao divino sacrif\u00edcio e para ouvir as prega\u00e7\u00f5es do santo Ap\u00f3stolo. A fim de poder ouvi-lo com maior comodidade e proveito, levantaram-lhe ali uma c\u00e1tedra da qual o santo dava as sagradas li\u00e7\u00f5es.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 bom notar aqui que S\u00e3o Pedro por um per\u00edodo de tr\u00eas anos, na medida do poss\u00edvel, residia em Jerusal\u00e9m como capital da Palestina, onde os judeus podiam mais facilmente se relacionar com ele. No ano trig\u00e9simo sexto ano de Jesus Cristo, tanto pela persegui\u00e7\u00e3o em Jerusal\u00e9m, quanto para preparar o caminho \u00e0 convers\u00e3o dos gentios, veio estabelecer sua sede em Antioquia: ou seja, estabeleceu a cidade de Antioquia como sua moradia ordin\u00e1ria e como centro de comunh\u00e3o com as outras Igrejas crist\u00e3s.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro governou esta Igreja de Antioquia por sete anos, at\u00e9 que, assim inspirado por Deus, transferiu sua c\u00e1tedra para Roma, como contaremos a seu tempo. O estabelecimento da Santa S\u00e9 em Antioquia \u00e9 particularmente narrado por Eus\u00e9bio de Cesareia, por S\u00e3o Jer\u00f4nimo, por S\u00e3o Le\u00e3o Magno e por muitos escritores eclesi\u00e1sticos. A Igreja cat\u00f3lica celebra este acontecimento com uma solenidade especial no dia 22 de fevereiro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto S\u00e3o Pedro estava em Antioquia, ele foi a Jerusal\u00e9m, onde recebeu uma visita que certamente lhe trouxe grande consola\u00e7\u00e3o. S\u00e3o Paulo, que havia sido convertido \u00e0 f\u00e9 por um impressionante milagre, embora tivesse sido instru\u00eddo por Jesus Cristo e enviado por ele para pregar o Evangelho, quis ir at\u00e9 S\u00e3o Pedro para venerar nele o chefe da Igreja e receber dele os avisos e instru\u00e7\u00f5es que fossem oportunos. S\u00e3o Paulo ficou em Jerusal\u00e9m com o pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos por quinze dias. Esse tempo foi suficiente para ele, pois al\u00e9m das revela\u00e7\u00f5es recebidas de Jesus Cristo, havia passado sua vida estudando as santas Escrituras e, ap\u00f3s sua convers\u00e3o, se dedicou incansavelmente \u00e0 medita\u00e7\u00e3o e \u00e0 prega\u00e7\u00e3o da palavra de Deus.<br><br><a id=\"_Toc191158570\">CAP\u00cdTULO XX. S\u00e3o Pedro visita v\u00e1rias Igrejas. \u2014 Cura Eneias, o paral\u00edtico. \u2014 Ressuscita a defunta Tabita. <em>Ano 38 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro foi encarregado pelo divino Salvador de conservar na f\u00e9 todos os crist\u00e3os; e como muitas Igrejas estavam sendo fundadas aqui e ali pelos Ap\u00f3stolos, pelos Di\u00e1conos e por outros disc\u00edpulos, assim S\u00e3o Pedro, para manter a unidade da f\u00e9 e para exercer a autoridade suprema que lhe foi conferida pelo Salvador, enquanto mantinha sua resid\u00eancia habitual em Antioquia, ia visitar pessoalmente as igrejas que naquele tempo j\u00e1 haviam sido fundadas e estavam sendo fundadas. Em certos lugares, confirmava os fi\u00e9is na f\u00e9, em outros, consolava aqueles que haviam sofrido na persegui\u00e7\u00e3o passada, aqui administrava o sacramento da Crisma, em todo lugar, ent\u00e3o, ordenava pastores e bispos, que, ap\u00f3s sua partida, continuassem a cuidar das igrejas e do rebanho de Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Passando de uma cidade a outra, chegou aos santos que habitavam em Lida, cidade distante cerca de vinte milhas de Jerusal\u00e9m. Os crist\u00e3os dos primeiros tempos, pela vida virtuosa e mortificada que levavam, eram chamados santos, e com esse nome deveriam se chamar os crist\u00e3os de hoje que, assim como aqueles, s\u00e3o chamados \u00e0 santidade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao chegar \u00e0s portas da cidade de Lida, Pedro encontrou um paral\u00edtico chamado Eneias. Este estava paralisado e completamente im\u00f3vel nos membros, e h\u00e1 oito anos n\u00e3o se movia de sua cama. Pedro, ao v\u00ea-lo, sem ser de modo algum solicitado, dirigindo-se a ele disse: \u201cEneias, o Senhor Jesus Cristo te curou; levanta-te e arruma a tua cama.\u201d Eneias levantou-se em p\u00e9, s\u00e3o e robusto, como se nunca tivesse estado enfermo. Muitos estavam presentes a este milagre, que em breve se divulgou por toda a cidade e na vizinha regi\u00e3o chamada Saron. Todos aqueles habitantes, movidos pela bondade divina que de maneira sens\u00edvel dava sinais de seu poder infinito, creram em Jesus Cristo e entraram no seio da Igreja.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pouca dist\u00e2ncia de Lida havia Jope, outra cidade situada \u00e0s margens do mar Mediterr\u00e2neo. Ali morava uma vi\u00fava crist\u00e3 chamada Tabita, a qual, por suas esmolas e por muitas obras de caridade, era universalmente chamada de m\u00e3e dos pobres. Aconteceu que, naqueles dias, ela adoeceu e, ap\u00f3s breve enfermidade, morreu, deixando em todos a mais viva dor. Segundo o costume daquelas \u00e9pocas, as mulheres lavaram seu cad\u00e1ver e o colocaram sobre o terra\u00e7o para que, a seu tempo, fosse sepultado.<br>Agora, pela proximidade de Lida, tendo se espalhado em Jope a not\u00edcia do milagre operado na cura de Eneias, foram enviados dois homens para pedir a Pedro que quisesse vir ver a falecida Tabita. Ao saber da morte daquela virtuosa disc\u00edpula de Jesus Cristo e do desejo dos crist\u00e3os que ele fosse l\u00e1 para ressuscit\u00e1-la, Pedro partiu imediatamente com eles. Ao chegar a Jope, os disc\u00edpulos o conduziram ao terra\u00e7o e, mostrando-lhe o cad\u00e1ver de Tabita, contaram-lhe as muitas boas obras daquela santa mulher e pediram-lhe que a quisesse ressuscitar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os pobres e as vi\u00favas, ao saberem da vinda de Pedro, correram chorando para pedir-lhe que quisesse devolver-lhes a boa m\u00e3e. \u201cVeja,\u201d diz uma, \u201cesta roupa foi obra de sua caridade\u201d; \u201cesta t\u00fanica, as sand\u00e1lias daquele menino,\u201d outras acrescentavam, \u201cs\u00e3o todas coisas doadas por ela.\u201d Ao ver tanta gente chorando, tantas obras de caridade sendo contadas, Pedro ficou comovido. Levantou-se e, voltando-se para o cad\u00e1ver, disse: \u201cTabita, eu te ordeno em nome de Deus, levanta-te.\u201d Tabita, naquele instante, abriu os olhos e, ao ver Pedro, sentou-se e come\u00e7ou a falar com ele. Pedro, tomando-a pela m\u00e3o, a levantou e, chamando os disc\u00edpulos, devolveu-lhes a m\u00e3e t\u00e3o esperada, s\u00e3 e salva. Grande foi a alegria que se levantou em toda a casa; de todos os lados choravam de alegria, parecendo \u00e0queles bons crist\u00e3os que haviam recuperado um tesouro naquela \u00fanica mulher, que verdadeiramente era o consolo de todos. Deste fato, os pobres aprendam a ser gratos a quem lhes oferece esmola. Aprendam os ricos o que significa ser piedoso e generoso para com os pobres.<br><br><a id=\"_Toc191158571\">CAP\u00cdTULO XXI. Deus revela a S\u00e3o Pedro a voca\u00e7\u00e3o dos Gentios. \u2014 Vai a Cesareia e batiza a fam\u00edlia do Centuri\u00e3o Corn\u00e9lio. <em>Ano 39 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deus havia feito com que seus profetas predissessem v\u00e1rias vezes que, com a vinda do Messias, todas as na\u00e7\u00f5es seriam chamadas ao conhecimento do verdadeiro Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O mesmo divino Salvador havia dado ordem expressa aos seus Ap\u00f3stolos, dizendo: \u201c<em>Ite, docete omnes gentes<\/em>\u201d (ide, ensinai a todas as na\u00e7\u00f5es). Os pr\u00f3prios pregadores do Evangelho j\u00e1 haviam recebido alguns n\u00e3o judeus \u00e0 f\u00e9, como haviam feito com o Eunuco da rainha Candace e com Te\u00f3filo, governador de Antioquia; mas estes eram casos particulares, e os Ap\u00f3stolos at\u00e9 ent\u00e3o haviam pregado quase exclusivamente o Evangelho aos judeus, aguardando do Senhor um aviso especial da \u00e9poca em que deveriam, sem exce\u00e7\u00e3o, receber \u00e0 f\u00e9 tamb\u00e9m os gentios e os pag\u00e3os. Tal revela\u00e7\u00e3o deveria certamente ser feita a S\u00e3o Pedro, chefe da Igreja. Eis como o texto sagrado exp\u00f5e este memor\u00e1vel acontecimento.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em Cesareia, cidade da Palestina, habitava um certo Corn\u00e9lio, centuri\u00e3o, ou seja, oficial de uma coorte, corpo de 100 soldados, que pertencia \u00e0 legi\u00e3o it\u00e1lica, assim chamada porque composta de soldados italianos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Sagrada Escritura faz-lhe um elogio, dizendo que ele era um homem religioso e temente a Deus; essas palavras querem dizer que ele era gentil, mas que havia abandonado a idolatria na qual nasceu, adorava o verdadeiro Deus, fazia muitas esmolas e ora\u00e7\u00f5es, e vivia religiosamente segundo o ditame da reta raz\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deus, infinitamente misericordioso, que nunca falta, com sua gra\u00e7a, em vir em socorro de quem faz o que pode de sua parte, enviou um anjo a Corn\u00e9lio para instru\u00ed-lo sobre o que deveria fazer. Estava este bom soldado fazendo ora\u00e7\u00e3o quando viu aparecer diante de si um anjo sob a apar\u00eancia de um homem vestido de branco. \u201cCorn\u00e9lio!\u201d disse o anjo. Ele, tomado de medo, fixou nele os olhares, dizendo: \u201cQuem \u00e9s Tu, Senhor; o que queres?\u201d Ent\u00e3o o anjo respondeu: \u201cDeus se lembrou de tuas esmolas; tuas ora\u00e7\u00f5es chegaram ao seu trono; e, querendo satisfazer teus desejos, me enviou para te indicar o caminho da salva\u00e7\u00e3o. Portanto, manda algu\u00e9m a Jope e procura um tal Sim\u00e3o, chamado Pedro. Ele habita junto a outro Sim\u00e3o, curtidor de peles, que tem a casa perto do mar. Deste Pedro saber\u00e1s tudo o que \u00e9 necess\u00e1rio para te salvar.\u201d N\u00e3o tardou Corn\u00e9lio a obedecer \u00e0 voz do C\u00e9u e, chamando a si dois dom\u00e9sticos e um soldado, pessoas todas que temiam a Deus, contou a vis\u00e3o e ordenou que fossem imediatamente a Jope para a finalidade indicada pelo anjo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Partiram imediatamente e, caminhando toda a noite, chegaram a Jope ao meio-dia do dia seguinte, pois a dist\u00e2ncia entre essas duas cidades \u00e9 de cerca de 40 milhas. Pouco antes de chegarem, S\u00e3o Pedro tamb\u00e9m teve uma maravilhosa revela\u00e7\u00e3o, com a qual foi confirmado que tamb\u00e9m os gentios eram chamados \u00e0 f\u00e9. Cansado de suas fadigas, o santo Ap\u00f3stolo naquele dia havia ido \u00e0 casa de seu h\u00f3spede para se restaurar e, segundo seu costume, foi primeiro a um quarto situado no andar superior para fazer ora\u00e7\u00e3o. Enquanto orava, pareceu-lhe ver o c\u00e9u aberto e do meio descer at\u00e9 a terra um certo utens\u00edlio \u00e0 maneira de um amplo len\u00e7ol, que, sustentado em suas quatro extremidades, formava como que um grande vaso cheio de toda sorte de animais quadr\u00fapedes, serpentes e aves, todos os quais eram considerados impuros, segundo a lei de Mois\u00e9s, isto \u00e9, n\u00e3o podiam ser comidos nem oferecidos a Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao mesmo tempo ouviu uma voz que disse: \u201cLevanta-te, Pedro, mata e come.\u201d At\u00f4nito o Ap\u00f3stolo respondeu a esse comando: \u201cDe modo algum comerei animais impuros, dos quais sempre me abstive.\u201d A voz acrescentou: \u201cN\u00e3o chames impuro o que Deus purificou.\u201d Depois de se ter repetido por tr\u00eas vezes a mesma vis\u00e3o, aquele vaso misterioso se elevou para o c\u00e9u e desapareceu.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os Santos Padres reconhecem figurados nesses animais impuros os pecadores e todos aqueles que, enredados no v\u00edcio e no erro, por meio do sangue de Jesus Cristo s\u00e3o purificados e recebidos em gra\u00e7a.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto Pedro estava meditando sobre o que poderia significar aquela vis\u00e3o, chegaram os tr\u00eas mensageiros. Naquele momento Deus fez com que o conhecessem e lhe ordenou que descesse para encontr\u00e1-los, se juntasse a eles e fosse com eles sem qualquer temor. Descendo, portanto, e vendo-os, disse: \u201cEis-me aqui, eu sou aquele que buscais. Qual \u00e9 o motivo da vossa vinda?\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ouvindo a vis\u00e3o de Corn\u00e9lio e a raz\u00e3o de sua viagem, compreendeu imediatamente o significado daquele misterioso len\u00e7ol; por isso os acolheu benignamente e ficaram com ele naquela noite. Na manh\u00e3 seguinte, acompanhado por seis disc\u00edpulos, partiu de Jope com os mensageiros e, em n\u00famero de dez, tomaram o caminho em dire\u00e7\u00e3o a Cesareia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s dois dias, Pedro, com toda a sua comitiva, chegou \u00e0quela cidade onde o centuri\u00e3o o aguardava com grande ansiedade. Este, para honrar ainda mais seu h\u00f3spede, convocou seus parentes e amigos, para que tamb\u00e9m pudessem participar das celestiais b\u00ean\u00e7\u00e3os que, \u00e0 chegada de Pedro, esperava obter do C\u00e9u. Quando o bom centuri\u00e3o, segundo a ordem de Deus, mandou chamar Pedro para entender dele os divinos des\u00edgnios, certamente formou uma grande ideia dele, considerando-o uma pessoa sublime e n\u00e3o semelhante aos outros homens. Portanto, ao entrar Pedro em sua casa, ele se aproximou e se lan\u00e7ou aos p\u00e9s dele em ato de ador\u00e1-lo. Pedro, cheio de humildade, imediatamente o levantou, avisando-o de que era, assim como ele, um simples homem. Continuando a falar, entraram no lugar da reuni\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; L\u00e1, na presen\u00e7a de todos, Pedro contou a ordem recebida de Deus de conversar com os gentios e de n\u00e3o mais julg\u00e1-los como abomin\u00e1veis e profanos. E concluiu: \u201cAgora estou aqui convosco; dizei-me, portanto, qual \u00e9 a raz\u00e3o pela qual me chamastes.\u201d Corn\u00e9lio obedeceu ao convite de Pedro, levantou-se e contou o que lhe havia acontecido quatro dias antes, protestando que ele e todos os presentes estavam prontos para executar tudo o que, por comiss\u00e3o divina, lhes tivesse ordenado. Ent\u00e3o Pedro, explicando o car\u00e1ter de Ap\u00f3stolo do Senhor, deposit\u00e1rio fiel da religi\u00e3o e da f\u00e9, come\u00e7ou a instruir toda aquela honrosa assembleia nos principais mist\u00e9rios do Evangelho.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro continuava seu discurso quando o Esp\u00edrito Santo desceu visivelmente sobre Corn\u00e9lio e seus familiares, e de maneira sens\u00edvel comunicou-lhes o dom das l\u00ednguas, pelo que come\u00e7aram glorificar a Deus, cantando seus louvores. S\u00e3o Pedro, vendo operar-se ali quase o mesmo prod\u00edgio ocorrido no cen\u00e1culo de Jerusal\u00e9m, exclamou: \u201cH\u00e1 porventura algu\u00e9m que possa impedir que n\u00f3s batizemos estes, que receberam o Esp\u00edrito Santo assim como n\u00f3s?\u201d Ent\u00e3o, voltando-se para seus disc\u00edpulos, ordenou que os batizassem a todos. A fam\u00edlia de Corn\u00e9lio foi a primeira de Roma e da It\u00e1lia a abra\u00e7ar a f\u00e9.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro, ap\u00f3s t\u00ea-los batizados a todos, retardou sua partida de Cesareia; ficou algum tempo para satisfazer \u00e0s piedosas inst\u00e2ncias de Corn\u00e9lio e de todos aqueles novos batizados que lhe pediam insistentemente. Pedro aproveitou aquele tempo para pregar o Evangelho naquela cidade, e tal foi o fruto que ele resolveu designar um pastor para aquela multid\u00e3o de fi\u00e9is. Este foi S\u00e3o Zaqueu, de quem se fala no Evangelho, o qual, por isso, foi consagrado primeiro bispo de Cesareia<a href=\"#_ftn18\" id=\"_ftnref18\">[18]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este fato, ou seja, o ter admitido \u00e0 f\u00e9 os gentios, causou certa inveja entre os fi\u00e9is de Jerusal\u00e9m; e n\u00e3o faltaram aqueles que desaprovaram publicamente o que S\u00e3o Pedro havia feito. Por isso, ele considerou bom ir \u00e0quela cidade, para esclarecer os iludidos e fazer conhecer que o que havia operado era por ordem de Deus. Chegando a Jerusal\u00e9m, alguns se apresentaram a ele falando-lhe ousadamente assim: \u201cPor que foste a homens n\u00e3o circuncidados e comeste com eles?