{"id":34705,"date":"2025-01-24T08:19:36","date_gmt":"2025-01-24T08:19:36","guid":{"rendered":"https:\/\/exciting-knuth.178-32-140-152.plesk.page\/?p=34705"},"modified":"2025-01-24T08:20:50","modified_gmt":"2025-01-24T08:20:50","slug":"vida-de-sao-paulo-apostolo-doutor-das-gentes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/boa-imprensa\/vida-de-sao-paulo-apostolo-doutor-das-gentes\/","title":{"rendered":"Vida de S\u00e3o Paulo Ap\u00f3stolo, doutor das gentes"},"content":{"rendered":"\n<p><em><em>O momento culminante do Ano Jubilar para cada crente \u00e9 a passagem pela Porta Santa, um gesto altamente simb\u00f3lico que deve ser vivido com profunda medita\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de uma simples visita para admirar a beleza arquitet\u00f4nica, escultural ou pict\u00f3rica de uma bas\u00edlica: os primeiros crist\u00e3os n\u00e3o iam aos locais de culto por esse motivo, tamb\u00e9m porque na \u00e9poca n\u00e3o havia muito para admirar. Eles chegavam, na verdade, para rezar diante das rel\u00edquias dos santos ap\u00f3stolos e m\u00e1rtires, e para obter a indulg\u00eancia gra\u00e7as \u00e0 sua poderosa intercess\u00e3o.<br>Visitar os t\u00famulos dos ap\u00f3stolos Pedro e Paulo sem conhecer suas vidas n\u00e3o \u00e9 um sinal de apre\u00e7o. Por isso, neste Ano Jubilar, desejamos apresentar os caminhos de f\u00e9 desses dois gloriosos ap\u00f3stolos, assim como foram narrados por S\u00e3o Jo\u00e3o Bosco.<\/em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Vida de S\u00e3o Paulo Ap\u00f3stolo, doutor das gentes contada ao povo pelo sacerdote Jo\u00e3o Bosco<br><br><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599952\">PREF\u00c1CIO<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599953\">CAP\u00cdTULO I. P\u00e1tria, educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, seu \u00f3dio contra os Crist\u00e3os<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599954\">CAP\u00cdTULO II. Convers\u00e3o e Batismo de Saulo \u2014 Ano de Cristo 34<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599955\">CAP\u00cdTULO III. Primeira viagem de Saulo \u2014 Retorna a Damasco; armadilhas s\u00e3o preparadas para ele \u2014 Vai a Jerusal\u00e9m; apresenta-se aos Ap\u00f3stolos \u2014 Jesus Cristo lhe aparece \u2014 Ano de Jesus Cristo 35-36-37<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599956\">CAP\u00cdTULO IV. Profecias de \u00c1gabo \u2014 Saulo e Barnab\u00e9 ordenados bispos \u2014 V\u00e3o \u00e0 ilha de Chipre \u2014 Convers\u00e3o do proc\u00f4nsul S\u00e9rgio \u2014 Castigo do mago Elimas \u2014 Jo\u00e3o Marcos retorna a Jerusal\u00e9m \u2014 Ano de Jesus Cristo 40-43<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599957\">CAP\u00cdTULO V. S\u00e3o Paulo prega em Antioquia da Pis\u00eddia \u2014 Ano de Jesus Cristo 44<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599958\">CAP\u00cdTULO VI. S\u00e3o Paulo prega em outras cidades \u2014 Realiza um milagre em Listra, onde depois \u00e9 apedrejado e deixado por morto \u2014 Ano de Jesus Cristo 45<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599959\">CAP\u00cdTULO VII. Paulo milagrosamente curado \u2014 Outras de suas fadigas apost\u00f3licas \u2014 Convers\u00e3o de Santa Tecla<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599960\">CAP\u00cdTULO VIII. S\u00e3o Paulo vai conferir com S\u00e3o Pedro \u2014 Assiste ao Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m \u2014 Ano de Cristo 50<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599961\">CAP\u00cdTULO IX. Paulo se separa de Barnab\u00e9 \u2014 Percorre v\u00e1rias cidades da \u00c1sia \u2014 Deus o envia \u00e0 Maced\u00f4nia \u2014 Em Filipos converte a fam\u00edlia de L\u00eddia \u2014 Ano de Cristo 51<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599962\">CAP\u00cdTULO X. S\u00e3o Paulo liberta uma jovem do dem\u00f4nio \u2014 \u00c9 a\u00e7oitado com varas \u2014 \u00c9 colocado na pris\u00e3o \u2014 Convers\u00e3o do carcereiro e de sua fam\u00edlia \u2014 Ano de Cristo 51<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599963\">CAP\u00cdTULO XI. S\u00e3o Paulo prega em Tessal\u00f4nica \u2014 Caso de Jas\u00e3o \u2014 Vai a Bereia, onde \u00e9 novamente perturbado pelos judeus \u2014 Ano de Cristo 52<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599964\">CAP\u00cdTULO XII. Estado religioso dos atenienses \u2014 S\u00e3o Paulo no Are\u00f3pago \u2014 Convers\u00e3o de S\u00e3o Dion\u00edsio \u2014 Ano de Cristo 52<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599965\">CAP\u00cdTULO XIII. S\u00e3o Paulo em Corinto \u2014 Sua moradia na casa de \u00c1quila \u2014 Batismo de Crispo e de S\u00f3stenes \u2014 Escreve aos Tessalonicenses \u2014 Retorno a Antioquia \u2014 Ano de Jesus Cristo 53-54<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599966\">CAP\u00cdTULO XIV. Apolo em \u00c9feso \u2014 O sacramento da Crisma \u2014 S\u00e3o Paulo opera muitos milagres \u2014 Caso de dois exorcistas judeus \u2014 Ano de Cristo 55<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599967\">CAP\u00cdTULO XV. Sacramento da Confiss\u00e3o \u2014 Livros perversos queimados \u2014 Carta aos Cor\u00edntios \u2014 Revolta em honra da deusa Diana \u2014 Carta aos G\u00e1latas \u2014 Ano de Cristo 56-57<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599968\">CAP\u00cdTULO XVI. S\u00e3o Paulo retorna a Filipos \u2014 Segunda Carta aos fi\u00e9is de Corinto \u2014 Vai a esta cidade \u2014 Carta aos Romanos \u2014 Sua prega\u00e7\u00e3o prolongada em Tr\u00f4ade \u2014 Ressuscita um morto \u2014 Ano de Cristo 58<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599969\">CAP\u00cdTULO XVII. Prega\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo em Mileto \u2014 Sua viagem at\u00e9 Cesareia \u2014 Profecia de \u00c1gabo \u2014 Ano de Cristo 58<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599970\">CAP\u00cdTULO XVIII. S\u00e3o Paulo se apresenta a S\u00e3o Tiago \u2014 Os judeus lhe tendem armadilhas \u2014 Fala ao povo \u2014 Repreende o sumo sacerdote \u2014 Ano de Cristo 59<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599971\">CAP\u00cdTULO XIX. Quarenta Judeus se comprometem com um voto a matar S\u00e3o Paulo \u2014 Um de seus sobrinhos descobre a trama \u2014 \u00c9 transferido para Cesareia \u2014 Ano de Cristo 59<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599972\">CAP\u00cdTULO XX. Paulo diante do governador \u2014 Seus acusadores e sua defesa \u2014 Ano de Cristo 59<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599973\">CAP\u00cdTULO XXI. Paulo diante de Festo \u2014 Suas palavras ao rei Agripa \u2014 Ano de Cristo 60<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599974\">CAP\u00cdTULO XXII. S\u00e3o Paulo \u00e9 embarcado para Roma \u2014 Sofre uma terr\u00edvel tempestade, da qual \u00e9 salvo com seus companheiros \u2014 Ano de Jesus Cristo 60<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599975\">CAP\u00cdTULO XXIII. S\u00e3o Paulo na ilha de Malta \u2014 \u00c9 libertado da mordida de uma v\u00edbora \u2014 \u00c9 acolhido na casa de P\u00fablio, de quem cura o pai \u2014 Ano de Cristo 60<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599976\">CAP\u00cdTULO XXIV. Viagem de S\u00e3o Paulo de Malta a Siracusa \u2014 Prega\u00e7\u00e3o em R\u00e9gio \u2014 Sua chegada a Roma \u2014 Ano de Cristo 60<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599977\">CAP\u00cdTULO XXV. Paulo fala aos Judeus e lhes prega Jesus Cristo \u2014 Progresso do Evangelho em Roma \u2014 Ano de Cristo 61<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599978\">CAP\u00cdTULO XXVI. S\u00e3o Lucas \u2014 Os Filipenses enviam ajuda a S\u00e3o Paulo \u2014 Doen\u00e7a e cura de Epafrodito \u2014 Carta aos Filipenses \u2014 Convers\u00e3o de On\u00e9simo \u2014 Ano de Jesus Cristo 61<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599979\">CAP\u00cdTULO XXVII. Carta de S\u00e3o Paulo a Fil\u00eamon \u2014 Ano de Jesus Cristo 62<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599980\">CAP\u00cdTULO XXVIII. S\u00e3o Paulo escreve aos Colossenses, aos Ef\u00e9sios e aos Hebreus \u2014 Ano de Cristo 62<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599981\">CAP\u00cdTULO XXIX. S\u00e3o Paulo \u00e9 libertado \u2014 Mart\u00edrio de S\u00e3o Tiago, o Menor \u2014 Ano de Cristo 63<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599982\">CAP\u00cdTULO XXX. Outras viagens de S\u00e3o Paulo \u2014 Escreve a Tim\u00f3teo e a Tito \u2014 Seu retorno a Roma \u2014 Ano de Cristo 68<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599983\">CAP\u00cdTULO XXXI. S\u00e3o Paulo \u00e9 novamente aprisionado \u2014 Escreve a segunda carta a Tim\u00f3teo \u2014 Seu mart\u00edrio \u2014 Ano de Cristo 69-70<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599984\">CAP\u00cdTULO XXXII. Sepultamento de S\u00e3o Paulo \u2014 Maravilhas realizadas junto ao seu t\u00famulo \u2014 Bas\u00edlica a ele dedicada<\/a><\/p>\n\n\n\n<p><a href=\"#_Toc188599985\">CAP\u00cdTULO XXXIII. Retrato de S\u00e3o Paulo \u2014 Imagem de seu esp\u00edrito \u2014 Conclus\u00e3o<\/a><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599952\">PREF\u00c1CIO<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>S\u00e3o Pedro \u00e9 o pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, primeiro Papa, Vig\u00e1rio de Jesus Cristo sobre a terra. Ele foi estabelecido como chefe da Igreja; mas sua miss\u00e3o era particularmente direcionada \u00e0 convers\u00e3o dos Judeus. S\u00e3o Paulo, por sua vez, \u00e9 aquele Ap\u00f3stolo que foi chamado de maneira extraordin\u00e1ria por Deus para levar a Luz do Evangelho aos Gentios. Esses dois grandes Santos s\u00e3o chamados pela Igreja como as colunas e os fundamentos da F\u00e9, pr\u00edncipes dos Ap\u00f3stolos, que com seus esfor\u00e7os, com seus escritos e com seu sangue nos ensinaram a lei do Senhor; <em>Ipsi nos docuerunt legem tuam, Domine<\/em> (Eles nos ensinaram tua lei, Senhor). Por esse motivo, \u00e0 vida de S\u00e3o Pedro, fazemos suceder a de S\u00e3o Paulo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c9 verdade que este ap\u00f3stolo n\u00e3o \u00e9 contado na s\u00e9rie dos Papas; mas os esfor\u00e7os extraordin\u00e1rios que ele fez para ajudar S\u00e3o Pedro a propagar o Evangelho, seu zelo, sua caridade, a doutrina que nos deixou nos livros sagrados, o fazem parecer digno de ser colocado ao lado da vida do primeiro Papa, como uma forte coluna sobre a qual se apoia a Igreja de Jesus Cristo.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599953\">CAP\u00cdTULO I. P\u00e1tria, educa\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo, seu \u00f3dio contra os Crist\u00e3os<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>S\u00e3o Paulo era Judeu da tribo de Benjamim. Oito dias ap\u00f3s seu nascimento, foi circuncidado, e lhe foi imposto o nome de Saulo, que depois foi mudado para Paulo. Seu pai residia em Tarso, cidade da Cil\u00edcia, prov\u00edncia da \u00c1sia Menor. O imperador C\u00e9sar Augusto concedeu muitos favores a esta cidade e, entre outros, o direito de cidadania romana. Portanto, S\u00e3o Paulo, sendo nascido em Tarso, era cidad\u00e3o romano, qualidade que trazia consigo muitos benef\u00edcios, pois se podia gozar da imunidade das leis particulares de todos os pa\u00edses sujeitos ou aliados ao imp\u00e9rio romano, e em qualquer lugar um cidad\u00e3o romano podia apelar ao senado ou ao imperador para ser julgado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seus parentes, sendo abastados, o mandaram a Jerusal\u00e9m para lhe dar uma educa\u00e7\u00e3o condizente com seu estado. Seu mestre foi um doutor chamado Gamaliel, homem de grande virtude, de quem j\u00e1 falamos na vida de S\u00e3o Pedro. Naquela cidade, teve a sorte de encontrar um bom companheiro de Chipre, chamado Barnab\u00e9, jovem de grande virtude, cuja bondade de cora\u00e7\u00e3o contribuiu muito para temperar o \u00e2nimo ardente do condisc\u00edpulo. Esses dois jovens sempre se mantiveram leais amigos, e n\u00f3s os veremos se tornarem colegas na prega\u00e7\u00e3o do Evangelho.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O pai de Saulo era Fariseu, ou seja, professava a seita mais severa entre os Judeus, que consistia em uma grande apar\u00eancia externa de rigor, m\u00e1xima totalmente contr\u00e1ria ao esp\u00edrito de humildade do Evangelho. Saulo seguiu os princ\u00edpios de seu pai, e como seu mestre tamb\u00e9m era Fariseu, ele se tornou cheio de entusiasmo para aumentar seu n\u00famero e remover qualquer obst\u00e1culo que se opusesse a tal prop\u00f3sito.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Era costume entre os Judeus fazer com que seus filhos aprendessem um of\u00edcio enquanto se dedicavam ao estudo da B\u00edblia. Faziam isso a fim de preserv\u00e1-los dos perigos que a ociosidade traz consigo; e tamb\u00e9m para ocupar o corpo e o esp\u00edrito em algo que pudesse proporcionar o sustento nas dif\u00edceis circunst\u00e2ncias da vida. Saulo aprendeu o of\u00edcio de curtidor de peles e especialmente a costurar tendas. Ele se destacou entre todos da sua idade por seu zelo pela lei de Mois\u00e9s e pelas tradi\u00e7\u00f5es dos Judeus. Esse zelo pouco iluminado o tornou blasfemo, perseguidor e feroz inimigo de Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele incitou os Judeus a condenar Santo Est\u00eav\u00e3o, e esteve presente \u00e0 sua morte. E como sua idade n\u00e3o lhe permitia participar da execu\u00e7\u00e3o da senten\u00e7a, ele, quando Est\u00eav\u00e3o estava prestes a ser apedrejado, guardava as roupas de seus companheiros e os incitava com f\u00faria a atirar pedras contra ele. Mas Est\u00eav\u00e3o, verdadeiro seguidor do Salvador, fez a vingan\u00e7a dos santos, ou seja, come\u00e7ou a orar por aqueles que o apedrejavam. Esta ora\u00e7\u00e3o foi o princ\u00edpio da convers\u00e3o de Saulo; e Santo Agostinho diz precisamente que a Igreja n\u00e3o teria em Paulo um ap\u00f3stolo, se o di\u00e1cono Est\u00eav\u00e3o n\u00e3o tivesse orado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Naqueles tempos, foi suscitada uma violenta persegui\u00e7\u00e3o contra a Igreja de Jerusal\u00e9m, e Saulo era aquele que mostrava uma \u00e2nsia feroz para dispersar e mandar \u00e0 morte os disc\u00edpulos de Jesus Cristo. A fim de fomentar melhor a persegui\u00e7\u00e3o em p\u00fablico e em privado, fez-se a tal prop\u00f3sito autorizar pelo pr\u00edncipe dos sacerdotes. Ent\u00e3o ele se tornou como um lobo faminto que n\u00e3o se sacia de devorar. Entrava nas casas dos Crist\u00e3os, os insultava, os maltratava, os prendia ou os fazia carregar correntes para serem depois arrastados para a pris\u00e3o, fazia-os ser espancados com varas; em suma, usava todos os meios para for\u00e7\u00e1-los a blasfemar o santo nome de Jesus Cristo. A not\u00edcia das viol\u00eancias de Saulo se espalhou at\u00e9 em pa\u00edses distantes, de modo que o simples nome dele incutia medo entre os fi\u00e9is.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os perseguidores n\u00e3o se contentavam em ser cru\u00e9is contra as pessoas dos Crist\u00e3os; mas, como sempre foi usado pelos perseguidores, tamb\u00e9m os despojavam de seus bens e de tudo o que possu\u00edam em comum. O que fazia com que muitos fossem levados a viver da caridade que os fi\u00e9is das Igrejas distantes lhes enviavam. Mas h\u00e1 um Deus que assiste e governa sua Igreja, e quando menos pensamos, ele vem em socorro de quem nele confia.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599954\">CAP\u00cdTULO II. Convers\u00e3o e Batismo de Saulo \u2014 Ano de Cristo 34<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>A f\u00faria de Saulo n\u00e3o podia se saciar; ele n\u00e3o respirava sen\u00e3o amea\u00e7as e massacres contra os disc\u00edpulos do Senhor. Tendo ouvido que em Damasco, cidade distante cerca de cinquenta milhas de Jerusal\u00e9m, muitos Judeus haviam abra\u00e7ado a f\u00e9, sentiu arder em si um furioso desejo de ir l\u00e1 fazer um massacre. Para agir livremente conforme lhe sugeria seu \u00f3dio contra os Crist\u00e3os, foi ao pr\u00edncipe dos sacerdotes e ao senado, que com cartas o autorizaram a ir a Damasco, acorrentar todos os Judeus que se declarassem Crist\u00e3os e, portanto, conduzi-los a Jerusal\u00e9m e ali puni-los com uma severidade capaz de deter aqueles que fossem tentados a imit\u00e1-los.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas s\u00e3o v\u00e3os os projetos dos homens quando s\u00e3o contr\u00e1rios aos do C\u00e9u! Deus, movido pelas ora\u00e7\u00f5es de Santo Est\u00eav\u00e3o e dos outros fi\u00e9is perseguidos, quis manifestar em Saulo seu poder e sua miseric\u00f3rdia. Saulo, com suas cartas de recomenda\u00e7\u00e3o, cheio de ardor, devorando a estrada, estava pr\u00f3ximo da cidade de Damasco, e j\u00e1 lhe parecia ter os Crist\u00e3os em suas m\u00e3os. Mas aquele era o lugar da divina miseric\u00f3rdia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No \u00edmpeto de sua f\u00faria cega, por volta do meio-dia, uma grande luz, mais resplandecente que a do sol, o cercou com todos os que o acompanhavam. Estonteados por aquele esplendor celeste, todos ca\u00edram ao ch\u00e3o como mortos; ao mesmo tempo, ouviram o ru\u00eddo de uma voz, compreendida somente por Saulo. \u201cSaulo, Saulo\u201d, disse a voz, \u201cpor que me persegues?\u201d Ent\u00e3o Saulo, ainda mais apavorado, respondeu: \u201cQuem sois v\u00f3s que falais?\u201d \u201cEu sou\u201d, continuou a voz, \u201caquele Jesus que tu persegues. Lembra-te que \u00e9 coisa muito dura dar coices contra o aguilh\u00e3o, o que tu fazes resistindo a algu\u00e9m mais poderoso do que tu. Perseguindo minha Igreja, tu persegues a mim mesmo; mas esta se tornar\u00e1 mais florescente, e n\u00e3o far\u00e1s mal sen\u00e3o a ti mesmo.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta doce repreens\u00e3o do Salvador, acompanhada pela un\u00e7\u00e3o interna de sua gra\u00e7a, amoleceu a dureza do cora\u00e7\u00e3o de Saulo e o transformou em um homem completamente novo. Portanto, todo humilhado, exclamou: \u201cSenhor, que quereis que eu fa\u00e7a?\u201d Como se dissesse: Qual \u00e9 o meio de procurar a vossa gl\u00f3ria? Eu me ofere\u00e7o a v\u00f3s para fazer a vossa sant\u00edssima vontade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Jesus Cristo ordenou a Saulo que se levantasse e fosse \u00e0 cidade onde um disc\u00edpulo o instruiria sobre o que deveria fazer. Deus, diz Santo Agostinho, ao confiar a seus ministros a instru\u00e7\u00e3o de um ap\u00f3stolo chamado de maneira t\u00e3o extraordin\u00e1ria, nos ensina que devemos buscar sua santa vontade no ensinamento dos Pastores, que ele revestiu de sua autoridade para serem nossos guias espirituais na terra.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Saulo, levantando-se, n\u00e3o via mais nada, embora mantivesse os olhos abertos. Portanto, foi necess\u00e1rio dar-lhe a m\u00e3o e conduzi-lo a Damasco, como se Jesus Cristo quisesse lev\u00e1-lo em triunfo. Ele se hospedou na casa de um comerciante chamado Judas; ali permaneceu tr\u00eas dias sem ver, sem beber e sem comer, ignorando ainda o que Deus quisesse dele.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Havia em Damasco um disc\u00edpulo chamado Ananias, muito estimado pelos Judeus por sua virtude e santidade. Jesus Cristo lhe apareceu e disse: \u201cAnanias!\u201d E ele respondeu: \u201cEis-me aqui, Senhor.\u201d O Senhor acrescentou: \u201cLevanta-te e vai \u00e0 rua chamada <em>Direita<\/em>, e procura um certo Saulo natural de Tarso; tu o encontrar\u00e1s enquanto ora.\u201d Ananias, ao ouvir o nome de Saulo, tremeu e disse: \u201c\u00d3 Senhor, para onde me mandais? V\u00f3s bem sabeis o grande mal que ele fez aos fi\u00e9is em Jerusal\u00e9m; agora \u00e9 sabido por todos que ele veio aqui com pleno poder de prender todos os que creem em vosso Nome.\u201d O Senhor replicou: \u201cVai tranquilo, n\u00e3o temas, porque este homem \u00e9 um instrumento escolhido por mim para levar meu nome aos gentios, diante dos reis e diante dos filhos de Israel; porque eu lhe mostrarei quanto ele deve sofrer por meu nome.\u201d Enquanto Jesus Cristo falava a Ananias, enviou a Saulo outra vis\u00e3o, na qual lhe apareceu um homem chamado Ananias que, aproximando-se dele, impunha-lhe as m\u00e3os para lhe devolver a vista. Foi o que fez o Senhor para assegurar a Saulo que Ananias era aquele que enviava para manifestar-lhe sua vontade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ananias obedeceu, foi encontrar Saulo, imp\u00f4s-lhe as m\u00e3os e disse: \u201cSaulo, irm\u00e3o, o Senhor Jesus que te apareceu no caminho por onde vinhas a Damasco, me enviou a ti para que recuperes a vista e sejas cheio do Esp\u00edrito Santo.\u201d Falando assim, Ananias, mantendo as m\u00e3os sobre a cabe\u00e7a de Saulo, acrescentou: \u201cAbre os olhos.\u201d Nesse momento, ca\u00edram dos olhos de Saulo certas escamas, e ele recuperou perfeitamente a vista.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ent\u00e3o Ananias disse: \u201cAgora levanta-te e recebe o Batismo, e lava teus pecados, invocando o nome do Senhor.\u201d Saulo levantou-se imediatamente para receber o Batismo; ent\u00e3o, todo cheio de alegria, restaurou seu cansa\u00e7o com um pouco de comida. Passados apenas alguns dias com os disc\u00edpulos de Damasco, come\u00e7ou a pregar o Evangelho nas sinagogas, demonstrando com as Sagradas Escrituras que Jesus era Filho de Deus. Todos os que o ouviam estavam cheios de espanto, e iam dizendo: \u201cN\u00e3o \u00e9 ele quem em Jerusal\u00e9m perseguia aqueles que invocavam o nome de Jesus e que veio de prop\u00f3sito a Damasco para conduzi-los prisioneiros?\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas Saulo j\u00e1 havia superado todo respeito humano; ele nada mais desejava do que promover a gl\u00f3ria de Deus e reparar o esc\u00e2ndalo dado; portanto, deixando que cada um dissesse dele o que quisesse, confundia os Judeus e com intrepidez pregava Jesus Crucificado.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599955\">CAP\u00cdTULO III. Primeira viagem de Saulo \u2014 Retorna a Damasco; armadilhas s\u00e3o preparadas para ele \u2014 Vai a Jerusal\u00e9m; apresenta-se aos Ap\u00f3stolos \u2014 Jesus Cristo lhe aparece \u2014 Ano de Jesus Cristo 35-36-37<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Saulo, ao ver as graves oposi\u00e7\u00f5es que lhe eram feitas pelos judeus, achou conveniente afastar-se de Damasco para passar algum tempo com os homens simples do campo e tamb\u00e9m para ir \u00e0 Ar\u00e1bia em busca de outros povos mais dispostos a receber a f\u00e9.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s tr\u00eas anos, acreditando que a tempestade havia cessado, retornou a Damasco, onde com zelo e for\u00e7a se dedicou a pregar Jesus Cristo; mas os judeus, n\u00e3o podendo resistir \u00e0s palavras de Deus que por meio de seu ministro lhes eram pregadas, decidiram mat\u00e1-lo. Para melhor conseguir seu intento, o denunciaram a Areta, rei de Damasco, apresentando Saulo como perturbador da tranquilidade p\u00fablica. Esse rei, muito cr\u00e9dulo, ouviu a cal\u00fania e ordenou que Saulo fosse preso, e para que n\u00e3o fugisse, colocou guardas em todas as portas da cidade. No entanto, essas armadilhas n\u00e3o puderam permanecer t\u00e3o ocultas que n\u00e3o chegassem ao conhecimento dos disc\u00edpulos e do pr\u00f3prio Saulo. Mas como poderiam libert\u00e1-lo? Aqueles bons disc\u00edpulos o conduziram a uma casa que dava para as muralhas da cidade e, colocando-o em uma cesta, o desceram pela muralha. Assim, enquanto as guardas vigiavam todas as portas e se fazia rigorosa busca em cada canto de Damasco, Saulo, libertado de suas m\u00e3os, s\u00e3o e salvo, tomou o caminho para Jerusal\u00e9m.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora a Judeia n\u00e3o fosse o campo confiado ao seu zelo, o motivo de sua viagem era, no entanto, santo. Ele considerava como seu indispens\u00e1vel dever apresentar-se a Pedro, de quem ainda n\u00e3o era conhecido, e assim prestar contas de sua miss\u00e3o ao Vig\u00e1rio de Jesus Cristo. Saulo havia impresso tanto terror com seu nome nos fi\u00e9is de Jerusal\u00e9m que n\u00e3o podiam acreditar em sua convers\u00e3o. Tentava se aproximar ora de um, ora de outro; mas todos, temerosos, o evitavam sem lhe dar tempo de se explicar. Foi nesse momento que Barnab\u00e9 se mostrou um verdadeiro amigo. Assim que ouviu contar a prodigiosa convers\u00e3o de seu condisc\u00edpulo, foi imediatamente at\u00e9 ele para consol\u00e1-lo; depois, foi at\u00e9 os Ap\u00f3stolos e contou-lhes a prodigiosa apari\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo a Saulo e como ele, instru\u00eddo diretamente pelo Senhor, n\u00e3o desejava outra coisa sen\u00e3o publicar o santo nome de Deus a todos os povos da terra. Diante de t\u00e3o alegres not\u00edcias, os disc\u00edpulos o acolheram com alegria e S\u00e3o Pedro o manteve v\u00e1rios dias em sua casa, onde n\u00e3o deixou de apresent\u00e1-lo aos fi\u00e9is mais zelosos; nem deixava escapar qualquer oportunidade para dar testemunho de Jesus Cristo nos mesmos lugares onde o havia blasfemado e feito blasfemar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; E como ele pressionava os judeus com muita veem\u00eancia e os confundia em p\u00fablico e em privado, estes se levantaram contra ele, resolvidos a tirar-lhe a vida. Por isso, os fi\u00e9is o aconselharam a partir daquela cidade. A mesma coisa Deus lhe fez conhecer por meio de uma vis\u00e3o. Um dia, enquanto Saulo orava no templo, Jesus Cristo lhe apareceu e lhe disse: \u201cParta imediatamente de Jerusal\u00e9m, porque este povo n\u00e3o crer\u00e1 no que voc\u00ea est\u00e1 prestes a dizer sobre mim.\u201d Paulo respondeu: \u201cSenhor, eles sabem como eu fui perseguidor do vosso santo nome; se souberem que me converti, certamente seguir\u00e3o meu exemplo e tamb\u00e9m se converter\u00e3o.\u201d Jesus acrescentou: \u201cN\u00e3o \u00e9 assim: eles n\u00e3o prestar\u00e3o f\u00e9 alguma \u00e0s suas palavras. V\u00e1, eu o escolhi para levar meu Evangelho a terras distantes entre os gentios\u201d (<em>Atos dos Ap\u00f3stolos, cap. 22<\/em>).<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deliberada assim a partida de Paulo, os disc\u00edpulos o acompanharam a Cesareia e de l\u00e1 o enviaram a Tarso, sua p\u00e1tria, com a esperan\u00e7a de que pudesse viver com menor perigo entre os parentes e amigos e tamb\u00e9m come\u00e7ar naquela cidade a fazer conhecer o nome do Senhor.