{"id":35174,"date":"2025-02-11T09:14:31","date_gmt":"2025-02-11T09:14:31","guid":{"rendered":"https:\/\/exciting-knuth.178-32-140-152.plesk.page\/?p=35174"},"modified":"2025-02-11T09:18:17","modified_gmt":"2025-02-11T09:18:17","slug":"o-jubileu-e-praticas-devotas-para-a-visita-das-igrejas-dialogo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/boa-imprensa\/o-jubileu-e-praticas-devotas-para-a-visita-das-igrejas-dialogo\/","title":{"rendered":"O Jubileu e pr\u00e1ticas devotas para a visita das igrejas. Di\u00e1logo"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><em>S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco compreendeu profundamente a import\u00e2ncia dos Jubileus na vida da Igreja. Se em 1850, devido a v\u00e1rias vicissitudes hist\u00f3ricas, n\u00e3o foi poss\u00edvel celebrar o Jubileu, o Papa Pio IX convocou um extraordin\u00e1rio por ocasi\u00e3o da proclama\u00e7\u00e3o do dogma da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o (8 de dezembro de 1854). Este Jubileu teve a dura\u00e7\u00e3o de seis meses, de 8 de dezembro de 1854 a 8 de junho de 1855. Dom Bosco n\u00e3o deixou passar a oportunidade e publicou, precisamente em 1854, o volume \u201cO Jubileu e Pr\u00e1ticas devotas para a visita das igrejas\u201d.<br>Com a promulga\u00e7\u00e3o da enc\u00edclica \u201cQuanta Cura\u201d [Com quanto cuidado] e do \u201cSyllabus errorum\u201d [Lista dos Erros], o Papa Pio IX convocou outro Jubileu extraordin\u00e1rio, novamente com a dura\u00e7\u00e3o de seis meses, de 8 de dezembro de 1864 a 8 de junho de 1865. Tamb\u00e9m nessa ocasi\u00e3o, Dom Bosco prop\u00f4s, nas Leituras Cat\u00f3licas, os \u201cDi\u00e1logos sobre a institui\u00e7\u00e3o do Jubileu\u201d.<br>Visando o Jubileu ordin\u00e1rio de 1875, Dom Bosco republicou seu texto com o t\u00edtulo \u201cO Jubileu de 1875, sua institui\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas devotas para a visita das Igrejas\u201d, sempre atento a oferecer aos fi\u00e9is um aux\u00edlio para essas celebra\u00e7\u00f5es ricas em gra\u00e7as extraordin\u00e1rias.<br>Apresentamos aqui precisamente a \u00faltima vers\u00e3o, datada de 1875.<br><\/em><br><strong>DI\u00c1LOGO I. Do Jubileu em geral<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Juliano<\/em> \u2014 Meus respeitos, senhor Padre, estou aqui para lhe fazer exercitar um pouco de paci\u00eancia.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Preposto<\/em> \u2014 Bem-vindo, caro Juliano, fico sempre contente quando voc\u00ea vem me visitar; e, como j\u00e1 disse v\u00e1rias vezes, estou sempre \u00e0 sua disposi\u00e7\u00e3o em tudo que posso fazer para a utilidade espiritual de todos os meus paroquianos e especialmente para voc\u00ea, que, tendo abra\u00e7ado h\u00e1 pouco a f\u00e9 cat\u00f3lica, tem maior necessidade de ser instru\u00eddo em muitas coisas.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Disseram-me que o Papa concedeu o Jubileu; eu nunca o fiz, gostaria agora de ser instru\u00eddo sobre a maneira de faz\u00ea-lo bem.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Sabiamente voc\u00ea pensou em buscar se instruir a tempo, pois desde que voc\u00ea se tornou cat\u00f3lico, n\u00e3o houve ainda nenhum Jubileu; e na circunst\u00e2ncia da sua abjura\u00e7\u00e3o, n\u00e3o tendo falado a respeito dessa pr\u00e1tica da Igreja Cat\u00f3lica, \u00e9 de temer que voc\u00ea tenha em mente n\u00e3o poucos erros. Diga-me, portanto, o que mais lhe interessa saber, e eu tentarei satisfaz\u00ea-lo fazendo-lhe aquelas observa\u00e7\u00f5es que me parecerem \u00fateis para seu benef\u00edcio espiritual.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Antes de tudo, eu precisaria que o senhor me dissesse de maneira f\u00e1cil e clara o que significa a palavra Jubileu e qual o sentido que os cat\u00f3licos d\u00e3o a ela, porque quando, infelizmente, era protestante, ouvia falar de todas as formas contra o Jubileu e contra as Indulg\u00eancias.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Duas coisas, Juliano, voc\u00ea deseja de mim: a explica\u00e7\u00e3o da palavra Jubileu e em que sentido a tomamos como pr\u00e1tica religiosa proposta pela Igreja Cat\u00f3lica.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Quanto ao significado da palavra, n\u00e3o preciso me deter muito, pois deve bastar saber o que se quer significar com ela. No entanto, citarei as principais explica\u00e7\u00f5es que os santos Padres d\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o Jer\u00f4nimo e outros dizem que a palavra Jubileu deriva de <em>Iubal<\/em>, inventor dos instrumentos musicais, ou de <em>Iobel<\/em> que significa chifre, porque o ano do Jubileu entre os hebreus era proclamado com uma trombeta feita \u00e0 maneira de chifre de carneiro.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Alguns outros fazem derivar Jubileu da palavra <em>Habil<\/em>, que significa restituir com alegria, porque naquele ano as coisas compradas, emprestadas ou penhoradas eram devolvidas ao primeiro propriet\u00e1rio; o que causava grande alegria.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Outros dizem que a palavra Jubileu deriva de <em>Iobil<\/em>, que tamb\u00e9m quer dizer alegria, porque nessas ocasi\u00f5es os bons crist\u00e3os t\u00eam graves motivos para se alegrar pelos tesouros espirituais dos quais podem se enriquecer.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Esta \u00e9 a explica\u00e7\u00e3o da palavra Jubileu em geral, mas eu gostaria de saber como \u00e9 definido pela Igreja na medida em que \u00e9 uma pr\u00e1tica de piedade, \u00e0 qual est\u00e3o anexas as Indulg\u00eancias.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Eu o satisfarei de bom grado. O Jubileu tomado como pr\u00e1tica estabelecida pela Igreja \u00e9 uma Indulg\u00eancia plen\u00e1ria concedida pelo Sumo Pont\u00edfice \u00e0 Igreja universal com plena remiss\u00e3o de todos os pecados \u00e0queles que dignamente a adquirem, cumprindo as obras prescritas.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Primeiramente, chama-se <em>Indulg\u00eancia plen\u00e1ria<\/em>, para distingui-la da Indulg\u00eancia parcial que costuma ser concedida pelos Sumos Pont\u00edfices a certos exerc\u00edcios de piedade crist\u00e3, a certas ora\u00e7\u00f5es e a certos atos de religi\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esta Indulg\u00eancia \u00e9 chamada extraordin\u00e1ria, porque costuma ser concedida raramente e em casos graves, como quando amea\u00e7am guerras, pestes e terremotos. O Sumo Pont\u00edfice Pio IX concede neste ano o Jubileu ordin\u00e1rio, que costuma ocorrer a cada vinte e cinco anos, a fim de incitar os fi\u00e9is crist\u00e3os de todo o mundo a rezar pelas necessidades presentes da religi\u00e3o e especialmente pela convers\u00e3o dos pecadores, pela extirpa\u00e7\u00e3o das heresias e para afastar muitos erros que alguns tentam disseminar entre os fi\u00e9is com escritos, livros ou outros meios que, infelizmente, o dem\u00f4nio sabe sugerir em detrimento das almas.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Fico muito contente com a defini\u00e7\u00e3o que me d\u00e1 do Jubileu, mas ele \u00e9 chamado com tal diversidade de nomes, que eu fico bastante confuso \u2014 Ano santo, ano centen\u00e1rio, secular, jubilar, Jubileu particular, Jubileu universal, grande Jubileu, Indulg\u00eancia em forma de Jubileu \u2014 aqui est\u00e3o os nomes com os quais ou\u00e7o o Jubileu ser chamado de forma mista; tenha a bondade de me dar a explica\u00e7\u00e3o.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Esses nomes, embora \u00e0s vezes sejam usados para expressar a mesma coisa, no entanto t\u00eam significados um tanto diferentes entre si. \u2014 Darei uma breve explica\u00e7\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Jubileu \u00e9 chamado ano Jubilar, ano santo porque naquele ano (como direi depois) os hebreus deviam cessar de todo tipo de trabalho e se ocupar exclusivamente em obras de virtude e santidade. A isso s\u00e3o igualmente convidados todos os fi\u00e9is crist\u00e3os, sem que, por outro lado, sejam obrigados a abandonar suas ocupa\u00e7\u00f5es temporais ordin\u00e1rias. Tamb\u00e9m \u00e9 chamado centen\u00e1rio ou cent\u00e9simo ano, porque em sua primeira institui\u00e7\u00e3o era celebrado a cada cem anos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Jubileu, ent\u00e3o, \u00e9 chamado parcial, quando \u00e9 concedido apenas em alguns lugares determinados, como seria em Roma, ou em Santiago de Compostela na Espanha. Este Jubileu \u00e9 tamb\u00e9m chamado geral, quando \u00e9 concedido aos fi\u00e9is em qualquer lugar da cristandade.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas \u00e9 dito propriamente Jubileu Geral ou Grande Jubileu, quando \u00e9 celebrado no ano que \u00e9 fixado pela Igreja. Entre os hebreus ocorria a cada cinquenta anos; entre os crist\u00e3os no in\u00edcio era a cada cem anos, depois a cada cinquenta e agora a cada vinte e cinco.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O Jubileu \u00e9 chamado extraordin\u00e1rio e tamb\u00e9m Indulg\u00eancia em forma de Jubileu, quando por alguma grave raz\u00e3o \u00e9 concedido fora do ano santo.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os Sumos Pont\u00edfices, quando s\u00e3o elevados \u00e0 sua dignidade, costumam solenizar este acontecimento com uma Indulg\u00eancia plen\u00e1ria, ou seja, um Jubileu extraordin\u00e1rio.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A diferen\u00e7a entre o grande Jubileu e o Jubileu particular consiste no fato de que o primeiro dura um ano inteiro, e o outro dura apenas uma parte do ano. Aquele, por exemplo, que o Papa Pio IX, gloriosamente reinante concedeu em 1865 durou apenas tr\u00eas meses, mas estavam anexados os mesmos favores do presente Jubileu, que dura por todo o ano de 1875.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A breve explica\u00e7\u00e3o que lhe dei sobre essas palavras, creio que ser\u00e1 ainda melhor esclarecida pelas outras coisas que espero poder expor em outros encontros. Enquanto isso, caro Juliano, conven\u00e7a-se de que o Jubileu \u00e9 um grande tesouro para os crist\u00e3os, de modo que com muita raz\u00e3o o erudito Cardeal Gaetani em seu tratado sobre o Jubileu (c. 15) escreveu estas belas palavras: \u201cBem-aventurado aquele povo que sabe o que \u00e9 o Jubileu; infelizes aqueles que, por neglig\u00eancia ou por inconsidera\u00e7\u00e3o, o negligenciam, com a esperan\u00e7a de alcan\u00e7ar outro\u201d (Quem desejar mais informa\u00e7\u00f5es sobre o que foi brevemente mencionado acima, pode consultar: MORONI: Ano santo e Jubileu \u2014 BERGIER artigo Jubileu \u2014 A obra: <em>Magnum theatrum vitae humanae, artigo Iubileum<\/em>. \u2014 NAVARRO <em>de Iubileo<\/em> nota 1\u00b0 Benzonio lib. 3, cap 4. Vittorelli \u2014 Turrecremata \u2014 Sarnelli tom. X. Santo Isidoro nas <em>Origens<\/em> lib. 5.).