\u201d Pedro, na presen\u00e7a de todos os fi\u00e9is reunidos, sem dar aten\u00e7\u00e3o \u00e0quela interroga\u00e7\u00e3o, deu-lhes raz\u00e3o do que havia feito, come\u00e7ando pela vis\u00e3o que teve em Jope, do vaso cheio de toda sorte de animais impuros, da ordem recebida de Deus de se alimentar deles, da repugn\u00e2ncia que mostrou em obedecer por temor de contradizer a lei, e da voz que se fez novamente ouvir de n\u00e3o mais chamar impuro o que havia sido purificado por Deus. Ent\u00e3o exp\u00f4s minuciosamente o que havia acontecido na casa de Corn\u00e9lio e como, na presen\u00e7a de muitos, desceu o Esp\u00edrito Santo. Ent\u00e3o toda aquela assembleia, reconhecendo a voz do Senhor na de Pedro, aquietou-se e louvou a Deus por ter estendido os limites de sua miseric\u00f3rdia.<br><br><a id=\"_Toc191158572\">CAP\u00cdTULO XXII. Herodes manda decapitar S\u00e3o Tiago Maior, e colocar S\u00e3o Pedro na pris\u00e3o. \u2014 Mas \u00e9 libertado por um Anjo. \u2014 Morte de Herodes. <em>Ano 41 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto a palavra de Deus, pregada com tanto zelo pelos Ap\u00f3stolos e disc\u00edpulos, produzia frutos de vida eterna entre os Judeus e os Gentios, a Judeia era governada por Herodes Agripa, sobrinho daquele Herodes que havia ordenado a matan\u00e7a dos inocentes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dominado por um esp\u00edrito de ambi\u00e7\u00e3o e vaidade, desejava desesperadamente conquistar o afeto do povo. Os Judeus, e especialmente aqueles que tinham alguma autoridade, souberam aproveitar essa sua propens\u00e3o para incit\u00e1-lo a perseguir a Igreja e buscar os aplausos dos perversos Judeus no sangue dos crist\u00e3os. Ele come\u00e7ou fazendo prender o Ap\u00f3stolo S\u00e3o Tiago para depois conden\u00e1-lo \u00e0 morte. Este \u00e9 S\u00e3o Tiago Maior, irm\u00e3o de S\u00e3o Jo\u00e3o Evangelista, fiel amigo de Pedro, que teve com ele muitos sinais especiais de benevol\u00eancia do Salvador.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este corajoso Ap\u00f3stolo, ap\u00f3s a descida do Esp\u00edrito Santo, pregou o Evangelho na Judeia; depois (como narra a tradi\u00e7\u00e3o) foi \u00e0 Espanha, onde converteu alguns \u00e0 f\u00e9. Retornando \u00e0 Palestina, entre outros, converteu um certo Herm\u00f3genes, homem c\u00e9lebre; o que desagradou muito a Herodes, e serviu de pretexto para faz\u00ea-lo prender. Levado diante dos tribunais, demonstrou tanta firmeza ao responder e confessar Jesus Cristo que o juiz ficou maravilhado. O seu pr\u00f3prio acusador, comovido por tanta const\u00e2ncia, renunciou ao juda\u00edsmo e se declarou publicamente crist\u00e3o, e como tal tamb\u00e9m foi condenado \u00e0 morte. Enquanto ambos eram levados ao supl\u00edcio, ele se voltou para S\u00e3o Tiago e pediu perd\u00e3o pelo que havia dito e feito contra ele. O santo Ap\u00f3stolo, dando-lhe um olhar afetuoso, disse-lhe: \u201c<em>pax tecum<\/em>\u201d (a paz esteja contigo). Ent\u00e3o o abra\u00e7ou e o beijou, protestando que de todo cora\u00e7\u00e3o o perdoava, e que como irm\u00e3o o amava. Acredita-se que deste fato se originou o sinal de paz e perd\u00e3o, que costuma ser usado entre os crist\u00e3os e especialmente no sacrif\u00edcio da santa Missa. Depois disso, aqueles dois generosos confessores da f\u00e9 tiveram a cabe\u00e7a cortada e foram se unir eternamente no C\u00e9u. Essa morte entristeceu muito os fi\u00e9is, mas alegrou sobremaneira os Judeus, que, com a morte dos chefes da religi\u00e3o, pensavam em p\u00f4r fim \u00e0 pr\u00f3pria religi\u00e3o. Herodes, vendo que a morte de S\u00e3o Tiago agradou aos Judeus, pensou em proporcionar-lhes um espet\u00e1culo mais agrad\u00e1vel, fazendo prender S\u00e3o Pedro, para depois deix\u00e1-lo \u00e0 merc\u00ea da f\u00faria cega deles. E como corria a semana dos \u00e1zimos, que para os Judeus \u00e9 tempo de j\u00fabilo e prepara\u00e7\u00e3o para a P\u00e1scoa, n\u00e3o quis macular a alegria p\u00fablica com o supl\u00edcio de um homem supostamente culpado. Carregado, portanto, de correntes, fez com que fosse conduzido entre dois guardas e ordenou que fosse cuidadosamente guardado dentro de uma obscura pris\u00e3o at\u00e9 o t\u00e9rmino daquela solenidade. Deu ent\u00e3o ordem rigorosa para que dezesseis soldados fossem colocados em guarda, os quais dia e noite vigiassem alternadamente a cust\u00f3dia da pris\u00e3o de ferro que se abria para um atalho da cidade. Certamente aquele rei sabia como Pedro j\u00e1 havia sido preso outras vezes e sa\u00eddo de maneira totalmente maravilhosa, e n\u00e3o queria que lhe acontecesse novamente algo semelhante. Mas todas essas precau\u00e7\u00f5es, portas de ferro, correntes, guardas e vigias n\u00e3o serviram para outra coisa sen\u00e3o para dar maior destaque \u00e0 obra de Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como a arma mais poderosa deixada pelo Salvador aos crist\u00e3os \u00e9 a ora\u00e7\u00e3o, assim os fi\u00e9is, privados de seu pai e pastor comum, se reuniram chorando a pris\u00e3o de S\u00e3o Pedro e continuamente apresentando ora\u00e7\u00f5es a Deus, para que o libertasse do iminente perigo. Embora essas suas ora\u00e7\u00f5es fossem fervoros\u00edssimas, n\u00e3o obstante agradou ao Senhor exercitar por alguns dias a f\u00e9 e a paci\u00eancia deles para fazer conhecer ainda mais os efeitos da onipot\u00eancia divina.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; J\u00e1 era a noite anterior ao dia fixado para a morte de Pedro. Ele estava totalmente resignado \u00e0s disposi\u00e7\u00f5es divinas, igualmente preparado para viver ou morrer pela gl\u00f3ria de seu Senhor; por isso, na escurid\u00e3o daquela horrenda pris\u00e3o, permanecia com a maior tranquilidade de seu \u00e2nimo. Pedro dormia, mas por ele vigiava Aquele que prometeu assistir sua Igreja. Era meia-noite e tudo estava em profundo sil\u00eancio, quando de repente uma luz resplandecente iluminou toda aquela pris\u00e3o. E eis que um anjo enviado por Deus sacode Pedro, despertando-o e dizendo: \u201cApressa-te, levanta-te.\u201d A tais palavras ambas as correntes se soltaram e ca\u00edram de suas m\u00e3os. Ent\u00e3o o anjo continuou: \u201cVeste-te imediatamente e p\u00f5e o cal\u00e7ado.\u201d S\u00e3o Pedro fez tudo, e o anjo prosseguiu dizendo: \u201cColoca tamb\u00e9m a capa sobre os ombros e segue-me.\u201d Pedro obedeceu; mas parecia-lhe que tudo era um sonho e que ele estava fora de si. Enquanto isso, as portas da pris\u00e3o estavam abertas, e ele sa\u00eda seguindo o anjo que ia \u00e0 sua frente. Passadas as primeiras e as segundas guardas, sem que dessem o menor sinal de v\u00ea-los, chegaram \u00e0 porta de ferro de enorme grossura, que, saindo do edif\u00edcio das pris\u00f5es, dava acesso \u00e0 cidade. Aquela porta se abriu sozinha. Saindo, portanto, caminharam um pouco juntos at\u00e9 que o anjo desapareceu. Ent\u00e3o Pedro, refletindo sobre si mesmo, disse: \u201cAgora me dou conta de que o Senhor realmente enviou seu anjo para me libertar das m\u00e3os de Herodes e do julgamento que os Judeus esperavam que ele fizesse sobre mim.\u201d Considerando bem o lugar onde estava, foi diretamente \u00e0 casa de uma certa Maria, m\u00e3e de Jo\u00e3o, chamado Marcos, onde muitos fi\u00e9is estavam reunidos em ora\u00e7\u00e3o suplicando a Deus que se dignasse vir em socorro do chefe de sua Igreja. Chegando S\u00e3o Pedro \u00e0quela casa, come\u00e7ou a bater \u00e0 porta. Uma jovem, de nome Rosa, foi ver quem era. \u201cQuem est\u00e1 a\u00ed?\u201d disse ela. E Pedro: \u201cSou eu, abra.\u201d A jovem, reconhecendo bem a voz, quase fora de si de alegria, n\u00e3o se preocupou mais em abrir a porta e, deixando-o do lado de fora, correu para avisar os donos. \u201cVoc\u00eas n\u00e3o sabem? \u00c9 Pedro.\u201d Mas eles disseram: \u201cVoc\u00ea est\u00e1 delirando, Pedro est\u00e1 na pris\u00e3o e n\u00e3o pode estar aqui a esta hora.\u201d Mas ela continuava a afirmar que era realmente ele. Eles ent\u00e3o acrescentaram: \u201cAquele que voc\u00ea viu ou ouviu pode ser seu anjo, que em sua forma veio nos dar alguma not\u00edcia.\u201d Enquanto esses discutiam com a jovem, Pedro continuava a bater mais forte dizendo: \u201cEi, abram.\u201d Isso os levou a correr rapidamente para abrir, e perceberam que era realmente Pedro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todos pensavam estar sonhando, e cada um supunha estar vendo um morto ressuscitado. Alguns perguntavam quem o havia libertado, outros quando, alguns estavam impacientes para saber se havia ocorrido algum prod\u00edgio.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ent\u00e3o Pedro, para satisfaz\u00ea-los a todos, fez sinal com a m\u00e3o para que ficassem em sil\u00eancio, e contou em ordem o que havia acontecido com o anjo e como o havia libertado da pris\u00e3o. Todos choravam de ternura e, louvando a Deus, lhe agradeciam pelo favor que lhes havia feito.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro, considerando que sua vida n\u00e3o estava segura em Jerusal\u00e9m, disse \u00e0queles disc\u00edpulos: \u201cIde e relatai essas coisas a Tiago (o Menor, bispo de Jerusal\u00e9m) e aos outros irm\u00e3os, e os livrem da preocupa\u00e7\u00e3o em que se encontram por minha causa. Quanto a mim, considero oportuno partir desta cidade e ir para outro lugar.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando a not\u00edcia se espalhou de que Deus havia assim prodigiosamente libertado o chefe da Igreja, todos os fi\u00e9is ficaram vivamente consolados.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A Igreja cat\u00f3lica celebra a mem\u00f3ria deste glorioso acontecimento em primeiro de agosto sob o t\u00edtulo de Festa de S\u00e3o Pedro em Cadeias.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas o que aconteceu com Herodes e seus guardas? Quando amanheceu o dia, os guardas que nada tinham ouvido ou visto, foram de manh\u00e3 verificar a pris\u00e3o; quando ent\u00e3o n\u00e3o encontraram mais Pedro, ficaram tomadas pelo mais profundo espanto. A coisa foi imediatamente relatada a Herodes, que ordenou que procurassem S\u00e3o Pedro, mas n\u00e3o foi poss\u00edvel encontr\u00e1-lo. Ent\u00e3o, indignado, fez processar os soldados e os condenou todos \u00e0 morte, talvez por suspeita de neglig\u00eancia ou infidelidade, tendo encontrado todas as portas da pris\u00e3o abertas.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas o infeliz Herodes n\u00e3o tardou muito a pagar o pre\u00e7o das injusti\u00e7as e dos tormentos infligidos aos seguidores de Jesus Cristo. Por alguns assuntos pol\u00edticos ele havia ido de Jerusal\u00e9m \u00e0 cidade de Cesareia, e enquanto desfrutava dos aplausos com que o povo loucamente o adulava, chamando-o de Deus, naquele mesmo instante foi ferido por um anjo do Senhor; foi levado para fora da pra\u00e7a e expirou, entre dores indescrit\u00edveis, devorado pelos vermes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este fato mostra com quanta solicitude Deus vem em aux\u00edlio de seus servos fi\u00e9is, e d\u00e1 um terr\u00edvel aviso aos malignos. Estes devem temer grandemente a m\u00e3o de Deus, que severamente pune tamb\u00e9m na vida presente aqueles que desprezam a religi\u00e3o ou as coisas sagradas ou a pessoa de seus ministros.<br><br><a id=\"_Toc191158573\">CAP\u00cdTULO XXIII. Pedro em Roma. \u2014 Ele transfere a c\u00e1tedra apost\u00f3lica. \u2014 Sua primeira carta. \u2014 Progresso do Evangelho. <em>Ano 42 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Ap\u00f3stolo S\u00e3o Pedro, ap\u00f3s ter fugido de Jerusal\u00e9m, seguindo os impulsos do Esp\u00edrito Santo, decidiu transferir a Santa S\u00e9 para Roma.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, ap\u00f3s ter mantido sua c\u00e1tedra em Antioquia por sete anos, partiu em dire\u00e7\u00e3o a Roma. Em sua viagem, pregou Jesus Cristo no Ponto e na Bit\u00ednia, que s\u00e3o duas vastas prov\u00edncias da \u00c1sia Menor. Prosseguindo sua viagem, pregou o santo Evangelho na Sic\u00edlia e em N\u00e1poles, dando a esta cidade como bispo Santo Aspreno. Finalmente chegou a Roma no ano quarenta e dois de Jesus Cristo, enquanto reinava um imperador de nome Cl\u00e1udio.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro encontrou aquela cidade num estado verdadeiramente deplor\u00e1vel. Era, diz S\u00e3o Le\u00e3o, um imenso mar de iniquidade, uma lixeira de todos os v\u00edcios, uma selva de bestas fren\u00e9ticas. As ruas, as pra\u00e7as estavam semeadas de est\u00e1tuas de bronze e de pedra adoradas como deuses, e diante daqueles horrendos simulacros queimavam incenso e ofereciam sacrif\u00edcios. O pr\u00f3prio dem\u00f4nio era honrado com nefandas imund\u00edcies; as a\u00e7\u00f5es mais vergonhosas eram reputadas atos de virtude. Acrescentem-se as leis que proibiam toda nova religi\u00e3o. Os sacerdotes id\u00f3latras e os fil\u00f3sofos eram tamb\u00e9m graves obst\u00e1culos. Al\u00e9m disso, tratava-se de pregar uma religi\u00e3o que desaprovava o culto de todos os deuses, condenava toda sorte de v\u00edcios e ordenava as mais sublimes virtudes. Todas essas dificuldades, em vez de deter o zelo do Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, lhe acenderam ainda mais o desejo de libertar aquela miser\u00e1vel cidade das trevas da morte. S\u00e3o Pedro, portanto, apoiado apenas na ajuda do Senhor, entrou em Roma para formar da metr\u00f3pole do imp\u00e9rio a primeira sede do sacerd\u00f3cio, o centro do Cristianismo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, a fama das virtudes e dos milagres de Jesus Cristo j\u00e1 havia chegado ali. Pilatos havia enviado um relat\u00f3rio ao imperador Tib\u00e9rio, o qual, comovido ao ler a santa vida e a morte do Salvador, decidira inclu\u00ed-lo entre os deuses romanos. Mas o Senhor do c\u00e9u e da terra n\u00e3o quis ser confundido com as est\u00fapidas divindades dos pag\u00e3os; e disp\u00f4s que o senado romano rejeitasse a proposta de Tib\u00e9rio como oposta \u00e0s leis do imp\u00e9rio<a href=\"#_ftn19\" id=\"_ftnref19\">[19]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro come\u00e7ou a pregar o Evangelho aos Judeus que habitavam ent\u00e3o em Trastevere, ou seja, em uma parte da cidade de Roma situada do outro lado do Tibre. Da sinagoga dos Judeus passou a pregar aos Gentios, os quais, com verdadeiro entusiasmo, corriam ansiosos para receber o Batismo. O n\u00famero deles tornou-se t\u00e3o grande, e a f\u00e9 deles t\u00e3o viva, que S\u00e3o Paulo pouco depois teve a consola\u00e7\u00e3o de escrever aos romanos estas palavras: \u201cA vossa f\u00e9 \u00e9 anunciada\u201d, ou seja, faz-se ouvir, estende sua fama por todo o mundo<a href=\"#_ftn20\" id=\"_ftnref20\">[20]<\/a>. Nem somente sobre o povo simples reca\u00edam as b\u00ean\u00e7\u00e3os do c\u00e9u, mas tamb\u00e9m sobre pessoas de primeira nobreza. Viam-se homens elevados aos mais altos cargos de Roma abandonando o culto dos falsos deuses para se colocarem sob o suave jugo de Jesus Cristo. Eus\u00e9bio, bispo de Cesareia, diz que os argumentos de Pedro eram t\u00e3o robustos e se insinuavam com tanta do\u00e7ura nos \u00e2nimos dos ouvintes, que ele se tornava senhor de seus afetos e todos ficavam como que encantados pelas palavras de vida que sa\u00edam de sua boca e n\u00e3o se cansavam de ouvi-lo. Assim grande era o n\u00famero daqueles que pediam o Batismo, que Pedro, ajudado por outros companheiros, o administrava \u00e0s margens do Tibre, da mesma forma que S\u00e3o Jo\u00e3o Batista o havia administrado ao longo do Jord\u00e3o<a href=\"#_ftn21\" id=\"_ftnref21\">[21]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chegando a Roma, Pedro morou no sub\u00farbio chamado Trastevere, a pouca dist\u00e2ncia do local onde foi ent\u00e3o edificada a Igreja de Santa Cec\u00edlia. Daqui nasceu a especial venera\u00e7\u00e3o que os moradores do bairro ainda conservam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa do Sumo Pont\u00edfice. Entre os primeiros a receber a f\u00e9 estava um senador de nome Pudente, que havia ocupado os mais altos cargos do Estado. Ele deu hospitalidade em sua casa ao Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, e ele aproveitava para celebrar os divinos Mist\u00e9rios, administrar aos fi\u00e9is a Santa Eucaristia e explicar as verdades da f\u00e9 \u00e0queles que vinham ouvi-lo. Aquela casa foi logo transformada em um templo consagrado a Deus sob o t\u00edtulo do Pastor; \u00e9 o mais antigo templo crist\u00e3o de Roma, e acredita-se que seja o mesmo que atualmente \u00e9 chamado de Santa Pudenciana. Quase simultaneamente foi fundada outra Igreja pelo mesmo Ap\u00f3stolo, que se cr\u00ea que seja aquela que hoje se chama S\u00e3o Pedro em Cadeias.