{"id":31265,"date":"2024-12-19T10:52:19","date_gmt":"2024-12-19T10:52:19","guid":{"rendered":"https:\/\/exciting-knuth.178-32-140-152.plesk.page\/?p=31265"},"modified":"2024-12-19T10:53:28","modified_gmt":"2024-12-19T10:53:28","slug":"sao-francisco-de-sales-acompanhante-pessoal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/nossos-santos\/sao-francisco-de-sales-acompanhante-pessoal\/","title":{"rendered":"S\u00e3o Francisco de Sales, acompanhante pessoal"},"content":{"rendered":"\n<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cMeu esp\u00edrito sempre acompanha o seu\u201d, escreveu um dia Francisco de Sales a Joana de Chantal, em um momento em que ela se sentia assaltada pela escurid\u00e3o e pelas tenta\u00e7\u00f5es. Ele acrescentou: \u201cCaminhe, portanto, minha querida filha, e avance com mau tempo e durante a noite. Seja corajosa, minha querida filha; com a ajuda de Deus, faremos muito\u201d. Acompanhamento, dire\u00e7\u00e3o espiritual, orienta\u00e7\u00e3o de almas, dire\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, assist\u00eancia espiritual: essas s\u00e3o f\u00f3rmulas mais ou menos sin\u00f4nimas, pois designam essa forma particular de educa\u00e7\u00e3o e forma\u00e7\u00e3o exercida no \u00e2mbito espiritual da consci\u00eancia individual.<br><br><strong>Forma\u00e7\u00e3o de um futuro acompanhante<\/strong><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A forma\u00e7\u00e3o que recebeu quando jovem preparou Francisco de Sales para se tornar, por sua vez, um diretor espiritual. Como aluno dos jesu\u00edtas em Paris, ele provavelmente teve um pai espiritual cujo nome n\u00e3o conhecemos. Em P\u00e1dua, Ant\u00f4nio Possevino havia sido seu diretor; com esse famoso jesu\u00edta, Francisco se felicitaria mais tarde por ter sido um de seus \u201cfilhos espirituais\u201d. Durante seu caminho atormentado at\u00e9 o estado clerical, seu confidente e apoio foi Am\u00e9 Bouvard, um padre amigo da fam\u00edlia, que o preparou depois para as ordena\u00e7\u00f5es.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; No in\u00edcio de seu episcopado, ele confiou o cuidado de sua vida espiritual ao P. Fourier, reitor dos jesu\u00edtas de Chamb\u00e9ry, \u201cum grande religioso, erudito e devoto\u201d, com quem estabeleceu \u201cuma amizade muito especial\u201d e que estava muito pr\u00f3ximo dele \u201ccom seus conselhos e advert\u00eancias\u201d. Durante v\u00e1rios anos, ele se confessou regularmente com o penitenci\u00e1rio da catedral, a quem chamava de \u201cquerido irm\u00e3o e amigo perfeito\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Sua estada em Paris em 1602 influenciou profundamente o desenvolvimento de seus dons como diretor de almas. Enviado pelo bispo para negociar alguns assuntos diocesanos na corte, ele teve pouco sucesso diplom\u00e1tico, mas essa visita prolongada \u00e0 capital francesa permitiu que ele estabelecesse contatos com a elite espiritual que se reunia junto \u00e0 Senhora Acarie, uma mulher excepcional, m\u00edstica e anfitri\u00e3 ao mesmo tempo. Ele se tornou seu confessor, observou seus \u00eaxtases e a ouviu sem questionar. \u201cOh! que erro eu cometi\u201d, ele diria mais tarde, \u201cpor n\u00e3o ter aproveitado suficientemente sua sant\u00edssima companhia! Ela de fato abriu sua alma para mim livremente, mas o extremo respeito que eu tinha por ela fez com que eu n\u00e3o ousasse me informar sobre a menor coisa\u201d.