<br><br><strong>DI\u00c1LOGO II. Do Jubileu entre os Hebreus<br><\/strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Ouvi com prazer o que me disse sobre os v\u00e1rios significados que costumam ser dados \u00e0 palavra Jubileu, e sobre os grandes benef\u00edcios que dele podem ser extra\u00eddos. Mas isso n\u00e3o me basta, caso eu deva dar uma resposta aos meus antigos companheiros de religi\u00e3o; porque eles, tomando apenas a B\u00edblia como norma de sua f\u00e9, est\u00e3o firmes em afirmar que o Jubileu \u00e9 uma novidade na Igreja, da qual n\u00e3o existe tra\u00e7o na B\u00edblia. Portanto, gostaria de ser instru\u00eddo sobre este assunto.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Quando seus antigos ministros e companheiros de religi\u00e3o afirmavam que na sagrada Escritura n\u00e3o se fala de Jubileu, eles tentavam esconder a verdade de voc\u00ea, ou eles mesmos a ignoravam.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Antes de expor o que a B\u00edblia diz sobre o Jubileu, conv\u00e9m que lhe fa\u00e7a notar como existe na Igreja Cat\u00f3lica uma autoridade infal\u00edvel, que vem de Deus, e \u00e9 dirigida pelo pr\u00f3prio Deus. Isso aparece em muitos textos da sagrada B\u00edblia e especialmente nas palavras ditas pelo Salvador a S\u00e3o Pedro quando o estabeleceu como chefe da Igreja, dizendo: \u2014 Tudo o que ligares na terra, ser\u00e1 ligado no c\u00e9u; tudo o que desatares na terra, ser\u00e1 tamb\u00e9m desatado no c\u00e9u (S\u00e3o Mateus 18). Portanto, podemos admitir com certeza tudo o que essa autoridade estabelece para o bem dos crist\u00e3os sem temor de errar. Al\u00e9m disso, \u00e9 uma m\u00e1xima aceita por todos os cat\u00f3licos que, quando encontramos alguma verdade acreditada e praticada em todos os tempos na Igreja, e n\u00e3o se pode encontrar nenhum tempo ou lugar em que tenha sido institu\u00edda, devemos crer que \u00e9 revelada pelo pr\u00f3prio Deus e transmitida por palavras ou por escritos desde o princ\u00edpio da Igreja at\u00e9 os nossos dias.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Isso eu tamb\u00e9m creio; pois, estabelecida a autoridade infal\u00edvel da Igreja, n\u00e3o importa que ela proponha coisas escritas na B\u00edblia ou transmitidas por tradi\u00e7\u00e3o. No entanto, eu gostaria muito de saber o que h\u00e1 na B\u00edblia a respeito do Jubileu; e isso desejo ainda mais, porque h\u00e1 pouco tempo um antigo amigo meu protestante come\u00e7ou a zombar de mim sobre a novidade do Jubileu, da qual, ele dizia, n\u00e3o existe men\u00e7\u00e3o na B\u00edblia.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Estou pronto para satisfazer esse seu justo desejo. Vamos abrir juntos a B\u00edblia e ler aqui no livro do Lev\u00edtico no cap\u00edtulo XXV, e encontraremos a institui\u00e7\u00e3o do Jubileu, como era praticado entre os hebreus.<br>O texto sagrado diz assim:<br><em>Contar\u00e1s sete semanas de anos, ou seja, sete vezes sete anos, o que dar\u00e1 quarenta e nove anos. Ent\u00e3o far\u00e1s soar a trombeta no dia dez do s\u00e9timo m\u00eas. No dia do Grande Perd\u00e3o fareis soar a trombeta por todo o pa\u00eds. Declarareis santo o quinquag\u00e9simo ano e proclamareis a liberta\u00e7\u00e3o para todos os habitantes do pa\u00eds. Ser\u00e1 para v\u00f3s um jubileu. Cada um de v\u00f3s poder\u00e1 retornar \u00e0 sua propriedade e voltar para sua fam\u00edlia. O quinquag\u00e9simo ano ser\u00e1 para v\u00f3s um ano do jubileu: n\u00e3o semeareis, nem colhereis o que a terra produzir espontaneamente, nem fareis a colheita da videira n\u00e3o podada. Porque \u00e9 o ano de jubileu, sagrado para v\u00f3s. Mas podereis comer o que produzirem os campos n\u00e3o cultivados. Neste ano de jubileu, cada um poder\u00e1 retornar \u00e0 sua propriedade<\/em> [Lv 25,8-13].<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 At\u00e9 aqui s\u00e3o palavras do Lev\u00edtico, sobre as quais creio que n\u00e3o \u00e9 necess\u00e1ria uma longa explica\u00e7\u00e3o para compreender qu\u00e3o antiga \u00e9 a institui\u00e7\u00e3o do Jubileu, ou seja, desde os primeiros tempos em que os hebreus estavam prestes a entrar na Terra Prometida, cerca do ano do mundo 2500.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Do Jubileu se fala ainda em muitos outros lugares da B\u00edblia; como no mesmo livro do Lev\u00edtico, no cap. XXVII; no livro dos N\u00fameros, no cap. XXXVI, no de Josu\u00e9 no cap. VI. Mas basta o que j\u00e1 dissemos, que \u00e9 por si muito claro.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Fiquei muito contente em ver essas palavras da B\u00edblia, e fico muito feliz que a B\u00edblia n\u00e3o s\u00f3 fale do Jubileu, mas ordene a observ\u00e2ncia a todos os hebreus. Desejo, por outro lado, que me explique um pouco mais detalhadamente as palavras do texto sagrado, para saber qual foi o prop\u00f3sito de Deus ao ordenar o Jubileu.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Na B\u00edblia aparece claramente qual foi o prop\u00f3sito de Deus ao ordenar a Mois\u00e9s a observ\u00e2ncia do Jubileu. Em primeiro lugar, Deus, que \u00e9 todo caridade, queria que aquele povo se acostumasse a ser benigno e misericordioso para com o pr\u00f3ximo; por isso, no ano do Jubileu, todas as d\u00edvidas eram perdoadas. Aqueles que haviam vendido ou penhorado casas, vinhedos, campos ou outras coisas, naquele ano recuperavam tudo como primeiros propriet\u00e1rios; os exilados retornavam \u00e0 sua p\u00e1tria, e os escravos, sem qualquer resgate, eram deixados em liberdade. Dessa maneira, impedia-se que os ricos fizessem aquisi\u00e7\u00f5es desmedidas, os pobres podiam conservar a heran\u00e7a de seus antepassados, e impedia-se a escravid\u00e3o t\u00e3o praticada naqueles tempos entre as na\u00e7\u00f5es pag\u00e3s. Al\u00e9m disso, devendo o povo cessar as ocupa\u00e7\u00f5es temporais, podia se ocupar livremente durante um ano inteiro nas coisas referentes ao culto divino, e assim ricos e pobres, escravos e senhores se uniam em um s\u00f3 cora\u00e7\u00e3o e em uma s\u00f3 alma para bendizer e agradecer ao Senhor pelos benef\u00edcios recebidos.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Talvez n\u00e3o seja apropriado, mas me surge uma dificuldade: se no ano do Jubileu n\u00e3o se semeava, nem se colhiam os frutos dos campos, do que as pessoas podiam se alimentar?<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Nessa ocasi\u00e3o, ou seja, no ano do Jubileu, ocorria um fato extraordin\u00e1rio, que \u00e9 um verdadeiro milagre. No ano anterior, o Senhor fazia produzir da terra tal abund\u00e2ncia de toda sorte de frutos, que bastavam para todo o ano 49 e 50 e parte do 51. No que devemos admirar a bondade de Deus, que, enquanto ordena que nos ocupemos das coisas que dizem respeito ao seu culto divino, pensa ele mesmo em tudo o que pode nos ser necess\u00e1rio para o corpo. Essa m\u00e1xima foi depois confirmada v\u00e1rias vezes no Evangelho, especialmente quando Jesus Cristo disse: N\u00e3o queirais estar ansiosos pelo amanh\u00e3, dizendo: Que comeremos? Que beberemos? Com que nos cobriremos? <em>Quaerite primum regnum Dei et iustitiam eius et haec omnia adiicientur vobis<\/em>. Buscai em primeiro lugar o reino de Deus e a sua justi\u00e7a, e as outras coisas vos ser\u00e3o acrescentadas.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Outra d\u00favida me surge neste momento: o ano do Jubileu ainda \u00e9 atualmente precedido por aquela abund\u00e2ncia em algum lugar da terra?<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> N\u00e3o, Juliano, a abund\u00e2ncia material do Jubileu hebraico durou para aquele povo apenas at\u00e9 a vinda do Messias; a partir de ent\u00e3o, tendo-se realizado o que figurava o antigo Jubileu, cessou aquela abund\u00e2ncia material para dar lugar \u00e0 abund\u00e2ncia de gra\u00e7as e b\u00ean\u00e7\u00e3os, que os crist\u00e3os podem desfrutar na santa Religi\u00e3o Cat\u00f3lica.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Estou bastante satisfeito com o que me disse (Sobre este assunto, pode-se consultar CALMET DELL\u2019AQUILA Dicion\u00e1rio B\u00edblico no artigo Jubileu. \u2014 MENOCHIO: Do quinquag\u00e9simo ano do Jubileu dos Hebreus).<br><br><strong>DI\u00c1LOGO III. O Jubileu entre os Crist\u00e3os<br><\/strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Procurarei lembrar como o Jubileu era praticado entre os hebreus e como ele \u00e9 fonte de b\u00ean\u00e7\u00e3os celestiais em tempos determinados. Agora gostaria de saber se no Novo Testamento h\u00e1 men\u00e7\u00e3o ao Jubileu; porque, se existir algum texto a esse respeito, os protestantes est\u00e3o em apuros e ter\u00e3o que concordar que os cat\u00f3licos praticam o Jubileu seguindo o Evangelho.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Embora para cada crist\u00e3o baste que uma verdade esteja registrada em qualquer parte da B\u00edblia para que seja para ele uma regra de f\u00e9, neste caso podemos estar amplamente satisfeitos tanto com a autoridade do Antigo quanto com a do Novo Testamento.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o Lucas, no cap\u00edtulo quarto (v. 19), relata o seguinte fato do Salvador. Tendo Jesus ido a Nazar\u00e9, sua p\u00e1tria, foi-lhe apresentada a B\u00edblia para que explicasse algum trecho ao povo. Ele abriu o livro do profeta Isa\u00edas e, entre outras coisas, aplicou a si mesmo as seguintes palavras: O esp\u00edrito do Senhor me enviou para anunciar aos cativos a liberta\u00e7\u00e3o e aos cegos a recupera\u00e7\u00e3o da vista, para p\u00f4r em liberdade os oprimidos, para pregar o ano aceit\u00e1vel do Senhor e o dia da retribui\u00e7\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dessas palavras, Juliano, voc\u00eas conhecem como o Salvador lembra o antigo Jubileu, que era todo material, e o nobilita em sentido moral, dizendo que ele anunciava o verdadeiro ano da retribui\u00e7\u00e3o, um ano agrad\u00e1vel no qual, com seus milagres, com sua paix\u00e3o e morte, ele daria a verdadeira liberdade aos povos escravizados pelo pecado, com a abund\u00e2ncia de gra\u00e7as e b\u00ean\u00e7\u00e3os que se t\u00eam na religi\u00e3o crist\u00e3 (V. MARTINI em S\u00e3o Lucas).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tamb\u00e9m S\u00e3o Paulo, na segunda carta aos Cor\u00edntios, fala deste tempo aceit\u00e1vel, do tempo da salva\u00e7\u00e3o e da santifica\u00e7\u00e3o (c. 6, 2).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dessas palavras e de outros fatos do Novo Testamento, chegamos \u00e0 conclus\u00e3o: 1\u00b0 Que o antigo Jubileu, que era todo material, passou de fato na nova lei, que \u00e9 todo espiritual. 2\u00b0 A liberdade que o povo de Deus dava aos escravos figurava a completa liberta\u00e7\u00e3o que n\u00f3s adquiriremos pela gra\u00e7a de Deus, pela qual somos libertados da dura escravid\u00e3o do dem\u00f4nio. 3\u00b0 Que o ano da retribui\u00e7\u00e3o, ou seja, do Jubileu, foi confirmado no Evangelho, recebido pela Igreja e praticado conforme a necessidade dos fi\u00e9is e conforme as oportunidades dos tempos permitiam.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Estou cada vez mais convencido de uma verdade que acredito firmemente, porque est\u00e1 registrada no Antigo e no Novo Testamento. Agora gostaria de saber como essa pr\u00e1tica religiosa foi conservada na Igreja Cat\u00f3lica.