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vendo como Roma estava t\u00e3o bem disposta a receber a luz do Evangelho, e ao mesmo tempo um lugar muito adequado para manter rela\u00e7\u00f5es com todos os pa\u00edses do mundo, S\u00e3o Pedro estabeleceu sua c\u00e1tedra em Roma, ou seja, estabeleceu que Roma fosse o centro e lugar de sua especial morada, para onde as v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es crist\u00e3s pudessem e devessem recorrer nas d\u00favidas de religi\u00e3o e em suas v\u00e1rias necessidades espirituais. A Igreja cat\u00f3lica celebra a festa do estabelecimento da c\u00e1tedra de S\u00e3o Pedro em Roma no dia 18 de janeiro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 preciso aqui lembrar bem que por sede ou c\u00e1tedra de S\u00e3o Pedro n\u00e3o se entende a cadeira material, mas se entende o exerc\u00edcio daquela suprema autoridade que ele havia recebido de Jesus Cristo, especialmente quando lhe disse que o que ele ligasse ou desligasse sobre a terra, tamb\u00e9m seria ligado ou desligado no c\u00e9u. Entende-se o exerc\u00edcio daquela autoridade conferida a ele por Jesus Cristo de pastorear o rebanho universal dos fi\u00e9is, sustentar e conservar os outros pastores na unidade de f\u00e9 e de doutrina como sempre fizeram os sumos pont\u00edfices de S\u00e3o Pedro at\u00e9 o atual Le\u00e3o XIII.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E visto que as ocupa\u00e7\u00f5es que S\u00e3o Pedro tinha em Roma n\u00e3o lhe permitiam mais visitar as igrejas que em v\u00e1rios pa\u00edses havia fundado, escreveu uma longa e sublime carta dirigida especialmente aos crist\u00e3os que habitavam no Ponto, na Gal\u00e1cia, na Bit\u00ednia e na Capad\u00f3cia, que s\u00e3o prov\u00edncias da \u00c1sia Menor. Ele, como pai amoroso, dirige o discurso aos seus filhos para anim\u00e1-los a serem constantes na f\u00e9 que lhes havia pregado e os adverte especialmente para se guardarem dos erros que os hereges, desde aqueles tempos, estavam espalhando contra a doutrina de Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conclui ent\u00e3o essa carta com as seguintes palavras: \u201cV\u00f3s, \u00f3 Anci\u00e3os, isto \u00e9, bispos e sacerdotes, eu vos conjuro a pastorear o rebanho de Deus, que de v\u00f3s depende, governando-o n\u00e3o por coa\u00e7\u00e3o, mas de boa vontade; n\u00e3o por torpe gan\u00e2ncia, mas de boa vontade e fazendo-vos modelo do vosso rebanho. V\u00f3s, \u00f3 jovens, v\u00f3s todos, \u00f3 crist\u00e3os, sede sujeitos aos sacerdotes com verdadeira humildade, porque Deus resiste aos soberbos e d\u00e1 sua gra\u00e7a aos humildes. Sede temperantes e vigiai, porque o dem\u00f4nio, vosso inimigo, como le\u00e3o que ruge, anda ao redor buscando a quem devorar; mas resisti-lhe corajosamente na f\u00e9. Sa\u00fadam-vos os crist\u00e3os que est\u00e3o na Babil\u00f4nia (isto \u00e9, em Roma) e sa\u00fada-vos de modo especial Marcos, meu filho em Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A gra\u00e7a do Senhor a todos v\u00f3s que viveis em Jesus Cristo. Assim seja.<a href=\"#_ftn22\" id=\"_ftnref22\">[22]<\/a>\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os romanos que haviam abra\u00e7ado com grande fervor a f\u00e9 pregada por Pedro manifestaram a S\u00e3o Marcos, fiel disc\u00edpulo do Ap\u00f3stolo, o vivo desejo de que colocasse por escrito aquilo que Pedro pregava. S\u00e3o Marcos, de fato, havia acompanhado o Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos em v\u00e1rias viagens e o havia ouvido pregar em muitos lugares. Portanto, a partir do que havia ouvido nas prega\u00e7\u00f5es e nas conversas familiares com seu mestre, e de modo todo especial iluminado e inspirado pelo Esp\u00edrito Santo, estava realmente em condi\u00e7\u00f5es de satisfazer os piedosos desejos daqueles fi\u00e9is. Por isso, disp\u00f4s-se a escrever o Evangelho, ou seja, um relato fiel das a\u00e7\u00f5es do Salvador; e \u00e9 isso que temos hoje sob o nome de Evangelho segundo S\u00e3o Marcos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro, de Roma, enviou v\u00e1rios de seus disc\u00edpulos a diferentes partes da It\u00e1lia e em muitos pa\u00edses do mundo. Enviou Santo Apolin\u00e1rio a Ravena, S\u00e3o Tr\u00f3fimo \u00e0 G\u00e1lia e precisamente \u00e0 cidade de Arles, de onde o Evangelho se propagou para os outros lugares da Fran\u00e7a; mandou S\u00e3o Marcos a Alexandria do Egito para fundar em seu nome aquela igreja. Assim, a cidade de Roma, capital de todo o Imp\u00e9rio Romano, a cidade de Alexandria, que era a primeira depois de Roma, e a de Antioquia, capital de todo o Oriente, tiveram como fundador o Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, e tornaram-se, portanto, as tr\u00eas primeiras sedes patriarcais, entre as quais foi por mais s\u00e9culos repartido o dom\u00ednio do mundo cat\u00f3lico, sempre salvaguardando a depend\u00eancia dos patriarcas alexandrino e antioqueno ao Pont\u00edfice Romano, chefe de toda a Igreja, pastor universal, centro de unidade. Enquanto S\u00e3o Pedro enviava tantos de seus disc\u00edpulos para pregar em outros lugares o Evangelho, ele em Roma ordenava sacerdotes, consagrava bispos, entre os quais havia escolhido S\u00e3o Zino como vig\u00e1rio para fazer suas vezes nas ocasi\u00f5es em que algum grave assunto o obrigasse a se afastar daquela cidade.<br><br><a id=\"_Toc191158574\">CAP\u00cdTULO XXIV. S\u00e3o Pedro no conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m define uma quest\u00e3o. \u2014 S\u00e3o Tiago confirma seu julgamento. <em>Ano 50 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Roma era a morada ordin\u00e1ria do Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, mas seus cuidados deviam se estender a todos os fi\u00e9is crist\u00e3os. Portanto, caso surgissem dificuldades ou quest\u00f5es a respeito de assuntos de religi\u00e3o, ele enviava algum de seus disc\u00edpulos, ou escrevia cartas a respeito e \u00e0s vezes ia ele mesmo pessoalmente, como de fato fez na ocasi\u00e3o em que em Antioquia surgiu uma quest\u00e3o entre os judeus e os gentios.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os hebreus acreditavam que, para serem bons crist\u00e3os, era necess\u00e1rio receber a circuncis\u00e3o e observar todas as cerim\u00f4nias da lei de Mois\u00e9s. Os gentios se recusavam a se submeter a essa pretens\u00e3o dos judeus, e a situa\u00e7\u00e3o chegou a tal ponto que derivava grave dano e esc\u00e2ndalo entre os simples fi\u00e9is e entre os pr\u00f3prios pregadores do Evangelho. Portanto, S\u00e3o Paulo e S\u00e3o Barnab\u00e9 julgaram bem recorrer ao julgamento do chefe da Igreja e dos outros Ap\u00f3stolos, para que com sua autoridade resolvessem toda d\u00favida.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro, portanto, foi de Roma a Jerusal\u00e9m para convocar um conc\u00edlio geral. Pois se o Senhor prometeu sua assist\u00eancia ao chefe da Igreja, para que sua f\u00e9 n\u00e3o falhasse, certamente o assiste tamb\u00e9m quando est\u00e3o reunidos com ele os principais pastores da Igreja; tanto mais que Jesus Cristo nos assegurou estar de fato no meio daqueles que, mesmo em n\u00famero de apenas dois, se reunissem em seu nome. Chegando, portanto, o Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos \u00e0quela cidade, convidou todos os outros Ap\u00f3stolos e todos os principais pastores que p\u00f4de reunir; ent\u00e3o Paulo e Barnab\u00e9, acolhidos em conc\u00edlio, expuseram em plena assembleia sua embaixada em nome dos gentios de Antioquia; mostraram as raz\u00f5es e os temores de uma parte e da outra, pedindo sua delibera\u00e7\u00e3o para a quietude e a seguran\u00e7a das consci\u00eancias. Dizia S\u00e3o Paulo: \u201cH\u00e1 alguns da seita dos fariseus, os quais acreditaram e afirmam ser necess\u00e1rio que, como os judeus, tamb\u00e9m os gentios sejam circuncidados e devam observar a lei de Mois\u00e9s, se quiserem obter a salva\u00e7\u00e3o.\u201d Aquela veneranda assembleia come\u00e7ou a examinar este ponto; e ap\u00f3s madura discuss\u00e3o sobre a mat\u00e9ria proposta, levantou-se Pedro e come\u00e7ou a falar assim: \u201cIrm\u00e3os, bem sabeis como Deus me elegeu para fazer conhecer aos gentios a luz do Evangelho e as verdades da f\u00e9, como aconteceu com o centuri\u00e3o Corn\u00e9lio e com toda a sua fam\u00edlia. Agora, Deus que conhece os cora\u00e7\u00f5es dos homens deu testemunho \u00e0queles bons gentios, enviando sobre eles o Esp\u00edrito Santo, como havia feito sobre n\u00f3s, e nenhuma diferen\u00e7a fez entre n\u00f3s e eles, mostrando que a f\u00e9 os havia purificado das impurezas que antes os exclu\u00edam da gra\u00e7a. Portanto, a coisa \u00e9 clara: sem circuncis\u00e3o os gentios s\u00e3o justificados pela f\u00e9 em Jesus Cristo. Por que, portanto, queremos tentar a Deus, quase provocando-o a nos dar uma prova mais segura de sua vontade? Por que impor a esses nossos irm\u00e3os gentios um jugo que com dificuldade n\u00f3s e nossos pais pudemos suportar? Portanto, n\u00f3s cremos que pela \u00fanica gra\u00e7a de nosso Senhor Jesus Cristo, tanto os judeus quanto os gentios, devem ser salvos.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s a senten\u00e7a do Vig\u00e1rio de Jesus Cristo, silenciou-se e aquietou-se toda aquela assembleia. Paulo e Barnab\u00e9 confirmaram o que havia dito Pedro, contando as convers\u00f5es e os milagres que Deus se havia dignado operar por meio deles entre os gentios que haviam convertido ao Evangelho.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando Paulo e Barnab\u00e9 terminaram de falar, S\u00e3o Tiago, bispo de Jerusal\u00e9m, confirmou o julgamento de Pedro, dizendo: \u201cIrm\u00e3os, agora prestai aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m a mim. Bem disse Pedro que desde o princ\u00edpio Deus concedeu a gra\u00e7a aos gentios, formando um s\u00f3 povo que glorificasse seu santo nome. Agora isso \u00e9 confirmado pelas palavras dos profetas, as quais vemos nestes fatos se cumprirem. Por isso, eu julgo com Pedro que os gentios n\u00e3o devem ser inquietados depois que se converteram a Jesus Cristo; somente me parece que se deve ordenar a eles que, por respeito \u00e0 d\u00e9bil consci\u00eancia dos irm\u00e3os judeus e para facilitar a uni\u00e3o entre esses dois povos, seja proibido comer coisas sacrificadas aos \u00eddolos, carnes sufocadas, o sangue; e seja tamb\u00e9m proibida a fornica\u00e7\u00e3o.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta \u00faltima coisa, isto \u00e9, a fornica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o era necess\u00e1rio proibi-la, sendo totalmente contr\u00e1ria aos ditames da raz\u00e3o e proibida pelo sexto artigo do Dec\u00e1logo. Foi, entretanto, renovada tal proibi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos gentios, porque no culto a suas falsas divindades pensavam que era coisa l\u00edcita, ou at\u00e9 agrad\u00e1vel, fazer ofertas de coisas imundas e obscenas.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O julgamento de S\u00e3o Pedro, assim confirmado por S\u00e3o Tiago, agradou a todo o conc\u00edlio; portanto, de comum acordo determinaram eleger pessoas autorizadas para enviar a Antioquia com Paulo e Barnab\u00e9. A estes, em nome do conc\u00edlio, foram entregues cartas que continham as decis\u00f5es tomadas. As cartas eram deste teor: \u201cOs Ap\u00f3stolos e os irm\u00e3os sacerdotes aos irm\u00e3os gentios que est\u00e3o em Antioquia, na S\u00edria, na Cil\u00edcia, sa\u00fade. Tendo n\u00f3s entendido que alguns vindo da\u00ed t\u00eam perturbado e angustiado as vossas consci\u00eancias com ideias arbitr\u00e1rias, pareceu bem a n\u00f3s aqui reunidos escolher e enviar a v\u00f3s Paulo e Barnab\u00e9, homens a n\u00f3s car\u00edssimos, que sacrificaram sua vida e a expuseram ao perigo pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Com eles enviamos Silas e Judas, os quais, entregando-vos nossas cartas, vos confirmar\u00e3o de viva voz as mesmas verdades. De fato, foi julgado pelo Esp\u00edrito Santo e por n\u00f3s n\u00e3o vos impor qualquer outro \u00f4nus, exceto aquilo que deveis observar, isto \u00e9, de abster-vos das coisas sacrificadas aos \u00eddolos, das carnes sufocadas, do sangue e da fornica\u00e7\u00e3o. Fareis bem abstendo-vos destas coisas. Ficai em paz.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este foi o primeiro conc\u00edlio geral ao qual presidiu S\u00e3o Pedro, no qual, como Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos e chefe da Igreja, definiu a quest\u00e3o com a assist\u00eancia do Esp\u00edrito Santo. Assim, todo fiel crist\u00e3o deve crer que as coisas definidas pelos conc\u00edlios gerais reunidos e confirmados pelo Sumo Pont\u00edfice, Vig\u00e1rio de Jesus Cristo e sucessor de S\u00e3o Pedro, s\u00e3o verdades cert\u00edssimas, que d\u00e3o os mesmos motivos de credibilidade como se sa\u00edssem da boca do Esp\u00edrito Santo, porque eles representam a Igreja com seu chefe, a quem Deus prometeu sua infalibilidade at\u00e9 o fim dos s\u00e9culos.<br><br><a id=\"_Toc191158575\">CAP\u00cdTULO XXV. S\u00e3o Pedro confere a S\u00e3o Paulo e a S\u00e3o Barnab\u00e9 a plenitude do Apostolado. \u2014 \u00c9 advertido por S\u00e3o Paulo. \u2014 Retorna a Roma. <em>Ano 54 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deus j\u00e1 havia feito conhecer mais vezes que queria enviar S\u00e3o Paulo e S\u00e3o Barnab\u00e9 para pregar aos gentios. Mas at\u00e9 ent\u00e3o exerciam seu sagrado minist\u00e9rio como simples sacerdotes, e talvez tamb\u00e9m como bispos, sem que ainda lhes fosse conferida a plenitude do apostolado. Quando ent\u00e3o foram a Jerusal\u00e9m por causa do conc\u00edlio e contaram as maravilhas operadas por Deus por meio deles entre os gentios, permaneceram tamb\u00e9m em especiais conversas com S\u00e3o Pedro, Tiago e Jo\u00e3o. Contaram, diz o texto sagrado, grandes maravilhas \u00e0queles que ocupavam os primeiros cargos na Igreja, entre os quais estavam certamente os tr\u00eas Ap\u00f3stolos nomeados, que se consideravam como as tr\u00eas colunas principais da Igreja. Foi nesta ocasi\u00e3o, diz Santo Agostinho, que S\u00e3o Pedro, como chefe da Igreja, Vig\u00e1rio de Jesus Cristo e divinamente inspirado, conferiu a Paulo e a Barnab\u00e9 a plenitude do apostolado, com a incumb\u00eancia de levar a luz do Evangelho aos gentios. Assim, S\u00e3o Paulo foi elevado \u00e0 dignidade de Ap\u00f3stolo, com a mesma plenitude de poderes que gozavam os outros Ap\u00f3stolos estabelecidos por Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo moravam em Antioquia, ocorreu um fato que merece ser referido. S\u00e3o Pedro estava certamente persuadido de que as cerim\u00f4nias da lei de Mois\u00e9s n\u00e3o eram mais obrigat\u00f3rias para os gentios; no entanto, quando se encontrava com os judeus, comia \u00e0 maneira judaica, temendo descontent\u00e1-los, se agisse de outra forma. Tal condescend\u00eancia era causa de que muitos gentios se esfriassem na f\u00e9; portanto, surgia avers\u00e3o entre gentios e judeus, e se rompia aquele v\u00ednculo de caridade que forma o car\u00e1ter dos verdadeiros seguidores de Jesus Cristo. S\u00e3o Pedro ignorava as conversas que tinham lugar por causa deste fato. Mas S\u00e3o Paulo, percebendo que tal conduta de Pedro poderia gerar esc\u00e2ndalo na comunidade dos fi\u00e9is, pensou em corrigi-lo publicamente, dizendo: \u201cSe tu, sendo judeu, conheceste pela f\u00e9 que podes viver como os gentios e n\u00e3o como os judeus, por que com teu exemplo queres obrigar os gentios \u00e0 observ\u00e2ncia da lei judaica?\u201d S\u00e3o Pedro ficou muito contente com tal aviso, pois com aquele fato se publicava diante de todos os fi\u00e9is que a lei cerimonial de Mois\u00e9s n\u00e3o era mais obrigat\u00f3ria, e como aquele que a outros pregava a humildade de Cristo Jesus, soube pratic\u00e1-la ele mesmo, n\u00e3o dando o m\u00ednimo sinal de ressentimento. Desde ent\u00e3o n\u00e3o teve mais qualquer considera\u00e7\u00e3o pelas cerim\u00f4nias contidas na lei de Mois\u00e9s.