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599956\">CAP\u00cdTULO IV. Profecias de \u00c1gabo \u2014 Saulo e Barnab\u00e9 ordenados bispos \u2014 V\u00e3o \u00e0 ilha de Chipre \u2014 Convers\u00e3o do proc\u00f4nsul S\u00e9rgio \u2014 Castigo do mago Elimas \u2014 Jo\u00e3o Marcos retorna a Jerusal\u00e9m \u2014 Ano de Jesus Cristo 40-43<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Enquanto Saulo pregava a palavra divina em Tarso, Barnab\u00e9 come\u00e7ou a preg\u00e1-la com grande fruto em Antioquia. Ao ver o grande n\u00famero de pessoas que a cada dia abra\u00e7avam a f\u00e9, Barnab\u00e9 achou conveniente ir a Tarso para convidar Saulo a vir ajud\u00e1-lo. De fato, ambos vieram a Antioquia, e aqui, com a prega\u00e7\u00e3o e com os milagres, ganharam um grande n\u00famero de fi\u00e9is.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Naqueles dias, alguns profetas, ou seja, alguns fervorosos crist\u00e3os que, iluminados por Deus, previam o futuro, vieram de Jerusal\u00e9m a Antioquia. Um deles, chamado \u00c1gabo, inspirado pelo Esp\u00edrito Santo, previu uma grande fome que deveria desolar toda a terra, como de fato aconteceu sob o imp\u00e9rio de Cl\u00e1udio. Os fi\u00e9is, para prevenir os males que essa fome causaria, resolveram fazer uma coleta e assim cada um, segundo suas for\u00e7as, enviar algum socorro aos irm\u00e3os da Judeia. O que fizeram com \u00f3timos resultados. Para ter uma pessoa de cr\u00e9dito junto a todos, escolheram Saulo e Barnab\u00e9 e os enviaram para levar tal esmola aos sacerdotes de Jerusal\u00e9m, para que fizessem a distribui\u00e7\u00e3o conforme a necessidade. Cumprida sua miss\u00e3o, Saulo e Barnab\u00e9 retornaram a Antioquia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Havia tamb\u00e9m nesta cidade outros profetas e doutores, entre os quais um certo Sim\u00e3o, apelidado de o Negro, L\u00facio de Cirene e Mana\u00e9m, irm\u00e3o de leite de Herodes. Um dia, enquanto eles ofereciam os Santos Mist\u00e9rios e jejuavam, o Esp\u00edrito Santo apareceu de maneira extraordin\u00e1ria e disse-lhes: \u201cSeparem-me Saulo e Barnab\u00e9 para a obra do sagrado minist\u00e9rio a que os elegi.\u201d Ent\u00e3o foi ordenado um jejum com ora\u00e7\u00f5es p\u00fablicas e, tendo-lhes imposto as m\u00e3os, os consagraram bispos. Esta ordena\u00e7\u00e3o foi modelo daquelas que a Igreja Cat\u00f3lica costuma fazer a seus ministros: dela tiveram origem os jejuns das quatro t\u00eamporas, as ora\u00e7\u00f5es e outras cerim\u00f4nias que costumam ter lugar na sagrada ordena\u00e7\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Saulo estava em Antioquia quando teve uma vis\u00e3o maravilhosa, na qual foi arrebatado ao terceiro c\u00e9u, ou seja, foi elevado por Deus para contemplar as coisas do C\u00e9u mais sublimes que um homem mortal pode imaginar. Ele mesmo deixou escrito que viu coisas que n\u00e3o podem ser expressas com palavras, coisas nunca vistas, nunca ouvidas, e que o cora\u00e7\u00e3o do homem n\u00e3o pode nem mesmo imaginar. Dessa vis\u00e3o celeste, Saulo, confortado, partiu com Barnab\u00e9 e foi diretamente a Sel\u00eaucia da S\u00edria, assim chamada para distingui-la de outra cidade do mesmo nome situada nas proximidades do Tigre em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 P\u00e9rsia. Tamb\u00e9m estava com eles um certo Jo\u00e3o Marcos, n\u00e3o o Marcos Evangelista. Ele era filho daquela piedosa vi\u00fava na casa da qual S\u00e3o Pedro se refugiou quando foi miraculosamente libertado da pris\u00e3o por um anjo. Era primo de Barnab\u00e9 e havia sido levado de Jerusal\u00e9m a Antioquia na ocasi\u00e3o em que foram l\u00e1 levar as esmolas.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sel\u00eaucia tinha um porto no Mediterr\u00e2neo: de l\u00e1, nossos oper\u00e1rios evang\u00e9licos embarcaram para ir \u00e0 ilha de Chipre, p\u00e1tria de S\u00e3o Barnab\u00e9. Chegando a Salamina, cidade e porto consider\u00e1vel daquela ilha, come\u00e7aram a anunciar o Evangelho aos judeus e depois aos gentios, que eram mais simples e mais dispostos a receber a f\u00e9. Os dois Ap\u00f3stolos, pregando por toda aquela ilha, chegaram a Pafos, capital do pa\u00eds, onde residia o proc\u00f4nsul, ou seja, o governador romano chamado S\u00e9rgio Paulo. Aqui o zelo de Saulo teve a oportunidade de se exercitar devido a um mago chamado Bar-Jesus ou Elimas. Este, seja para ganhar o favor do proc\u00f4nsul ou para tirar dinheiro de suas fraudes, seduzia o povo e afastava S\u00e9rgio de seguir os sentimentos piedosos de seu cora\u00e7\u00e3o. O proc\u00f4nsul, tendo ouvido falar dos pregadores que haviam vindo ao pa\u00eds que ele governava, mandou cham\u00e1-los para que fossem lhe fazer conhecer sua doutrina. Foram imediatamente Saulo e Barnab\u00e9 expor-lhe as verdades do Evangelho; mas Elimas, ao ver-se privado da mat\u00e9ria de seus ganhos, temendo talvez algo pior, come\u00e7ou a obstruir os des\u00edgnios de Deus, contradizendo a doutrina de Saulo e desacreditando-o perante o proc\u00f4nsul para mant\u00ea-lo afastado da verdade. Ent\u00e3o Saulo, todo aceso de zelo e do Esp\u00edrito Santo, fixou o olhar nele: \u201cSem-vergonha\u201d, disse-lhe, \u201carca de impiedade e de fraude, filho do diabo, inimigo de toda justi\u00e7a, voc\u00ea ainda n\u00e3o se det\u00e9m de perverter os caminhos retos do Senhor? Agora, eis que a m\u00e3o de Deus pesa sobre voc\u00ea: desde este momento voc\u00ea ser\u00e1 cego e pelo tempo que Deus quiser n\u00e3o ver\u00e1 a luz do sol.\u201d Imediatamente caiu sobre seus olhos uma n\u00e9voa, da qual, privado da faculdade de ver, ele andava tateando, procurando quem lhe desse a m\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante desse fato terr\u00edvel, S\u00e9rgio reconheceu a m\u00e3o de Deus e, movido pelos serm\u00f5es de Saulo e por aquele milagre, creu em Jesus Cristo e abra\u00e7ou a f\u00e9 com toda sua fam\u00edlia. Tamb\u00e9m o mago Elimas, apavorado por essa repentina cegueira, reconheceu o poder divino nas palavras de Paulo e, renunciando \u00e0 arte m\u00e1gica, se converteu, fez penit\u00eancia e abra\u00e7ou a f\u00e9. Nessa ocasi\u00e3o, Saulo tomou o nome de Paulo, tanto em mem\u00f3ria da convers\u00e3o daquele governador, quanto para ser mais bem acolhido entre os gentios, pois Saulo era um nome hebraico, enquanto Paulo era um nome romano.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Recolhendo em Pafos um consider\u00e1vel fruto de sua prega\u00e7\u00e3o, Paulo e Barnab\u00e9, com outros companheiros, embarcaram rumo a Perge, cidade da Panf\u00edlia. Ali, despediram Jo\u00e3o Marcos, que at\u00e9 ent\u00e3o havia se esfor\u00e7ado em ajud\u00e1-los. Barnab\u00e9 gostaria de mant\u00ea-lo ainda; mas Paulo, percebendo nele uma certa pusilanimidade e inconst\u00e2ncia, decidiu envi\u00e1-lo de volta \u00e0 sua m\u00e3e em Jerusal\u00e9m. Veremos em breve este disc\u00edpulo reparar a fraqueza agora demonstrada e se tornar um fervoroso pregador.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599957\">CAP\u00cdTULO V. S\u00e3o Paulo prega em Antioquia da Pis\u00eddia \u2014 Ano de Jesus Cristo 44<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>De Perge, S\u00e3o Paulo foi com S\u00e3o Barnab\u00e9 a Antioquia da Pis\u00eddia, assim chamada para distingui-la de Antioquia da S\u00edria, que era a grande capital do Oriente. Ali os judeus, como em muitas outras cidades da \u00c1sia, tinham sua sinagoga onde nos dias de s\u00e1bado se reuniam para ouvir a explica\u00e7\u00e3o da Lei de Mois\u00e9s e dos Profetas. Os dois ap\u00f3stolos tamb\u00e9m compareceram e com eles muitos judeus e gentios que j\u00e1 adoravam o verdadeiro Deus. Segundo o costume dos judeus, os doutores da lei leram um trecho da B\u00edblia que depois entregaram a Paulo, pedindo-lhe que lhes dissesse algo edificante. Paulo, que n\u00e3o esperava outra coisa sen\u00e3o a oportunidade de falar, levantou-se, indicou com a m\u00e3o que todos fizessem sil\u00eancio e come\u00e7ou a falar assim: \u00abFilhos de Israel, e voc\u00eas todos que temem o Senhor, como me convidam a falar, pe\u00e7o que me ou\u00e7am com a aten\u00e7\u00e3o que merece a dignidade das coisas que estou prestes a lhes dizer.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00abAquele Deus que escolheu nossos pais quando estavam no Egito e com uma longa s\u00e9rie de prod\u00edgios fez deles uma na\u00e7\u00e3o privilegiada, honrou de maneira especial a linhagem de Davi prometendo que dela faria nascer o Salvador do mundo. Aquela grande promessa, confirmada por tantas profecias, finalmente se cumpriu na pessoa de Jesus de Nazar\u00e9. Jo\u00e3o, ao qual certamente voc\u00eas creem, aquele Jo\u00e3o cujas sublimes virtudes fizeram acreditar que era o Messias, deu-lhe o mais autorizado testemunho dizendo que n\u00e3o se considerava digno de desatar nem mesmo as correias de suas sand\u00e1lias. Voc\u00eas hoje, irm\u00e3os, voc\u00eas dignos filhos de Abra\u00e3o, e voc\u00eas todos adoradores do verdadeiro Deus, de qualquer na\u00e7\u00e3o ou linhagem que sejam, s\u00e3o aqueles a quem \u00e9 particularmente dirigida a palavra de salva\u00e7\u00e3o. Os habitantes de Jerusal\u00e9m, enganados por seus chefes, n\u00e3o quiseram reconhecer o Redentor que lhes pregamos. Ao contr\u00e1rio, deram-lhe a morte; mas Deus onipotente n\u00e3o permitiu, como havia predito, que o corpo de seu Cristo sofresse corrup\u00e7\u00e3o no sepulcro. Portanto, no terceiro dia ap\u00f3s a morte, o fez ressurgir glorioso e triunfante.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; At\u00e9 este ponto voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam culpa alguma, porque a luz da verdade ainda n\u00e3o havia chegado at\u00e9 voc\u00eas. Mas tremam de agora em diante se algum dia fecharem os olhos; tremam por provocar sobre voc\u00eas a maldi\u00e7\u00e3o fulminada pelos profetas contra quem n\u00e3o quer reconhecer a grande obra do Senhor, cujo cumprimento deve ocorrer nestes dias\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Terminada a fala, todos os ouvintes se retiraram em sil\u00eancio, meditando sobre as coisas ouvidas de S\u00e3o Paulo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entretanto, eram diversos os pensamentos que ocupavam suas mentes. Os bons estavam cheios de alegria pelas palavras de salva\u00e7\u00e3o que lhes foram anunciadas, mas grande parte dos judeus, sempre persuadidos de que o Messias deveria restabelecer o poder temporal de sua na\u00e7\u00e3o e envergonhando-se de reconhecer como Messias aquele que seus pr\u00edncipes haviam condenado \u00e0 morte ignominiosa, acolheram com desd\u00e9m a prega\u00e7\u00e3o de Paulo. No entanto, mostraram-se satisfeitos e convidaram o Ap\u00f3stolo a retornar no s\u00e1bado seguinte, com \u00e2nimo, por\u00e9m, bem diferente: os maliciosos para se prepararem para contradiz\u00ea-lo, e aqueles que temiam o Senhor, israelitas e gentios, para melhor se instru\u00edrem e se confirmarem na f\u00e9. No dia combinado, reuniu-se uma imensa multid\u00e3o para ouvir esta nova doutrina. Assim que S\u00e3o Paulo come\u00e7ou a pregar, imediatamente os doutores da sinagoga se levantaram contra ele. Opondo inicialmente algumas dificuldades; quando perceberam que n\u00e3o podiam resistir \u00e0 for\u00e7a das raz\u00f5es com as quais S\u00e3o Paulo provava as verdades da f\u00e9, entregaram-se a gritos, inj\u00farias e blasf\u00eamias. Os dois ap\u00f3stolos, vendo-se sufocar a palavra na boca, com forte \u00e2nimo exclamaram em alta voz: \u00abA voc\u00eas se deveria em primeiro lugar anunciar a divina palavra; mas j\u00e1 que voc\u00eas tapam maldosamente os ouvidos e com f\u00faria a rejeitam, tornam-se indignos da vida eterna. N\u00f3s, portanto, nos voltamos para os gentios para cumprir a promessa feita por Deus pela boca de seu profeta quando disse: \u201cEu te destinei para luz dos gentios e para a salva\u00e7\u00e3o deles at\u00e9 a extremidade da terra\u201d\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os judeus ent\u00e3o, ainda mais movidos por inveja e indigna\u00e7\u00e3o, incitaram contra os Ap\u00f3stolos uma feroz persegui\u00e7\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Serviram-se de algumas mulheres que gozavam de cr\u00e9dito por serem piedosas e honestas, e com elas incitaram os magistrados da cidade, e todos juntos, gritando e fazendo alvoro\u00e7o, for\u00e7aram os Ap\u00f3stolos a sair de seus limites. Assim for\u00e7ados, Paulo e Barnab\u00e9 partiram daquela infeliz terra e, no ato de sua partida, segundo o mandamento de Jesus Cristo, sacudiram a poeira de seus p\u00e9s em sinal de renunciar para sempre a qualquer rela\u00e7\u00e3o com eles, como homens reprovados por Deus e atingidos pela maldi\u00e7\u00e3o divina.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599958\">CAP\u00cdTULO VI. S\u00e3o Paulo prega em outras cidades \u2014 Realiza um milagre em Listra, onde depois \u00e9 apedrejado e deixado por morto \u2014 Ano de Jesus Cristo 45<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Paulo e Barnab\u00e9, expulsos da Pis\u00eddia, foram para a Lica\u00f4nia, outra prov\u00edncia da \u00c1sia Menor, e se dirigiram a Ic\u00f4nio, que era a capital. Os santos Ap\u00f3stolos, buscando apenas a gl\u00f3ria de Deus, esquecendo os maus-tratos que haviam recebido em Antioquia pelos Judeus, se dedicaram imediatamente a pregar o Evangelho na sinagoga. Aqui Deus aben\u00e7oou seus esfor\u00e7os, e uma multid\u00e3o de Judeus e Gentios abra\u00e7ou a f\u00e9. Mas aqueles entre os Judeus que permaneceram incr\u00e9dulos e se obstinaram na impiedade, iniciaram outra persegui\u00e7\u00e3o contra os Ap\u00f3stolos. Alguns os recebiam como homens enviados por Deus, outros os proclamavam impostores. Portanto, tendo sido avisados de que muitos deles, protegidos pelos chefes da sinagoga e pelos magistrados, queriam apedrej\u00e1-los, foram a Listra e depois a Derbe, cidades n\u00e3o muito distantes de Ic\u00f4nio. Essas cidades e os pa\u00edses vizinhos foram o campo onde nossos zelosos oper\u00e1rios se dedicaram a semear a palavra do Senhor. Entre os muitos milagres que Deus realizou pela m\u00e3o de S\u00e3o Paulo nesta miss\u00e3o, foi brilhante aquele que estamos prestes a relatar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em Listra havia um homem coxo desde o nascimento, que nunca havia conseguido dar um passo com seus p\u00e9s. Tendo ouvido que S\u00e3o Paulo realizava milagres extraordin\u00e1rios, sentiu nascer em seu cora\u00e7\u00e3o uma viva confian\u00e7a de que tamb\u00e9m poderia obter a sa\u00fade por meio dele, como tantos outros j\u00e1 haviam conseguido. Ele ouvia as prega\u00e7\u00f5es do Ap\u00f3stolo, quando este, olhando fixamente para aquele infeliz e penetrando as boas disposi\u00e7\u00f5es de sua alma, lhe disse em alta voz: \u201cLevanta-te e fica em p\u00e9 sobre os teus p\u00e9s\u201d. A um tal comando, o coxo se levantou e come\u00e7ou a andar rapidamente. A multid\u00e3o que estava presente a tal milagre se sentiu tomada de entusiasmo e maravilha. \u201cEsses n\u00e3o s\u00e3o homens\u201d, exclamavam de todos os lados, \u201cmas s\u00e3o deuses revestidos de apar\u00eancia humana, descidos do c\u00e9u entre n\u00f3s\u201d. E segundo tal suposi\u00e7\u00e3o err\u00f4nea, chamavam Barnab\u00e9 de J\u00fapiter, porque o viam de semblante mais majestoso, e Paulo, que falava com maravilhosa eloqu\u00eancia, chamavam de Merc\u00fario, que entre os Gentios era o int\u00e9rprete e mensageiro de J\u00fapiter e o deus da eloqu\u00eancia. Chegou a not\u00edcia do fato ao sacerdote do templo de J\u00fapiter, que estava fora da cidade, e ele julgou ser seu dever oferecer aos grandes h\u00f3spedes um solene sacrif\u00edcio e convidar todo o povo a participar. Preparadas as v\u00edtimas, as coroas e tudo o que fosse necess\u00e1rio para a fun\u00e7\u00e3o, trouxeram tudo diante da casa onde estavam hospedados Paulo e Barnab\u00e9, querendo de todas as maneiras fazer-lhes um sacrif\u00edcio. Os dois Ap\u00f3stolos, acesos de santo zelo, se lan\u00e7aram na multid\u00e3o e, em sinal de dor, rasgando suas vestes, gritavam: \u201cOh, o que fazeis, \u00f3 miser\u00e1veis? N\u00f3s somos homens mortais como v\u00f3s; n\u00f3s, com todo o esp\u00edrito, vos exortamos a converter-vos do culto dos deuses ao culto daquele Senhor que criou o c\u00e9u e a terra, e que, embora no passado tenha tolerado que os Gentios seguissem suas loucuras, no entanto forneceu claros argumentos de seu ser e de sua infinita bondade com obras que o fazem conhecer como supremo Senhor de todas as coisas\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A t\u00e3o franca fala acalmaram-se os \u00e2nimos e abandonaram a ideia de fazer aquele sacrif\u00edcio. Os sacerdotes ainda n\u00e3o haviam cedido totalmente e estavam perplexos se deveriam desistir quando chegaram de Antioquia e de Ic\u00f4nio alguns Judeus, enviados das sinagogas para perturbar as santas empreitadas dos Ap\u00f3stolos. Aqueles malignos fizeram tanto e disseram tanto que conseguiram revoltar todo o povo contra os dois Ap\u00f3stolos. Assim, aqueles que poucos dias antes os veneravam como deuses, agora os chamavam de malfeitores; e como apenas S\u00e3o Paulo havia falado, a ira se voltou toda contra ele.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Lan\u00e7aram sobre ele tal tempestade de pedras que, acreditando-o morto, o arrastaram para fora da cidade. Veja, leitor, como se deve avaliar a gl\u00f3ria do mundo! Aqueles que hoje o querem elevar acima das estrelas, amanh\u00e3 talvez o queiram no mais profundo dos abismos! Bem-aventurados aqueles que depositam em Deus sua confian\u00e7a.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599959\">CAP\u00cdTULO VII. Paulo milagrosamente curado \u2014 Outras de suas fadigas apost\u00f3licas \u2014 Convers\u00e3o de Santa Tecla<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Os disc\u00edpulos com outros fi\u00e9is, tendo sabido ou talvez visto o que havia sido feito a Paulo, se reuniram em torno do seu corpo chorando-o como morto. Mas logo foram consolados; pois, seja que Paulo estivesse realmente morto, seja que estivesse apenas todo machucado, Deus em um instante o fez retornar s\u00e3o e vigoroso como antes, a tal ponto que ele p\u00f4de se levantar por si mesmo e, cercado pelos disc\u00edpulos, retornar \u00e0 cidade de Listra entre aqueles mesmos que pouco antes o haviam apedrejado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas no dia seguinte, saindo daquela cidade, passou a Derbe, outra cidade da Lica\u00f4nia. A\u00ed pregou Jesus Cristo e fez muitas convers\u00f5es. Paulo e Barnab\u00e9 visitaram muitas cidades onde j\u00e1 haviam pregado e, observando os graves perigos a que estavam expostos aqueles que h\u00e1 pouco tempo haviam abra\u00e7ado \u00e0 f\u00e9, ordenaram Bispos e Sacerdotes que tivessem cuidado daquelas igrejas.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre as convers\u00f5es realizadas nesta terceira miss\u00e3o de Paulo \u00e9 muito c\u00e9lebre a de Santa Tecla. Enquanto ele pregava em Ic\u00f4nio, essa jovem foi ouvi-lo. Anteriormente, ela havia se dedicado \u00e0s belas letras e ao estudo da filosofia profana. J\u00e1 seus parentes a haviam prometido a um jovem nobre, rico e muito poderoso. Encontrando-se um dia ouvindo S\u00e3o Paulo enquanto pregava sobre o valor da virgindade, apaixonou-se por essa preciosa virtude. Ao ouvir depois a grande estima que o Salvador tinha por ela e o grande pr\u00eamio que era reservado no c\u00e9u \u00e0queles que t\u00eam a bela sorte de conserv\u00e1-la, sentiu ardente desejo de consagrar-se a Jesus Cristo e renunciar a todas as vantagens dos casamentos terrenos. Ao recusar aquele casamento, vantajoso aos olhos do mundo, seus parentes se indignaram fortemente e, de acordo com o noivo, tentaram todas as maneiras, todas as lisonjas para faz\u00ea-la mudar de prop\u00f3sito. Tudo em v\u00e3o: quando uma alma \u00e9 ferida pelo amor de Deus, todo esfor\u00e7o humano n\u00e3o consegue mais afast\u00e1-la do objeto que ama. De fato, os parentes, o noivo, os amigos, mudando o amor em f\u00faria, incitaram os ju\u00edzes e os magistrados de Ic\u00f4nio contra a santa virgem e das amea\u00e7as passaram aos fatos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ela foi jogada em um cercado de feras famintas e ferozes; Tecla, unicamente armada da confian\u00e7a em Deus, faz o sinal da Santa Cruz, e aqueles animais dep\u00f5em sua ferocidade e respeitam a esposa de Jesus Cristo. Acende-se uma fogueira na qual ela \u00e9 precipitada; mas, feito apenas o sinal da Cruz, as chamas se extinguem e ela se conserva ilesa. Em suma, foi exposta a todo tipo de tormentos e de todos foi prodigiosamente libertada. Por essas coisas, foi-lhe dado o nome de protom\u00e1rtir, ou seja, primeira m\u00e1rtir entre as mulheres, como Santo Est\u00eav\u00e3o foi o primeiro m\u00e1rtir entre os homens. Ela viveu ainda muitos anos no exerc\u00edcio das mais heroicas virtudes e morreu em paz em idade muito avan\u00e7ada.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599960\">CAP\u00cdTULO VIII. S\u00e3o Paulo vai conferir com S\u00e3o Pedro \u2014 Assiste ao Conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m \u2014 Ano de Cristo 50<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Ap\u00f3s as fadigas e os sofrimentos suportados por Paulo e Barnab\u00e9 em sua terceira miss\u00e3o, contentes com as almas que conseguiram conduzir ao aprisco de Jesus Cristo, retornaram a Antioquia da S\u00edria. L\u00e1 contaram aos fi\u00e9is daquela cidade as maravilhas operadas por Deus na convers\u00e3o dos Gentios. O Santo Ap\u00f3stolo foi ali consolado com uma revela\u00e7\u00e3o, na qual Deus lhe ordenou que se dirigisse a Jerusal\u00e9m para conferir com S\u00e3o Pedro sobre o Evangelho que ele pregava. Deus havia ordenado isso para que S\u00e3o Paulo reconhecesse em S\u00e3o Pedro o Chefe da Igreja, e assim todos os fi\u00e9is compreendessem como os dois pr\u00edncipes dos Ap\u00f3stolos pregavam uma mesma f\u00e9, um s\u00f3 Deus, um s\u00f3 batismo, um s\u00f3 Salvador Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo partiu em companhia de Barnab\u00e9, levando consigo um disc\u00edpulo chamado Tito, ganho \u00e0 f\u00e9 no decorrer desta terceira miss\u00e3o. Este \u00e9 aquele famoso Tito, que se tornou modelo de virtude, fiel seguidor e colaborador do nosso santo Ap\u00f3stolo e de quem tamb\u00e9m teremos muitas vezes a falar. Chegando a Jerusal\u00e9m, apresentaram-se aos Ap\u00f3stolos Pedro, Tiago e Jo\u00e3o, que eram considerados como as principais colunas da Igreja. Entre outras coisas, foi ali acordado que Pedro com Tiago e Jo\u00e3o se aplicariam de maneira especial para conduzir os Judeus \u00e0 f\u00e9; Paulo e Barnab\u00e9, por sua vez, se dedicariam principalmente \u00e0 convers\u00e3o dos Gentios.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo permaneceu quinze dias naquela cidade, ap\u00f3s o que retornou com seus companheiros a Antioquia. L\u00e1 encontraram os fi\u00e9is muito agitados por uma quest\u00e3o derivada do fato de que os Judeus queriam obrigar os Gentios a se submeterem \u00e0 circuncis\u00e3o e \u00e0s outras cerim\u00f4nias da lei de Mois\u00e9s, o que era o mesmo que dizer que era necess\u00e1rio se tornar um bom Judeu para depois se tornar um bom Crist\u00e3o. As contendas foram t\u00e3o longe que, n\u00e3o podendo se aquietar de outra forma, foi decidido enviar Paulo e Barnab\u00e9 a Jerusal\u00e9m para consultar o Chefe da Igreja para que por ele fosse decidida a quest\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00f3s j\u00e1 contamos na vida de S\u00e3o Pedro como Deus, com uma maravilhosa revela\u00e7\u00e3o, havia feito conhecer a este pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos que os Gentios, ao virem \u00e0 f\u00e9, n\u00e3o eram obrigados \u00e0 circuncis\u00e3o nem \u00e0s outras cerim\u00f4nias da lei de Mois\u00e9s; no entanto, para que a vontade de Deus fosse conhecida por todos e fosse de modo solene resolvida toda a dificuldade, Pedro convocou um conc\u00edlio universal, que foi o modelo de todos os conc\u00edlios que foram celebrados nos tempos futuros. Ali Paulo e Barnab\u00e9 expuseram o estado da quest\u00e3o, que foi definida por S\u00e3o Pedro e confirmada pelos outros Ap\u00f3stolos da seguinte maneira:<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00abOs Ap\u00f3stolos e os anci\u00e3os aos irm\u00e3os convertidos do paganismo, que habitam em Antioquia e nas outras partes da S\u00edria e da Cil\u00edcia. Tendo n\u00f3s entendido que alguns que foram daqui t\u00eam perturbado e angustiado as vossas consci\u00eancias com ideias arbitr\u00e1rias, pareceu bem a n\u00f3s aqui reunidos escolher e enviar a v\u00f3s Paulo e Barnab\u00e9, homens a n\u00f3s car\u00edssimos, que sacrificaram suas vidas pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. Com eles enviamos Silas e Judas, os quais, entregando-vos nossas cartas, vos confirmar\u00e3o de boca as mesmas verdades. De fato, foi julgado pelo Esp\u00edrito Santo e por n\u00f3s n\u00e3o vos impor outra lei, exceto aquelas que deveis observar, isto \u00e9, abster-vos das coisas sacrificadas aos \u00eddolos, das carnes sufocadas, do sangue e da fornica\u00e7\u00e3o, das quais coisas abstendo-vos fareis bem. Fiquem em paz.\u00bb<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta \u00faltima coisa, ou seja, a fornica\u00e7\u00e3o, n\u00e3o precisava ser proibida, sendo totalmente contr\u00e1ria aos ditames da raz\u00e3o e proibida pelo sexto preceito do Dec\u00e1logo. No entanto, foi renovada tal proibi\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o aos Gentios, que no culto de seus falsos deuses pensavam que era l\u00edcito, ao contr\u00e1rio, coisa agrad\u00e1vel \u00e0quelas imundas divindades.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chegando Paulo e Barnab\u00e9 com Silas e Judas a Antioquia, publicaram a carta com o decreto do conc\u00edlio, com o qual n\u00e3o s\u00f3 aquietaram o tumulto, mas encheram os irm\u00e3os de alegria, reconhecendo cada um a voz de Deus na de S\u00e3o Pedro e do conc\u00edlio. Silas e Judas contribu\u00edram muito para aquela alegria comum, pois sendo eles profetas, ou seja, cheios do Esp\u00edrito Santo e dotados do dom da palavra divina e de uma gra\u00e7a particular para interpretar as Sagradas Escrituras, tiveram muita efic\u00e1cia em confirmar os fi\u00e9is na f\u00e9, na concord\u00e2ncia e nos bons prop\u00f3sitos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Pedro, tendo sido informado dos progressos extraordin\u00e1rios que o Evangelho fazia em Antioquia, quis tamb\u00e9m ir visitar aqueles fi\u00e9is, a quem j\u00e1 havia pregado por mais anos e entre os quais havia mantido a S\u00e9 Pontif\u00edcia por sete anos. Enquanto os dois pr\u00edncipes dos Ap\u00f3stolos permaneciam em Antioquia, aconteceu que Pedro, para agradar aos Judeus, praticava algumas cerim\u00f4nias da lei mosaica; o que causava uma certa avers\u00e3o por parte dos Gentios, sem que S\u00e3o Pedro estivesse ciente disso. S\u00e3o Paulo, ao tomar conhecimento desse fato, avisou publicamente S\u00e3o Pedro, o qual com admir\u00e1vel humildade recebeu o aviso sem proferir palavras de desculpa; ao contr\u00e1rio, a partir de ent\u00e3o tornou-se muito amigo de S\u00e3o Paulo, e em suas cartas n\u00e3o costumava cham\u00e1-lo por outro nome sen\u00e3o pelo de irm\u00e3o car\u00edssimo. Exemplo digno de ser imitado por aqueles que de alguma forma s\u00e3o avisados de seus defeitos.