<br><br><strong>Uma atividade inc\u00f4moda \u201cque tranquiliza e anima\u201d<\/strong><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Ajudar cada indiv\u00edduo, acompanh\u00e1-lo pessoalmente, aconselh\u00e1-lo, possivelmente corrigir seus erros, encoraj\u00e1-lo, tudo isso requer tempo, paci\u00eancia e um esfor\u00e7o constante de discernimento. O autor de <em>Filoteia<\/em> fala por experi\u00eancia pr\u00f3pria, quando afirma no pref\u00e1cio:<br><br>\u00c9 penoso, confesso-o abertamente, conduzir as almas em particular, mas esse trabalho n\u00e3o deixa de ter as suas consola\u00e7\u00f5es. Os ceifadores nunca est\u00e3o t\u00e3o satisfeitos como quando t\u00eam muito que ceifar. \u00c9 um trabalho que alivia e fortifica o cora\u00e7\u00e3o.<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Conhecemos essa importante \u00e1rea de seu trabalho de forma\u00e7\u00e3o especialmente por meio de sua correspond\u00eancia, mas \u00e9 preciso ressaltar que a dire\u00e7\u00e3o espiritual n\u00e3o \u00e9 feita apenas por escrito. Os encontros pessoais e as confiss\u00f5es individuais fazem parte dela, embora seja necess\u00e1rio distingui-los adequadamente. Em 1603, ele conheceu o Duque de Bellegarde, uma grande figura do reino e um grande pecador, que, alguns anos depois, pediu-lhe que o guiasse no caminho da convers\u00e3o. A Quaresma que ele pregou em Dijon no ano seguinte foi um ponto de virada em sua \u201ccarreira\u201d como diretor espiritual, porque ele conheceu Joana Fr\u00e9myot, vi\u00fava do Bar\u00e3o de Chantal.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A partir de 1605, a visita sistem\u00e1tica de sua vasta diocese o colocou em contato com um n\u00famero infinito de pessoas de todas as condi\u00e7\u00f5es, principalmente camponeses e montanheses, a maioria dos quais era analfabeta e n\u00e3o nos deixou nenhuma correspond\u00eancia. Pregando a Quaresma em Annecy, em 1607, ele encontrou em suas \u201credes sagradas\u201d uma senhora de 21 anos, \u201cmas toda de ouro\u201d, chamada Lu\u00edsa Du Chastel, que havia se casado com o primo do bispo, Henrique de Charmoisy. As cartas de orienta\u00e7\u00e3o espiritual que Francisco enviou \u00e0 Senhora de Charmoisy serviriam como material b\u00e1sico para a elabora\u00e7\u00e3o de sua futura obra, a <em>Filoteia<\/em>.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; As prega\u00e7\u00f5es em Grenoble, em 1616, 1617 e 1618 trouxeram-lhe um n\u00famero consider\u00e1vel de filhas e filhos espirituais que, depois de ouvi-lo na c\u00e1tedra, procurariam contat\u00e1-lo de perto. Novas Filoteias o acompanhar\u00e3o em sua \u00faltima viagem a Paris, em 1618-1619, onde fez parte da delega\u00e7\u00e3o da Saboia que estava negociando o casamento do Pr\u00edncipe do Piemonte, V\u00edtor Amadeu, com Cristina de Fran\u00e7a, irm\u00e3 de Lu\u00eds XIII. Ap\u00f3s o casamento principesco, Cristina o escolheu como seu confessor e \u201cgrande capel\u00e3o\u201d.<br><br><strong>O diretor \u00e9 pai, irm\u00e3o, amigo<\/strong><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quando se dirige \u00e0s pessoas orientadas por ele, Francisco de Sales faz uso abundante, para n\u00e3o dizer excessivo, de acordo com o costume da \u00e9poca, de t\u00edtulos e apela\u00e7\u00f5es tirados da vida familiar e social, como <em>pai, m\u00e3e, irm\u00e3o, irm\u00e3, filho, filha, tio, tia, sobrinha, padrinho, madrinha ou servo<\/em>. O t\u00edtulo de pai significava autoridade e, ao mesmo tempo, amor e confian\u00e7a. O pai \u201cauxilia\u201d o filho e a filha por meio de conselhos, usando sabedoria, prud\u00eancia e caridade. Como um pai espiritual, o diretor \u00e9 aquele que, em certos casos, diz: \u201cEu quero!