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deve-se aqui, no entanto, notar com os Santos Padres que o que fazia S\u00e3o Pedro n\u00e3o era mau em si, mas fornecia aos crist\u00e3os motivo de disc\u00f3rdia. Quer-se ainda que S\u00e3o Pedro tenha estado de acordo com S\u00e3o Paulo a respeito da corre\u00e7\u00e3o a ser feita publicamente, a fim de que fosse ainda mais conhecida a cessa\u00e7\u00e3o da lei cerimonial de Mois\u00e9s. De Antioquia foi pregar em v\u00e1rias cidades, at\u00e9 que foi avisado por Deus de retornar a Roma, para assistir os fi\u00e9is em uma feroz persegui\u00e7\u00e3o excitada contra os crist\u00e3os. Quando S\u00e3o Pedro chegou \u00e0quela cidade, Nero governava o imp\u00e9rio, homem cheio de v\u00edcios e, por consequ\u00eancia, o mais adverso ao cristianismo. Propositalmente ele havia feito atear fogo em v\u00e1rios pontos daquela capital, de modo que muitos cidad\u00e3os foram em grande parte consumidos pelas chamas; e depois jogava a culpa daquela malvada a\u00e7\u00e3o sobre os crist\u00e3os. Em sua crueldade, Nero havia mandado matar um virtuoso fil\u00f3sofo, de nome S\u00eaneca, que fora seu mestre. Sua pr\u00f3pria m\u00e3e pereceu v\u00edtima daquele filho desnaturado. Mas a gravidade desses crimes fez uma terr\u00edvel impress\u00e3o tamb\u00e9m no cora\u00e7\u00e3o embrutecido de Nero, tanto que lhe parecia ver espectros que o acompanhavam dia e noite. Portanto, buscava apaziguar as sombras infernais, ou melhor, os remorsos da consci\u00eancia, com sacrif\u00edcios. Desejando ent\u00e3o buscar procurar algum al\u00edvio, mandou chamar os magos mais acreditados, para fazer uso de sua magia e de seus encantamentos. O mago Sim\u00e3o, aquele mesmo que havia tentado comprar de S\u00e3o Pedro os dons do Esp\u00edrito Santo, aproveitou-se da aus\u00eancia do Santo Ap\u00f3stolo a fim de ir para l\u00e1 e, \u00e0 for\u00e7a de adula\u00e7\u00f5es ao imperador, desacreditar a religi\u00e3o crist\u00e3.<br><br><a id=\"_Toc191158576\">CAP\u00cdTULO XXVI. S\u00e3o Pedro ressuscita um morto. <em>Ano 66 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O mago Sim\u00e3o sabia que, se pudesse fazer algum milagre, ganharia grande cr\u00e9dito. Aqueles que S\u00e3o Pedro realizava em toda parte serviam apenas para acend\u00ea-lo ainda mais de inveja e raiva; por isso, ele estudava algum prest\u00edgio para se mostrar superior a S\u00e3o Pedro. Confrontou com ele v\u00e1rias vezes, mas sempre saiu cheio de confus\u00e3o. E como se gabava de saber curar enfermidades, prolongar a vida, ressuscitar os mortos, coisas que ele via serem feitas por S\u00e3o Pedro, aconteceu que foi convidado a fazer o mesmo. Um jovem de fam\u00edlia nobre e parente do imperador havia morrido. Seus pais, inconsol\u00e1veis, foram aconselhados a recorrer a S\u00e3o Pedro para que ele viesse traz\u00ea-lo de volta \u00e0 vida. Outros, no entanto, convidaram Sim\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ambos chegaram ao mesmo tempo \u00e0 casa do falecido. S\u00e3o Pedro, de bom grado, consentiu que Sim\u00e3o fizesse suas tentativas para devolver a vida ao morto; pois sabia que somente Deus pode operar verdadeiros milagres, e que ningu\u00e9m pode se gabar de t\u00ea-los realizado, exceto por virtude divina e em confirma\u00e7\u00e3o da religi\u00e3o cat\u00f3lica, e que, portanto, todos os esfor\u00e7os do \u00edmpio Sim\u00e3o seriam em v\u00e3o. Cheio de arrog\u00e2ncia e impulsionado pelo esp\u00edrito maligno, Sim\u00e3o aceitou loucamente o desafio; e, convencido de que venceria, prop\u00f4s a seguinte condi\u00e7\u00e3o: se Pedro conseguisse ressuscitar o morto, eu seria condenado \u00e0 morte; mas se eu der vida a este cad\u00e1ver, Pedro pagar\u00e1 com sua cabe\u00e7a. N\u00e3o havendo entre os presentes quem recusasse aquela proposta. S\u00e3o Pedro aceitou de boa vontade e o mago se preparou para a fa\u00e7anha.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele se aproximou do caix\u00e3o do falecido e, invocando o dem\u00f4nio e realizando mil outros encantamentos, pareceu a alguns que aquele corpo frio dava algum sinal de vida. Ent\u00e3o, os partid\u00e1rios de Sim\u00e3o come\u00e7aram a gritar que Pedro deveria morrer. O Santo Ap\u00f3stolo ria daquela impostura e, modestamente pedindo a todos que quisessem silenciar por um momento, disse: \u201cSe o morto ressuscitou, que se levante, caminhe e fale; <em>si resuscitatus est, surgat, ambulet, fabuletur<\/em>. N\u00e3o \u00e9 verdade que ele mova a cabe\u00e7a ou d\u00ea sinal de vida, \u00e9 a vossa fantasia que vos faz pensar assim. Ordenem a Sim\u00e3o que se afaste do leito; e logo ver\u00e3o desaparecer do morto toda esperan\u00e7a de vida.<a href=\"#_ftn23\" id=\"_ftnref23\">[23]<\/a>\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim foi feito, e aquele que antes estava morto continuava a jazer como uma pedra sem esp\u00edrito e movimento. Ent\u00e3o, o Santo Ap\u00f3stolo se ajoelhou a pouca dist\u00e2ncia do caix\u00e3o e come\u00e7ou a orar fervorosamente ao Senhor, suplicando-lhe que glorificasse seu santo nome para confus\u00e3o dos \u00edmpios e conforto dos bons. Ap\u00f3s breve ora\u00e7\u00e3o, voltando-se para o cad\u00e1ver, disse em voz alta: \u201cJovem, levanta-te; o Senhor Jesus te d\u00e1 a vida e a sa\u00fade.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao comando dessa voz, a qual a morte estava acostumada a obedecer, o esp\u00edrito voltou prontamente a vivificar aquele corpo frio; e para que n\u00e3o parecesse uma ilus\u00e3o, ele se levantou, falou, caminhou e foi alimentado. Al\u00e9m disso, Pedro o tomou pela m\u00e3o e, vivo e s\u00e3o, o devolveu \u00e0 m\u00e3e. Aquela boa mulher n\u00e3o sabia como expressar sua gratid\u00e3o ao Santo, e humildemente pediu-lhe que n\u00e3o quisesse deixar sua casa, para que n\u00e3o fosse abandonado quem havia ressuscitado por suas m\u00e3os. S\u00e3o Pedro a confortou, dizendo: \u201cN\u00f3s somos servos do Senhor, ele o ressuscitou e nunca o abandonar\u00e1. N\u00e3o temas por teu filho, pois ele tem seu guardi\u00e3o.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Restava agora que o mago fosse condenado \u00e0 morte, e j\u00e1 uma multid\u00e3o estava pronta para apedrej\u00e1-lo sob uma chuva de pedras, se o Ap\u00f3stolo, movido de compaix\u00e3o por ele, n\u00e3o tivesse pedido que fosse deixado em vida, dizendo que para ele era castigo bastante a grande a vergonha que havia sentido. Disse: \u201cViva, mas viva para ver crescer e se expandir cada vez mais o reino de Jesus Cristo.\u201d<br><br><a id=\"_Toc191158577\">CAP\u00cdTULO XXVII. Voo. \u2014 Queda. \u2014 Morte desesperada de Sim\u00e3o Mago. <em>Ano 67 de Jesus Cristo<\/em>.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na ressurrei\u00e7\u00e3o daquele jovem, o mago Sim\u00e3o deveria admirar a bondade e a caridade de Pedro, e ao mesmo tempo reconhecer a interven\u00e7\u00e3o da pot\u00eancia divina, e assim abandonar o dem\u00f4nio a quem servia h\u00e1 tanto tempo; mas o orgulho o tornou ainda mais obstinado. Animado pelo esp\u00edrito de Satan\u00e1s, ele se enfureceu mais do que nunca e resolveu a qualquer custo se vingar de S\u00e3o Pedro. Com esse pensamento, um dia foi at\u00e9 Nero e disse que estava enojado com os galileus, ou seja, os crist\u00e3os, que estava decidido a abandonar o mundo e que, para dar a todos uma prova infal\u00edvel de sua divindade, queria subir por si mesmo ao C\u00e9u.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A proposta agradou muito a Nero; e como desejava sempre encontrar novos pretextos para perseguir os crist\u00e3os, fez avisar S\u00e3o Pedro, que segundo ele era um grande conhecedor de magia, e desafiou-o a fazer o mesmo e a provar que Sim\u00e3o era um mentiroso; que se n\u00e3o o fizesse, ele mesmo seria julgado mentiroso e impostor, e como tal condenado \u00e0 decapita\u00e7\u00e3o. O Ap\u00f3stolo, apoiado na prote\u00e7\u00e3o do C\u00e9u, que nunca falta em defesa da verdade, aceitou o convite. S\u00e3o Pedro, portanto, sem qualquer socorro humano, se armou do escudo inexpugn\u00e1vel da ora\u00e7\u00e3o. Ele tamb\u00e9m ordenou a todos os fi\u00e9is que, com jejum, unissem as pr\u00f3prias ora\u00e7\u00f5es \u00e0s suas. Ele tamb\u00e9m ordenou a todos os fi\u00e9is que, com jejum universal e ora\u00e7\u00f5es cont\u00ednuas, invocassem a divina miseric\u00f3rdia. O dia em que essas pr\u00e1ticas religiosas eram realizadas era s\u00e1bado, e da\u00ed surgiu o jejum do s\u00e1bado, que nos tempos de Santo Agostinho ainda era praticado em Roma em mem\u00f3ria deste acontecimento.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Por outro lado, o Mago Sim\u00e3o, todo empolgado pelo favor prometido por seus dem\u00f4nios, se preparava para tramar e concluir com eles a fraude, e em sua loucura acreditava que com esse golpe derrubaria a Igreja de Jesus Cristo. Chegou o dia marcado. Uma imensa multid\u00e3o estava reunida em uma grande pra\u00e7a de Roma. Nero, com toda a corte, vestido com roupas brilhantes de ouro e gemas, estava sentado em uma tribuna sob um riqu\u00edssimo pavilh\u00e3o, observando e confortando seu campe\u00e3o. Fez-se um profundo sil\u00eancio. Apareceu Sim\u00e3o vestido como se fosse um Deus e, fingindo tranquilidade, mostrava seguran\u00e7a de conquistar a vit\u00f3ria. Enquanto se exibia em discursos pomposos, de repente apareceu no ar uma carruagem de fogo, (era toda uma ilus\u00e3o diab\u00f3lica e jogo de fantasia). Sendo o mago recebido dentro dela \u00e0 vista de todo o povo, o dem\u00f4nio o levantou do ch\u00e3o e o transportou pelo ar. J\u00e1 tocava as nuvens e come\u00e7ava a desaparecer da vista do povo, que, com os olhos voltados para cima, jubilando de maravilha e batendo palmas, gritava: Vit\u00f3ria! Milagre! Gl\u00f3ria e honra a Sim\u00e3o, verdadeiro filho dos Deuses!<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pedro, em companhia de S\u00e3o Paulo, sem qualquer ostenta\u00e7\u00e3o, se ajoelhou no ch\u00e3o e, com as m\u00e3os levantadas ao C\u00e9u, fervorosamente orou a Jesus Cristo que quisesse vir em aux\u00edlio de sua Igreja para fazer triunfar a verdade diante daquele povo iludido. Dito e feito: a m\u00e3o de Deus onipotente, que havia permitido que os esp\u00edritos malignos levantassem Sim\u00e3o at\u00e9 \u00e0quela altura, de repente retirou deles todo poder, de modo que, privados de for\u00e7a, tiveram que abandon\u00e1-lo no mais grave perigo e no auge de sua gl\u00f3ria. Retirada de Sim\u00e3o a virtude diab\u00f3lica, abandonado ao peso de seu corpo gordo, ele teve uma queda desastrosa e despencou com tal \u00edmpeto ao ch\u00e3o que, despeda\u00e7ando-se em todos os membros, espirrou sangue at\u00e9 o tribunal de Nero. Tal queda ocorreu perto de um templo dedicado a R\u00f4mulo, onde hoje existe a igreja dos santos Cosme e Dami\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O infeliz Sim\u00e3o certamente deveria ter perdido a vida se S\u00e3o Pedro n\u00e3o tivesse invocado Deus a seu favor. Pedro, diz S\u00e3o M\u00e1ximo, orou ao Senhor para livr\u00e1-lo da morte, tanto para fazer conhecer a Sim\u00e3o a fraqueza de seus dem\u00f4nios, quanto para que, confessando o poder de Jesus Cristo, implorasse dele o perd\u00e3o de suas culpas. Mas aquele que h\u00e1 muito fazia profiss\u00e3o de desprezar as gra\u00e7as do Senhor, era obstinado demais para se render, mesmo neste caso, em que Deus derramava em abund\u00e2ncia a sua miseric\u00f3rdia. Sim\u00e3o, tornando-se o objeto das zombarias de todo o povo, cheio de confus\u00e3o, pediu a alguns de seus amigos que o levassem para longe dali. Levado a uma casa pr\u00f3xima, sobreviveu ainda alguns dias; at\u00e9 que, oprimido pela dor e pela vergonha, se apegou \u00e0 desesperada decis\u00e3o de se livrar daqueles miser\u00e1veis restos de vida e, jogando-se de uma janela, se deu assim voluntariamente a morte<a href=\"#_ftn24\" id=\"_ftnref24\">[24]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A queda de Sim\u00e3o \u00e9 viva imagem da queda daqueles crist\u00e3os que, ou renegando a religi\u00e3o crist\u00e3 ou negligenciando observ\u00e1-la, caem do sublime grau de virtude a que a f\u00e9 crist\u00e3 os elevou, e se arru\u00ednam miseravelmente nos v\u00edcios e desordens, com desonra do car\u00e1ter crist\u00e3o e da religi\u00e3o que professam e com dano, \u00e0s vezes irrepar\u00e1vel, para suas almas.<br><br><a id=\"_Toc191158578\">CAP\u00cdTULO XXVIII. Pedro \u00e9 procurado para morrer. \u2014 Jesus lhe aparece e lhe prediz iminente o mart\u00edrio. \u2014 Testamento do santo Ap\u00f3stolo.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O supl\u00edcio que coube a Sim\u00e3o Mago, enquanto tornava evidente a vingan\u00e7a do C\u00e9u, contribuiu muito para aumentar o n\u00famero de crist\u00e3os. Nero, por outro lado, vendo uma multid\u00e3o de pessoas abandonarem o culto profano dos Deuses para professar a religi\u00e3o pregada por S\u00e3o Pedro, e percebendo que o Santo Ap\u00f3stolo, com a prega\u00e7\u00e3o, havia conseguido ganhar pessoas muito favorecidas por ele, e aquelas mesmas que na corte eram instrumentos de iniquidade, sentiu aumentar sua raiva contra os crist\u00e3os e come\u00e7ou a se tornar ainda mais cruel contra eles.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em meio ao furor daquela persegui\u00e7\u00e3o, Pedro era incans\u00e1vel em animar os fi\u00e9is a serem constantes na f\u00e9 at\u00e9 a morte e em converter novos gentios, de modo que o sangue dos m\u00e1rtires, longe de aterrorizar os crist\u00e3os e diminuir seu n\u00famero, era uma semente fecunda que a cada dia os multiplicava. Somente os judeus de Roma, talvez estimulados pelos judeus da Judeia, se mostravam obstinados. Portanto, Deus, querendo chegar \u00e0 \u00faltima prova para vencer sua obstina\u00e7\u00e3o, fez publicamente predizer por seu Ap\u00f3stolo que em breve suscitaria um rei contra aquela na\u00e7\u00e3o, o qual, ap\u00f3s reduzi-la \u00e0s mais graves ang\u00fastias, nivelaria ao ch\u00e3o sua cidade, for\u00e7ando os cidad\u00e3os a morrerem de fome e sede. Ent\u00e3o, dizia-lhes, ver-se-\u00e3o alguns comerem os corpos dos outros e se consumirem mutuamente, at\u00e9 que, entregues a seus inimigos, ver\u00e3o sob seus olhos estra\u00e7alharem cruelmente suas esposas, suas filhas e seus filhos, espancados e mortos sobre as pedras; suas pr\u00f3prias terras ser\u00e3o reduzidas a desola\u00e7\u00e3o e ru\u00edna pelo ferro e pelo fogo. Aqueles que escaparem da calamidade comum ser\u00e3o vendidos como animais de carga e sujeitos \u00e0 servid\u00e3o perp\u00e9tua. Tais males vir\u00e3o sobre os filhos de Jac\u00f3, porque se alegraram com a morte do Filho de Deus e agora se recusam a crer nele<a href=\"#_ftn25\" id=\"_ftnref25\">[25]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas sabendo bem os ministros da persegui\u00e7\u00e3o que se esfor\u00e7ariam em v\u00e3o se n\u00e3o eliminassem o chefe dos crist\u00e3os, voltaram-se contra ele para t\u00ea-lo em suas m\u00e3os e mat\u00e1-lo. Os fi\u00e9is, considerando a perda que teriam com sua morte, estudavam todos os meios para impedir que ele ca\u00edsse nas m\u00e3os dos perseguidores. Quando perceberam que era imposs\u00edvel que ele pudesse permanecer escondido por mais tempo, aconselharam-no a sair de Roma e se retirar para um lugar onde fosse menos conhecido. Pedro se recusava a tais conselhos sugeridos pelo amor filial e, na verdade, ardentemente desejava a coroa do mart\u00edrio. Mas, continuando os fi\u00e9is a implorar-lhe que fizesse isso pelo bem da Igreja de Deus, ou seja, tentasse conservar-se vivo para instruir, confirmar na f\u00e9 os crentes e ganhar almas para Cristo, finalmente ele consentiu e decidiu-se a partir.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c0 noite, despediu-se dos fi\u00e9is para escapar ao furor dos id\u00f3latras. Mas, ao chegar fora da cidade, pela Porta Capena, hoje chamada Porta S\u00e3o Sebasti\u00e3o, apareceu-lhe Jesus Cristo na mesma apar\u00eancia em que o havia conhecido e partilhado sua vida com por diversos anos. O Ap\u00f3stolo, embora surpreso com essa apari\u00e7\u00e3o inesperada, no entanto, segundo sua prontid\u00e3o de esp\u00edrito, se animou a interrog\u00e1-lo, dizendo: \u201c\u00d3 Senhor, para onde vais?\u201d <strong><em>Domine, quo vadis?<\/em><\/strong> Respondeu Jesus: \u201cEu vou a Roma para ser crucificado novamente.\u201d Dito isso, desapareceu.