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599961\">CAP\u00cdTULO IX. Paulo se separa de Barnab\u00e9 \u2014 Percorre v\u00e1rias cidades da \u00c1sia \u2014 Deus o envia \u00e0 Maced\u00f4nia \u2014 Em Filipos converte a fam\u00edlia de L\u00eddia \u2014 Ano de Cristo 51<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Paulo e Barnab\u00e9 pregaram por algum tempo o Evangelho na cidade de Antioquia, esfor\u00e7ando-se at\u00e9 para divulg\u00e1-lo nos pa\u00edses vizinhos. N\u00e3o muito depois, Paulo pensou em visitar as Igrejas onde havia pregado. Disse, portanto, a Barnab\u00e9: \u201cParece-me bem que voltemos a ver os fi\u00e9is daquelas cidades e terras onde pregamos, para ver como v\u00e3o as coisas da religi\u00e3o entre eles.\u201d Nada estava mais a peito de Barnab\u00e9, e por isso ele imediatamente concordou com o Santo Ap\u00f3stolo; mas prop\u00f4s levar consigo tamb\u00e9m aquele Jo\u00e3o Marcos que os havia seguido na miss\u00e3o anterior e depois os deixara em Perge. Talvez ele desejasse apagar a mancha que havia feito naquela ocasi\u00e3o, por isso queria estar novamente em sua companhia. S\u00e3o Paulo n\u00e3o pensava assim: \u201cVoc\u00ea v\u00ea\u201d, dizia a Barnab\u00e9, \u201cque este n\u00e3o \u00e9 um homem em quem se possa confiar: certamente voc\u00ea se lembra de como, ao chegarmos a Perge da Panf\u00edlia, ele nos abandonou.\u201d Barnab\u00e9 insistia dizendo que poderia ser acolhido, e apresentava boas raz\u00f5es. N\u00e3o conseguindo os dois Ap\u00f3stolos entrar em acordo, decidiram se separar e seguir caminhos diferentes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim Deus fez servir essa diversidade de sentimentos para sua maior gl\u00f3ria; porque, separados, levavam a luz do Evangelho a mais lugares, coisa que n\u00e3o teriam feito indo ambos juntos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Barnab\u00e9 foi com Jo\u00e3o Marcos para a ilha de Chipre e visitou aquelas Igrejas onde havia pregado com S\u00e3o Paulo na miss\u00e3o anterior. Este Ap\u00f3stolo trabalhou muito para difundir a f\u00e9 em Jesus Cristo e finalmente foi coroado com o mart\u00edrio em Chipre, sua p\u00e1tria. Jo\u00e3o Marcos, desta vez, foi constante, e o veremos depois como fiel companheiro de S\u00e3o Paulo, que teve muito a louvar seu zelo e caridade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Paulo levou consigo Silas, aquele que lhe fora designado como companheiro para levar os atos do conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m a Antioquia, iniciou sua quarta viagem e foi visitar v\u00e1rias Igrejas que ele havia fundado. Primeiro foi a Derbe, depois a Listra, onde algum tempo atr\u00e1s o Santo Ap\u00f3stolo fora deixado como morto. Mas Deus quis desta vez compens\u00e1-lo pelo que havia sofrido antes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele encontrou l\u00e1 um jovem que havia convertido na outra miss\u00e3o, chamado Tim\u00f3teo. Paulo j\u00e1 conhecia o belo car\u00e1ter deste disc\u00edpulo e em seu cora\u00e7\u00e3o havia decidido torn\u00e1-lo um colaborador do Evangelho, ou seja, consagr\u00e1-lo sacerdote e tom\u00e1-lo como companheiro em seus trabalhos apost\u00f3licos. Antes, por\u00e9m, de conferir-lhe a sagrada ordena\u00e7\u00e3o, Paulo pediu informa\u00e7\u00f5es aos fi\u00e9is de Listra e descobriu que todos elogiavam este bom jovem, magnificando sua virtude, mod\u00e9stia e seu esp\u00edrito de ora\u00e7\u00e3o; e isso diziam n\u00e3o apenas os de Listra, mas at\u00e9 mesmo os de Ic\u00f4nio e das outras cidades vizinhas, e todos pressagiavam em Tim\u00f3teo um zeloso sacerdote e um santo bispo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Diante desses luminosos testemunhos, Paulo n\u00e3o teve mais dificuldade em consagr\u00e1-lo sacerdote. Paulo, portanto, levando consigo Tim\u00f3teo e Silas, continuou a visita das Igrejas, recomendando a todos que observassem e se mantivessem firmes nas decis\u00f5es do conc\u00edlio de Jerusal\u00e9m. Assim fizeram os de Antioquia, e assim fizeram em todo tempo os pregadores do Evangelho para assegurar os fi\u00e9is de n\u00e3o ca\u00edrem em erro: manter-se aos decretos, \u00e0s ordens dos conc\u00edlios e do Papa Romano, sucessor de S\u00e3o Pedro.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo e seus companheiros atravessaram a Gal\u00e1cia e a Fr\u00edgia para levar o Evangelho \u00e0 \u00c1sia, mas o Esp\u00edrito Santo o proibiu.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para facilitar a compreens\u00e3o das coisas que estamos prestes a contar, \u00e9 bom notar de passagem que pela palavra \u00c1sia em sentido amplo se entende uma das tr\u00eas partes do mundo. Costuma-se chamar de <em>\u00c1sia<\/em> <em>Maior<\/em> toda a extens\u00e3o da \u00c1sia, exceto aquela parte que se chama <em>\u00c1sia Menor, hoje<\/em> <em>Anat\u00f3lia<\/em>, que \u00e9 a pen\u00ednsula compreendida entre o Mar de Chipre, o Egeu e o Mar Negro. Tamb\u00e9m foi chamada de \u00c1sia Proconsular uma parte da \u00c1sia Menor mais ou menos extensa de acordo com o n\u00famero das prov\u00edncias confiadas ao governo do proc\u00f4nsul romano. Aqui, por \u00c1sia, onde S\u00e3o Paulo planejava ir, entende-se uma por\u00e7\u00e3o da \u00c1sia Proconsular, situada em torno de \u00c9feso e compreendida entre os montes Tauro, o Mar Negro e a Fr\u00edgia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Paulo ent\u00e3o pensou em ir \u00e0 Bit\u00ednia, que \u00e9 outra prov\u00edncia da \u00c1sia Menor um pouco mais em dire\u00e7\u00e3o ao Mar Negro; mas nem isso lhe foi permitido por Deus. Portanto, voltou e foi a Tr\u00f4ade, que \u00e9 uma cidade e prov\u00edncia onde antigamente havia uma famosa cidade chamada <em>Troia<\/em>. Deus havia reservado para outro tempo a prega\u00e7\u00e3o do Evangelho \u00e0queles povos; por ora, queria envi\u00e1-lo a outros pa\u00edses.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto S\u00e3o Paulo estava em Tr\u00f4ade, apareceu-lhe um anjo vestido de homem segundo o uso dos maced\u00f4nios, que, estando em p\u00e9 diante dele, come\u00e7ou a suplic\u00e1-lo assim: \u201c<em>Oh! tenha piedade de n\u00f3s; passe \u00e0 Maced\u00f4nia e venha em nosso socorro.<\/em>\u201d Dessa vis\u00e3o, S\u00e3o Paulo conheceu a vontade do Senhor e sem demora se preparou para atravessar o mar e ir \u00e0 Maced\u00f4nia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em Tr\u00f4ade, juntou-se a S\u00e3o Paulo um primo seu chamado Lucas, que lhe foi de grande ajuda em suas fadigas apost\u00f3licas. Ele era um m\u00e9dico de Antioquia, de grande intelig\u00eancia, que escrevia com pureza e eleg\u00e2ncia em grego. Ele foi para Paulo o que S\u00e3o Marcos foi para S\u00e3o Pedro; e assim como ele, escreveu o Evangelho que lemos sob o nome de <em>Evangelho segundo Lucas<\/em>. Tamb\u00e9m o livro intitulado <em>Atos dos Ap\u00f3stolos<\/em>, do qual extra\u00edmos quase todas as coisas que dizemos sobre S\u00e3o Paulo, \u00e9 obra de S\u00e3o Lucas. Desde que se uniu como companheiro do nosso Ap\u00f3stolo, n\u00e3o houve mais perigo, fadiga ou sofrimento que pudesse abalar sua const\u00e2ncia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo, portanto, segundo o aviso do anjo, juntamente com Silas, Tim\u00f3teo e Lucas, embarcou de Tr\u00f4ade, navegou pelo Egeu (que separa a Europa da \u00c1sia) e com pr\u00f3spera navega\u00e7\u00e3o chegou \u00e0 ilha de Samotr\u00e1cia, depois a Ne\u00e1polis, n\u00e3o a capital do Reino de N\u00e1poles, mas uma pequena cidade na fronteira da Tr\u00e1cia e da Maced\u00f4nia. Sem parar, o Ap\u00f3stolo foi diretamente a Filipos, cidade principal, assim chamada porque foi edificada por um rei daquele pa\u00eds chamado Filipe. Ali permaneceram por algum tempo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Naquela cidade, os judeus n\u00e3o tinham sinagoga, seja porque fossem proibidos, seja porque eram muito poucos em n\u00famero. Tinham apenas uma \u201c<em>proseuca<\/em>\u201d, ou seja, lugar de ora\u00e7\u00e3o, que chamamos de orat\u00f3rio. No dia de s\u00e1bado, Paulo e seus companheiros sa\u00edram da cidade \u00e0 beira de um rio onde encontraram uma \u201cproseuca\u201d com algumas mulheres. Come\u00e7aram imediatamente a pregar o reino de Deus \u00e0quela audi\u00eancia simples. Uma comerciante chamada L\u00eddia foi a primeira a ser chamada por Deus; assim, ela e sua fam\u00edlia receberam o Batismo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta mulher piedosa, grata pelos benef\u00edcios recebidos, assim pediu aos mestres e aos pais de sua alma: \u201cSe voc\u00eas me consideram fiel a Deus, n\u00e3o me neguem uma gra\u00e7a ap\u00f3s aquela do Batismo que reconhe\u00e7o ter recebido de voc\u00eas. Venham \u00e0 minha casa, permane\u00e7am quanto desejarem e considerem-na como sua.\u201d Paulo n\u00e3o queria consentir; mas ela fez tais insist\u00eancias que ele teve que aceitar. Eis o fruto que produz a palavra de Deus, quando \u00e9 bem ouvida. Ela gera a f\u00e9; mas deve ser ouvida e explicada pelos ministros sagrados, como dizia o pr\u00f3prio S\u00e3o Paulo: \u201c<em>Fides ex auditu, auditus autem per verbum Christi<\/em>\u201d (A f\u00e9 vem do ouvir, e o ouvir vem pela palavra de Cristo).<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599962\">CAP\u00cdTULO X. S\u00e3o Paulo liberta uma jovem do dem\u00f4nio \u2014 \u00c9 a\u00e7oitado com varas \u2014 \u00c9 colocado na pris\u00e3o \u2014 Convers\u00e3o do carcereiro e de sua fam\u00edlia \u2014 Ano de Cristo 51<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>S\u00e3o Paulo e seus companheiros andavam por a\u00ed espalhando a semente da palavra de Deus pela cidade de Filipos. Um dia, indo \u00e0 \u201cproseuca\u201d, encontraram uma <em>pitonisa<\/em>, que dir\u00edamos ser uma <em>maga<\/em> ou <em>bruxa<\/em>. Ela tinha um dem\u00f4nio que falava por sua boca e adivinhava muitas coisas extraordin\u00e1rias; o que dava muito lucro aos seus senhores, pois as pessoas ignorantes iam consult\u00e1-la e para se fazer prever o futuro tinham que pagar bem pelas consultas. Assim, ela come\u00e7ou a seguir S\u00e3o Paulo e seus companheiros, gritando-lhes: \u201cEstes homens s\u00e3o servos do Deus Alt\u00edssimo; eles vos mostram o caminho da salva\u00e7\u00e3o.\u201d S\u00e3o Paulo a deixou falar sem dizer nada, at\u00e9 que, aborrecido e indignado, se voltou para aquele esp\u00edrito maligno que falava por sua boca e disse em tom amea\u00e7ador: \u201cEm nome de Jesus Cristo, eu te ordeno que saias imediatamente desta jovem.\u201d O dizer e o fazer foram uma s\u00f3 coisa, porque, for\u00e7ado pela poderosa virtude do nome de Jesus Cristo, teve que sair daquele corpo, e pela sua partida a maga ficou sem magia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Voc\u00eas, leitores, compreender\u00e3o a raz\u00e3o pela qual o dem\u00f4nio louvava S\u00e3o Paulo, e este santo Ap\u00f3stolo rejeitou os louvores. O esp\u00edrito maligno queria que S\u00e3o Paulo o deixasse em paz, e assim o povo acreditasse que a doutrina de S\u00e3o Paulo era a mesma das adivinha\u00e7\u00f5es daquela endemoninhada. O santo Ap\u00f3stolo quis demonstrar que n\u00e3o havia qualquer acordo entre Cristo e o dem\u00f4nio, e ao recusar suas adula\u00e7\u00f5es, mostrou qu\u00e3o grande era o poder do nome de Jesus Cristo sobre todos os esp\u00edritos do inferno.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os senhores daquela jovem, vendo que com o dem\u00f4nio se foi toda a esperan\u00e7a de lucro, se indignaram fortemente contra S\u00e3o Paulo e, sem esperar qualquer senten\u00e7a, pegaram a ele e a seus companheiros e os levaram ao Pal\u00e1cio da Justi\u00e7a. Chegando \u00e0 presen\u00e7a dos ju\u00edzes, disseram: \u201cEstes homens de ra\u00e7a judaica est\u00e3o perturbando nossa cidade para introduzir uma religi\u00e3o nova, que certamente \u00e9 um sacril\u00e9gio.\u201d O povo, ouvindo que se tratava de uma ofensa \u00e0 religi\u00e3o, se enfureceu e se lan\u00e7ou contra eles de todos os lados.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os ju\u00edzes se mostraram cheios de indigna\u00e7\u00e3o e, rasgando suas vestes, sem fazer qualquer processo, sem examinar se havia crime ou n\u00e3o, mandaram que fossem severamente a\u00e7oitados com varas e, quando estavam saciados ou cansados de bater, mandaram que Paulo e Silas fossem levados \u00e0 pris\u00e3o, ordenando ao carcereiro que os guardasse com a m\u00e1xima dilig\u00eancia. Este n\u00e3o apenas os trancou na pris\u00e3o, mas para maior seguran\u00e7a prendeu seus p\u00e9s entre os grilh\u00f5es. Aqueles santos homens, no horror da pris\u00e3o, cobertos de feridas, longe de se queixar, exultavam de alegria e durante a noite iam cantando louvores a Deus. Os outros prisioneiros estavam maravilhados.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Era meia-noite e ainda cantavam e bendiziam a Deus, quando de repente se ouviu um fort\u00edssimo terremoto, que com horr\u00edvel estrondo fez tremer at\u00e9 os fundamentos daquele edif\u00edcio. A este tremor caem as correntes dos prisioneiros, quebram-se seus grilh\u00f5es, as portas das pris\u00f5es se abrem e todos os detidos se encontram em liberdade. O carcereiro acordou e, correndo para saber o que havia acontecido, encontrou as portas abertas. Ent\u00e3o, ele, n\u00e3o duvidando que os prisioneiros haviam fugido, e por isso talvez ele mesmo tivesse que pagar com a vida, no excesso da desespera\u00e7\u00e3o corre, saca uma espada, a aponta para o peito e j\u00e1 est\u00e1 prestes a se matar. Paulo, ou pela claridade da lua ou \u00e0 luz de alguma lamparina, vendo aquele homem em tal ato de desespero, \u201cPara!\u201d, come\u00e7ou a gritar, \u201cN\u00e3o te fa\u00e7as nenhum mal, estamos todos aqui.\u201d Acalmado por estas palavras, ele se tranquiliza um pouco e, mandando trazer luz, entrou na pris\u00e3o e encontrou os prisioneiros cada um em seu lugar. Tomado de espanto e movido por uma luz interior da gra\u00e7a de Deus, todo tremendo se lan\u00e7ou aos p\u00e9s de Paulo e Silas, dizendo: \u201cSenhores, que devo fazer para ser salvo?\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Todos podem imaginar quanta alegria Paulo sentiu em seu cora\u00e7\u00e3o ao ouvir tais palavras! Ele se voltou para ele e respondeu: \u201cCr\u00ea no Filho de Deus, Jesus Cristo, e ser\u00e1s salvo tu e toda a tua fam\u00edlia.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aquele bom homem, sem demora, levou para casa os santos prisioneiros, lavou suas feridas com aquele amor e rever\u00eancia que teria feito a seu pai. Reunida ent\u00e3o sua fam\u00edlia, foram instru\u00eddos na verdade da f\u00e9. Ouvindo com humildade de cora\u00e7\u00e3o a palavra de Deus, aprenderam em breve o que era necess\u00e1rio para se tornarem crist\u00e3os. Assim, S\u00e3o Paulo, vendo-os cheios de f\u00e9 e da gra\u00e7a do Esp\u00edrito Santo, os batizou a todos. Ent\u00e3o, come\u00e7aram a agradecer a Deus pelos benef\u00edcios recebidos. Aqueles novos fi\u00e9is, vendo Paulo e Silas exaustos e enfraquecidos pelos a\u00e7oites e pelo longo jejum, correram imediatamente para preparar-lhes o jantar com o qual foram restaurados. Os dois Ap\u00f3stolos sentiram o maior conforto pelas almas que haviam ganho para Jesus Cristo; por isso, cheios de gratid\u00e3o a Deus, retornaram \u00e0 pris\u00e3o esperando aquelas disposi\u00e7\u00f5es que a divina Provid\u00eancia lhes faria conhecer a respeito.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto isso, os magistrados se arrependeram de terem feito bater e trancar na pris\u00e3o aqueles em quem n\u00e3o puderam encontrar culpa alguma, e mandaram alguns oficiais dizer ao carcereiro que deixasse em liberdade os dois prisioneiros. Muito feliz com tal not\u00edcia, o carcereiro correu imediatamente para comunic\u00e1-la aos Ap\u00f3stolos. \u201cVoc\u00eas\u201d, disse, \u201cpodem certamente ir em paz.\u201d Mas a Paulo pareceu que deveria ser diferente. Se eles assim fugissem \u00e0s escondidas, se acreditaria que eram culpados de grave delito, e isso em detrimento do Evangelho. Ele, portanto, chamou a si os oficiais e disse-lhes: \u201cSeus magistrados, sem ter conhecimento deste caso, sem qualquer forma de julgamento, publicamente nos fizeram bater, n\u00f3s que somos cidad\u00e3os romanos; e agora querem nos mandar embora \u00e0s escondidas. Certamente n\u00e3o ser\u00e1 assim: que venham eles mesmos e nos conduzam para fora da pris\u00e3o.\u201d Aqueles mensageiros levaram esta resposta aos magistrados; os quais, tendo entendido que eram cidad\u00e3os romanos, ficaram tomados de grande temor, porque bater num cidad\u00e3o romano era crime capital. Por isso, vieram imediatamente \u00e0 pris\u00e3o e com palavras am\u00e1veis se desculparam pelo que haviam feito e, tirando-os honrosamente da pris\u00e3o, pediram que sa\u00edssem da cidade. Os Ap\u00f3stolos foram imediatamente \u00e0 casa de L\u00eddia, onde encontraram os companheiros imersos em consterna\u00e7\u00e3o por causa deles; e ficaram grandemente consolados ao v\u00ea-los postos em liberdade. Depois disso, partiram da cidade de Filipos. Assim, aqueles cidad\u00e3os rejeitaram as gra\u00e7as do Senhor em troca das gra\u00e7as dos homens.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599963\">CAP\u00cdTULO XI. S\u00e3o Paulo prega em Tessal\u00f4nica \u2014 Caso de Jas\u00e3o \u2014 Vai a Bereia, onde \u00e9 novamente perturbado pelos judeus \u2014 Ano de Cristo 52<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Paulo, com seus companheiros, partiu de Filipos, deixando ali as duas fam\u00edlias de L\u00eddia e do carcereiro convertidas a Jesus Cristo. Passando pelas cidades de Anf\u00edpolis e Apol\u00f4nia, chegou a Tessal\u00f4nica, a principal cidade da Maced\u00f4nia, muito famosa pelo seu com\u00e9rcio e pelo seu porto no Egeu. Hoje em dia \u00e9 chamada Sal\u00f4nica.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; L\u00e1 Deus havia preparado ao santo Ap\u00f3stolo muitos sofrimentos e muitas almas para ganhar a Cristo. Ele come\u00e7ou a pregar e, por tr\u00eas s\u00e1bados, continuou a demonstrar com as Sagradas Escrituras que Jesus Cristo era o Messias, o Filho de Deus, que as coisas que lhe aconteceram haviam sido anunciadas pelos Profetas; portanto, deviam ou renunciar \u00e0s profecias ou crer na vinda do Messias. A tal prega\u00e7\u00e3o, alguns creram e abra\u00e7aram a f\u00e9; mas outros, especialmente os judeus, mostraram-se obstinados e, com grande \u00f3dio, levantaram-se contra S\u00e3o Paulo. Colocando-se \u00e0 frente de alguns malvados da plebe, reuniram-se e, em grupos, tumultuaram toda a cidade. E, como Silas e Paulo haviam se hospedado na casa de um certo Jas\u00e3o, correram tumultuando at\u00e9 a casa dele para tir\u00e1-los e conduzi-los diante do povo. Os fi\u00e9is perceberam a tempo e conseguiram faz\u00ea-los fugir. N\u00e3o conseguindo mais encontr\u00e1-los, pegaram Jas\u00e3o junto com alguns fi\u00e9is e os arrastaram diante dos magistrados da cidade, gritando em alta voz: \u201cEsses perturbadores da humanidade vieram tamb\u00e9m aqui de Filipos; e Jas\u00e3o os acolheu em sua casa; agora estes transgridem os decretos e violam a majestade de C\u00e9sar, afirmando que h\u00e1 um outro Rei, isto \u00e9, Jesus Nazareno.\u201d Essas palavras inflamaram os tessalonicenses e fizeram os mesmos magistrados se enfurecerem. Mas Jas\u00e3o, assegurando-os de que n\u00e3o queriam fazer tumultos e que, caso pedissem aqueles estrangeiros, ele os apresentaria, mostraram-se satisfeitos e o tumulto se acalmou. Mas Silas e Paulo, vendo in\u00fatil todo esfor\u00e7o naquela cidade, seguiram os conselhos dos irm\u00e3os e foram a Bereia, outra cidade daquela prov\u00edncia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em Bereia, Paulo come\u00e7ou a pregar na sinagoga dos judeus, ou seja, colocou-se no mesmo perigo do qual havia sido quase milagrosamente libertado pouco antes. Mas desta vez sua coragem foi amplamente recompensada. Os bereanos ouviram a palavra de Deus com grande avidez. Paulo sempre citava aqueles trechos da B\u00edblia que diziam respeito a Jesus Cristo, e os ouvintes corriam imediatamente para conferi-los e verificar os textos que ele citava; e, encontrando-os correspondentes com exatid\u00e3o, se inclinavam \u00e0 verdade e acreditavam no Evangelho. Assim fazia o Salvador com os judeus da Palestina quando os convidava a ler atentamente as Sagradas Escrituras: <em>Scrutamini Scripturas, et ipsae testimonium perhibent de me<\/em> (Examinai as Escrituras e s\u00e3o elas que d\u00e3o testemunho de mim \u2013 Jo 5,39).<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, as convers\u00f5es ocorridas em Bereia n\u00e3o puderam permanecer ocultas a ponto de n\u00e3o chegarem not\u00edcias aos de Tessal\u00f4nica. Os obstinados judeus desta cidade correram em grande n\u00famero a Bereia para prejudicar a obra de Deus e impedir a convers\u00e3o dos gentios. S\u00e3o Paulo era principalmente procurado como aquele que sustentava em particular a prega\u00e7\u00e3o. Os irm\u00e3os, vendo-o em perigo, fizeram-no acompanhar secretamente para fora da cidade por pessoas de confian\u00e7a e, por caminhos seguros, o conduziram a Atenas. Permaneceram, por\u00e9m, em Bereia Silas e Tim\u00f3teo. Mas Paulo, ao despedir aqueles que o haviam acompanhado, recomendou-lhes com urg\u00eancia que dissessem a Silas e a Tim\u00f3teo que o alcan\u00e7assem o mais r\u00e1pido poss\u00edvel. Os santos Padres, na obstina\u00e7\u00e3o dos judeus de Tessal\u00f4nica, reconhecem aqueles crist\u00e3os que, n\u00e3o contentes em n\u00e3o aproveitar eles mesmos os benef\u00edcios da religi\u00e3o, buscam afastar os outros, o que fazem ou caluniando os sagrados ministros ou desprezando as coisas da mesma religi\u00e3o. O Salvador diz a estes: \u201cA v\u00f3s ser\u00e1 tirada a minha vinha\u201d, isto \u00e9, a minha religi\u00e3o, \u201ce ser\u00e1 dada a outros povos que a cultivar\u00e3o melhor do que v\u00f3s e trar\u00e3o frutos a seu tempo.\u201d Amea\u00e7a terr\u00edvel, mas que, infelizmente, j\u00e1 se concretizou e se est\u00e1 concretizando em muitos pa\u00edses, onde outrora florescia a religi\u00e3o crist\u00e3, os quais atualmente vemos imersos nas densas trevas do erro, do v\u00edcio e da desordem. \u2014 Deus nos livre deste flagelo!<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599964\">CAP\u00cdTULO XII. Estado religioso dos atenienses \u2014 S\u00e3o Paulo no Are\u00f3pago \u2014 Convers\u00e3o de S\u00e3o Dion\u00edsio \u2014 Ano de Cristo 52<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Atenas era uma das cidades mais antigas, mais ricas e mais comerciais do mundo. Ali a ci\u00eancia, o valor militar, os fil\u00f3sofos, os oradores, os poetas sempre foram os mestres da humanidade. Os pr\u00f3prios romanos haviam enviado a Atenas para coletar leis que levaram a Roma como or\u00e1culos de sabedoria. Havia tamb\u00e9m um senado de homens considerados espelho de virtude, justi\u00e7a e prud\u00eancia; eles eram chamados areopagitas, do Are\u00f3pago, lugar onde tinham o tribunal. Mas com tanta ci\u00eancia, estavam imersos na vergonhosa ignor\u00e2ncia das coisas da religi\u00e3o. As seitas dominantes eram a dos epicureus e a dos estoicos. Os epicureus negavam a Deus a cria\u00e7\u00e3o do mundo e a provid\u00eancia, nem admitiam pr\u00eamio ou pena na outra vida; por isso colocavam a beatitude nos prazeres da terra. Os estoicos consideravam o supremo bem apenas na virtude e faziam o homem em algumas coisas maior do que o pr\u00f3prio Deus, porque acreditavam ter a virtude e a sabedoria por si mesmos. Todos adoravam mais deuses, e n\u00e3o havia crime que n\u00e3o fosse favorecido por alguma insensata divindade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Paulo, homem desconhecido, considerado vil por ser judeu, deveria pregar-lhes a Jesus Cristo, tamb\u00e9m judeu, morto na cruz, e lev\u00e1-los a ador\u00e1-lo como verdadeiro Deus. Portanto, somente Deus poderia fazer com que as palavras de S\u00e3o Paulo pudessem mudar cora\u00e7\u00f5es t\u00e3o inveterados no v\u00edcio e alheios \u00e0 verdadeira virtude, e fazer com que abra\u00e7assem e professassem a santa religi\u00e3o crist\u00e3.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto Paulo aguardava Silas e Tim\u00f3teo, sentia em seu cora\u00e7\u00e3o compaix\u00e3o por aqueles miser\u00e1veis enganados e, como de costume, come\u00e7ava a discutir com os judeus e com todos aqueles que se encontravam com ele, ora nas sinagogas, ora nas pra\u00e7as. Os epicureus e os estoicos tamb\u00e9m vieram discutir com ele e, n\u00e3o podendo resistir \u00e0s raz\u00f5es, iam dizendo: \u201cO que quer dizer esse charlat\u00e3o?\u201d Outros diziam: \u201cParece que este quer nos mostrar algum novo Deus.\u201d O que diziam porque ouviam mencionar Jesus Cristo e a ressurrei\u00e7\u00e3o. Alguns outros, querendo agir com mais prud\u00eancia, convidaram Paulo a ir ao Are\u00f3pago. Quando chegou a esse magn\u00edfico senado, disseram-lhe: \u201cPoder\u00edamos saber algo sobre essa tua nova doutrina? Pois tu nos fazes soar aos ouvidos coisas nunca antes ouvidas por n\u00f3s. Desejamos saber a realidade do que ensinas.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao saber que um estrangeiro deveria falar no Are\u00f3pago, acorreu uma grande multid\u00e3o de gente.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conv\u00e9m aqui notar que entre os atenienses era severamente proibido dizer a menor palavra contra suas in\u00fameras e est\u00fapidas divindades, e consideravam crime capital receber ou adicionar entre eles algum deus estrangeiro, que n\u00e3o fosse cuidadosamente examinado e proposto pelo senado. Dois fil\u00f3sofos, um chamado Anax\u00e1goras e o outro S\u00f3crates, foram mortos apenas por terem deixado entender que n\u00e3o podiam admitir tantas rid\u00edculas divindades. Destas coisas se entende facilmente o perigo em que estava S\u00e3o Paulo pregando o verdadeiro Deus \u00e0quela terr\u00edvel assembleia e tentando derrubar todos os seus deuses.