\u201d Francisco de Sales sabia como usar essa linguagem, mas somente em circunst\u00e2ncias muito especiais, como quando ele ordena \u00e0 baronesa que n\u00e3o evite um encontro com o assassino de seu marido:<br><br>A senhora me perguntou como eu queria que se comportasse no encontro com aquele que matou o senhor seu marido. Eu respondo em ordem. N\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio que a senhora mesma procure a data e a ocasi\u00e3o. No entanto, se isso ocorrer, quero que o receba com um cora\u00e7\u00e3o gentil, bondoso e compassivo.<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Certa vez, ele escreveu a uma mulher angustiada: \u201cEu lhe ordeno em nome de Deus\u201d, mas isso foi para remover os escr\u00fapulos dela. Sua autoridade sempre permaneceu humilde, boa, at\u00e9 mesmo terna; seu papel em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas que ele dirigia, especificou no pref\u00e1cio da <em>Filoteia<\/em>, consistia em uma \u201cassist\u00eancia\u201d especial, um termo que aparece duas vezes nesse contexto. A intimidade que se estabeleceu entre ele e o duque de Bellegarde era tal que Francisco de Sales p\u00f4de responder ao pedido do duque, usando, n\u00e3o sem hesita\u00e7\u00e3o, os ep\u00edtetos \u201cmeu filho\u201d ou \u201csenhor meu filho\u201d, sabendo muito bem que o duque era mais velho do que ele. A implica\u00e7\u00e3o pedag\u00f3gica da dire\u00e7\u00e3o espiritual \u00e9 enfatizada por outra imagem significativa. Depois de relembrar a r\u00e1pida corrida da tigresa para salvar seu filhote, movida pelo poder do amor natural, ele continua dizendo:<br><br>E com quanto mais boa vontade um cora\u00e7\u00e3o paternal cuidar\u00e1 de uma alma que encontrou cheia de desejo de santa perfei\u00e7\u00e3o, carregando-a em seu colo, como uma m\u00e3e que cuida de seu filho, sem sentir o peso do fardo.<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas que dirige, mulheres e homens, Francisco de Sales tamb\u00e9m se comporta como um irm\u00e3o, e \u00e9 nessa qualidade que muitas vezes se apresenta \u00e0s pessoas que recorrem a ele. Ant\u00f4nio Favre \u00e9 constantemente chamado de \u201cmeu irm\u00e3o\u201d. No in\u00edcio, ele se dirige \u00e0 Baronesa de Chantal usando a denomina\u00e7\u00e3o de \u201csenhora\u201d (<em>madame<\/em>), depois muda para \u201cirm\u00e3\u201d, \u201cnome com o qual os ap\u00f3stolos e os primeiros crist\u00e3os expressavam seu amor m\u00fatuo\u201d. Um irm\u00e3o n\u00e3o d\u00e1 ordens; aconselha e pratica a corre\u00e7\u00e3o fraterna.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Mas o que melhor caracteriza o estilo salesiano \u00e9 a atmosfera amig\u00e1vel e rec\u00edproca que une o diretor e a pessoa dirigida. Como bem diz Andr\u00e9 Ravier, \u201cn\u00e3o h\u00e1 verdadeira dire\u00e7\u00e3o espiritual para ele, se n\u00e3o houver amizade, isto \u00e9, troca, comunica\u00e7\u00e3o, influ\u00eancia m\u00fatua\u201d. N\u00e3o \u00e9 surpreendente que Francisco de Sales ame seus referentes com um amor que lhes testemunha de mil maneiras; \u00e9 surpreendente, ao contr\u00e1rio, que ele deseje ser amado por eles igualmente. Com Joana de Chantal, a reciprocidade se tornou t\u00e3o intensa a ponto de, \u00e0s vezes, transformar o \u201cmeu\u201d e o \u201cseu\u201d em \u201cnosso\u201d: \u201cN\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel para mim distinguir <em>o meu<\/em> e <em>o seu<\/em>, pois o que nos diz respeito \u00e9 <em>nosso<\/em>\u201d.