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Isso \u00e9 uma quest\u00e3o de grande import\u00e2ncia, e eu procurarei satisfaz\u00ea-lo. Assim como o ano do Jubileu entre os hebreus era um ano de remiss\u00e3o e perd\u00e3o, assim tamb\u00e9m foi institu\u00eddo o ano do Jubileu entre os crist\u00e3os, no qual se concedem grand\u00edssimas indulg\u00eancias, ou seja, remiss\u00e3o e perd\u00e3o dos pecados. Da\u00ed surgiu que o ano do Jubileu entre os crist\u00e3os foi chamado de ano santo, tanto pelas muitas obras de piedade que os crist\u00e3os costumam exercer nesse ano, quanto pelos grandes favores celestiais que, em tal ocasi\u00e3o, cada um pode obter.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 N\u00e3o \u00e9 isso que quero dizer; eu gostaria de ouvir contar como esse Jubileu foi introduzido entre os crist\u00e3os.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Para compreender como o Jubileu foi introduzido e conservado entre os crist\u00e3os, \u00e9 necess\u00e1rio que eu mencione uma cren\u00e7a religiosa seguida desde os primeiros tempos da Igreja. Ela consistia em uma grande venera\u00e7\u00e3o de que, no ano do Jubileu, chamado no Evangelho ano de retribui\u00e7\u00e3o, e por S\u00e3o Paulo ano aceit\u00e1vel, tempo de salva\u00e7\u00e3o, se poderia adquirir uma indulg\u00eancia plen\u00e1ria, ou seja, a remiss\u00e3o de toda satisfa\u00e7\u00e3o devida a Deus pelos pecados. Acredita-se que o primeiro Jubileu foi concedido pelos pr\u00f3prios santos Ap\u00f3stolos no ano 50 da era comum (V. Scal\u00edgero e Pet\u00e1vio).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os primeiros Pont\u00edfices que sucederam a S\u00e3o Pedro na governan\u00e7a da Igreja continuaram a manter viva essa pr\u00e1tica religiosa, concedendo grandes favores \u00e0queles que, em determinados tempos, se dirigissem a Roma para visitar a igreja onde estava sepultado o corpo de S\u00e3o Pedro (V. Rutilio, <em>De Iubileo<\/em>. Laurea, Navarro, Vittorelli e outros).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Pois sempre foi a cren\u00e7a entre os crist\u00e3os, mesmo nos primeiros s\u00e9culos, que em determinados tempos, visitando a igreja de S\u00e3o Pedro no Vaticano, onde estava sepultado o corpo daquele pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, se ganhariam favores espirituais extraordin\u00e1rios, que chamamos de indulg\u00eancias.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Os favores celestiais que se esperavam, o grande respeito que todos os cat\u00f3licos nutriam pelo glorioso S\u00e3o Pedro, o desejo de visitar a igreja, as cadeias e o sepulcro do pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, atra\u00edam pessoas de todas as partes do mundo. Em certos anos, viam-se velhos, jovens, ricos e pobres partindo de pa\u00edses muito distantes, superando os mais graves desconfortos das estradas para ir a Roma, na plena convic\u00e7\u00e3o de obter grand\u00edssimas indulg\u00eancias.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno, desejando apoiar o esp\u00edrito religioso nos crist\u00e3os e ao mesmo tempo regular o seu frequente concurso em Roma, no s\u00e9culo VI estabeleceu que a cada cem anos se poderia ganhar a Indulg\u00eancia plen\u00e1ria, ou seja, Jubileu, por todos aqueles que, no ano secular, tamb\u00e9m chamado ano santo, se dirigissem a Roma para visitar a Bas\u00edlica Vaticana, onde estava sepultado o pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Aqui encontro uma dificuldade: li em alguns livrinhos que o Jubileu foi institu\u00eddo somente no ano de 1300 por um Papa chamado Bonif\u00e1cio VIII; e, segundo o que o senhor diz, seria muito mais antigo.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Eu tamb\u00e9m sei que existem alguns livretos impressos que afirmam que Bonif\u00e1cio VIII \u00e9 o autor do Jubileu; mas isso dizem de forma imprecisa, pois este Pont\u00edfice foi, na verdade, o primeiro a publicar com uma Bula o ano santo, ou seja, a Indulg\u00eancia plen\u00e1ria do Jubileu; mas nesta mesma Bula ele assegura que n\u00e3o fez outra coisa sen\u00e3o estabelecer por escrito o que j\u00e1 se praticava universalmente entre os crist\u00e3os.<br><br><strong>DI\u00c1LOGO IV. Primeira publica\u00e7\u00e3o solene do Jubileu, ou seja, ano santo<br><\/strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Esta primeira publica\u00e7\u00e3o do Jubileu ou do ano santo \u00e9 um fato t\u00e3o grave e solene que eu gostaria de ouvi-lo contar acompanhado das suas mais not\u00e1veis circunst\u00e2ncias.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Como voc\u00ea gosta de hist\u00f3rias, creio oportuno expor as raz\u00f5es que levaram o Pont\u00edfice Bonif\u00e1cio VIII a publicar com solenidade especial uma Bula sobre o primeiro Jubileu solene. \u2014 Era o ano 1300, quando uma quantidade extraordin\u00e1ria de gente do Estado Romano e estrangeira acorreu a Roma em tal n\u00famero que parecia que as portas do c\u00e9u haviam se aberto ali. No in\u00edcio do m\u00eas de janeiro havia tal multid\u00e3o de pessoas pelas ruas daquela cidade que mal se podia caminhar. Diante desse fato, o Pont\u00edfice ordenou que se buscasse o que se pudesse encontrar a esse respeito nas mem\u00f3rias antigas; e ent\u00e3o fez chamar alguns dos mais velhos que ali haviam chegado para saber o que os havia movido. Entre outros, havia um nobre e rico saboiano de cento e sete anos. O Papa, na presen\u00e7a de v\u00e1rios Cardeais, quis interrog\u00e1-lo assim: Quantos anos voc\u00ea tem? \u2014 Cento e sete. \u2014 Por que voc\u00ea veio a Roma? \u2014 Para ganhar as grandes Indulg\u00eancias. \u2014 Quem lhe disse? \u2014 Meu pai. \u2014 Quando? \u2014 H\u00e1 cem anos meu pai me trouxe consigo a Roma e me disse que a cada cem anos em Roma se podiam obter grand\u00edssimas Indulg\u00eancias, e que se eu ainda estivesse vivo dali a cem anos, n\u00e3o deveria deixar de ir visitar a Bas\u00edlica do pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Depois dele, tamb\u00e9m foram trazidos outros indiv\u00edduos, velhos e jovens de v\u00e1rias na\u00e7\u00f5es, que, interrogados pelo mesmo Sumo Pont\u00edfice, todos concordavam em afirmar que sempre ouviram dizer que a cada ano secular, indo visitar a Bas\u00edlica de S\u00e3o Pedro, lucrariam grandes Indulg\u00eancias com a remiss\u00e3o de todos os pecados. Em vista daquela persuas\u00e3o universal e constante, o Papa promulgou uma Bula com a qual confirmava o que at\u00e9 ent\u00e3o havia sido praticado por tradi\u00e7\u00e3o oral. Um escritor daquelas \u00e9pocas, familiarizado com o Pont\u00edfice Bonif\u00e1cio, assegura ter ouvido aquele Papa dizer que ele foi movido a publicar sua Bula pela cren\u00e7a divulgada e aceita em todo o mundo crist\u00e3o, ou seja, que desde o nascimento de Cristo se costumava conceder uma grande Indulg\u00eancia a cada ano secular (Jo\u00e3o Cardeal M\u00f4naco).<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 J\u00e1 que vejo que o senhor leu muito, traga-me algum trecho daquela Bula, para que eu possa ser bem instru\u00eddo sobre essa pr\u00e1tica universal da Igreja.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Seria muito longo traz\u00ea-la toda; eu trarei o princ\u00edpio e creio que ser\u00e1 suficiente para voc\u00ea. Eis as palavras do Pont\u00edfice: \u00abUma fiel e antiga tradi\u00e7\u00e3o de homens que viveram h\u00e1 muito tempo assegura que \u00e0queles que v\u00eam visitar a honrosa Bas\u00edlica do pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos em Roma s\u00e3o concedidas grandes Indulg\u00eancias e remiss\u00e3o dos pecados. N\u00f3s, portanto, que por dever do nosso of\u00edcio desejamos e nos esfor\u00e7amos com todo o \u00e2nimo para procurar a salva\u00e7\u00e3o das almas, com nossa autoridade apost\u00f3lica aprovamos e confirmamos todas as Indulg\u00eancias mencionadas, e as renovamos autenticando-as com este nosso escrito.\u00bb Depois disso, o Papa exp\u00f5e os motivos que o levaram a conceder tais Indulg\u00eancias e quais s\u00e3o as obriga\u00e7\u00f5es a serem cumpridas por aqueles que desejam adquiri-las.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Conhecida a Bula do Papa, \u00e9 incr\u00edvel o entusiasmo que se despertou de todos os lados para fazer a peregrina\u00e7\u00e3o a Roma. Da Fran\u00e7a, da Inglaterra, da Espanha, da Alemanha, vinham em multid\u00e3o os peregrinos de todas as idades, condi\u00e7\u00f5es, nobres e soberanos. O n\u00famero de estrangeiros em Roma chegou a dois milh\u00f5es simultaneamente. O que teria causado uma grave carestia, se o Papa n\u00e3o tivesse providenciado a tempo, trazendo alimentos de outros pa\u00edses.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Agora compreendo muito bem qu\u00e3o antiga \u00e9 a pr\u00e1tica do Jubileu na Igreja, mas o que celebramos hoje me parece muito diferente; tanto porque se fala mais frequentemente, quanto porque n\u00e3o se vai mais a Roma para adquiri-lo.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Voc\u00ea faz uma observa\u00e7\u00e3o oportuna; e a esse respeito, direi que o Jubileu, segundo a Bula do Papa Bonif\u00e1cio, deveria ocorrer a cada cem anos; mas como esse intervalo de tempo \u00e9 muito longo e a vida do homem \u00e9 muito curta para que todos possam se beneficiar, assim, um Papa chamado Clemente VI, reduziu para cada cinquenta anos, como era o dos hebreus. Depois, outro Pont\u00edfice chamado Greg\u00f3rio XI restringiu para cada trinta e tr\u00eas anos em mem\u00f3ria dos trinta e tr\u00eas anos da vida do Salvador; finalmente, o Papa Paulo II, para que aqueles que tamb\u00e9m morrem jovens possam adquirir a Indulg\u00eancia do Jubileu, estabeleceu que ocorresse a cada vinte e cinco anos. Assim, na Igreja, foi praticado at\u00e9 hoje. Al\u00e9m disso, a obriga\u00e7\u00e3o de ir a Roma impedia que muitos, seja por dist\u00e2ncia, seja por idade, seja por doen\u00e7a, pudessem se beneficiar dos favores espirituais do Jubileu. Por isso, os romanos Pont\u00edfices concederam a mesma Indulg\u00eancia, mas em vez da obriga\u00e7\u00e3o de ir a Roma, costumam impor algumas obriga\u00e7\u00f5es a serem cumpridas por aqueles que desejam fazer o santo Jubileu.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 J\u00e1 temos na hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica registrados 20 anos santos, ou seja, vinte anos em que os Pont\u00edfices publicaram o favor do Jubileu em tempos diferentes.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O \u00faltimo dos que foram celebrados, foi promulgado por Le\u00e3o XII no ano de 1825. Deveria igualmente ser publicado no ano de 1850, mas as turbul\u00eancias p\u00fablicas daquela \u00e9poca n\u00e3o permitiram que isso fosse feito. Agora estamos celebrando o do Sumo Pont\u00edfice Pio IX, que \u00e9 verdadeiramente o ano santo de 1875.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Por que o presente Jubileu foi concedido pelo Papa?<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> O que o Papa concede atualmente \u00e9 um Jubileu ordin\u00e1rio. Os motivos deste Jubileu s\u00e3o a convers\u00e3o dos pecadores, e particularmente dos hereges; a paz entre os pr\u00edncipes crist\u00e3os e o triunfo da santa Religi\u00e3o Cat\u00f3lica sobre a heresia; e, al\u00e9m disso, o santo Padre tamb\u00e9m se prop\u00f4s o objetivo de obter de Deus luzes particulares para conhecer muitas proposi\u00e7\u00f5es err\u00f4neas que, h\u00e1 algum tempo, est\u00e3o se espalhando entre os fi\u00e9is, com grave dano da f\u00e9 e com perigo de eterna condena\u00e7\u00e3o para muitos. O Papa, em sua Enc\u00edclica, justifica o que faz; e, por fim, prescreve as obras a serem realizadas para a aquisi\u00e7\u00e3o das santas Indulg\u00eancias.