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante dessas palavras, Pedro compreendeu que sua pr\u00f3pria crucifica\u00e7\u00e3o era iminente, pois sabia que o Senhor n\u00e3o poderia mais ser crucificado por si mesmo, mas deveria ser crucificado na pessoa de seu Ap\u00f3stolo. Em mem\u00f3ria desse acontecimento, fora da Porta S\u00e3o Sebasti\u00e3o foi edificada uma igreja chamada ainda hoje \u201c<em>Domine, quo vadis<\/em>\u201d, ou \u201cSanta Maria ad Passus\u201d, isto \u00e9, Santa Maria aos p\u00e9s, porque o Salvador, naquele lugar, onde falou a S\u00e3o Pedro, deixou impressa em uma pedra a sagrada pegada de seus p\u00e9s. Esta pedra \u00e9 conservada at\u00e9 hoje na igreja de S\u00e3o Sebasti\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s esse aviso, S\u00e3o Pedro voltou e, interrogado pelos crist\u00e3os de Roma sobre a raz\u00e3o de seu t\u00e3o r\u00e1pido retorno, contou-lhes tudo. Ningu\u00e9m teve mais d\u00favida de que Pedro seria encarcerado e glorificaria o Senhor dando por Ele a vida. No temor, portanto, de cair a qualquer momento nas m\u00e3os dos perseguidores e que, nesses momentos calamitosos, a Igreja ficasse sem seu supremo pastor, Pedro pensou em nomear alguns bispos mais zelosos, para que um deles sucedesse no Pontificado ap\u00f3s sua morte. Foram estes S\u00e3o Lino, S\u00e3o Cleto, S\u00e3o Clemente e Santo Anacleto, que j\u00e1 o haviam ajudado no of\u00edcio de seus vig\u00e1rios nas v\u00e1rias necessidades da Igreja.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o satisfeito em ter assim providenciado \u00e0s necessidades da S\u00e9 Pontif\u00edcia, tamb\u00e9m quis dirigir um escrito a todos os fi\u00e9is, como seu testamento, ou seja, uma segunda carta. Esta carta \u00e9 dirigida ao corpo universal dos crist\u00e3os, nomeando em particular aqueles do Ponto, da Gal\u00e1cia e de outras prov\u00edncias da \u00c1sia a quem havia pregado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s ter novamente aludido \u00e0s coisas j\u00e1 ditas em sua primeira carta, recomenda que tenham sempre os olhos em Jesus Salvador, cuidando-se da corrup\u00e7\u00e3o deste s\u00e9culo e dos prazeres mundanos. Para resolv\u00ea-los a manter-se firmes na virtude, coloca diante deles os pr\u00eamios que o Salvador tem preparados no reino eterno do C\u00e9u; e ao mesmo tempo recorda os terr\u00edveis castigos com os quais Deus costuma punir os pecadores, muitas vezes tamb\u00e9m nesta vida, mas infalivelmente na outra com a pena eterna do fogo. Transportando-se ent\u00e3o com seu pensamento para o futuro, prediz os esc\u00e2ndalos que muitos homens perversos haveriam de suscitar, os erros que haveriam de disseminar e as ast\u00facias das quais se serviriam para propag\u00e1-los. Diz ele: \u201cMas sabei que esses, \u00e0 semelhan\u00e7a de fontes sem \u00e1gua e de n\u00e9voas escuras agitadas pelos ventos, s\u00e3o todos impostores e sedutores de almas. Prometem uma liberdade, que sempre acaba numa miser\u00e1vel escravid\u00e3o em que se encontram envolvidos; ap\u00f3s o que, a eles \u00e9 reservado o ju\u00edzo, a perdi\u00e7\u00e3o e o fogo.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E continua: \u201cPara mim estou certo, segundo a revela\u00e7\u00e3o recebida de Nosso Senhor Jesus Cristo, que em breve devo abandonar este tabern\u00e1culo do meu corpo; mas n\u00e3o deixarei de fazer com que, mesmo ap\u00f3s minha morte, tenhais os meios para recordar tais coisas em vossas mentes. Ficai certos de que as promessas do Senhor nunca faltar\u00e3o: vir\u00e1 o dia extremo em que os c\u00e9us cessar\u00e3o de existir, os elementos ser\u00e3o dissolvidos ou devorados pelo fogo, a terra ser\u00e1 consumida com tudo o que cont\u00e9m. Portanto, ocupai-vos nas obras de piedade, aguardando com paci\u00eancia e prazer a vinda do dia do Senhor e, segundo suas promessas, vivamos de modo a podermos passar \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o dos c\u00e9us e \u00e0 posse de uma gl\u00f3ria eterna.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois, os exorta a se conservarem puros do pecado e a crerem constantemente que a longa paci\u00eancia que o Senhor frequentemente usa conosco \u00e9 para nosso bem comum. Ent\u00e3o recomenda calorosamente que n\u00e3o interpretem as Sagradas Escrituras com o entendimento privado de cada um, e nota particularmente as cartas de S\u00e3o Paulo, que ele chama de seu irm\u00e3o car\u00edssimo, das quais diz assim: \u201cJesus Cristo adia sua vinda para dar-lhes tempo de se converterem; estas coisas vos escreveu Paulo, nosso car\u00edssimo irm\u00e3o, segundo a sabedoria que lhe foi dada por Deus. Assim faz tamb\u00e9m em todas as suas cartas, onde ele fala dessas mesmas coisas. Ficai, por\u00e9m, bem atentos que nessas cartas h\u00e1 algumas coisas dif\u00edceis de entender, que os homens ignorantes e inst\u00e1veis explicam de forma perversa, como fazem tamb\u00e9m com outras partes da Sagrada Escritura, das quais abusam para sua pr\u00f3pria perdi\u00e7\u00e3o.\u201d Essas palavras merecem ser atentamente consideradas pelos protestantes, que querem confiar a interpreta\u00e7\u00e3o da B\u00edblia a qualquer homem do povo, por mais rude e ignorante que seja. A esses pode-se aplicar o que diz S\u00e3o Pedro, ou seja, que a estravagante explica\u00e7\u00e3o da B\u00edblia resultou em sua pr\u00f3pria perdi\u00e7\u00e3o: <strong><em>ad suam ipsorum perditionem<a href=\"#_ftn26\" id=\"_ftnref26\"><strong>[26]<\/strong><\/a><\/em><\/strong>.<br><br><a id=\"_Toc191158579\">CAP\u00cdTULO XXIX. S\u00e3o Pedro na pris\u00e3o converte Processo e Martiniano. \u2014 Seu mart\u00edrio<\/a><a href=\"#_ftn27\" id=\"_ftnref27\"><strong>[27]<\/strong><\/a>. <em>Ano 69-70 de Jesus Cristo; 67 da era vulgar<\/em>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Finalmente chegara o momento em que deveriam se cumprir as previs\u00f5es feitas por Jesus Cristo a respeito da morte de seu Ap\u00f3stolo. Tanto esfor\u00e7o merecia ser coroado com a palma do Mart\u00edrio. Enquanto um dia sentia tudo arder de amor pela pessoa do Divino Salvador e desejava vivamente poder se unir a Ele o mais r\u00e1pido poss\u00edvel, foi surpreendido por perseguidores que imediatamente o amarraram e o conduziram a uma profunda e sombria pris\u00e3o chamada Mamertina, onde costumavam prender os mais famosos criminosos<a href=\"#_ftn28\" id=\"_ftnref28\">[28]<\/a>. A divina provid\u00eancia disp\u00f4s que Nero, por assuntos de governo, devesse se afastar por algum tempo de Roma; assim, S\u00e3o Pedro permaneceu cerca de nove meses na pris\u00e3o. Mas os verdadeiros servos do Senhor sabem promover a gl\u00f3ria de Deus em todo tempo e lugar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na escurid\u00e3o da pris\u00e3o, Pedro, exercendo os cuidados de seu apostolado e especialmente o minist\u00e9rio da divina palavra, teve a consola\u00e7\u00e3o de conquistar para Jesus Cristo os dois guardas da pris\u00e3o, chamados Processo e Martiniano, al\u00e9m de outras 47 pessoas que estavam encerradas no mesmo lugar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 tradi\u00e7\u00e3o, confirmada pela autoridade de escritores confi\u00e1veis, que n\u00e3o havendo \u00e1gua para administrar o batismo a esses novos convertidos, Deus fez brotar naquele instante uma fonte perene, cujas \u00e1guas continuam a jorrar at\u00e9 hoje. Os viajantes que v\u00e3o a Roma procuram visitar a pris\u00e3o Mamertina, que fica aos p\u00e9s do Capit\u00f3lio, onde ainda jorra a prodigiosa fonte. Esse edif\u00edcio, tanto na parte subterr\u00e2nea quanto naquela que se eleva acima da terra, \u00e9 objeto de grande venera\u00e7\u00e3o entre os crist\u00e3os.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os ministros do imperador tentaram v\u00e1rias vezes vencer a const\u00e2ncia do santo Ap\u00f3stolo; mas, vendo que todos os seus esfor\u00e7os eram in\u00fateis, e al\u00e9m disso, percebendo que, mesmo acorrentado, ele n\u00e3o cessava de pregar Jesus Cristo e assim aumentar o n\u00famero de crist\u00e3os, decidiram faz\u00ea-lo silenciar com a morte. Era uma manh\u00e3 quando Pedro viu a pris\u00e3o se abrir. Entram os algozes, o amarram firmemente e anunciam que ele deve ser levado ao supl\u00edcio. Oh! Ent\u00e3o seu cora\u00e7\u00e3o se encheu de alegria. Exclamava: \u201cEu me alegro porque em breve verei meu Senhor. Em breve irei encontrar Aquele que amei e de quem recebi tantos sinais de afeto e miseric\u00f3rdia.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Antes de ser levado ao supl\u00edcio, o santo Ap\u00f3stolo, segundo as leis romanas, foi submetido a uma dolorosa flagela\u00e7\u00e3o; isto lhe causou grande alegria, pois assim se tornava cada vez mais fiel seguidor de seu divino Mestre, que antes de ser crucificado foi submetido a semelhante castigo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; At\u00e9 mesmo o caminho que ele percorreu indo para o supl\u00edcio merece ser notado. Os romanos, conquistadores do mundo, ap\u00f3s submeter alguma na\u00e7\u00e3o, preparavam a pompa do triunfo em uma magn\u00edfica carruagem no vale ou melhor, na plan\u00edcie aos p\u00e9s do monte Vaticano. De l\u00e1, pela via sagrada, chamada tamb\u00e9m triunfal, os vencedores subiam triunfantes ao Capit\u00f3lio. S\u00e3o Pedro, ap\u00f3s ter submetido o mundo ao suave jugo de Cristo, tamb\u00e9m \u00e9 levado para fora da pris\u00e3o e pela mesma estrada conduzido ao lugar onde se preparavam aquelas grandes solenidades.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim celebrava tamb\u00e9m a cerim\u00f4nia do triunfo e oferecia a si mesmo em holocausto ao Senhor, fora da porta de Roma, como fora de Jerusal\u00e9m havia sido crucificado seu divino Mestre.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre o monte Jan\u00edculo<a href=\"#_ftn29\" id=\"_ftnref29\">[29]<\/a> e o Vaticano havia um vale onde, ao se reunirem as \u00e1guas, formava-se um p\u00e2ntano. No outro cimo da montanha que olhava para o p\u00e2ntano, estava o lugar destinado ao mart\u00edrio do maior homem do mundo. O intr\u00e9pido atleta, quando chegou ao lugar do pat\u00edbulo e viu a cruz na qual estava condenado a morrer, cheio de coragem e alegria exclamou: \u201cSalve, \u00f3 cruz, salva\u00e7\u00e3o das na\u00e7\u00f5es, estandarte de Cristo, \u00f3 car\u00edssima cruz, salve, \u00f3 conforto dos crist\u00e3os. Tu \u00e9s aquela que me assegura o caminho do c\u00e9u, \u00e9s aquela que me assegura a entrada no reino da gl\u00f3ria. Tu, que um dia vi rubra do sant\u00edssimo sangue do meu Mestre, hoje s\u00ea meu aux\u00edlio, meu conforto, minha salva\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn30\" id=\"_ftnref30\">[30]<\/a>\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, S\u00e3o Pedro considerava para si uma honra demasiado grande sofrer uma morte semelhante \u00e0 de seu divino Mestre; portanto, pediu a seus crucificadores que, por gra\u00e7a, quisessem faz\u00ea-lo morrer com a cabe\u00e7a para baixo. Como tal maneira de morrer o fizesse sofrer mais, assim a gra\u00e7a lhe foi facilmente concedida. Mas seu corpo, naturalmente, n\u00e3o poderia se manter na cruz se as m\u00e3os e os p\u00e9s fossem unicamente cravados com os pregos; por isso, seus santos membros foram amarrados com cordas \u00e0quele duro tronco.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele foi acompanhado ao lugar do supl\u00edcio por uma infinidade de crist\u00e3os e infi\u00e9is. Esse homem de Deus, em meio aos mesmos tormentos, quase esquecendo de si mesmo, consolava os primeiros para que n\u00e3o se afligissem por ele; esfor\u00e7ava-se para salvar os segundos, exortando-os a deixar o culto dos \u00eddolos e abra\u00e7ar o Evangelho, para que pudessem conhecer o \u00fanico verdadeiro Deus, criador de todas as coisas. O Senhor, que sempre dirigia o zelo de t\u00e3o fiel ministro, o consolou em sua \u00faltima agonia com a convers\u00e3o de um grande n\u00famero de id\u00f3latras de toda condi\u00e7\u00e3o e sexo<a href=\"#_ftn31\" id=\"_ftnref31\">[31]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto S\u00e3o Pedro pendia na cruz, Deus tamb\u00e9m quis consol\u00e1-lo com uma vis\u00e3o celeste. Apareceram-lhe dois anjos com duas coroas de l\u00edrios e rosas, para indicar-lhe que seus sofrimentos haviam chegado ao fim e que ele deveria ser coroado de gl\u00f3ria na bem-aventurada eternidade<a href=\"#_ftn32\" id=\"_ftnref32\">[32]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro alcan\u00e7ou na cruz t\u00e3o nobre triunfo no dia 29 de junho, no ano septuag\u00e9simo de Jesus Cristo e sexag\u00e9simo s\u00e9timo da era vulgar. No mesmo dia em que S\u00e3o Pedro morria na cruz, S\u00e3o Paulo, sob a espada do mesmo tirano, glorificava Jesus Cristo sendo decapitado. Dia verdadeiramente glorioso para todas as Igrejas da Cristandade, mas especialmente para a de Roma, a qual, ap\u00f3s ter sido fundada por Pedro e longamente nutrida com a doutrina de ambos esses Pr\u00edncipes dos Ap\u00f3stolos, \u00e9 agora consagrada por seu mart\u00edrio, por seu sangue, e sublimada acima de todas as igrejas do mundo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, enquanto era iminente a destrui\u00e7\u00e3o da cidade santa de Jerusal\u00e9m, e seu templo deveria ser queimado, Roma, que era a capital e a senhora de todas as na\u00e7\u00f5es, tornava-se, por meio desses dois Ap\u00f3stolos, a Jerusal\u00e9m da nova alian\u00e7a, a cidade eterna, e tanto mais gloriosa que a velha Jerusal\u00e9m, quanto a gra\u00e7a do Evangelho e o sacerd\u00f3cio da nova lei s\u00e3o maiores do que o sacerd\u00f3cio, de todas as cerim\u00f4nias e figuras da antiga lei.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro foi martirizado aos 86 anos, ap\u00f3s um pontificado de 35 anos, 3 meses e 4 dias. Tr\u00eas anos os passou especialmente em Jerusal\u00e9m. Depois, ocupou sua c\u00e1tedra por sete anos em Antioquia, o restante em Roma.<br><br><a id=\"_Toc191158580\">CAP\u00cdTULO XXX. Sepulcro de S\u00e3o Pedro. \u2014 Atentado contra seu corpo.<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim que S\u00e3o Pedro exalou o \u00faltimo suspiro, muitos crist\u00e3os partiram do lugar do supl\u00edcio chorando a morte do supremo Pastor da Igreja. Por outro lado, S\u00e3o Lino, seu disc\u00edpulo e imediato sucessor, dois sacerdotes irm\u00e3os, S\u00e3o Marcelo e Santo Apuleio, Santo Anacleto e outros fervorosos crist\u00e3os se reuniram em torno da cruz de S\u00e3o Pedro. Quando ent\u00e3o os algozes se afastaram do lugar do mart\u00edrio, eles depositaram o corpo do santo Ap\u00f3stolo, ungiu-o com preciosos aromas, embalsamaram-no e o levaram para ser sepultado perto do Circo, ou seja, junto aos jardins de Nero no monte Vaticano, propriamente no lugar onde hoje ainda se venera. Seu corpo foi colocado em um local onde j\u00e1 haviam sido sepultados muitos m\u00e1rtires, disc\u00edpulos dos santos Ap\u00f3stolos e prim\u00edcias da Igreja cat\u00f3lica, que por ordem de Nero haviam sido expostos \u00e0s feras, ou crucificados, ou queimados, ou mortos \u00e0 for\u00e7a de inauditos tormentos. Santo Anacleto havia erguido ali um pequeno cemit\u00e9rio, em um canto do qual levantou uma esp\u00e9cie de orat\u00f3rio onde repousa o corpo de S\u00e3o Pedro. Este local tornou-se c\u00e9lebre e todos os papas sucessores de S\u00e3o Pedro demonstraram sempre vivo desejo de serem ali sepultados.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pouco depois da morte de S\u00e3o Pedro, vieram a Roma alguns crist\u00e3os do Oriente, que, considerando ser para eles um grande tesouro possuir as rel\u00edquias do santo Ap\u00f3stolo, resolveram adquiri-las. Mas, sabendo que seria in\u00fatil tentar compr\u00e1-las com dinheiro, pensaram em roub\u00e1-las, quase como coisa pr\u00f3pria, e lev\u00e1-las de volta aos lugares de onde o santo viera. Foram, portanto, corajosamente ao sepulcro, tiraram o corpo de l\u00e1 e o levaram para as catacumbas, que s\u00e3o um lugar escavado sob a terra, atualmente chamado de S\u00e3o Sebasti\u00e3o, com a inten\u00e7\u00e3o de envi\u00e1-lo ao Oriente assim que surgisse a oportunidade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deus, por outro lado, que havia chamado aquele grande Ap\u00f3stolo a Roma para que a tornasse gloriosa com o mart\u00edrio, tamb\u00e9m disp\u00f4s que seu corpo fosse conservado naquela cidade e tornasse aquela igreja a mais gloriosa do mundo. Portanto, quando aqueles orientais foram cumprir seu plano, levantou-se uma tempestade com um turbilh\u00e3o t\u00e3o forte, que pelo barulho dos trov\u00f5es e pelo relampejar dos rel\u00e2mpagos foram for\u00e7ados a interromper sua obra.