<br><br><strong>Obedi\u00eancia ao diretor, mas em um clima de confian\u00e7a e liberdade<\/strong><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A obedi\u00eancia ao diretor espiritual \u00e9 uma garantia contra os excessos, as ilus\u00f5es e os erros cometidos, na maioria das vezes, em benef\u00edcio pr\u00f3prio; ela mant\u00e9m uma atitude prudente e s\u00e1bia. O autor da <em>Filoteia<\/em> a considera necess\u00e1ria e ben\u00e9fica, sem refor\u00e7\u00e1-la; \u201ca humilde obedi\u00eancia, t\u00e3o recomendada e t\u00e3o praticada por todos os antigos devotos\u201d, faz parte de uma tradi\u00e7\u00e3o. Francisco de Sales a recomenda \u00e0 Baronesa de Chantal com rela\u00e7\u00e3o ao seu primeiro diretor, mas indicando como viv\u00ea-la:<br><br>Louvo muito o respeito religioso que sente por seu diretor e exorto-a a preserv\u00e1-lo com muito cuidado; mas tamb\u00e9m devo lhe dizer mais uma palavra. Esse respeito deve, sem d\u00favida, induzi-la a perseverar na conduta santa \u00e0 qual t\u00e3o felizmente se adaptou, mas de modo algum deve impedir ou sufocar a justa liberdade que o Esp\u00edrito de Deus d\u00e1 a quem quer que ele possua.<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em todo caso, o diretor deve possuir tr\u00eas qualidades indispens\u00e1veis: \u201cEle deve ser cheio de caridade, conhecimento e prud\u00eancia: se um desses tr\u00eas faltar, h\u00e1 perigo\u201d (<em>I<\/em> I 4). Esse n\u00e3o parece ser o caso do primeiro diretor da Senhora de Chantal. De acordo com sua bi\u00f3grafa, a Madre de Chaugy, ele \u201ca prendeu \u00e0 sua dire\u00e7\u00e3o\u201d, intimando-a a que nunca pensasse em mud\u00e1-la; eram \u201cla\u00e7os inadequados que mantinham sua alma presa, enclausurada e sem liberdade\u201d. Quando, depois de conhecer Francisco de Sales, ela quis mudar seu diretor, mergulhou em um mar de escr\u00fapulos. Para tranquiliz\u00e1-la, ele lhe mostrou outro caminho:<br><br>Aqui est\u00e1 a regra geral de nossa obedi\u00eancia, escrita em letras bem grandes: \u00c9 PRECISO FAZER TUDO POR AMOR, E NADA POR FOR\u00c7A; DEVE-SE AMAR A OBEDI\u00caNCIA MAIS DO QUE TEMER A DESOBEDI\u00caNCIA. Deixo-lhe o esp\u00edrito de liberdade: n\u00e3o aquele que exclui a obedi\u00eancia, pois ent\u00e3o seria preciso falar da liberdade da carne, mas aquele que exclui a compuls\u00e3o, o escr\u00fapulo e a pressa.<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O caminho salesiano se fundamenta no respeito e na obedi\u00eancia devidos ao diretor, sem d\u00favida, mas sobretudo na confian\u00e7a: \u201cTenha a maior confian\u00e7a nele, unida a uma sagrada rever\u00eancia, de modo que a rever\u00eancia n\u00e3o diminua a confian\u00e7a e a confian\u00e7a n\u00e3o impe\u00e7a a rever\u00eancia; confie nele com o respeito de uma filha para com o pai, respeite-o com a confian\u00e7a de uma filha para com a m\u00e3e\u201d. A confian\u00e7a inspira simplicidade e liberdade, o que favorece a comunica\u00e7\u00e3o entre duas pessoas, especialmente quando a pessoa que est\u00e1 sendo orientada \u00e9 uma jovem novi\u00e7a com medo:<br><br>Eu lhe direi, em primeiro lugar, que n\u00e3o deve usar, em rela\u00e7\u00e3o a mim, palavras de cerim\u00f4nia ou desculpas, pois, pela vontade de Deus, sinto pela senhora toda a afei\u00e7\u00e3o que poderia desejar; e eu n\u00e3o saberia como me proibir de senti-la. Amo profundamente seu esp\u00edrito, porque acho que Deus assim o deseja, e o amo com ternura, porque o vejo ainda fraco e jovem demais. Escreva-me, portanto, com toda a confian\u00e7a e liberdade, e pe\u00e7a tudo o que parecer \u00fatil para seu bem. E que isso seja dito de uma vez por todas.