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O santo Ap\u00f3stolo, portanto, vendo-se naquele augusto senado e devendo falar aos mais s\u00e1bios dos homens, julgou bem adotar um estilo e uma maneira de raciocinar muito mais elegantes do que costumava. E, como aqueles senadores n\u00e3o admitissem o argumento das Escrituras, ele pensou em se fazer ouvir pela for\u00e7a da raz\u00e3o. Levantando-se, portanto, e fazendo sil\u00eancio entre todos, come\u00e7ou:<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00abHomens atenienses, eu vos vejo em todas as coisas religiosos at\u00e9 o escr\u00fapulo. Porque, passando por esta cidade e considerando os vossos simulacros, encontrei tamb\u00e9m um altar com esta inscri\u00e7\u00e3o: Ao <em>Deus<\/em> <em>Desconhecido<\/em>. Eu, portanto, venho anunciar-vos aquele Deus que v\u00f3s adorais sem conhecer. Ele \u00e9 aquele Deus que fez o mundo e todas as coisas que nele existem. Ele \u00e9 o Senhor do c\u00e9u e da terra, por isso n\u00e3o habita em templos feitos por m\u00e3os humanas. Nem ele \u00e9 servido pelas m\u00e3os dos mortais como se tivesse necessidade deles; pois, ao contr\u00e1rio, ele \u00e9 quem d\u00e1 a todos a vida, o f\u00f4lego e todas as coisas. Ele fez com que de um s\u00f3 homem descendessem todos os outros, cuja descend\u00eancia se espalhou por toda a terra. Ele fixou os tempos e os limites da sua habita\u00e7\u00e3o, para que buscassem a Deus, se porventura o pudessem encontrar, embora Ele n\u00e3o esteja longe de n\u00f3s.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00abPorque nele vivemos, nos movemos e somos, como tamb\u00e9m disse algum dos vossos poetas (Arato, famoso poeta da Cil\u00edcia): \u201c<em>Porque somos tamb\u00e9m sua descend\u00eancia<\/em>\u201d. Sendo, portanto, n\u00f3s descend\u00eancia de Deus, n\u00e3o devemos considerar que Ele seja semelhante ao ouro ou \u00e0 prata ou \u00e0 pedra esculpida pela arte ou pela inven\u00e7\u00e3o dos homens. Deus, por\u00e9m, na sua miseric\u00f3rdia, fechou os olhos para o passado sobre tal ignor\u00e2ncia; mas agora ordenou que fa\u00e7amos penit\u00eancia. Pois Ele fixou um dia em que julgar\u00e1 com justi\u00e7a todo o mundo por meio de um homem estabelecido por Ele, como deu prova a todos ressuscitando-o dos mortos\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; At\u00e9 este ponto, aqueles ouvintes levianos, cujos v\u00edcios e erros haviam sido atacados com muita sutileza, mantiveram-se em bom comportamento. Mas ao primeiro an\u00fancio do dogma extraordin\u00e1rio da ressurrei\u00e7\u00e3o, os epicureus se levantaram e, em grande parte, sa\u00edram zombando daquela doutrina que certamente lhes incutia terror. Outros, mais discretos, disseram-lhe que por aquele dia bastava, e que o ouviriam outra vez sobre o mesmo assunto. Assim foi recebido o mais eloquente dos Ap\u00f3stolos por aquela assembleia soberba. Adiaram o aproveitamento da gra\u00e7a de Deus; essa gra\u00e7a n\u00e3o lemos que tenha sido depois concedida a eles por Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deus, por\u00e9m, n\u00e3o deixou de consolar seu servo com a conquista de algumas almas privilegiadas. Entre outras, foi Dion\u00edsio, um dos ju\u00edzes do Are\u00f3pago, e uma mulher chamada D\u00e2maris, que se acredita ser sua esposa. Conta-se que este Dion\u00edsio, \u00e0 morte do Salvador, contemplando aquele eclipse pelo qual as trevas se espalharam sobre toda a terra, exclamou: \u201cOu o mundo se desfaz, ou o autor da natureza sofre viol\u00eancia.\u201d Assim que ele p\u00f4de conhecer a causa daquele acontecimento, rendeu-se imediatamente \u00e0s palavras de S\u00e3o Paulo. Conta-se tamb\u00e9m que, tendo ido visitar a M\u00e3e de Deus, ficou t\u00e3o surpreso com tanta beleza e majestade, que se prostrou ao ch\u00e3o para vener\u00e1-la, afirmando que a adoraria como uma divindade se a f\u00e9 n\u00e3o o tivesse assegurado que h\u00e1 um s\u00f3 Deus. Depois S\u00e3o Paulo o consagrou bispo de Atenas e morreu coroado pelo mart\u00edrio.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599965\">CAP\u00cdTULO XIII. S\u00e3o Paulo em Corinto \u2014 Sua moradia na casa de \u00c1quila \u2014 Batismo de Crispo e de S\u00f3stenes \u2014 Escreve aos Tessalonicenses \u2014 Retorno a Antioquia \u2014 Ano de Jesus Cristo 53-54<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Se Atenas era a cidade mais c\u00e9lebre pela ci\u00eancia, Corinto era considerada a primeira pelo com\u00e9rcio. Para l\u00e1 convergiam mercadores de todas as partes. Tinha dois portos no istmo do Peloponeso: um chamado Cencreia, que dava para o Egeu, e o outro chamado L\u00e9quio, que se debru\u00e7ava sobre o Adri\u00e1tico. A desordem e a imoralidade eram levadas ao triunfo. Apesar de tais obst\u00e1culos, S\u00e3o Paulo, assim que chegou a esta cidade, come\u00e7ou a pregar em p\u00fablico e em privado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele se hospedou na casa de um judeu chamado \u00c1quila. Este era um fervoroso crist\u00e3o que, para evitar a persegui\u00e7\u00e3o publicada pelo imperador Cl\u00e1udio contra os crist\u00e3os, havia fugido da It\u00e1lia com sua esposa chamada Priscila e viera a Corinto. Exerciam a mesma arte que Paulo havia aprendido na juventude, ou seja, fabricavam tendas para uso dos soldados. Para n\u00e3o ser um peso para seus anfitri\u00f5es, o santo Ap\u00f3stolo tamb\u00e9m se dedicava ao trabalho e passava na oficina todo o tempo que lhe restava livre do sagrado minist\u00e9rio. Todo s\u00e1bado, por\u00e9m, ia \u00e0 sinagoga e se esfor\u00e7ava para fazer conhecer aos judeus que as profecias referentes ao Messias haviam se cumprido na pessoa de Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chegaram, entretanto, Silas e Tim\u00f3teo de Bereia. Eles haviam partido para Atenas, onde souberam que Paulo j\u00e1 havia partido, e o alcan\u00e7aram em Corinto. \u00c0 sua chegada, Paulo se dedicou com mais coragem a pregar aos judeus; mas, \u00e0 medida que a obstina\u00e7\u00e3o deles crescia a cada dia, Paulo, n\u00e3o podendo mais suportar tantas blasf\u00eamias e tal abuso de gra\u00e7as, assim movido por Deus, anunciou-lhes iminentes os flagelos divinos com estas palavras: \u00abO vosso sangue recaia sobre v\u00f3s; eu sou inocente. Eis que me volto para os gentios, e doravante serei tudo para eles\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre os judeus que blasfemavam contra Jesus Cristo, talvez houvesse alguns que trabalhavam na oficina de \u00c1quila; por isso, o Ap\u00f3stolo, a fim de evitar a companhia dos malignos, abandonou a casa dele e se transferiu para a casa de um certo Tito Justo, que havia sido recentemente convertido do paganismo \u00e0 f\u00e9. Perto de Tito morava um certo Crispo, chefe da sinagoga. Este, instru\u00eddo pelo Ap\u00f3stolo, abra\u00e7ou a f\u00e9 com toda a sua fam\u00edlia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As grandes ocupa\u00e7\u00f5es de Paulo em Corinto n\u00e3o o fizeram esquecer seus amados fi\u00e9is de Tessal\u00f4nica. Quando Tim\u00f3teo chegou de l\u00e1, ele lhe contou grandes coisas sobre o fervor daqueles crist\u00e3os, sua grande caridade, a boa mem\u00f3ria que conservavam dele e o ardente desejo de rev\u00ea-lo. N\u00e3o podendo Paulo ir pessoalmente, como desejava, escreveu-lhes uma carta, que se acredita ser a primeira carta escrita por S\u00e3o Paulo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesta carta, ele se alegra muito com os tessalonicenses por sua f\u00e9 e caridade, depois os exorta a se guardarem das desordens sensuais e de toda fraude. E como a ociosidade \u00e9 a fonte de todos os v\u00edcios, assim ele os encoraja a se dedicarem seriamente ao trabalho, considerando indigno de comer quem n\u00e3o quer trabalhar: <em>Si quis non vult operari nec manducet<\/em>. (Se algu\u00e9m n\u00e3o quer trabalhar, tamb\u00e9m n\u00e3o coma). Conclui ent\u00e3o lembrando-lhes o grande pr\u00eamio que Deus tem preparado no c\u00e9u para o menor esfor\u00e7o suportado na vida presente por amor a Ele.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Pouco depois desta carta, teve outras not\u00edcias dos mesmos fi\u00e9is de Tessal\u00f4nica. Eles estavam grandemente inquietos por alguns impostores que andavam pregando iminente o ju\u00edzo universal. O Ap\u00f3stolo escreveu-lhes uma segunda carta, avisando-os para n\u00e3o se deixarem enganar por seus discursos falaciosos. Nota ser certo o dia do ju\u00edzo universal, mas antes devem aparecer muitos sinais, entre os quais a prega\u00e7\u00e3o do Evangelho em toda a terra. Exorta-os a se manterem firmes nas tradi\u00e7\u00f5es que lhes foram comunicadas por carta e de viva voz. Finalmente, recomenda-se \u00e0s suas ora\u00e7\u00f5es e insiste muito em fugir dos curiosos e dos ociosos, que s\u00e3o considerados como a peste da religi\u00e3o e da sociedade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto S\u00e3o Paulo confortava os fi\u00e9is de Tessal\u00f4nica, surgiram contra ele tais persegui\u00e7\u00f5es que ele se teria decidido a fugir daquela cidade se n\u00e3o tivesse sido confortado por Deus com uma vis\u00e3o. Apareceu-lhe Jesus Cristo e lhe disse: \u00abN\u00e3o temas, eu estou contigo, ningu\u00e9m poder\u00e1 te fazer mal; nesta cidade \u00e9 grande o n\u00famero daqueles que por meio de ti se converter\u00e3o \u00e0 f\u00e9\u00bb. Encorajado por tais palavras, o Ap\u00f3stolo permaneceu em Corinto dezoito meses.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A convers\u00e3o de S\u00f3stenes foi uma das que trouxe grande consola\u00e7\u00e3o \u00e0 alma de Paulo. Ele sucedeu a Crispo na fun\u00e7\u00e3o de chefe da sinagoga. A convers\u00e3o desses dois principais representantes de sua seita irritou ferozmente os judeus, e em seu furor pegaram o Ap\u00f3stolo e o conduziram ao proc\u00f4nsul, acusando-o de ensinar uma religi\u00e3o contr\u00e1ria \u00e0 dos judeus. Gali\u00e3o, tal \u00e9 o nome daquele governador, ouvindo que se tratava de coisas de religi\u00e3o, n\u00e3o quis envolver-se como juiz. Limitou-se a responder assim: \u00abSe se tratasse de alguma injusti\u00e7a ou de algum crime p\u00fablico, eu os ouviria de bom grado; mas tratando-se de quest\u00f5es pertencentes \u00e0 religi\u00e3o, decidam voc\u00eas mesmos, eu n\u00e3o pretendo julgar essas mat\u00e9rias\u00bb. Aquele proc\u00f4nsul considerava que as quest\u00f5es e as diferen\u00e7as relacionadas \u00e0 religi\u00e3o deveriam ser discutidas pelos sacerdotes e n\u00e3o pelas autoridades civis, e por isso foi s\u00e1bia sua resposta.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Indignados os judeus com tal repulsa, se voltaram contra S\u00f3stenes, incitaram tamb\u00e9m os ministros do tribunal a se unirem a eles para espanc\u00e1-lo diante do mesmo Gali\u00e3o, sem que ele os proibisse. S\u00f3stenes suportou com invicta paci\u00eancia aquela afronta e, assim que foi libertado, uniu-se a Paulo e se tornou seu fiel companheiro em suas viagens.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Vendo-se Paulo como por milagre libertado de t\u00e3o grave tempestade, fez a Deus um voto em agradecimento. Esse voto era semelhante ao dos nazireus, o qual consistia particularmente em se abster por um determinado tempo do vinho e de qualquer outra coisa que embriagasse, e em deixar crescer os cabelos, o que entre os antigos era sinal de luto e de penit\u00eancia. Quando estava para terminar o tempo do voto, deveria fazer um sacrif\u00edcio no templo com v\u00e1rias cerim\u00f4nias prescritas pela lei de Mois\u00e9s.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Cumprida uma parte de seu voto, S\u00e3o Paulo, em companhia de \u00c1quila e Priscila, embarcou rumo a \u00c9feso, cidade da \u00c1sia Menor. Segundo seu costume, Paulo foi visitar a sinagoga e disputou v\u00e1rias vezes com os judeus. Pac\u00edficas foram essas disputas, ali\u00e1s, os judeus o convidaram a ficar mais tempo; mas Paulo queria prosseguir sua viagem para se encontrar em Jerusal\u00e9m e cumprir seu voto. Por\u00e9m, prometeu \u00e0queles fi\u00e9is que retornaria, e quase como garantia de seu retorno deixou com eles \u00c1quila e Priscila. De \u00c9feso, S\u00e3o Paulo embarcou para a Palestina e chegou a Cesareia, onde, desembarcando, se encaminhou a p\u00e9 para Jerusal\u00e9m. Foi visitar os fi\u00e9is desta Igreja e, cumpridas as coisas para as quais havia empreendido a viagem, veio a Antioquia, onde se demorou por algum tempo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tudo \u00e9 digno de admira\u00e7\u00e3o neste grande Ap\u00f3stolo. Notemos aqui somente uma coisa que ele recomenda calorosamente aos fi\u00e9is de Corinto. Para dar-lhes um importante aviso sobre como se manter firmes na f\u00e9, escreve: <em>Itaque, fratres, state, et tenete traditiones quas didicistis sive per sermonem sive per epistolam nostram<\/em> (Portanto, irm\u00e3os, ficai firmes e guardai cuidadosamente os ensinamentos que vos transmitimos, de viva voz ou por carta). Com essas palavras, S\u00e3o Paulo ordenava que se tivesse a mesma rever\u00eancia pela palavra de Deus escrita e pela palavra de Deus transmitida por tradi\u00e7\u00e3o, como ensina a Igreja Cat\u00f3lica.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599966\">CAP\u00cdTULO XIV. Apolo em \u00c9feso \u2014 O sacramento da Crisma \u2014 S\u00e3o Paulo opera muitos milagres \u2014 Caso de dois exorcistas judeus \u2014 Ano de Cristo 55<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>S\u00e3o Paulo permaneceu algum tempo em Antioquia, mas vendo aqueles fi\u00e9is suficientemente providos de pastores sagrados, decidiu partir para visitar novamente os pa\u00edses onde j\u00e1 havia pregado. Esta \u00e9 a quinta viagem de nosso santo Ap\u00f3stolo. Ele foi \u00e0 Gal\u00e1cia, ao Ponto, \u00e0 Fr\u00edgia e \u00e0 Bit\u00ednia; depois, conforme a promessa feita, retornou a \u00c9feso, onde \u00c1quila e Priscila o esperavam. Em todo lugar foi acolhido, como ele mesmo escreve, como um anjo de paz.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre a partida e o retorno de Paulo a \u00c9feso, foi a esta cidade um judeu chamado Apolo. Ele era um homem eloquente e profundamente instru\u00eddo nas Sagradas Escrituras. Adorava o Salvador e o pregava tamb\u00e9m com zelo, mas n\u00e3o conhecia outro batismo sen\u00e3o aquele pregado por S\u00e3o Jo\u00e3o Batista. \u00c1quila e Priscila perceberam que ele tinha uma ideia muito confusa dos Mist\u00e9rios da F\u00e9 e, chamando-o a si, o instru\u00edram melhor na doutrina, vida, morte e ressurrei\u00e7\u00e3o de Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desejoso de levar a palavra de salva\u00e7\u00e3o a outros povos, decidiu passar \u00e0 Acaia, ou seja, \u00e0 Gr\u00e9cia. Os ef\u00e9sios, que h\u00e1 algum tempo admiravam suas virtudes e come\u00e7avam a am\u00e1-lo como pai, quiseram acompanh\u00e1-lo com uma carta em que elogiavam muito seu zelo e o recomendavam aos cor\u00edntios. Ele de fato fez muito bem \u00e0queles crist\u00e3os. Quando o Ap\u00f3stolo chegou a \u00c9feso, encontrou v\u00e1rios fi\u00e9is instru\u00eddos por Apolo e, querendo conhecer o estado dessas almas, perguntou se haviam recebido o Esp\u00edrito Santo; ou seja, se haviam recebido o sacramento da Crisma, que se costumava administrar naqueles tempos ap\u00f3s o batismo, e no qual se conferia a plenitude dos dons do Esp\u00edrito Santo. Mas aquela boa gente respondeu: \u00abN\u00f3s n\u00e3o sabemos nem mesmo que haja um Esp\u00edrito Santo\u00bb. Maravilhado o Ap\u00f3stolo com tal resposta e, tendo entendido que haviam recebido apenas o batismo de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, ordenou que fossem novamente batizados com o batismo de Jesus Cristo, ou seja, em nome do Pai, do Filho e do Esp\u00edrito Santo. Depois disso, Paulo, impondo as m\u00e3os, administrou-lhes o sacramento da Crisma, e aqueles novos fi\u00e9is receberam n\u00e3o apenas os efeitos invis\u00edveis da gra\u00e7a, mas tamb\u00e9m sinais particulares e manifestos da onipot\u00eancia divina, o que os tornava capazes de falar fluentemente l\u00ednguas que antes n\u00e3o entendiam, profetizando coisas futuras e interpretando as Sagradas Escrituras.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Paulo pregou por tr\u00eas meses na sinagoga, exortando os judeus a crerem em Jesus Cristo. Muitos creram, mas alguns, mostrando-se obstinados, blasfemavam at\u00e9 o santo nome de Jesus Cristo. Paulo, pela honra do Evangelho ridicularizado por esses \u00edmpios e para fugir da companhia dos malignos, cessou de pregar na sinagoga, rompeu toda comunica\u00e7\u00e3o com eles e se retirou para a casa de um gentil crist\u00e3o chamado Tiranos, que era professor. S\u00e3o Paulo fez daquela escola uma Igreja de Jesus Cristo, onde, pregando e explicando as verdades da f\u00e9, atra\u00eda gentios e judeus de todas as partes da \u00c1sia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deus ajudava sua obra confirmando com prod\u00edgios inauditos a doutrina pregada por seu servo. Os panos, os len\u00e7os e as faixas que haviam tocado o corpo de Paulo eram levados de um lado para o outro e colocados sobre os enfermos e os endemoninhados, e isso bastava para que imediatamente fugissem as doen\u00e7as e os esp\u00edritos imundos. Foi esta uma maravilha nunca ouvida, e Deus quis certamente que tal fato fosse registrado na B\u00edblia para confundir aqueles que tanto investiram e ainda investem contra a venera\u00e7\u00e3o que os cat\u00f3licos prestam \u00e0s sagradas rel\u00edquias. Talvez queiram eles condenar como supersti\u00e7\u00e3o aqueles primeiros crist\u00e3os, que aplicavam sobre os doentes os len\u00e7os que haviam tocado o corpo de Paulo? Coisas que S\u00e3o Paulo nunca proibiu e que Deus demonstrava aprovar com milagres?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A prop\u00f3sito da invoca\u00e7\u00e3o do nome de Jesus Cristo para fazer milagres, ocorreu um fato muito curioso. Entre os ef\u00e9sios havia muitos que pretendiam expulsar os dem\u00f4nios dos corpos com certas palavras m\u00e1gicas ou usando ra\u00edzes de ervas ou perfumes. Mas seus resultados sempre eram pouco favor\u00e1veis. Tamb\u00e9m alguns exorcistas judeus, vendo que at\u00e9 as vestes de Paulo expulsavam os dem\u00f4nios, ficaram tomados de inveja e tentaram, como fazia S\u00e3o Paulo, usar o nome de Jesus Cristo para expulsar o dem\u00f4nio de um homem. \u00abEu te conjuro\u00bb, iam dizendo, \u00abe te ordeno que saias deste corpo pelo Jesus que \u00e9 pregado por Paulo\u00bb. O dem\u00f4nio, que sabia as coisas melhor do que eles, por boca do endemoninhado respondeu: \u00abEu conhe\u00e7o Jesus e sei tamb\u00e9m quem \u00e9 Paulo; mas voc\u00eas s\u00e3o impostores. Que direito t\u00eam voc\u00eas sobre mim?\u00bb Dito isso, lan\u00e7ou-se sobre eles, espancou-os e os feriu de tal modo que dois deles mal puderam fugir, todos feridos e com as roupas rasgadas. Este fato estrepitoso, tendo-se divulgado por toda a cidade, causou grande temor, e ningu\u00e9m mais ousava nomear o santo nome de Jesus Cristo sen\u00e3o com respeito e venera\u00e7\u00e3o.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599967\">CAP\u00cdTULO XV. Sacramento da Confiss\u00e3o \u2014 Livros perversos queimados \u2014 Carta aos Cor\u00edntios \u2014 Revolta em honra da deusa Diana \u2014 Carta aos G\u00e1latas \u2014 Ano de Cristo 56-57<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Deus, sempre misericordioso, sabe extrair o bem at\u00e9 mesmo dos pr\u00f3prios pecados. O fato dos dois exorcistas t\u00e3o maltratados por aquele endemoninhado causou grande medo em todos os ef\u00e9sios, e tanto os judeus quanto os gentios apressaram-se a renunciar ao dem\u00f4nio e a abra\u00e7ar a f\u00e9. Foi ent\u00e3o que muitos daqueles que haviam crido vinham em grande n\u00famero a confessar e a declarar o mal cometido em suas vidas para obter o perd\u00e3o: \u201cVinham confessando e declarando seus atos\u201d. Este \u00e9 um claro testemunho da confiss\u00e3o sacramental ordenada pelo Salvador e praticada desde os tempos apost\u00f3licos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O primeiro fruto da confiss\u00e3o e do arrependimento daqueles fi\u00e9is foi afastar de si as ocasi\u00f5es do pecado. Por isso, todos aqueles que possu\u00edam livros perversos, ou seja, contr\u00e1rios aos bons costumes ou \u00e0 religi\u00e3o, os entregavam para que fossem queimados. Tantos trouxeram que, fazendo um monte na pra\u00e7a, fizeram uma fogueira na presen\u00e7a de todo o povo, considerando melhor queimar aqueles livros na vida presente para evitar o fogo eterno do inferno. O valor daqueles livros formava uma soma que correspondia quase a cem mil francos. Ningu\u00e9m, por\u00e9m, tentou vend\u00ea-los, pois isso seria oferecer a outros a ocasi\u00e3o de fazer o mal, o que nunca \u00e9 permitido. Enquanto essas coisas aconteciam, chegou de Corinto a \u00c9feso Apolo com outros, anunciando que haviam surgido disc\u00f3rdias entre aqueles fi\u00e9is. O santo Ap\u00f3stolo esfor\u00e7ou-se para remediar a situa\u00e7\u00e3o com uma carta, na qual recomenda a eles a unidade de f\u00e9, a obedi\u00eancia aos seus pastores, a caridade m\u00fatua e especialmente para com os pobres; incita os ricos a n\u00e3o prepararem banquetes luxuosos e a n\u00e3o abandonarem os pobres na mis\u00e9ria. Insiste, ent\u00e3o, que cada um purifique sua consci\u00eancia antes de se aproximar do Corpo e do Sangue de Jesus Cristo, dizendo: \u201cAquele que come aquele Corpo e bebe aquele Sangue indignamente, come seu pr\u00f3prio ju\u00edzo e sua pr\u00f3pria condena\u00e7\u00e3o\u201d. Tamb\u00e9m havia acontecido que um jovem havia cometido grave pecado com sua madrasta. O santo, para fazer compreender o devido horror, ordenou que ele fosse separado por algum tempo dos outros fi\u00e9is para que voltasse a si mesmo. Este \u00e9 um verdadeiro exemplo de excomunh\u00e3o, como a Igreja Cat\u00f3lica ainda pratica, quando por graves delitos excomunga, ou seja, declara separados dos outros aqueles crist\u00e3os que s\u00e3o culpados. Paulo enviou seu disc\u00edpulo Tito para levar esta carta a Corinto. O fruto parece ter sido muito copioso.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele estava em \u00c9feso quando se desencadeou contra ele uma terr\u00edvel persegui\u00e7\u00e3o por obra de um ourives chamado Dem\u00e9trio. Este fabricava pequenos templos de prata nos quais se colocava uma estatueta da deusa Diana, divindade venerada em \u00c9feso e em toda a \u00c1sia. Isso lhe proporcionava com\u00e9rcio e grande lucro, pois a maior parte dos estrangeiros que vinham \u00e0s festas de Diana levava consigo esses sinais de devo\u00e7\u00e3o. Dem\u00e9trio era o principal art\u00edfice e com isso fornecia trabalho e sustento para as fam\u00edlias de muitos oper\u00e1rios.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00c0 medida que crescia o n\u00famero de crist\u00e3os, diminu\u00eda o n\u00famero de compradores das estatuetas de Diana. Assim, um dia, Dem\u00e9trio reuniu um grande n\u00famero de cidad\u00e3os e demonstrou como, n\u00e3o tendo eles outros meios de viver, Paulo os faria morrer de fome. \u201cPelo menos\u201d, acrescentava, \u201cn\u00e3o se tratasse apenas do nosso interesse privado; mas o templo da nossa grande deusa, t\u00e3o celebrado em todo o mundo, est\u00e1 prestes a ser abandonado\u201d. A essas palavras foi interrompido por mil vozes diferentes que gritavam com a mais furiosa confus\u00e3o: \u201cA grande Diana dos Ef\u00e9sios! A grande Diana dos Ef\u00e9sios!\u201d Toda a cidade se agitou; correram gritando em busca de Paulo e, n\u00e3o conseguindo encontr\u00e1-lo imediatamente, arrastaram consigo dois de seus companheiros chamados Gaio e Aristarco. Um judeu chamado Alexandre quis falar. Mas assim que conseguiu abrir a boca, de todos os lados come\u00e7aram a gritar com voz ainda mais alta: \u201cA grande Diana dos Ef\u00e9sios! Qu\u00e3o grande \u00e9 a Diana dos Ef\u00e9sios!\u201d Este grito foi repetido por duas horas inteiras.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo queria avan\u00e7ar em meio ao tumulto para falar, mas alguns irm\u00e3os, sabendo que ele se exporia a morte certa, o impediram. Deus, por\u00e9m, que tem nas m\u00e3os o cora\u00e7\u00e3o dos homens, restaurou plena calma entre aquele povo de uma maneira inesperada. Um homem s\u00e1bio, um simples secret\u00e1rio e, pelo que parece, amigo de Paulo, conseguiu acalmar aquele furor. Assim que p\u00f4de falar, disse: \u201cE quem n\u00e3o sabe que a cidade de \u00c9feso tem uma devo\u00e7\u00e3o e um culto particular \u00e0 grande Diana, filha de J\u00fapiter? Sendo tal coisa acreditada por todos, voc\u00eas n\u00e3o devem se perturbar nem se apegar a t\u00e3o temer\u00e1rio rem\u00e9dio, como se pudesse cair em d\u00favida tal devo\u00e7\u00e3o estabelecida por todos os s\u00e9culos. Quanto a Gaio e Aristarco, direi que eles n\u00e3o est\u00e3o convencidos de nenhuma blasf\u00eamia contra Diana. Se Dem\u00e9trio e seus companheiros t\u00eam algo contra eles, que levem a causa diante do tribunal. Se continuarmos com essas demonstra\u00e7\u00f5es p\u00fablicas, seremos acusados de sedi\u00e7\u00e3o\u201d. Aquelas palavras acalmaram o tumulto e cada um voltou \u00e0s suas ocupa\u00e7\u00f5es.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s esse tumulto, Paulo queria partir imediatamente para a Maced\u00f4nia, mas teve que adiar sua partida devido a algumas desordens ocorridas entre os fi\u00e9is da Gal\u00e1cia. Alguns falsos pregadores come\u00e7aram a desacreditar S\u00e3o Paulo e suas prega\u00e7\u00f5es, afirmando que a doutrina dele era diferente da dos outros Ap\u00f3stolos e que a circuncis\u00e3o e as cerim\u00f4nias da lei de Mois\u00e9s eram absolutamente necess\u00e1rias.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O santo Ap\u00f3stolo escreveu uma carta na qual demonstra a conformidade de doutrina entre ele e os Ap\u00f3stolos; prova que muitas coisas da lei de Mois\u00e9s n\u00e3o eram mais necess\u00e1rias para a salva\u00e7\u00e3o; recomenda que se cuidem bem dos falsos pregadores e que se gloriem somente em Jesus, em cujo nome deseja paz e b\u00ean\u00e7\u00e3os.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enviada a carta aos fi\u00e9is da Gal\u00e1cia, ele partiu para a Maced\u00f4nia ap\u00f3s ter permanecido tr\u00eas anos em \u00c9feso, ou seja, do ano cinquenta e quatro ao ano cinquenta e sete de Jesus Cristo. Durante a estada de S\u00e3o Paulo em \u00c9feso, Deus lhe fez conhecer em esp\u00edrito que o chamava para a Maced\u00f4nia, para a Gr\u00e9cia, para Jerusal\u00e9m e para Roma.