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os crist\u00e3os de Roma perceberam o ocorrido e, em grande multid\u00e3o, saindo da cidade, recuperaram o corpo do santo Ap\u00f3stolo e o levaram novamente ao monte Vaticano de onde havia sido retirado<a href=\"#_ftn33\" id=\"_ftnref33\">[33]<\/a>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No ano 103, Santo Anacleto, tornando-se Sumo Pont\u00edfice, vendo um pouco acalmadas as persegui\u00e7\u00f5es contra os crist\u00e3os, \u00e0s suas custas ergueu um pequeno templo, de modo que abrigasse as rel\u00edquias e todo o sepulcro ali existente. Esta \u00e9 a primeira igreja dedicada ao Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este sagrado dep\u00f3sito permaneceu exposto \u00e0 venera\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is at\u00e9 a metade do terceiro s\u00e9culo. Somente no ano 221, pela ferocidade com que eram perseguidos os crist\u00e3os, temendo que os corpos dos santos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo fossem profanados pelos infi\u00e9is, foram transportados pelo Pont\u00edfice para as catacumbas chamadas Cemit\u00e9rio de S\u00e3o Calisto, naquela parte que hoje se chama cemit\u00e9rio de S\u00e3o Sebasti\u00e3o. Mas no ano 255 o papa S\u00e3o Corn\u00e9lio, a pedido e inst\u00e2ncia de Santa Lucina e de outros crist\u00e3os, trouxe de volta o corpo de S\u00e3o Paulo na via \u00d3stia, no local onde havia sido decapitado. O corpo de S\u00e3o Pedro foi novamente transportado e colocado na tumba primitiva aos p\u00e9s do monte Vaticano.<br><br><strong>CAP\u00cdTULO XXXI. Tumba e Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro no Vaticano.<br><\/strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nos primeiros s\u00e9culos da Igreja, os fi\u00e9is, na maioria das vezes, n\u00e3o podiam ir ao t\u00famulo de S\u00e3o Pedro, a n\u00e3o ser com grande perigo de serem acusados como crist\u00e3os e levados diante dos tribunais dos perseguidores. No entanto, sempre houve grande afluxo de pessoas, que vinham de lugares distantes para invocar a prote\u00e7\u00e3o do C\u00e9u no t\u00famulo de S\u00e3o Pedro. Mas quando Constantino se tornou o senhor do Imp\u00e9rio Romano e p\u00f4s fim \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es, ent\u00e3o cada um p\u00f4de livremente se mostrar seguidor de Jesus Cristo, e o t\u00famulo de S\u00e3o Pedro se tornou o santu\u00e1rio do mundo crist\u00e3o, onde de todos os cantos vinham pessoas para venerar as rel\u00edquias do primeiro Vig\u00e1rio de Jesus Cristo. O pr\u00f3prio imperador professava publicamente o Evangelho, e entre os muitos sinais que deu de apego \u00e0 religi\u00e3o cat\u00f3lica, um foi o de ter mandado construir v\u00e1rias igrejas, entre as quais aquela em honra do Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos; a qual, por isso, \u00e0s vezes tamb\u00e9m \u00e9 chamada de Bas\u00edlica Constantiniana, mais comumente conhecida como Bas\u00edlica Vaticana.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, no ano 319, Constantino, por seu impulso e a convite de S\u00e3o Silvestre, estabeleceu que o local da nova Igreja fosse aos p\u00e9s do Vaticano, com o desenho que englobasse todo o pequeno templo constru\u00eddo por Santo Anacleto e que at\u00e9 aquele momento havia sido objeto da venera\u00e7\u00e3o comum. No dia em que o Imperador Constantino queria dar in\u00edcio \u00e0 santa empreitada, depositou no local o diadema imperial e todos os s\u00edmbolos reais, ent\u00e3o se prostrou ao ch\u00e3o e derramou muitas l\u00e1grimas de devota ternura. Pegando ent\u00e3o a enxada, come\u00e7ou a cavar com suas pr\u00f3prias m\u00e3os o terreno, dando assim in\u00edcio \u00e0 escava\u00e7\u00e3o das funda\u00e7\u00f5es da nova bas\u00edlica. Quis ele mesmo formar o desenho e estabelecer o espa\u00e7o que deveria abranger o novo templo; e para animar a dar m\u00e3o \u00e0 obra com alacridade, quis carregar sobre suas pr\u00f3prias costas doze caix\u00f5es de terra em honra dos doze Ap\u00f3stolos. Ent\u00e3o foi desenterrado o corpo de S\u00e3o Pedro, e na presen\u00e7a de muitos fi\u00e9is e de muito clero, foi colocado por S\u00e3o Silvestre em uma grande caixa de prata, com outra caixa de bronze dourado, plantada firmemente no solo. A urna que continha o sagrado dep\u00f3sito tinha cinco p\u00e9s de altura, largura e comprimento; sobre ela foi colocada uma grande cruz de ouro pur\u00edssimo, pesando cento e cinquenta libras, na qual estavam gravados os nomes de Santa Helena e de seu filho Constantino. Terminada aquela majestosa edifica\u00e7\u00e3o, preparada uma cripta ou c\u00e2mara subterr\u00e2nea toda ornada de ouro e de gemas preciosas, cercada por uma quantidade de l\u00e2mpadas de ouro e de prata, ali colocou o precioso tesouro: a cabe\u00e7a de S\u00e3o Pedro. S\u00e3o Silvestre convidou muitos bispos; e os fi\u00e9is crist\u00e3os de todas as partes do mundo compareceram a esta solenidade. Para encoraj\u00e1-los ainda mais, abriu o tesouro da Igreja e concedeu muitas indulg\u00eancias. O afluxo foi extraordin\u00e1rio; a solenidade foi majestosa; era a primeira consagra\u00e7\u00e3o que se fazia publicamente com ritos e cerim\u00f4nias tais como se praticam ainda hoje na consagra\u00e7\u00e3o dos edif\u00edcios sagrados. A fun\u00e7\u00e3o se completou no ano 324, no dia dezoito de novembro. A urna de S\u00e3o Pedro, assim fechada, nunca mais foi reaberta, e sempre foi objeto de venera\u00e7\u00e3o em toda a cristandade. Constantino doou muitos bens para a decora\u00e7\u00e3o e a conserva\u00e7\u00e3o daquele augusto edif\u00edcio. Todos os sumos Pont\u00edfices se esfor\u00e7aram para tornar glorioso o sepulcro do Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas todas as coisas humanas v\u00e3o se consumindo com o tempo, e a bas\u00edlica Vaticana no s\u00e9culo XVI se viu em perigo de ru\u00edna. Por isso, os Pont\u00edfices decidiram refaz\u00ea-la inteiramente. Ap\u00f3s muitos estudos, graves fadigas e grandes despesas, p\u00f4de-se colocar a pedra fundamental do novo templo no ano de 1506. O grande papa J\u00falio II, apesar de sua avan\u00e7ada idade e do profundo abismo em que deveria descer para chegar \u00e0 base do pilar da c\u00fapula, quis, no entanto, descer pessoalmente para estabelecer e colocar com solene cerim\u00f4nia a primeira pedra. \u00c9 dif\u00edcil descrever as fadigas, o trabalho, o dinheiro, o tempo, os homens que se empenharam nesta maravilhosa constru\u00e7\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O trabalho foi conclu\u00eddo no espa\u00e7o de cento e vinte anos, e finalmente Urbano VIII, assistido por 22 cardeais e por todos aqueles dignit\u00e1rios que costumam participar das fun\u00e7\u00f5es pontif\u00edcias, consagrou solenemente a majestosa bas\u00edlica no dia 18 de novembro de 1626, ou seja, no mesmo dia em que S\u00e3o Silvestre havia consagrado a antiga bas\u00edlica erigida por Constantino. Durante todo esse tempo, em meio a tantas restaura\u00e7\u00f5es e a tantos trabalhos de constru\u00e7\u00e3o, as rel\u00edquias de S\u00e3o Pedro n\u00e3o sofreram qualquer translada\u00e7\u00e3o; nem a urna, nem a caixa de bronze foram movidas, nem a cripta foi aberta. O novo piso, tendo que ser um pouco elevado acima do antigo, foi disposto de modo a englobar a capela primitiva e deixar assim intacto o altar consagrado por S\u00e3o Silvestre. A esse respeito, nota-se que, quando o arquiteto Giacomo della Porta levantava as camadas do piso ao redor do antigo altar para sobrepor o novo, descobriu a janela que correspondia \u00e0 sagrada urna. Colocando uma luz dentro, reconheceu a cruz de ouro que havia sido colocada por Constantino e por Santa Helena, sua m\u00e3e. Fez imediatamente um relat\u00f3rio ao Papa a esse respeito, que em 1594 era Clemente VIII, o qual, acompanhado pelos cardeais Bellarmino e Antoniano, foi pessoalmente ao local e encontrou o que havia sido relatado pelo arquiteto. O Pont\u00edfice n\u00e3o quis abrir nem o sepulcro nem a urna; nem consentiu que algu\u00e9m se aproximasse, ao contr\u00e1rio, ordenou que a abertura fosse fechada com cimento. Desde ent\u00e3o, nunca mais foi aberta a tumba, nem ningu\u00e9m se aproximou mais daquelas rel\u00edquias vener\u00e1veis.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os peregrinos que v\u00e3o a Roma para visitar a grande bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro no Vaticano, ao v\u00ea-la pela primeira vez, ficam como que encantados; e as personalidades mais c\u00e9lebres por seu engenho e ci\u00eancia, ao chegarem em seus pa\u00edses, n\u00e3o conseguem dar mais do que uma p\u00e1lida ideia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aqui est\u00e1 o quanto que se pode compreender com alguma facilidade. Aquela igreja \u00e9 embelezada com os m\u00e1rmores mais requintados que se puderam obter; sua amplitude e sua eleva\u00e7\u00e3o chegam a um ponto que surpreende o olhar que a contempla; o piso, as paredes, a ab\u00f3bada s\u00e3o ornados com tal maestria, que parecem ter esgotado todas as inven\u00e7\u00f5es da arte. A c\u00fapula que, por assim dizer, sobe at\u00e9 as nuvens, \u00e9 um comp\u00eandio de todas as belezas da pintura, da escultura e da arquitetura. Acima da c\u00fapula, ou melhor, acima do pr\u00f3prio cupulim, h\u00e1 uma esfera ou bola de bronze dourado que, vista da terra, parece uma bolinha de jogo; mas quem sobe e entra nela v\u00ea um globo dentro do qual podem confortavelmente estar sentadas dezesseis pessoas. Em uma palavra, nesta bas\u00edlica tudo \u00e9 t\u00e3o belo, t\u00e3o raro e t\u00e3o bem trabalhado que supera o que se pode imaginar no mundo. Pr\u00edncipes, reis, monarcas e imperadores contribu\u00edram para ornamentar este edif\u00edcio maravilhoso, com magn\u00edficos dons que enviaram \u00e0 tumba de S\u00e3o Pedro, e muitas vezes trazidos por eles mesmos de pa\u00edses distantes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E \u00e9 precisamente no centro de um edif\u00edcio t\u00e3o magn\u00edfico que repousam as preciosas cinzas de um pobre pescador, de um homem sem erudi\u00e7\u00e3o humana e sem riquezas, cuja fortuna consistia em uma rede. E isso foi desejado por Deus para que os homens compreendam como Deus, em sua onipot\u00eancia, toma o homem mais humilde aos olhos do mundo para coloc\u00e1-lo no trono glorioso para governar seu povo; compreender\u00e3o tamb\u00e9m quanto Ele honra, mesmo na vida presente, seus servos fi\u00e9is, e assim fa\u00e7am alguma ideia da imensa gl\u00f3ria reservada no C\u00e9u a quem vive e morre em seu divino servi\u00e7o. Reis, pr\u00edncipes, imperadores e os maiores monarcas da terra vieram implorar a prote\u00e7\u00e3o daquele que foi tirado de uma barca para ser feito pastor supremo da Igreja; os hereges e os infi\u00e9is foram for\u00e7ados a respeit\u00e1-lo. Deus poderia ter escolhido o supremo pastor de sua Igreja entre os maiores e mais s\u00e1bios da terra; mas ent\u00e3o talvez se atribuiria \u00e0 sua sabedoria e poder aquelas maravilhas, que Deus queria que fossem inteiramente reconhecidas como vindas de sua m\u00e3o onipotente.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Somente em rar\u00edssimos casos os papas permitiram que as rel\u00edquias deste grande protetor de Roma fossem transportadas para outro lugar; por isso, poucos lugares da cristandade podem se gabar de possu\u00ed-las: toda a gl\u00f3ria est\u00e1 em Roma.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quem quer que quisesse escrever as muitas peregrina\u00e7\u00f5es ali feitas em todos os tempos, de todas as partes do mundo e de todas as classes de pessoas, a multid\u00e3o de gra\u00e7as ali recebidas, os estrondosos milagres ali operados, deveria escrever muitos e grandes volumes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto isso, n\u00f3s, tomados por sentimentos de sincera gratid\u00e3o, como conclus\u00e3o e fruto do que dissemos sobre as a\u00e7\u00f5es do Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, elevamos fervorosas ora\u00e7\u00f5es ao trono do Deus Alt\u00edssimo; pedimos a este seu feliz Vig\u00e1rio e glorioso m\u00e1rtir, que se digne volver do C\u00e9u um olhar piedoso sobre as presentes necessidades de sua Igreja, se digne proteg\u00ea-la e sustent\u00e1-la nos vigorosos ataques que todos os dias deve enfrentar por parte de seus inimigos, obtenha for\u00e7a e coragem para seus sucessores, para todos os bispos e para todos os sagrados ministros, para que todos se tornem dignos do minist\u00e9rio que Cristo lhes confiou. Deste modo, confortados por sua ajuda celestial, possam colher abundantes frutos de seus esfor\u00e7os, promovendo a gl\u00f3ria de Deus e a salva\u00e7\u00e3o das almas entre os povos crist\u00e3os.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Felizes aqueles povos que est\u00e3o unidos a Pedro na pessoa dos Papas seus sucessores. Eles trilham o caminho da salva\u00e7\u00e3o; enquanto todos aqueles que se encontram fora deste caminho e n\u00e3o pertencem \u00e0 uni\u00e3o de Pedro n\u00e3o t\u00eam esperan\u00e7a alguma de salva\u00e7\u00e3o. Jesus Cristo mesmo nos assegura que a santidade e a salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o podem ser encontradas sen\u00e3o na uni\u00e3o com Pedro, sobre o qual repousa o fundamento inabal\u00e1vel de sua Igreja. Agrade\u00e7amos de cora\u00e7\u00e3o a bondade divina que nos fez filhos de Pedro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E uma vez que ele tem as chaves do reino dos C\u00e9us, pe\u00e7amos a ele que seja nosso protetor nas presentes necessidades, e assim no \u00faltimo dia de nossa vida ele se digne abrir-nos a porta da bem-aventurada eternidade.<br><br><a id=\"_Toc191158581\">AP\u00caNDICE SOBRE A VINDA DE S\u00c3O PEDRO A ROMA<\/a><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora as discuss\u00f5es sobre fatos particulares possam ser consideradas estranhas ao historiador, no entanto, a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma, que \u00e9 um dos pontos mais importantes da hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica, sendo fortemente combatida pelos hereges de hoje, me parece mat\u00e9ria de tal import\u00e2ncia que n\u00e3o deve ser omitida.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Isso parece ainda mais oportuno porque os protestantes h\u00e1 algum tempo em seus livros, jornais e conversas tentam fazer dela objeto de racioc\u00ednio, sempre com o objetivo de coloc\u00e1-la em d\u00favida e desacreditar nossa santa religi\u00e3o cat\u00f3lica. Eles fazem isso para diminuir, ou melhor, para destruir, se pudessem, a autoridade do Papa, pois dizem que se Pedro n\u00e3o veio a Roma, os Pont\u00edfices Romanos n\u00e3o s\u00e3o seus sucessores e, portanto, s\u00e3o n\u00e3o herdeiros de seus poderes. Mas os esfor\u00e7os dos hereges mostram apenas qu\u00e3o poderosa \u00e9 contra eles a autoridade do Papa; para se livrar dela, n\u00e3o se envergonham de fabricar mentiras, pervertendo e negando a hist\u00f3ria. Acreditamos que este \u00fanico fato ser\u00e1 suficiente para fazer conhecer a grande m\u00e1-f\u00e9 que reina entre eles; pois colocar em d\u00favida a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma \u00e9 o mesmo que duvidar se h\u00e1 luz quando o sol brilha em pleno meio-dia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Considero oportuno notar aqui que at\u00e9 o s\u00e9culo catorze, no espa\u00e7o de cerca de mil e quatrocentos anos, n\u00e3o se encontra um autor, nem cat\u00f3lico nem herege, que tenha levantado a menor d\u00favida sobre a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma; e convidamos os advers\u00e1rios a citar um s\u00f3. O primeiro que levantou essa d\u00favida foi Mars\u00edlio de P\u00e1dua, que vendeu sua capacidade de escritor ao imperador Lu\u00eds da Baviera; e ambos, um com as armas, o outro com doutrinas perversas, se lan\u00e7aram contra o primado do Sumo Pont\u00edfice. Tal d\u00favida, no entanto, foi considerada rid\u00edcula por todos, e desapareceu com a morte de seu autor.