<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Como se deve escrever para o bispo de Genebra? Escreva-me com liberdade, sinceridade e simplicidade\u201d, disse a uma das almas dirigidas por ele. \u201cSobre esse ponto, n\u00e3o tenho mais nada a dizer, exceto que a senhora n\u00e3o deve colocar <em>Monsenhor<\/em> na carta, nem sozinho nem acompanhado de outras palavras: basta colocar <em>Senhor<\/em>, e a senhora sabe o porqu\u00ea. Sou um homem sem cerim\u00f4nias e a amo e honro com todo o meu cora\u00e7\u00e3o\u201d. Esse refr\u00e3o retorna com frequ\u00eancia no in\u00edcio de um novo relacionamento epistolar. O afeto, quando \u00e9 sincero e especialmente quando tem a sorte de ser correspondido, autoriza a liberdade e a m\u00e1xima franqueza. \u201cEscreva-me sempre que tiver vontade\u201d, disse ele a outra mulher, \u201ccom total confian\u00e7a e sem cerim\u00f4nia; pois \u00e9 assim que devemos nos comportar nesse tipo de amizade\u201d. A um de seus correspondentes, ele pedia: \u201cN\u00e3o me pe\u00e7a desculpas por escrever bem ou mal, porque o senhor n\u00e3o me deve nenhuma cerim\u00f4nia al\u00e9m da de me amar\u201d. Isso significa falar \u201cde cora\u00e7\u00e3o a cora\u00e7\u00e3o\u201d. O amor a Deus, assim como o amor ao pr\u00f3ximo, faz com que sigamos em frente \u201cde uma maneira boa, sem muita confus\u00e3o\u201d porque, como disse, \u201co verdadeiro amor n\u00e3o precisa de um m\u00e9todo\u201d. A chave para isso \u00e9 o amor, pois \u201co amor torna os amantes iguais\u201d, ou seja, o amor opera uma transforma\u00e7\u00e3o nas pessoas que amamos, tornando-as iguais, semelhantes e no mesmo n\u00edvel.<br><br><strong>\u201cToda flor requer cuidados especiais\u201d.<\/strong><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Embora o objetivo da dire\u00e7\u00e3o espiritual seja o mesmo para todos, ou seja, o aperfei\u00e7oamento da vida crist\u00e3, as pessoas n\u00e3o s\u00e3o todas iguais, e cabe \u00e0 arte do diretor saber indicar o caminho apropriado para que cada pessoa alcance o objetivo comum. Homem de seu tempo, ciente de que as estratifica\u00e7\u00f5es sociais eram uma realidade, Francisco de Sales conhecia bem a diferen\u00e7a entre o cavalheiro, o artes\u00e3o, o camareiro, o pr\u00edncipe, a vi\u00fava, a mo\u00e7a e a mulher casada. Cada um, de fato, deveria produzir frutos \u201cde acordo com sua qualifica\u00e7\u00e3o e profiss\u00e3o\u201d. Mas o senso de pertencer a um grupo social espec\u00edfico ia bem, para ele, com a considera\u00e7\u00e3o das peculiaridades do indiv\u00edduo: \u00e9 preciso \u201cadaptar a pr\u00e1tica da devo\u00e7\u00e3o \u00e0s for\u00e7as, atividades e deveres de cada um em particular\u201d. Ele tamb\u00e9m acreditava que \u201cos meios para alcan\u00e7ar a perfei\u00e7\u00e3o s\u00e3o diferentes de acordo com a diversidade de voca\u00e7\u00f5es\u201d.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A diversidade de temperamentos \u00e9 um fato que deve ser levado em conta. \u00c9 poss\u00edvel detectar em Francisco de Sales um \u201ctalento psicol\u00f3gico\u201d que antecede as descobertas modernas. A percep\u00e7\u00e3o das caracter\u00edsticas \u00fanicas de cada pessoa \u00e9 muito acentuada nele e \u00e9 a raz\u00e3o pela qual cada assunto merece aten\u00e7\u00e3o especial do pai espiritual: \u201cEm um jardim, cada erva e cada flor requerem cuidados especiais\u201d. Como um pai ou uma m\u00e3e com seus filhos, ele se adapta \u00e0 individualidade, ao temperamento e \u00e0s situa\u00e7\u00f5es particulares de cada indiv\u00edduo. A uma pessoa, impaciente consigo mesma, decepcionada por n\u00e3o estar progredindo como gostaria, ele recomenda de amar a si mesma. \u00c0 outra, atra\u00edda pela vida religiosa, mas dotada de forte individualidade, ele aconselha um estilo de