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599968\">CAP\u00cdTULO XVI. S\u00e3o Paulo retorna a Filipos \u2014 Segunda Carta aos fi\u00e9is de Corinto \u2014 Vai a esta cidade \u2014 Carta aos Romanos \u2014 Sua prega\u00e7\u00e3o prolongada em Tr\u00f4ade \u2014 Ressuscita um morto \u2014 Ano de Cristo 58<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Antes de partir de \u00c9feso, Paulo convocou os disc\u00edpulos e, fazendo-lhes uma paterna exorta\u00e7\u00e3o, os abra\u00e7ou ternamente; depois, p\u00f4s-se em viagem para a Maced\u00f4nia. Desejava permanecer algum tempo em Tr\u00f4ade, onde esperava encontrar seu disc\u00edpulo Tito; mas, n\u00e3o o tendo encontrado e desejando saber logo o estado da Igreja de Corinto, partiu de Tr\u00f4ade, atravessou o Helesponto, que hoje se chama estreito de Dardanelos, e passou para a Maced\u00f4nia, onde teve que sofrer muito pela f\u00e9.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas Deus lhe preparou uma grande consola\u00e7\u00e3o com a chegada de Tito, que o alcan\u00e7ou na cidade de Filipos. Esse disc\u00edpulo exp\u00f4s ao santo Ap\u00f3stolo como sua carta havia produzido efeitos salutares entre os crist\u00e3os de Corinto, que o nome de Paulo era car\u00edssimo a todos e que cada um ardia de desejo de rev\u00ea-lo em breve.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para dar vaz\u00e3o aos sentimentos paternais de seu cora\u00e7\u00e3o, o Ap\u00f3stolo escreveu de Filipos uma segunda carta na qual demonstra toda a ternura para com aqueles que se conservavam fi\u00e9is e repreende alguns que buscavam perverter a doutrina de Jesus Cristo. Tendo ent\u00e3o entendido que aquele jovem, excomungado em sua primeira carta, havia se convertido sinceramente, e ouvindo de Tito que a dor o havia quase levado \u00e0 desespera\u00e7\u00e3o, o santo Ap\u00f3stolo recomendou que se tivesse considera\u00e7\u00e3o por ele, o absolveu da excomunh\u00e3o e o restituiu \u00e0 comunh\u00e3o dos fi\u00e9is. Com a carta, recomendou muitas coisas a serem comunicadas por meio de Tito, que era o portador. Acompanharam Tito nesta viagem outros disc\u00edpulos, entre os quais S\u00e3o Lucas, que h\u00e1 alguns anos era bispo de Filipos. S\u00e3o Paulo consagrou Santo Epafrodito bispo para aquela cidade e assim S\u00e3o Lucas tornou-se novamente companheiro do santo mestre nas fadigas do apostolado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Da Maced\u00f4nia, Paulo dirigiu-se a Corinto, onde ordenou tudo o que dizia respeito \u00e0 celebra\u00e7\u00e3o dos santos mist\u00e9rios, como havia prometido em sua primeira carta, o que deve ser entendido como aqueles ritos que em todas as Igrejas comumente se observam, como seria o jejum antes da Santa Comunh\u00e3o e outras coisas semelhantes que dizem respeito \u00e0 administra\u00e7\u00e3o dos Sacramentos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Ap\u00f3stolo passou o inverno nesta cidade, esfor\u00e7ando-se para consolar seus filhos em Jesus Cristo, que n\u00e3o se cansavam de ouvi-lo e de admirar nele um zeloso pastor e um terno pai.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De Corinto, estendeu tamb\u00e9m suas solicita\u00e7\u00f5es a outros povos e especialmente aos romanos, j\u00e1 convertidos \u00e0 f\u00e9 por S\u00e3o Pedro com anos de fadigas e de sofrimentos. \u00c1quila, com outros amigos, tendo entendido que a persegui\u00e7\u00e3o havia cessado, havia retornado a Roma. Paulo soube deles que naquela metr\u00f3pole do imp\u00e9rio haviam surgido dissens\u00f5es entre gentios e judeus. Os gentios invectivavam os judeus por n\u00e3o terem correspondido aos benef\u00edcios recebidos de Deus, tendo ingrata e cruelmente crucificado o Salvador; os judeus, por sua vez, faziam invectivas aos gentios por terem seguido a idolatria e venerado as divindades mais infames. O santo Ap\u00f3stolo escreveu sua famosa Carta aos Romanos, toda cheia de argumentos sublimes, que trata com aquela agudeza de esp\u00edrito pr\u00f3pria de um homem douto e santo, que escreve inspirado por Deus. N\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel resumir sem risco de alterar seu sentido. Ela \u00e9 a mais longa, a mais elegante de todas as outras e a mais cheia de erudi\u00e7\u00e3o. Exorto-te, leitor, a l\u00ea-la atentamente, mas com as devidas interpreta\u00e7\u00f5es que se costumam unir \u00e0 Vulgata. Ela \u00e9 a sexta carta de S\u00e3o Paulo e foi escrita da cidade de Corinto no ano 58 de Jesus Cristo. Mas, pelo grande respeito que em todo tempo se teve pela dignidade da Igreja de Roma, \u00e9 considerada a primeira entre as catorze cartas deste santo Ap\u00f3stolo. Nesta carta, S\u00e3o Paulo n\u00e3o fala de S\u00e3o Pedro, porque ele estava ocupado na funda\u00e7\u00e3o de outras Igrejas. Ela foi levada por uma diaconisa, ou seja, monja, chamada Febe, que o Ap\u00f3stolo recomenda muito junto aos irm\u00e3os de Roma.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Desejando S\u00e3o Paulo partir de Corinto para se dirigir a Jerusal\u00e9m, soube que os judeus estudavam armar-lhe emboscadas ao longo do caminho; por isso, em vez de embarcar no porto de Cencreia para Jerusal\u00e9m, Paulo voltou e continuou a viagem pela Maced\u00f4nia. Acompanharam-no Sos\u00edpato, filho de Pirro de Bereia, Aristarco e Segundo de Tessal\u00f4nica, Gaio de Derbe e Tim\u00f3teo de Listra, T\u00edquico e Tr\u00f3fimo da \u00c1sia. Estes vieram com ele at\u00e9 Filipos; depois, com exce\u00e7\u00e3o de Lucas, passaram a Tr\u00f4ade com a ordem de esper\u00e1-lo l\u00e1, enquanto ele se deteria nesta cidade at\u00e9 depois das festas pascais. Passada tal solenidade, Paulo e Lucas, em cinco dias de navega\u00e7\u00e3o, chegaram a Tr\u00f4ade e l\u00e1 se detiveram sete dias.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aconteceu que, na v\u00e9spera da partida de Paulo, era o primeiro dia da semana, ou seja, dia de domingo, em que os fi\u00e9is costumavam se reunir para ouvir a palavra de Deus e assistir aos sacrif\u00edcios divinos. Entre outras coisas, faziam a fra\u00e7\u00e3o do p\u00e3o, ou seja, celebravam a Santa Missa, \u00e0 qual participavam os fi\u00e9is, recebendo o Corpo do Senhor sob a esp\u00e9cie do p\u00e3o. Desde ent\u00e3o, a Missa era considerada o ato mais sagrado e solene para a santifica\u00e7\u00e3o do dia festivo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo, que estava prestes a partir no dia seguinte, prolongou o discurso at\u00e9 altas horas da noite e, para iluminar o cen\u00e1culo, foram acesas muitas l\u00e2mpadas. O dia de domingo, a hora noturna, o cen\u00e1culo no terceiro andar da casa, as muitas l\u00e2mpadas acesas, atra\u00edram uma imensa multid\u00e3o de gente. Enquanto todos estavam atentos ao racioc\u00ednio de Paulo, um jovem chamado \u00cautico, ou por desejo de ver o Ap\u00f3stolo ou para poder ouvi-lo melhor, subiu sobre uma janela e se sentou no peitoril. Agora, seja pelo calor que fazia, seja pela hora tardia ou talvez pelo cansa\u00e7o, o fato \u00e9 que aquele jovem adormeceu; e no sono, abandonando-se ao peso de seu pr\u00f3prio corpo, caiu no ch\u00e3o da rua. Ouve-se um lamento ressoar pela assembleia; correm e encontram o jovem sem vida.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo desce imediatamente, e, colocando-se com o corpo sobre o cad\u00e1ver, o aben\u00e7oa, o abra\u00e7a e, com seu sopro ou, melhor, com a viva f\u00e9 em Deus, o restitui \u00e0 nova vida. Realizado este milagre, sem se importar com os aplausos que de todos os lados se faziam, subiu novamente ao cen\u00e1culo e continuou a pregar at\u00e9 a manh\u00e3.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A grande solicitude dos fi\u00e9is de Tr\u00f4ade para assistir \u00e0s sagradas fun\u00e7\u00f5es deve servir de est\u00edmulo a todos os crist\u00e3os a santificar os dias festivos com obras de piedade, especialmente ouvindo devotamente a Santa Missa e escutando a palavra de Deus, mesmo com algum inc\u00f4modo.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599969\">CAP\u00cdTULO XVII. Prega\u00e7\u00e3o de S\u00e3o Paulo em Mileto \u2014 Sua viagem at\u00e9 Cesareia \u2014 Profecia de \u00c1gabo \u2014 Ano de Cristo 58<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Terminada aquela reuni\u00e3o, que durou cerca de vinte e quatro horas, o incans\u00e1vel Ap\u00f3stolo partiu com seus companheiros para Mitilene, nobre cidade da ilha de Lesbos. Daqui, prosseguindo a viagem, em poucos dias chegou a Mileto, cidade da C\u00e1ria, prov\u00edncia da \u00c1sia Menor. O Ap\u00f3stolo n\u00e3o quis parar em \u00c9feso para n\u00e3o ser obrigado por aqueles crist\u00e3os, que ternamente o amavam, a atrasar demais seu caminho. Ele se apressava com o objetivo de chegar a Jerusal\u00e9m para a festa de Pentecostes. De Mileto, Paulo enviou recado a \u00c9feso para comunicar sua chegada aos bispos e aos sacerdotes daquela cidade e das prov\u00edncias vizinhas, convidando-os a vir visit\u00e1-lo e tamb\u00e9m a conferenciar com ele sobre as coisas da f\u00e9, se fosse necess\u00e1rio. Vieram em grande n\u00famero.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando S\u00e3o Paulo se viu cercado por aqueles vener\u00e1veis pregadores do Evangelho, come\u00e7ou a expor-lhes as tribula\u00e7\u00f5es sofridas dia e noite pelas armadilhas dos judeus. \u00abAgora vou a Jerusal\u00e9m\u00bb, dizia, \u00abguiado pelo Esp\u00edrito Santo, que, em todos os lugares por onde passo, me faz conhecer as cadeias e as tribula\u00e7\u00f5es que me aguardam naquela cidade. Mas nada disso me assusta, nem considero minha vida mais preciosa do que meu dever. Para mim, pouco importa viver ou morrer, desde que eu termine minha corrida dando glorioso testemunho do Evangelho que Jesus Cristo me confiou. Voc\u00eas n\u00e3o ver\u00e3o mais meu rosto, mas cuidem de voc\u00eas mesmos e de todo o rebanho, sobre o qual o Esp\u00edrito Santo os constituiu bispos para governar a Igreja de Deus, adquirida por ele com seu precioso sangue\u00bb. Ent\u00e3o passou a avis\u00e1-los que, ap\u00f3s sua partida, surgiriam lobos vorazes e homens perversos para corromper a doutrina de Jesus Cristo. Tendo dito essas palavras, todos se puseram de joelhos e rezaram juntos. Ningu\u00e9m podia conter as l\u00e1grimas, e todos se lan\u00e7avam ao pesco\u00e7o de Paulo, imprimindo-lhe mil beijos. Estavam especialmente inconsol\u00e1veis por aquelas palavras de que n\u00e3o veriam mais seu rosto. Para desfrutar ainda alguns momentos de sua doce companhia, o acompanharam at\u00e9 o navio e n\u00e3o sem uma esp\u00e9cie de viol\u00eancia se separaram de seu querido mestre.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo, junto com seus companheiros, de Mileto passou para a ilha de Coo, muito renomada por um templo dos Gentios dedicado a Juno e a Escul\u00e1pio. No dia seguinte chegaram a Rodes, ilha muito c\u00e9lebre especialmente por seu Colosso, que era uma est\u00e1tua de extraordin\u00e1ria altura e grandeza. Da\u00ed vieram a P\u00e1tara, cidade capital da L\u00edcia, muito renomada por um grande templo dedicado ao deus Apolo. Daqui navegaram at\u00e9 Tiro, onde o navio deveria descarregar sua carga.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tiro \u00e9 a cidade principal da Fen\u00edcia, agora chamada Sur, \u00e0s margens do Mediterr\u00e2neo. Assim que desembarcaram, encontraram alguns profetas que iam publicando os males que sobre o santo Ap\u00f3stolo se abateriam em Jerusal\u00e9m, e queriam dissuadi-lo daquela viagem. Mas ele, ap\u00f3s sete dias, quis partir. Aqueles bons crist\u00e3os, com suas esposas e filhos, o acompanharam para fora da cidade, onde, dobrando os joelhos na praia, rezaram com ele. Ent\u00e3o, trocando as mais cordiais sauda\u00e7\u00f5es, embarcaram e foram acompanhados pelos olhares dos sid\u00f4nios at\u00e9 que a dist\u00e2ncia do navio os tirou de vista. Chegando a Ptolemaida, pararam um dia para saudar e confortar aqueles crist\u00e3os na f\u00e9; continuando ent\u00e3o seu caminho, chegaram a Cesareia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ali, Paulo foi recebido com j\u00fabilo pelo di\u00e1cono Filipe. Este santo disc\u00edpulo, ap\u00f3s ter pregado aos samaritanos, ao eunuco da rainha Candace e em muitas cidades da Palestina, havia fixado sua resid\u00eancia em Cesareia para cuidar daquelas almas que ele havia regenerado em Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Veio naqueles tempos a Cesareia o profeta \u00c1gabo e, indo visitar o santo Ap\u00f3stolo, tirou-lhe do corpo o cinto e, amarrando-se com ele os p\u00e9s e as m\u00e3os, disse: \u00abEis o que o Esp\u00edrito Santo me diz abertamente: o homem a quem pertence este cinto ser\u00e1 assim amarrado pelos judeus em Jerusal\u00e9m\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A profecia de \u00c1gabo comoveu todos os presentes, pois os males que estavam preparados para o santo Ap\u00f3stolo em Jerusal\u00e9m se tornavam cada vez mais evidentes; por isso, os pr\u00f3prios companheiros de Paulo, chorando, lhe suplicavam para n\u00e3o ir. Mas Paulo corajosamente respondia: \u00abAh! Eu vos imploro, n\u00e3o choreis. Com essas vossas l\u00e1grimas n\u00e3o fazeis outra coisa sen\u00e3o aumentar a afli\u00e7\u00e3o do meu cora\u00e7\u00e3o. Sabei que estou pronto n\u00e3o apenas a sofrer as cadeias, mas a enfrentar tamb\u00e9m a morte pelo nome de Jesus Cristo\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ent\u00e3o todos, reconhecendo a vontade de Deus na firmeza do santo Ap\u00f3stolo, disseram em uma s\u00f3 voz: \u00abSeja feita a vontade do Senhor\u00bb. Dito isso, partiram em dire\u00e7\u00e3o a Jerusal\u00e9m com um certo Men\u00e1sson, que havia sido disc\u00edpulo e seguidor de Jesus Cristo. Ele tinha resid\u00eancia fixa em Jerusal\u00e9m e ia com eles para hosped\u00e1-los em sua casa.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599970\">CAP\u00cdTULO XVIII. S\u00e3o Paulo se apresenta a S\u00e3o Tiago \u2014 Os judeus lhe tendem armadilhas \u2014 Fala ao povo \u2014 Repreende o sumo sacerdote \u2014 Ano de Cristo 59<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Estamos agora prontos para contar uma longa s\u00e9rie de sofrimentos e persegui\u00e7\u00f5es que o santo Ap\u00f3stolo suportou em quatro anos de pris\u00e3o. Deus quis preparar seu servo para essas lutas fazendo-o conhec\u00ea-las muito antes; de fato, os males previstos causam menor espanto, e o homem est\u00e1 mais disposto a suport\u00e1-los. Chegando Paulo com seus companheiros a Jerusal\u00e9m, foram recebidos pelos crist\u00e3os desta cidade com os sinais da maior benevol\u00eancia. No dia seguinte, foram visitar o bispo da cidade, que era S\u00e3o Tiago, o Menor, junto ao qual tamb\u00e9m se haviam reunido os principais sacerdotes da diocese. Paulo contou as maravilhas que Deus havia operado por seu minist\u00e9rio entre os Gentios, pelo que todos agradeceram de cora\u00e7\u00e3o ao Senhor.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No entanto, apressaram-se em avisar Paulo do perigo que o amea\u00e7ava. \u00abMuitos judeus\u00bb, disseram-lhe, \u00abse converteram \u00e0 f\u00e9 e v\u00e1rios deles s\u00e3o tenazes em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 circuncis\u00e3o e \u00e0s cerim\u00f4nias legais. Agora, sabendo-se que voc\u00ea dispensa os Gentios dessas observ\u00e2ncias, h\u00e1 um \u00f3dio terr\u00edvel contra voc\u00ea. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, que voc\u00ea demonstre n\u00e3o ser inimigo dos judeus. Fa\u00e7a assim: na ocasi\u00e3o em que quatro judeus devem cumprir um voto, voc\u00ea participar\u00e1 da fun\u00e7\u00e3o e pagar\u00e1 por eles as despesas que forem necess\u00e1rias para esta solenidade\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo aderiu prontamente ao s\u00e1bio conselho e participou daquela obra de piedade. Dirigiu-se ao templo e a fun\u00e7\u00e3o estava no final, quando alguns judeus vindos da \u00c1sia incitaram o povo contra ele, gritando: \u00abSocorro, israelitas, socorro! Este homem \u00e9 aquele que vai por todo o mundo pregando contra o povo, contra a lei e contra este mesmo templo. Ele n\u00e3o hesitou em violar a santidade dele introduzindo Gentios dentro dele\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora tais acusa\u00e7\u00f5es fossem cal\u00fanias, toda a cidade se agitou e, fazendo-se um grande concurso de povo, prenderam S\u00e3o Paulo, arrastaram-no para fora do templo para mat\u00e1-lo como blasfemo. Mas o ru\u00eddo do tumulto chegou ao tribuno romano, que correu imediatamente com os guardas. Os sediciosos, vendo os guardas, cessaram de agredir Paulo e o entregaram ao tribuno, que, fazendo-o amarrar, ordenou que fosse conduzido \u00e0 torre Ant\u00f4nia, que era uma fortaleza e um quartel de soldados pr\u00f3ximo ao templo. L\u00edsias, tal era o nome do tribuno, desejava saber o motivo daquele tumulto, mas nada p\u00f4de saber, porque os gritos e os clamores do povo abafavam toda voz. Enquanto Paulo subia os degraus da fortaleza, foi necess\u00e1rio que os soldados o carregassem nos bra\u00e7os para tir\u00e1-lo das m\u00e3os dos judeus, que, n\u00e3o podendo t\u00ea-lo em seu poder, gritavam: \u00abMatem-no, tirem-no do mundo\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando estava prestes a entrar na torre, falou assim em grego ao tribuno: \u00ab\u00c9-me permitido dizer uma palavra?\u00bb O tribuno se admirou de que ele falasse grego e lhe disse: \u00abVoc\u00ea sabe grego? N\u00e3o \u00e9 voc\u00ea aquele eg\u00edpcio que pouco antes incitou uma rebeli\u00e3o e conduziu consigo no deserto quatro mil assassinos?\u00bb \u00abN\u00e3o, certamente\u00bb, respondeu Paulo, \u00abeu sou judeu, cidad\u00e3o de Tarso, cidade da Cil\u00edcia. Mas, por favor, me permite falar ao povo?\u00bb O que lhe foi concedido, Paulo, dos degraus da torre, levantou um pouco a m\u00e3o sobrecarregada pelo peso das cadeias, fez sinal ao povo para que ficasse em sil\u00eancio e come\u00e7ou a expor o que dizia respeito \u00e0 sua p\u00e1tria, sua convers\u00e3o e sua prega\u00e7\u00e3o, e como Deus o havia destinado a levar a f\u00e9 entre os Gentios.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O povo o ouviu em profundo sil\u00eancio at\u00e9 essas \u00faltimas palavras; mas quando ouviu falar dos Gentios, como agitado por mil f\u00farias, irrompeu em gritos desenfreados, e quem por indigna\u00e7\u00e3o jogava ao ch\u00e3o suas vestes, quem espalhava no ar a poeira, e todos gritavam: \u00abEste \u00e9 indigno de viver, seja tirado do mundo!\u00bb<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O tribuno, que nada havia entendido do discurso de S\u00e3o Paulo, porque ele falara em l\u00edngua hebraica, temendo que o povo chegasse a graves excessos, ordenou aos seus que levassem Paulo para a fortaleza, e depois o flagelassem e o submetessem \u00e0 tortura para for\u00e7\u00e1-lo a revelar a causa da sedi\u00e7\u00e3o. Mas Paulo, que sabia que ainda n\u00e3o havia chegado a hora em que deveria sofrer tais males por Jesus Cristo, voltou-se para o centuri\u00e3o encarregado de executar aquela ordem injusta e lhe disse: \u00abVoc\u00ea acha que \u00e9 l\u00edcito flagelar um cidad\u00e3o romano, sem que seja condenado?\u00bb Ouvindo isso, o centuri\u00e3o correu at\u00e9 o tribuno dizendo: \u00abO que voc\u00ea est\u00e1 prestes a fazer? N\u00e3o sabe que este homem \u00e9 cidad\u00e3o romano?\u00bb<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O tribuno teve medo, porque havia feito Paulo ser amarrado, o que acarretava pena de morte. Ele mesmo foi at\u00e9 Paulo e lhe disse: \u00abVoc\u00ea \u00e9 realmente cidad\u00e3o romano?\u00bb Ele respondeu: \u00abSou realmente\u00bb. \u00abEu\u00bb, acrescentou o tribuno, \u00abadquiri a caro pre\u00e7o tal direito de cidadania romana\u00bb. \u00abE eu\u00bb, replicou Paulo, \u00abgozo dele por meu nascimento\u00bb. Sabendo disso, fez suspender a ordem de submeter Paulo \u00e0 tortura, e o pr\u00f3prio tribuno ficou apreensivo, e buscou outro meio para saber as acusa\u00e7\u00f5es que os judeus faziam contra ele. Ordenou que no dia seguinte se reunissem o Sin\u00e9drio e todos os sacerdotes judeus; depois, mandando retirar as cadeias de Paulo, fez com que ele fosse trazido ao meio do conselho.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O Ap\u00f3stolo, fixando os olhos naquela assembleia, disse: \u00abEu, irm\u00e3os, at\u00e9 este dia tenho caminhado diante de Deus com boa consci\u00eancia\u00bb. Assim que ouviram essas palavras, o sumo sacerdote, de nome Ananias, ordenou a um dos presentes que desse a Paulo uma forte pancada. O Ap\u00f3stolo n\u00e3o julgou que deveria tolerar t\u00e3o grave inj\u00faria e, com a liberdade e o zelo que usavam os antigos profetas, disse: \u00abMuralha caiada, Deus te ferir\u00e1, assim como voc\u00ea mandou me ferir, porque, fingindo julgar segundo a lei, me manda ferir contra a pr\u00f3pria lei\u00bb. Ouvindo essas palavras, todos se ressentiram: \u00abEi\u00bb, disseram-lhe, \u00abvoc\u00ea tem a ousadia de insultar o sumo sacerdote?\u00bb \u00abPerdoem-me, irm\u00e3os\u00bb, respondeu Paulo, \u00abeu n\u00e3o sabia que este era o pr\u00edncipe dos sacerdotes, pois bem conhe\u00e7o a lei que pro\u00edbe maldizer o pr\u00edncipe do povo\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo n\u00e3o havia reconhecido o sumo sacerdote ou porque ele n\u00e3o tinha as ins\u00edgnias de seu grau, ou n\u00e3o falava e n\u00e3o agia com a dignidade que convinha a tal pessoa. Nem S\u00e3o Paulo amaldi\u00e7oava Ananias, mas previu os males que sobre ele cairiam, como de fato aconteceu. Para se livrar de alguma maneira das m\u00e3os de seus inimigos, Paulo uniu a simplicidade da pomba \u00e0 prud\u00eancia da serpente e, sabendo que a assembleia era composta de saduceus e fariseus, pensou em provocar divis\u00e3o entre eles exclamando: \u00abEu, irm\u00e3os, sou fariseu, filho e aluno de fariseus. O motivo pelo qual sou chamado a julgamento \u00e9 a minha esperan\u00e7a na ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos\u00bb. Essas palavras geraram graves dissens\u00f5es entre os ouvintes; quem era contra Paulo, quem a favor dele.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entretanto, levantou-se um clamor que fazia temer graves desordens. O tribuno, temendo que os mais enfurecidos se lan\u00e7assem contra Paulo e o despeda\u00e7assem, ordenou aos soldados que o tirassem de suas m\u00e3os e o reconduzissem \u00e0 torre. Deus, por\u00e9m, quis consolar seu servo pelo que havia sofrido naquele dia. \u00c0 noite, lhe apareceu e lhe disse: \u00abAnime-se: depois de me ter dado testemunho em Jerusal\u00e9m, voc\u00ea far\u00e1 o mesmo em Roma\u00bb.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599971\">CAP\u00cdTULO XIX. Quarenta Judeus se comprometem com um voto a matar S\u00e3o Paulo \u2014 Um de seus sobrinhos descobre a trama \u2014 \u00c9 transferido para Cesareia \u2014 Ano de Cristo 59<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Os judeus, vendo que seu plano havia falhado, passaram a noite seguinte elaborando v\u00e1rios projetos. Quarenta deles tomaram a desesperada resolu\u00e7\u00e3o de se comprometerem com um voto a n\u00e3o comer nem beber antes de terem matado Paulo. Ap\u00f3s tramarem essa conspira\u00e7\u00e3o, foram at\u00e9 os pr\u00edncipes dos sacerdotes e os anci\u00e3os, contando-lhes o prop\u00f3sito. \u00abPara ter esse rebelde em nossas m\u00e3os\u00bb, acrescentaram, \u00abencontramos um caminho seguro; resta apenas que voc\u00eas nos ajudem. Fa\u00e7am saber ao tribuno, em nome do Sin\u00e9drio, que desejam examinar mais alguns pontos do caso de Paulo e que, portanto, o apresentem novamente amanh\u00e3. Ele certamente concordar\u00e1 com o pedido. Mas tenham certeza de que, antes que Paulo seja conduzido diante de voc\u00eas, n\u00f3s o despeda\u00e7aremos com estas m\u00e3os\u00bb. Os anci\u00e3os louvaram o plano e prometeram colaborar.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ou porque algum dos conspiradores n\u00e3o manteve o segredo, ou porque n\u00e3o se preocuparam em fechar a porta ao tramarem seu plano, \u00e9 certo que foram descobertos. Um filho da irm\u00e3 de Paulo soube de tudo e, correndo at\u00e9 a torre, conseguiu passar entre os guardas, apresentar-se ao tio e contar-lhe toda a trama. Paulo instruiu bem o sobrinho sobre como agir. Chamado ent\u00e3o um oficial que estava de guarda, disse-lhe: \u00abPe\u00e7o que leve este jovem ao capit\u00e3o; ele tem algo a comunicar\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O centuri\u00e3o o levou ao capit\u00e3o e disse: \u00abAquele Paulo que est\u00e1 na pris\u00e3o me pediu para trazer este jovem a voc\u00ea, porque ele tem algo a lhe dizer\u00bb. O capit\u00e3o pegou o jovem pela m\u00e3o e, levando-o para um lado, perguntou o que ele tinha a relatar. \u00abOs judeus\u00bb, respondeu, \u00abse combinaram para pedir que voc\u00ea fa\u00e7a Paulo ser levado ao Sin\u00e9drio amanh\u00e3, sob o pretexto de querer examinar mais a fundo seu caso. Mas voc\u00ea n\u00e3o deve dar ouvidos a eles: saiba que est\u00e3o armando uma emboscada e quarenta deles se comprometeram com um voto terr\u00edvel a n\u00e3o comer nem beber at\u00e9 que o tenham matado. Agora est\u00e3o prontos para agir, esperando apenas seu consentimento\u00bb. \u00abMuito bem\u00bb, disse o capit\u00e3o, \u00abvoc\u00ea fez bem em me contar essas coisas. Agora pode ir, mas n\u00e3o diga a ningu\u00e9m que voc\u00ea me revelou isso\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dessa desesperada resolu\u00e7\u00e3o, L\u00edsias compreendeu que reter Paulo por mais tempo em Jerusal\u00e9m equivalia a deix\u00e1-lo em perigo, do qual talvez n\u00e3o pudesse salv\u00e1-lo. Portanto, sem hesitar, chamou dois centuri\u00f5es e disse-lhes: \u00abColoquem em ordem duzentos soldados de infantaria e outros tantos armados de lan\u00e7a, com setenta homens a cavalo, e acompanhem Paulo at\u00e9 Cesareia. Preparem tamb\u00e9m um cavalo para ele, para que seja levado l\u00e1 s\u00e3o e salvo e se apresente ao governador F\u00e9lix\u00bb. O tribuno acompanhou Paulo com uma carta ao governador, que dizia:<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u00abCl\u00e1udio L\u00edsias ao excelent\u00edssimo governador F\u00e9lix, sa\u00fade. Envio-lhe este homem que, preso pelos judeus, estava prestes a ser morto por eles. Ao chegar com meus soldados, o tirei das m\u00e3os deles, tendo sabido que \u00e9 cidad\u00e3o romano. Quis ent\u00e3o me informar de qual crime era acusado, e o conduzi ao Sin\u00e9drio e descobri que era acusado por quest\u00f5es relacionadas \u00e0 sua lei, mas sem nenhuma culpa que merecesse morte ou pris\u00e3o. Mas, tendo-me sido informado que lhe armam uma trama de morte, decidi envi\u00e1-lo a voc\u00ea, convidando ao mesmo tempo seus acusadores a se apresentarem diante de seu tribunal para expor suas acusa\u00e7\u00f5es contra ele. Passe bem\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em cumprimento das ordens recebidas, naquela mesma noite os soldados partiram com Paulo e o conduziram a Antip\u00e1tride, cidade situada a meio caminho entre Jerusal\u00e9m e Cesareia. Nesse ponto do percurso, n\u00e3o temendo mais ser atacados pelos judeus, mandaram de volta os quatrocentos soldados a Jerusal\u00e9m, e Paulo, acompanhado apenas pelos setenta cavaleiros, chegou no dia seguinte a Cesareia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim Deus, da maneira mais simples, libertava seu Ap\u00f3stolo de um grave perigo e fazia conhecer que os projetos dos homens sempre se tornam v\u00e3os quando s\u00e3o contr\u00e1rios \u00e0 vontade divina.