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Duzentos anos depois, no s\u00e9culo dezesseis, surgiram os esp\u00edritos turbulentos de Lutero e de Calvino, e da escola deles sa\u00edram v\u00e1rios, que, superando a m\u00e1-f\u00e9 dos pr\u00f3prios mestres, tentaram suscitar a mesma d\u00favida para melhor enganar os simples e os ignorantes. Quem tem um pouco de pr\u00e1tica em hist\u00f3ria sabe qual cr\u00e9dito merece aquele que, apoiado unicamente em seu capricho, se coloca a contradizer um fato relatado com consenso un\u00e2nime pelos escritores de todos os tempos e de todos os lugares. Esta \u00fanica observa\u00e7\u00e3o seria suficiente por si s\u00f3 para tornar manifesta a inexist\u00eancia de tal d\u00favida. No entanto, para que o leitor conhe\u00e7a os autores que com sua autoridade v\u00eam confirmar o que afirmamos, citaremos alguns. Como os protestantes admitem a autoridade da igreja dos primeiros quatro s\u00e9culos, n\u00f3s, desejosos de agrad\u00e1-los em tudo que \u00e9 poss\u00edvel, nos serviremos de escritores que viveram naquela \u00e9poca. Alguns deles afirmam que Pedro esteve em Roma, e outros atestam que ali fundou sua sede episcopal e sofreu o mart\u00edrio.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Papa S\u00e3o Clemente, disc\u00edpulo de S\u00e3o Pedro e seu sucessor no pontificado, em sua primeira carta escrita aos Cor\u00edntios, d\u00e1 como p\u00fablica e certa a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma, sua longa perman\u00eancia ali, o mart\u00edrio sofrido ali junto com S\u00e3o Paulo. Eis suas palavras: \u00abO exemplo desses homens, que, vivendo santamente, agregaram uma grande multid\u00e3o de eleitos e sofreram muitos supl\u00edcios e tormentos, \u00e9 mantido \u00f3timo entre n\u00f3s.\u00bb<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Santo In\u00e1cio, m\u00e1rtir, tamb\u00e9m disc\u00edpulo de S\u00e3o Pedro e seu sucessor no bispado de Antioquia, sendo conduzido a Roma para ser ali martirizado, escreve aos romanos pedindo que n\u00e3o queiram impedir seu mart\u00edrio e diz:<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00abEu vos imploro, n\u00e3o vos mando, como fizeram Pedro e Paulo: <em>N\u00e3o ut Petrus et Paulus praecipio vobis<\/em>.\u00bb<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O mesmo afirma P\u00e1pias, contempor\u00e2neo dos acima citados e disc\u00edpulo de S\u00e3o Jo\u00e3o Evangelista, como se pode ver em Eus\u00e9bio na sua Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica, livro 2, cap\u00edtulo 15.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A pouca dist\u00e2ncia destes, temos as ilustres testemunhas de Santo Irineu e de S\u00e3o Dion\u00edsio, os quais conheceram e conversaram longamente com os disc\u00edpulos dos Ap\u00f3stolos, e estavam muito bem informados sobre as coisas ocorridas na Igreja de Roma.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Santo Irineu, bispo de Li\u00e3o e martirizado no ano 202, atesta que S\u00e3o Mateus divulgou seu Evangelho aos Hebreus em sua pr\u00f3pria l\u00edngua, enquanto Pedro e Paulo pregavam em Roma e estabeleciam a Igreja: <em>Petro et Paulo Romae evangelizantibus et constituentibus Ecclesiam<a href=\"#_ftn34\" id=\"_ftnref34\"><strong>[34]<\/strong><\/a><\/em>. Ap\u00f3s tais testemunhos, n\u00e3o sabemos como os hereges ousam negar a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma. Quase ao mesmo tempo floresceram Clemente de Alexandria, S\u00e3o Caio, sacerdote de Roma, Tertuliano de Cartago, Or\u00edgenes, S\u00e3o Cipriano e muitos outros, que concordam em relatar o grande afluxo de fi\u00e9is ao t\u00famulo de S\u00e3o Pedro, martirizado em Roma; e todos, cheios de venera\u00e7\u00e3o pelo primado que gozava a Igreja de Roma, dizem que dela devem ser esperados os or\u00e1culos da eterna salva\u00e7\u00e3o, porque Jesus Cristo prometeu a conserva\u00e7\u00e3o da f\u00e9 ao seu fundador S\u00e3o Pedro<a href=\"#_ftn35\" id=\"_ftnref35\">[35]<\/a>.<br>E se desses escritores passamos aos luminares da Igreja, S\u00e3o Pedro de Alexandria, Santo Ast\u00e9rio de Amasea, Santo Optato de Milevo, Santo Ambr\u00f3sio, S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, Santo Epif\u00e2nio, S\u00e3o M\u00e1ximo de Turim, Santo Agostinho, S\u00e3o Cirilo de Alexandria e muitos outros, encontramos seus testemunhos plenamente un\u00e2nimes e concordes sobre a verdade que afirmamos; ou seja, que Pedro esteve em Roma e l\u00e1 sofreu o mart\u00edrio. Santo Optato, bispo de Milevo na \u00c1frica, escrevendo contra os Donatistas, diz: \u00abN\u00e3o podes negar, tu sabes, que na cidade de Roma, desde o princ\u00edpio, a c\u00e1tedra episcopal foi mantida por Pedro.\u00bb Por amor \u00e0 brevidade, citamos apenas as palavras do Doutor S\u00e3o Jer\u00f4nimo, que viveu no IV s\u00e9culo da Igreja. Ele escreve: \u00abPedro, pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, foi a Roma no segundo ano do imperador Cl\u00e1udio, e ali manteve a c\u00e1tedra sacerdotal at\u00e9 o \u00faltimo ano de Nero. Sepultado em Roma, no Vaticano, perto da Via Triunfal, \u00e9 c\u00e9lebre pela venera\u00e7\u00e3o que lhe presta o universo.<a href=\"#_ftn36\" id=\"_ftnref36\">[36]<\/a>\u00bb Acrescentem-se os muitos martirol\u00f3gios das diversas Igrejas latinas, que desde a mais remota antiguidade chegaram at\u00e9 n\u00f3s, os diferentes Calend\u00e1rios dos Et\u00edopes, dos Eg\u00edpcios, dos S\u00edrios, os menol\u00f3gios dos Gregos [= Cat\u00e1logos com os dias em que s\u00e3o celebrados os santos da Igreja ortodoxa]; as mesmas liturgias de todas as Igrejas crist\u00e3s espalhadas nos v\u00e1rios pa\u00edses da cristandade; em toda parte se encontra registrada a verdade deste relato. Que mais? Os pr\u00f3prios protestantes, um tanto c\u00e9lebres em doutrina, como Gave, Ammendo, Pearsonio, Grotius, Ussher, Biondello, Scaliger, Basnagio e Newton, com muitos outros, concordam que a vinda do pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos a Roma e sua morte ocorrida naquela metr\u00f3pole do universo s\u00e3o um fato incontest\u00e1vel.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 verdade que nem os Atos dos Ap\u00f3stolos, nem S\u00e3o Paulo em sua carta aos Romanos mencionam este fato. Mas al\u00e9m dos escritores autorizados reconhecerem nesses autores claramente aludido tal acontecimento<a href=\"#_ftn37\" id=\"_ftnref37\">[37]<\/a>, observamos que o autor dos Atos dos Ap\u00f3stolos n\u00e3o tinha o objetivo de escrever as a\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Pedro nem dos outros Ap\u00f3stolos, mas apenas as de S\u00e3o Paulo, seu companheiro e mestre; e isso quase para fazer a apologia deste Ap\u00f3stolo dos gentios, entre todos o mais desprezado e caluniado pelos Hebreus. Portanto, ap\u00f3s narrar os princ\u00edpios da Igreja, do cap\u00edtulo 16 at\u00e9 o final de seu livro, S\u00e3o Lucas n\u00e3o escreve mais nada sobre outros sen\u00e3o sobre Paulo e seus companheiros de miss\u00e3o. Na verdade, em seus Atos, Lucas n\u00e3o nos narra nem mesmo todas as coisas operadas por Paulo, coisas que sabemos apenas pelas cartas deste Ap\u00f3stolo. De fato, ele nos fala talvez dos tr\u00eas naufr\u00e1gios sofridos por seu mestre, da luta que em \u00c9feso teve que sustentar com as feras, e de outros fatos dos quais se faz men\u00e7\u00e3o em sua segunda carta aos Cor\u00edntios e aos G\u00e1latas?<a href=\"#_ftn38\" id=\"_ftnref38\">[38]<\/a> S\u00e3o Lucas nos fala talvez do mart\u00edrio de Paulo, ou mesmo apenas daquelas coisas que ele fez ap\u00f3s sua primeira pris\u00e3o em Roma? Ele menciona talvez uma s\u00f3 das 14 cartas? Nada disso. Agora, qual a surpresa se o mesmo escritor silenciou muitas coisas operadas por Pedro, entre as quais sua vinda a Roma?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que dissemos sobre o sil\u00eancio de S\u00e3o Lucas vale para o sil\u00eancio de S\u00e3o Paulo em sua carta aos Romanos. Paulo, escrevendo aos Romanos, n\u00e3o sa\u00fada Pedro; portanto, concluem os protestantes, Pedro nunca esteve em Roma. Que estranheza de racioc\u00ednio! No m\u00e1ximo, se poderia deduzir que Pedro, naquele tempo, n\u00e3o estava em Roma; e nada mais. E quem n\u00e3o sabe que Pedro, enquanto ocupava a sede de Roma, frequentemente se afastava para ir a outros lugares fundar outras Igrejas nas v\u00e1rias partes da It\u00e1lia? Ele n\u00e3o fez o mesmo quando ocupava sua sede em Jerusal\u00e9m e em Antioquia? Foi exatamente nessa \u00e9poca que ele viajou por v\u00e1rias partes da Palestina, e depois na \u00c1sia Menor, na Bit\u00ednia, no Ponto, na Gal\u00e1cia, na Capad\u00f3cia, para as quais ele enviou especialmente sua primeira carta. Portanto, n\u00e3o se deve supor que ele n\u00e3o fizesse o mesmo na It\u00e1lia, que lhe oferecia uma colheita abundante. Al\u00e9m disso, que Pedro na It\u00e1lia n\u00e3o se ocupasse apenas de Roma, sabemos por Eus\u00e9bio, historiador do s\u00e9culo IV, que, escrevendo sobre as principais coisas que ele realizou, assim se expressa: \u201cAs provas das coisas feitas por Pedro s\u00e3o aquelas mesmas Igrejas que pouco depois brilharam, como por exemplo a Igreja de Cesareia na Palestina, a de Antioquia na S\u00edria e a Igreja da pr\u00f3pria cidade de Roma. Porque foi transmitido aos futuros que o mesmo Pedro constituiu essas Igrejas e todas as circunvizinhas. E assim tamb\u00e9m aquelas do Egito e da pr\u00f3pria Alexandria, embora estas n\u00e3o por si mesmo, mas por meio de Marcos, seu disc\u00edpulo, enquanto ele se ocupava na It\u00e1lia e entre os povos circunvizinhos.<a href=\"#_ftn39\" id=\"_ftnref39\">[39]<\/a>\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, Paulo em sua carta aos Romanos n\u00e3o sa\u00fada Pedro, porque sabia que naquele tempo ele talvez n\u00e3o estivesse em Roma. Certamente, se Pedro estivesse l\u00e1, ele mesmo poderia ter resolvido a quest\u00e3o surgida entre aqueles fi\u00e9is, que deu ocasi\u00e3o a Paulo de escrever sua c\u00e9lebre carta.<br>E depois, mesmo que Pedro estivesse na cidade, pode-se bem dizer que Paulo em sua carta n\u00e3o deixou que os fi\u00e9is o saudassem junto com os outros, porque fez com que o saudassem \u00e0 parte pelo portador da mesma, ou lhe escreveu individualmente como ainda usamos n\u00f3s atualmente com pessoas de destaque. Al\u00e9m disso, se o fato de Paulo, escrevendo aos Romanos, n\u00e3o ter feito saudar Pedro provasse que Pedro nunca esteve em Roma, ent\u00e3o tamb\u00e9m dever\u00edamos dizer que S\u00e3o Tiago Menor nunca foi bispo de Jerusal\u00e9m, porque Paulo, escrevendo aos Hebreus, n\u00e3o o sa\u00fada de forma alguma. Agora, toda a antiguidade proclama S\u00e3o Tiago bispo de Jerusal\u00e9m. Portanto, o sil\u00eancio de Paulo n\u00e3o conclui nada contra a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma.<br><strong>Acrescentemos:<\/strong> se do sil\u00eancio da Sagrada Escritura sobre a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma pudesse razoavelmente inferir-se que Pedro n\u00e3o veio a Roma, ent\u00e3o tamb\u00e9m se poderia argumentar assim: a Sagrada Escritura n\u00e3o diz que S\u00e3o Pedro morreu; portanto, S\u00e3o Pedro ainda est\u00e1 vivo, e voc\u00eas, protestantes, procurem-no em algum canto da terra.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; H\u00e1 tamb\u00e9m uma raz\u00e3o para o sil\u00eancio da Sagrada Escritura sobre a ida e a morte de S\u00e3o Pedro em Roma, e n\u00e3o queremos omiti-la. Que Pedro \u00e9 o chefe da Igreja, o pastor supremo, o mestre infal\u00edvel de todos os fi\u00e9is, e que essas suas prerrogativas deveriam ser transmitidas a seus sucessores at\u00e9 o fim do mundo, isso \u00e9 dogma de f\u00e9, e, portanto, deveria ser revelado ou por meio da Sagrada Escritura ou por meio da Tradi\u00e7\u00e3o divina, como foi; mas que ele veio e morreu em Roma \u00e9 um fato hist\u00f3rico, um fato que podia ser visto com os olhos, tocado com as m\u00e3os; e, portanto, n\u00e3o era necess\u00e1rio um testemunho da Sagrada Escritura para confirm\u00e1-lo, bastando para isso aquelas provas que anunciam e confirmam ao homem todos os outros fatos. Os protestantes que pretendem negar a ida de S\u00e3o Pedro a Roma porque n\u00e3o se pode provar com argumentos b\u00edblicos caem no rid\u00edculo. O que diriam eles mesmos de quem negasse a vinda e a morte do imperador Augusto na cidade de Nola porque a Escritura n\u00e3o o diz? Se quisermos nos deter sobre esse sil\u00eancio dos Atos dos Ap\u00f3stolos e da carta de S\u00e3o Paulo, digamos que isso n\u00e3o prova nem para n\u00f3s nem para os protestantes. Porque a s\u00e3 l\u00f3gica e a simples raz\u00e3o natural nos ensinam que, quando se busca a verdade de um fato silenciado por um autor, deve-se procurar em outros que t\u00eam o direito de falar sobre isso. O que n\u00f3s fizemos amplamente.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o ignoramos que Fl\u00e1vio Josefo n\u00e3o fala sobre essa vinda de S\u00e3o Pedro a Roma; assim como tamb\u00e9m n\u00e3o fala de S\u00e3o Paulo. Mas que importa a ele falar dos crist\u00e3os? Seu objetivo era escrever a hist\u00f3ria do povo judeu e da guerra judaica, e n\u00e3o os fatos particulares ocorridos em outros lugares. Ele fala sim de Jesus Cristo, de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, de S\u00e3o Tiago, cuja morte ocorreu na Palestina; mas fala talvez de S\u00e3o Paulo, de Santo Andr\u00e9 ou dos outros Ap\u00f3stolos, que foram coroados com o mart\u00edrio fora da Palestina? E ele mesmo n\u00e3o diz que pretende passar sob sil\u00eancio muitos fatos ocorridos em seu tempo<a href=\"#_ftn40\" id=\"_ftnref40\">[40]<\/a>?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E depois, n\u00e3o \u00e9 uma loucura confiar mais em um judeu que n\u00e3o fala, do que nos primeiros crist\u00e3os que proclamam todos a uma s\u00f3 voz que S\u00e3o Pedro morreu em Roma, depois de ter ali permanecido muitos anos?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o queremos tamb\u00e9m omitir a dificuldade que alguns levantam sobre a discord\u00e2ncia dos escritores em fixar o ano da vinda de S\u00e3o Pedro a Roma. Porque em nossos tempos os eruditos geralmente concordam na cronologia que seguimos. Mas dizemos que essa discord\u00e2ncia dos escritores antigos demonstra a verdade do fato: demonstra que um escritor n\u00e3o copiou do outro, que cada um se servia daqueles documentos ou daquelas mem\u00f3rias que tinha em seus respectivos pa\u00edses e que eram publicamente conhecidos como certos; nem deve nos surpreender tal discord\u00e2ncia cronol\u00f3gica (que \u00e9 de um ou dois anos mais ou menos) naqueles tempos remotos em que cada na\u00e7\u00e3o tinha um modo pr\u00f3prio de computar os anos. Mas todos esses autores referem com franqueza tal vinda de S\u00e3o Pedro a Roma e mencionam as minuciosas circunst\u00e2ncias relacionadas \u00e0 sua perman\u00eancia e morte naquela cidade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os advers\u00e1rios contra a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma ainda acrescentam: da primeira carta de S\u00e3o Pedro aos fi\u00e9is da \u00c1sia se deduz que ele estava na Babil\u00f4nia. Assim, de fato, ele se expressa em suas sauda\u00e7\u00f5es: \u201cSa\u00fada-vos a Igreja que est\u00e1 reunida em Babil\u00f4nia, e Marcos, meu filho\u201d. Portanto, \u00e9 imposs\u00edvel sua vinda a Roma. Come\u00e7amos a dizer que, mesmo que por Babil\u00f4nia, da qual fala Pedro, se entenda a metr\u00f3pole da Ass\u00edria, no entanto, ainda n\u00e3o se poderia inferir que ele n\u00e3o p\u00f4de vir, e n\u00e3o veio a Roma. Seu pontificado foi bastante longo, e os cr\u00edticos concordam em dizer que a referida carta foi escrita antes do ano 43, ou por volta disso. De fato, ele ainda sa\u00fada os fi\u00e9is em nome de Marcos, que sabemos por Eus\u00e9bio ter sido enviado por Pedro para fundar a Igreja de Alexandria no ano 43 de Jesus Cristo. Conclui-se, portanto, que Pedro, desde a data de sua carta at\u00e9 sua morte, teve pelo menos mais 24 anos de vida. Em t\u00e3o longo intervalo de tempo, ele n\u00e3o poderia ter feito a viagem a Roma?