vida que leve em conta essas duas tend\u00eancias. A uma terceira que oscila entre a exalta\u00e7\u00e3o e a depress\u00e3o, ele sugere a paz do cora\u00e7\u00e3o por meio da luta contra as imagina\u00e7\u00f5es angustiantes. Para uma mulher em desespero por causa do car\u00e1ter \u201cperdul\u00e1rio e fr\u00edvolo\u201d do marido, o diretor ter\u00e1 de aconselhar \u201cos meios certos e a modera\u00e7\u00e3o\u201d e os meios para superar sua impaci\u00eancia. Outra, mulher consciente e equilibrada, com um car\u00e1ter \u201c\u00edntegro\u201d, cheia de ansiedades e prova\u00e7\u00f5es, precisar\u00e1 de \u201csanta do\u00e7ura e tranquilidade\u201d. Outra ainda se angustia com o pensamento da morte e fica deprimida com frequ\u00eancia: seu diretor lhe inspira coragem. H\u00e1 almas que t\u00eam mil desejos de perfei\u00e7\u00e3o; \u00e9 necess\u00e1rio acalmar sua impaci\u00eancia, fruto de seu amor-pr\u00f3prio. A c\u00e9lebre Ang\u00e9lica Arnauld, abadessa de Port-Royal, quer reformar seu mosteiro com rigidez: \u00e9 preciso recomendar-lhe flexibilidade e humildade.<br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Quanto ao duque de Bellegarde, que havia se metido em todas as intrigas pol\u00edticas e amorosas da corte, o bispo o encoraja a adquirir \u201cuma devo\u00e7\u00e3o masculina, corajosa e invari\u00e1vel para servir de espelho a muitos, exaltando a verdade do amor celestial, digno de reparar as faltas passadas\u201d. Em 1613, ele redigiu uma <em>Pr\u00f3-mem\u00f3ria para fazer uma boa confiss\u00e3o<\/em>, contendo oito \u201cadvert\u00eancias\u201d gerais, uma descri\u00e7\u00e3o detalhada \u201cdos pecados contra os dez mandamentos\u201d, um \u201cexame sobre os pecados capitais\u201d, os \u201cpecados cometidos contra os preceitos da Igreja\u201d, um \u201cmeio de discernir o pecado mortal do pecado venial\u201d e, finalmente, \u201co meio de afastar o grande do pecado da carne\u201d.<br><br><strong>M\u00e9todo \u201cregressivo\u201d<\/strong><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; A arte da dire\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia muitas vezes exige que o diretor d\u00ea um passo atr\u00e1s e deixe a iniciativa para o destinat\u00e1rio, ou para Deus, especialmente quando se trata de fazer escolhas que necessitam uma decis\u00e3o exigente. \u201cN\u00e3o leve minhas palavras muito ao p\u00e9 da letra\u201d, escreveu ele \u00e0 Baronesa de Chantal, \u201cn\u00e3o quero que elas lhe sejam uma imposi\u00e7\u00e3o, mas que mantenha a liberdade de fazer o que achar melhor\u201d. Ele escreveu, por exemplo, para uma mulher que era muito apegada \u00e0s \u201cvaidades\u201d:<br><br>Quando a senhora partiu, veio-me \u00e0 mente dizer que deveria renunciar ao alm\u00edscar e aos perfumes, mas me contive para seguir meu sistema, que \u00e9 suave e procura aguardar os movimentos que, pouco a pouco, os exerc\u00edcios de piedade tendem a despertar nas almas que se consagram inteiramente \u00e0 bondade divina. Meu esp\u00edrito, de fato, \u00e9 extremamente amigo da simplicidade; e a podadeira com a qual \u00e9 costume cortar os brotos in\u00fateis, eu habitualmente deixo nas m\u00e3os de Deus.