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Parece-lhe, senhor Padre, que as coisas da religi\u00e3o v\u00e3o t\u00e3o mal? Os hereges se convertem de vez em quando em grande n\u00famero \u00e0 Religi\u00e3o Cat\u00f3lica; o Catolicismo triunfa e progride muito nas miss\u00f5es estrangeiras.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> \u00c9 verdade, meu bom Juliano, que a Religi\u00e3o Cat\u00f3lica prospera bastante nas miss\u00f5es estrangeiras; \u00e9 verdade tamb\u00e9m que, h\u00e1 alguns anos, muitos judeus, hereges, particularmente protestantes, renunciaram aos seus erros para abra\u00e7ar a santa Religi\u00e3o Cat\u00f3lica, e justamente por esses progressos o dem\u00f4nio faz todos os seus esfor\u00e7os para sustentar e espalhar a heresia e a impiedade. Al\u00e9m disso, de quantas maneiras hoje em dia a religi\u00e3o \u00e9 desprezada em p\u00fablico e em privado, nos discursos, nos jornais, nos livros! N\u00e3o h\u00e1 coisa santa e vener\u00e1vel que n\u00e3o seja alvo de cr\u00edticas e n\u00e3o seja censurada e zombada. Pegue, eu lhe dou a carta que o Papa escreve a todos os Bispos da cristandade, leia-a com calma; nela est\u00e3o mencionados os esfor\u00e7os que o inferno faz contra a Igreja nestes tempos, quais favores podem ser desfrutados na ocasi\u00e3o do Jubileu e o que deve ser feito para adquiri-los. Enquanto isso, voc\u00ea deve ter em mente que o Jubileu foi uma institui\u00e7\u00e3o divina; foi Deus quem o ordenou a Mois\u00e9s. Esta institui\u00e7\u00e3o passou para os crist\u00e3os e foi praticada nos primeiros tempos da Igreja com algumas modifica\u00e7\u00f5es, at\u00e9 que Bonif\u00e1cio VIII a estabeleceu regularmente com uma Bula. Outros Pont\u00edfices depois a reduziram \u00e0 forma com a qual \u00e9 observada hoje. Portanto, praticamos algo que foi ordenado por Deus, e o fazemos porque \u00e9 ordenado pela Igreja para nossas necessidades particulares; assim, devemos estar atentos para nos beneficiarmos e professar sentimentos de suma gratid\u00e3o a Deus, que de tantas maneiras demonstra seu vivo desejo de que aproveitemos de seus favores e que pensemos na salva\u00e7\u00e3o de nossa alma; e devemos, ao mesmo tempo, professar viva venera\u00e7\u00e3o ao Vig\u00e1rio de Jesus Cristo, cumprindo com a m\u00e1xima dilig\u00eancia o que ele prescreve, a fim de alcan\u00e7armos os favores celestiais (Tratam mais amplamente o que foi exposto acima o Card. GAETANI: Do cent\u00e9simo ano. \u2014 MANNI: Hist\u00f3ria do ano santo \u2014 ZACCARIA: Do ano santo).<br><br><strong>DI\u00c1LOGO V. Das Indulg\u00eancias<br><\/strong><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Estamos em um ponto dif\u00edcil, do qual os antigos companheiros de heresia sempre falaram mal, quero dizer, das Indulg\u00eancias. Portanto, gostaria de ser instru\u00eddo sobre elas, esclarecendo as dificuldades que surgirem em minha mente.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> N\u00e3o me surpreende que seus antigos companheiros de heresia tenham falado e falem at\u00e9 hoje com desprezo das Indulg\u00eancias, pois delas os protestantes tiraram pretexto para se separarem da Igreja Cat\u00f3lica. Quando voc\u00ea, caro Juliano, tiver uma ideia justa das Indulg\u00eancias, certamente ficar\u00e1 satisfeito e bendir\u00e1 a divina miseric\u00f3rdia, que nos oferece um meio t\u00e3o f\u00e1cil para conquistarmos os tesouros divinos.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Ent\u00e3o me explique o que s\u00e3o essas Indulg\u00eancias, e eu me esfor\u00e7arei para tirar proveito delas.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Para que voc\u00ea compreenda o que significa Indulg\u00eancia, \u00e9 bom que retenha como o pecado produz dois efeitos amargu\u00edssimos em nossa alma: a <em>culpa<\/em> que nos priva da gra\u00e7a e da amizade de Deus, e a <em>pena<\/em> que dela resulta, e que impede a entrada no para\u00edso. Essa pena \u00e9 de duas esp\u00e9cies: uma eterna, a outra temporal. A culpa junto com a pena eterna nos \u00e9 totalmente remida, mediante os m\u00e9ritos infinitos de Jesus Cristo, no Sacramento da Penit\u00eancia, desde que nos aproximemos para receb\u00ea-lo com as devidas disposi\u00e7\u00f5es. Como a pena temporal n\u00e3o nos \u00e9 sempre toda remida neste Sacramento, assim permanece em grande parte para ser satisfeita nesta vida por meio de boas obras e da penit\u00eancia; ou na outra, por meio do fogo do purgat\u00f3rio. \u00c9 sobre essa verdade que se fundamentavam as penit\u00eancias can\u00f4nicas t\u00e3o severas que a Igreja, nos primeiros s\u00e9culos, impunha aos pecadores arrependidos. Tr\u00eas, sete, dez, at\u00e9 quinze e vinte anos de jejum a p\u00e3o e \u00e1gua, de priva\u00e7\u00f5es e humilha\u00e7\u00f5es, \u00e0s vezes por toda a vida; eis o que a Igreja impunha por um \u00fanico pecado, e ela n\u00e3o acreditava que essas satisfa\u00e7\u00f5es superassem a medida que o pecador devia \u00e0 justi\u00e7a de Deus. E quem pode medir a inj\u00faria que a culpa faz ao sumo Deus e a mal\u00edcia do pecado? Quem pode penetrar os profund\u00edssimos segredos eternos e saber quanto a justi\u00e7a divina exige de n\u00f3s nesta vida para satisfazer nossas d\u00edvidas? Quanto tempo teremos que passar no fogo do purgat\u00f3rio? Para abreviar o tempo que ter\u00edamos que permanecer naquele lugar de purifica\u00e7\u00e3o e aliviar a penit\u00eancia que dever\u00edamos fazer na vida presente, \u00e9 que tendem os tesouros das santas Indulg\u00eancias: e estas s\u00e3o como uma troca das severas penit\u00eancias can\u00f4nicas que, por muitos anos, e \u00e0s vezes por toda a vida, como disse, a Igreja nos primeiros tempos costumava impor aos pecadores arrependidos.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Parece-me razo\u00e1vel que, ap\u00f3s o perd\u00e3o do pecado, ainda permane\u00e7a a necessidade de satisfazer a divina justi\u00e7a por meio de alguma penit\u00eancia; mas o que s\u00e3o propriamente as Indulg\u00eancias?<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> As Indulg\u00eancias s\u00e3o a remiss\u00e3o da pena temporal devida pelos nossos pecados, o que se faz por meio dos tesouros espirituais confiados por Deus \u00e0 Igreja.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 O que s\u00e3o esses tesouros espirituais da Igreja?<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Esses tesouros espirituais s\u00e3o os m\u00e9ritos infinitos de nosso Senhor Jesus Cristo, os da sant\u00edssima Virgem Maria e dos Santos, como professamos no S\u00edmbolo dos Ap\u00f3stolos, quando dizemos: <em>Eu creio na Comunh\u00e3o dos Santos<\/em>. Sendo infinitos, os m\u00e9ritos de Jesus Cristo, superabundante os de Maria sant\u00edssima, que, concebida sem mancha e vivendo sem pecado, nada, portanto, devia \u00e0 divina justi\u00e7a por seus pecados; os M\u00e1rtires e outros Santos, tendo com seus sofrimentos, em uni\u00e3o com os de Jesus Cristo, satisfeito mais do que o necess\u00e1rio por conta pr\u00f3pria: todas essas satisfa\u00e7\u00f5es diante de Deus s\u00e3o como um tesouro inesgot\u00e1vel, que o Sumo Pont\u00edfice dispensa conforme a oportunidade dos tempos e as necessidades dos crist\u00e3os.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Aqui estamos diante da grande dificuldade: a Sagrada Escritura n\u00e3o nos fala de Indulg\u00eancias. Quem, ent\u00e3o, pode conceder as Indulg\u00eancias?<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> A faculdade de dispensar as santas Indulg\u00eancias reside no Sumo Pont\u00edfice. Pois em toda sociedade, em todo governo, uma das mais nobres prerrogativas do Chefe de Estado \u00e9 o direito de conceder gra\u00e7as e de comutar penas. Agora, o Sumo Pont\u00edfice, representante de Jesus Cristo na terra, Chefe da grande Sociedade Crist\u00e3, sem d\u00favida tem o direito de conceder gra\u00e7as, de comutar, de remir total ou parcialmente as penas incorridas pelo pecado, em favor daqueles que de cora\u00e7\u00e3o se voltam para Deus.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Sobre quais coisas se fundamenta esse poder do Sumo Pont\u00edfice?<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Esse poder, ou seja, a autoridade do Sumo Pont\u00edfice em dispensar as Indulg\u00eancias, \u00e9 apoiado nas mesmas palavras de Jesus Cristo. No ato em que ele designou S\u00e3o Pedro para governar a Igreja, disse-lhe estas palavras: \u00abEu te darei as chaves do reino dos c\u00e9us; tudo o que ligares na terra ser\u00e1 tamb\u00e9m ligado no c\u00e9u, e o que desatares na terra ser\u00e1 igualmente desatado no c\u00e9u.\u00bb Essa faculdade abrange sem d\u00favida um direito de poder conceder aos crist\u00e3os tudo o que pode contribuir para o bem de suas almas.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Mas essas palavras me parecem m\u00e1gicas; elas constituem S\u00e3o Pedro chefe da Igreja, d\u00e3o-lhe a faculdade de remir os pecados, a faculdade de fazer preceitos, de conceder as Indulg\u00eancias, e tudo isso em poucas palavras!<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> As palavras ditas por Jesus Cristo a S\u00e3o Pedro conferem um poder pleno e absoluto, e esse poder pleno e absoluto constitui S\u00e3o Pedro Chefe da Igreja, Vig\u00e1rio de Jesus Cristo, dispensador de todos os favores celestiais, portanto tamb\u00e9m das santas Indulg\u00eancias. Isso se evidencia desde que o Senhor lhe deu as chaves do reino dos c\u00e9us: <em>Tibi dabo claves regni coelorum<\/em>; e pelas palavras com que ordenou a S\u00e3o Pedro que apascentasse, ou seja, que dispensasse aos crist\u00e3os o que as pessoas e os tempos exigiriam dele para o bem espiritual e eterno: estas palavras do Salvador concluem que o poder dado a S\u00e3o Pedro e a seus sucessores exclui toda d\u00favida sobre a faculdade de conceder as Indulg\u00eancias.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Compreendo muito bem que com essas palavras o Salvador tenha dado especialmente a S\u00e3o Pedro grandes poderes, entre os quais a faculdade de remir os pecados; mas n\u00e3o consigo entender que tenha sido dada a faculdade de dispensar as Indulg\u00eancias.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Se voc\u00ea compreende muito bem que com aquelas palavras o Salvador tenha dado especialmente a S\u00e3o Pedro (como com outras semelhantes tamb\u00e9m deu aos outros Ap\u00f3stolos) a faculdade de remir os pecados, ou seja, de perdoar a pena eterna, devemos dizer que n\u00e3o foi dada a faculdade de remir a pena temporal por meio das Indulg\u00eancias, que em compara\u00e7\u00e3o com aquela pode-se dizer infinitamente menor?<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 \u00c9 verdade, \u00e9 verdade: diga-me apenas se aquelas palavras foram entendidas nesse sentido pelos Ap\u00f3stolos.