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599972\">CAP\u00cdTULO XX. Paulo diante do governador \u2014 Seus acusadores e sua defesa \u2014 Ano de Cristo 59<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>No dia seguinte, Paulo chegou a Cesareia e foi apresentado ao governador com a carta do capit\u00e3o L\u00edsias. Lida a carta, o governador chamou Paulo \u00e0 parte e, sabendo que era de Tarso, disse-lhe: \u00abOuvirei voc\u00ea quando chegarem seus acusadores\u00bb. Enquanto isso, mandou que fosse guardado na pris\u00e3o de seu pal\u00e1cio.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os quarenta conspiradores, quando viram que o golpe havia falhado, ficaram at\u00f4nitos. Pode-se acreditar que, sem se importar com o voto feito, se puseram a comer e beber para continuar sua trama. De acordo com o sumo sacerdote, com os anci\u00e3os e com um certo T\u00e9rtulo, famoso orador, partiram em dire\u00e7\u00e3o a Cesareia, aonde chegaram cinco dias ap\u00f3s a chegada de Paulo. Todos se apresentaram diante do governador, e T\u00e9rtulo come\u00e7ou a falar assim contra Paulo: \u00abEncontramos este homem pestilento, que suscita revoltas entre todos os judeus do mundo. Ele \u00e9 chefe da seita dos nazarenos. Tentou tamb\u00e9m profanar nosso templo, e n\u00f3s o prendemos. Quer\u00edamos julg\u00e1-lo segundo nossa lei, mas interveio o capit\u00e3o L\u00edsias, que o tirou \u00e0 for\u00e7a de nossas m\u00e3os. Ele ordenou que seus acusadores se apresentassem diante de voc\u00ea. Agora estamos aqui. Ao examin\u00e1-lo, voc\u00ea poder\u00e1 verificar as culpas das quais o acusamos\u00bb. O que T\u00e9rtulo afirmara foi confirmado pelos judeus presentes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo, tendo recebido do governador a oportunidade de responder, come\u00e7ou a se defender assim: \u00abPois, excelent\u00edssimo F\u00e9lix, h\u00e1 muitos anos voc\u00ea governa este pa\u00eds, certamente \u00e9 capaz de conhecer as coisas que aqui aconteceram. De bom grado me defendo diante de voc\u00ea. Como pode verificar, n\u00e3o faz mais de doze dias que subi a Jerusal\u00e9m para adorar. Neste breve tempo, ningu\u00e9m pode dizer que me encontrou no templo ou nas sinagogas ou em outro lugar p\u00fablico ou privado discutindo com algu\u00e9m, nem reunindo multid\u00f5es ou fomentando desordens. N\u00e3o podem provar nenhuma das acusa\u00e7\u00f5es que me fazem. Mas confesso que sigo o Caminho que eles chamam de seita, servindo assim ao Deus de nossos pais, crendo em tudo que \u00e9 conforme \u00e0 Lei e est\u00e1 escrito nos Profetas. Tenho em Deus a mesma esperan\u00e7a que eles t\u00eam, de que haver\u00e1 uma ressurrei\u00e7\u00e3o dos justos e dos injustos. Por isso, tamb\u00e9m me esfor\u00e7o para ter sempre uma consci\u00eancia irrepreens\u00edvel diante de Deus e dos homens. Depois de muitos anos, vim trazer esmolas \u00e0 minha na\u00e7\u00e3o e apresentar ofertas. Enquanto estava envolvido nesses rituais de purifica\u00e7\u00e3o, sem multid\u00e3o nem tumulto, alguns judeus da \u00c1sia me encontraram no templo. Eles deveriam ter comparecido diante de voc\u00ea para me acusar, se tivessem algo contra mim. Ou que digam estes mesmos se encontraram alguma culpa em mim, quando compareci diante do Sin\u00e9drio, al\u00e9m desta \u00fanica declara\u00e7\u00e3o que fiz em alta voz no meio deles: \u201c\u00c9 por causa da ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos que sou julgado hoje diante de voc\u00eas\u201d\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Seus acusadores ficaram confusos e, olhando uns para os outros, n\u00e3o encontravam palavras a proferir. O pr\u00f3prio governador, j\u00e1 inclinado a favor dos crist\u00e3os, sabia que eles, longe de serem sediciosos, eram os mais d\u00f3ceis e fi\u00e9is entre seus s\u00faditos. Mas n\u00e3o quis proferir senten\u00e7a e reservou-se para ouvi-lo novamente quando o capit\u00e3o L\u00edsias viesse de Jerusal\u00e9m a Cesareia. Enquanto isso, ordenou que Paulo fosse guardado, mas concedendo-lhe certa liberdade e permitindo que seus amigos o servissem.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Algum tempo depois, o governador, talvez para agradar sua esposa, que era judia, fez vir Paulo \u00e0 sua presen\u00e7a para ouvi-lo falar sobre religi\u00e3o. O Ap\u00f3stolo exp\u00f4s vividamente as verdades da f\u00e9, o rigor dos ju\u00edzos que Deus reservar\u00e1 aos \u00edmpios na outra vida, de tal forma que F\u00e9lix, assustado e perturbado, disse: \u00abPor agora basta; ouvirei voc\u00ea novamente quando tiver a oportunidade\u00bb. Na verdade, ele o chamou mais vezes, mas n\u00e3o para se instruir na f\u00e9, mas esperando que Paulo lhe oferecesse dinheiro em troca da liberdade. Portanto, embora conhecesse a inoc\u00eancia de Paulo, manteve-o na pris\u00e3o em Cesareia por dois anos. Assim fazem aqueles crist\u00e3os que, por ganho tempor\u00e1rio ou para agradar aos homens, vendem a justi\u00e7a e violam os mais sagrados deveres da consci\u00eancia e da religi\u00e3o.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599973\">CAP\u00cdTULO XXI. Paulo diante de Festo \u2014 Suas palavras ao rei Agripa \u2014 Ano de Cristo 60<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>J\u00e1 fazia dois anos que o santo Ap\u00f3stolo estava preso, quando a F\u00e9lix sucedeu outro governador chamado Festo. Tr\u00eas dias ap\u00f3s assumir o cargo, o novo governador foi a Jerusal\u00e9m e logo os chefes dos sacerdotes e os principais judeus se apresentaram a ele para renovar as acusa\u00e7\u00f5es contra o santo Ap\u00f3stolo. Pediram-lhe como um favor especial que levasse Paulo a Jerusal\u00e9m para ser julgado no Sin\u00e9drio; mas na verdade tinham a inten\u00e7\u00e3o de assassin\u00e1-lo ao longo do caminho. Festo, talvez j\u00e1 avisado para n\u00e3o confiar neles, respondeu que em breve voltaria a Cesareia; \u00abAqueles entre voc\u00eas\u00bb, disse, \u00abque t\u00eam algo contra Paulo, venham comigo e ouvirei suas acusa\u00e7\u00f5es\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s alguns dias, Festo voltou a Cesareia e com ele os judeus acusadores de Paulo. No dia seguinte, fez vir o santo Ap\u00f3stolo diante de seu tribunal, e os judeus lhe fizeram muitas graves acusa\u00e7\u00f5es, sem, no entanto, poderem prov\u00e1-las. Paulo respondeu-lhes com poucas palavras, e seus acusadores silenciaram. No entanto, Festo, desejando conquistar a benevol\u00eancia dos judeus, perguntou-lhe se queria ir a Jerusal\u00e9m para ser julgado no Sin\u00e9drio, na sua presen\u00e7a. Percebendo Paulo que Festo se inclinava a entreg\u00e1-lo nas m\u00e3os dos judeus, respondeu: \u00abEstou diante do tribunal de C\u00e9sar, onde devo ser julgado. N\u00e3o cometi nenhum mal contra os judeus, como bem sabes. Se, portanto, sou culpado e cometi algo que merece a morte, n\u00e3o me recuso a morrer; mas se n\u00e3o h\u00e1 nada de verdadeiro nas acusa\u00e7\u00f5es que estes fazem contra mim, ningu\u00e9m tem o direito de me entregar a eles. Apelo a C\u00e9sar\u00bb. Este apelo do nosso Ap\u00f3stolo era justo e conforme \u00e0s leis romanas, pois o governador se mostrava disposto a entregar um cidad\u00e3o romano, reconhecido inocente, ao poder dos judeus que queriam sua morte a todo custo. Os santos Padres refletem que n\u00e3o o desejo da vida, mas o bem da Igreja o levou a apelar a Roma, onde, por divina revela\u00e7\u00e3o, sabia quanto deveria trabalhar para a gl\u00f3ria de Deus e a salva\u00e7\u00e3o das almas.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Festo, ap\u00f3s consultar seu conselho, respondeu: \u00abVoc\u00ea apelou a C\u00e9sar, a C\u00e9sar ir\u00e1\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o muitos dias depois, veio a Cesareia o rei Agripa, filho daquele Agripa que havia feito morrer S\u00e3o Tiago, o Maior, e aprisionado S\u00e3o Pedro. Ele veio com sua irm\u00e3 Berenice para prestar as devidas homenagens ao novo governador da Judeia. Tendo-se detido v\u00e1rios dias, Festo falou-lhes do processo de Paulo. Agripa manifestou o desejo de ouvi-lo. Para agrad\u00e1-lo, Festo fez preparar uma sala com grande pompa e, convidando \u00e0 audi\u00eancia os tribunos e outros magistrados, fez conduzir Paulo \u00e0 presen\u00e7a de Agripa e Berenice. \u00abEis\u00bb, disse Festo, \u00abaquele homem contra quem recorreu a mim toda a multid\u00e3o dos judeus, protestando com grandes clamores que n\u00e3o deveria mais viver. Eu, por\u00e9m, n\u00e3o encontrei nele nada que mere\u00e7a a morte. No entanto, tendo ele apelado ao tribunal do imperador, devo envi\u00e1-lo a Roma. Mas como n\u00e3o tenho nada certo para escrever ao nosso soberano, achei conveniente apresent\u00e1-lo diante de voc\u00eas e especialmente a ti, \u00f3 rei Agripa, para que, ap\u00f3s interrog\u00e1-lo, me digam o que devo escrever, n\u00e3o me parecendo conveniente enviar um prisioneiro sem especificar as acusa\u00e7\u00f5es contra ele\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agripa, dirigindo-se a Paulo, disse: \u00ab\u00c9-te permitido falar em tua defesa\u00bb. Paulo come\u00e7ou a falar assim: \u00abConsidero-me feliz, \u00f3 rei Agripa, por poder hoje me defender diante de ti contra todas as acusa\u00e7\u00f5es dos judeus, especialmente porque \u00e9s experiente em todas as tradi\u00e7\u00f5es e quest\u00f5es que os envolvem. Pe\u00e7o-te, portanto, que me ou\u00e7as com paci\u00eancia. Todos os judeus conhecem minha vida desde a juventude, passada entre meu povo e em Jerusal\u00e9m. Sabem que vivi segundo a seita mais rigorosa da nossa religi\u00e3o, a dos fariseus. E agora sou chamado a julgamento por causa da esperan\u00e7a na promessa feita por Deus a nossos pais, aquela que nossas doze tribos esperam ver cumprida, servindo a Deus noite e dia. \u00c9 por essa esperan\u00e7a, \u00f3 rei, que sou acusado pelos judeus. Por que \u00e9 considerado inconceb\u00edvel entre voc\u00eas que Deus ressuscite os mortos?<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Eu tamb\u00e9m considerava meu dever fazer muitas coisas contra o nome de Jesus Nazareno. Assim fiz em Jerusal\u00e9m: obtive dos chefes dos sacerdotes a autoriza\u00e7\u00e3o para aprisionar muitos santos e, quando eram mortos, expressava meu voto. Frequentemente, indo de sinagoga em sinagoga, tentava for\u00e7\u00e1-los a blasfemar; e na minha f\u00faria desenfreada os perseguia at\u00e9 nas cidades estrangeiras.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em tais circunst\u00e2ncias, enquanto ia a Damasco com a autoriza\u00e7\u00e3o e o mandato dos chefes dos sacerdotes, ao meio-dia, \u00f3 rei, vi no caminho uma luz do c\u00e9u, mais brilhante que o sol, que envolveu a mim e aqueles que estavam comigo. Todos ca\u00edram por terra e eu ouvi uma voz que me dizia em l\u00edngua hebraica: \u201cSaulo, Saulo, por que me persegues? \u00c9 duro para ti recalcitrar contra o aguilh\u00e3o\u201d. Eu disse: \u201cQuem \u00e9s, Senhor?\u201d E o Senhor respondeu: \u201cEu sou Jesus, a quem tu persegues. Mas levanta-te e fica em p\u00e9; porque te apareci para constituir-te ministro e testemunha do que viste de mim e do que te mostrarei. Eu te livrarei do povo e dos gentios, aos quais te envio para abrir-lhes os olhos, a fim de que se convertam das trevas \u00e0 luz e do poder de Satan\u00e1s a Deus, e obtenham, mediante a f\u00e9 em mim, a remiss\u00e3o dos pecados e a sorte entre os santificados\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Portanto, \u00f3 rei Agripa, n\u00e3o desobedeci \u00e0 vis\u00e3o celestial; mas antes a aqueles de Damasco, depois a Jerusal\u00e9m e em toda a Judeia, e finalmente aos gentios, anunciei que se arrependessem e se convertessem a Deus, fazendo obras dignas de arrependimento. Por isso os judeus, tendo-me capturado no templo, tentaram me matar. Mas, gra\u00e7as \u00e0 ajuda de Deus, at\u00e9 este dia estou aqui a testemunhar diante dos pequenos e dos grandes, n\u00e3o dizendo outra coisa sen\u00e3o o que os profetas e Mois\u00e9s declararam que deveria acontecer: que o Cristo haveria de sofrer e, como o primeiro entre os ressuscitados dos mortos, anunciaria a luz ao povo e aos gentios\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Festo interrompeu o discurso do Ap\u00f3stolo e em alta voz exclamou: \u00abTu est\u00e1s louco, Paulo; a demasiada ci\u00eancia te deixou louco\u00bb. Ao que Paulo respondeu: \u00abN\u00e3o estou louco, excelent\u00edssimo Festo, mas estou dizendo palavras de verdade e de bom senso. O rei, a quem falo com franqueza, conhece estas coisas; creio, de fato, que nada do que aconteceu lhe \u00e9 desconhecido, pois n\u00e3o s\u00e3o fatos ocorridos em segredo. Cr\u00eas tu nos profetas, \u00f3 rei Agripa? Sei que cr\u00eas\u00bb. Agripa disse a Paulo: \u00abAinda um pouco e me convences a me tornar crist\u00e3o\u00bb. E Paulo replicou: \u00abQue Deus me conceda que, seja em pouco tempo, seja em muito, n\u00e3o s\u00f3 tu, mas tamb\u00e9m todos aqueles que hoje me ouvem se tornem tais como eu sou, exceto por estas cadeias\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ent\u00e3o o rei, o governador, Berenice e os outros se levantaram e, retirando-se \u00e0 parte, disseram uns aos outros: \u00abEste homem n\u00e3o fez nada que mere\u00e7a morte ou pris\u00e3o\u00bb. E Agripa disse a Festo: \u00abEste homem poderia ter sido libertado, se n\u00e3o tivesse apelado a C\u00e9sar\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, o discurso de Paulo, que deveria converter todos aqueles ju\u00edzes, n\u00e3o serviu de nada, pois eles fecharam o cora\u00e7\u00e3o \u00e0s gra\u00e7as que Deus queria lhes conceder. Esta \u00e9 uma imagem daqueles crist\u00e3os que ouvem a palavra de Deus, mas n\u00e3o se resolvem a colocar em pr\u00e1tica as boas inspira\u00e7\u00f5es que \u00e0s vezes sentem nascer no cora\u00e7\u00e3o.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599974\">CAP\u00cdTULO XXII. S\u00e3o Paulo \u00e9 embarcado para Roma \u2014 Sofre uma terr\u00edvel tempestade, da qual \u00e9 salvo com seus companheiros \u2014 Ano de Jesus Cristo 60<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Quando Festo decidiu que Paulo seria conduzido a Roma por mar, ele, juntamente com muitos outros prisioneiros, foi confiado a um centuri\u00e3o chamado J\u00falio. Com ele estavam seus dois fi\u00e9is disc\u00edpulos Aristarco e Lucas. Embarcaram em um navio proveniente de Adram\u00edtio, cidade mar\u00edtima da \u00c1sia. Costeando a Palestina, chegaram a Sid\u00f4nia no dia seguinte. O centuri\u00e3o, que os acompanhava, logo percebeu que Paulo n\u00e3o era um homem comum e, admirando suas virtudes, come\u00e7ou a trat\u00e1-lo com respeito. Desembarcando em Sid\u00f4nia, deu-lhe plena liberdade para visitar os amigos, permanecer com eles e receber algum sustento.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De Sid\u00f4nia navegaram ao longo das costas da ilha de Chipre e, como o vento estava um tanto contr\u00e1rio, atravessaram o mar da Cil\u00edcia e da Panf\u00edlia, que \u00e9 uma parte do Mediterr\u00e2neo, e chegaram a Mira, cidade da L\u00edcia. Aqui o centuri\u00e3o, tendo encontrado um navio que de Alexandria ia para a It\u00e1lia com carga de trigo, transferiu para ele seus passageiros. Mas navegando muito lentamente, tiveram grande dificuldade para chegar at\u00e9 a ilha de Creta, hoje chamada C\u00e2ndia. Pararam em um lugar chamado Bons Portos, perto de Salmone, cidade daquela ilha.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sendo a esta\u00e7\u00e3o muito avan\u00e7ada, Paulo, certamente inspirado por Deus, exortava os marinheiros a n\u00e3o se arriscarem a continuar a navega\u00e7\u00e3o em um tempo t\u00e3o perigoso. Mas o piloto e o mestre do navio, n\u00e3o dando peso \u00e0s palavras de Paulo, afirmavam que n\u00e3o havia nada a temer. Partiram, portanto, com a inten\u00e7\u00e3o de alcan\u00e7ar outro porto daquela ilha chamado Fen\u00edcia, esperando poder passar l\u00e1 o inverno com mais seguran\u00e7a. Mas ap\u00f3s um breve trecho, o navio foi sacudido por um forte vento, ao qual n\u00e3o podendo resistir, os navegantes se viram obrigados a abandonar a si mesmos e o navio \u00e0 merc\u00ea das ondas. Chegando a Gavdos, uma ilhota pouco distante de Creta, perceberam que estavam pr\u00f3ximos a um banco de areia e, temendo romper o navio contra ele, esfor\u00e7aram-se para tomar outra dire\u00e7\u00e3o. Mas a tempestade se intensificando cada vez mais e o navio se agitando cada vez mais, todos se encontraram em grande perigo. Jogaram ao mar as mercadorias, depois os m\u00f3veis e os armamentos do navio para alivi\u00e1-lo. No entanto, ap\u00f3s v\u00e1rios dias, n\u00e3o aparecendo mais nem sol nem estrelas e com a tempestade se intensificando, parecia perdida toda a esperan\u00e7a de salva\u00e7\u00e3o. A esses males se acrescentava que, ou pela n\u00e1usea do mar em tempestade, ou pelo medo da morte, ningu\u00e9m pensava em comer, o que era prejudicial, pois os marinheiros n\u00e3o tinham for\u00e7as para governar o navio. Arrependeram-se ent\u00e3o de n\u00e3o terem seguido o conselho de Paulo, mas era tarde.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo, vendo o des\u00e2nimo entre os marinheiros e os passageiros, animado pela confian\u00e7a em Deus, os confortou dizendo: \u00abIrm\u00e3os, voc\u00eas deveriam ter acreditado em mim e n\u00e3o partir de Creta; assim ter\u00edamos evitado essas perdas e essas desgra\u00e7as. No entanto, tenham coragem; acreditem em mim, em nome de Deus eu lhes asseguro que nenhum de n\u00f3s se perder\u00e1; apenas o navio se despeda\u00e7ar\u00e1. Esta noite me apareceu o anjo do Senhor e me disse: \u201cN\u00e3o temas, Paulo, tu deves comparecer diante de C\u00e9sar; e eis que Deus te concede a vida de todos aqueles que navegam contigo\u201d. Portanto, tenham coragem, irm\u00e3os, tudo acontecer\u00e1 como me foi dito\u00bb.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entretanto, j\u00e1 se haviam passado quatorze dias desde que sofriam aquela tempestade, e cada um pensava estar sendo engolido pelas ondas a qualquer momento. Era meia-noite quando, na escurid\u00e3o das trevas, pareceu aos marinheiros que se aproximavam da terra. Para se certificar, lan\u00e7aram a sonda e encontraram vinte bra\u00e7as de profundidade, depois quinze. Temendo ent\u00e3o acabar contra algum rochedo, lan\u00e7aram quatro \u00e2ncoras para parar o navio, aguardando a luz do dia que lhes mostrasse onde estavam.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesse momento, os marinheiros tiveram a ideia de fugir do navio e tentar se salvar naquela terra que parecia pr\u00f3xima. Paulo, sempre guiado pela luz divina, dirigiu-se ao centuri\u00e3o e aos soldados dizendo: \u00abSe estes n\u00e3o permanecerem a bordo, voc\u00eas n\u00e3o poder\u00e3o ser salvos, porque Deus n\u00e3o quer ser tentado a fazer milagres\u00bb. A essas palavras todos silenciaram e seguiram o conselho de Paulo. Ao amanhecer, o santo Ap\u00f3stolo deu uma olhada \u00e0queles que estavam no navio e, vendo-os todos exaustos pelas fadigas e esgotados pelo jejum, disse-lhes: \u00abIrm\u00e3os, \u00e9 o d\u00e9cimo quarto dia que, esperando uma melhora, n\u00e3o comeram nada. Agora eu lhes pe\u00e7o que n\u00e3o se deixem morrer por inani\u00e7\u00e3o. J\u00e1 lhes assegurei, e ainda lhes asseguro, que nem um dos seus cabelos perecer\u00e1. Portanto, coragem\u00bb. Dito isso, Paulo tomou p\u00e3o, deu gra\u00e7as a Deus, partiu-o e, \u00e0 vista de todos, come\u00e7ou a comer. Ent\u00e3o todos se reanimaram e comeram juntos com ele; eram em n\u00famero de 276 pessoas.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas, continuando a f\u00faria dos ventos e das ondas, foram for\u00e7ados a jogar ao mar tamb\u00e9m o trigo que haviam guardado para seu uso. Feito dia, pareceram ver uma enseada e se esfor\u00e7aram para levar o navio at\u00e9 l\u00e1 e buscar salva\u00e7\u00e3o. Mas, empurrada pela for\u00e7a dos ventos, a nave encalhou em um banco de areia, come\u00e7ando a se romper e desintegrar. Vendo a \u00e1gua penetrar por v\u00e1rias fendas, os soldados queriam tomar o cruel partido de matar todos os prisioneiros, tanto para aliviar o navio quanto porque n\u00e3o fugissem ap\u00f3s se salvarem a nado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas o centuri\u00e3o, que amava Paulo e queria salv\u00e1-lo, n\u00e3o aprovou tal conselho, mas ordenou que aqueles que sabiam nadar se jogassem ao mar para alcan\u00e7ar a terra; aos outros foi dito que se agarrassem a t\u00e1buas ou a destro\u00e7os do navio; e assim chegaram todos s\u00e3os e salvos \u00e0 costa.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599975\">CAP\u00cdTULO XXIII. S\u00e3o Paulo na ilha de Malta \u2014 \u00c9 libertado da mordida de uma v\u00edbora \u2014 \u00c9 acolhido na casa de P\u00fablio, de quem cura o pai \u2014 Ano de Cristo 60<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Nem Paulo nem seus companheiros conheciam a terra em que haviam desembarcado ap\u00f3s sa\u00edrem das ondas. Informando-se com os primeiros habitantes que encontraram, souberam que aquele lugar se chamava Melita, hoje Malta, uma ilha do Mediterr\u00e2neo situada entre a \u00c1frica e a Sic\u00edlia. Ao saber da grande quantidade de n\u00e1ufragos que haviam sa\u00eddo das ondas como tantos peixes, os ilh\u00e9us correram e, embora fossem b\u00e1rbaros, se compadeceram ao v\u00ea-los t\u00e3o cansados, exaustos e tremendo de frio. Para aquec\u00ea-los, acenderam uma grande fogueira.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo, sempre atento a exercer obras de caridade, foi buscar um feixe de ramos secos. Enquanto os colocava no fogo, uma v\u00edbora que estava entre eles, entorpecida pelo frio, despertada pelo calor, saltou e se agarrou \u00e0 m\u00e3o de Paulo. Aqueles b\u00e1rbaros, vendo a serpente pendurada em sua m\u00e3o, pensaram mal dele e diziam uns aos outros: \u201cEste homem deve ser um assassino ou algum grande criminoso; escapou do mar, mas a vingan\u00e7a divina o atinge em terra\u201d. Mas qu\u00e3o cautelosos devemos ser ao julgar temerariamente nosso pr\u00f3ximo!<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo, reavivando a f\u00e9 em Jesus Cristo, que havia assegurado a seus Ap\u00f3stolos que nem serpentes nem venenos lhes causariam dano, sacudiu a m\u00e3o, lan\u00e7ou a v\u00edbora ao fogo e n\u00e3o sofreu nenhum mal. Aquela boa gente esperava que, entrando o veneno no sangue de Paulo, ele deveria inchar e cair morto ap\u00f3s poucos instantes, como acontecia a quem tivesse a desgra\u00e7a de ser mordido por aqueles animais. Esperaram por muito tempo e, vendo que nada lhe acontecia, mudaram de opini\u00e3o e diziam que Paulo era um grande deus descido do c\u00e9u. Talvez acreditassem que ele fosse H\u00e9rcules, considerado deus e protetor de Malta. Segundo as lendas, H\u00e9rcules, ainda crian\u00e7a, teria matado uma serpente, por isso chamado \u201cofiotoco\u201d, ou seja, matador de serpentes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Deus confirmou este primeiro prod\u00edgio com outro ainda mais estrepitoso e permanente: de fato, foi retirada toda for\u00e7a venenosa das serpentes daquela ilha, de modo que, a partir daquela \u00e9poca, n\u00e3o se teve mais a temer a mordida das v\u00edboras. Que mais? Diz-se que a pr\u00f3pria terra da ilha de Malta, levada para outros lugares, \u00e9 um rem\u00e9dio seguro contra as mordidas das v\u00edboras e das serpentes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O governador da ilha, um pr\u00edncipe chamado P\u00fablio, homem muito rico, ao saber do modo milagroso com que aqueles n\u00e1ufragos foram salvos das \u00e1guas e informado, ou tendo sido testemunha, do milagre da v\u00edbora, mandou convidar Paulo e seus companheiros, que haviam chegado em n\u00famero de 276. Recebeu-os em sua casa e os honrou por tr\u00eas dias, oferecendo-lhes alojamento e alimento \u00e0s suas custas. Deus n\u00e3o deixou sem recompensa a liberalidade e cortesia de P\u00fablio. Ele tinha seu pai de cama, aflito por febre e grave diarreia que o haviam levado \u00e0 beira da morte. Paulo foi ver o doente e, ap\u00f3s lhe dirigir palavras de caridade e consolo, come\u00e7ou a orar. Levantando-se ent\u00e3o, aproximou-se da cama, imp\u00f4s as m\u00e3os sobre o enfermo que imediatamente se curou. Assim, o bom velho, livre de todo mal e plenamente restabelecido, correu para abra\u00e7ar seu filho, bendizendo Paulo e o Deus que ele pregava. P\u00fablio, seu pai e sua fam\u00edlia (assim assegura S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo), cheios de gratid\u00e3o para com o grande Ap\u00f3stolo, se fizeram instruir na f\u00e9 e receberam o batismo das m\u00e3os de Paulo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Espalhada a not\u00edcia da cura milagrosa do pai de P\u00fablio, todos aqueles que estavam doentes ou tinham enfermos de qualquer doen\u00e7a iam ou se faziam levar aos p\u00e9s de Paulo, e ele, aben\u00e7oando-os em nome de Jesus Cristo, os mandava todos curados, bendizendo a Deus e crendo no Evangelho. Em pouco tempo, toda aquela ilha recebeu o batismo e, derrubados os templos dos \u00eddolos, ergueram outros dedicados ao culto do verdadeiro Deus.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599976\">CAP\u00cdTULO XXIV. Viagem de S\u00e3o Paulo de Malta a Siracusa \u2014 Prega\u00e7\u00e3o em R\u00e9gio \u2014 Sua chegada a Roma \u2014 Ano de Cristo 60<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Os malteses estavam cheios de entusiasmo por Paulo e pela doutrina por ele pregada, tanto que, al\u00e9m de abra\u00e7ar em massa a f\u00e9, competiam em fornecer a ele e a seus companheiros o que era necess\u00e1rio para o tempo que permaneceram em Malta e para a viagem at\u00e9 Roma. Paulo permaneceu em Malta tr\u00eas meses, devido ao inverno em que o mar n\u00e3o \u00e9 naveg\u00e1vel. Acredita-se comumente que nesse per\u00edodo ele tenha guiado P\u00fablio \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o crist\u00e3 e que, antes de partir, o tenha ordenado bispo daquela ilha; o que certamente foi de grande consola\u00e7\u00e3o para aqueles fi\u00e9is.