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas temos outra resposta a dar; e \u00e9 que Pedro falou metaforicamente e com o nome de Babil\u00f4nia se referiu \u00e0 cidade de Roma, onde justamente se encontrava ao escrever sua carta. Isso se deduz de toda a antiguidade. P\u00e1pias, disc\u00edpulo dos Ap\u00f3stolos, diz em termos claros que Pedro mostrou ter escrito sua primeira carta em Roma, enquanto com a tradu\u00e7\u00e3o da palavra lhe d\u00e1 o nome de Babil\u00f4nia<a href=\"#_ftn41\" id=\"_ftnref41\">[41]<\/a>. S\u00e3o Jer\u00f4nimo diz igualmente que Pedro, em sua primeira carta, sob o nome de Babil\u00f4nia, significou a cidade de Roma: <em>Petrus in epistola prima sub nomine Babylonis figurative Romam significans, salutat vos, inquit, ecclesia quae est in Babylone collecta<a href=\"#_ftn42\" id=\"_ftnref42\"><strong>[42]<\/strong><\/a><\/em>. Nem essa linguagem era incomum entre os crist\u00e3os. S\u00e3o Jo\u00e3o d\u00e1 a Roma o mesmo nome de Babil\u00f4nia. Ele, em seu Apocalipse, depois de chamar Roma de cidade das sete colinas, a grande cidade que reina sobre os reis da terra, anuncia sua queda, escrevendo: <em>Cecidit, cecidit Babylon magna<\/em>: caiu, caiu a grande Babil\u00f4nia<a href=\"#_ftn43\" id=\"_ftnref43\">[43]<\/a>. Com muita raz\u00e3o, ent\u00e3o, Roma poderia ser chamada uma Babil\u00f4nia, porque encerrava em seu seio todos os erros espalhados nas v\u00e1rias partes do mundo que dominava.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, Pedro tinha bons motivos para silenciar o nome literal do lugar de onde escrevia; porque, tendo fugido pouco antes das m\u00e3os de Herodes Agripa, e sabendo como entre esse rei e o imperador Cl\u00e1udio havia uma estreita amizade, poderia temer justamente alguma armadilha desses dois inimigos do nome crist\u00e3o, caso sua carta se perdesse. Para evitar esse perigo, portanto, a prud\u00eancia queria que ele em seu escrito usasse uma palavra conhecida pelos crist\u00e3os e desconhecida pelos judeus e gentios. Assim o fez.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Al\u00e9m disso, das pr\u00f3prias palavras de Pedro se deduz outra prova de sua vinda a Roma. De fato, Pedro, ao concluir sua carta, diz: \u201cSa\u00fada-vos a Igreja&#8230; e Marcos, meu filho\u201d. Portanto, Marcos estava com Pedro. Dito isso, toda a tradi\u00e7\u00e3o proclama concordemente que Marcos, filho espiritual de Pedro, seu disc\u00edpulo, seu int\u00e9rprete, seu escriba e diria seu secret\u00e1rio, esteve em Roma e nesta cidade escreveu o Evangelho como ouviu o pr\u00f3prio Mestre pregar<a href=\"#_ftn44\" id=\"_ftnref44\">[44]<\/a>. Portanto, \u00e9 necess\u00e1rio admitir tamb\u00e9m que Pedro esteve em Roma com o disc\u00edpulo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agora podemos chegar a esta conclus\u00e3o. Por um espa\u00e7o de mil e quatrocentos anos nunca houve ningu\u00e9m que tenha levantado a menor d\u00favida contra a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma. Ao contr\u00e1rio, temos uma longa s\u00e9rie de homens c\u00e9lebres por santidade e doutrina, que desde os tempos apost\u00f3licos at\u00e9 n\u00f3s, com sua autoridade, sempre a aceitaram. As liturgias, os martirol\u00f3gios, os pr\u00f3prios inimigos do cristianismo est\u00e3o de acordo com a maioria dos protestantes sobre esse fato.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, voc\u00eas, protestantes de hoje, ao contestar a vinda de S\u00e3o Pedro a Roma, se op\u00f5em a toda a antiguidade, se op\u00f5em \u00e0 autoridade dos homens mais eruditos e piedosos dos tempos passados; se op\u00f5em aos martirol\u00f3gios, aos menol\u00f3gios, \u00e0s liturgias, aos calend\u00e1rios da antiguidade; se op\u00f5em ao que escreveram seus pr\u00f3prios mestres.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00d3 protestantes, abri os olhos; ouvi as palavras de um amigo que vos fala movido unicamente pelo desejo do vosso bem. Muitos pretendem ser vossos guias na verdade; mas ou por mal\u00edcia ou por ignor\u00e2ncia vos enganam. Ouvi a voz de Deus que vos chama ao seu aprisco, sob a cust\u00f3dia do pastor supremo por Ele estabelecido. Abandonai todo compromisso, superai o obst\u00e1culo do respeito humano, renunciai aos erros em que homens iludidos vos precipitaram. Voltai \u00e0 religi\u00e3o de vossos antepassados, que alguns de seus ancestrais abandonaram; convidai todos os seguidores da Reforma a ouvir o que dizia Tertuliano em seu tempo: \u201cPortanto, \u00f3 crist\u00e3o, se queres estar seguro no grande assunto da salva\u00e7\u00e3o, recorre \u00e0s Igrejas fundadas pelos Ap\u00f3stolos. Vai a Roma, de onde emana nossa autoridade. \u00d3 Igreja feliz, onde com seu sangue derramaram toda a sua doutrina, onde Pedro sofreu um mart\u00edrio semelhante \u00e0 paix\u00e3o de seu divino Mestre, onde Paulo foi coroado com o mart\u00edrio ao ter a cabe\u00e7a decepada, onde Jo\u00e3o, depois de ter sido mergulhado numa caldeira de \u00f3leo fervente, nada sofreu e, portanto, foi exilado na ilha de Patmos.<a href=\"#_ftn45\" id=\"_ftnref45\">[45]<\/a>\u201d<br><br><br><em>Terceira Edi\u00e7\u00e3o<br>Turim<br>Livraria Salesiana Editora 1899<br><\/em><em>[1\u00aa ed., 1856; reimpress\u00e3o 1867 e 1869; 2\u00aa ed., 1884]<br><br>PROPRIEDADE DO EDITOR<br>S. Pier d\u2019Arena &#8211; Escola Tip. Salesiana<br>Col\u00e9gio S\u00e3o Vicente de Paulo<br>(N. 1265 \u2014 M)<br><br>Visto: nada obsta para a impress\u00e3o<br>G\u00eanova, 12 de junho de 1899<br>C\u00f4nego AGOSTINHO MONTALDO<br>V. Permite-se a impress\u00e3o<br>G\u00eanova, 15 de junho de 1899<br>C\u00f4nego PAULO CANEVELLO, Prov. Geral<\/em><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity\"\/>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref1\" id=\"_ftn1\">[1]<\/a> As not\u00edcias sobre a vida de S\u00e3o Pedro foram extra\u00eddas do Evangelho, dos Atos e de algumas cartas dos Ap\u00f3stolos, bem como de v\u00e1rios outros autores, cujas mem\u00f3rias s\u00e3o referidas por C\u00e9sar Bar\u00f4nio no primeiro volume de seus anais, pelos Bolandistas em 18 de janeiro, 22 de fevereiro, 29 de junho, 1\u00ba de agosto e em outros lugares. A vida de S\u00e3o Pedro foi amplamente tratada por Ant\u00f4nio Cesari nos Atos dos Ap\u00f3stolos e tamb\u00e9m num volume separado, Lu\u00eds Cuccagni em tr\u00eas volumes consistentes, e muitos outros.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref2\" id=\"_ftn2\">[2]<\/a> Santo Ambr\u00f3sio. Coment\u00e1rio ao Evangelho de Lucas, livro 4.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref3\" id=\"_ftn3\">[3]<\/a> Santo Ambr\u00f3sio. Obra citada.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref4\" id=\"_ftn4\">[4]<\/a> S\u00e3o Jer\u00f4nimo. Contra Joviniano, cap\u00edtulo 1, 26.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref5\" id=\"_ftn5\">[5]<\/a> Evangelho segundo Mateus, cap\u00edtulo 16.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref6\" id=\"_ftn6\">[6]<\/a> G\u00eanesis, cap\u00edtulo 41.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref7\" id=\"_ftn7\">[7]<\/a> Evangelho segundo Mateus, cap\u00edtulo 18.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref8\" id=\"_ftn8\">[8]<\/a> Evangelho segundo Mateus, cap\u00edtulo 15.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref9\" id=\"_ftn9\">[9]<\/a> S\u00e3o Jo\u00e3o Damasceno. Homilia sobre a Transfigura\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref10\" id=\"_ftn10\">[10]<\/a> S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo. Coment\u00e1rio ao Evangelho de Mateus.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref11\" id=\"_ftn11\">[11]<\/a> A tradu\u00e7\u00e3o de \u201cporta\u201d para \u201cpot\u00eancia\u201d, portanto o sinal pela coisa significada, deriva do fato de que na antiga lei e entre os povos orientais, os pr\u00edncipes e os ju\u00edzes geralmente exerciam seu poder legislativo e judici\u00e1rio diante das portas da cidade (veja III, p\u00e1g. XXII, 2). Al\u00e9m disso, essa parte da cidade era mantida em um estado cont\u00ednua de prote\u00e7\u00e3o [com destacamento de soldados] e muni\u00e7\u00e3o, de modo que, uma vez conquistadas as portas, o restante era facilmente tomado. At\u00e9 hoje se diz \u201cPorta Otomana\u201d ou \u201cSublime Porta\u201d para indicar o poder dos Turcos.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref12\" id=\"_ftn12\">[12]<\/a> S\u00e3o Jer\u00f4nimo. Contra Joviniano, cap\u00edtulo 1, 26.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref13\" id=\"_ftn13\">[13]<\/a> Santo Agostinho. Sobre a Unidade da Igreja.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref14\" id=\"_ftn14\">[14]<\/a> Santo Irineu. Contra as Heresias, livro III, n. 3.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref15\" id=\"_ftn15\">[15]<\/a> Salmos 68, 108.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref16\" id=\"_ftn16\">[16]<\/a> Evangelho segundo Jo\u00e3o, 14, 12.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref17\" id=\"_ftn17\">[17]<\/a> Veja S\u00e3o Bas\u00edlio de Sel\u00eaucia e os Reconhecimentos de S\u00e3o Clemente.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref18\" id=\"_ftn18\">[18]<\/a> Veja Teodoreto, S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, S\u00e3o Clemente, etc.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref19\" id=\"_ftn19\">[19]<\/a> Bento XIV. De Servorum Dei Beatificatione [Da Beatifica\u00e7\u00e3o dos Servos de Deus], livro I, cap\u00edtulo I.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref20\" id=\"_ftn20\">[20]<\/a> Carta aos Romanos, cap\u00edtulo I.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref21\" id=\"_ftn21\">[21]<\/a> Eus\u00e9bio. Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica, livro II, cap\u00edtulo 15.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref22\" id=\"_ftn22\">[22]<\/a> Primeira Carta de Pedro, cap\u00edtulo 5.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref23\" id=\"_ftn23\">[23]<\/a> S\u00e3o Paciano. carta 2.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref24\" id=\"_ftn24\">[24]<\/a> Os santos Padres que relatam o fato de Sim\u00e3o Mago, entre outros, s\u00e3o: S\u00e3o M\u00e1ximo de Turim, S\u00e3o Cirilo de Jerusal\u00e9m, S\u00e3o Sulp\u00edcio Severo, S\u00e3o Greg\u00f3rio de Tours, Papa S\u00e3o Clemente, S\u00e3o Bas\u00edlio de Sel\u00eaucia, Santo Epif\u00e2nio, Santo Agostinho, Santo Ambr\u00f3sio, S\u00e3o Jer\u00f4nimo e muitos outros.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref25\" id=\"_ftn25\">[25]<\/a> Lact\u00e2ncio. livro 4.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref26\" id=\"_ftn26\">[26]<\/a> Ep\u00edstola 2, cap\u00edtulo 3.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref27\" id=\"_ftn27\">[27]<\/a> As opini\u00f5es dos estudiosos variam ao fixar o ano do mart\u00edrio do Pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos; mas a mais prov\u00e1vel \u00e9 a que o atribui ao ano 67 da era comum. De fato, S\u00e3o Jer\u00f4nimo, incans\u00e1vel investigador e conhecedor das coisas sagradas, nos informa que S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo foram martirizados dois anos ap\u00f3s a morte de S\u00eaneca, mestre de Nero. Ora, de T\u00e1cito, historiador da \u00e9poca, sabemos que os c\u00f4nsules sob os quais S\u00eaneca morreu foram S\u00edlio Nerva e \u00c1tico Vestino, que ocuparam o consulado no ano 65; portanto, os dois Ap\u00f3stolos sofreram o mart\u00edrio em 67. A esse c\u00e1lculo de anos, pelo qual se fixa o mart\u00edrio naquela \u00e9poca, correspondem os 25 anos e quase dois meses durante os quais S\u00e3o Pedro ocupou sua C\u00e1tedra em Roma; n\u00famero de anos que sempre foi reconhecido por toda a antiguidade (veja \u201cObserva\u00e7\u00f5es hist\u00f3rico-cronol\u00f3gicas\u201d de Dom Domingos Bartolini, cardeal da Santa Igreja: \u201cSe o ano 67 da era comum \u00e9 o ano do mart\u00edrio dos gloriosos Pr\u00edncipes dos Ap\u00f3stolos Pedro e Paulo\u201d, Roma, Tipografia Scalvini, 1866).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref28\" id=\"_ftn28\">[28]<\/a> A corrente com a qual foi preso S\u00e3o Pedro ainda se conserva em Roma na igreja chamada S\u00e3o Pedro em Correntes (Artano, \u201cVida de S\u00e3o Pedro\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref29\" id=\"_ftn29\">[29]<\/a> No ponto mais alto do Monte Jan\u00edculo, onde Anco M\u00e1rcio, quarto rei de Roma, fundou a fortaleza janiculense, foi edificada a igreja de S\u00e3o Pedro em Mont\u00f3rio, no lugar onde o santo Ap\u00f3stolo sofreu o mart\u00edrio. Este monte foi chamado Jan\u00edculo porque dedicado a Jano, guardi\u00e3o das portas que em latim se dizem \u201cjanuae\u201d. Acredita-se que aqui tamb\u00e9m foi sepultado Jano, que construiu aquela parte de Roma em frente ao Capit\u00f3lio. Tamb\u00e9m foi chamado Monte \u00c1ureo, pela antiga e vizinha Porta \u00c1urea. Agora \u00e9 chamado Mont\u00f3rio, ou seja, Monte de Ouro, pela cor amarela da terra que cobre este monte, um dos sete montes da antiga Roma (veja Moroni, \u201cIgrejas de S\u00e3o Pedro\u201d).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref30\" id=\"_ftn30\">[30]<\/a> Bolandistas, dia 29 de junho.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref31\" id=\"_ftn31\">[31]<\/a> Santo Efr\u00e9m S\u00edrio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref32\" id=\"_ftn32\">[32]<\/a> Veja Pra\u00e7a Emanuel.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref33\" id=\"_ftn33\">[33]<\/a> Veja S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno, ep\u00edstola 30. Baronio no ano 284.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref34\" id=\"_ftn34\">[34]<\/a> Santo Irineu, Contra as Heresias, livro III, cap\u00edtulo 1.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref35\" id=\"_ftn35\">[35]<\/a> Caio Romano citado por Eus\u00e9bio; Clemente Alexandrino. Stromata, livro 7; Tertuliano. <em>De persecutionibus<\/em> [das persegui\u00e7\u00f5es]; Or\u00edgenes citado por Eus\u00e9bio. livro 3; S\u00e3o Cipriano. Carta 52 a Antoniano e carta 55 a Corn\u00e9lio.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref36\" id=\"_ftn36\">[36]<\/a> S\u00e3o Jer\u00f4nimo. <em>De viris illustribus<\/em>, cap\u00edtulo 1.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref37\" id=\"_ftn37\">[37]<\/a> Teodoreto, bispo de Ciro, homem versad\u00edssimo na hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica, falecido no ano 450, comentando a Carta de S\u00e3o Paulo aos Romanos, onde o Ap\u00f3stolo escreve: \u201cDesejaria v\u00ea-los, para comunicar-lhes algum dom espiritual a fim de que sejam fortalecidos\u201d (Romanos 1,11), acrescenta que Paulo n\u00e3o disse que queria confirm\u00e1-los sen\u00e3o porque o grande S\u00e3o Pedro j\u00e1 havia comunicado a eles o Evangelho: \u201cPorque Pedro primeiro lhes deu a doutrina evang\u00e9lica, necessariamente acrescentou \u2018para confirm\u00e1-los\u2019\u201d (<em>Coment\u00e1rio \u00e0 Carta aos Romanos<\/em>).<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref38\" id=\"_ftn38\">[38]<\/a> 1 Cor\u00edntios 11,23-24; G\u00e1latas 1,17-18.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref39\" id=\"_ftn39\">[39]<\/a> Veja <em>Teofania<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref40\" id=\"_ftn40\">[40]<\/a> Antiguidades Judaicas, livro 20, cap\u00edtulo 5.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref41\" id=\"_ftn41\">[41]<\/a> Citado por Eus\u00e9bio, livro II, 14.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref42\" id=\"_ftn42\">[42]<\/a> S\u00e3o Jer\u00f4nimo. <em>De viris illustribus<\/em>.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref43\" id=\"_ftn43\">[43]<\/a> Apocalipse 17,5; 18,2.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref44\" id=\"_ftn44\">[44]<\/a> Veja S\u00e3o Jer\u00f4nimo. <em>De viris illustribus<\/em>, cap\u00edtulo 8.<\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_ftnref45\" id=\"_ftn45\">[45]<\/a> Tertuliano. <em>De praescriptione haereticorum<\/em> [da prescri\u00e7\u00e3o dos hereges, cap\u00edtulo 36.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O momento culminante do Ano Jubilar para cada crente \u00e9 a passagem pela Porta Santa,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":35235,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":36,"footnotes":""},"categories":[161],"tags":[2552,2565,2557,2577,2570,1833,2189,2227,2228],"class_list":["post-35241","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-boa-imprensa","tag-biblia","tag-caridade","tag-deus","tag-dom-bosco","tag-igreja","tag-indulgencias","tag-jesus","tag-salvacao","tag-santos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35241"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35241\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/35235"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}