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Isso \u00e9 certo, e posso apresentar mais fatos notados na B\u00edblia; limito-me a mencionar apenas um. Este \u00e9 de S\u00e3o Paulo, e diz respeito aos fi\u00e9is de Corinto. Entre aqueles fervorosos crist\u00e3os, um jovem cometeu um pecado grave, pelo qual mereceu ser excomungado. Ele logo se mostrou arrependido, expressando vivamente o desejo de fazer a devida penit\u00eancia. Ent\u00e3o os cor\u00edntios pediram a S\u00e3o Paulo que o absolvesse. Este Ap\u00f3stolo usou de indulg\u00eancia, ou seja, o liberou da excomunh\u00e3o e o restituiu ao seio da Igreja, embora pela gravidade do pecado, e segundo a disciplina em vigor na \u00e9poca, ele devesse permanecer ainda muito tempo separado da Igreja. Pelas palavras dele e por outras do mesmo S\u00e3o Paulo, aparece que ele mesmo ligava e absolvia, ou seja, usava rigor e indulg\u00eancia, conforme julgava ser mais vantajoso para as almas.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Estou muito satisfeito com o que o senhor me contou sobre as Indulg\u00eancias, como est\u00e1 contido na Sagrada Escritura. Estou plenamente seguro e tranquilo em crer que Deus deu \u00e0 Igreja a faculdade de dispensar as Indulg\u00eancias. Al\u00e9m disso, gostaria muito que me dissesse se a dispensa dessas sempre ocorreu na Igreja, pois os protestantes dizem que nos primeiros tempos n\u00e3o se falava de Indulg\u00eancias.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Tamb\u00e9m nisso os protestantes est\u00e3o errados, e a Hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica est\u00e1 cheia de fatos que demonstram a divina institui\u00e7\u00e3o das Indulg\u00eancias e o uso constante delas desde os primeiros tempos da Igreja. E como sei que voc\u00ea gosta muito de fatos, quero contar alguns em confirma\u00e7\u00e3o do que digo.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Eu gosto muito de fatos, ainda mais do que de raz\u00f5es, e se o senhor contar muitos, ficarei muito contente.<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Padre \u2014<\/em> Ap\u00f3s o tempo dos Ap\u00f3stolos, continuou o uso das Indulg\u00eancias. No primeiro s\u00e9culo da era comum temos o fato mencionado; no segundo s\u00e9culo lemos que, no tempo da persegui\u00e7\u00e3o, quando algum pecador retornava \u00e0 Igreja, primeiro era obrigado a confessar seus pecados, ent\u00e3o lhe era imposto um tempo durante o qual, exercitando-se fervorosamente em obras de penit\u00eancia, obteria Indulg\u00eancia, ou seja, seu tempo de penit\u00eancia seria abreviado. Para obter isso com maior facilidade, recomendava-se \u00e0queles que eram conduzidos ao mart\u00edrio que orassem ao bispo, ou que lhe escrevessem um bilhete, suplicando-lhe que quisesse usar de indulg\u00eancia em vista dos sofrimentos dos m\u00e1rtires e assim conceder-lhes paz com Deus e com a Igreja (Tertuliano, <em>Ad maj.<\/em> 1, I).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No terceiro s\u00e9culo, S\u00e3o Cipriano, escrevendo aos fi\u00e9is detidos na pris\u00e3o, os avisa a n\u00e3o intercederem muito facilmente a Indulg\u00eancia para aqueles que a pedem, mas a esperar que eles demonstrem sinais suficientes de dor e arrependimento por suas culpas. Pelas palavras dele, aparece que nos tempos de S\u00e3o Cipriano as Indulg\u00eancias estavam em uso, e que o santo recomendava aos m\u00e1rtires que fossem cautelosos em n\u00e3o interpor sua media\u00e7\u00e3o junto aos Bispos, exceto para aqueles que se mostrassem sinceramente arrependidos (Ep. 21, 22, 23).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No quarto s\u00e9culo, no ano 325, foi convocado um Conc\u00edlio geral na cidade de Niceia, onde se trataram v\u00e1rias quest\u00f5es referentes ao bem universal da Igreja. Ao se falar das Indulg\u00eancias, estabeleceu-se que aqueles que fazem penit\u00eancia possam obter Indulg\u00eancia do Bispo; e que os mais negligentes devem fazer sua penit\u00eancia pelo tempo estabelecido. O que n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o conceder a Indulg\u00eancia a uns e neg\u00e1-la a outros (Conc\u00edlio de Niceia, c\u00e2non 11, 12).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nos tempos posteriores, os fatos s\u00e3o sem n\u00famero. S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno, em uma carta escrita ao Rei dos Visigodos, enviou uma pequena chave que havia tocado o corpo de S\u00e3o Pedro, e tinha dentro de si um pouco de limalha das correntes com as quais aquele santo Ap\u00f3stolo havia sido preso, para que, diz o Papa, aquilo que serviu para prender o pesco\u00e7o do Ap\u00f3stolo quando ia ao mart\u00edrio, o absolva de todos os seus pecados. O que os santos Padres interpretam no sentido de Indulg\u00eancia plen\u00e1ria, que o Papa enviava junto com aquela chave aben\u00e7oada.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 S\u00e3o Le\u00e3o Papa, no ano oitocentos e tr\u00eas, tendo-se com grande comitiva de cardeais, arcebispos, prelados, ido ao Imperador Carlos Magno, foi recebido pelo piedoso soberano com a m\u00e1xima pompa. Esse monarca pediu e obteve como favor especial que dedicasse o pal\u00e1cio real de Aquisgrana (Aix-la-Chapelle) \u00e0 bem-aventurada Virgem, e que o enriquecesse com muitas indulg\u00eancias a serem lucradas por aqueles que fossem visit\u00e1-lo. Se quiserem que eu lhes conte ainda outros fatos, poderia recitar quase toda a Hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica e, especialmente, a Hist\u00f3ria das Cruzadas, circunst\u00e2ncias em que os Papas concediam a Indulg\u00eancia plen\u00e1ria \u00e0queles que se alistavam para ir \u00e0 Palestina libertar os Lugares Santos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para conclus\u00e3o e confirma\u00e7\u00e3o do que disse at\u00e9 agora, exponho-lhes aqui a doutrina da Igreja Cat\u00f3lica sobre as Indulg\u00eancias como foi definida no Conc\u00edlio de Trento:<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00abA faculdade de dispensar as Indulg\u00eancias tendo sido concedida por Cristo \u00e0 Igreja, a Igreja se serviu desta faculdade desde tempos remot\u00edssimos; por isso, o sacrossanto Conc\u00edlio ordena e ensina que se deve considerar que as Indulg\u00eancias s\u00e3o \u00fateis \u00e0 salva\u00e7\u00e3o do crist\u00e3o, como \u00e9 provado pela autoridade dos Conc\u00edlios. Quem, por sua vez, diz que as Indulg\u00eancias s\u00e3o in\u00fateis, ou nega que na Igreja exista a faculdade de dispens\u00e1-las, seja an\u00e1tema: seja excomungado (Sess. 25, cap. 21).\u00bb<br><em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jul. <\/em>\u2014 Basta, basta, se a faculdade de dispensar as Indulg\u00eancias foi dada por Deus \u00e0 Igreja, foi praticada pelos Ap\u00f3stolos, e desde seus tempos sempre esteve em uso na Igreja em todos os s\u00e9culos at\u00e9 os nossos dias, devemos dizer claramente que os protestantes est\u00e3o em grave erro quando se p\u00f5em a censurar a Igreja Cat\u00f3lica, porque dispensa as santas Indulg\u00eancias, como se o uso das mesmas n\u00e3o tivesse sido praticado nos primeiros tempos da Igreja.<br><br><strong>DI\u00c1LOGO VI. Aquisi\u00e7\u00e3o das Indulg\u00eancias<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Padre \u2014<\/em> Enquanto admiramos a bondade de Deus em dispensar as santas Indulg\u00eancias, em conceder tesouros celestiais que n\u00e3o diminuem, nem diminuir\u00e3o nunca, embora sejam espalhados, como um imenso oceano que n\u00e3o sofre diminui\u00e7\u00e3o por quanta \u00e1gua dele se extraia, devemos, no entanto, cumprir algumas obriga\u00e7\u00f5es para a sua aquisi\u00e7\u00e3o. Em primeiro lugar, \u00e9 bom sublinhar que n\u00e3o depende do arb\u00edtrio de cada crist\u00e3o servir-se desses tesouros divinos a seu bel-prazer; ele os desfrutar\u00e1 somente <em>quando, como e na maior ou menor quantidade<\/em>, que a santa Igreja e o sumo Pont\u00edfice determinam. Assim, as Indulg\u00eancias se distinguem comumente em duas classes: <em>as parciais<\/em>, ou seja, de alguns dias, meses ou anos, e <em>plen\u00e1rias<\/em>. Por exemplo, dizendo: <em>Meu Jesus, miseric\u00f3rdia<\/em>, se ganham cem dias de Indulg\u00eancia. Quando se diz: <em>Maria, Aux\u00edlio dos crist\u00e3os, rogai por n\u00f3s<\/em>, se lucram 300 dias. Cada vez que se acompanha o Vi\u00e1tico levado a um enfermo, podem-se ganhar sete anos de Indulg\u00eancia. Essas indulg\u00eancias s\u00e3o parciais.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A Indulg\u00eancia plen\u00e1ria \u00e9 aquela pela qual nos \u00e9 remida toda a pena, da qual por nossos pecados somos devedores a Deus; tal \u00e9, precisamente, aquela que o Papa concede na ocorr\u00eancia deste Jubileu. Lucrando esta indulg\u00eancia, se volta a estar diante de Deus, como estava quando nasceu, isto \u00e9, quando <em>foi batizado<\/em>; de modo que, se algu\u00e9m morresse ap\u00f3s ter lucrado a Indulg\u00eancia do Jubileu, iria para o para\u00edso sem passar pelas penas do purgat\u00f3rio.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Jul. <\/em>\u2014 Eu desejo de todo cora\u00e7\u00e3o ganhar esta Indulg\u00eancia plen\u00e1ria; apenas me explique o que devo fazer.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Padre \u2014<\/em> Para lucrar esta, como qualquer outra Indulg\u00eancia, busca-se antes de tudo que algu\u00e9m esteja em gra\u00e7a de Deus, porque aquele que diante de Deus \u00e9 culpado de falta grave e de pena eterna, certamente n\u00e3o \u00e9, nem pode ser capaz de receber a remiss\u00e3o da pena temporal. \u00c9, portanto, um \u00f3timo conselho que cada crist\u00e3o, que deseje adquirir indulg\u00eancias quando e como s\u00e3o concedidas, se aproxime do Sacramento da confiss\u00e3o, procurando excitar-se num verdadeiro arrependimento, e fazer um firme prop\u00f3sito de n\u00e3o mais ofender a Deus no futuro.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A segunda condi\u00e7\u00e3o \u00e9 o cumprimento do que o romano Pont\u00edfice prescreve. Pois a santa Igreja, ao abrir o tesouro das santas Indulg\u00eancias, obriga sempre os fi\u00e9is a alguma obra boa a ser feita em tempo e lugar determinados. E isso para preparar nosso cora\u00e7\u00e3o para acolher aqueles favores extraordin\u00e1rios, que a miseric\u00f3rdia de Deus nos tem preparado. Assim, para adquirir a Indulg\u00eancia deste Jubileu, o sumo Pont\u00edfice quer que cada um se aproxime dos Sacramentos da Confiss\u00e3o e da Comunh\u00e3o, visite devotamente quatro igrejas por 15 vezes seguidas ou alternadamente, rezando segundo sua inten\u00e7\u00e3o, pela exalta\u00e7\u00e3o e prosperidade de nossa santa m\u00e3e Igreja, pela extirpa\u00e7\u00e3o da heresia, pela paz e concord\u00e2ncia dos pr\u00edncipes crist\u00e3os, pela paz e unidade de todo o povo crist\u00e3o.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Jul. <\/em>\u2014 Bastam essas coisas para ganhar a Indulg\u00eancia do Jubileu?