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chegando a primavera e decidida a partida para Roma, o centuri\u00e3o J\u00falio se acertou com um navio que de Alexandria ia em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 It\u00e1lia e que tinha como ins\u00edgnia dois deuses chamados Castor e P\u00f3lux, que os id\u00f3latras acreditavam serem protetores da navega\u00e7\u00e3o. Com grande pesar dos malteses, embarcaram em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Sic\u00edlia, uma ilha muito pr\u00f3xima \u00e0 It\u00e1lia, e favorecidos pelo vento chegaram rapidamente a Siracusa, cidade principal desta ilha. Aqui o Evangelho j\u00e1 havia sido pregado por S\u00e3o Pedro, que havia ordenado bispo S\u00e3o Marciano. Este digno pastor quis hospedar em sua casa o santo Ap\u00f3stolo e fez-lhe celebrar os santos mist\u00e9rios em uma gruta, com grande alegria sua e daqueles fi\u00e9is. Uma igreja muito antiga, que ainda existe hoje naquela cidade, \u00e9 dedicada ao nosso santo Ap\u00f3stolo, e acredita-se que tenha sido edificada sobre a pr\u00f3pria gruta onde S\u00e3o Paulo havia pregado a palavra de Deus e celebrado os divinos mist\u00e9rios.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Partindo de Siracusa, contornaram a ilha da Sic\u00edlia, passaram pelo porto de Messina e chegaram com seus companheiros a R\u00e9gio, cidade e porto da Cal\u00e1bria, muito pr\u00f3ximo \u00e0 Sic\u00edlia. Aqui pararam por um dia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Historiadores acreditados daquele pa\u00eds contam muitas coisas maravilhosas realizadas por S\u00e3o Paulo naquela breve estadia; entre estas escolhemos o seguinte fato. Os regianos, que eram id\u00f3latras, ao ouvirem que em seu porto havia aportado um navio com a ins\u00edgnia de Castor e P\u00f3lux, muito honrados por eles, correram em massa para v\u00ea-lo. Paulo quis aproveitar aquela aflu\u00eancia para pregar Jesus Cristo, mas eles n\u00e3o queriam ouvi-lo. Ent\u00e3o ele, movido pela f\u00e9 naquele Jesus que por sua m\u00e3o havia operado tantas maravilhas, tirou um peda\u00e7o de vela e disse: \u201cPe\u00e7o que me deixem falar pelo menos pelo tempo que este pedacinho de vela levar para se consumir\u201d. Aceitaram a condi\u00e7\u00e3o com risadas e se aquietaram.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo colocou aquele pavio sobre uma coluna de pedra situada \u00e0 beira-mar. Imediatamente toda a coluna pegou fogo e apareceu uma grande chama, que lhe serviu de tocha ardente. Teve tempo abundante para ensin\u00e1-los, pois aqueles b\u00e1rbaros, perplexos por tal milagre, ficaram ouvindo Paulo mansamente quanto ele quis falar; e ningu\u00e9m se atreveu a perturb\u00e1-lo. A f\u00e9 foi acolhida, e no local do milagre foi erguida uma magn\u00edfica igreja ao verdadeiro Deus. No altar-mor foi colocada aquela coluna e, para conservar a mem\u00f3ria daquele prod\u00edgio, foi estabelecida uma solenidade com of\u00edcio pr\u00f3prio. Na missa se l\u00ea uma ora\u00e7\u00e3o que se traduz assim: \u201c\u00d3 Deus, que \u00e0 prega\u00e7\u00e3o do Ap\u00f3stolo Paulo, fazendo brilhar milagrosamente uma coluna de pedra, vos dignastes instruir os povos de R\u00e9gio com a luz da f\u00e9, concedei-nos, vos pedimos, merecer ter no c\u00e9u como intercessor aquele que tivemos como pregador do Evangelho na terra\u201d (Cesari. Atos dos Ap\u00f3stolos, vol. 2).<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ap\u00f3s aquele dia, convidados por um tempo favor\u00e1vel, Paulo e seus companheiros embarcaram para Pozzuoli, cidade da Camp\u00e2nia distante nove milhas de N\u00e1poles. Aqui foi grandemente consolado pelo encontro com v\u00e1rios que j\u00e1 haviam abra\u00e7ado a f\u00e9, pregada a eles por S\u00e3o Pedro alguns anos antes.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aqueles bons crist\u00e3os tamb\u00e9m sentiram grande consolo e pediram a Paulo que permanecesse com eles sete dias. Paulo, obtendo licen\u00e7a do centuri\u00e3o, ficou aquele tempo e, em dia festivo, falou \u00e0 numerosa assembleia daqueles fi\u00e9is.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As not\u00edcias da chegada do grande Ap\u00f3stolo na It\u00e1lia j\u00e1 haviam chegado a Roma, e os fi\u00e9is daquela cidade, desejosos de conhecer pessoalmente o autor da famosa carta de Corinto, vieram encontr\u00e1-lo no F\u00f3rum de \u00c1pio, hoje chamado Fossa Nova, que \u00e9 uma cidade distante cerca de 50 milhas de Roma. Continuando o caminho, chegaram \u00e0s Tr\u00eas Tabernas, lugar distante cerca de 30 milhas de Roma, onde encontrou muitos outros que haviam vindo at\u00e9 l\u00e1 para lhe fazer uma acolhida festiva.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Acompanhado por aquele grande n\u00famero de fi\u00e9is, que n\u00e3o se cansavam de admirar aquele grande ministro de Jesus Cristo, ele chegou a Roma como se fosse conduzido em triunfo. Aqui a f\u00e9 crist\u00e3, como foi dito, j\u00e1 havia sido pregada por S\u00e3o Pedro, que h\u00e1 dezoito anos mantinha a\u00ed a sede pontif\u00edcia.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599977\">CAP\u00cdTULO XXV. Paulo fala aos Judeus e lhes prega Jesus Cristo \u2014 Progresso do Evangelho em Roma \u2014 Ano de Cristo 61<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Chegando a Roma, Paulo foi entregue ao prefeito do pret\u00f3rio, ou seja, ao general das guardas pretorianas, assim chamadas porque tinham a especial responsabilidade de guardar a pessoa do imperador. O nome daquele ilustre romano era Afr\u00e2nio Burro, de quem a hist\u00f3ria faz men\u00e7\u00e3o muito honrosa.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O centuri\u00e3o J\u00falio se preocupou em recomendar Paulo \u00e0quele prefeito, que o tratou com singular\u00edssima benignidade. As cartas dos governadores F\u00e9lix e Festo, que certamente deveriam ter feito conhecer a inoc\u00eancia de Paulo, e o bom testemunho prestado pelo centuri\u00e3o J\u00falio, o colocaram em boa luz e rever\u00eancia perante Burro, que lhe deu plena liberdade de viver sozinho onde quisesse, com a condi\u00e7\u00e3o de ser vigiado por um soldado quando sa\u00edsse de casa. Paulo, por\u00e9m, tinha sempre no bra\u00e7o uma corrente quando estava em casa; se sa\u00edsse, a corrente que o prendia passava por tr\u00e1s para mant\u00ea-lo ligado ao soldado que o acompanhava, de modo que aquele soldado estava sempre atado a Paulo pela mesma corrente. O santo Ap\u00f3stolo alugou uma casa, na qual se hospedou com seus companheiros, entre os quais s\u00e3o especialmente mencionados Lucas, Aristarco e Tim\u00f3teo, aquele seu fiel disc\u00edpulo de Listra.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Tr\u00eas dias ap\u00f3s sua chegada, ele mandou convidar os principais Judeus que moravam em Roma, pedindo-lhes que viessem at\u00e9 ele em sua hospedagem. Reunidos em bom n\u00famero, ele lhes falou assim: \u201cN\u00e3o gostaria que o estado em que me vedes e as correntes com as quais estou preso vos causem uma m\u00e1 opini\u00e3o sobre mim. Deus sabe que n\u00e3o fiz nada contra meu povo, nem contra os costumes e as leis da minha p\u00e1tria. Fui acorrentado em Jerusal\u00e9m e depois entregue aos romanos. Estes me examinaram e, n\u00e3o tendo encontrado em mim nada que merecesse castigo, queriam me mandar livre; mas, opondo-se fortemente os Judeus, fui for\u00e7ado a apelar para C\u00e9sar.\u201d<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cEsta \u00e9 a \u00fanica raz\u00e3o pela qual fui conduzido a Roma. N\u00e3o quero aqui acusar meus irm\u00e3os, mas desejo fazer-vos saber o motivo da minha vinda e, ao mesmo tempo, falar-vos do Messias e da ressurrei\u00e7\u00e3o, que \u00e9 justamente o motivo destas correntes. Sobre este assunto desejo muito poder abrir meu cora\u00e7\u00e3o a v\u00f3s\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A tais palavras, os Judeus responderam: \u201cNa verdade, n\u00e3o nos chegaram cartas da Judeia, nem algu\u00e9m veio nos relatar algo contra ti. Estamos tamb\u00e9m no vivo desejo de conhecer teus sentimentos, pois sabemos que a seita dos crist\u00e3os \u00e9 contestada em todo o mundo\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo aceitou de bom grado o convite e, marcando-lhes um dia, reuniu um grande n\u00famero de Judeus em sua casa. Ele ent\u00e3o come\u00e7ou a expor a doutrina de Jesus Cristo, a divindade de sua pessoa, a necessidade da f\u00e9 nele, confirmando tudo com as palavras dos Profetas e de Mois\u00e9s. Tal era o desejo de ouvir e tal a ansiedade de pregar, que o discurso de Paulo se prolongou da manh\u00e3 at\u00e9 a noite. Entre os Judeus que o ouviam, muitos creram e abra\u00e7aram a f\u00e9, mas v\u00e1rios se opuseram fortemente a ele.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O santo Ap\u00f3stolo, vendo tanta obstina\u00e7\u00e3o por parte daqueles que deveriam ser os primeiros a crer, disse-lhes estas duras palavras: \u201cDesta inflex\u00edvel obstina\u00e7\u00e3o que vejo aqui entre v\u00f3s em Roma, como tamb\u00e9m encontrei em todas as partes do mundo, a culpa \u00e9 vossa. Esta vossa dureza j\u00e1 foi predita pelo profeta Isa\u00edas, quando disse: \u201cVai a este povo e dir\u00e1s: Ouvireis com os ouvidos, mas n\u00e3o entendereis; vereis com os olhos, mas n\u00e3o compreendereis nada; porque o cora\u00e7\u00e3o deste povo se endureceu, taparam os ouvidos e fecharam os olhos\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cEstejam certos\u201d, prosseguia Paulo, \u201cque a salva\u00e7\u00e3o que v\u00f3s n\u00e3o quereis, Deus n\u00e3o a dar\u00e1 a v\u00f3s; ao contr\u00e1rio, a levar\u00e1 aos Gentios, que a acolher\u00e3o\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As palavras de Paulo foram quase in\u00fateis para os Judeus. Eles partiram, continuando as disputas e as v\u00e3s discuss\u00f5es sobre o que ouviram, sem abrir o cora\u00e7\u00e3o \u00e0 gra\u00e7a que lhes era oferecida. Portanto, profundamente entristecido, Paulo se voltou para os Gentios, que com humildade de cora\u00e7\u00e3o iam ouvi-lo e em grande n\u00famero abra\u00e7avam a f\u00e9.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O santo Ap\u00f3stolo expressa ele mesmo a grande consola\u00e7\u00e3o pelo progresso que fazia o Evangelho durante sua pris\u00e3o, escrevendo aos fi\u00e9is de Filipos: \u201cQuando v\u00f3s, irm\u00e3os, soubestes que eu estava preso em Roma, sentistes pena, n\u00e3o tanto por minha pessoa, quanto pela prega\u00e7\u00e3o do Evangelho. Sabei, portanto, que \u00e9 bem ao contr\u00e1rio. Minhas correntes serviram \u00e0 honra de Jesus Cristo e serviram para melhor faz\u00ea-lo conhecer n\u00e3o somente \u00e0queles da cidade que vinham a mim para se instru\u00edrem na f\u00e9, mas tamb\u00e9m na corte e no pal\u00e1cio do pr\u00f3prio imperador. Sobre isso deveis alegrar-vos comigo e agradecer a Deus\u201d.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599978\">CAP\u00cdTULO XXVI. S\u00e3o Lucas \u2014 Os Filipenses enviam ajuda a S\u00e3o Paulo \u2014 Doen\u00e7a e cura de Epafrodito \u2014 Carta aos Filipenses \u2014 Convers\u00e3o de On\u00e9simo \u2014 Ano de Jesus Cristo 61<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Quanto temos dito at\u00e9 agora sobre as a\u00e7\u00f5es de S\u00e3o Paulo foi quase literalmente extra\u00eddo do livro dos Atos dos Ap\u00f3stolos, escrito por S\u00e3o Lucas. Este pregador do Evangelho continuou a ser fiel companheiro de S\u00e3o Paulo; ele pregou o Evangelho na It\u00e1lia, na Dalm\u00e1cia, na Maced\u00f4nia e terminou a vida com o mart\u00edrio em Patras, cidade da Acaia. Era m\u00e9dico, pintor e escultor. Existem muitas est\u00e1tuas e pinturas da Bem-Aventurada Virgem veneradas em diferentes pa\u00edses que s\u00e3o atribu\u00eddas a S\u00e3o Lucas. Voltemos a S\u00e3o Paulo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dois fatos s\u00e3o especialmente memor\u00e1veis na vida deste santo Ap\u00f3stolo enquanto estava preso em Roma: um diz respeito aos fi\u00e9is de Filipos, o outro \u00e0 convers\u00e3o de On\u00e9simo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre os muitos povos a quem o santo Ap\u00f3stolo pregou o Evangelho, nenhum lhe deu maiores sinais de afeto do que os Filipenses. Eles j\u00e1 lhe haviam fornecido copiosas esmolas quando ele pregava em sua cidade, em Tessal\u00f4nica e em Corinto.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando souberam que Paulo estava preso em Roma, imaginaram que ele estivesse em necessidade; por isso, fizeram uma consider\u00e1vel coleta e, para que fosse mais cara e honrosa, a enviaram pelas m\u00e3os de Santo Epafrodito, seu bispo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este santo prelado, ao chegar a Roma, encontrou Paulo que n\u00e3o s\u00f3 precisava de ajuda financeira, mas tamb\u00e9m de assist\u00eancia pessoal, pois estava aflito por uma grave enfermidade causada pela pris\u00e3o. Epafrodito se dedicou a servi-lo com tanta solicitude, caridade e fervor, que, tornando-se ele mesmo doente, estava \u00e0 beira da morte. Mas Deus quis recompensar a caridade do santo e fazer com que n\u00e3o se acrescentasse afli\u00e7\u00e3o sobre afli\u00e7\u00e3o ao cora\u00e7\u00e3o de Paulo, e lhe devolveu a sa\u00fade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os Filipenses, ao saberem que Epafrodito estava mortalmente doente, ficaram imersos na mais profunda consterna\u00e7\u00e3o. Por isso, Paulo achou por bem envi\u00e1-lo de volta a Filipos com uma carta, na qual explica o motivo que o levou a devolver-lhes Epafrodito, a quem chama de seu irm\u00e3o, cooperador, colega e seu ap\u00f3stolo. Ele os exorta, ent\u00e3o, a receb\u00ea-lo com toda alegria e a honrar toda pessoa de semelhante m\u00e9rito, que, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o dele, esteja pronta a dar a pr\u00f3pria vida pelo servi\u00e7o de Cristo. Ele tamb\u00e9m diz aos Filipenses que em breve enviaria Tim\u00f3teo, para que lhe trouxesse not\u00edcias precisas daquela comunidade; afirma ainda que esperava ser libertado e poder v\u00ea-los mais uma vez.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Epafrodito foi acolhido pelos Filipenses como um anjo enviado pelo Senhor, e a carta de Paulo encheu o cora\u00e7\u00e3o daqueles fi\u00e9is da maior consola\u00e7\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O outro fato que torna c\u00e9lebre a pris\u00e3o de S\u00e3o Paulo foi a convers\u00e3o de On\u00e9simo, servo de Fil\u00eamon, rico cidad\u00e3o de Colossos, cidade da Fr\u00edgia. Este Fil\u00eamon havia sido conquistado para a f\u00e9 por S\u00e3o Paulo e correspondeu t\u00e3o bem \u00e0 gra\u00e7a do Senhor que era considerado como modelo dos crist\u00e3os, e sua casa era chamada de igreja porque estava sempre aberta para as pr\u00e1ticas de piedade e para o exerc\u00edcio da caridade em rela\u00e7\u00e3o aos pobres. Ele tinha muitos escravos que o serviam, e entre eles um chamado On\u00e9simo. Este, tendo-se dado infelizmente aos v\u00edcios, esperou a oportunidade de fugir, e roubando uma grande quantia de dinheiro do seu senhor, escapuliu-se para Roma. L\u00e1, entregando-se \u00e0 devassid\u00e3o e a outros excessos, consumiu o dinheiro roubado e em breve se encontrou na mais profunda mis\u00e9ria. Por acaso, ouviu falar de S\u00e3o Paulo, que talvez tivesse visto e servido na casa de seu senhor. A caridade e benignidade do santo Ap\u00f3stolo lhe inspiraram confian\u00e7a, e decidiu se apresentar a ele. Foi e se lan\u00e7ou de joelhos aos seus p\u00e9s, manifestou seu erro e o estado infeliz de sua alma, e se entregou completamente a ele. Paulo reconheceu naquele escravo um verdadeiro filho pr\u00f3digo. Recebeu-o com bondade, como fazia com todos, e depois de faz\u00ea-lo conhecer a gravidade de sua falta e o infeliz estado de sua alma, dedicou-se a instru\u00ed-lo na f\u00e9. Quando viu nele as disposi\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias para se tornar um bom crist\u00e3o, batizou-o na mesma pris\u00e3o. O bom On\u00e9simo, ap\u00f3s ter recebido a gra\u00e7a do batismo, permaneceu cheio de gratid\u00e3o e afeto por seu pai e mestre, e come\u00e7ou a dar-lhe provas disso servindo-o lealmente nas necessidades de sua pris\u00e3o. Paulo desejava mant\u00ea-lo ao seu lado, mas n\u00e3o queria faz\u00ea-lo sem a permiss\u00e3o de Fil\u00eamon. Pensou, portanto, em enviar o pr\u00f3prio On\u00e9simo de volta ao seu senhor. E como ele n\u00e3o se atrevia a se apresentar a ele, Paulo quis acompanh\u00e1-lo com uma carta, dizendo-lhe: \u201cTome esta carta e v\u00e1 ao seu senhor, e tenha certeza de que voc\u00ea obter\u00e1 mais do que deseja\u201d.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599979\">CAP\u00cdTULO XXVII. Carta de S\u00e3o Paulo a Fil\u00eamon \u2014 Ano de Jesus Cristo 62<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>A carta de S\u00e3o Paulo a Fil\u00eamon \u00e9 a mais f\u00e1cil e breve de suas cartas, e como pela beleza dos sentimentos pode servir de modelo a qualquer crist\u00e3o, a oferecemos inteira ao benevolente leitor. \u00c9 do seguinte teor:<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cPaulo, prisioneiro do Cristo Jesus, e o irm\u00e3o Tim\u00f3teo, a Fil\u00eamon, nosso amado colaborador, \u00e0 nossa querida irm\u00e3 \u00c1pia e a Arquipo, nosso companheiro de luta, e \u00e0 igreja que se re\u00fane em tua casa: para v\u00f3s, gra\u00e7a e paz da parte de Deus, nosso Pai, e do Senhor Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dou continuamente gra\u00e7as a meu Deus, fazendo men\u00e7\u00e3o de ti em minhas ora\u00e7\u00f5es, pois ou\u00e7o falar do teu amor e da tua f\u00e9, f\u00e9 no Senhor Jesus e amor para com todos os santos. Que a tua comunh\u00e3o na f\u00e9 seja eficaz, fazendo-te conhecer todo o bem que somos capazes de realizar para o Cristo. De fato, tive grande alegria e consola\u00e7\u00e3o por causa do teu amor fraterno, pois reconfortaste o cora\u00e7\u00e3o dos santos, irm\u00e3o.&nbsp; Por isso, embora em Cristo eu me sinta muito \u00e0 vontade para te ordenar o que deves fazer, prefiro apelar ao teu amor. Eu, Paulo, na condi\u00e7\u00e3o de idoso e, agora, tamb\u00e9m, prisioneiro do Cristo Jesus,<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; fa\u00e7o-te um pedido em favor do meu filho On\u00e9simo, a quem gerei na pris\u00e3o. Outrora, ele te foi in\u00fatil mas, agora, ele \u00e9 \u00fatil a ti e a mim. Eu o estou mandando de volta a ti: ele \u00e9 como o meu pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o. Gostaria de ret\u00ea-lo junto de mim, para que, em teu lugar, ele me servisse, enquanto carrego estas correntes por causa do evangelho. Mas n\u00e3o quis fazer nada sem o teu acordo, para que o teu benef\u00edcio n\u00e3o pare\u00e7a for\u00e7ado, e sim, espont\u00e2neo. Talvez On\u00e9simo tenha sido afastado de ti por algum tempo, precisamente para que o recebas de volta para sempre: agora, n\u00e3o mais como escravo, mas muito mais do que isto, como irm\u00e3o querido; querido especialmente por mim, e muito mais por ti, n\u00e3o s\u00f3 segundo a carne, mas sobretudo no Senhor!<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Se, pois, me tens como companheiro, recebe-o como se fosse a mim mesmo. E se ele te deu algum preju\u00edzo ou te deve alguma coisa, p\u00f5e isso na minha conta. Eu, Paulo, o escrevo de pr\u00f3prio punho: sou eu que pagarei. Isto, para n\u00e3o te dizer que tu tamb\u00e9m tens uma d\u00edvida para comigo: a tua pr\u00f3pria pessoa! Sim, irm\u00e3o, que eu tire algum proveito de ti no Senhor: reconforta-me em Cristo!&nbsp; Escrevo-te, contando com a tua obedi\u00eancia e sabendo que far\u00e1s ainda mais do que pe\u00e7o. Ao mesmo tempo, prepara-me tamb\u00e9m um alojamento, pois espero que, gra\u00e7as \u00e0s vossas ora\u00e7\u00f5es, vos serei restitu\u00eddo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Epafras, meu companheiro de pris\u00e3o, em Cristo Jesus, te sa\u00fada; igualmente, Marcos, Aristarco, Demas e Lucas, meus colaboradores. A gra\u00e7a do Senhor Jesus Cristo esteja com o vosso esp\u00edrito. Am\u00e9m.\u201d<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Epafras, de quem fala aqui S\u00e3o Paulo, havia sido convertido \u00e0 f\u00e9 por ele quando pregava na Fr\u00edgia. Tornando-se depois ap\u00f3stolo de sua p\u00e1tria, foi feito bispo de Colossos. Foi a Roma para visitar S\u00e3o Paulo e foi preso com ele. Depois de ser libertado, voltou a governar sua Igreja de Colossos, onde concluiu a vida com a coroa do mart\u00edrio.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Marcos, de quem se fala aqui, \u00e9 Jo\u00e3o Marcos, que depois de ter trabalhado muito com S\u00e3o Barnab\u00e9 na prega\u00e7\u00e3o do Evangelho, uniu-se a S\u00e3o Paulo, reparando assim a fraqueza demonstrada quando abandonou S\u00e3o Paulo e S\u00e3o Barnab\u00e9 para voltar para casa.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ao chegar On\u00e9simo a Colossos, apresentou-se com a carta ao seu senhor, que o acolheu com a m\u00e1xima amorosidade, contente por reaver n\u00e3o um escravo, mas um crist\u00e3o. Ele lhe deu pleno perd\u00e3o e, como da carta do santo Ap\u00f3stolo havia entendido que On\u00e9simo poderia prestar algum servi\u00e7o, o enviou de volta a ele com mil sauda\u00e7\u00f5es e b\u00ean\u00e7\u00e3os.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Este servo se mostrou verdadeiramente fiel \u00e0 voca\u00e7\u00e3o de crist\u00e3o. S\u00e3o Paulo, vendo-o adornado das virtudes e da ci\u00eancia necess\u00e1ria para ser um pregador do Evangelho, o ordenou sacerdote e mais tarde o consagrou bispo de \u00c9feso. Ele recebeu a coroa do mart\u00edrio, e a Igreja cat\u00f3lica faz mem\u00f3ria dele no dia 16 de fevereiro.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599980\">CAP\u00cdTULO XXVIII. S\u00e3o Paulo escreve aos Colossenses, aos Ef\u00e9sios e aos Hebreus \u2014 Ano de Cristo 62<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>O zelo do nosso Ap\u00f3stolo era incans\u00e1vel e, como suas correntes o mantinham em Roma, ele se esfor\u00e7ava para enviar seus disc\u00edpulos ou escrever cartas onde quer que conhecesse a necessidade. Entre outras coisas, foi-lhe relatado que em Colossos, onde habitava Fil\u00eamon, surgiram quest\u00f5es devido a alguns falsos pregadores que queriam obrigar \u00e0 circuncis\u00e3o e \u00e0s cerim\u00f4nias legais todos os gentios que aderiam \u00e0 f\u00e9. Al\u00e9m disso, haviam introduzido um culto supersticioso dos anjos. Paulo, como Ap\u00f3stolo dos Gentios, informado dessas perigosas novidades, escreveu uma carta que deve ser lida integralmente para se apreciar a beleza e a sublimidade dos sentimentos. Merecem, por\u00e9m, ser notadas as palavras que dizem respeito \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o: \u201cAs coisas\u201d, ele diz, \u201cmais importantes para mim, ser\u00e3o ditas a voc\u00eas verbalmente por T\u00edquico e On\u00e9simo, que para tal fim est\u00e3o sendo enviados a voc\u00eas\u201d. Essas palavras demonstram como o Ap\u00f3stolo tinha coisas de grande import\u00e2ncia n\u00e3o escritas, mas que enviava para comunicar verbalmente na forma de tradi\u00e7\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Uma coisa que causou n\u00e3o leve inquieta\u00e7\u00e3o ao nosso Ap\u00f3stolo foram as not\u00edcias de \u00c9feso. Quando se encontrava em Mileto e convocou os principais pastores, havia dito a eles que, devido aos males que deveria suportar, acreditava que n\u00e3o veriam mais seu rosto. Isso deixou aqueles afei\u00e7oados fi\u00e9is na maior consterna\u00e7\u00e3o. O santo Ap\u00f3stolo, ciente da tristeza que afligia os ef\u00e9sios, escreveu uma carta para consol\u00e1-los.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entre outras coisas, recomenda considerar Jesus Cristo como cabe\u00e7a da Igreja e manter-se unido a ele na pessoa de seus Ap\u00f3stolos. Recomenda calorosamente que se mantenham longe de certos pecados que n\u00e3o devem ser nem mesmo nomeados entre os crist\u00e3os: \u201cA fornica\u00e7\u00e3o\u201d, ele diz, \u201ca impureza e a avareza n\u00e3o sejam nem mesmo nomeadas entre voc\u00eas\u201d (cap\u00edtulo 5, vers\u00edculo 5).<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Dirigindo-se ent\u00e3o aos jovens, diz estas afetuosas palavras: \u201cFilhos, eu vos recomendo no Senhor, sede obedientes a vossos pais, porque \u00e9 coisa justa. Honra teu pai e tua m\u00e3e, diz o Senhor. Se observares este mandamento, ser\u00e1s feliz e viver\u00e1s longamente sobre a terra\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Depois fala assim aos pais: \u201cE voc\u00eas, pais, n\u00e3o irritem seus filhos, mas os criem na disciplina e na instru\u00e7\u00e3o do Senhor. Voc\u00eas, servos, obede\u00e7am a seus senhores como a Cristo, n\u00e3o para serem vistos pelos homens, mas como servos de Cristo, fazendo a vontade de Deus de cora\u00e7\u00e3o. Voc\u00eas, patr\u00f5es, fa\u00e7am o mesmo para com eles, deixando de lado as amea\u00e7as, sabendo que o Senhor deles e o seu est\u00e1 nos c\u00e9us, e que junto dele n\u00e3o h\u00e1 prefer\u00eancia de pessoas\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Esta carta foi levada a \u00c9feso por T\u00edquico, aquele fiel disc\u00edpulo que, com On\u00e9simo, havia levado a carta escrita aos Colossenses.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; De Roma, ele tamb\u00e9m escreveu sua carta aos Hebreus, ou seja, aos judeus da Palestina convertidos \u00e0 f\u00e9. Seu objetivo era consol\u00e1-los e preveni-los contra as sedu\u00e7\u00f5es de alguns outros judeus. Demonstra como os sacrif\u00edcios, as profecias e a antiga lei se realizaram em Jesus Cristo e que a ele somente se deve render honra e gl\u00f3ria por todos os s\u00e9culos. Insiste para que permane\u00e7am constantemente unidos ao Salvador pela f\u00e9, sem a qual ningu\u00e9m pode agradar a Deus; mas enfatiza que essa f\u00e9 n\u00e3o justifica sem as obras.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599981\">CAP\u00cdTULO XXIX. S\u00e3o Paulo \u00e9 libertado \u2014 Mart\u00edrio de S\u00e3o Tiago, o Menor \u2014 Ano de Cristo 63<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>J\u00e1 se haviam passado quatro anos desde que o santo Ap\u00f3stolo estava preso: dois os passou em Cesareia e dois em Roma. Nero o havia feito comparecer diante de seu tribunal e reconhecido sua inoc\u00eancia; mas, fosse por \u00f3dio \u00e0 religi\u00e3o crist\u00e3 ou pela indiferen\u00e7a daquele cruel imperador, continuou a enviar Paulo de volta \u00e0 pris\u00e3o. Finalmente, resolveu conceder-lhe plena liberdade. Comumente se atribui essa decis\u00e3o aos grandes remorsos que aquele tirano sentia pelas atrocidades cometidas. Ele chegou at\u00e9 a mandar assassinar sua m\u00e3e. Ap\u00f3s tais crimes, sentia os mais agudos remorsos, pois os homens, por mais \u00edmpios que sejam, n\u00e3o podem deixar de sentir em si os tormentos da consci\u00eancia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nero, portanto, para apaziguar de alguma forma sua alma, pensou em realizar algumas boas obras e, entre outras, conceder a liberdade a Paulo. Assim, feito senhor de si mesmo, o grande Ap\u00f3stolo usou da liberdade para levar com maior ardor a luz do Evangelho a outras na\u00e7\u00f5es mais remotas.