<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; O diretor n\u00e3o \u00e9 um d\u00e9spota, mas algu\u00e9m que \u201cguia nossas a\u00e7\u00f5es com seus avisos e conselhos\u201d, como ele diz no in\u00edcio da <em>Filoteia<\/em>. Ele se abst\u00e9m de dar ordens quando escreve para a Senhora de Chantal: \u201cEstes s\u00e3o conselhos bons e adequados para a senhora, mas n\u00e3o ordens\u201d. Ela tamb\u00e9m dir\u00e1, em seu processo de canoniza\u00e7\u00e3o, que \u00e0s vezes se queixava de n\u00e3o ter sido orientada o suficiente com ordens. De fato, o papel do diretor \u00e9 definido pela seguinte resposta de S\u00f3crates a um disc\u00edpulo: \u201cPortanto, terei o cuidado de devolv\u00ea-lo a si mesmo melhor do que \u00e9\u201d. Como sempre declarou \u00e0 Senhora de Chantal, Francisco \u201cse dedicou\u201d, colocou-se a \u201cservi\u00e7o\u201d da \u201csant\u00edssima liberdade crist\u00e3\u201d. Ele luta pela liberdade:<br><br>A senhora ver\u00e1 que falo a verdade e que luto por uma boa causa quando defendo a santa e am\u00e1vel liberdade do esp\u00edrito, que, como sabe, honro de maneira muito especial, desde que seja verdadeira e livre de dissipa\u00e7\u00e3o e libertinagem, que nada mais s\u00e3o do que uma m\u00e1scara de liberdade.<br><br>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; Em 1616, durante um retiro espiritual, Francisco de Sales fez com que a pr\u00f3pria madre de Chantal fizesse um exerc\u00edcio de \u201cdespir-se\u201d, para reduzi-la \u00e0 \u201cador\u00e1vel e santa pureza e nudez das crian\u00e7as\u201d. Havia chegado o momento de ela dar o passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 \u201cautonomia\u201d da pessoa dirigida. Ele a exortou, entre outras coisas, a n\u00e3o \u201caceitar nenhuma ama\u201d e a n\u00e3o continuar dizer-lhe \u2013 especificou \u2013 \u201cque eu sempre serei sua ama\u201d e, em suma, a estar disposta a renunciar \u00e0 dire\u00e7\u00e3o espiritual de Francisco. S\u00f3 Deus \u00e9 suficiente: \u201cN\u00e3o tenha outros bra\u00e7os para carreg\u00e1-lo, a n\u00e3o ser os de Deus, nenhum outro colo para descansar, a n\u00e3o ser o dele e da Provid\u00eancia. [&#8230;] N\u00e3o pense mais na amizade ou na unidade que Deus estabeleceu entre n\u00f3s\u201d. Para a Senhora de Chantal, a li\u00e7\u00e3o \u00e9 dura: \u201cMeu Deus! meu verdadeiro Pai, que cortastes profundamente com vossa navalha! poderei permanecer nesse estado de esp\u00edrito por muito tempo\u201d? Ela agora se v\u00ea \u201cdespojada e nua de tudo o que lhe era mais precioso\u201d. Francisco tamb\u00e9m confessa: \u201cE sim, eu tamb\u00e9m me encontro nu, gra\u00e7as \u00e0quele que morreu nu para nos ensinar a viver nus\u201d. A dire\u00e7\u00e3o espiritual atinge seu \u00e1pice aqui. Depois de uma experi\u00eancia como essa, as cartas espirituais se tornar\u00e3o mais raras e a afei\u00e7\u00e3o ser\u00e1 mais contida em favor de uma unidade totalmente espiritual.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp; \u201cMeu esp\u00edrito sempre acompanha o seu\u201d, escreveu um dia Francisco de Sales a Joana&#8230;<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":31259,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"iawp_total_views":12,"footnotes":""},"categories":[167],"tags":[2559,1749,2557,1821,2228,2025,2625],"class_list":["post-31265","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-nossos-santos","tag-benfeitores","tag-conselhos","tag-deus","tag-graca","tag-santos","tag-virtude","tag-vocacoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31265","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=31265"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/31265\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media\/31259"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=31265"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=31265"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.donbosco.press\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=31265"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}