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 <em>Padre \u2014<\/em> N\u00e3o bastam essas duas coisas, mas nos falta ainda uma, que \u00e9 a principal. Requer-se que se detestem todos os pecados, mesmo os veniais, e al\u00e9m disso, se afaste o afeto a todos e a cada um deles. E isso faremos certamente, se nos dispusermos a praticar aquelas coisas que o confessor nos impor\u00e1, mas acima de tudo, se fizermos uma firme e eficaz resolu\u00e7\u00e3o de n\u00e3o querer mais cometer nenhum pecado, se evitarmos as ocasi\u00f5es e praticarmos os meios para n\u00e3o mais recair. O sumo Pont\u00edfice Clemente VI, para excitar os crist\u00e3os de todo o mundo \u00e0 aquisi\u00e7\u00e3o do Jubileu, dizia: \u00abJesus Cristo, com sua gra\u00e7a e com a superabund\u00e2ncia dos m\u00e9ritos de sua paix\u00e3o, deixou \u00e0 Igreja militante aqui na terra um infinito tesouro n\u00e3o escondido sob um len\u00e7ol, nem enterrado em um campo, mas o confiou a ser dispensado salutarmente aos fi\u00e9is, o confiou ao bem-aventurado Pedro, que traz as chaves do c\u00e9u, e a seus sucessores, Vig\u00e1rios de Jesus Cristo na terra; a este tesouro prestam ajuda os m\u00e9ritos da bem-aventurada M\u00e3e de Deus e de todos os eleitos (Clem. VI. DD. cut.)\u00bb<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Agora, meu caro Giuliano, voc\u00ea aprendeu o que \u00e9 necess\u00e1rio para adquirir esta Indulg\u00eancia plen\u00e1ria, e uma vez que entre outras coisas \u00e9 prescrito fazer uma visita a quatro igrejas, assim eu colocarei aqui as pr\u00e1ticas devotas necess\u00e1rias, que poder\u00e3o servir-lhe em cada uma dessas visitas (Quem desejar se instruir mais sobre as santas indulg\u00eancias pode consultar o MORONI artigo: <em>Indulg\u00eancias. Magnum Theatrum vitae humanae.<\/em> Artigo <em>Indulg\u00eancia<\/em>. \u2014 BERGIER <em>Indulg\u00eancias<\/em>. \u2014 FERRARI <em>na Biblioteca<\/em>).<br><br><br><em>Para maior comodidade, aqui s\u00e3o resumidas as inten\u00e7\u00f5es da Igreja ao promulgar este Jubileu, os favores concedidos durante o mesmo e as condi\u00e7\u00f5es para adquirir a Indulg\u00eancia Plen\u00e1ria.<br><\/em><br><br><strong>INTEN\u00c7\u00d5ES DA IGREJA AO PROMULGAR O JUBILEU<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 As inten\u00e7\u00f5es da Igreja ao nos convidar a participar do Jubileu s\u00e3o: 1\u00b0 renovar a mem\u00f3ria da nossa Reden\u00e7\u00e3o e nos excitar, portanto, a uma viva gratid\u00e3o para com o Divino Salvador; 2\u00b0 reviver em n\u00f3s os sentimentos de f\u00e9, de religi\u00e3o e de piedade; 3\u00b0 nos precaver, por meio das mais abundantes luzes que o Senhor concede neste tempo de salva\u00e7\u00e3o, contra os erros, a impiedade, a corrup\u00e7\u00e3o e os esc\u00e2ndalos que de todos os lados nos cercam; 4\u00b0 despertar e aumentar o esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o que \u00e9 a arma do crist\u00e3o; 5\u00b0 nos excitar \u00e0 penit\u00eancia do cora\u00e7\u00e3o, a emendar os costumes e a redimir com boas obras os pecados, que nos atra\u00edram a ira de Deus; 6\u00b0 obter, mediante esta convers\u00e3o dos pecadores e o maior aperfei\u00e7oamento dos justos, que Deus antecipe em sua miseric\u00f3rdia o triunfo da Igreja em meio \u00e0 cruel guerra que lhe fazem seus inimigos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 A essas inten\u00e7\u00f5es devemos tamb\u00e9m nos associar em nossas ora\u00e7\u00f5es.<br><br><br><strong>FAVORES ESPECIAIS CONCEDIDOS NO TEMPO DO JUBILEU<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para encorajar os pecadores a participarem do Jubileu, \u00e9 dado durante todo este ano santo a cada confessor a faculdade de absolver de qualquer pecado, mesmo reservado ao Bispo ou ao Papa; bem como de comutar em outras obras de piedade os votos, de quase todo tipo, que algu\u00e9m tenha feito e que n\u00e3o possa observar.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Cada um, ent\u00e3o, cumprindo as condi\u00e7\u00f5es aqui indicadas, pode nesta circunst\u00e2ncia adquirir n\u00e3o s\u00f3 a remiss\u00e3o de todos os seus pecados, mas tamb\u00e9m a Indulg\u00eancia Plen\u00e1ria, ou seja, a remiss\u00e3o de toda a pena temporal que ainda lhe restaria a expiar neste mundo ou no purgat\u00f3rio.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Tal indulg\u00eancia \u00e9 aplic\u00e1vel \u00e0s almas do Purgat\u00f3rio, mas pode ser adquirida uma s\u00f3 vez no decorrer do Jubileu.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 O tempo do Jubileu come\u00e7ou em 1\u00b0 de janeiro e termina em 31 de dezembro de 1875.<br><br><br><strong>CONDI\u00c7\u00d5ES PARA ADQUIRIR A INDULG\u00caNCIA DO JUBILEU<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 1\u00b0 Confessar-se com as devidas disposi\u00e7\u00f5es, merecendo a absolvi\u00e7\u00e3o com um verdadeiro arrependimento.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 2\u00b0 Aproximar-se dignamente da Comunh\u00e3o: aqueles que ainda n\u00e3o foram admitidos poder\u00e3o fazer com que seja comutada em uma obra piedosa pelo confessor. N\u00e3o basta uma s\u00f3 Comunh\u00e3o para satisfazer ao mesmo tempo ao preceito pascal e adquirir o Jubileu.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 3\u00b0 Visitar por quinze dias seguidos ou interpolados quatro Igrejas com a inten\u00e7\u00e3o de adquirir o Jubileu; tal inten\u00e7\u00e3o basta coloc\u00e1-la uma vez desde o in\u00edcio. A visita deve ser feita a todas as quatro Igrejas (Para Turim, s\u00e3o designadas as Igrejas de S\u00e3o Jo\u00e3o, de Nossa Senhora da Consola\u00e7\u00e3o, dos Santos M\u00e1rtires e de S\u00e3o Filipe. Em outros lugares, cada um deve se aconselhar com seu pr\u00f3prio p\u00e1roco ou diretor) no mesmo dia. Pode-se, no entanto, calcular como um s\u00f3 dia o tempo desde as primeiras v\u00e9speras de um dia at\u00e9 todo o dia seguinte; assim, por exemplo, desde meio-dia de hoje at\u00e9 todo o dia de amanh\u00e3 pode-se calcular um s\u00f3 dia. N\u00e3o bastaria visitar uma Igreja por dia. Por\u00e9m, em caso de grave impedimento, os confessores t\u00eam a faculdade de modificar as visitas ou at\u00e9 mesmo comut\u00e1-las em outras obras piedosas. As visitas podem ser feitas antes ou depois da Confiss\u00e3o e Comunh\u00e3o, ou mesmo entre elas. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio, mas \u00e9 sumamente desej\u00e1vel que sejam feitas em estado de gra\u00e7a, ou seja, sem pecado mortal na consci\u00eancia.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 N\u00e3o s\u00e3o prescritas ora\u00e7\u00f5es especiais ao fazer essas visitas, e pode bastar que algu\u00e9m se detenha cerca de um quarto de hora em cada Igreja recitando os <em>Atos de F\u00e9<\/em>, de <em>Esperan\u00e7a<\/em> etc., com cinco <em>Pai Nossos<\/em>, <em>Ave Maria<\/em> e <em>Gl\u00f3ria ao Pai<\/em>, rezando segundo a inten\u00e7\u00e3o da Igreja e do Papa.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No entanto, para comodidade dos devotos, colocam-se aqui algumas considera\u00e7\u00f5es que podem servir de leitura ao fazer essas visitas.<br><br><br><strong>VISITA \u00c0 PRIMEIRA IGREJA. A confiss\u00e3o<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 No Sacramento da Confiss\u00e3o temos uma grande manifesta\u00e7\u00e3o da miseric\u00f3rdia de Deus para com os pecadores. Se Deus tivesse dito para nos perdoar os pecados somente pelo Batismo, e n\u00e3o mais aqueles que, por desgra\u00e7a, seriam cometidos ap\u00f3s receber este Sacramento, oh! quantos crist\u00e3os iriam para a eterna perdi\u00e7\u00e3o! Mas Deus, conhecendo a nossa mis\u00e9ria, estabeleceu outro Sacramento, pelo qual s\u00e3o perdoados os pecados cometidos ap\u00f3s o Batismo. E este \u00e9 o Sacramento da Confiss\u00e3o. Eis como fala o Evangelho: Oito dias ap\u00f3s sua ressurrei\u00e7\u00e3o, Jesus apareceu a seus disc\u00edpulos e lhes disse: A paz esteja convosco. Assim como o Pai celeste me enviou, eu tamb\u00e9m vos envio, isto \u00e9, a faculdade que me foi dada pelo Pai Celeste de fazer o que \u00e9 bom para a salva\u00e7\u00e3o das almas, a mesmo eu vos dou. Depois, o Salvador, soprando sobre eles, disse: Recebei o Esp\u00edrito Santo; aqueles a quem perdoardes os pecados, ser\u00e3o perdoados; aqueles a quem os retiverdes, ser\u00e3o retidos. Todos compreendem que as palavras reter ou n\u00e3o reter significam dar ou n\u00e3o dar a absolvi\u00e7\u00e3o. Esta \u00e9 a grande faculdade dada por Deus aos seus Ap\u00f3stolos e aos seus sucessores na administra\u00e7\u00e3o dos Santos Sacramentos.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Dessas palavras do Salvador nasce uma obriga\u00e7\u00e3o para os sagrados Ministros de ouvir as confiss\u00f5es, e igualmente nasce a obriga\u00e7\u00e3o para o crist\u00e3o de confessar suas culpas, para que se saiba quando se deve dar ou n\u00e3o dar a absolvi\u00e7\u00e3o, quais conselhos sugerir para remediar o mal feito; em suma, dar todos aqueles avisos paternais que s\u00e3o necess\u00e1rios para reparar os males da vida passada e n\u00e3o comet\u00ea-los mais no futuro.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nem a confiss\u00e3o foi algo praticado somente em algum tempo e em algum lugar. Assim que os Ap\u00f3stolos come\u00e7aram a pregar o Evangelho, logo come\u00e7ou a ser praticado o Sacramento da Penit\u00eancia. Lemos que quando S\u00e3o Paulo pregava em \u00c9feso, muitos fi\u00e9is que j\u00e1 haviam abra\u00e7ado a f\u00e9, vinham aos p\u00e9s dos Ap\u00f3stolos e confessavam seus pecados. <em>Confitetentes et annuntiantes actus suos<\/em>. Desde o tempo dos Ap\u00f3stolos at\u00e9 n\u00f3s, sempre foi observada a pr\u00e1tica deste augusto Sacramento. A Igreja Cat\u00f3lica condenou em todo tempo como her\u00e9tico quem quer que tivesse a ousadia de negar esta verdade. N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m que tenha podido se dispensar disso. Ricos e pobres, servos e senhores, reis, monarcas, imperadores, sacerdotes, bispos, os mesmos Sumos Pont\u00edfices, todos devem se ajoelhar aos p\u00e9s de um ministro sagrado para obter o perd\u00e3o daquelas culpas que, porventura, tenham cometido ap\u00f3s o Batismo. Mas, que tristeza! quantos crist\u00e3os se aproveitam mal deste Sacramento! Alguns se aproximam sem fazer o exame de consci\u00eancia, outros se confessam com indiferen\u00e7a, sem dor ou sem prop\u00f3sito; outros, ent\u00e3o, silenciam coisas importantes na confiss\u00e3o, ou n\u00e3o cumprem as obriga\u00e7\u00f5es impostas pelo confessor. Estes tomam a coisa mais santa e mais \u00fatil a fim de se servirem para a ru\u00edna de si mesmos. Santa Teresa teve a este respeito uma tremenda revela\u00e7\u00e3o. Ela viu que as almas ca\u00edam no inferno como a neve cai no inverno sobre as costas das montanhas. Assustada com aquela vis\u00e3o, perguntou a Jesus Cristo a explica\u00e7\u00e3o, e recebeu como resposta que aqueles iam \u00e0 perdi\u00e7\u00e3o por causa das confiss\u00f5es mal feitas em suas vidas.