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Talvez algu\u00e9m se pergunte o que os judeus de Jerusal\u00e9m fizeram quando viram Paulo retirado de suas m\u00e3os. Direi em breve. Eles dirigiram toda a sua f\u00faria contra S\u00e3o Tiago, chamado o Menor, bispo daquela cidade. O governador Festo havia morrido; seu sucessor ainda n\u00e3o havia assumido o cargo. Os judeus aproveitaram aquela ocasi\u00e3o para se apresentar em massa ao sumo sacerdote, chamado Anano, filho daquele An\u00e1s e cunhado de Caif\u00e1s, que haviam feito condenar o Salvador.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Decididos a faz\u00ea-lo condenar, temiam grandemente o povo que o amava como um terno pai e se espelhava em suas virtudes; era chamado por todos de o Justo. A hist\u00f3ria nos diz que ele orava com tal assiduidade que a pele de seus joelhos havia se tornado como a de um camelo. N\u00e3o bebia vinho nem outras bebidas embriagantes; era rigoroso no jejum, moderado na alimenta\u00e7\u00e3o, na bebida e no vestir-se. Tudo que era sup\u00e9rfluo doava aos pobres.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Apesar dessas belas qualidades, aqueles obstinados encontraram um modo de dar \u00e0 senten\u00e7a pelo menos uma apar\u00eancia de justi\u00e7a com uma ast\u00facia digna deles. De acordo com o sumo sacerdote, os saduceus, os fariseus e os escribas organizaram um tumulto e correram at\u00e9 Tiago, dizendo entre mil gritos: \u201cVoc\u00ea deve imediatamente tirar do erro este inumer\u00e1vel povo, que acredita que Jesus \u00e9 o Messias prometido. Como voc\u00ea \u00e9 chamado o Justo, todos acreditam em voc\u00ea; portanto, suba ao topo deste templo, para que todos possam v\u00ea-lo e ouvi-lo, e d\u00ea testemunho da verdade\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Assim, o conduziram a uma alta varanda do lado de fora do templo e, quando o viram l\u00e1 em cima, exclamaram fingindo: \u201c\u00d3 homem justo, diga-nos o que se deve crer sobre Jesus crucificado\u201d. O lugar n\u00e3o poderia ser mais solene. Ou renegar a f\u00e9, ou, pronunciando uma palavra a favor de Jesus Cristo, ser imediatamente condenado \u00e0 morte. Mas o zelo do santo Ap\u00f3stolo soube tirar todo o proveito daquela ocasi\u00e3o.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cE por que\u201d, exclamou em alta voz, \u201cpor que me interrogam sobre Jesus, Filho do homem e ao mesmo tempo Filho de Deus? Em v\u00e3o fingem colocar em d\u00favida minha f\u00e9 neste verdadeiro Redentor. Eu declaro diante de voc\u00eas que ele est\u00e1 no c\u00e9u, assentado \u00e0 direita de Deus Onipotente, de onde vir\u00e1 a julgar todo o mundo\u201d. Muitos creram em Jesus Cristo e, na simplicidade de seus cora\u00e7\u00f5es, come\u00e7aram a exclamar: \u201cGl\u00f3ria ao Filho de Davi\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os judeus, frustrados em suas expectativas, come\u00e7aram a gritar furiosamente: \u201cEle blasfemou! Que seja imediatamente lan\u00e7ado e morto\u201d. Correram logo e o empurraram para baixo na laje da pra\u00e7a.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; N\u00e3o morreu instantaneamente e, conseguindo se levantar, ajoelhou-se e, a exemplo do Salvador, invocava a divina miseric\u00f3rdia sobre seus inimigos, dizendo: \u201cPerdoa-os, Senhor, porque n\u00e3o sabem o que fazem\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ent\u00e3o, os furiosos inimigos, instigados pelo pont\u00edfice, lhe lan\u00e7aram uma chuva de pedras at\u00e9 que um, dando-lhe um golpe de ma\u00e7a na cabe\u00e7a, o estendeu morto. Muitos fi\u00e9is foram trucidados junto a este Ap\u00f3stolo, sempre pela mesma causa, ou seja, em \u00f3dio ao cristianismo (cf. Eus\u00e9bio, Hist\u00f3ria Eclesi\u00e1stica).<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599982\">CAP\u00cdTULO XXX. Outras viagens de S\u00e3o Paulo \u2014 Escreve a Tim\u00f3teo e a Tito \u2014 Seu retorno a Roma \u2014 Ano de Cristo 68<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Liberado das correntes da pris\u00e3o, S\u00e3o Paulo dirigiu-se para aqueles lugares onde tinha inten\u00e7\u00e3o de ir. Foi, portanto, \u00e0 Judeia visitar os judeus, mas ficou pouco, pois aqueles obstinados j\u00e1 estavam reacendendo a primitiva persegui\u00e7\u00e3o. Foi a Colossos, conforme a promessa feita a Fil\u00eamon. Dirigiu-se a Creta, onde pregou o Evangelho e onde ordenou Tito como bispo daquela ilha. Retornou \u00e0 \u00c1sia para visitar as Igrejas de Tr\u00f4ade, Ic\u00f4nio, Listra, Mileto, Corinto, Nic\u00f3polis e Filipos. Desta cidade, escreveu uma carta ao seu Tim\u00f3teo, que havia ordenado bispo de \u00c9feso.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesta carta, o Ap\u00f3stolo lhe d\u00e1 diversas regras para a consagra\u00e7\u00e3o dos bispos e sacerdotes e para o exerc\u00edcio de muitas coisas relacionadas \u00e0 disciplina eclesi\u00e1stica. Quase ao mesmo tempo, escreveu uma carta a Tito, bispo de Creta, dando-lhe quase os mesmos conselhos dados a Tim\u00f3teo e convidando-o a vir logo v\u00ea-lo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Acredita-se comumente que ele tenha ido pregar na Espanha e em muitos outros lugares. Empregou cinco anos em miss\u00f5es e fadigas apost\u00f3licas. Mas os fatos particulares dessas viagens, as convers\u00f5es operadas por sua causa nos v\u00e1rios pa\u00edses, n\u00e3o nos s\u00e3o conhecidos. Dizemos apenas com Santo Anselmo que \u201co santo Ap\u00f3stolo correu do Mar Vermelho at\u00e9 o Oceano, levando em toda parte a luz da verdade. Ele foi como o sol que ilumina todo o mundo do Oriente ao Ocidente, de modo que foram mais o mundo e os povos a faltar a Paulo, do que Paulo a faltar a algum dos homens. Esta \u00e9 a medida de seu zelo e de sua caridade\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Enquanto Paulo estava ocupado nas fadigas do apostolado, soube que em Roma havia estourado uma feroz persegui\u00e7\u00e3o sob o imp\u00e9rio de Nero. Paulo imediatamente imaginou a grave necessidade de sustentar a f\u00e9 em tais ocasi\u00f5es e tomou imediatamente o caminho para Roma.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chegando \u00e0 It\u00e1lia, encontrou por toda parte publicados os editais de Nero contra os fi\u00e9is. Sentia os crimes e as cal\u00fanias que lhes eram imputadas; via por toda parte cruzes, fogueiras e outros tipos de supl\u00edcios preparados para os confessores da f\u00e9, e isso dobrava em Paulo o desejo de estar logo entre aqueles fi\u00e9is. Assim que chegou, como quem oferecia a Deus a si mesmo, come\u00e7ou a pregar nas pra\u00e7as p\u00fablicas, nas sinagogas, tanto para os gentios quanto para os judeus. A estes \u00faltimos, que quase sempre se mostraram obstinados, pregava o iminente cumprimento das profecias do Salvador, que previam a destrui\u00e7\u00e3o da cidade e do templo de Jerusal\u00e9m com a dispers\u00e3o de toda aquela na\u00e7\u00e3o. Sugeriu, por\u00e9m, um meio para evitar os flagelos divinos: converter-se de cora\u00e7\u00e3o e reconhecer seu Salvador naquele Jesus que haviam crucificado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Aos gentios pregava a bondade e a miseric\u00f3rdia de Deus, que os convidava \u00e0 penit\u00eancia; por isso, exortava a abandonar o pecado, a mortificar as paix\u00f5es e a abra\u00e7ar o Evangelho. A tal prega\u00e7\u00e3o, confirmada por cont\u00ednuos milagres, os ouvintes vinham em massa pedir o batismo. Assim, a Igreja, perseguida com ferro, fogo e mil terrores, aparecia mais bela e florescente e aumentava a cada dia o n\u00famero de seus eleitos.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O que mais dizer? S\u00e3o Paulo levou seu zelo e sua caridade a tal ponto que conseguiu ganhar um certo Pr\u00f3culo, intendente do pal\u00e1cio imperial, e a pr\u00f3pria esposa do imperador. Estes abra\u00e7aram com ardor a f\u00e9 e morreram m\u00e1rtires.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599983\">CAP\u00cdTULO XXXI. S\u00e3o Paulo \u00e9 novamente aprisionado \u2014 Escreve a segunda carta a Tim\u00f3teo \u2014 Seu mart\u00edrio \u2014 Ano de Cristo 69-70<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Com S\u00e3o Paulo, tamb\u00e9m veio a Roma S\u00e3o Pedro, que h\u00e1 25 anos a\u00ed mantinha a sede da cristandade. Ele tamb\u00e9m havia ido a outros lugares pregar a f\u00e9 e, ao ser informado da persegui\u00e7\u00e3o levantada contra os crist\u00e3os, voltou imediatamente a Roma. Trabalharam em comum acordo os dois pr\u00edncipes dos Ap\u00f3stolos at\u00e9 que Nero, irritado pelas convers\u00f5es que haviam sido feitas em sua corte e mais ainda pela morte ignominiosa que coube ao mago Sim\u00e3o (como narrado na vida de S\u00e3o Pedro), ordenou que fossem procurados com o m\u00e1ximo rigor S\u00e3o Pedro e S\u00e3o Paulo e conduzidos \u00e0 pris\u00e3o Mamertina, aos p\u00e9s do monte Capitolino. Nero tinha em mente fazer conduzir os dois Ap\u00f3stolos ao supl\u00edcio imediatamente, mas foi desviado por assuntos pol\u00edticos e por uma conspira\u00e7\u00e3o tramada contra ele. Al\u00e9m disso, havia deliberado tornar glorioso seu nome cortando o istmo de Corinto, uma l\u00edngua de terra larga cerca de nove milhas. Esta empreitada n\u00e3o p\u00f4de ser realizada, mas deixou um ano de tempo a Paulo para ganhar ainda mais almas para Jesus Cristo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ele conseguiu converter muitos prisioneiros, alguns guardas e outros personagens de destaque, que por desejo de se instru\u00edrem ou por curiosidade iam ouvi-lo, pois S\u00e3o Paulo durante sua pris\u00e3o podia ser livremente visitado e escrevia cartas onde conhecia a necessidade. \u00c9 da pris\u00e3o de Roma que escreveu a segunda carta a Tim\u00f3teo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Nesta carta, o Ap\u00f3stolo anuncia pr\u00f3xima sua morte, demonstra vivo desejo de que o mesmo Tim\u00f3teo v\u00e1 at\u00e9 ele para assisti-lo, estando quase abandonado por todos. Esta carta pode ser chamada de testamento de S\u00e3o Paulo; e, entre muitas coisas, fornece tamb\u00e9m uma das maiores provas a favor da tradi\u00e7\u00e3o. \u201cO que voc\u00ea ouviu de mim\u201d, lhe diz, \u201cprocure transmitir a homens fi\u00e9is e capazes de ensin\u00e1-lo a outros depois de voc\u00ea\u201d. Dessas palavras aprendemos que, al\u00e9m da doutrina escrita, existem outras verdades n\u00e3o menos \u00fateis e certas que devem ser transmitidas oralmente, em forma de tradi\u00e7\u00e3o, com uma sucess\u00e3o ininterrupta por todos os tempos futuros.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; D\u00e1 ent\u00e3o muitos conselhos \u00fateis a Tim\u00f3teo para a disciplina da Igreja, para reconhecer v\u00e1rias heresias que estavam se espalhando entre os crist\u00e3os. E, para mitigar a ferida que a not\u00edcia de sua iminente morte lhe causaria, o encoraja assim: \u201cN\u00e3o te entriste\u00e7as por mim, antes, se me queres bem, alegra-te no Senhor. Combati o bom combate, terminei a minha corrida, conservei a f\u00e9. Agora n\u00e3o me resta sen\u00e3o receber a coroa de justi\u00e7a que o Senhor, justo juiz, me entregar\u00e1 naquele dia, quando, tendo oferecido em sacrif\u00edcio a minha vida, me apresentarei a ele. Tal coroa n\u00e3o ser\u00e1 dada apenas a mim, mas a todos aqueles que, com boas obras, se preparam para receb\u00ea-la em sua vinda\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo teve em sua pris\u00e3o um conforto de um certo On\u00e9siforo. Este, tendo vindo a Roma e sabendo que Paulo, seu antigo mestre e pai em Jesus Cristo, estava na pris\u00e3o, foi visit\u00e1-lo e se ofereceu para servi-lo. O Ap\u00f3stolo sentiu grande consola\u00e7\u00e3o por uma t\u00e3o terna caridade e, escrevendo a Tim\u00f3teo, faz muitos elogios a ele e ora a Deus por ele.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cQue Deus\u201d, lhe escreve, \u201ctenha miseric\u00f3rdia da fam\u00edlia de On\u00e9siforo, que muitas vezes me confortou e n\u00e3o se envergonhou de minhas correntes; ao contr\u00e1rio, vindo a Roma, me procurou com solicitude e me encontrou. O Senhor lhe conceda encontrar miseric\u00f3rdia diante dele naquele dia. E voc\u00ea sabe bem quantos servi\u00e7os me prestou em \u00c9feso\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Entretanto, Nero voltou de Corinto todo irritado porque a empreitada do istmo n\u00e3o havia sido bem-sucedida. Ele se p\u00f4s com ainda mais raiva a perseguir os crist\u00e3os; e seu primeiro ato foi fazer executar a senten\u00e7a de morte contra S\u00e3o Paulo. Antes de tudo, foi espancado com varas, e ainda se mostra em Roma a coluna \u00e0 qual estava atado quando sofreu aquela flagela\u00e7\u00e3o. \u00c9 verdade que com isso perdia o privil\u00e9gio de cidadania romana, mas adquiria o direito de cidad\u00e3o do c\u00e9u; por isso sentia a maior alegria em se assemelhar ao seu divino Mestre. Esta flagela\u00e7\u00e3o era o prel\u00fadio de ser depois decapitado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo foi condenado \u00e0 morte porque havia ultrajado os deuses; por este \u00fanico t\u00edtulo era permitido cortar a cabe\u00e7a de um cidad\u00e3o romano. Que bela culpa! Ser considerado \u00edmpio porque, em vez de adorar pedras e dem\u00f4nios, se quer adorar o \u00fanico Deus verdadeiro e seu Filho Jesus Cristo. Deus j\u00e1 lhe havia revelado o dia e a hora de sua morte; por isso sentia uma alegria j\u00e1 toda celestial. Exclamava: <em>Cupio dissolvi et esse cum Christo<\/em> (Desejo ser solto deste corpo para estar com Cristo). Finalmente, uma turba de capangas o tirou da pris\u00e3o e o conduziu para fora de Roma pela porta que se chama Ostiense, fazendo-o caminhar em dire\u00e7\u00e3o a um p\u00e2ntano ao longo do Tibre; chegaram a um lugar chamado \u00c1guas S\u00e1lvias, cerca de tr\u00eas milhas distante de Roma.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Contam que uma matrona, chamada Plautila, esposa de um senador romano, vendo o santo Ap\u00f3stolo maltratado no corpo e conduzido \u00e0 morte, come\u00e7ou a chorar copiosamente. S\u00e3o Paulo a consolou dizendo: \u201cN\u00e3o chore, deixarei uma lembran\u00e7a minha que ser\u00e1 muito querida para voc\u00ea. D\u00ea-me seu v\u00e9u\u201d. Ela lhe deu. Com este v\u00e9u, vendaram os olhos ao santo antes de ser decapitado. E, por ordem do santo, uma pessoa piedosa o restituiu ensanguentado a Plautila, que o conservou como rel\u00edquia.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Chegando Paulo ao lugar do supl\u00edcio, dobrou os joelhos e, com o rosto voltado para o c\u00e9u, recomendou a Deus sua alma e a Igreja; depois inclinou a cabe\u00e7a e recebeu o golpe da espada que lhe cortou a cabe\u00e7a do tronco. Sua alma voou para encontrar aquele Jesus que h\u00e1 tanto tempo desejava ver.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os anjos o acolheram e o introduziram entre imenso j\u00fabilo para participar da felicidade do c\u00e9u. \u00c9 certo que o primeiro a quem ele deve agradecer foi Santo Est\u00eav\u00e3o, a quem, depois de Jesus, era devedor de sua convers\u00e3o e de sua salva\u00e7\u00e3o.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599984\">CAP\u00cdTULO XXXII. Sepultamento de S\u00e3o Paulo \u2014 Maravilhas realizadas junto ao seu t\u00famulo \u2014 Bas\u00edlica a ele dedicada<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>No dia em que S\u00e3o Paulo foi executado fora de Roma, nas \u00c1guas S\u00e1lvias, foi o mesmo em que S\u00e3o Pedro obteve a palma do mart\u00edrio aos p\u00e9s do monte Vaticano, no dia 29 de junho, tendo S\u00e3o Paulo 65 anos de idade. Bar\u00f4nio, que \u00e9 chamado de pai da hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica, conta como da cabe\u00e7a de S\u00e3o Paulo, assim que foi cortada do corpo, jorrou leite em vez de sangue. Dois soldados, ao ver tal milagre, se converteram a Jesus Cristo. Sua cabe\u00e7a, ent\u00e3o, ao cair ao ch\u00e3o, deu tr\u00eas saltos, e onde tocou o solo brotaram tr\u00eas fontes de \u00e1gua viva. Para conservar a mem\u00f3ria desse glorioso acontecimento, foi erguida uma igreja cujas paredes cercam essas fontes, que ainda hoje s\u00e3o chamadas Fontes de S\u00e3o Paulo (cf. F. Bar\u00f4nio, ano 69-70).<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Muitos viajantes (cf. Ces\u00e1rio e Tillemont) foram ao local para serem testemunhas desse fato e nos asseguram que aquelas tr\u00eas fontes que viram e provaram t\u00eam um sabor como de leite. Naqueles primeiros tempos, havia uma grande solicitude dos crist\u00e3os para recolher e sepultar os corpos daqueles que davam a vida pela f\u00e9. Duas mulheres, chamadas uma Basilissa e a outra Anast\u00e1cia, estudaram a maneira e o tempo para recuperar o cad\u00e1ver do santo Ap\u00f3stolo e, \u00e0 noite, o sepultaram a duas milhas do local onde ele havia sofrido o mart\u00edrio, a uma milha de Roma. Nero, atrav\u00e9s de seus espi\u00f5es, soube da obra daquelas piedosas mulheres e isso foi suficiente para que as fizesse morrer, cortando-lhes as m\u00e3os, os p\u00e9s e depois a cabe\u00e7a.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora os Gentios soubessem que o corpo de Paulo havia sido sepultado pelos fi\u00e9is, nunca puderam saber o local exato. Isso era conhecido apenas pelos crist\u00e3os, que o mantinham em segredo como o tesouro mais precioso e lhe prestavam a maior honra poss\u00edvel. Mas a estima que os fi\u00e9is tinham por aquelas rel\u00edquias chegou a tal ponto que alguns mercadores do Oriente, que vieram a Roma, tentaram roub\u00e1-las e lev\u00e1-las para seu pa\u00eds. Secretamente, desenterraram-nas nas catacumbas, a duas milhas de Roma, esperando o momento prop\u00edcio para transport\u00e1-las. Mas no ato de realizar seu plano, levantou-se uma horr\u00edvel tempestade com rel\u00e2mpagos e trov\u00f5es terr\u00edveis, de modo que foram for\u00e7ados a abandonar a empreitada. Sabendo disso, os crist\u00e3os de Roma foram buscar o corpo de Paulo e o trouxeram de volta ao seu primeiro local ao longo da via Ostiense.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Na \u00e9poca de Constantino, o Grande, foi edificada uma bas\u00edlica magn\u00edfica em honra e sobre o sepulcro do nosso Ap\u00f3stolo. Em todos os tempos, reis e imperadores, esquecendo-se de sua grandeza, cheios de temor e venera\u00e7\u00e3o, foram a esse sepulcro para beijar a caixa que guarda os ossos do santo Ap\u00f3stolo.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Os pr\u00f3prios Romanos Pont\u00edfices n\u00e3o se aproximavam, nem se aproximam, do local de seu sepultamento se n\u00e3o cheios de venera\u00e7\u00e3o, e nunca permitiram que algu\u00e9m retirasse uma part\u00edcula daqueles ossos vener\u00e1veis. V\u00e1rios pr\u00edncipes e reis fizeram insistentes pedidos, mas nenhum Papa julgou poder atend\u00ea-los. Essa grande rever\u00eancia era muito aumentada pelos cont\u00ednuos milagres que se realizavam junto a esse sepulcro. S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno relata muitos e assegura que ningu\u00e9m entrava naquele templo para rezar sem tremer. Aqueles que ousassem profan\u00e1-lo ou tentassem levar at\u00e9 mesmo uma pequena part\u00edcula eram punidos por Deus com manifesta vingan\u00e7a.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Greg\u00f3rio XI foi o primeiro que, em uma calamidade p\u00fablica, quase for\u00e7ado pelas ora\u00e7\u00f5es e insist\u00eancias do povo de Roma, tomou a cabe\u00e7a do Santo, levantou-a bem alto, mostrou-a \u00e0 multid\u00e3o que chorava de ternura e devo\u00e7\u00e3o e, imediatamente, a recolocou de onde a havia retirado.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Agora, a cabe\u00e7a deste grande Ap\u00f3stolo est\u00e1 na igreja de S\u00e3o Jo\u00e3o de Latr\u00e3o; o resto do corpo sempre foi conservado na bas\u00edlica de S\u00e3o Paulo fora dos muros, ao longo da via Ostiense, a uma milha de Roma.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; At\u00e9 suas correntes foram objeto de devo\u00e7\u00e3o entre os fi\u00e9is crist\u00e3os. Pelo contato daqueles ferros gloriosos se realizaram muitos milagres, e as mais importantes personalidades do mundo sempre consideraram uma rel\u00edquia preciosa poder ter um pouco de limalha delas.<br><br><\/p>\n\n\n\n<h3 class=\"wp-block-heading\"><span><i class=\"fas fa-arrow-right\"><\/i><\/span><a id=\"_Toc188599985\">CAP\u00cdTULO XXXIII. Retrato de S\u00e3o Paulo \u2014 Imagem de seu esp\u00edrito \u2014 Conclus\u00e3o<\/a> <\/h3>\n\n\n\n<p><strong>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; <\/strong>Para que permane\u00e7a mais bem impressa a devo\u00e7\u00e3o a este pr\u00edncipe dos Ap\u00f3stolos, \u00e9 \u00fatil dar uma ideia de sua apar\u00eancia f\u00edsica e de seu esp\u00edrito.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Paulo n\u00e3o tinha uma apar\u00eancia muito atraente, como ele mesmo afirma. Era de estatura pequena, de constitui\u00e7\u00e3o forte e robusta, e deu prova disso com as longas e graves fadigas que suportou em sua carreira, sem nunca ter estado doente, exceto pelos males causados pelas correntes e pela pris\u00e3o. Somente no final de seus dias caminhava um pouco curvado. Tinha o rosto claro, a cabe\u00e7a pequena e quase totalmente calva, o que denotava um car\u00e1ter sangu\u00edneo e ardente. Tinha a testa ampla, sobrancelhas negras e baixas, nariz aquilino, barba longa e espessa. Mas seus olhos eram extremamente vivos e brilhantes, com um ar doce que temperava o \u00edmpeto de seus olhares. Este \u00e9 o retrato de sua apar\u00eancia f\u00edsica.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas o que dizer de seu esp\u00edrito? Conhecemos isso por seus pr\u00f3prios escritos. Tinha um intelecto agudo e sublime, \u00e2nimo nobre, cora\u00e7\u00e3o generoso. Tal era sua coragem e firmeza que extra\u00eda for\u00e7a e vigor das pr\u00f3prias dificuldades e perigos. Era muito experiente na ci\u00eancia da religi\u00e3o judaica. Era profundamente erudito nas Sagradas Escrituras e tal ci\u00eancia, ajudada pelos esclarecimentos do Esp\u00edrito Santo e pela caridade de Jesus Cristo, o tornou aquele grande Ap\u00f3stolo que foi apelidado de Doutor dos Gentios. S\u00e3o Jo\u00e3o Cris\u00f3stomo, devot\u00edssimo de nosso santo, desejava grandemente poder ver S\u00e3o Paulo do p\u00falpito, porque, dizia, os maiores oradores da antiguidade pareceriam l\u00e2nguidos e frios em compara\u00e7\u00e3o a ele. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio dizer mais sobre suas virtudes, pois o que temos exposto at\u00e9 agora n\u00e3o \u00e9 outra coisa sen\u00e3o uma tecelagem das virtudes heroicas que ele fez brilhar em todo lugar, em todo tempo e com todo tipo de pessoas.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Para concluir o que foi dito sobre este grande santo, merece ser notada uma virtude que ele fez brilhar acima de todas as outras: a caridade para com o pr\u00f3ximo e o amor a Deus. Ele desafiava todas as criaturas a separ\u00e1-lo do amor de seu divino Mestre. \u201cQuem me separar\u00e1\u201d, exclamava, \u201cdo amor de Jesus Cristo? Talvez as tribula\u00e7\u00f5es ou as ang\u00fastias, ou a fome, ou a nudez, ou os perigos, ou as persegui\u00e7\u00f5es? N\u00e3o, certamente. Estou persuadido de que nem a morte nem a vida, nem anjos nem principados, nem pot\u00eancias, nem coisas presentes nem futuras, nem qualquer criatura poder\u00e1 nos separar do amor de Deus, que est\u00e1 em Cristo Jesus nosso Senhor\u201d. Este \u00e9 o car\u00e1ter do verdadeiro crist\u00e3o: estar disposto a perder tudo, a sofrer tudo, em vez de dizer ou fazer a menor coisa contr\u00e1ria ao amor de Deus.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; S\u00e3o Paulo passou mais de trinta anos de sua vida como inimigo de Jesus Cristo; mas assim que foi iluminado por sua gra\u00e7a celeste, entregou-se totalmente a ele, e nunca mais se separou dele. Depois, empregou mais de trinta e seis anos nas mais austeras penit\u00eancias, nas mais duras fadigas, e isso para glorificar aquele Jesus que havia perseguido.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Crist\u00e3o leitor, talvez voc\u00ea que l\u00ea e eu que escrevo tenhamos passado uma parte da vida ofendendo ao Senhor! Mas n\u00e3o percamos a coragem: ainda h\u00e1 tempo para n\u00f3s; a miseric\u00f3rdia de Deus nos espera.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas n\u00e3o adiemos a convers\u00e3o, porque se esperarmos at\u00e9 amanh\u00e3 para resolver as coisas da alma, corremos o grave risco de n\u00e3o ter mais tempo. S\u00e3o Paulo trabalhou trinta e seis anos a servi\u00e7o do Senhor; agora, h\u00e1 1800 anos, goza da imensa gl\u00f3ria do c\u00e9u e a gozar\u00e1 por todos os s\u00e9culos. A mesma felicidade est\u00e1 preparada tamb\u00e9m para n\u00f3s, desde que nos entreguemos a Deus enquanto temos tempo e perseveremos no santo servi\u00e7o at\u00e9 o fim. \u00c9 nada o que se sofre neste mundo, mas \u00e9 eterno o que gozaremos no outro. Assim nos assegura o pr\u00f3prio S\u00e3o Paulo.<br><br><br><em>Terceira edi\u00e7\u00e3o<br>Livraria Salesiana Editora<br>1899<br>Propriedade do editor<br>S. Pier d\u2019Arena, Escola Tipogr\u00e1fica Salesiana<br>Col\u00e9gio S\u00e3o Vicente de Paulo<br>(N. 1267 \u2014 M)<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O momento culminante do Ano Jubilar para cada crente \u00e9 a passagem pela Porta Santa,&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":18,"featured_media":34693,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":31,"footnotes":""},"categories":[161],"tags":[2552,2565,2557,2577,2570,1833,2189,2227,2228],"class_list":["post-34705","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-boa-imprensa","tag-biblia","tag-caridade","tag-deus","tag-dom-bosco","tag-igreja","tag-indulgencias","tag-jesus","tag-salvacao","tag-santos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34705","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/18"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34705"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34705\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/34693"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34705"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34705"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34705"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}