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Para nos animar a irmos nos confessar com plena sinceridade, consideremos que o sacerdote, que nos espera no tribunal de penit\u00eancia, nos espera em nome de Deus e em nome de Deus perdoa os pecados dos homens. Se houvesse um r\u00e9u condenado \u00e0 morte por grave delito, e no ato de ser conduzido ao pat\u00edbulo se apresentasse a ele o ministro do rei dizendo: Sua culpa est\u00e1 perdoada; o rei lhe concede a gra\u00e7a da vida, e o acolhe entre seus amigos, e para que voc\u00ea n\u00e3o duvide do que digo, aqui est\u00e1 o decreto que me autoriza a revogar a senten\u00e7a de morte, quais sentimentos de gratid\u00e3o e amor n\u00e3o expressaria este culpado para com o rei e para com seu ministro! Isso acontece exatamente conosco. N\u00f3s somos verdadeiros culpados que, pecando, merecemos a pena eterna do inferno. O ministro do Rei dos reis, em nome de Deus, no tribunal de penit\u00eancia nos diz: Deus me manda a v\u00f3s para absolver-vos de vossas culpas, para fechar-vos o inferno, abrir-vos o Para\u00edso, para restituir-vos a amizade com Deus. Para que voc\u00eas n\u00e3o duvidem da faculdade que me foi dada, aqui est\u00e1 um decreto assinado pelo mesmo Jesus Cristo, que me autoriza a revogar de voc\u00eas a senten\u00e7a de morte. O decreto \u00e9 expresso assim: Aqueles a quem perdoardes os pecados, s\u00e3o perdoados; aqueles a quem os retiverdes, s\u00e3o retidos. <em>Quorum remiseritis peccata, remittuntur eis, quorum retinueritis, retenta sunt<\/em>. Com que estima e venera\u00e7\u00e3o devemos nos aproximar de um ministro que, em nome de Deus, pode nos fazer tanto bem e nos impedir tanto mal!<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um motivo, ent\u00e3o, todo especial deve nos animar a relatar toda culpa ao confessor, e \u00e9 que, em ocasi\u00e3o de Jubileu, ele tem a faculdade de absolver de qualquer pecado, mesmo reservado. Quem tiver incorrido em censuras, excomunh\u00f5es e outras penas eclesi\u00e1sticas pode ser absolvido por qualquer confessor, sem recorrer nem ao Bispo nem ao Papa.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Nem nos mantenha longe da confiss\u00e3o o temor de que o confessor v\u00e1 revelar a outros as coisas ouvidas na confiss\u00e3o. N\u00e3o, isso nunca foi no passado, nem nunca ser\u00e1 no futuro. Um bom pai, sem d\u00favida, mant\u00e9m sob segredo as confid\u00eancias de seus filhos. O confessor \u00e9 um verdadeiro pai espiritual; portanto, mesmo humanamente falando, ele mant\u00e9m sob rigoroso segredo o que lhe revelamos. Mas h\u00e1 mais; um preceito absoluto, natural, eclesi\u00e1stico e divino obriga o confessor a calar qualquer coisa ouvida na confiss\u00e3o. Mesmo que se tratasse de impedir um grave mal, de libertar a si mesmo e todo o mundo da morte, ele n\u00e3o pode usar uma informa\u00e7\u00e3o obtida na confiss\u00e3o, a menos que o penitente lhe conceda expressa faculdade de falar sobre isso. Vai, portanto, \u00f3 crist\u00e3o, vai frequentemente a este amigo; quanto mais frequentemente fores a ele, mais te assegurar\u00e1s de caminhar pelo caminho do c\u00e9u; quanto mais frequentemente fores a ele, mais ter\u00e1s sempre confirmado o perd\u00e3o de teus pecados, e mais ter\u00e1s assegurada aquela felicidade eterna prometida por aquele mesmo Jesus Cristo, que deu um t\u00e3o grande poder a seus ministros. N\u00e3o te deixes deter pela multid\u00e3o, nem pela gravidade das culpas. O sacerdote \u00e9 ministro da miseric\u00f3rdia de Deus, que \u00e9 infinita. Portanto, ele pode absolver qualquer n\u00famero de pecados, por mais graves que sejam. Levemos apenas o cora\u00e7\u00e3o humilhado e contrito, e ent\u00e3o certamente teremos o perd\u00e3o. <em>Cor contritum et humiliatum, Deus, non despicies<\/em>:<br><br><em>ORA\u00c7\u00c3O<br><\/em>\u00d3 meu Jesus, que morreste na cruz por mim, eu vos agrade\u00e7o de todo cora\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o me terdes feito morrer em pecado; desde este momento eu me converto a v\u00f3s, prometo deixar o pecado e observar fielmente os vossos mandamentos por todo o tempo que me deixardes em vida. Estou arrependido de vos ter ofendido; para o futuro quero amar-vos e servir-vos at\u00e9 a morte. Virgem Sant\u00edssima, minha M\u00e3e, ajudai-me naquele \u00faltimo momento da vida. Jesus, Jos\u00e9, Maria, que minha alma descanse em paz convosco! \u2014 Tr\u00eas <em>Pai Nossos<\/em>, <em>Ave Maria<\/em> e <em>Gl\u00f3ria ao Pai<\/em>.<br><br><br><strong>VISITA \u00c0 SEGUNDA IGREJA. A santa Comunh\u00e3o<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Compreendes, \u00f3 crist\u00e3o, o que significa fazer a santa comunh\u00e3o? Significa aproximar-se da mesa dos anjos para receber o corpo, o sangue, a alma e a divindade de nosso Senhor Jesus Cristo, que \u00e9 dado em alimento \u00e0 nossa alma sob as esp\u00e9cies do p\u00e3o e do vinho consagrados. Na Missa, no momento em que o sacerdote profere sobre o p\u00e3o e o vinho as palavras da consagra\u00e7\u00e3o, o p\u00e3o e o vinho se tornam corpo e sangue de Jesus Cristo. As palavras usadas pelo nosso divino Salvador ao instituir este Sacramento s\u00e3o: Este \u00e9 o meu corpo, este \u00e9 o meu sangue: <em>Hoc est corpus meum, hic est calix sanguinis mei<\/em>.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Essas palavras s\u00e3o usadas pelos sacerdotes em nome de Jesus Cristo no sacrif\u00edcio da Santa Missa. Portanto, quando vamos fazer a Comunh\u00e3o, recebemos o mesmo Jesus Cristo em corpo, sangue, alma e divindade, isto \u00e9, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, vivo como est\u00e1 no c\u00e9u. N\u00e3o \u00e9 a sua imagem, nem mesmo a sua figura, como \u00e9 uma est\u00e1tua, um crucifixo; mas \u00e9 o pr\u00f3prio Jesus Cristo como nasceu da Imaculada Virgem Maria e por n\u00f3s morreu na cruz. O pr\u00f3prio Jesus Cristo nos assegurou sua real presen\u00e7a na santa Eucaristia quando disse: Este \u00e9 o meu corpo, que ser\u00e1 dado para a salva\u00e7\u00e3o dos homens: <em>Corpus quod pro vobis tradetur<\/em>. Este \u00e9 o p\u00e3o vivo que desceu do C\u00e9u: <em>Hic est panis vivus qui de coelo descendit<\/em>. O p\u00e3o que eu darei \u00e9 a minha carne. A bebida que eu darei \u00e9 o meu verdadeiro sangue. Quem n\u00e3o come deste meu corpo e n\u00e3o bebe deste sangue n\u00e3o tem em si a vida.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Jesus, tendo institu\u00eddo este Sacramento para o bem de nossas almas, deseja que nos aproximemos dele frequentemente. Eis as palavras com as quais ele nos convida: \u00abVinde a mim todos, v\u00f3s que estais cansados e oprimidos, e eu vos aliviarei: <em>Venite ad me omnes qui laboratis et onerati estis, et ego reficiam vos<\/em>. Em outro lugar, ele dizia aos hebreus: Vossos pais comeram o man\u00e1 no deserto e morreram; mas aquele que come o alimento figurado no man\u00e1, aquele alimento que eu dou, aquele alimento que \u00e9 o meu corpo e o meu sangue, ele n\u00e3o morrer\u00e1 eternamente. Aquele que come a minha carne e bebe o meu sangue habita em mim e eu nele; porque a minha carne \u00e9 um verdadeiro alimento, e o meu sangue uma verdadeira bebida.\u00bb Quem poderia resistir a esses amorosos convites do divino Salvador? Para corresponder a esses convites, os crist\u00e3os dos primeiros tempos iam todos os dias ouvir a palavra de Deus e todos os dias se aproximavam da santa comunh\u00e3o. \u00c9 neste sacramento que os m\u00e1rtires encontravam sua fortaleza, as virgens seu fervor, os santos sua coragem.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 E n\u00f3s com que frequ\u00eancia nos aproximamos deste alimento celeste? Se examinarmos os desejos de Jesus Cristo e a nossa necessidade, devemos comungar com bastante frequ\u00eancia. Assim como o man\u00e1 serviu de alimento corporal aos hebreus todos os dias durante o tempo que viveram no deserto at\u00e9 serem conduzidos \u00e0 terra prometida, assim a santa Comunh\u00e3o deveria ser nosso conforto, o alimento di\u00e1rio nos perigos deste mundo para nos guiar \u00e0 verdadeira terra prometida do Para\u00edso. Santo Agostinho diz assim: Se todos os dias pedimos a Deus o p\u00e3o corporal, por que n\u00e3o procuramos tamb\u00e9m nos alimentar todos os dias do p\u00e3o espiritual com a santa Comunh\u00e3o? S\u00e3o Filipe N\u00e9ri encorajava os crist\u00e3os a se confessarem a cada oito dias e a comungarem ainda mais frequentemente, conforme o conselho do confessor. Finalmente, a santa Igreja manifesta o vivo desejo da frequente Comunh\u00e3o no Conc\u00edlio de Trento, onde diz: \u201cSeria coisa sobremaneira desej\u00e1vel que todo fiel crist\u00e3o se mantivesse em tal estado de consci\u00eancia que pudesse fazer n\u00e3o s\u00f3 espiritualmente, mas sacramentalmente a santa comunh\u00e3o sempre que assistisse \u00e0 santa Missa.\u201d<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Algu\u00e9m dir\u00e1: Eu sou muito pecador. Se voc\u00ea \u00e9 pecador, procure se colocar em gra\u00e7a com o Sacramento da Confiss\u00e3o, e ent\u00e3o aproxime-se da santa Comunh\u00e3o, e voc\u00ea ter\u00e1 grande ajuda. Outro dir\u00e1: Eu comungo raramente para ter maior fervor. E isso \u00e9 um engano. As coisas que se fazem raramente, na maioria das vezes, s\u00e3o feitas mal. Por outro lado, sendo frequentes suas necessidades, frequente deve ser o socorro para a sua alma. Alguns acrescentam: Estou cheio de enfermidades espirituais e n\u00e3o me atrevo a comungar frequentemente. Responde Jesus Cristo: <em>Aqueles que est\u00e3o bem n\u00e3o precisam do m\u00e9dico<\/em>; portanto, aqueles que est\u00e3o mais sujeitos a inc\u00f4modos, precisam ser frequentemente visitados pelo m\u00e9dico. Coragem, portanto, \u00f3 crist\u00e3o, se queres fazer a a\u00e7\u00e3o mais gloriosa a Deus, a mais agrad\u00e1vel a todos os santos do c\u00e9u, a mais eficaz para vencer as tenta\u00e7\u00f5es, a mais segura para te fazer perseverar no bem, ela \u00e9 certamente a santa Comunh\u00e3o.<br><br><em>ORA\u00c7\u00c3O<br><\/em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por que, \u00f3 meu Jesus, a vossa Igreja, minha m\u00e3e, quer que eu me rejubile neste ano? H\u00e1 talvez um motivo de alegria maior do que em outros tempos? Ah! O estar V\u00f3s aqui na terra, o poder nos unir a V\u00f3s na santa Comunh\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um motivo acima de todos os outros para nos fazer rejubilar continuamente? Para mim, n\u00e3o vejo outra coisa que alegre meu cora\u00e7\u00e3o fora de V\u00f3s, verdadeiro esposo da Igreja triunfante, \u00fanico consolador e fortificador da Igreja militante. Mas como ent\u00e3o se estabeleceu destinar a alegria a um ano em particular? Ah, meu Jesus, infelizmente n\u00e3o damos o valor que dever\u00edamos a este grande bem da Comunh\u00e3o! Infelizmente nos esquecemos facilmente deste incompreens\u00edvel tesouro, pelo qual a vossa esposa, nossa m\u00e3e t\u00e3o terna, \u00e9 obrigada de quando em quando a despertar nossa aten\u00e7\u00e3o para nos fazer voltar a V\u00f3s. Eis, aqui est\u00e1 o porque ela quer que eu me rejubile. N\u00e3o quer que eu me rejubile apenas neste ano, mas por meio disso quer me chamar a V\u00f3s, de quem nunca deveria ter-me afastado. Ah! Ligai-me a V\u00f3s na santa comunh\u00e3o com tal v\u00ednculo que jamais se desfa\u00e7a eternamente. Tr\u00eas <em>Pai Nosso<\/em>, <em>Ave Maria<\/em> e <em>Gl\u00f3ria ao Pai<\/em>.<br><br><br><strong>VISITA \u00c0 TERCEIRA IGREJA. A esmola<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Um meio muito eficaz, mas bastante negligenciado pelos homens para ganhar o para\u00edso \u00e9 a esmola. Por esmola eu entendo qualquer obra de miseric\u00f3rdia exercida em rela\u00e7\u00e3o ao pr\u00f3ximo por amor a Deus. Deus diz na santa Escritura que a esmola obt\u00e9m o perd\u00e3o dos pecados, mesmo que sejam em grande quantidade: <em>Charitas operit multitudinem peccatorum<\/em>. O divino Salvador diz no Evangelho assim: <em>Quod superest date pauperibus<\/em>. O que sobrar das suas necessidades, d\u00ea aos pobres. Quem tem duas vestes, que d\u00ea uma ao necessitado, e quem j\u00e1 tem al\u00e9m do necess\u00e1rio, que compartilhe com quem tem fome (Lucas 3). Deus nos assegura que tudo o que fazemos pelos pobres, Ele considera como feito a si mesmo: Jesus Cristo diz que tudo o que fizerdes a um dos meus irm\u00e3os mais necessitados, a mim o fizestes (Mateus 25). Desejais ent\u00e3o que Deus vos perdoe os pecados e vos liberte da morte eterna? Fazei esmola. <em>Eleemosyna ab omni peccato et a morte liberat<\/em>. Quereis impedir que vossa alma v\u00e1 \u00e0s trevas do inferno? Fazei esmola. <em>Eleemosyna non partietur animam ire ad tenebras<\/em> (Tb 4). Portanto, Deus nos assegura que a esmola \u00e9 um meio eficac\u00edssimo para obter o perd\u00e3o dos nossos pecados, nos fazer encontrar miseric\u00f3rdia aos seus olhos e nos conduzir \u00e0 vida eterna. <em>Eleemosyna est quae purgat a peccato, facit invenire misericordiam et vitam aeternam<\/em>.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Se, portanto, desejas que Deus tenha miseric\u00f3rdia de ti, come\u00e7a a us\u00e1-la em rela\u00e7\u00e3o aos pobres. Dir\u00e1s: eu fa\u00e7o o que posso. Mas presta aten\u00e7\u00e3o que o Senhor te diz para dar aos pobres tudo o que \u00e9 sup\u00e9rfluo: <em>quod superest date pauperibus<\/em>. Por isso eu te digo que s\u00e3o sup\u00e9rfluos aqueles gastos e aqueles aumentos de riquezas que fazes de ano em ano. Sup\u00e9rflua aquela sofistica\u00e7\u00e3o que procuras para os objetos da mesa, dos almo\u00e7os, dos tapetes, das roupas que poderiam servir para quem tem fome, para quem tem sede, e para cobrir os nus. Sup\u00e9rfluo aquele luxo nas viagens, nos teatros, nos bailes e em outros divertimentos onde se pode dizer que vai acabar o patrim\u00f4nio dos pobres.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Parece oportuno notar aqui a interpreta\u00e7\u00e3o que alguns d\u00e3o ao preceito do sup\u00e9rfluo, n\u00e3o certamente segundo as palavras de Jesus Cristo: \u00c9 um conselho, dizem eles, portanto, dada uma parte do sup\u00e9rfluo em esmola, podemos gastar o resto \u00e0 nossa vontade. Eu respondo que o Salvador n\u00e3o fixou nenhuma parte; suas palavras s\u00e3o positivas, claras e sem distin\u00e7\u00e3o: <em>Quod superest date pauperibus<\/em>. D\u00e1 o sup\u00e9rfluo aos pobres. Para que ent\u00e3o cada um fosse persuadido de que a severidade de seu comando era motivada pelo abuso que muitos fazem e pelo qual correm o grave risco de se perder eternamente; quis acrescentar estas outras palavras: \u00c9 mais f\u00e1cil que um camelo passe pelo buraco de uma agulha do que um rico se salve, condenando assim os v\u00e3os pretextos com os quais os possuidores de bens temporais tentam se isentar de dar o sup\u00e9rfluo aos pobres.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Algu\u00e9m ent\u00e3o diz com verdade: Eu n\u00e3o tenho riquezas. Se n\u00e3o tens riquezas, d\u00e1 o que podes. Al\u00e9m disso, n\u00e3o te faltam meios e modos de fazer esmola. N\u00e3o h\u00e1 enfermos para visitar, para assistir, para cuidar? N\u00e3o h\u00e1 jovens abandonados para acolher, instruir, abrigar em tua casa, se puderes, ou pelo menos lev\u00e1-los aonde possam aprender a ci\u00eancia da salva\u00e7\u00e3o? N\u00e3o h\u00e1 pecadores para admoestar, indecisos para aconselhar, aflitos para consolar, brigas para acalmar, ofensas para perdoar? V\u00ea com quantos meios podes fazer esmola e merecer a vida eterna! Al\u00e9m disso, n\u00e3o podes fazer alguma ora\u00e7\u00e3o, alguma confiss\u00e3o, comunh\u00e3o, rezar um ros\u00e1rio, ouvir uma missa em sufr\u00e1gio das almas do purgat\u00f3rio, pela convers\u00e3o dos pecadores, ou para que os infi\u00e9is sejam iluminados e cheguem \u00e0 f\u00e9? N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m uma grande esmola mandar \u00e0s chamas livros perversos, difundir livros bons e falar o quanto puderes em honra da nossa santa Igreja Cat\u00f3lica?<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Outro motivo ainda que deve induzir-te a dar esmola \u00e9 aquele que o Salvador menciona no Santo Evangelho. Ele diz assim: V\u00f3s n\u00e3o dareis aos pobres um copo de \u00e1gua fresca, sem que o Pai celeste vos d\u00ea a recompensa. De tudo o que derdes aos pobres, tereis o c\u00eantuplo na vida presente e uma recompensa na vida eterna. De modo que dar alguma coisa aos pobres na vida presente \u00e9 multiplicar, ou seja, \u00e9 dar a m\u00fatuo de cem por um tamb\u00e9m na vida presente, e Deus reserva para n\u00f3s a plena recompensa na outra vida.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Eis a raz\u00e3o pela qual se veem tantas fam\u00edlias dando copiosas esmolas de todos os lados e crescendo sempre de riquezas em riquezas e de prosperidade em prosperidade. A raz\u00e3o \u00e9 Deus: dai aos pobres, e vos ser\u00e1 dado: <em>date, et dabitur vobis<\/em>. Ser-vos-\u00e1 dado o c\u00eantuplo na vida presente, e a vida eterna na outra: <em>centuplum accipiet in hac vita et vitam aeternam possidebit<\/em>.<br><br><em>ORA\u00c7\u00c3O<br><\/em>\u00d3 meu Jesus, estou plenamente convencido da necessidade que tenho de dar esmola, mas como farei eu, se de bens verdadeiros, ou seja, espirituais, tenho tal pen\u00faria que mal consigo viver? Como orarei eu pelos infi\u00e9is e pelos hereges, se mal acredito nas verdades ensinadas pela vossa santa Igreja? Como orarei pelos pecadores, se eu mesmo amo o pecado? Como orarei pela Vossa Igreja, pelo Vosso Vig\u00e1rio, se quase s\u00f3 consigo perceber que eles s\u00e3o perseguidos, pois estou t\u00e3o cego pelas ocupa\u00e7\u00f5es mundanas? Ah, Senhor! pelo vosso Sagrado Cora\u00e7\u00e3o, eu vos imploro que me fa\u00e7ais um pouco de esmola, me deis um pouco daquela caridade que animava os vossos primeiros disc\u00edpulos, daquela caridade que fervia nos cora\u00e7\u00f5es dos santos Jo\u00e3o Esmoler, Francisco Xavier, Vicente de Paulo; ent\u00e3o sim, tudo o que eu tenho ser\u00e1 de todos os meus irm\u00e3os, e, por quanto depende de mim, celebrarei verdadeiramente o ano do jubileu, partilhando com quem n\u00e3o tem os bens que de V\u00f3s recebi, para que assim eu goze e me rejubile com as vossas riquezas. Tr\u00eas <em>Pai Nosso<\/em>, <em>Ave Maria<\/em> e <em>Gl\u00f3ria ao Pai<\/em>.<br><br><br><strong>VISITA \u00c0 QUARTA IGREJA. Pensamento da salva\u00e7\u00e3o<br><\/strong>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Aos olhos da f\u00e9, o pensamento da salva\u00e7\u00e3o \u00e9 a coisa mais essencial, mas diante do mundo \u00e9 a mais negligenciada. Portanto, \u00f3 crist\u00e3o, enquanto est\u00e1s nesta igreja, dirige teu olhar para um Crucifixo e ouve o que Jesus te diz. Ele solta sua l\u00edngua e te fala assim: uma coisa s\u00f3, \u00f3 homem, te \u00e9 necess\u00e1ria: salvar a alma: <em>unum est necessarium<\/em>. Se voc\u00ea adquire honras, gl\u00f3ria, riquezas, ci\u00eancias e depois n\u00e3o salva a alma, tudo est\u00e1 perdido para ti. <em>Quid prodest homini si mundum universum lucretur, animae vero suae detrimentum patiatur?<\/em> (Mateus 16,26).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Esse pensamento determinou tantos jovens a deixar o mundo, tantos ricos a distribuir aos pobres suas riquezas, tantos mission\u00e1rios a abandonar a p\u00e1tria, ir a pa\u00edses muito distantes, tantos m\u00e1rtires a dar a vida pela f\u00e9. Todos esses pensavam que se perdessem a alma, nada lhes teria servido todos os bens do mundo para a vida eterna. Por esse motivo, S\u00e3o Paulo exortava os crist\u00e3os a pensarem seriamente no assunto da salva\u00e7\u00e3o: \u00abN\u00f3s vos suplicamos, irm\u00e3os, ele escreve, para que presteis aten\u00e7\u00e3o ao grande neg\u00f3cio da salva\u00e7\u00e3o\u00bb (1Tessalonicenses 10,4).<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas de qual neg\u00f3cio fala aqui S\u00e3o Paulo? Ele falava, diz S\u00e3o Jer\u00f4nimo, daquele neg\u00f3cio que importa tudo, neg\u00f3cio que se vai falhar, \u00e9 perdido o reino eterno do Para\u00edso, e n\u00e3o resta mais nada sen\u00e3o ser lan\u00e7ado em uma fossa de tormentos, que n\u00e3o ter\u00e3o mais fim.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Por isso tinha raz\u00e3o S\u00e3o Filipe N\u00e9ri em chamar de loucos todos aqueles que nesta vida se dedicam a procurar honras e empregos lucrativos, riquezas e pouco se preocupam em salvar a alma. Toda perda de bens, de reputa\u00e7\u00e3o, de parentes, de sa\u00fade, at\u00e9 da vida, pode ser reparada nesta terra; mas com que bem do mundo, com que fortuna se pode reparar a perda da alma? Escuta, \u00f3 crist\u00e3o, \u00e9 Jesus Cristo que te chama: ouve a sua voz. Ele quer conceder-te miseric\u00f3rdia ou perd\u00e3o de teus pecados, e a remiss\u00e3o da pena devida pelos mesmos pecados. Mant\u00e9m, por\u00e9m, bem fixo na mente que aquele que hoje n\u00e3o pensa em se salvar, corre grave risco de estar amanh\u00e3 com os condenados no inferno e de estar perdido por toda a eternidade.<br>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 Mas considera que neste momento, enquanto est\u00e1s na igreja, pensando em tua alma, tantos morrem e talvez v\u00e3o para o inferno. Quantos desde o princ\u00edpio do mundo at\u00e9 nossos dias morreram de qualquer idade e condi\u00e7\u00e3o e se foram eternamente perdidos! Pode ser que tivessem vontade de se condenar? Eu n\u00e3o creio que algum deles tivesse essa inten\u00e7\u00e3o. O engano foi no adiar sua convers\u00e3o; morreram em pecado, e agora est\u00e3o condenados. Fixa bem na mente esta m\u00e1xima: neste mundo o homem faz muito se se salva, e sabe muito se tem o conhecimento da salva\u00e7\u00e3o; mas n\u00e3o faz nada se perde a alma, e nada sabe se ignora aquelas coisas que o podem salvar eternamente.<br><br><em>ORA\u00c7\u00c3O<br><\/em>\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u00d3 meu Redentor, v\u00f3s derramastes o vosso sangue para comprar a minha alma, e eu a perdi tantas vezes com o pecado! Agrade\u00e7o-vos por me dardes ainda tempo de me colocar em gra\u00e7a convosco. \u00d3 meu Deus, estou arrependido de vos ter ofendido; que eu tivesse morrido antes e nunca tivesse desgostado um Deus t\u00e3o bom como sois v\u00f3s. Sim, meu Deus, eu vos ofere\u00e7o tudo de mim mesmo, escondo as minhas iniquidades nas vossas sacrat\u00edssimas chagas, e sei com certeza, \u00f3 meu Deus, que v\u00f3s n\u00e3o sabeis desprezar um cora\u00e7\u00e3o que se humilha e se arrepende. \u00d3 Maria, ref\u00fagio dos pecadores, socorrei um pecador que a v\u00f3s se recomenda e em v\u00f3s confia. \u2014 Tr\u00eas <em>Pai Nosso, Ave Maria e Gl\u00f3ria ao Pai<\/em>, com a jaculat\u00f3ria: Meu Jesus, miseric\u00f3rdia.<br><br><br><em>Com permiss\u00e3o da Autoridade eclesi\u00e1stica.<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco compreendeu profundamente a import\u00e2ncia dos Jubileus na vida da Igreja. 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